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terça-feira, 25 de novembro de 2025

ASTRID CABRAL, POR SANDRA GODINHO

Fonte da imagem: aqui
Astrid Cabral nasceu em Manaus, AM, onde fez os primeiros estudos e integrou o movimento renovador Clube da Madrugada. Foi morar no Rio de Janeiro ainda quando adolescente. Graduada em Letras Neolatinas na atual UFRJ. Lecionou língua e literatura no ensino médio e na Universidade de Brasília, onde integrou a primeira turma de docentes saindo em 1965 devido ao golpe militar. Em 1968 ingressou por concurso no Itamaraty, tendo servido como Oficial de Chancelaria em Brasília, Beirute, Rio e Chicago. Com a anistia, em 1988 foi reintegrada à UnB. Ao longo de sua vida profissional desempenhou os mais variados trabalhos, fora e dentro da área cultural. Detentora de importantes prêmios, participa de numerosas antologias no Brasil e no exterior. Colabora com assiduidade em jornais e revistas especializadas. Viúva do poeta Afonso Félix de Sousa, é mãe de cinco filhos. Fonte: http://www.jornaldepoesia.jor.br/astridcabral.html 



A PROSA NA OBRA "ALAMEDA" DE ASTRID CABRAL 

Sandra Godinho

A primeira vez que tomei conhecimento de Alameda, a obra inaugural de Astrid Cabral publicada em 1963, foi através do meu querido e falecido amigo José Benedito dos Santos que, sabendo que eu escrevia um romance cujo narrador era uma árvore, deu-me o livro de presente. O efeito da escrita da autora em mim foi devastador e indelével. Meu querido amigo me fez entender a grandeza de Astrid e, além disso, reconhecer que era uma mulher à frente do seu tempo.

Primeiro, porque ela deu protagonismo ao mundo natural. Não que não houvesse outros autores que mencionassem matas e florestas. Inferno Verde, livro de contos de Alberto Rangel publicado em 1908, e A Selva, romance de Ferreira de Castro publicado em 1930, já mencionavam o mundo natural, mas sempre como cenário, selvagem, inóspito e imenso. Astrid não somente deu protagonismo ao mundo natural, mas também relacionou o mundo natural ao humano, fazendo uma analogia à nossa própria vida. Ao personificar grãos de feijão, laranjas, rosas, papoulas, folhas, orquídeas etc., atribuindo-lhes características humanas, a autora fugiu do que poderia ser considerada uma literatura regional, algo que na tradição literária sempre foi considerada menor. Além disso, Astrid antecipa uma consciência ecológica que só tomou vulto no Brasil em meados dos anos 1980, quando a consciência nacional sobre as questões ambientais passou a ser levada a sério, corroborada por estudos científicos de maior envergadura. Não fosse isso o bastante, Astrid trouxe temáticas femininas às suas narrativas, especialmente ao tratar a terra como um “cemitério e viveiro de sementes”, reforçando a função maternal, equiparando a terra ao útero feminino; trata-se agora da mãe-terra e da mãe-natureza, mas não só. Astrid, ao abordar temas como a beleza e a reprodução, e refutando-as como o ápice das funções femininas, evidencia o ativismo feminista em suas narrativas.

Outro item que me chamou a atenção foi o título escolhido pela autora, Alameda, que é, afinal, um caminho constituído por árvores plantadas em fileiras. O que se intui através desta escolha é que realmente Astrid não quis retratar a natureza selvagem, mas uma domesticada, singularizada e culturalizada. Ao discorrer sobre esta natureza domesticada, Astrid, por analogia, fala da nossa própria domesticação frente aos valores impostos por nossa sociedade.

Alameda traz-nos 20 histórias triviais, singelas e colhidas do nosso cotidiano. Através delas, Astrid faz profundas reflexões filosóficas e psicológicas sobre nosso próprio existir. São narrativas cujos temas tratam do ciclo da vida, da finitude e do recomeço, da provisoriedade de tudo, da impermanência e da permanência, esta última vista sob o viés da beleza e da reprodução.

Em Destino, por exemplo, uma plantinha se encontra dentro de um vaso, tomando sol num canto da janela, até que um gato descuidado a derruba, destruindo o vaso que se parte em inúmeros cacos. A empregada recolhe os cacos, a planta e os atira pela janela. Esta plantinha, nomeada por Astrid de “brotinho”, traz a primeira conexão com o humano/a mulher, visto que brotinho era uma gíria da época que fazia referência a uma moça. Temos aqui também os temas caros a Astrid, que nos remete à finitude da vida, da morte que nos colhe ao acaso, ainda que no texto esteja presente certa mensagem de esperança: apesar das nossas prisões, somos abençoados por simplesmente existir. Além disso, se atentarmos para o trecho da obra: “Era o sol que lhe punha aquelas grandes sardas douradas, o ar todo faceiro. Também a pose graciosa com que distribuíra seus membros, já agora multiplicados, era convenientemente adequada ao banho de sol [...] A cútis fina, queimada de tempo, engelhava-se até a queda final, que seria mansa, ao arrepio do primeiro vento”, reparamos que a verve poética de Astrid já se faz presente nas assonâncias, aliterações, nas metáforas, nas imagens e no ritmo das frases.

