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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A POESIA DAS PEQUENAS COISAS - A OBRA POÉTICA DE ASTRID CABRAL

Astrid Cabral: “exímia inventora de tesouros, a explorar os preciosos filões dos sentimentos”

Palestra de Rita Alencar Clark sobre a escritora amazonense homenageada na Feira do SESC 2025, Astrid Cabral. A Feira teve curadoria de Leyla Leong. A palestra aconteceu no dia 30 de outubro de 2025, às 15:00h, no Centro de Convenções Vasco Vasques (Manaus/AM).

Astrid Cabral

1. Como se faz um bom poema, Astrid?

Quando aceitei o convite de Leyla Leong para falar de Astrid Cabral, da sua poesia diária, a Poética das Pequenas Coisas, grandes ou delicadas, que nos deparamos pela vida, de certo que aceitei e quero, antes de tudo, agradecer-lhe a honra de estar aqui.

E de tanto pensar no que escreveria, vieram-me lembranças intensas de nossa convivência familiar no Rio de Janeiro, onde todos morávamos. Astrid nunca faltou, não sem avisar, a um aniversário do meu pai, seu companheiro de poesia e Clube da Madrugada, Alencar e Silva, para ela, o Neto. Naqueles dias, fomos convidados para o almoço de aniversário de Astrid, em seu apartamento no Parque Guinle. Meu pai já acordara ansioso e assobiando, sempre temendo inevitáveis atrasos. “Nair… compraste o presente da Astrid?  Sim, Neto”. E foi pra esse lugar que minhas memórias me levaram.

Como em toda casa de amazonenses, fomos recebidos por Astrid e doutor Afonso com abundância de delicadezas, incluindo-se o, sempre farto, menu amazônico. Mamãe e Astrid, antes do almoço, trocavam informações e urgências, fossem novidades fresquinhas de Manaus, fossem receitas fantásticas, agruras da maternidade desejada e a realidade de serem mulheres e trabalharem fora… não se tinha uma brecha no diálogo. E eu, com um caderninho na mão, de tocaia para fazer uma intervenção, quando ela falou: “Ritinha, senta aqui do meu lado”. Como caloura do curso de Letras na Santa Úrsula, não podia perder a oportunidade de entrevistar Astrid Cabral. Ela pegou na minha mão e perguntou: o que queres saber? “Como se faz um bom poema?” Rimos as duas em cumplicidade, ela respondeu, ainda sorrindo, que “primeiro tens que dominar a gramática, qual usas?”  Cunha, Luft e Cegalla, respondi. “Pois, lute com eles! Depois, comece a dominar a arte de cortar... os primeiros serão os artigos, depois preposições e interjeições, por último os adjetivos. O que sobrar é o esboço do poema. E, então, começas o trabalho de lapidação”. Que maravilha de resposta, nunca pude esquecer e até hoje impacta no meu processo criativo. Astrid, para mim, é a tia escolhida, por saber da grande amizade, respeito e admiração de meu pai por ela, pela grande poeta que é. Após o almoço todos iam para o living e, entre licores e cafés, a tarde se estendia, era só poesia. 

Arquivo da autora

2. Os versos, essas aves das ideias

Segundo Alencar e Silva, em artigo sobre Astrid  (Quadros da Moderna Poesia Amazonense  Valer, 2011): “Astrid Cabral Félix de Sousa nasceu em Manaus, a 25.9.1936, onde integrou o movimento renovador Clube da Madrugada, desde as primeiras horas, transferindo-se ainda adolescente para o Rio de Janeiro, onde diplomou-se em Letras Neolatinas, na atual UFRJ e lecionou Línguas e Literatura na Universidade de Brasília, saindo em 1965, em consequência do golpe militar.

Ingressou posteriormente no Itamaraty, onde serviu como Oficial de Chancelaria em Brasília, Beirute, Rio de Janeiro e Chicago. Casada com o poeta Affonso Felix de Sousa, é mãe de cinco filhos: Raul, Alfredo, Giles (já falecido), Isabela e Mariana. Detentora de importantes prêmios, participa de numerosas antologias no Brasil e no exterior (...) Sua obra poética já se estende por mais de dez títulos, entre os quais se contam: Alameda, 1963 (ficção); Ponto de Cruz, 1979 (poesia); Torna Viagem, 1981 (poesia); Zé Pirulito, 1983 (estória infantil); Visgo da Terra, 1986 (poesia); Lição de Alice, 1986 (poesia); Rês Desgarrada, 1994 (poesia); De déu em déu, 1998 (poesia reunida); Intramuros, 1998 (poesia); Rasos d’Água, 2003 (poesia); Jaula, 2006; Antessala, 2007; 50 poemas escolhidos pelo autor, 2008; Palavra na berlinda, 2011; Infância em franjas, 2014; Sobre escritos: Rastros de leitura (Crítica literária ensaios de Astrid Cabral  Org. Helena Ortiz, 2015). É detentora dos seguintes prêmios: José Décio Filho, da UBE-GO, 1981; Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras, 1987; Casa do Escritor, São Paulo, 1987; Cine-vídeo de Porto Alegre/Lei Sarney, 1987; e Jorge Fernandes, da UBE-RJ, 1996, entre outros."

