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quarta-feira, 24 de agosto de 2022

NA TRILHA DO FEMININO: FATO E FAKE NOS DITADOS POPULARES, POR RILNETE MELO

 


N A   T R I L H A   D O   F E M I N I N O|01

FATO E FAKE NOS DITADOS POPULARES 

       

          Eu cresci ouvindo uns ditados populares que, embora ainda não usando o termo “Fake News”, nunca os tive como “Fato” no meu universo feminino. Na cama dessa vã cultura popular, da sabedoria do senso comum, da frase de efeito que tem por finalidade advertir ou aconselhar alguém, eu não deito a minha cabeça. Eis alguns desses famosos discursos proverbiais usados como ferramentas para propagação da misoginia e do preconceito contra a figura feminina, que eu desabono:

           — “Amor de pica bate e fica".

        Sou poeta, gosto de rima, mas essa não bate nas minhas inspirações e inquietações femininas... Acredito que bate no machismo do homem, na sua pretensiosa e fálica relação amorosa ou na cabeça de alguma pessoa insaciável inveterada, pois convenhamos que sexo é gostoso,  dá prazer, é uma necessidade fisiológica,  mas não fica e não sustenta a alma e a ternura feminina. (É Fake!) Para trazer o fato recorro a Nelson Rodrigues quando ele diz:

      “A maior tragédia do homem ocorreu quando ele separou o amor do sexo. A partir de então, o ser humano passou a fazer muito sexo e nenhum amor. Não passamos do desejo, eis a verdade. Todo desejo, como tal, se frustra com a posse. A única coisa que fica além da vida e da morte é o amor”.

         — “Mulher de malandro quanto mais apanha mais se apaixona"

       Um discurso extremamente agressivo e depreciativo! Para mim, trata-se de um provérbio com a pretensão de normalizar a violência doméstica.  Evidencia-se nesse dito popular a absolvição do agressor e a condição subalterna da mulher, que por muitas vezes se condiciona a agressão por condições econômicas ou mesmo ameaças,  e nunca, jamais, por gostar de apanhar, pois geralmente o relacionamento inicia com amor e carinho e por estreitamento da dependência vem a violência, que às vezes culmina na morte. Que esse fake fique bem longe de nós, pois precisamos nos unir para combater a violência de gênero (isso é fato!)

         — “Mulher tem que esquentar a barriga no fogão e esfriar no tanque"

       Aqui a mulher é vista como objeto do lar e do machismo exacerbado, que vem desde os tempos remotos.  Discurso ideológico que nos condiciona à submissão e jamais  favorece  a igualdade de gênero. Isso é Fake! Atualmente observa-se uma presença significativa de mulheres esquentando a barriga atrás das escrivaninhas e outros objetos profissionais,  esquentando a mente em muitas áreas de conhecimento e esfriando  a cuca com prazeres proporcionados por sua capacidade e talento. O fato é que precisamos lutar muito ainda por nossos direitos,   pois os homens ainda são maioria quando se trata de reconhecimento...

        Vamos esquentar nossas barrigas onde a gente quiser!

         — Em briga de marido e mulher, não se mete a colher"

        Frase que eu, minha avó e minha mãe crescemos ouvindo e vendo muitas mortes acontecerem, por omissão condicionada a esse discurso/mantra sem fundamento.  

         Frase de efeito Fake!

        Não podemos desconsiderar  a relevância das campanhas, os debates e a divulgação desse assunto na mídia, pois tem favorecido a  ação da vítima pelo pedido de socorro. Não podemos ser omissos a esse tipo de comportamento tóxico, a esses  relacionamentos abusivos dentro de quatro paredes, onde o silêncio sufocante da mulher é amordaçado pelo medo.  Vamos quebrar esse muro, entrar nessa briga, salvar uma vida  e meter a nossa colher sim! Isso é Fato!


@rilnetemelo - Uma Voz Nordestina


Rilnete Melo
Foto do arquivo pessoal

Rilnete Melo é brasileira, maranhense, graduada em letras/espanhol, escritora, cordelista membro das academias ACILBRAS, ABMLP e AIML, participou de várias antologias nacionais e internacionais, autora do livro “Construindo Versos" e autora de cinco cordéis. 

quinta-feira, 24 de abril de 2025

"PÉROLAS DO MEU SILÊNCIO": NOVO LIVRO DE RILNETE MELO

 LETRAS ICAMIABAS|04 

"PÉROLAS DO MEU SILÊNCIO": NOVO LIVRO DE RILNETE MELO


Capa do livro
Textos são sempre convites de quem escreve para quem lê.

Em Pérolas do meu silêncio, a escritora Rilnete Melo nos convida ao mergulho; nos propõe o desafio de, após a contemplação da superfície, nos lançarmos ao fundo, em busca das pérolas submersas.

Para compor as cento e cinquenta pequenas narrativas que nos oferece nesta obra, a autora selecionou cada uma de suas palavras — poucas, portanto valiosas — com precisão, cautela e sagacidade.

No equilíbrio entre o dito e o não-dito, o que flutua e o que se deixa submergir, a autora aborda o universo feminino em temas como luto, dor, abusos, abandonos, mas também abre espaço para aqueles que evidenciam o amor, a graça, a delicadeza.