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No segundo conto, Arvoreta, árvore, arvoreta, é interessante notar como Astrid, no próprio título, transmite o andar do sol pelo céu, projetando a sombra de uma árvore, que se alonga no começo da manhã, fica justa ao meio-dia e torna a se alongar no final da tarde. É o sol que banha a árvore, que lhe dá luz, mas a árvore só se enxerga através da sua sombra, sempre dentro da própria individualidade, exacerbada, orgulhosa, altiva e iludida pelo olhar alheio. Por mais que a árvore se iluda e se ache exuberante, será sempre prisioneira de si mesma, presa às próprias raízes. Observando o trecho da narrativa: “Quando fazia sol, via-se fotografada ao longo da calçada, e via-se também crescer e diminuir, a imagem apagar e acender. Gostava da brincadeira de verão, a divertida dinâmica de sua sombra a crescer e minguar num só dia – arvoreta, árvore, arvoreta. Mas tudo era jogo visual, o percurso do sol acionava a silhueta. Depois de certo tempo, não mais se iludia. [...] Bem que gostaria de escapar-se, transpor-se além de suas fronteiras a fim de fruir nova dimensão, mas não ousava”, notamos a poética pungente da autora na sua prosa.

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O conto A praça discorre sobre uma praça que foi inaugurada pelo prefeito e que, passada a euforia dos primeiros passeios, é desprezada por seus frequentadores. Aqui, a autora define a praça como sendo a terra remodelada pelo prefeito, o chão que aceita tudo e, após algum tempo, torna-se desprezado pelos homens. A mãe-natureza, tal qual as mulheres, também é ignorada pelos homens. Expressões presentes no texto como ‘pise de mansinho’ ou ´cuide de seu jardim’, evidenciam a antecipação de uma consciência ambiental. Nos trechos seguintes: “Elas, (as plantas), não viviam em função dos homens, nem deles dependiam, como era o empenho de muitos fazer supor. Descaso, desprezo, nada lhes alterava o destino da espécie” [...] “ Era portanto certo que (as plantas) existiam para autossatisfações, donas de si mesmas e tão livres dentro do repouso como o ar que as oxigenava. O que havia era abuso, exorbitância do espírito dominador dos homens”, se substituirmos ‘as plantas’ por ‘as mulheres’, a analogia ao mundo feminino ainda é pertinente.

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No conto Laranja de sobremesa, temos outra história simples e trivial, discorrendo sobre uma laranja que está sobre um prato. Ao ser servida de sobremesa, reflete sobre o ciclo da vida: ela vem de uma árvore que deu fruto, que virou semente, que virará árvore novamente. Nós, assim como a laranja, seremos consumidos pelo tempo, mas deixaremos nossas sementes sobre a terra. Astrid retrata a finitude da vida, o recomeço e também nossa submissão ao tempo. A laranja aguarda seu destino, assim como todos nós. A beleza e o viço são precários.

No texto intitulado A cerca, ela que é “uma árvore sob outra forma’, reflete sobre sua vida, está entregue agora às intempéries e aos cupins, e se sente culpada pela morte de seu amigo gato, que caiu de pé em um dos seus sarrafos pontiagudos. De sua abundância de árvore, forte e firme sobre a terra, ela está reduzida a um corpo estéril capaz de causar a morte de outro ser. Escrita em tom melancólico, a cerca fala sobre seu inconformismo e sobre sua degradação, refletindo sobre a inutilidade de tudo, convencendo-se de que sua vida foi apenas um acaso. Os temas neste conto são o sentido da vida e a inevitabilidade da morte. Apesar do tom melancólico, o que me chama a atenção nesta narrativa é a ironia empregada pela autora: a árvore firme e forte se tornou uma cerca que mal para em pé. A partir desta história aparente e linear, Astrid traz subtextos potentes: a despeito da estabilidade e da firmeza que um ser pode ter, todos podem desmoronar de uma hora para outra, ou: é suposto que uma cerca contenha as coisas, mas a cerca de Astrid não contém nada, nem a passagem do tempo, nem as ações alheias, ou: a cerca lamenta ter perdido as referências do passado, de quando era árvore, mas para viver o presente, o passado não importa, ou: nutrir um sentimento melancólico previamente à morte é vivenciar a morte em si mesma, ou: o vínculo com as nossas raízes é o que nos fortalece.

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O conto A aventura dos crótons fala de uma planta ornamental, o cróton, que, crescendo belo num canteiro graças às podas do jardineiro, passa a invejar as heras que “pintam de verde as paredes da casa da esquina”, crescendo horizontalmente para todos os lados, em total liberdade. O cróton quer se aventurar, então roga à natureza que lhe conceda este desejo. A natureza parece atendê-lo, lançando uma chuva torrencial que liberta suas raízes do solo e o leva, mas, sem ter como fincar-se à terra, é levado pelas águas e sucumbe. O texto fala sobre deixar uma vida cercada de segurança, já que a “tenacidade do jardineiro zelava pela dócil submissão de todos”, mas limitada e cheia de marasmo. Astrid refere-se à impermanência, à liberdade e ao risco de viver. Podemos fazer outras reflexões, como: a inveja e o anseio por outras terras estão presentes tanto nas plantas quanto nos seres humanos, ou: o resultado de todo esforço é uma surpresa, nem sempre agradável, ou:  o  “jardim do lado de lá”, pode ser apenas uma ilusão, ou: é preciso dar valor à terra onde se vive, ou: o desejo de mudar pode gerar uma frustração imensa, é preciso ter os meios, não só o desejo, ou: o desgosto em habitar um lugar que não se deseja faz perder todo o sentido e o encanto da vida. Neste texto, há também uma consciência da heterogeneidade, do outro e do lugar que ele ocupa.

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No conto Queixa contra o vento, uma quaresmeira reclama dos caprichos do tempo, sempre lutando contra a ameaça de tombar e sucumbir. Neste trecho da obra “O vento fica aí a soprar sem cessar. Sem saber do meu medo, da gana de fechá-lo em algum lugar. Dentro de um morro, de uma gruta. Afinal, que pretensão pensar nisso. Logo eu, que não me aguento em pé, que sofro de câimbras, que não resisto ao seu menor suspiro”, notamos o uso de rimas, cadência das frases, assonâncias e aliterações, evidenciando a forte verve poética de Astrid, presente desde esta obra inaugural.