Vejamos um poema de Alencar e Silva para Astrid, no primeiro livro do autor, Painéis, 1952:

À Astrid Cabral

Tens na voz algum ninho, um ninho de ouro,

que lembra, numa chuva de açucenas,

as manhãs claras, musicais, serenas,

de um celeste e rosado logradouro


E ouvir-lhe os sons, ouvir esse tesouro

de harmonias de mágicas avenas, 

é dar asas à alma e ver-se apenas

voando à claridade de um céu louro.


Pois, quando surges, luz e canto, em cena,

voando de tua garganta de açucena,

os versos, essas aves das ideias,


como que aroma e música espalhando,

as almas todas vais sonorizando

e arrebatando as lívidas plateias.”

Alencar continua em sua resenha crítica: “Um dia, quando ia em pleno andamento a segunda caravana que empreendêramos, pelo sul do país, com Jorge Tufic, Antísthenes Pinto e Guimarães de Paula (...) estivemos em visita de cortesia à nossa conterrânea, que se encontrava hospedada num pensionato para estudantes, na Rua da Glória, no Rio de Janeiro, cidade onde ela se diplomaria em Letras Neolatinas, pela Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil, atual UFRJ.” Apesar da distância entre Manaus e Rio de Janeiro, além de todas as dificuldades de deslocamento, pois estamos falando dos anos de 1953/1954, o posto de musa no Clube da Madrugada sempre foi cultivado e respeitado por seus companheiros de poesia, como nos relata aqui Alencar e Silva: “Desde a adolescência, Astrid Cabral tem tido destacada participação na vida cultural de Manaus, quer atuando em grêmios literários, como a SAEL (Sociedade Amazonense de Estudos Literários, que ela ajudou a fundar e levou a funcionar em uma sala do Instituto de Educação, cedida por sua diretora, e avó, Dona Eunice Serrano Telles de Souza), quer em publicações de vanguarda, como o jornal “Nossos Dias”, de Francisco Vasconcellos e João Bosco Evangelista, onde apareceriam os seus primeiros poemas. E o autor de Lunamarga continua: “Além do toque de qualidade que a distingue, o que sobreleva na obra de Astrid Cabral (...) é, sem dúvida, a consciência profissional em que se espelha o seu saber-fazer poético.” (...) “atesta, efetivamente, a presença de uma poderosa força criadora, que se exerce, com total domínio, sobre a palavra emprestando-lhe à linguagem aquela ressonância, a um tempo próxima e distante, aparentemente estranha e aparentemente familiar, das coisas eternas. (...) “Visgo da Terra” obra em que celebra a memória dos seres e coisas que povoaram a paisagem do que fora Manaus da sua adolescência  aquele, entre os seus livros, em que melhor podemos observar uma das faces mais constantes de sua poesia  a das EVOCAÇÕES  e, aí, vê-la como exímia inventora de tesouros, a explorar os preciosos filões dos sentimentos e a trazer de seus subsolos as gemas mais belas, para maior glória de sua cidade.” (ALENCAR E SILVA (Quadros da Moderna Poesia Amazonense, Ed. Valer, 2011).

Astrid Cabral

3. A poética das pequenas coisas

Astrid Cabral faz a Poesia das Pequenas Coisas. O seu olhar costura o poema por dentro, alinhavando com precisão, na imaginação do seu leitor, os versos no pensamento, que flutuam no ritmo do poema, vislumbrando decifrar-lhe as metáforas, buscando as chaves e códigos do poema. 

Vejamos o que nos diz José Godoy Garcia, na edição de Astrid Cabral-50 poemas escolhidos pelo autor (Edições Galo Branco, RJ,2008): “A começar pelo título do livro, Ponto de Cruz, onde principiamos a tomar contato com as pequenas-grandes coisas da vida doméstica, como que colocadas harmoniosamente sobre a mesa. Mas, como toda a boa poesia, esta que nos vem de Astrid não nos prende à aridez e ao limitado território das palavras. Do exíguo mundo, das humildes e pequeninas coisas do dia-a-dia da cozinha, da casa, do quintal, projeta-nos alto e longe, graças ao mistério que só os autênticos artistas conseguem alcançar.”

Ponto de Cruz        (recorte do  blog Alma Acreana)

Lá fui eu ao armazém

comprar açúcar e mel.

Voltei com um quilo de sal

na boca o gosto do desgosto

lágrimas no rosto embutidas.

No balcão ao pedir vinho

vinagre me foi servido,

queria um maço de fogos

chuvas de prata e estrelas

para comemorar a noite

porém só havia velas

com que imitar o dia.

Lá fui eu ao armarinho

(tangida por que ventos

por que pérfidas sereias?)

comprar um dedal de amor.

Voltei com este coração

são sebastião de alfinetes.

O peito? retrós entaniçado

por mil linhas de aflição

euzinha toda por dentro

que nem pano em bastidor:

bico de agulha finoferoz

sobe-desce-sobe bordando

minha vida em ponto de cruz. 

