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sexta-feira, 12 de junho de 2026

A PALAVRA INSUBMISSA: O PODER DA ESCRITA NEGRA, POR CARLA NEPOMUCENO



«A nossa escrevivência não é para ninar os da casa-grande, é para acordá-los dos seus sonos injustos»  

Conceição Evaristo

Por Carla Nepomuceno

O título da impactante antologia organizada pelo professor Henrique Marques Samyn, «Para despertar os da casa-grande: (alguns) novos escritos de mulheres negras brasileiras», evoca imediatamente uma das máximas mais célebres da literatura nacional. A frase da escritora Conceição Evaristo — segundo a qual a escrita das mulheres negras não serve para adormecer os senhores, mas para despertá-los dos seus «sonhos injustos» — serve de base ética e estética para esta obra. Publicado pela Através Editora no âmbito da Coleção Através do Brasil, o livro funciona como uma ponte internacional que projeta a produção literária e política de autoria negra contemporânea para novos horizontes geográficos. Sob o olhar de Henrique Marques Samyn, professor da UERJ e investigador especialista em raça e gênero, a obra consolida-se como um manifesto de urgência histórica.

A premissa desta antologia habita na sua capacidade de reunir uma ampla variedade de vozes. A seleção de Samyn desafia a iniciação e o esquecimento, ao colocar em diálogo autoras que já alcançaram destaque significativo no panorama editorial recente com escritoras que estão iniciando a caminhada literária. Esta heterogeneidade reflete-se na encantadora variedade de géneros que compõem o volume, onde a fluidez da prosa, a densidade da poesia e o rigor dos ensaios se unem de forma orgânica. Ao longo das páginas, emergem temas caros à subjetividade das mulheres negras: o confronto com corpos racializados, a recuperação da ancestralidade como estratégia de sobrevivência, a celebração e a festividade como pilares de resistência e uma oposição permanente às tentativas históricas de apagamento.



Longe de ser apenas um registro documental, a obra destaca-se pelo seu profundo impacto estético e político. A linguagem aqui não é passiva; ela fere, tensiona e desconstrói a imagem subordinada que, durante séculos, tentou reduzir a mulher negra ao papel de contadora de contos populares ou de empregada doméstica. As autoras dominam as estruturas literárias com técnica e requinte, alcançando assim o seu objetivo de tirar a leitora e o leitor da sua zona de conforto. Além disso, o cuidado editorial da editora Através Editora merece elogios, pois ilustra a importância decisiva do intercâmbio transatlântico de ideias para que a literatura de resistência conquiste mercados historicamente elitistas.

«Para acordar os da casa-grande» é a continuação de vozes que foram silenciadas no passado. 

Nessa antologia da Através Editora, a ancestralidade funciona como um escudo e uma raiz. As escritoras invocam as memórias das avós, das mães e das mulheres escravizadas para autentificar o seu discurso presente. Escrever, é portanto, um ato de justiça histórica.

Em resumo, pode-se afirmar que «Para acordar os da casa-grande» é uma prova indiscutível dos novos horizontes que a literatura brasileira contemporânea está abrindo atualmente. A antologia deixa claro que a escrita das mulheres negras não precisa de permissão para existir; ela se afirma como uma obra estética independente que chegou definitivamente para romper a letargia e o silêncio do racismo estrutural.

O trabalho meticuloso da Através Editora nesta edição demonstra o compromisso da editora em publicar obras que não apenas entretêm, mas também intervêm diretamente no debate social contemporâneo.

Mais informações

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Arquivo da autora




Carla Nepomuceno é poeta, escritora e produtora cultural, Mestra em Literatura, Cultura e Diversidade no âmbito galego-português e Mestra em Educação. Organizadora do projeto literário Café com Português (literatura em galego-português). Livro solo publicado: Não prometo o Nenúfar (TAUP, 2024).

segunda-feira, 8 de junho de 2026

A VERGONHA MUDOU DE LADO, POR RITA ALENCAR CLARK

 Uma mulher que escreve é uma mulher muito perigosa. 

Por Rita Alencar Clark

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Uma mulher que escreve é uma mulher muito perigosa, dizia bell hooks. Que o diga Gisèle Pelicot! Quando o mundo ficou sabendo que uma mãe de família, casada, com três filhos, levando uma vida pacata numa cidade do interior da França foi abusada sexualmente durante uma década pelo próprio marido, autorizando diversos homens a violarem depois de dopá-la, muitos não acreditaram. Como assim? Como um marido poderia fazer isso sem levantar suspeitas? Foram tantas as perguntas e as dúvidas que o caso, narrado pela autora no livro autobiográfico A vergonha precisa mudar de lado  um hino à vida, publicado pela Editora Companhia das Letras, em 2026, viralizou pelo mundo.  

A violência e o abuso escancararam um portal sombrio, no qual muitas mulheres são mantidas como reféns, de maridos, de amantes, de pais e de companheiros. No caso de Gisèle, reiteradamente por anos e inconsciente do que lhe acontecia, dopada, anestesiada, violentada e filmada. Parece ficção, mas não é. E, o que mais nos choca: com a participação de quem prometeu amá-la, protegê-la e respeitá-la. O hoje condenado ex-marido arregimentou mais de 50 homens da comunidade local, de todas as idades (homens e não monstros), para participarem desse ritual violento e abusivo, sem culpa ou ressentimentos, por mais de dez anos transitando pela cidade livres do peso na consciência; amorais, todos eles. A mensagem de Gisèle, ao decidir expor seu caso e abrir mão do anonimato a que tem direito (e juridicamente concedido) é: A vergonha mudou de lado.

Foi sua resposta aos abusos extremos que sofreu que lhe deu força e controle sobre sua vida. As violências continuam a acontecer com outras mulheres, são de todos os tipos e levam a diversas mortes: física, moral, psicológica, emocional, financeira e patrimonial. Sim, há inúmeras mortes para as mulheres que sofrem agressões, até para as que resistem fisicamente a elas, mesmo morrendo todos os dias devido aos traumas. Ser mulher na contemporaneidade é um risco diário e um exercício contínuo de sobrevivência.