O conto O parque fala de um parque cujas “árvores espichadas, esguias, e arbustos baixotes, corpulentos, mantêm-se atados pela tranquilidade de pedra. Ali a vida não se pui com o uso, não implica amanhãs e mortes, mas trata-se de uma paz de pedra, marmórea e mortal. Neste mundo de pedra, é sempre noite. O tema de Astrid nesta narrativa é a domesticação da própria existência. Este viver de modo mecânico, sem notar se é dia ou noite, sem atentar para o que realmente importa, é um não viver.

No conto Avispiscis pulcherrima, Astrid fala de uma árvore imaginada, uma árvore fabulosa, com a capacidade fantástica de se adaptar a tudo, aos charcos, ao deserto, às geleiras dos polos e que é de uma beleza inigualável. Apesar da exuberância, ela tem frutos estéreis, incapaz de deixar descendência, motivo de suas lágrimas. A temática de Astrid nesta narrativa diz respeito à validação da beleza pela capacidade de reprodução. A uma planta (mantendo a analogia com relação à mulher) não basta ser vistosa sem reproduzir, é necessário deixar sementes e descendência para ser validada sob o olhar dos humanos. São temas intrinsicamente femininos.

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Na narrativa A agonia da rosa, Astrid discorre sobre rosas que acabaram de florescer e, estando no esplendor de sua beleza, são colhidas e colocadas como um ramalhete dentro de uma caixa de celofane. Aqui, a beleza vira acessório, serve somente para dar alegria e prazer a alguém e, portanto, tem vida curta. A essência feminina é comprimida em um receptáculo. Aprisionada, ela murcha e seca em definitivo. A autora faz uma crítica à superficialidade, à vida de aparências e à provisoriedade de tudo.

No texto Um grão de feijão e sua história, o conto mais lindo desta coletânea na minha opinião, grãos de feijão estão sendo selecionados para serem cozidos, mas um grão é deixado de lado por não atender às expectativas da empregada. Ele é jogado pela janela e vai parar numa terra fértil, enchendo-se de esperança, julgando que vai brotar, enraizar e reproduzir, até que a empregada, que tinha o mau hábito de jogar coisas pela janela, derrama um jato de água quente sobre ele, desfazendo seu futuro. A partir desta história singela, podemos pensar em inúmeras inferências, tais como: só inteiros temos o ‘direito’ de ‘estar no mundo’, ou: a finitude nos torna tão vulneráveis quanto um grão de feijão, ou: mesmo uma planta é capaz de sentir, ou: para ‘ser’ algo ou alguém é preciso ocupar um determinado lugar, ou: é na terra que está a vida; é ela que preserva toda nossa descendência, ou: é preciso criar raízes para florescer. Astrid abre portas para vários subtextos e várias interpretações.

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Passando ao último conto da coletânea, encontramos À sombra da papouleira, onde uma folha seca e outra verde conversam à sombra da papouleira, dentro do jardim de uma casa. Elas escutam a aproximação do jardineiro e se surpreendem ao saber que o dono quer derrubar a papouleira para fazer um novo jardim. Então, as folhas se revoltam, tomando ciência de que a vida é breve e que, aos homens, “era comum o hábito de derrubar plantas e até florestas inteiras. A preocupação de Astrid com o meio-ambiente e com a prática dos homens de devastar se faz notória. Num mundo onde “a vida é um rosário de pequenas mortes”, só resistindo em coletivo podemos sobreviver.

A grandiosidade da obra inaugural de Astrid é notável e pujante, seja nos temas, seja na sua prosa poética, na sua visão à frente do seu tempo, na sua preocupação com o feminismo e nas questões ambientais, fazendo os leitores refletirem sobre a vida através de histórias singelas do nosso cotidiano, lhe reservando o merecido lugar de destaque na literatura amazonense e na literatura brasileira contemporânea. Leiam Astrid!

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Arquivo da autora


Sandra Godinho nasceu em 1960 em São Paulo, é graduada e Mestre em Letras. Já participou de várias coletâneas e antologias de contos, sendo agraciada com alguns prêmios. É membro número 78 da AILB, Academia Internacional de Literatura Brasileira. 

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

LITERATURA É TERRITÓRIO EM DISPUTA: O QUE ESCREVEMOS É LITERATURA SIM


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A literatura brasileira é vasta, rica e diversa — e, ainda assim, parte significativa de sua produção continua à margem dos espaços de prestígio e reconhecimento. Autores e autoras negras, indígenas, ciganas, periféricas e dissidentes têm sido, sistematicamente, deslegitimados por uma crítica hegemônica que insiste em restringir o que se entende por “literatura”. No entanto, reafirmamos: o que escrevemos é literatura sim e da melhor qualidade. 

Com linguagem potente, estética refinada e compromisso com a realidade, nossas obras ampliam os horizontes do que se lê e do que se entende por literatura no Brasil. Viva a literatura que rompe cercas simbólicas, que permite voz e expressão aos intelectuais de todos os cantos do país, de todos os estratos sociais, de diferentes culturas e múltiplas vivências. Afinal, literatura é, antes de tudo, território de liberdade — e nós escrevemos para existir. 

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Os que tentam nos calar 

A voz da branquitude insiste em determinar quem pode ou não gozar do status de autor(a) literário(a). Querem nos dizer quem faz e quem não faz literatura, rotular como “marginais” os que escrevem fora do eixo hegemônico e, até mesmo, proibir a circulação de nossos livros. Mas seguimos escrevendo. 