(CABRAL, Astrid. De déu em déu: poemas reunidos (1979/1994). Rio de Janeiro: Sette Letras, 1998. p.42)

No poema que dá o título ao livro, podemos observar com nitidez o poder evocativo da poesia de Astrid, que se destaca pela capacidade de sugerir e provocar sensações, lembranças e estados de espírito no leitor, em vez de descrevê-los diretamente. O “manuseio” de recursos tais como: a subjetividade, o simbolismo, oposições de ideias, ritmos, aliterações, assim como temas como o “eu” interior, a melancolia e o mistério. Tudo isso faz do poema um repositório de imagens poéticas que buscam uma expressão espiritual e etérea, para criar uma atmosfera misteriosa e transpessoal.

De déu em déu

No livro De déu em déu 
 Poemas reunidos (1979-1994), o Professor Dr. Antônio Paulo Graça nos diz sobre Astrid, em seu artigo de apresentação: “Se “Torna-Viagem” se abria para o espaço amplo, para o exterior (em todos os sentidos), “Lição de Alice” se concentra na intimidade, no mínimo espaço, na vida doméstica e nas experiências que uma voz sensível, muitas vezes, outras, extremamente cáustica, não faltando mesmo, aqui e ali, um toque de crueldade. O leitor de Astrid Cabral não deve se deixar envolver inteiramente por sua sensibilidade. Como antídoto, preste-se atenção nos versos finais de ‘Nudez’  “Mas bendizemos o corpo que nos redime / e nos queremos selvagens, puros, nus. / Salvos pela misericórdia de nossa miséria.”  em que o paradoxo da última linha não nos deixa esquecer nossa condição liliputiana. Ao lado desse pendor crítico, há também uma tentação pela agressão pura, agressão contra as falsas convenções.”

Lição de Alice

No vale de lágrimas

a lição de Alice:

Não se deixar afogar.

Nadar na preamar

da própria dor.

Astrid Cabral  50 poemas escolhidos pelo autor

A primeira Lição de Alice (Philobiblion, 1986), ou seja, de Astrid Cabral, é precisamente a de levar ao leitor uma lição de pura poesia. Com raro domínio da linguagem poética, a autora ensina a difícil fórmula de, com poucas palavras, transmitir o essencial. Poesia evocativa, confessional, porém limpa: nem adornos exagerados, nem enxugamentos tais que retirem da pele do poema a própria essência poética.: “Tanta a febre de deter o instante / e sempre os rios a correrem/enchente ou vazante.” (Lenilde Freitas, em resenha crítica no livro Astrid Cabral-50 poemas escolhidos pelo autor – Edições Galo Branco, Rio de Janeiro, 2008).

Um dos poemas mais perfeitos desse livro, citado acima, na minha opinião, é “Sísifo de Avental”. Faz parte da vida de todos nós, que a lemos, essa sensação de estranha intimidade com que Astrid calibra seus versos e metáforas, como a dizer “em segredo” que somos cúmplices nas inconsistências da vida. A sua visão das pequenas coisas do dia a dia, a rotina, os filhos, a casa, o amor e o grande desafio de fazer poesia das alegrias e dores, ironias e resiliências, das agruras de existir, afinal. Existir num tempo/espaço, onde as mulheres estão em plena ascensão profissional no mundo, e de tudo o mais que a vida vai nos ensinando na prática, nos direciona o olhar a distâncias inusitadas, assustadoras e belas. Astrid encontra tempo e disciplina para escrever e nos encantar, definitivamente, com sua poesia. 

Sísifo de avental

Sísifo de avental

enche e reenche panelas

que se esvaziam na lida

de almoços e jantares

a encadear os dias

pois sempre vem a fome

que, voraz, tudo consome.

Então nessa condição

sem saída de trabalho

que não tem folga ou fim

beata, ela obra milagres

e das batatas arranca

a apoteose de purês e suflês

e mágica, extrai dos ovos

a própria neve do inverno

mais o verão consubstanciado

em dourados fios e chuviscos

petiscos de pudins e quindins

e doma as caldas nos vários

pontos de pasta fio espelho

pérola bala areia e caramelo.

E com sofisticados bifes

oblitera o massacre dos bois

e sobre toalhas faz florescer

jardins em saladas orvalhadas

de azeite vinagre e sal.

E sabe que até o fim dos dias

estão suas mãos destinadas

à faina sem folga ou fim

mas vai dando a sua faina

o seu próprio fim.

(Astrid Cabral-50 poemas escolhidos pelo autor  Edições Galo Branco, Rio de Janeiro, 2008).

3.1. As pequenas coisas do rio que transborda e inunda

Em seu Blog Palavra do Fingidor, o Acadêmico da AAL, poeta e escritor Zemaria Pinto, nos diz sobre a poeta: “A água é um elemento constante na obra poética de Astrid Cabral. O ápice dessa relação é o premiado livro Rasos d’Água: “uma viagem épica pela memória líquida, das lágrimas à neve, banhando-se de chuva, perscrutando o mar, os rios inúmeros, em permanente tensão com o pathos da morte, que ora se aproxima e sangra, ora se afasta e observa a velhice inevitável, ora apenas lembra/relembra a dor para sempre represada”, como escrevi na apresentação da segunda edição. Em Rasos d’Água, o eu lírico é um ser líquido, sem forma definida, que toma nova forma a cada poema. Para Astrid, a água é muito mais que a origem da vida e metáfora da criação: numa relação dialética que não se esgota nunca, é também fonte de morte e de destruição.