A sexual é apenas uma delas. No topo da lista, incluo o epidêmico e atualíssimo feminicídio, mas há outra violação camuflada e abafada pela comunidade intelectualizada, protagonizada por homens em sua maioria. Trata-se da violação literária contra as mulheres que escrevem. Um abuso antigo, que remonta aos primórdios da implantação, no Brasil, das máquinas tipográficas, trazidas em 1808 por D. João VI. Desde esse período, e só para ficar no âmbito nacional, as mulheres que escreviam, muitas sem qualquer pretensão de publicar, já eram relegadas ao mutismo das aspirações literárias. Ou vamos acreditar no “conto da Carochinha", que mulher nunca soube escrever? Por muito tempo, acreditou-se nesse absurdo, fosse por imposição do patriarcado, fosse pela falta de acesso, ou simplesmente pela proibição aos estudos e aos livros, “estudar era caro ou pensar não era coisa de mulher”.

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Com o tempo, e graças a tantas autoras corajosas e brilhantes, dispostas a enfrentar o patriarcado, as mulheres persistiram, resistiram e continuam escrevendo à revelia desta infâmia. Hoje, um número considerável e insurgente de mulheres aponta na Literatura Contemporânea com obras importantes, escrevem mesmo alquebradas por insultos machistas, tentativas de desmerecimento e apagamento dos seus trabalhos literários, muitas vezes produzidos à base de jornadas triplas, sem descanso ou redes de apoio, dividindo seu tempo entre filhos, cuidados domésticos, maridos descontentes, trabalhos mal remunerados e lidando com as incômodas “crises de impostora” durante a madrugada. Não há pagamento, muito menos garantias. Contudo, as mulheres escrevem até as mãos sangrarem no teclado de um notebook, revisando o texto até o dia amanhecer, exaustas, só para recomeçar a rotina doméstica e profissional no dia seguinte. A esta dura rotina, agrega-se outra tarefa relevante: enfrentar a baía de tubarões prontos ao ataque, disfarçados de editores e de críticos literários  não todos, obviamente, há gratas exceções – mas os tubarões são famintos, e se alimentam das fragilidades. Cabe às mulheres não se deixarem abater por análises rasas e não fundamentadas dos seus originais de romances, de poemas, de resenhas, de ensaios, etc. Compete às mulheres buscar a maestria do ofício, sem se deixar contaminar pelo veneno corrosivo de uma depreciação precipitada, capaz de levar autoras principiantes, e algumas veteranas inseguras, a abortarem precocemente suas carreiras literárias. Esta é, sem dúvida, mais um tipo de violência para nossa longa lista. 

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Aquelas que sobrevivem a esta Via Crucis de provações, escapando dos tubarões, das armadilhas da auto sabotagem, da falta de incentivos, certamente conseguem um lugar nas editoras independentes, publicando seus livros, ainda com a missão árdua de vendê-los, divulgá-los, consigná-los em livrarias simpáticas e meios confiáveis para receber, com sorte, um percentual ínfimo por livro vendido. Essa é a nossa realidade, a das autoras que publicam de forma independente, e quer saber mais? Temos muito ainda para falar. Trazemos novas temáticas ao mercado editorial, falamos de útero, abusos, violações, amores livres, nossos corpos, nossos prazeres, poemas eróticos, rasgamos o ventre e abortamos dores seculares, remontamos nossas histórias em romances e novelas. Nossas obras não podem, e nem serão preteridas eternamente em concursos e prêmios literários por pareceristas não capacitados ou gabaritados para exercer a função. Denunciaremos o desprestígio, a intimidação e o silenciamento de nossas vozes, assim como os extermínios de povos originários e das minorias periféricas, das deflorações dos corpos e das florestas, dos abandonos paternos, das alienações parentais, dos preconceitos de gênero, racismo e misoginia. Escancaramos as portas lacradas das alcovas sombrias e revelamos os segredos mais escondidos e vis do patriarcado, porque também nós temos direito à palavra.

Texto pronto e uma alegria íntima, legítima e inconfessável corre pelo corpo e pela alma, com a sensação de ter caminhado por um deserto quente e inóspito, ansiando por publicar e encontrar nossos leitores, sabendo que temos nas mãos escritos dignos de serem lidos e apreciados. Assim nos mostrou Gisèle Pelicot, assim desmontamos o teatro vulgar da hipocrisia, revelando que o mundo masculino não pode sobreviver na impunidade dos arredores domésticos, nos pactos de silêncio e no acobertamento mútuo. Sim, escrever é muito perigoso, principalmente se essa escrita é feita com o sangue e a mente de uma mulher. Gisèle Pelicot nos encorajou a lutar e continuar a escrever; mesmo aterrorizadas, em fúria, despidas e violadas. Porque nossa escrita é única, vem impressa sobre nossos corpos e dores, na pele, não em armaduras frias ou máscaras de persona, mas iluminada por ideias que acendem a alma.

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Rita Alencar Clark
foto: arquivo da autora

Escritora, poeta, cronista, colunista 

do blog feminarioconexoes.blogspot.com 

Colaboradora do Coletivo Enluaradas Amazônia

sexta-feira, 5 de junho de 2026

UM CONTO DE SANDRA SAN'TOS

A vizinha do andar de cima

Por Sandra San'tos

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O sol a espreitava entre as folhas da jabuticabeira no quintal do vizinho. Seis horas da manhã e ela esteve acordada por quase toda a noite. Marta estava de mau humor. Seu relógio biológico andava fora dos eixos: não dormia, a menstruação estava irregular, a fome desaparecera, o intestino andava preguiçoso, o pensamento mostrava-se confuso, e seu humor irritadiço. Creditava sua má sorte à insônia e culpava a vizinha do andar de cima por falar alto a noite toda, todas as noites. Inconformada, apelidou-a de “a louca do telefone”.

Sem sair da cama, contabilizou mentalmente os sons matinais: a vizinha à esquerda, gritaria com os filhos na luta de impedir que se atrasassem para a escola. - Bem na hora! Agora começará a algazarra dos papagaios... Ué! Hoje se atrasaram... – Quase riu. A sinfonia dos papagaios se dava por conta das jabuticabas, eles comiam até cansar, e iam embora. - Esses sim são felizes, fazem o que querem, quando lhes dá na telha. – concluiu, resignada em arrumar-se para mais um dia modorrento de trabalho na repartição.

Havia se mudado há três semanas, após assinar o contrato de aluguel em tempo recorde. Não pesquisara muito. O apartamento bem localizado e com bom preço tinha que ter um defeito, nesse caso: a vizinha notívaga e faladeira. Marta nunca a vira, mas pelo timbre de voz grave e metálico, imaginava uma senhorinha, fumante ou ex-fumante.