Do Monte Caburaí ao Arroio Chuí, do escritor porto-alegrense Jeferson Tenório à poeta roraimense Sony Ferseck, nossos autores e autoras têm enfrentado estigmas e restrições impostos por setores editoriais e midiáticos que não sabem — ou não querem — ler outras realidades. 

Nesse contexto, em 2018, a Academia Brasileira de Letras rejeitou o nome de Conceição Evaristo, uma das maiores vozes da literatura negro-brasileira. 

Essa recusa foi um espelho do preconceito institucional que ainda define os contornos do que se considera "alta literatura" no país, mas os ventos começaram a mudar: em 2025, Ana Maria Gonçalves — autora de Um defeito de cor — tornou-se imortal da ABL. Sua entrada nessa instituição representa um movimento tardio, mas simbólico, de abertura do cânone à escrita potente, política, performática e estética das mulheres negras brasileiras. 

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Nesse aspecto, convém lembrar - e o faço sem intenção retórica - que as academias se anteciparam ao laurear com o título de doutor/doutora "Honoris Causa": Beatriz Nascimento (UFF/2022), Conceição Evaristo (UFMG/2025), Lélia Gonzalez (UnB/2025), Milton Santos (UFSC/1996), Luiz Gama (USP/2021), Ailton Krenak (UFJF/2016) e Eliane Potiguara (UFRJ/2021), dentre outros e outras. Em contrapartida, há sempre uma via de mão dupla e escolhas perigosas. Jeferson Tenório sofreu tentativas de censura e foi perseguido nas redes sociais por polêmicas em torno de seus livros. Escritoras e escritores indígenas do país inteiro, como os do povo Maraguá, no Amazonas, enfrentam o apagamento sistemático de suas vozes, suas línguas e dos seus modos de narrar e de representar o mundo. 

De minha parte, prefiro ouvir a voz da sabedoria ancestral. Nossos avós diziam: “Não batam palmas para maluco dançar.” Por isso, costumo optar por não dar palco nem notoriedade aos ataques. Não reposto, não alardeio. Expresso minhas opiniões quando sou instada a fazê-lo — não sem um pouco de azedume, devo confessar. 

As estratégias para nos silenciar são sofisticadas e tecnológicas, multiplicam-se, de modo intencionado nos debates contemporâneos, no entanto, resistimos. E foi assim, resistindo e re(existindo), que não desaparecemos e nem desapareceremos do mapa. 

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Enquanto tentam nos invisibilizar, silenciar, desprestigiar — nós escrevemos. E ao escrever, permanecemos. Por um Brasil que leia a sua própria diversidade Continuamos aqui. Escrevendo com as marcas da ancestralidade, com as urgências do presente e com os olhos voltados para o futuro. 

Nossos livros não pedem desculpas. Nossas palavras não cabem em molduras coloniais. Fazemos literatura para reinventar a roda frenética da vida e para curar feridas. Somos palavra que grita e sobrevive em estado de luta. E, se tentam nos silenciar, respondemos escrevendo mais: mais histórias, mais vivências, mais poesia, mais reflexão. Se tentam nos apagar, respondemos com memória. Porque toda vez que escrevemos, ocupamos — e resistimos. Das pedras do Cais do Valongo, nossos ancestrais gritam por nós. 

Que mais leitores, escolas, feiras e instituições se abram à leitura da literatura negra, indígena, cigana e periférica brasileira. Porque só haverá real literatura brasileira quando todas as vozes couberem dentro dela. Apesar do que ousam dizer os que se consideram donos do fazer literário. Ps. Esse texto foi originalmente publicado na Revista Voo Livre, na edição de setembro/2025. Lemos aqui uma versão adaptada para conter a premiação da escritora Conceição Evaristo que foi noticiada pela mídia após a referida edição.

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Arquivo da autora
Heliene Rosa, natural de Patos de Minas, Minas Gerais, é uma escritora, professora e pesquisadora dedicada às poéticas femininas. Mestre em Linguística e doutora em Estudos Literários pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Heliene é uma voz ativa na militância pelas causas das mulheres e da negritude. Articulista no Blog Feminário Conexões e integrante de diversos coletivos femininos, fundou, em 2016, o GELIPLIT (Grupo de Estudos em Língua Portuguesa e Literaturas), com o propósito de promover a formação continuada de professores de Língua Portuguesa e Literatura.

Com uma carreira marcada pela coordenação de projetos literários e pedagógicos, Heliene foi premiada no Oitavo Concurso Nacional pela Igualdade de Gêneros com uma sequência didática voltada à escrita, envolvendo estudantes do Ensino Básico. É coautora em diversas coletâneas nacionais e internacionais e organizadora de antologias literárias e acadêmicas. Em sua produção autoral, destaca-se com os livros Enquanto as hortênsias florescem (2023) e Literatura é território: poéticas femininas indígenas em movimento (2024).

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

A BAILARINA ANÃ E O RAPAZ FAVO DE MEL - CONTO - ISA CORGOSINHO

Por Isa Corgosinho

Eles se conheceram já adultos no circo ou naquilo que sobrou dos circos. No cenário monetizado do entretenimento virtual, os circos foram ficando cada vez mais à deriva das naturais, espontâneas alegria e diversão. As crianças radiosas não se interessam mais nem por palhaços, que dirá por anãs e homens sem mãos! Nem os circos de vocações mambembes escaparam da liquidez dos tempos.

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Sem mais valia, sem serventia, o rapaz viciado em bolachas recheadas teve que buscar trabalho no circo. A mãe morreu vítima do amor incondicional e ele,   diabético, ficou largado à própria gula. Como não tinha mãos, devoradas pelo açúcar, seu  trabalho era alimentar com sua saliva a colmeia, ali cultivada para adoçar a tristeza dos palhaços e a aguardente das trapezistas. Foi lá que encontrou a mulher Anã de Cabeça Plana.