O poema “Água doce”, que é a água da memória, da infância, guarda a consciência disso, quando opõe a água do rio à água do mar, representada sempre por elementos negativos, como a “vândala violência do mar”, “a ameaça constante das vagas” e “a baba de espumas brabas”. Mas, aos poucos, essa consciência vai se redefinindo, a memória vai se recompondo, e as lembranças vêm à tona, sempre naquela relação vida/morte-criação/destruição: “A água do rio é mansa / mas também se zanga”. E enumera o lado oposto da água doce e mansa: banzeiro, enchente, correnteza, repiquete, cachoeira, redemoinho. Para quem compartilha essas memórias com Astrid, essas palavras podem parecer motivos de brincadeiras distantes. Mas ela adverte: o rio transborda e inunda, arrasta e mata, “afoga quem não sabe nadar”, “enrola quem não sabe remar”. No seu blog, Zemaria Pinto compartilha com seu público uma belíssima resenha crítica sobre a obra Rasos d’Água de Astrid Cabral (da qual retirei o excerto acima) e em parceria com o músico Mauri Mrq, publicam a obra lítero-musical A Lira da Madrugada, musicando o poema “Água doce” de Astrid Cabral.

Água doce

A água do rio é doce.

Carece de sal, carece de onda.

A água do rio carece

da vândala violência do mar.

A água do rio é mansa

sem a ameaça constante das vagas

sem a baba de espumas brabas.

A água do rio é mansa

mas também se zanga.

Tem banzeiro, enchente

correnteza e repiquete.

Pressa de corredeira

sobressalto de cachoeira

traição de redemoinho.

A água do rio é mansa

corre em leito estreito.

Mas também transborda e inunda

também é vasta, também é funda

também arrasta, também mata.

Afoga quem não sabe nadar.

Enrola quem não sabe remar.

A água do rio é doce

mas também sabe lutar.

A água doce na pororoca

enfrenta e afronta o mar.

Filha de olho-d’água e de chuva

neta de neve e de nuvem

a água doce é pura

mas também se mistura.

Tem água cor de café

tem água cor de cajá

tem água cor de garapa

tem água que nem guaraná.

A água doce do rio

não tem baleia nem tubarão

tem jacaré, candiru, piranha

poraquê e não sei mais o quê.

A água doce não é tão doce.

Antes fosse.

Clique AQUI para escutar o poema musicado.

3. 2. O cardápio diário das pequenas-grandes coisas

Hildeberto Barbosa Filho, em 50 poemas escolhidos pelo autor, afirma: “Em Astrid, as coisas, os objetos, as situações de rotina, os ambientes, as ideias, enfim, toda e qualquer matéria prima de poesia, como que se transmutam em realidades outras, integrando uma outra ordem da existência em que as noções imediatas de tempo e espaço, de espessura e de aparência terminam aniquiladas, para que se faça presente o substrato de uma ordem secreta  uma ordem que pode ser ternura ou uma ordem que pode ser crueldade  a gerir os apelos abissais das coisas e dos seres.” (P. 107)

Em “Cardápio”, poema que compõe o elenco de Lição de Alice, Astrid nos exemplifica a dissertação acima:

Cardápio

Nosso cardápio diário

inclui carnes assadas

e angústias bem passadas.

Inclui sangrentos nacos

cobertos de molhos pardos

que sabem a desgosto.

Inclui mil hipocrisias

devidamente empanadas

e servidas à francesa

bem antes da sobremesa

de frutas esquartejadas.

Inclui entre as iguarias

amizades congeladas

sonhos em banho-maria

deleites de amor requentado

em rançosos azeites.

Ódios com pó de pimenta

e as trêmulas gelatinas

de dúvidas coloridas.

Inclui o tédio guarnecido

de exóticos temperos.

Inclui o medo camuflado

em camadas de batatas.

Inclui a morte servida

sem o menor escrúpulo.

(CABRAL, Astrid. De déu em déu: poemas reunidos (1979/1994). Rio de Janeiro: Sette Letras, 1998. p.280)

A leitura dos poemas de “Lição de Alice” me tocaram a tal profundeza que de lá, dos meus “intramuros” escrevi um poema chamado “Espelho de Alice”, que faz parte do meu livro In(-)versos do meu Verso. Por lapso meu deixei de dedicá-lo à Astrid, o que faço agora. 

Espelho de Alice

                      À Astrid Cabral 

Um dia tive um sonho

Cavalo solto, crinas ao vento

Luz de luar, luar de sangrar

A guiar-me trôpegos os pés

Bosques meus, tendas minhas 


Escudo de Perseu oblíquo

Noite travestida de sol

Bocas em notas noturnas

Espelho invertido de Alice. 


Quem vem me buscar?