Convite feito, cabe ao leitor apanhar o que vai na superfície, depois mergulhar, deixar-se alagar e voltar à tona com uma reflexão, uma inquietação, um sorriso; com uma única pérola certeira ou com as mãos cheias.

Fernanda Caleffi Barbetta, jornalista e escritora


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Contracapa do livro
Pérolas do Meu Silêncio, é um livro de micro contos onde a autora mergulha profundamente em questões femininas e sociais, revelando narrativas curtas com uma boa dose de criatividade e humor, incitando o leitor a interpretações. Cada micro conto é uma pérola de reflexão, um convite à empatia e à desejos de mudanças. Da luta pela igualdade de gênero à celebração da sororidade, este livro é um tesouro extraído do silêncio de uma voz feminina que ecoa através de curiosas e velozes palavras.

"entre noites silenciosas

e conchinhas, encontrei

as micropérolas para

me livrar do

ostracismo."

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O livro está à venda em Amazon (clique AQUI). Lançado pela Editora Clube de Autores (1 janeiro 2024), de capa comum, 55 páginas, ISBN-10: 6526629652; ISBN-13: 978-6526629659, cujas dimensões 0.44 x 14.8 x 21 cm. Além de Pérolas do meu silêncio, você encontrará outros títulos da autora, como: O máximo de mim e outros mínimos poemas, Estro poético, Construindo versos, entre outros.

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Arquivo da autora
Rilnete Melo é maranhense, poeta, escritora, cronista e cordelista, membro das academias de letras ACILBRAS e ABMLP, colunista no blog Feminário Conexões e colaborada da Revista internacional The Bard, coautora de várias antologias nacionais e internacionais, vencedora de seis concursos literários, autora dos livros Construindo Versos, O máximo de mim e outros mínimos poemas, Pérolas do meu silêncio, zine Dezcontos micros e autora de cinco cordéis.


quarta-feira, 31 de agosto de 2022

NA TRILHA DO FEMININO: O PERFIL FEMININO NOS CONTOS DE FADAS, POR RILNETE MELO

 


N A   T R I L H A   D O   F E M I N I N O|02

O PERFIL FEMININO NOS CONTOS DE FADAS 

Desde pequenina sempre gostei do universo literário, amava   ouvir, e quando alfabetizada gostava de ler os contos de fadas. Ficava encantada com aquele mundo mágico, e viajava com os clássicos de Perrault e dos irmãos Grimm, onde a fantasia rolava solta, mas rolava solto também na minha instigante meninice, um sentimento de piedade pela figura feminina. As vezes em meus pensamentos pueris eu me questionava; Por que a Cinderela, a Bela Adormecida, a Branca de Neve e muitas outras princesas, tinham sempre que sofrer? Só porque eram meninas?

Ah! Essas narrativas fantasiosas! Elas simplesmente reproduziram para as nossas crianças os estereótipos femininos impostos pela sociedade patriarcal, subsidiando a supremacia do homem sobre a mulher, criando nas inocentes cabecinhas uma atmosfera de subserviência feminina, condicionando os pequeninos a assumirem comportamentos e papéis tidos como corretos... Ou politicamente corretos? ...Sei lá!

O que eu nunca entendi é porque, a figura do homem nos contos de fadas, é sempre super heroica, sempre forte, linda e corajosa, uma figura capaz de trazer libertação e o famoso “Felizes para sempre”. Foi ouvindo e lendo os contos de fadas que, por alguns anos, dei abrigo aos modelos femininos, que eu acreditava que deveria seguir.  Por vezes cheguei a me imaginar sendo a Cinderela, aquela figura dócil, submissa, prendada e virtuosa. Encantava-me por aquela princesa, incapaz de ter comportamentos rebeldes. Acreditava que para ser feliz, a mulher necessitava ser passiva e esperar a fada madrinha (destino, sorte, forças externas) lhe guiar até o seu príncipe, que seria a sua tábua de salvação, a sua libertação.

Ledo engano! Perfil bloqueado 🚫

Cresci, e através das minhas vivências e experiências sociais e culturais, desmistifiquei a varinha mágica da fada madrinha, desfiz enganos, livrei-me dos mitos, ressignifiquei o mágico mundo punitivo e restritivo, imbuído nos clássicos infantis.  

Vigiai mulheres/princesas! Saiam do reduto!

Não sejamos Branca de Neve monitorada por sete anões, esperando o príncipe encantado.  Não sejamos a Bela adormecida, num estado de letargia emocional e social ou a Gata borralheira esquentando a barriga no fogão. O terceiro milênio exige que estejamos sempre na defensiva, de olhos bem abertos, pois o príncipe virou sapo e anda dando no nosso saco. O feitiço? ah!  Esse só se desfaz com nossa pretenciosa e audaciosa magia de ser bruxa, à frente do nosso tempo.