- Isso é novidade. Inferno! Já é dia e ela começou cedo. Agora até durante o dia? Com quem ela tanto conversa? Será que é com uma pessoa só? Será que não percebe que os outros seres humanos do planeta querem dormir? – Engoliu a raiva insone, e enfiou a escova cheia de creme dental na boca.

O dia seguiu arrastado e Marta chegou do trabalho por volta das vinte horas, desejando que o importante assunto da vizinha, por fim estivesse resolvido. Despejou sobre a mesa da cozinha algumas sacolas de compras: produtos de limpeza, uns copos novos e insumos para preparar um lanche, já que não tinha ânimo para o fogão. Ainda não se acostumara a cozinhar apenas para ela.

Ouviu um LP do Chico, comeu seu lanche, tomou banho e decidiu ir para a cama mais cedo. Silêncio, luzes apagadas. Quase sentiu-se feliz. Ajeitou-se nos lençóis lavados com um amaciante de perfume de longa duração. (Pelo menos é o que prometia o anúncio publicitário). Relembrou as atividades do dia, planejou mentalmente o próximo, e fechou os olhos que já lhe pesavam. Silêncio...

- Eu já disse, então... É... Eu tô te falando. (Pausa) Eu não vim pra esta cidade à toa. Eu sempre tive um propósito. Todos temos que ter um! É... eu falei, mas ela não ouve.... (Pausa) Simmmm... É o que eu acho... É, é.... Então... Eu tô... verdade, tudo isso é muito importante. – bradava a mulher entre as pausas de seu interlocutor.

- Não é possível! Ela esperou eu me deitar pra começar a falar? – Marta arregalou os olhos sentindo o coração disparar movido pela raiva. Apertou o travesseiro sobre os ouvidos tentando, em vão, abafar o som da conversa. Eu vou filtrar, não vou ouvir. Não me interessa. Será que só eu tô ouvindo? Não é possível que ninguém mais além de mim a ouça. Vou falar com o síndico. – Desvencilhou-se bruscamente das cobertas e ganhou a janela.

A noite avançou pela madrugada, a longa confabulação da vizinha também. Marta acreditou que haviam sido pelo menos três interlocutores diferentes, e com o último, o diálogo evoluíra para uma briga, pois passou a ouvir murros, possivelmente na mesa ou nas portas de algum armário. Foi uma noite regada a palavras de raiva e passos a atravessar o piso, no caso, o teto de seu quarto. Teve ímpetos de soltar um palavrão libertador, de mandá-la calar a boca, de gritar que precisava dormir. Talvez se reclamasse bem alto, algum outro vizinho a apoiasse na reclamação. Pensou, ameaçou, e não o fez.

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No auge dos seus 46 anos, viver sozinha era novidade. Recém-divorciada, não se acostumara a ter mais espaço na cama, ou com a ausência de Alcides e seu sono da morte. O homem roncava tanto que, por vezes, apenas seu ronco lhe trazia a certeza de que ele estava vivo. Quantas noites mal dormidas por culpa da apneia do marido num prenúncio de morte por asfixia. Agora, pela lógica, deveria dormir melhor, afinal estava sozinha.

Como não conseguia dormir, passou a distrair-se tentando entender a conversa da vizinha. Calculou o grau de paciência que teria o interlocutor do outro lado da linha. - Essa deve ser alguma parenta... Esse deve ser o chefe. Será que ela ainda trabalha? Bem pode ser que trabalhe com algum tipo de atendimento telefônico... mas existe Telemarketing de madrugada? Vai ver, conversa à noite por conta do fuso horário. Deve ser isso: os filhos moram fora, e só consegue falar com eles de madrugada. – Sentiu vergonha ao pegar-se com os ouvidos na parede.

Passava os dias sonolenta, até que cedeu aos soníferos; primeiro os naturais, depois os tarja preta que conseguiu com uma colega. Graças a esses, por uma semana viu resultados, mas foi só. A insônia venceu. Tudo o que lhe restara era aquela voz incansável. - Chega, vou tomar uma atitude, assim não dá. Amanhã bato na porta dela.

A privação do sono permitiu que a vizinha preenchesse todas as horas de seu dia, provocando dores de cabeça e a queda de rendimento no escritório. Marta estava um caco e aos poucos, a delusão expulsou a razão, abrindo caminho para toda a ordem de pensamentos intrusos e infundados. - E se essa mulher nem existir? Será que sou só eu que a ouço? Tô enlouquecendo, preciso dormir. - Esgotada e confusa, começou a faltar no trabalho.

Sentindo a vida lhe escapar pelas mãos, considerou tomar alguma atitude, antes que a loucura se apossasse de sua mente. Cogitou ligar para Alcides, mas não lhe daria essa prova de fraqueza. - Eu consigo, amanhã eu resolvo. - O amanhã passava para depois, sempre depois.

Uma tarde, após experimentar um período de longo silêncio, encheu-se de coragem. - A infeliz deve estar dormindo... então eu vou acordá-la. Que sinta o gostinho de ser incomodada. - Seria sua pequena vingança.

Subiu o lance de escadas e parou em frente à porta sentindo o coração bater cada vez mais rápido. Observou uma enorme quantidade de pó sob o batente, e teve a impressão que há muito tempo ninguém passava por ali. Sentiu um misto de raiva e dó da figura que enfim conheceria. Dó, pois afinal experimentavam da mesma bebida: a solidão. E sentiu raiva de si mesma pois, de alguma forma, identificava-se com uma pessoa, no mínimo, desequilibrada.

Engoliu em seco e bateu várias vezes. Quando pensou em desistir, a porta se abriu revelando a pequena figura de uma senhora na faixa de seus 70 anos. Trajava roupas surradas, os cabelos em desalinho, e um par de olhos opacos.

Em frente a culpada de sua tortura, Marta desmontou, deixando que as palavras de seu discurso ensaiado fugissem pela escada de serviço.

- O que deseja menina? – indagou a figura que não condizia com aquela voz potente de suas noites mal dormidas.

- Eu... eu preciso falar com a senhora. Me desculpe simplesmente bater em sua porta, mas, mas...

- Meu nome é Mirtes, e você quem é? – perguntou.

- Eu... Meu nome é Marta, e moro no apartamento abaixo do seu. Queria dizer que... bem, se a senhora precisar de alguma coisa, é só chamar, tá?