Sequestrei-me do sonho

Crime inafiançável, hediondo

Forasteiro de além-pátria! 


Busquei-me entre os espelhos

Sem me encontrar em nenhum

Estilhaços de mente-cuore

Cinzas de amor destratado 


E já me tardo na dor...

Vazio de bocas e vozes

Bar aberto, copos vazios

Peitos outrora plenos e meus

Hoje negro e frio acepipe. 

(Rita Alencar Clark, In(-)versos do meu Verso, TAUP, Curitiba/PR, 2024)

4. Da íntima carne da poesia de Astrid Cabral  despedida

A escrita de Astrid Cabral, antes de ser feminista, pois os tempos eram outros, era feminina. Ela nos empresta suas asas para que possamos alcançar a sensibilidade , muitas vezes crua e superior, conquanto ácida, de seus poemas. A sua costura de versos e evocações se faz por dentro da pele, e se mostra entre músculos e consciência, subindo e descendo a fina agulha da poesia em nossos corações, se assim quisermos. Penso que há muito precisávamos fazer esta homenagem à Astrid Cabral, pela sua laureada carreira literária, pelo seu talento inenarrável, pela beleza que nos comove e arrebata a todos quando lemos e penetramos na íntima carne de sua poesia.

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Arquivo da autora

Rita Alencar Clark, professora de Língua portuguesa e Literatura, poeta Amazonense, contista, cronista, ensaísta e revisora. Membro  Efetivo do Clube da Madrugada (AM) desde 1984, membro fundador da ALB/AM - Academia de Letras do Brasil/Amazonas , da ACEBRA - Academia de Educação do Brasil, Membro da AJEB/AM (Associação de Jornalistas e Escritoras) e ASSEAM (Associação dos Escritores do Amazonas) . Colaboradora do Blog Feminário Conexões e dos Coletivos Enluaradas e Mulherio das Letras, com participação em diversas coletâneas e antologias poéticas, sempre representando o Amazonas. Tem três livros publicados:  "Meu grão de poesia, Milton Hatoum - Um certo olhar pelo Oriente-Amazônico" e "In(-)versos do meu verso".


terça-feira, 25 de novembro de 2025

Mulherio das Letras SP

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                                                                                      Por Meire Marion                                                         

M U L H E R I O   D A S   L E T R A S - SP


Em letras talhadas com força e luz,

Mulheres que escrevem, um mundo conduz.

Com canetas que dançam, o amor nos seduz,

E em cada verso, a coragem que reproduz.

 

Feminismo é melodia, é união a brilhar,

Mãe, filha, amiga, no mesmo caminhar.

Mulher que apoia, que se faz voz e chão,

Juntas arquitetando um futuro em união.

 

Nos versos da vida, vamos nos encontrar,

Em um oceano de histórias a navegar.

Toda letra é uma ponte, um elo por criar,

Mulheres das letras, venha nos inspirar!

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Arquivo da autora

       


      Meire Marion é professora de inglês, língua e literatura, escritora e poeta. É diretora da UBE (União Brasileira de Escritores), responsável pelo Prêmio Cláudio Willer de poesia. Têm sete livros para crianças publicados pela Editora Scortecci. É colunista da Revista Voo Livre de literatura. Também participa de diversas antologias com poemas e contos.

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

QUEM SOU EU?, POR MEIRE MARION

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QUEM SOU EU?

Bebê

Filha

Neta

Sobrinha

Prima

Irmã

Aluna

Amiga

Inimiga

Professora

Esposa

Cozinheira

Arrumadeira

Lavadeira

Amante

Cunhada

Nora

Tia

Ex-mulher

Puta

Madrinha

Escritora

Autora

Poeta

Diretora

Tia avó

Diretora

Entrevistada

Apresentadora

Organizadora

Palestrante

 

Tantos títulos que foram me dados ao longo dos anos.

Quando retirados, um por um,

Quem sou de fato?

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Arquivo da autora

Meire Marion é professora de inglês, língua e literatura, escritora e poeta. É diretora da UBE (União Brasileira de Escritores), responsável pelo Prêmio Cláudio Willer de poesia. Têm sete livros para crianças publicados pela Editora Scortecci. É colunista da Revista Voo Livre de literatura. Também participa de diversas antologias com poemas e contos.

terça-feira, 7 de outubro de 2025

O DOM DA BOCA, POR MEIRE MARION

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O DOM DA BOCA

Ter boca é tão bom!

Bom para comer um prato especialmente preparado,

beber aquele drinque festivo no copo alto fino,

despejar tudo que não te faz bem, reclamar com estilo,

fazer biquinho, caretas, mostra raiva ou desprezo.

Bom para beijar, e beijar, e beijar.

 

Bom para expressar ideias, sentimentos, histórias e até mesmo protestos,

deixar entrar a nutrição e o prazer,

sussurrar, deslizar, respirar perto, e morder de leve,

saborear uma fruta fresca do pé, um chocolate e um café,

expressar alegria, simpatia, e conexão com outros.

 

Bom para viver intensamente,

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chorar,

calar,

gritar,

cantar,

declamar, falar besteira,

gemer,

e até tocar um instrumento de sopro.