Em “Mulheres que correm com os lobos” de Clarissa Pinkola Estés, ela aborda essa desmistificação do mito e do conto de fadas e traz essa restauração da psique feminina, deturpada pelos contos de fadas. Estamos sempre fugindo dos lobos, né isso? Nessa sociedade patriarcal violenta, somos a representatividade do chapeuzinho vermelho.  Através do livro de Clarissa Pinkola, é possível ver a mulher emergindo do condicionamento cultural e transformando-se em lobas corajosas e empoderadas.  Eu recomendo!

Se faz necessário uma análise desses elementos que deturpam a mente das nossas crianças,  pois eles residem em uma realidade humana arquetípica, onde se constitui oponentes comportamentos entre os seres humanos, ou seja, a figura masculina é sempre dominante e a feminina passiva ou recalcada, tais determinantes estão bem longe da igualdade de gênero,  da igualdade social e política, tão almejada por nós mulheres, e que ao meu ver, seria o ápice que  levaria ao desenvolvimento em todas as esferas da sociedade. Em meio a esse machismo orquestrado por esse (des)governo nefasto e fascista, temos que reagir, lutar e levantar a bandeira do feminismo, para que não possamos cair em alguma página dos clássicos contos de fadas.

E por falar em luta, feminismo e conto de fadas, lembrei-me de um fato que me aconteceu certa vez. Estava eu e uma amiga em um café num shopping, em uma conversa bem informal, de repente ela me pergunta:  Rilnete, você é feminista?  E claramente respondi; Sou! Por quê? Você, não é?  Ela timidamente respondeu; ah! Sou muito ligada no tradicionalismo, tudo certinho, sabe. Como assim colega? Você é conservadora?  Não luta por seus direitos? Você não gostaria de ter um salário justo e equitativo? Não gosta de fazer suas escolhas com relação às suas roupas e seu corpo?... E claro, lógico que a resposta foi afirmativa!  Ela corou, abriu a boca em gesto de espanto e falou: Meus Deus! Descobri nesse momento que sou feminista!

Perfil desbloqueado com sucesso

Algumas pessoas ainda tem uma visão equivocada sobre o feminismo, acreditam  que ser feminista é ser  agressiva, ter aversão a homem, querer ser superior ... E por aí vai!

O feminismo é plural gente! A luta é de todos, todas e todes! Feminismo favorece homens,  mulheres,  trans, e independe de orientação sexual , pois  o feminismo discute gênero, classe, raça e  sexualidade. Não se trata de  uma ideologia, é uma luta, uma análise, uma desconstrução. 

Me descobri feminista desde que fui molestada por um padre aos 9 anos de idade, claro que sempre foi na linha do feminismo branco, mas de "Menina Capricorniana virei “Mulher Leão” e sai brigando por meus direitos, por minhas escolhas e pelas dores que não eram só minhas. Através da poesia, das crônicas e dos textos, mergulhei fundo nas minhas inquietações femininas. Sempre repudiei o conservadorismo e o comportamento ilibado, regido por padrões machistas, então tomei como verdade que o feminismo é só um movimento em defesa da igualdade de gênero, contra os comportamentos misóginos, simplesmente uma luta em prol de todas/os/es.Trata-se apenas de um desejo emancipatório, de uma fuga desse arquétipo, desse perfil de boa donzela, exaustivamente replicado desde os famosos e clássicos contos de fadas.

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Rilnete Melo
Foto do arquivo pessoal

Rilnete Melo é brasileira, maranhense, graduada em letras/espanhol, escritora, cordelista membro das academias ACILBRAS, ABMLP e AIML, participou de várias antologias nacionais e internacionais, autora do livro “Construindo Versos" e autora de cinco cordéis. 

quarta-feira, 15 de março de 2023

NA TRILHA DO FEMININO: MINHA IDADE NÃO ME DEFINE, POR RILNETE MELO

N A    T R I L H A    D O    F E M I N I N O|07

MINHA IDADE NÃO ME DEFINE

Dá uma coceira no meu cérebro quando vejo circulando na mídia assuntos que ferem a figura feminina. "ETARISMO", "IDADISMO", "AGEÍSMO", nada além de denominações  para um preconceito patriarcal antigo. Sim! Um preconceito que coloca no "congelador social" exclusivamente as mulheres, pois eu senti na pele esse bullying nefasto ao entrar na faculdade depois dos 40 anos, enquanto havia, na mesma sala, homens de 50,  com os ouvidos virgens  eu ouvia: "Nossa! Você dessa idade fazendo faculdade!" ou "Você já tem mais de 40, mas nem parece!"... Esses comentários, embora disfarçados de "boas intenções", vinham carregados de preconceitos, pois eu era excluída dos grupos das "novinhas"  nas apresentações acadêmicas, entre outros eventos, ficando nos grupos dos que se aproximavam da minha idade. 


Quem nunca ouviu: "menina, você já está na idade de casar!", (Eu casei aos 27 anos) ou "você foi mãe muito tarde!" (Fui mãe aos 28 e aos 31)... Tempo limite imposto por uma sociedade machista! Está  arraigado na memória da sociedade, mas é tempo de dar um basta nessa intolerância que supervaloriza a juventude de uma mulher. Homem coroa é um charme,  se casar com novinha é elogiado por sua virilidade, mas se mulher coroa casa com novinho é uma ridícula, assanhada e por aí vai...  É hora de combater esses estereótipos e mostrar ao mundo que envelhecer faz parte do ciclo natural da vida e não amputa a nossa capacidade de criar,  de ser, de viver, de lutar por nossos objetivos e fazer o que a gente quiser!  