- O que mais você quer, menina? - perguntou a mulher, sem nenhuma emoção visível.

- Não, nada não. Era só isso mesmo. Me desculpe a intromissão... – Assim como seu discurso, sua coragem também descera pelas escadas, impulsionando-a seguir pelo mesmo caminho. - Como sempre me acovardei. Marta, você é uma idiota covarde.

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Na esperança de reclamar com alguém, correu escada abaixo, dirigindo-se à portaria. Se não conseguia entrar em um conflito, então o caminho seria uma reclamação formal. Chegando ao térreo, abriu apressadamente a porta dando de cara com o porteiro, que conversava animadamente com um jovem casal.

- Oi, Dona...

- Marta. - respondeu prontamente ao porteiro.

- Desculpe, mas ainda não decorei seu nome. É a idade pesando. – justificou encabulado pela gafe, e sorriu mudando de assunto: - Esses são seus novos vizinhos. Estão de mudança pro número 7, exatamente um andar acima do seu... Vocês vão gostar daqui, só tem gente boa. Sejam muito bem-vindos. – completou dirigindo-se ao casal que já se afastava.

- Sim, cla...claro, sejam bem-vindos. – disse Marta, que por inércia, não desmanchou o sorriso que havia pregado na cara.

- O número sete... está vazio? – perguntou incrédula.

- Ah, sim, já tem mais de um ano. Desde que Dona Mirtes faleceu... Que Deus a tenha. A senhora está bem Dona Marta? Posso ajudar em alguma coisa? – indagou o porteiro fitando-a com ar preocupado.

- Não. Está tudo bem... vou subir, eu esqueci a carteira em casa.

Correu para o elevador e sentiu um grande alívio quando a porta se fechou escondendo-a do porteiro que ainda a observava. - Será que a louca sou eu? Não é possível! Eu a vi! Eu falei com ela! - Olhou-se no espelho do elevador como a esperar uma resposta. Porém, Marta não reconhecia a imagem da pessoa que a fitava de volta.

Entrou em casa, jogou-se no sofá, e imóvel assistiu o dia virar noite. - Ela vai começar a falar, eu sei que vai. Fale Dona Mirtes, não me importa com quem, apenas fale. - O sangue lhe fugia, o suor escorria por seu rosto, enquanto as longas conversas de Dona Mirtes lhe invadiam a memória.

Estranhou o som do silêncio.

- É isso... tenho que ir pra cama, aí ela começa... Se eu deitar e tentar dormir ela começa. Então que venha Dona Mirtes... Que venha, pois estou pronta para a senhora.  

Deitou-se como quem arma uma estratégia de guerra.

- É... Eu sei. Não disse que seria assim? - Mirtes atacava novamente.

-  Eu avisei, mas... ela não me ouve... As coisas têm que mudar! Não... não fala besteira, eu sei do que estou falando, eu já passei por isso... Acho melhor marcarmos uma reunião...

Sentindo como se tivesse ganho uma batalha, Marta de um pulo colocou-se em pé, e apressada, avançou pelas escadas. Preparou-se para bater, mas desta feita, a porta abriu-se antes da primeira pancada.

- O que você quer, menina Marta? – perguntou a mulher, fitando-a com seu olhar sem viço e um sorriso no canto da boca.

- Apenas conversar, Dona Mirtes... Só quero conversar. Posso?

- Entre, menina... entre. Eu já lhe esperava. – respondeu a vizinha fechando a porta atrás delas.

E assim, no andar de cima, a solidão quebrou o silêncio.


FIM

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Arquivo da autora


Sandra A. Santos é pedagoga com especialização em Educação Ambiental, ambientalista apaixonada pela natureza e pela vida em todas as suas formas. Hoje aposentada, dedica-se à literatura, escrevendo contos, romances e poesias que giram em torno do universo feminino. Com trabalhos publicados em antologias no Brasil e na Argentina.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

UMA CRÔNICA DE MARGARIDA MONTEJANO

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REATANDO O CORDÃO

Ela me amou primeiro.
Eu a amei no segundo segundo.
Construímos juntas
nossa história de Amor.

Por Margarida Montejano

Cara leitora, caro leitor! Sobre a maldade impressa e expressa em atos e palavras contra a mulher, os animais, a natureza, compartilho está crônica com vocês!

Minha mãe aprendeu com a mãe dela, que aprendeu com a avó, que aprendeu com a tataravó… que aprendeu com a Mãe Terra que o cordão umbilical cortado ao nascer, um dia, pela força da palavra, será reatado. 

E, antes mesmo de eu aprender a falar, minha mãe já tomava o cuidado de me ensinar a ler. A ler o dia e a noite. A interpretar a chuva e o vento. A admirar o sol, a flor, as árvores e o mar. A pensar antes de falar e que, estranhamente, pensamento e palavra moravam no coração!  Que vida e morte andavam de mãos dadas. Eu só ouvia.

Dizia ela com palavras de bem-querer, que a vida se constrói aos poucos e, com os pedacinhos do tempo e das palavras que destinamos às plantas, aos bichos, às gentes e…, devagarinho completava… “às criancinhas”. Insistia em falar que nós, no uso do tempo e das palavras, tecemos a forma de nossa morte.

Eu não entendia nada, mas achava tudo muito lindo. No som melodioso das palavras tudo, segundo ela, num dado momento da vida formaria um grande quebra-cabeça incompleto. Sim! Insistia em dizer que faltava, entre as coisas, bichos, flores, gentes e palavras, o meu pedacinho, a minha parte.

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Eu a observava por horas na lida do dia e, quando cansada, jogava água no rosto e lançava o olhar ao infinito, desfiando, no rosário invisível entre os dedos, o “Salve Rainha” a rezar. Ela, baixinho, pedia a Deus, com delicadeza, que protegesse a palavra. O pensamento, a boca, as mãos e o coração.

Não entendia eu que palavra ela pedia para Deus proteger. Curiosa, queria saber. Um dia, desses dias comuns que povoam as nossas lembranças, a peguei sussurrando ao pé do ouvido de meu pai.  Esforcei-me pra ouvir e, com muito custo, descobri, no sussurro e cumplicidade entre os dois, a palavra cantada a entoar gentileza.