 

Se parar para pensar, a boca é onde corpo, mente e emoção se encontram.

Ter boca é bom pra caramba!

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Arquivo da autora

Meire Marion é professora de inglês, língua e literatura, escritora e poeta. É diretora da UBE (União Brasileira de Escritores), responsável pelo Prêmio Cláudio Willer de poesia. Têm sete livros para crianças publicados pela Editora Scortecci. É colunista da Revista Voo Livre de literatura. Também participa de diversas antologias com poemas e contos.

sábado, 2 de agosto de 2025

DEUS CRIOU PRIMEIRO O TATU, DE YVONNE MILLER

Por Marta Cortezão 

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Deus criou primeiro o tatu: Crônicas da mata, de Yvonne Miller, é um livro que reune várias crônicas autobiográficas ambientadas na Aldeia dos Camarás (PE), onde a autora residiu por três anos com sua família. Está dividido em quatro partes: Cheiro de terra nova ao sol, que relata as descobertas e ambientação naquele novo lugar; Com gosto de Cajá, que trata das aventuras, da relação com o lugar e seus personagens; Tempos de chuva e chumbo, que traz relevantes reflexões sobre a relação humanidade e natureza a partir de vivências cotidianas e, finalmente, Ipê amarelo, onde a narrativa alcança o ápice do lirismo como forma de reverenciar essa mata, esse chão que se pisa – um capítulo-oferenda que pede mantra, superação e espiritualidade, pois aqui se encerra um ciclo: a autora se despede da Aldeia do Camarás para aventurar-se por novos caminhos.

A crônica Deus criou primeiro o tatu, que dá título ao livro (parte III), aborda a mitologia Guarani e revela muito sobre a narrativa do sagrado e dos seres sobrenaturais em que este livro nos imerge: “Aprendi que, no dia em que Nhaderu resolveu criar a Terra, encontrou o globo cheio de água. Então jogou um punhado de areia em cima e fez o primeiro animal: o tatu, que o ajudaria a espalhar a areia para formar os continentes”. Para Mircea Eliade, “o mito designa uma ‘história verdadeira’ e, sobretudo, altamente preciosa, porque sagrada, exemplar e significativa” (1963, p. 9).  Para que o mundo existisse, o tatu foi imprescindível – a ele coube a função primordial de espalhar a areia pelo globo terrestre, imerso em água, para que se formassem os continentes. Eis uma “história verdadeira”, os continentes estão aí como prova. Quando a autora irrompe o solo sagrado da aldeia, utilizando a força e a leveza da narrativa de uma brilhante cronista para aguçar a curiosidade do leitor, ela funda uma nova Aldeia dos Camarás, cuja sacralidade nos revelará “histórias verdadeiras” com seu viés político, detalhista, descontraído e bem-humorado da realidade que seus sentidos capturam. Eis o livro como prova desta cosmogonia!

A narrativa de Miller experimenta um constante estado de simbiose com os seres da aldeia, como na crônica Vovô flui no fundo quintal, em que a autora reconhece, por seus traços temperamentais, ser neta do igarapé que serpenteia ao fundo de seu quintal – assim como o rio Watu é o avô ancestral dos Krenac. E o que dizer das personagens? Do gato Salém, do cachorro Chico, da lenta esperteza do teju (“Ah, se Luciano soubesse...”), das aranhas, dos morcegos, das formigas 'gigantes', das cobras, do pobre gafanhoto Bárbara Schneider, o peixe atolado, do homem nu... Há muito o que dizer deste universo misterioso. Há também o lado Dark da aldeia, cosmologicamente porque há “as coisas de Yvonne”! Portanto, indico a leitura de Deus criou primeiro o tatu: Crônicas da mata, um livro atravessado por encantarias, vivo, sensorial e tecido por “histórias verdadeiras”, como se percebe na crônica Aldeia dos Camarás (p. 98-101):

Já’a jaguatá, vamos caminhar!

Assim que ouve o comando, Chico vem correndo, senta do meu lado e empina o focinho para eu colocar o peitoral,

            ─ Muito bem, jaguá-i! ─ elogio.

Eu queria mesmo era ter aprendido tupi, mas o curso era aos sábados de manhã, e o que quero fazer num sábado de manhã, muito mais do que aprender qualquer coisa, é dormir. Logo optei pelo guarani. Não tem a ligação com o Nordeste que o tupi tem, mas meu coração de linguista é fácil de agradar. Foi assim que, durante três meses, passei as noites de segunda-feira sentada em frente ao computador, ouvindo o xamoi contar sobre cultura, lutas e língua do povo guarani. Aprendi que, no dia em que Nhanderu resolveu criar a Terra, encontrou o globo cheio de água. Então jogou um punhado de areia em cima e fez o primeiro animal: o tatu, que o ajudaria a espalhar a areia para formar os continentes. Sim, na mitologia guarani, Deus criou primeiro o tatu. Depois, quatro deuses menores para administrar o trabalho na Terra e só depois o homem. Aliás, o homem não, o ser humano. Aprendi também sobre a relação do povo guarani com a natureza, sobre os guardiões da floresta, os espíritos da montanha. E aprendi algumas palavras e frases dessa língua complicada e fascinante, que agora, após o curso, continuo praticando com Chico, meu companheiro de longos passeios.