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A anã, após ter sido espancada na cabeça durante anos, foi deixada ali pelo pai.  Com sua fantasia de bailarina, dormia com os malabaristas, os mágicos, o homem fera, a mulher barbada, o homem elefante, mas era propriedade, monetizada pelo dono do circo, sempre fantasiado de leão. A maioria era impotente, por isso apreciava o sexo com a Anã de Cabeça Plana: sem pensamentos, sem vontades!

Ela se deparou com o homem sem mãos no dia que ele adormeceu todo inchado, picado pelas abelhas, com a língua em viva carne, sangrando. Ela vinha de uma jornada gosmenta de cópulas com o leão faminto.


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Ele estava caído na entrada de um trailer sem porta, quando ela tão pequenina tropeçou nele. Ficou ali parada sobre aquele homem e, pela primeira vez em muitos anos, ergueu a cabeça e viu asas de abelhas coroando o rosto do rapaz. Sentiu ânsias de mel, ergueu-se de mansinho e lambeu com a sua as feridas expostas da língua do rapaz. Mesmo exaurido de dor, o homem a sentiu como presença da abelha rainha, ela por fim viera curar-lhe do trabalho afoito e descuidado de suas dedicadas operárias. Quis acariciar aquele pequeno corpo que se estendia sobre o seu, e foi o que fizeram seus braços como se fossem mãos. Que delicada criatura! Sentiu sua língua amalgamada na língua suave daquele ser planando íntegro e grandioso. 

Era amor o nome daquele sentimento, ela, enfim, pensou! E o circo, que dormia profundamente, se iluminou com a coreografia dos pirilampos, que anunciavam o espetáculo:

A Bailarina Anã e o Rapaz Favo de Mel!

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Arquivo da autora
ISA CORGOSINHO é natural de Brasília/DF, mas mora atualmente em João Pessoa.  Doutora em Teoria da Literatura pela UnB e Università di Roma, Sapienza. Professora universitária, aposentada, ensaísta, poeta, cronista, contista, autora de artigos e ensaios. Livro Memórias da pele (Venas Abiertas, 2021), Livro Panópticos e Girassóis (Urutau, 2024), Livro Se um viajante entre a angústia da escritura e o prazer da leitura (Caravana, 2024), Eros e Thanatos em Plenos Pecados (TAUP,2025). Coletânea NÓS Autora premiada/1° lugar Crônicas. (SELO OFF FLIP, 2023), Coletânea NORDESTE conto destaque, (SELO OFF FLIP 2024), Coletânea NÓS (SELO OFF FLIP 2024) conto destaque, Coletânea Prêmio SELO OFF FLIP 2024 com poema e conto destaques, Coletânea TERRA (SELO OFF FLIP 2025) com conto destaque. Participou de diversas antologias, entre elas Coletânea Enluaradas I (2021); 1ª Coletânea Mulherio das Letras na Lua (2021); Coletânea Enluaradas II Uma Ciranda de Deusas (Selo Editorial/Sarasvati Editora, 2021); Poesia & Prosa (In-finita, Portugal, 2021); Coletânea Mulherio das Letras para ELAS, (Amare Editora, 2021.); Colectânea Mulherio das Letras Portugal (In-finita, Portugal, 2022). Membro da Comissão de Seleção do Prêmio Carolina Maria de Jesus de Literatura Produzida por Mulheres 2023.


sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Mazé Torquato Chotil lança "Lucy Citti Ferreira: A Pintora Esquecida do Modernismo"


A jornalista e escritora Mazé Torquato Chotil lança "Lucy Citti Ferreira: A Pintora Esquecida do Modernismo"

Num minicioso trabalho de recuperação histórica, a jornalista e escritora brasileira Mazé Torquato Chotil lança "Lucy Citti Ferreira: A pintora esquecida do modernismo", uma biografia que enobrece a vida e obra de uma das artistas mais talentosas e esquecidas da história da arte brasileira.

Lucy Citti Ferreira: A pintora esquecida do Modernisno, biografia de Mazé Torquato Chotil aborda a vida e a trajetória da pintora modernista, desenhista, gravadora e professora, Lucy Citti Ferreira (São Paulo, SP, 1911 – Paris, França, 2008), que marcou a história da pintura brasileira nas décadas de 1930 e 1940 e que, como tantas outras artistas mulheres, acabou esquecida. Lucy nasceu em São Paulo, mas passou a infância em Gênova, na Itália e em Le Havre, na França, onde iniciou os estudos artísticos na Escola de Belas Artes. 

Lucy viveu uma história artística enfrentando inúmeros desafios, tanto no plano pessoal quanto no profissional, lutando contra dificuldades financeiras e barreiras impostas às mulheres artistas que a pesar de trabalhar incansavelmente em busca de novos caminhos foi esquecida pela história da arte. Mazé Torquato Chotil, doutora pela Universidade Paris 8 e pós-doutora pela Ehess, realizou anos de pesquisas em arquivos, entrevistas e acervos como da Pinoteca do Estado de São Paulo e Museu Lasar Segall, revelando a qualidade da produção artística de Lucy desde cedo. A pesquisa revela também que Lucy manteve contato com nomes importantes do modernismo, como Tarsila do Amaral, Mário de Andrade, Di Cavalcanti, entre outros.

 Pintora no ateliê (1939. Acervo: Biblioteca de Artes Visuais | Pinacoteca de São Paulo | Isabella Matheus).