Dizia ela a ele: - Seja gentil! Pense bem! A vida de mulheres, dos bichos, das florestas e rios, pede cuidado.  Cuidado com pensamento e linguagem. Ambos moram no coração! Cuide, ao falar! A palavra retorna insana a quem mal a profana! Numa breve pausa, continuava ela: palavras não foram feitas para agredir ninguém. São ondas sonoras através das quais os sentimentos, maus e bons, vão e vêm. Cuidado! Nosso cordão umbilical, vínculo com a vida precisa ser reatado.

Vida?   Será esta a PALAVRA?

P.S.: Ofereço esta crônica a todas as Mamães de todos os tempos. À minha, à tua...

Margarida Montejano - 10/05/2026

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Arquivo da autora
Margarida Montejano, mora em Paulínia/SP. É Poeta e escritora feminista; Func. Pública na Secretaria Municipal de Educação de Campinas. Defensora ativa dos direitos da Mulher, sendo membra do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher; Coordenadora do Projeto Bem-Me-Quero: Empoderamento Feminino e Igualdade de Gênero e, Criadora do Canal Literário – N’outras Palavras –  histórias que inspiram, no Youtube. Autora dos livros Fio de Prata - Ed. Siano (2022); Chão Ancestral, TAUP Editora (2023) e dos livros infanto juvenis A Poeta e a Flor,  A Poeta e a Sabiá, pela Editora Siano. (2024) e O Silêncio da Loba, TAUP, Editora (2025). Para contatar com a autora: @margaridamontejano.escritora

terça-feira, 10 de março de 2026

PROTAGONISMO FEMININO EM FOCO

A ESCRITA DAS MULHERES E A REINVENÇÃO DA LOUCURA: DE STELLA DO PATROCÍNIO ÀS AUTORAS CONTEMPORÂNEAS 

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1. O controle social através da saúde mental
 

Ser mulher não tem sido tarefa fácil nos dias atuais. De qualquer modo, nós mulheres, sabemos que, principalmente no Brasil, isso nunca foi usual. A sabedoria oriental milenar nos estimula a evitar extremismos, optando, sempre que possível, pelo caminho do meio. Em contrapartida, o respaldo científico para esse debate encaminha a diversos estudos que evidenciam a utilização das instituições de saúde mental para exercer controle social e patriarcal sobre o universo feminino. Historicamente, o monitoramento estratégico do comportamento e a tendência à patologização do corpo e da mente feminina já provocaram dores e tragédias, isolando mulheres e desestabilizando inúmeras famílias. Compreender essas dinâmicas permite lançar um olhar perscrutador sob densa névoa: estratégias envolvendo cuidados com a saúde física e mental sempre mascararam projetos de dominação e de controle social. 

2. Exílio e silenciamento: o caso Stella do Patrocínio 

Isso remete ao artigo da edição de fevereiro da Revista Voo Livre, em que citamos a internação involuntária da poeta Stella do Patrocínio, no Rio de Janeiro. Mais um caso de exílio: uma mulher negra, cuja voz era incompreensível no contexto institucional da época. Não se pode desconsiderar também o momento político e social desse acontecimento, quando o emprego maciço de práticas eugenistas de higienização dos espaços sagrados tratava corpos negros como indesejáveis na arquitetura central das cidades. Há relatos de que as constantes mudanças de localidade, no início do tratamento manicomial, impossibilitaram o acompanhamento familiar. Assim, Stella permaneceu reclusa nessas instituições até seu falecimento, quarenta anos depois. 

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3. A lógica da submissão: de "O Alienista" à história de Pierina
 

Nesse contexto, a literatura nos instiga a questionar sobre os tratamentos de saúde mental como práticas de silenciamento e de coerção, principalmente das mulheres. Alegoricamente, Machado de Assis, o imortal crítico da sociedade e das instituições, trata desse tema na obra “O Alienista”. Também a literatura acadêmica nos adverte a respeito do que ainda precisamos compreender sobre esses mecanismos históricos de dominação. O livro-tese da historiadora Yonissa Wadi “História de Pierina: subjetividade, crime e loucura” é bastante elucidativo: no início do século XX, a trajetória de uma mulher e suas cartas são julgados a partir de uma ótica exclusivamente masculina, metódica e patriarcal. Nesse relato, a partir de uma pequena comunidade do sul do país, a internação manicomial de Pierina desencadeou a adequação de seu comportamento à lógica da subserviência: afinal silenciada e submissa ao papel tradicional de esposa e de mãe, nos moldes sociais e econômicos requeridos por sua comunidade de imigrantes italianos. A sistematicidade dos métodos científico e jurídico, aliada à rigidez das estruturas patriarcais não permitiu que fossem, sequer, ouvidas as queixas da mulher. Percebe-se que, ao final de dois anos de tratamento psiquiátrico, Pierina cansou-se de tentar se fazer ouvir. Isso foi suficiente para que obtivesse alta e fosse encaminhada, mesmo contra a própria vontade, às funções modelares de mãe e de esposa, em sua pequena cidade, no Rio Grande do Sul. 

4. A urgência de racializar o debate na saúde pública 

Entretanto, apesar desse reconhecimento, a violência de gênero contra as mulheres não tem sido tratada, de modo explícito, como um fator de risco para a saúde mental. Entendemos, portanto, que é urgente implementar, nos serviços de saúde, intervenções mais eficazes para o acolhimento e o cuidado das mulheres que são, cotidianamente, vitimadas pelas inúmeras violências de gênero. Nesse contexto, o Plano Nacional de Políticas para as Mulheres (III PNPM), realizado em 2013, enfatizou a transversalidade e o investimento na saúde integral, como possibilidades de transformação desses espaços cristalizados de dominação e de invisibilização da figura feminina no aparato estatal. A conferência abordou também a violência e a saúde mental. Por outro lado, estudos acadêmicos e clínicos de problemas psicológicos e psiquiátricos que afligem pessoas negras, no Brasil, ainda enfrentam silenciamento histórico, embora haja obras pioneiras e fundamentais que se tornaram referências no tema. A respeito desse tema, a literatura negro-brasileira contribui, dando destaque a intelectuais como Lélia Gonzales, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro, Sueli Carneiro, Cida Bento, Jarid Arraes, Miriam Alves, Geni Guimarães, Elisa Lucinda, entre outras. A produção autoral dessas mulheres fornece base teórica e conceitual para que se investigue o racismo como elemento fulcral na saúde mental dos indivíduos. De modo semelhante, o reconhecido psiquiatra e pensador caribenho Frantz Fanon analisou o sofrimento mental e concluiu que a opressão colonial e o racismo desencadeiam despersonalização e impõem um sentimento de suposta inferioridade que impacta, grandemente e de forma negativa, a saúde mental da população afrodescendente. Há também diversos braços do Movimento Negro, como a Articulação Nacional de Psicólogas/os Negras/os e Pesquisadoras/es (ANPSINEP), que vem consolidando, através de pesquisas e congressos, uma produção teórica contínua que une psicologia, saúde coletiva e racialização das relações. Trabalhos dessa natureza atualizam o debate sobre os desdobramentos do racismo estrutural no cotidiano social, mais especificamente, da população negra, com impactos inquestionáveis sobre a vida das mulheres. 