Enquanto nos afastamos de casa pela rua de terra batida, Chico corre atrás dos gravetos que vou lançando para longe.

Tereó! ─ E ele vai.

Eju apy! ─ E ele vem.

Encontramos o açude calmo. Já vi peixes grandes, jacarés pequenos, cobras, cágados e capivaras nadando naquelas águas, mas hoje se espelham nelas apenas as poucas nuvens brancas do céu. Sedento após a brincadeira, Chico se refresca com a y-y transparente, antes de pedirmos licença aos xondaro e ka’aguy nhe’ para adentrar na floresta. Viemos para apreciar, digo em pensamento, como aprendi nas aulas das segundas-feiras. Logo entramos na mata, naquele mundo calmo e misterioso, onde, rodeada de árvores, respiro o cheiro úmido de terra e plantas, ouço o murmúrio da brisa entre as folhas, admiro os cogumelos e as yvoty à beira do caminho: vermelhas, amarelas, rosa, brancas. Sinto dezenas de olhos nos acompanhando, enquanto sigo o Chico pela pequena trilha. Vez ou outra me detenho para observar a reprodução de lagartas, cheirar uma flor ou acariciar a casca áspera de um tronco.

De volta em o'ó, ligo o computador. Faz tempo que quero saber mais sobre os Camarás, o povo que deu nome ao lugar onde moramos: Aldeia dos Camarás. Mas só acho informações sobre condomínios, aplicativos de entrega e retiros espirituais.  Então vou pelo município: Camaragibe – Terra dos Camarás, como informa a placa de boas-vindas na estrada. Só que... nenhuma informação sobre esses últimos. Na maioria das páginas, fala-se rápida e genericamente sobre se teriam habitado estas áreas antes da chegada dos portugueses, só para logo se estender, por parágrafos e parágrafos, sobre os engenhos da cana-de-açúcar. Quanto ao nome, "Camarás" supostamente se referiria a um arbusto presente na região. Ou seja: vivemos em terra de arbusto?

Não posso o deixar de lembrar que a Assembleia Provincial do Ceará, lá por 1866, chegou a declarar a inexistência de indígenas no território, ignorando todas as etnias ali presentes. Tudo isso para beneficiar a quem lucraria com a expropriação das suas terras. Tapeba, Pitaguary, Jenipapo-Kanindé, Anacé, Tapuya-Kariri, Kanindé, Tremembé, Gavião, Kalabaça, Potiguara, Tabajara, Tubiba-Tapuya, Tupinambá, Karão Jaguaribaras, Kariri - se hoje são oficialmente quinze os grupos indígenas no Ceará, imagina no século retrasado.

Será um caso parecido aqui em Pernambuco? Um caso de falsificação histórica, de invisibilização de um povo por interesses econômicos, de negação de direitos a quem poderia exigi-los? Não me surpreenderia. No fim das contas, os povos originários lutam há séculos contra um Estado que omite sua existência e saqueia suas terras.

Sigo incontáveis links, pulando de página em página, até que finalmente encontro uma referência aos indígenas Camarás. E tem mais: conversando com um amigo camaragibense, ele relata que antigamente os locais entendiam o topônimo assim mesmo, como nome de um povo. Com o tempo, porém, a outra versão – a dos arbustos – prevaleceu. É a versão oficial hoje em dia. E a gente sabe quem dita as versões oficiais, né? Mas tenho esperança: dia desses conheci uma criança daqui de Aldeia. A menina jura ter visto, na floresta atrás da casa, uma família indígena: velhos e jovens, kunhangue, avangue, kyringue.

─ Estão aqui sempre ─ me conta. ─ Andam pela mata, conversam, cantam, as crianças correm e brincam.

Ninguém mais vê, mas eu acredito. E espero que estejam por aqui mesmo. No fim das contas, esta é a terra deles. Aldeia dos Camarás, Camaragibe, Pernambuco, Brasil.


Referências bibliográficas:

ELIADE, Mircea. Aspectos do mito. Lisboa: Edições 70, 1963.

MILLER, Yvonne. Deus criou primeiro o tatu: crônicas da mata. 1ª ed. São Paulo: Aboio, 2022.

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Arquivo da autora
Yvonne Miller (*1985) é natural de Berlim, mas prefere o calor do Nordeste brasileiro, onde mora desde 2017 com sua esposa, enteada, gato e cachorro. Alemã de nascença, brasileira de alma, apaixonada pela crônica, linguista, admiradora de cactos, geminiana e muitas coisas mais.