"No Brasil, apenas a partir da Semana de Arte Moderna de 1922, as mulheres artistas passaram a ter visibilidade na arte do Brasil. Entretanto, foram esquecidas em seguida, e somente depois dos anos 70, seus lugares na história da pintura estão sendo revistos." (Mazé Torquato Chotil, pág. 282)

Segundo a jornalista e escritora Mazé Torquato Chotil, a pintora Lucy sempre defendeu o posicionamento de mulher artista, tal posicionamento contribuiu para o relativo isolamento artístico num mercado dominado por homens. 

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Arquivo da autora

Mazé Torquato Chotil é jornalista e escritora. Nasceu em Glória de Dourados, Mato Grosso do Sul, morou em Osasco-SP e vive em Paris desde 1985. É Doutora pela Universidade Paris VIII e Pós-doutora pela Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais, a EHESS, em Paris. Tem quatorze livros publicados (cinco em francês), entre romances, biografias e ensaios, dos quais cinco em francês. Entre eles estão: Mares agitados: na periferia dos anos 1970; Na sombra do ipê; No crepúsculo da vida; Lembranças do sítio / Mon enfance dans le Mato Grosso; Lembranças da vila; Nascentes vivas para os povos Guarani, Kaiowá e Terenas; Maria d’Apparecida: negroluminosa voz e Na rota de traficantes de obras de arteFoi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora e primeira presidente da UEELP – União Europeia de Escritores de Língua Portuguesa. Escreveu – e continua escrevendo – para a imprensa brasileira e sites europeus. Recebeu o Prêmio de Biografia da AILB – Academia Internacional de Literatura Brasileira, em 2022, pela obra Maria d’Apparecida.

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

LANÇAMENTO DE COLHEITAS ANCESTRAIS & PRIMAVERAS, DA POETA MARIA DO CARMO

 DE COLHEITAS E PRIMAVERAS

Por Marta Cortezão 

Convite da autora
Depois da publicação dos livros Retalhos de Vivências (Scortecci, 2017), Recomendações Poéticas (Cogito, 2021), Leituras e Releituras (Studio Portinhola, 2023), a escritora baiana de Mutuípe, Maria do Carmo Silva, nos brinda com Colheitas Ancestrais & Primaveras. Receber o convite da autora para posfaciar seu novo poemário é uma grande satisfação, porque venho acompanhando sua escrita poética ao longo desses quatro anos. Nos conhecemos através do Projeto Tertúlias Virtuais e desde então somos parceiras e construímos uma amizade de mútuo respeito e muita admiração.

E desse lugar, de quem a lê, de quem a acompanha em seus movimentos e produções literárias, posso dizer que sua escrita nos descortina um caleidoscópio de importantes reflexões sobre o caótico mundo em que vivemos, mantendo sempre os olhos postos no horizonte das utopias e das esperanças necessárias para mudanças futuras, estas que urgem ações para a agoridade do tempo presente, cujo ponto de partida é a leitura. Neste livro, seguindo a linha de uma literatura de compromisso social, a autora aprofunda a conexão com suas raízes ancestrais de forma a criar conhecimento através da própria filosofia de vida que, não somente explique o caos do mundo, mas que nos conscientize da importância do crescimento e transformação humanos, como se pode ler nos seguintes trechos:

O preconceito racial não prevalecerá!

No coração do povo negro, pulsa o verbo lutar! (Resistência, p.30)

 

Axé é a voz da resistência!

É a voz da ancestralidade a nos abraçar. (Voz da Resistência, p.37)

 

a tua resiliência materna,

Continua acreditando na regeneração do coração humano. (Terra-Mãe, p.20)

 

Ações humanas impensadas

À natureza, causam consequências irreversíveis.

E o ser humano prossegue egoísta e insensível. (Reflexão matinal, p.21)

 

A guerra bombardeia os corações!

A guerra é o terror das nações!

A guerra destroça vidas. (Corações Bombardeados, p.31)

 

Garimpam a vida dos povos indígenas.

Garimpam a história dos povos indígenas. (Sobre Viver, p.52)

Há temas onde a matéria e imagética do poema é fresca metapoesia. A voz lírica usa o seu conhecimento sobre o fazer poético para afirmar, neste caso anaforicamente, que a poesia é um organismo vivo, um instrumento para a arquitetura de memórias e de novos mundos, portanto uma ferramenta primordial que transforma a vida humana:

A poesia rememora o ontem.

A poesia narra o agora.

A poesia medita sobre o amanhã.

A poesia é viva.

VIVA A POESIA! (A poesia vive, p.19)


A modo de conclusão, não há dúvida de que a literatura é uma potente ferramenta de transformação maior, no entanto, a angústia e a constatação do caos mundial em que vivemos (as guerras, o racismo, o aquecimento global, a violência contra mulheres, a feminização da pobreza, a injustiça para com os povos originários, o descaso e desrespeito com a educação, com a literatura, a cultura, as artes, a ciência, a saúde e com tudo que nos conecta à própria humanidade) nos revelam um contexto mundial, onde a aliança fascista ganha força e prospera descaradamente e as lideranças políticas mundiais descuidam do bem-estar de seu povo, visando apenas o lucro capital. Daí a importância da consciência de classe e do compromisso com as lutas políticas e sociais, daí a necessidade de contemplar estas primaveras carminianas: o sol da liberdade, a leveza, o amor e seus canteiros poéticos e toda sua florescência vital. Mais que contemplá-las, potencializá-las em sua força de semente, interessar-se pela sua essência que exala humanidades e entender de suas fragilidades para que prósperas primaveras continuem a florescer nos corações humanos, porque O amor resiste (p.47) e “No coração humano reside / Na humanidade habita”.