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5. Escrevivência e herança colonial: o legado de Conceição Evaristo
 

No campo literário, Conceição Evaristo, premiada intelectual, produziu obras de reconhecido valor para o arcabouço da literatura brasileira contemporânea. Ela é, hoje, uma das escritoras negras mais prestigiadas no contexto da produção escrita das mulheres. Entre seus livros mais lidos e comentados, figura o romance Ponciá Vicêncio, cuja trama resgata o sofrimento psíquico, no seio familiar, decorrente do racismo estrutural e da herança colonial. Nessa obra, a saúde mental da protagonista aparece ancorada em condicionamentos históricos que legaram às famílias afro-brasileiras: rigorosos desafios sociais e econômicos, preconceito e rejeição histórica. Assim, Ponciá é afetada por uma série de violências simbólicas e físicas que refletem a realidade da maioria das mulheres negras no Brasil. 

6. A palavra como cura: literatura e resistência na contemporaneidade 

Nessa conjuntura, a literatura vem se estabelecendo, cada vez mais, como palco da resistência feminina. De um ponto a outro do país, encontramos autoras produzindo cura a partir da palavra poética e da ficcionalização. Assim, de um rico mosaico de intelectuais, destacamos o trabalho da escritora e psicoterapeuta nipo-brasileira Patrícia Gondo de Goes, imortal da ALBSC (Academia de Letras do Brasil de Santa Catarina), seccional Joinville, que vem escrevendo sob a égide da saúde mental e emocional. Ela, que morou no Japão por 25 anos e é tradutora do idioma japonês, desenvolveu abordagem holística acerca da psique feminina, a partir de suas vivências, da psicoterapia e de terapias integrativas . Além de atuar no campo da saúde, das Letras e das artes, Patrícia desenvolve, paralelamente, um trabalho profícuo e comprometido, voltado para os direitos das mulheres, na cidade de Joinville, com reflexos intensos no conjunto de sua obra, que conta com um livro publicado e outro no prelo. Das Minas Gerais, destacamos a psicóloga clínica e poeta Stella Maris Souza Marques, que é doutora em Psicologia, suas atividades profissionais incluem oficinas de Teatro do Oprimido, meditações guiadas e palestras para estudantes em escolas públicas. A autora publicou a trilogia Além do que Parece: “Parecia Amor”; “Parecia Viagem” e “Parecia Dom". O foco da sua escrita inclui promover reflexões sobre relacionamentos tóxicos e outras formas de violências, inclusive, as mais sutis. A autora discute o luto coletivo, as altas habilidades, a inclusão e a sanidade mental, principalmente, entre adolescentes e adultos jovens. 

7. Considerações finais 

Em suma, seguimos resistindo e contornando as mazelas do pensamento androcêntrico e do antifeminismo que, infelizmente, ainda dita o tom de muitos dos discursos que nos atravessam. Porém, é incontestável que compreender e tratar a saúde mental envolve abordar o ser em sua complexidade inerente. Isso envolve considerar diversos fatores, como os históricos e os sociais e, - não se pode negar, - a necessidade de racializar o debate. Desse modo, promovemos rupturas com práticas institucionais e com discursos legitimadores de silenciamento e de jugo sobre as subjetividades femininas. As narrativas que emergem da literatura, da pesquisa e do trabalho de escritoras, demais artistas e profissionais contemporâneas são reveladoras do poder da palavra. Essa incrível potência que, devidamente manejada, torna-se mecanismo de resistência e de cura. Assim, nosso artigo dá relevo à voz de mulheres que são capazes de transformar dor em reflexão e experiência em conhecimento. Afinal, ao revisitar o passado e questionar antigas certezas, escritoras, pesquisadoras e profissionais da saúde reafirmam que a escuta sensível pode ampliar a compreensão acerca da saúde mental e romper com estruturas históricas de opressão. Ademais, reconhecer a violência de gênero e o racismo estrutural como elementos intrínsecos a esse debate é indispensável para desenvolver práticas de cuidado eficazes, éticas e inclusivas. Nesse aspecto, a literatura, tanto como fonte quanto como produto, nos fortalece e nos convoca a envidar esforços em prol do nosso direito à saúde, ao cuidado e ao respeito, em âmbito privado e institucional. Sigamos juntas… 

8. Referências para esse artigo 

ASSIS, Machado de. O Alienista. MonteCristo Editora, 2023. BRASIL, Secretaria de Políticas Para Mulheres: II Plano Nacional de Políticas para Mulheres. Brasília, 2008. Disponível em: https://www.gov.br/mulheres/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/arquivo2IIPNPM (Acesso em fevereiro de 2026). 

COSTA, Heliene Rosa da. Poéticas da resistência: o legado de Stella do Patrocínio e a luta antimanicomial contemporânea no Brasil. Revista Voo Livre, Ano 6, número 64, Fevereiro de 2026, pp:26-28. Disponível em: https://revistavoolivre.com.br/revista-voo-livre-ano-6-no-64-fevereiro-de-2026/ (Acesso em fevereiro de 2026). 

EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2003. FANON, Frantz. Alienação e liberdade: escritos psiquiátricos. São Paulo: UBU Editora, 2020. 

GOES, Patrícia Gondo. Ancestralidade Eu, Descendência. Joinville/SC: Clube de Autores, 2023.

MARQUES, Stella Maris de Souza, Parecia Amor. Uberlândia/MG: Editora Subsolo, 2024.

MARQUES, Stella Maris de Souza. Parecia Viagem. Uberlândia/MG:Editora Subsolo, 2024.