Tem textos publicados em várias antologias – Paginário (Aliás, 2019), A Banalidade do Mal (Mirada, 2020), Histórias de uma quarentena (Holodeck, 2021), Crônicas de uma Fortaleza obscena (Territórios, 2021), Prêmio de Literatura Unifor 2021: Crônicas (Unifor, 2022), Amores e Lendas (Tubo, 2022), Fraturas: Antologia de Contos 2º Concurso Literário Pintura das Palavras (2022), Tinha que ser mulher (2022), Abraçar e resistir: vozes feministas (Libertinagem, 2023) – e é uma das organizadoras e coautora da coletânea de contos cearenses Quando a maré encher (Mirada, 2021). Na vida real, é mestre em linguística e preparadora de livros didáticos.


quinta-feira, 31 de julho de 2025

7 POEMAS DE MARIA EMANUELLE CARDOSO


Arquivo da autora

Maria Emanuelle Cardoso nasceu em Montes Claros, Minas Gerais, em 15 de novembro de 2000. Graduada em Ciências Biológicas Bacharelado na Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) em 2023, atualmente cursa o mestrado em Biodiversidade e Uso dos Recursos Naturais (PPGBURN) na mesma instituição. Além de bióloga, é poeta e educadora popular. Realiza pesquisas na área de etnoecologia, com ênfase no campo de redes de troca de sementes e mudanças climáticas. Seu livro de estreia amarelo mostarda, do qual foram extraídos os poemas que ilustram esta coluna, foi publicado em 2024 pela editora Nauta. Também tem poemas publicados em antologias e revistas (Há quarenta e seis pés, Totem&Pagu, Cassandra, Aboio, Ruído Manifesto, Casa Inventada, Oficina Literária da Revista Cult, Jornal Rascunho e Relevo). Recebeu o segundo lugar do Prêmio Poesia Agora Verão 2021 (Trevo) e foi selecionada para o Clipe Poesia 2023 na Casa das Rosas.


sangradouro 

espero os fios do cabelo teu

deitada na beira do rio

com os olhos fechados,

como quem come piaus:

 

cansada, faminta,

separando com a língua 

a espinha da carne -

 

atirando à poeira

as escamas que ficam.

 ☆_☆_☆ 

respiração de bicho forte
faz ferida nas paisagens

alguns arqueólogos acreditam
que a idade das pedras lascadas
trata-se na verdade da idade das
pedras estilhaçadas a mudança se
dá porque acreditam que os primatas
não lascavam com atrito de lagarta
pedra por pedra e sim com os estilhaços
da queda faziam suas lanças.
lançaram o artigo com o título: fazer armas
com os estilhaços
que nos caem

☆_☆_☆ 

namazu

os peixes-remo medem aproximadamente seis
metros. quando aparecem, dizem aos japoneses
que é tempo de terremotos. a gramática diz:
sua saída causa terremoto. o beiço diz: o terremoto
causa sua saída. hoje, quando se vê um peixe-remo
sabe-se que é tempo de terremotos e tsunamis.
as relações da causa e consequência do influxo
e efluxo de humanos, por outro lado, ainda não
são totalmente conhecidas. há quem diga
que todo humano é prelúdio de incêndio.
há quem acredite que toda carbonização
é prelúdio de humano. não se sabe se houve
guerra porque existem humanos ou existem
humanos porque houve guerra.
aos humanos quando os vemos
resta contar a lenda de um primata que corre como
planta se esconde como pirilampo contempla kintsugi
e sabe como provocar terremotos

☆_☆_☆ 

Chicletes tutti-frutti

andar sempre na ponta dos pés
descalça e silenciosa
sem olhar para os Reumatismos
não se pode despertar os Nomes
todos sob o tegumento de charcutarias
quieta, cada vez mais quieta
imóvel, translúcida, intocada
como a saudade grotesca das cristaleiras
podes beber nos meus copos
esta poeira na superfície
é do acúmulo de olhos

☆_☆_☆ 

mesmo crescer no escuro é ir em direção à luz

tudo é pequenino,
para ver é necessário arregalar os olhos,
roubar o rosto do tempo
como quem pesca tamarindos
para com os dentes quebrar sua casca
e com a garganta chupar fortemente
seu sumo azedo
até subirem as canelas
múltiplos caules de muriçocas

 ☆_☆_☆ 

Algas Vermelhas

na primeira vez que entrei no rio
fechei os olhos e mergulhei profundamente
fiquei com gosto de areia e sangue na pele
passei então
a mergulhar como quem para a noite se despe
não completamente, apenas o suficiente
sabendo que tanto na noite quanto no rio
a Areia sempre vem

 ☆_☆_☆ 

como quem planta bananas

 

se coloco meus joelhos 

em suas têmporas

é para que sobre eles medite

fique preso 

em suas teias de aranha

caia no corte do seu tango

 

há uma conexão ancestral 

entre os joelhos e a terra 

se ofereço a ti meus joelhos

é para que coloque sobre eles

todo seu peso 

é para te derrubar 

em meus abalos sísmicos 

é para que sobre eles me plante

é para que de meus bagos 

se alimente

 

os joelhos são a primeira ruga da pele

é sempre neles que perdemos

e é sempre sobre ele que nos curvamos

☆_____________________☆_____________________☆ 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA 

CARDOSO, Maria Emanuelle. Amarelo mostarda. 1. ed. Barueri, SP: Editora Nauta, 2024. 100 p. ISBN 978-65-83074-14-0.

Arquivo da autora
Instagram: el___maria

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