Referência bibliográfica:

CORTEZÃO, Marta. Posfácio: De Colheitas e Primaveras. In: SILVA, Maria do Carmo. Colheitas Ancestrais & Primaveras. Mutuípe/BA: Editora ArtPoesia, 2024.

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Maria do Carmo SilvaNatural de Mutuípe-BA; Professora, poeta e escritora. Licenciada em Geografia, graduada em História; Especialista em Gestão e Educação Ambiental, Estudos linguísticos e literários e Comunicação, Cultura Organizacional e Tecnologia. Autora dos livros de poesias: "Retalhos de Vivências", "Recomendações Poéticas", "Leituras e Releituras", "Colheitas Ancestrais & Primaveras". Tem participação em diversas Antologias Poéticas nacionais e internacionais. Colunista no site de notícias Tribuna do Recôncavo e colaboradora do blog Feminário Conexões. Integrante dos Coletivos Mulherio das Letras e Enluaradas.

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

FLORATTA DA PELE - CONTO DE ISA CORGOSINHO

Floratta da pele          

Por Isa Corgosinho


Imagem Pinterest
Nasci com as narinas abertas ao mundo. Antes de experimentar o leite materno, já sabia seu gosto, que me entrava pelas narinas desde o ventre. Antes de começar a falar, já conhecia o alfabeto do olfato. Lembro-me que sentia vontade de chorar todas as vezes que meu pai se aproximava para me beijar o rosto. O cheiro ácido do hálito dele causava-me dissonância olfativa, perturbava-me o coração a sensação de perigo e farpas. Como se algo cruel fosse acontecer com ele antes que me tornasse adulta.

Mas essas sensações ruins duravam pouco, bastava segurar suas mãos, trazê-las próximas ao nariz: cheiravam terra fresca, úmida e fértil. Sentia-me protegida segurando aquelas mãos. Na infância, quando sentia medo ou dor, buscava o colo materno, alçando minhas narinas até estreitá-las nas axilas quentes, suadas da minha mãe. O cheiro inspirado nutria-me de segurança e ternura.

Os melhores momentos da infância e adolescência foram aqueles vivenciados no sítio dos meus avós paternos. Tudo ali tinha cheiro próprio, individualizado. Minha avó tinha enormes canteiros de ervas, flores, leguminosas, verduras. Eu costumava ficar brincando por ali, e voltava com pequeninos buquês de ervas para presentear os adultos. O meu alfabeto olfativo escolhia o buquê de acordo com cada pessoa ou as pessoas eram escolhidas pelos temperamentos das ervas.

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A mãe era um buquê formado por lavanda, bejoim, angélica, cascara sagrada e abre-caminho. O pai era um buquê de funcho, alecrim, manjericão, espinheira santa, espada de São Jorge e pau ferro.

A avó tinha o buquê mais especial para meu olfato: o cheiro exalado por ela era de um tempo insubmisso aos relógios. Um buquê ancestral, que eu descobrira nas noites que passara acometida por febre, aconchegada em seu colo.  A avó era um buquê de jurubeba, alfazema, arruda, graviola, centelha asiática, espinheira santa, melissa e guiné. O buquê do avô, homem que falava com os bichos e sabia imitar passarinhos, era um conjunto de notas harmônicas: chapéu de couro, maracujá, salsaparrilha, graviola, hibisco, dente de leão, guiné, palo santo, espada de São Jorge e arruda.

 As primas cheiravam a buquês de folhas de frutos e ervas: carobinha, alcachofra, douradinha, pitanga, abacateiro, jabuticaba, jambolão, sete sangria, colônia, samambaia e mangueira. Os primos cheiravam a funcho, erva de bugre, parreiras, chá verde, carambola, boldo, comigo ninguém pode.

Eu, que tinha o olfato mais apurado que todos,  não conseguia sentir meu próprio cheiro. Costumava cheirar minhas toalhas, roupas, sapatos; esfregava meu nariz na pele, puxava meus cabelos até as narinas, soprava meu hálito nas mãos, mas nada sentia, não tinha cheiro. Já adolescente pedi para minha mãe descrever o meu cheiro. Ela relembrava que, quando eu era bebê, só usava talco em meu corpo quando fazia muito calor para evitar assaduras. Dizia que do meu corpo exalava essência de baunilha pela manhã, à tarde cheirava a pêssego e à noite, flor de laranjeira.

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Depois que cresci, dizia ela, exalo ora sândalo ora limão siciliano por onde passo, mas eu não consigo senti-los. Peguei o hábito de carregar na bolsa óleos essenciais dessas fragrâncias para me sentir perfumada e esquecer a pele inodora. Como não sentia meu cheiro, resolvi criar minhas próprias fragrâncias:  Flor de íris e petúnia, maravilha (Mirabilis jalapa), jasmim manga. Assim, à medida que me tornava adulta, ia compondo os meus cheiros, odores.

O pequeno sítio dos meus avós, que ficava dentro de uma grande área quilombola, era nossa segunda casa. Todo ano passávamos parte das férias, Natal e Ano Novo no sítio, precisávamos aproveitar a companhia deles.  Eu, mais que qualquer outra pessoa, amava voltar ao sítio, era uma espécie de reconexão com as fragrâncias da terra.

Até então não conhecia o odor da violência, mas ele estava sempre soprando naquela região. Ali havia muitos conflitos, principalmente com a polícia, os grileiros e os capangas dos fazendeiros, todos eles cobiçosos pelo minério no subsolo do quilombo.

A boa notícia de fim de ano era a entrega das escrituras definitivas aos cidadãos  quilombolas. Meus avós faziam parte dessa comunidade. Entre eles, havia uma espécie de escambo com os produtos que cada família produzia, por isso raramente dependiam dos produtos da cidade. O que sobrava do escambo era vendido nas feiras. As ervas da avó perfumavam tudo ao redor. Levavam perfume e cura às feridas abertas pelo gás carbônico na atmosfera das cidades.