MARQUES, Stella Maris de Souza. Parecia Dom. Uberlândia/MG: Editora Subsolo, 2024. Stella do Patrocínio. Museu Bispo de Rosário: Arte Contemporânea. Disponível em: https://museubispodorosario.com/stella-do-patrocinio-memorias/ (Acesso em fevereiro de 2026). WADI, Yonissa Marmit. A história de Pierina: subjetividade, crime e loucura. Uberlândia: EDUFU, 2009.

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Arquivo pessoal
Heliene Rosa, natural de Patos de Minas, Minas Gerais, é uma escritora, professora e pesquisadora dedicada às poéticas femininas. Mestre em Linguística e doutora em Estudos Literários pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Heliene é uma voz ativa na militância pelas causas das mulheres e da negritude. Articulista no Blog Feminário Conexões e integrante de diversos coletivos femininos, fundou, em 2016, o GELIPLIT (Grupo de Estudos em Língua Portuguesa e Literaturas), com o propósito de promover a formação continuada de professores de Língua Portuguesa e Literatura.

Com uma carreira marcada pela coordenação de projetos literários e pedagógicos, Heliene foi premiada no Oitavo Concurso Nacional pela Igualdade de Gêneros com uma sequência didática voltada à escrita, envolvendo estudantes do Ensino Básico. É coautora em diversas coletâneas nacionais e internacionais e organizadora de antologias literárias e acadêmicas. Em sua produção autoral, destaca-se com os livros Enquanto as hortênsias florescem (2023) e Literatura é território: poéticas femininas indígenas em movimento (2024).

domingo, 8 de março de 2026

O DIA INTERNACIONAL DA MULHER

"é difícil aceitar o perfume quando o ar está saturado pelo cheiro de pólvora"


Oito de março. Aceito o café na cama, mas engulo um calendário que insiste no vermelho para marcar o feriado que celebra “O dia internacional da mulher” que, na verdade, é um marco das nossas  lutas e conquistas. Tudo bem, tento entrar no clima do dia, mas sobre mulheres o que vejo é o vermelho que escorre na TV e nas redes sociais. Neste dia, as flores ofertadas parecem pesar toneladas, pois é difícil aceitar o perfume quando o ar está saturado pelo cheiro de pólvora, de medo e de uma injustiça que se renova a cada noticiário.


Dizem que o lar é o porto seguro, mas para milhares de brasileiras, ele é o epicentro do abalo sísmico. O feminicídio não é um raio em céu azul; é o estágio final de um roteiro escrito a muitas mãos, pela posse travestida de amor e cuidado, pelo silêncio dos vizinhos e pela cegueira de um “Sistema” que chega sempre depois que o corpo já esfriou. As formas brutais de morte, que temos visto ultimamente, com requintes de crueldades - que desafiam a sanidade -, não são apenas crimes; são mensagens de ódio e dor enviadas a todas nós, um lembrete violento de quem ainda se julga dono da vida alheia.

E se o fim é trágico, o começo é desolador.

Recentemente, Minas Gerais nos esfregou na cara a ferida aberta da nossa falha civilizatória. Uma menina de 12 anos, uma criança que deveria estar ocupada com cadernos, brincadeiras e o florescer lento da juventude, vivendo com um homem de 35. Não consigo chamar isso de "relacionamento",  o nome é estupro de vulnerável, é exploração, é o roubo sistemático de uma infância que nunca será devolvida. Quando permitimos que normalizem relações de  "homens mais velhos com crianças", estamos pavimentando o caminho para o abuso, estamos dizendo que o corpo de uma menina é um território a ser conquistado, e não uma vida a ser protegida.


E essa  violência travestida de "amor" é só a ponta do iceberg, por baixo dela sustenta-se, há séculos, a montanha de gelo da desigualdade, do machismo e da misoginia. É a mulher que não sai de casa porque não tem autonomia financeira, a mãe que acumula três jornadas e ainda é culpada pela "rebeldia" dos filhos, a menina que aprende desde cedo que o seu "não" vale menos que o desejo de um homem.


Almoço a dois, mas nesse dia degusto o feminismo não como uma escolha teórica ou uma pauta de militância distante, mas como um kit de sobrevivência, como um grito que exige que as meninas de 12 anos sejam apenas crianças e que as mulheres adultas não se tornem estatísticas antes do jantar. 

Que a nossa indignação seja maior do que  o que nos alimenta de maneira indigesta, porque, enquanto uma de nós for silenciada pelo cano de uma arma ou pela mão de um abusador, nenhuma de nós estará, de fato celebrando “O dia internacional da mulher”.

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Rilnete  Melo é maranhense, poeta, escritora, cronista e cordelista, membro das academias de letras ACILBRAS e ABMLP, colunista no blog Feminário Conexões e colaborada da Revista internacional The Bard, coautora de várias antologias nacionais e internacionais, vencedora de seis concursos literários,  autora dos livros Construindo Versos, O máximo de mim e outros mínimos poemas, Pérolas do  meu silêncio, zine Dezcontos micros e autora de cinco cordéis.

sexta-feira, 6 de março de 2026

UM CONTO DE SANDRA SAN'TOS

A   R E V O L T A   N O   D E S C A R T E

POR SANDRA SAN'TOS

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Eu não estava sozinho; junto a mim, muitas coisas familiares: livros, revistas, salmos da igreja, roupas, algumas ferramentas de pedreiro, um par de óculos, e outras que não conseguia divisar. Era um lugar escuro, cheio de ruídos desconhecidos, além de um cheiro modorrento a causar-me desconforto.

 Tem mais alguém acordado? Sabem que lugar é esse? – falei, dirigindo-me aos companheiros de destino incerto.

 Eu acho que estamos no lixo. Agora calem-se, porque alguém se aproxima. – respondeu um objeto abaixo de mim.

Seguiram-se sons de sacos se abrindo e caixas sendo rasgadas. Um dos visitantes, considerei que seriam ao menos dois, assoviava um trecho de uma música desconhecida. Sim, só poderíamos estar no lixo, pois conforme andavam, o mau cheiro também era revirado.

 Caramba! Quanta tralha! Só tem porcaria aqui, tô achando que é perda de tempo. Olha isso: livro, remédio, roupas rasgadas, roupas cortadas... Quem jogou não queria que ninguém pegasse. - O som de coisas quebrando denunciava a raiva por não encontrarem nada de valor, ou que lhes tivesse serventia.