Há alguns dias postei uma "geladinha" na mesa de um bar e não me faltaram comentários: "Você ainda bebendo?", cuidado! Hein?"

Que é isso? Homem com 60 pode, né? Calma!! Eu não estou passada, o viço não morre, as vontades não cessam e quando meu corpo  sinalizar o alerta, serei suficientemente madura para canalizar meus limites. Acredito que meu espírito só envelhece se eu permitir,   não vou aceitar o desrespeito,  o desprezo, os estigmas e as humilhações que minhas rugas possam  vir lhe causar.  As minhas limitações serão autoimpostas por  minha necessidade de controle.

Na obra "A velhice " , Simone de Beauvoir propõe que uma pessoa não deve se aproximar do fim da sua vida de mãos vazias e solitárias ,  mas que para isso é necessário refazer completamente a humanidade... É sobre ressignificar esse pensamento deturpado da sociedade, de que ficamos ultrapassadas com a idade,  que  devemos lutar para desafiar o sistema e fazer acontecer. 

Liguem o alerta, queridas companheiras! Vamos mostrar a essa sociedade patriarcal que estamos lutando contra essa força maldita e não vamos nos calar! Já CONQUISTAMOS muito, mas precisamos “desenhar” o percurso para que possamos chegar ao topo.  

Será difícil atingirmos uma sociedade igualitária,  pois   vivemos em uma distopia marcada pelo preconceito, violência e opressão de gênero,  porém se unirmos forças e plasmarmos novos conceitos poderemos esvaziar muitos estereótipos e discriminações.

Foram infelizes as "novinhas"  que hostilizaram a universitária Patrícia Linares, pois creio que elas não sabem que  mulheres de 40 são "AS LOBAS", as que  sexualmente são bem resolvidas, têm no rosto as marcas das emoções sentidas e vividas, e  experiência suficiente para saber onde querem chegar, sem menosprezar as fases já passadas e as que irão passar com maturidade.

Pois é! Já passei dos 50, lancei meu  primeiro livro solo em 2022 e acredito que foi cedo,  pois sonhos  não tem idade. Quanto ao meu corpo, as pedras que encontrei pelo caminho moldaram-o a cada tempo vivido, acumulei com perfeição as experiências e vesti minha pele de elegância espiritual, trago as marcas das emoções sentidas e domino a arte de seduzir através da poesia, meus cabelos têm a cor da minha alma, deixei e continuo deixando pegadas por onde passo, pisando forte  no solo que plantei horizontes eu vou em busca dos meus objetivos, até enquanto sentir o sopro da vida, pois  MINHA IDADE NÃO ME DEFINE.

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Rilnete Melo é brasileira, maranhense, graduada em letras/espanhol, escritora, cordelista membro das academias ACILBRAS, ABMLP e AIML, participou de várias antologias nacionais e internacionais, autora do livro "Construindo Versos" e autora de cinco cordéis. 

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

NA TRILHA DO FEMININO: O ARCO-ÍRIS

  


N A    T R I L H A    D O    F E M I N I N O|05

O ARCO-ÍRIS 


“Em todo adulto espreita uma criança – uma criança eterna, algo que está sempre vindo a ser, que nunca está completo e que solicita cuidado, atenção e educação incessantes. Essa é a parte da personalidade humana que quer desenvolver-se e tornar-se completa” (Carl Gustavo Jung).

A fala do psiquiatra Jung,   remete-nos a criança que mora em cada um de  nós e tudo que evidencia-se ao longo da nossa existência em decorrência da infância.  É dos eventos que vivenciamos nessa fase  da vida, que carregamos grande parte da nossa personalidade.

Quem não suspira ao lembrar do seu tempo de criança? Seja das alegrias,  dos momentos de fantasias, ou das tristezas e represálias...

Como disse “Casimiro de Abreu"  Oh! Que saudades que eu tenho da aurora da minha vida, da minha Infância querida que os anos não trazem mais...

Ah! O pé  no chão, as escaladas de árvores, os cordéis  lidos por minha avó , o cheirinho dos pratos deliciosos da minha mãe, os doces de pitanga,  o algodão doce no parque, as cantigas de rodas ao ar livre, as comidinhas de terra  e folhinha no quintal de casa, as minhas bonecas/filhas, os joelhos ralados,   os banhos de chuvas e nos igarapés, as pipas,  o peão rodopiando, o carrinho... A liberdade de ser menina/criança, de ter pureza, de ter um mundo de paz... A lembrança que carrego comigo é que era tudo mágico!

A magia existia, mas foi lá na infância que começou a se delinear os estereótipos, a separar cores, brinquedos, espaços... Eis então a contaminação da ideologia patriarcal.

E não é só por ai... A tecnologia chegou e a mídia e a publicidade infantil estão encurtando a infância feminina, através da erotização precoce e da adultização. Todavia, eu ainda cultivo minhas lembranças de uma infância de ingenuidade, feliz e romantizada, bem, como  por vezes, me vejo tendo comportamentos infantis. Como disse Clarice Lispector: “Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais”. 