Na semana seguinte à entrega das escrituras, as famílias organizaram uma grande festa com música, muita comida e alegria abundante. Tinha até fogueira, assamos milho, batata doce. Era época de lua cheia, e brincamos à luz da lua até cansar!  As crianças e os mais velhos foram dormir logo depois da ceia coletiva, e os demais ficaram ali tocando, cantando, dançando e bebendo.

Fomos acordados antes de raiar o dia com os gritos das mulheres.  Capangas haviam invadido o terreiro do quilombo e atirado covardemente contra os homens em festa! Meu pai foi ferido superficialmente no ombro e na perna, mas meu avô tombou sem vida. A polícia e os bombeiros tardaram a chegar, resultando em mais vítimas.

Além das mortes de muitos quilombolas, as patas dos animais destruíram tudo que encontraram pela frente. Fiquei imobilizada quando senti o cheiro dos excrementos dos cavalos sobre as plantações.  Galoparam em desatino com a ferocidade das cargas em seus dorsos, submetidos à selvageria da invasão.

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     Meu olfato me levou às imagens: os olhares amedrontados, desesperados dos animais estavam impressos no fedor de suas fezes. Abri um parêntese e pensei com a convicção do meu olfato: só um ser de extraordinária grandeza poderia ter criado um animal com a potência de um cavalo, com o sentimento incondicionalmente amoroso de um cão e a intuição afiada de um gato. Pensei e arrematei: a dívida com a cavalaria era inafiançável. O ar entorpecido do quilombo devastado cheirava a enxofre. Os capangas haviam deixado um rastro de metilmercaptano, capaz de adoecer o olfato do mundo.  

A persistência desse odor, impregnado em nossa memória, nutriu a nossa geração na luta para punir os assassinos. Alguns mandantes continuam impunes, mas os capangas estão secando moribundos nas ferragens da prisão. O cheiro de sangue nas roupas do meu pai adoeceu por muito tempo o meu olfato. Confeccionei um pequeno patuá com as ervas de sua alma: a espinheira santa, a espada de São Jorge e o pau ferro ficariam junto ao seu peito, para que ele se curasse do trauma, das maldades e feridas do chumbo.

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Cobrimos o corpo do meu avô no caixão com as flores do seu buquê, aquele que eu havia composto para ele. Mas tinha um cheiro que repercutia suas notas em nossas narinas, exalava de uma madeira sagrada peruana:  meu avô nos mandava dizer que seu períspirito estava envolto pela atmosfera do Palo Santo. Essa fragrância dos xamãs acalmara nossos corações.

O quilombo nunca se recuperou  completamente da tragédia. Levamos nossa avó para morar conosco na cidade. Fiz para ela um pequeno canteiro com as ervas do seu buquê, em jardineiras na varanda.  Mesmo triste, minha avó trouxe alegria à nossa casa.

Aos 35 anos me apaixonei pra valer, a paixão viera como um torvelinho. Meu corpo envaidecido transpirava a vitalidade dos hormônios. Enfim, minha pele exalava uma fragrância tão especial e envolvente que a batizei floratta!

E com esse poema olfativo dou boas-vindas ao amor.

 

Floratta da pele

 

Com o nariz percebi no rebanho _ imemorial savana _

que existe um homem diferente de outro

Com ele te farejo nas suadas aglomerações das metrópoles

cada homem tem um cheiro que se distingue dos outros

 

Eu corria seguindo suas pistas

estepes cavernas florestas montanhas

cidades motéis mares hospitais

cinemas bibliotecas bares becos

asfaltos ruas jardins

 

Os cheiros aspergidos pelas estações

logo dizem sem equívocos

aquele que interessa tocar

 

Outono inverno verão

Eis que o encontro

PRIMAVERA!

ele havia me chamado

com seu cheiro

no meio de todos

os cheiros

ouço seu sôfrego chamado de amor

com o nariz consigo

aspirá-lo inteiro!

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Arquivo da autora

ISA CORGOSINHO é natural de Brasília/DF, mas mora atualmente em João Pessoa.  Doutora em Teoria da Literatura pela UnB e Università di Roma, Sapienza. Professora universitária, aposentada, ensaísta, poeta, cronista, contista, autora de artigos e ensaios. Livro Memórias da pele (Venas Abiertas, 2021), Livro Panópticos e Girassóis (Urutau, 2024), Livro Se um viajante entre a angústia da escritura e o prazer da leitura (Caravana, 2024), Eros e Thanatos em Plenos Pecados (TAUP,2025). Coletânea NÓS Autora premiada/1° lugar Crônicas. (SELO OFF FLIP, 2023), Coletânea NORDESTE conto destaque, (SELO OFF FLIP 2024), Coletânea NÓS (SELO OFF FLIP 2024) conto destaque, Coletânea Prêmio SELO OFF FLIP 2024 com poema e conto destaques, Coletânea TERRA (SELO OFF FLIP 2025) com conto destaque. Participou de diversas antologias, entre elas Coletânea Enluaradas I (2021); 1ª Coletânea Mulherio das Letras na Lua (2021); Coletânea Enluaradas II Uma Ciranda de Deusas (Selo Editorial/Sarasvati Editora, 2021); Poesia & Prosa (In-finita, Portugal, 2021); Coletânea Mulherio das Letras para ELAS, (Amare Editora, 2021.); Colectânea Mulherio das Letras Portugal (In-finita, Portugal, 2022). Membro da Comissão de Seleção do Prêmio Carolina Maria de Jesus de Literatura Produzida por Mulheres 2023.

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