 É isso o que acontece com as coisas dos mortos amigo: vão para o lixo. Se eu fosse tua mulher, botava você no lixo. Lugar de tranqueira é no lixo mesmo. – riu da própria piada e completou antes que o amigo lhe respondesse com alguma ofensa:

 Ei, olha só, eu achei um rádio. Eita, que é uma velharia! Será que funciona essa merda? Se não funcionar, vendo as peças e já no lucro.

 Pode ser, mas vambora que eu tô com fome. – retrucou o outro.

Assim que se afastaram, teve início uma verdadeira balbúrdia entre os objetos que jaziam comigo no descarte.

 Isso não é justo, eu ainda estou em boas condições. - gritou o livro de teologia me fazendo duvidar da sua religiosidade.

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 Vamos balançar a caixa com força, todos juntos até virar, assim vão ver que as coisas de valor estão aqui. – sugeriu a chave de fenda enferrujada, que fora enrolada em um lençol.

 Pra quê minha senhora? Sairemos andando? É isso o que sugere? – estamos velhos e sem uso já há algum tempo. Quem estava em boas condições foi destruído antes de ser colocado aqui. Não percebe que nem pra doação nós servimos? – retrucou um disco quebrado.

A essa altura da discussão, a camisa estava em prantos, derramando linhas por todos os lados, enquanto o livro de marcenaria se desesperava com a falta de suas folhas iniciais.

 Quem fez isso estava com raiva. Não se rasga um livro, isso é absolutamente revoltante. – completou o livro de teologia.

Arlindo, meu dono, provavelmente morrera. Eu não tinha mais dúvidas. O burburinho de meus companheiros me cansava, então preferi o silêncio; afinal, eu era o mais velho daquela caixa. Era hora de fechar os olhos, ficar quieto e aceitar meu fim. Me calei, e me abstraí de mim mesmo escutando a chuva que batucava o exterior de nossa caixa.

Meu humano costumava passar muito tempo calado, comigo nas mãos, pensando em sabe-se lá o quê, apenas me observava. Ele me mantivera por hábito e não por necessidade; talvez até por afeto, pois eu, já não exercia minha função há bom tempo. Além de ser objeto de contemplação para Arlindo, eu também servira de brinquedo para sua neta, a menina Clara, que tinha o talento de lhe reacender o olhar.

 Clara, devolve pro vovô. Se você derrubar, vai quebrar, cuidado. – falava mesmo sabendo que eu era um caso perdido. Para mim, não havia mais conserto.

Era isso, Arlindo morrera e eu morreria também, ponto final. Preferi manter-me alheio àquela conversação inútil.

 Talvez ainda tenhamos uma chance. Tem muita gente precisando de algo útil. – arguiu uma luminária antiga.

 Depende do que você chama de útil. – completou o martelo sem cabo.

 Deixa de soberba e verá, sou um bom livro, edição caprichada. Logo estarei servindo a olhos inteligentes.

 Fiquem quietos e ouçam, está chegando alguém... Com passos pequenos, se for criança, não se interessará por nenhum de nós. – interrompeu a chave de fenda.

Era Clara, a neta de Arlindo. A menina passou um bom tempo abrindo e fechando caixas. Vasculhou uma por uma, até que abriu a nossa. Retirou objeto por objeto, mantendo em uma das mãos uma revista da igreja que o avô frequentava, enquanto a outra penetrava no desconhecido. Senti quando fui levado para fora e recostado ao seu peito.

 Clarinha, Clarinha! O que está fazendo minha filha? Porque tá revirando o lixo? – gritou sua mãe do outro lado da rua.

 Mamãe, são as coisas do vovô. Eu preciso pegar tudo de volta.

 Filha, foi sua avó quem jogou tudo isso fora. Ela não vai ficar feliz se souber o que você tá fazendo... E eu, também não quero essas coisas lá em casa.

 Mas, mãe... por que a vovó colocou as coisas do vovô no lixo?

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 Bem, sua avó e seu avô... Não se davam nada bem. Mas, esse é o tipo de coisa que você só vai entender quando ficar mais velha. Agora vem, larga essas coisas aí, que não quero irritar a sua avó. – falou a mãe encerrando o assunto.

A menina havia chafurdado no que restara do avô. Aquelas coisas tinham enorme valor para ela; mesmo assim, antecipando um embate inútil, obedeceu. Não sem antes esconder-me em seu bolso. Devolveu as revistas para a caixa e fechou-a com cuidado, despedindo-se não apenas de coisas, mas de uma pessoa que lhe faria muita falta.

 Adeus vovô – disse em voz alta, sem entender a lógica dos adultos.

Por muito tempo fui seu segredo e dos meus companheiros de caixa, nada mais eu soube.

Passei muito tempo escondido entre livros, roupas, fotos e coisas importantes, até a menina se sentir segura para assumir ter me tirado do lixo.  Quando saí da clandestinidade, fui polido e ganhei uma corrente nova. Nunca mais andei em um bolso, pois esse era um costume de Arlindo. Fui contemplado com um relicário e hoje resido sobre o piano de Clara, de onde a vi crescer e se tornar moça. Vi sua formatura, a vi se casar, assisti a muitos outros momentos importantes, felizes ou nem tanto.

Ela nunca mandou me consertar, porque eu sou uma extensão de seu avô, e ter-me por perto lhe basta. Dele, herdou o hábito de me contemplar longamente, pensando em sabe-se lá o quê. Tal avô, tal neta.

O tempo ensina, e de tempo eu entendo, mesmo que meus ponteiros aposentados mostrem o passar das horas de uma forma diferente. Um dia, Clara também não aparecerá mais e, quem sabe, talvez um dia ela tenha uma neta, e essa me guarde, e aprenda a admirar esse velho relógio que registra em silêncio a caminhada de gerações.

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Arquivo pessoal da autora

Sandra A. Santos é pedagoga com especialização em Educação Ambiental, ambientalista apaixonada pela natureza e pela vida em todas as suas formas. Hoje aposentada, dedica-se à literatura, escrevendo contos, romances e poesias que giram em torno do universo feminino. Com trabalhos publicados em antologias no Brasil e na Argentina.

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A PALAVRA INSUBMISSA: O PODER DA ESCRITA NEGRA, POR CARLA NEPOMUCENO

«A nossa escrevivência não é para ninar os da casa-grande, é para acordá-los dos seus sonos injustos»    Conceição Evaristo Por Carla Nepo...