E pegando carona nesse dia das crianças trago para vocês um texto da minha autoria:

O ARCO-ÍRIS

Quando eu era criança eu tinha as minhas crendices e fantasias; acreditava que havia um tesouro na extremidade do Arco-íris. Morava em um lugarejo, desses que não tem água encanada e nem  luz elétrica, mas a paz reinava por lá, onde eu era feliz à luz do luar e tomando banho com água de poço. Era lá que eu sonhava em um dia encontrar o meu tesouro!

- Certo dia, debruçada na minha janela, eis que surge no céu um Arco-íris.

- É hoje! É hoje! Vou alcançar o meu tesouro!

-Ah! O arco-íris, ele tem forma de escorregador (Eu pensei...). E se tivesse uma escada bem longa e eu subisse e escorregasse até a extremidade?... Mas, onde encontrar essa escada?

Desalentada, desisti da ideia e de repente meus olhinhos brilharam de alegria... Eu vi que a extremidade estava exatamente ali onde eu costumava brincar de cirandas com as amiguinhas, onde eu brincava de bonecas e jogava pedrinhas. Naquela calçada alta, onde eu ficava ouvindo a velha Iaiá contar suas estórias a luz do luar. Lá na calçada do Sr. Ribamar! Era alta! eu ia alcançar!

Corri cheia de esperanças pra pegar o meu tesouro, mas quanto mais eu palmilhava e esticava  meus passinhos mais o arco-íris se distanciava e as cores iam perdendo o seu fulgor... o arco-íris ia desaparecendo e com ele o meu sonho, o meu tesouro!

Meus olhos fotografavam aquele local, onde vi a extremidade do arco-íris. Aquele cenário explêndido, cheio de cores, não me saia do pensamento... Se o arco-íris estava ali tão próximo, porque não consegui alcançar o meu tesouro?

Quando cresci consegui entender que o arco celeste era apenas uma ilusão de ótica, mas  as cores, o fulgor e os sonhos, estavam realmente naquele local, alí onde eu brincava, onde eu ouvia as estórias da velha iaiá, onde eu cantava as cantigas de roda e acalentava bonecas, onde eu era criança... Ali onde estava a minha infância. O meu tesouro!

"A Infância é como o arco-íris, quanto mais palmilhamos, ela vai se distanciando e as cores e o fulgor vão desaparecendo.” (Rilnete Melo)

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Rilnete Melo é brasileira, maranhense, graduada em letras/espanhol, escritora, cordelista membro das academias ACILBRAS, ABMLP e AIML, participou de várias antologias nacionais e internacionais, autora do livro “Construindo Versos" e autora de cinco cordéis. 


quarta-feira, 22 de novembro de 2023

NA TRILHA DO FEMININO: LARGADA DOMÉSTICA, DE RILNETE MELO

N A    T R I L H A    D O    F E M I N I N O|08

LARGADA DOMÉSTICA

Era uma segunda-feira, dessas do tal calorão de 39° que quase fritava meus miolos e  fritava também ovo no asfalto,  dessas em que o dia branco, na verdade foi cinza; Do  bombril  impregnado nas unhas,  pó de casa varrida no pé e massa cinzenta pensando debaixo do chuveiro: Tenho que fazer isso, depois isso, amanhã  aquilo... E eternamente isso! 

Exausta, depois de me virar nos 30,  marido já  dormindo, ponho um cafezinho na xícara, destravo o celular para escrever alguma coisa, embora com o corpo pedindo arrego, a mente  ainda escrevive!  Passeio  pelo Instagram  e vejo, enfeitando o feed  viralizado, o tema da redação do Enem 2023: “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”.

E de repente foi o assunto mais comentado na semana  e  alvo de debates polêmicos nas redes sociais. Dos memes às charges,  o que mais me impressionou foram os comentários machistas do tipo: “Trabalho? Que trabalho?”, “E a invisibilidade de quem paga as contas, o Inep não vai comentar?”. Circulou até um vídeo de um  deputado  falando que daria punição à filha se ela tirasse boa nota nessa redação! (Santa imaculada do feminino sofrido, que nos proteja desse patriarcado!!)

Mas o comentário que me desafiou a escrever essa  crônica foi lançado para mim em um post recente, quando ainda nem tinha ideia do tema da redação e já  abordava exatamente sobre a invisibilidade do papel da mulher desde os tempos mais remotos até os dias atuais, que é cuidar, amar, cuidar... E no profícuo ofício de cuidar, mendigar amor! E o famigerado machista, agora  já deletado  do meu perfil e denunciado, de pronto comentou: “Se você conseguir descarregar caminhão, trocar pneu de jamanta e emboçar parede, pra senhorita eu dou “A  taça cacete", (me diz aí quem não soltaria as cachorras??).

Saiba muito bem, pai da Santa  ignorância e do olho cego, que  se  tivesse olimpíadas para o trabalho doméstico, não haveria taças  para tantas vencedoras! Dada a largada, a categoria “Excesso de cuidados" subiria ao pódio ao som de uma “Ave Maria", pois, no silêncio rotineiro da mulher, o cuidado  doméstico soa como uma música piedosa que é (in)visível,  embalando  as protagonistas  nos bastidores do cotidiano.

Na sociedade capitalista, a relação de poder do homem em detrimento da mulher, ouço dizer que se “dá(va) “?? pelo fato do homem ser responsável pela renda familiar, mas o mercado de trabalho foi aberto  para as mulheres e a conta ainda não fechou, pois agora é dobradinha:

 “Trabalho e cuidados".

A verdade é que, em pleno século XXI, a mulher ainda é o “anjo do lar”, e que anjo!!   Carrega nas asas o peso do trabalho dobrado, dentro e fora de casa, no sonho de  alçar voo rumo à igualdade de gênero e à equidade.

“Desde que me lembro de ser gente, lá em casa, quem dobrava os lençóis da cama era eu, minhas irmãs ou mamãe", porque isso era serviço de mulher!  Isso tem mais de meio século e os lençóis ainda não chegaram nas mãos dos homens, pois eles não sabem dobrar as pontas iguais, afinal, de igualdade o universo masculino  nada quer saber, né? E se sabe, ainda pergunta onde fica.

Lembro que minha avó costurava, fazia crochê, consertava guarda-chuvas, fazia a comida, varria a casa, passava a roupa no ferro de brasa, e fazia e fazia, e ainda  ajudava meu avô a plantar e colher, botava a comida dele na mesa e, no final do dia, ele pedia o lençol para dormir, pois não sabia onde estava... Será que lembrava de agradecer?. Fala sério, mudou alguma coisa? Um tantinho? Nada? Coisa nenhuma?

Conquistamos  sim, quebramos alguns tabus e estereótipos, como o direito ao voto e ao trabalho desigualmente remunerado, mas há um trabalho (cuidado) eterno  que  continua  invisível, o status quo “gestão do lar”, sempre na manutenção das condições observadas.... Casa varrida, roupa lavada, fralda trocada, mamadeira pronta, comida no prato,  cama arrumada... Na verdade é uma verdadeira “Largada doméstica” apenas com ponto de partida. 

E aqui eu deixo um poema de minha autoria para que possamos refletir sobre nossa saúde mental,  sobre  o excesso de cuidados para com o outro e das situações estressantes às quais nós mulheres estamos mais propensas e sem reconhecimentos. 


LARGADA DOMÉSTICA 


Lambeu o chão,

esticou a língua 

ao sal

e correu para a panela,

como sempre correu contra o

tempo.

Cozinhou os sonhos,

o prazer,

a vida.

- Do menu servido

no prato cotidiano -

a carne parida,

o amor ofertado,

e o reconhecimento

ao molho. 

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Rilnete Melo é brasileira, maranhense, graduada em letras/espanhol, escritora, cordelista membro das academias ACILBRAS, ABMLP e AIML, participou de várias antologias nacionais e internacionais, autora de cinco cordéis e dos livros solo Construindo Versos e O máximo de mim e outros mínimos poemas.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

PROCESSOS DE ESCRITA: CONSTRUINDO VERSOS, POR RILNETE MELO

PROCESSOS DE ESCRITA: CONSTRUINDO VERSOS 

POR RILNETE MELO


Movida pelas pernas da sensibilidade poética e caindo no abraço provocador da nossa querida Marta Cortezão, eu trago o entrelaçamento do meu processo criativo, o qual tomado pela estesia das minhas inquietações, revelou-me “Construindo Versos”: o meu primeiro livro solo.

O título talvez não seja impactante, mas surgiu do ofício da criança que costurava sentidos com as cores do perceber. 

Desde a minha tenra idade eu carregava um olhar sensível e pujante sobre as coisas e as pessoas, e foi pelas rimas dos cordéis, lidos por minha avó paterna, à luz de lamparina, e pedalando a sua velha máquina de costura Singer, que nasceu a minha paixão pela poesia e a construção dos meus primeiros versos.

Tive uma infância feliz, subi em árvores, tomei banho de igarapé, corri atrás do tesouro no arco-íris, brinquei com as bonecas do milho plantado pelas mãos do meu avô Tonho, tomei leite no curral, comi doce de pitanga e recitei versinhos para os meus pais, ainda não alfabetizada, subindo em uma cadeira e recebendo os seus aplausos.

Os sentidos que eu costurava faltou tecido aos 9 anos de idade e os versos ficaram incompletos, tortos, xoxos e engavetados na escuridão, pois as mãos que me ofereceram hóstias,  tocaram meu corpo infantil sem meu consentimento, deixando marcas indeléveis.

Foram anos de silenciamento, dor  e interrupção criativa, mas no desvelamento do não-dito, aos 15 anos resolvi escrever textos poéticos no meu diário. 

Como se não bastasse o abrupto corte criativo, causado  pelo luto invisível da alma, perdi o meu querido diário em uma viagem de ônibus do Maranhão para Natal-RN.

Pois bem, nunca tive o hábito de decorar meus escritos, então lá se foram meus segredos inconfessáveis e os versos que eu havia construído desde a infância. Em 1994, já casada e com um filho, adentrei o mundo virtual e compartilhei no site Recanto das letras alguns dos meus escritos, onde tive um bom feedback. Foi o início de uma batalha travada entre o desejo de cuspir palavras e a dor de engolir os ciúmes e o machismo (regados à traição) do meu marido.

Eu não queria parar, pois fervilhava em minhas veias o sangue poético, aquecendo minha pele feminina de inquietações. Por vezes, entre as trocas de fraldas, as conversas com as panelas, ou mesmo nos intervalos do trabalho, vinham os insights poéticos e eu registrava em um caderno (no meu campo de silêncio), onde a palavra tinha sede de grito.

Em 1996, engravidei do segundo filho e deixei também palavras grávidas, nas crônicas que escrevi na coluna do Jornal “O Potiguar” em Natal-RN, foi aí que percebi algo latente me cobrando audácia e coragem para prosseguir, pois com dois filhos e um casamento fracassado, eu dei minha “cara a tapa” e tirei as correntes das mãos, para representar a voz feminina e fazer valer a minha resistência aos estereótipos, e ao machismo que tentava me calar. 

Em meio a um relacionamento pedindo socorro, veio a separação, e com ela a sensação de liberdade invadindo meu cérebro e levando forças para atingir os meus objetivos. Retorno ao Maranhão, com dois filhos pré-adolescentes e na bagagem a coragem de uma mulher “sem eira nem beira”  e a força de uma mãe plantando sementes  e sonhando com grandes searas.

Para incentivar a formação dos meus filhos, veio a minha graduação no curso de Letras, embora tardia, mas chegou desatando os nós e criando  um vínculo marital com a palavra. Sim! Afiei a língua, cortei as amarras e crenças limitantes, soltei o verbo  e deixei os meus textos voarem no mundo virtual, abrindo olhares e olheiros.  

Na vida, o que alavanca as realizações são as oportunidades e os recomeços, por isso ativei o modus operandi, e numa onda de “desvencilhamento”, me lancei no mercado editorial, através das antologias e concursos literários.

E veio a aproximação no distanciamento... Paradoxal, né?  Pois é, mas foi na pandemia que a poesia me abraçou com força! 

A pandemia foi um acontecimento planetário, inusitado e catastrófico, evidenciando a fragilidade da humanidade, mas exibindo a força da voz  feminina,  que como antídoto avançou no ambiente  on-line. Os coletivos literários femininos explodiram, exigindo que nós mulheres poetas, não deixasse esse momento sem palavras, então Juntei-me ao coletivo “Enluaradas” entre outros, e lancei-me ao desafio de ressignificar a dor, o medo e a falta do calor humano através da poesia. 

Em meio ao caos pandêmico, os impactos me serviram como dispositivos criativos, e como se quisesse tornar tangível  o confinamento,  deixei gestar    “Construindo Versos”, para oferecer ao meu leitor  as minhas inquietações humanas e femininas.

Um Spoiler do livro:


Combatentes

 

Removendo pedras

do solo endurecido, 

a ranger de dor,

atira no rabecão

pai, mãe, irmão... 

Os olhos tecem,

o rude engasgo

do invisível severo,

que não deixa velar.

Marcha para a rua vazia;

os combatentes,

a esperar a sorte tecer o troféu:

da fome,

do medo,

da dor,

ou do viver!   

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Rilnete Melo é brasileira, maranhense, graduada em letras/espanhol, escritora, cordelista membro das academias ACILBRAS, ABMLP e AIML, participou de várias antologias nacionais e internacionais, autora do livro “Construindo Versos" e autora de cinco cordéis. 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

NA TRILHA DO FEMININO: UM AMOR DE VÉSPERA, POR RILNETE MELO



N A    T R I L H A    D O    F E M I N I N O|06

UM AMOR DE VÉSPERA

                                                                                                                  POR RILNETE MELO


Era véspera de Natal. Ela entrara na igreja com o pé direito e o lado esquerdo do cérebro pedindo que orasse para esquecer aquela paixão fulminante, que quase conseguiu abrir a armadura que ela usava desde o término do seu casamento. Ainda não havia deletado as últimas mensagens do WhatsApp e logo que sentou-se, abriu a pequena bolsa nude e retirou o celular para mais uma vez certificar-se da sua decepção.

Ali estavam as últimas palavras de Raí e o soco no estômago que Nely tomara naquela tarde em que tomava café, na cozinha do hospital, com os amigos de trabalho.

— Sabe Nely, nunca existiu... Você é maravilhosa, mas...

Naquele dia Nely saiu da mesa, deixando a fatia de bolo de abacaxi no prato (seu bolo preferido) e os sonhos de um novo relacionamento jogados no espaço. Correu para o quarto de repouso do hospital e abraçada ao travesseiro chorou, enxugou as lagrimas e falou baixinho pra si mesma que as lágrimas de hoje regariam o futuro de amanhã. Havia lido o livro “O segredo” de Rhonda Byrne e acreditava no poder do universo, costumava usar mantras e apostou no “Tenho tudo ao meu redor, se não foi com esse será com um melhor”.

Já havia se passado dois meses, acreditava que aquele momento na igreja iria lhe fazer bem, então deletou todas as mensagens e ajoelhou-se em oração. A igreja estava cheia, lá fora o céu estava carregado de nuvens cinzentas, mas fazia calor lá dentro e ela mudou para um banco próximo ao ventilador. Havia um clima de Natal por ali, luzes coloridas cintilavam no altar, adolescentes com gorros de papai Noel entoavam “Noite Feliz” regidas por um maestro que acenava a batuta em gestos mágicos, dando o ar da graça aos coristas. Crianças fantasiadas de duendes e outros personagens natalinos se agrupavam esperando a hora da apresentação no palco.

A igreja apresentava na sua arquitetura elementos decorativos de estilo neoclássico, tal como Nely que buscava superar o passado. A sensação era a de que algum espírito natalino, ou mesmo papai Noel poderia aportar por ali, pois tudo era mágico como nos cenários de filmes infantis.

Talvez tudo aquilo conseguiria apagar o acontecimento dos últimos dias, então resolveu entregar-se aquela magia e deixar a frustração para trás. Acomodou-se no banco e sorriu com entusiasmo para uma garotinha de cabelos cacheados e pele morena, que vestia um vestido vermelho de saia plissada, o que lhe fez lembrar de um episódio triste da infância, onde trajava uma roupa semelhante àquela, logo expulsou aqueles pensamentos, que lhe causara trauma e deu uma olhada no folheto da liturgia.

Nely observava o movimento dos fiéis na igreja e os casais que entravam de mãos dadas e por um instante pensou em Raí. Distraiu -se com um senhor vestido de papai Noel distribuindo presentes para as crianças que faziam a maior festa, logo despertou com a presença de um homem ao lado que lhe observava há bastante tempo. Ele cumprimentou-a, era simpático e educado e aparentava ter alguns tempos de vida a mais que ela, parecia ser solitário, pois durante o sermão do padre comentou que não gostava do Natal, uma vez que sempre comemorava sozinho. Nely ficou comovida, mas manteve-se calada.

O padre celebrou a missa, houve uma pequena peça teatral e a bênção final. Nely dirigia-se para a porta de saída quando o homem tocou em seu ombro e pediu o número do seu telefone. Ela hesitou, mas tomada por empatia e comoção cedeu. Já estava a caminho de casa quando espantou-se com a buzina de um carro, e aquele cavalheiro da igreja com toda gentileza lhe oferecendo carona. Estranhamente, mesmo sem conhecê-lo aceitou. Não se incomodou com os prováveis mexericos ou mesmo o receio do estranho. Abandonou-se ao carisma que emanava daquele sorriso fácil e foi. Ao entrar no carro, ele se apresentou, chamava-se Peter, era divorciado, economista aposentado e, como ela, era devotado de fé. Estava uma noite linda e a lua cheia, enamorando o firmamento, dava o ar da graça. No vidro do carro refletiam os pisca-piscas das lojas e residências, e o azul dos olhos de Peter refletia no retrovisor, roubando por vezes o olhar distante de Nely. Durante o percurso trocaram algumas palavras, e ela gostou do jeito culto, respeitoso e cheio de sabedoria com que ele dirigia o diálogo.

Saíram para um passeio na praia.

Nely era divorciada, casou-se jovem, criou os filhos sozinha, carregava consigo um certo ar de independência e resistência ao machismo e aos estereótipos impostos pela sociedade, porém percebia que a solidão não era sua boa companheira.

Gostou da companhia de Peter.

A orla marítima era bem distante do mar, mas dava para ouvir o barulho das ondas. A calçada colorida era harmônica com o azul do mar, havia uns quiosques rústicos e convidativos para um drink a dois. Caminharam por muito tempo e optaram por um boteco com cobertura de sapê, acabamentos coloniais e música ao vivo. Era pequeno e aconchegante, escolheram uma mesa de frente para o mar, havia pouca luz, apenas arandelas artesanais nas colunas e samambaias penduradas. A brisa tocava em Nely, como se acariciasse sua alma e sussurrasse em seu ouvido que para sentir é necessário fazer sentido.

A mão masculina tocou a sua e ela sentiu que o calor humano era bem melhor que o frio da solidão, embora gostasse da sua liberdade. Peter entregou o coquetel Sex on the beach em suas mãos e com a outra mão acariciou a nuca de Nely que sentiu um calor percorrer todo o seu corpo, dando-lhe a certeza que já estava enamorada. Ao som de How deep is your love de Bee Gees, os dois saíram para a pista de dança e os corpos colados encontraram os lábios, que sem entenderem que o céu é o limite, abandonaram as línguas no céu da boca.

Saíram os dois em direção ao mar. O sol já soltava seus primeiros raios. Vento e areia misturavam-se nos corpos abandonados, liberando endorfina. Ele apertou sua mão implorando que ficasse para sempre, ela respondeu baixinho: Nunca mais estarás sozinho, Feliz Natal!

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Rilnete Melo é brasileira, maranhense, graduada em letras/espanhol, escritora, cordelista membro das academias ACILBRAS, ABMLP e AIML, participou de várias antologias nacionais e internacionais, autora do livro “Construindo Versos" e autora de cinco cordéis. 

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