sexta-feira, 12 de junho de 2026

A PALAVRA INSUBMISSA: O PODER DA ESCRITA NEGRA, POR CARLA NEPOMUCENO



«A nossa escrevivência não é para ninar os da casa-grande, é para acordá-los dos seus sonos injustos»  

Conceição Evaristo

Por Carla Nepomuceno

O título da impactante antologia organizada pelo professor Henrique Marques Samyn, «Para despertar os da casa-grande: (alguns) novos escritos de mulheres negras brasileiras», evoca imediatamente uma das máximas mais célebres da literatura nacional. A frase da escritora Conceição Evaristo — segundo a qual a escrita das mulheres negras não serve para adormecer os senhores, mas para despertá-los dos seus «sonhos injustos» — serve de base ética e estética para esta obra. Publicado pela Através Editora no âmbito da Coleção Através do Brasil, o livro funciona como uma ponte internacional que projeta a produção literária e política de autoria negra contemporânea para novos horizontes geográficos. Sob o olhar de Henrique Marques Samyn, professor da UERJ e investigador especialista em raça e gênero, a obra consolida-se como um manifesto de urgência histórica.

A premissa desta antologia habita na sua capacidade de reunir uma ampla variedade de vozes. A seleção de Samyn desafia a iniciação e o esquecimento, ao colocar em diálogo autoras que já alcançaram destaque significativo no panorama editorial recente com escritoras que estão iniciando a caminhada literária. Esta heterogeneidade reflete-se na encantadora variedade de géneros que compõem o volume, onde a fluidez da prosa, a densidade da poesia e o rigor dos ensaios se unem de forma orgânica. Ao longo das páginas, emergem temas caros à subjetividade das mulheres negras: o confronto com corpos racializados, a recuperação da ancestralidade como estratégia de sobrevivência, a celebração e a festividade como pilares de resistência e uma oposição permanente às tentativas históricas de apagamento.



Longe de ser apenas um registro documental, a obra destaca-se pelo seu profundo impacto estético e político. A linguagem aqui não é passiva; ela fere, tensiona e desconstrói a imagem subordinada que, durante séculos, tentou reduzir a mulher negra ao papel de contadora de contos populares ou de empregada doméstica. As autoras dominam as estruturas literárias com técnica e requinte, alcançando assim o seu objetivo de tirar a leitora e o leitor da sua zona de conforto. Além disso, o cuidado editorial da editora Através Editora merece elogios, pois ilustra a importância decisiva do intercâmbio transatlântico de ideias para que a literatura de resistência conquiste mercados historicamente elitistas.

«Para acordar os da casa-grande» é a continuação de vozes que foram silenciadas no passado. 

Nessa antologia da Através Editora, a ancestralidade funciona como um escudo e uma raiz. As escritoras invocam as memórias das avós, das mães e das mulheres escravizadas para autentificar o seu discurso presente. Escrever, é portanto, um ato de justiça histórica.

Em resumo, pode-se afirmar que «Para acordar os da casa-grande» é uma prova indiscutível dos novos horizontes que a literatura brasileira contemporânea está abrindo atualmente. A antologia deixa claro que a escrita das mulheres negras não precisa de permissão para existir; ela se afirma como uma obra estética independente que chegou definitivamente para romper a letargia e o silêncio do racismo estrutural.

O trabalho meticuloso da Através Editora nesta edição demonstra o compromisso da editora em publicar obras que não apenas entretêm, mas também intervêm diretamente no debate social contemporâneo.

Mais informações

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Arquivo da autora




Carla Nepomuceno é poeta, escritora e produtora cultural, Mestra em Literatura, Cultura e Diversidade no âmbito galego-português e Mestra em Educação. Organizadora do projeto literário Café com Português (literatura em galego-português). Livro solo publicado: Não prometo o Nenúfar (TAUP, 2024).

segunda-feira, 8 de junho de 2026

A VERGONHA MUDOU DE LADO, POR RITA ALENCAR CLARK

 Uma mulher que escreve é uma mulher muito perigosa. 

Por Rita Alencar Clark

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Uma mulher que escreve é uma mulher muito perigosa, dizia bell hooks. Que o diga Gisèle Pelicot! Quando o mundo ficou sabendo que uma mãe de família, casada, com três filhos, levando uma vida pacata numa cidade do interior da França foi abusada sexualmente durante uma década pelo próprio marido, autorizando diversos homens a violarem depois de dopá-la, muitos não acreditaram. Como assim? Como um marido poderia fazer isso sem levantar suspeitas? Foram tantas as perguntas e as dúvidas que o caso, narrado pela autora no livro autobiográfico A vergonha precisa mudar de lado  um hino à vida, publicado pela Editora Companhia das Letras, em 2026, viralizou pelo mundo.  

A violência e o abuso escancararam um portal sombrio, no qual muitas mulheres são mantidas como reféns, de maridos, de amantes, de pais e de companheiros. No caso de Gisèle, reiteradamente por anos e inconsciente do que lhe acontecia, dopada, anestesiada, violentada e filmada. Parece ficção, mas não é. E, o que mais nos choca: com a participação de quem prometeu amá-la, protegê-la e respeitá-la. O hoje condenado ex-marido arregimentou mais de 50 homens da comunidade local, de todas as idades (homens e não monstros), para participarem desse ritual violento e abusivo, sem culpa ou ressentimentos, por mais de dez anos transitando pela cidade livres do peso na consciência; amorais, todos eles. A mensagem de Gisèle, ao decidir expor seu caso e abrir mão do anonimato a que tem direito (e juridicamente concedido) é: A vergonha mudou de lado.

Foi sua resposta aos abusos extremos que sofreu que lhe deu força e controle sobre sua vida. As violências continuam a acontecer com outras mulheres, são de todos os tipos e levam a diversas mortes: física, moral, psicológica, emocional, financeira e patrimonial. Sim, há inúmeras mortes para as mulheres que sofrem agressões, até para as que resistem fisicamente a elas, mesmo morrendo todos os dias devido aos traumas. Ser mulher na contemporaneidade é um risco diário e um exercício contínuo de sobrevivência.

A sexual é apenas uma delas. No topo da lista, incluo o epidêmico e atualíssimo feminicídio, mas há outra violação camuflada e abafada pela comunidade intelectualizada, protagonizada por homens em sua maioria. Trata-se da violação literária contra as mulheres que escrevem. Um abuso antigo, que remonta aos primórdios da implantação, no Brasil, das máquinas tipográficas, trazidas em 1808 por D. João VI. Desde esse período, e só para ficar no âmbito nacional, as mulheres que escreviam, muitas sem qualquer pretensão de publicar, já eram relegadas ao mutismo das aspirações literárias. Ou vamos acreditar no “conto da Carochinha", que mulher nunca soube escrever? Por muito tempo, acreditou-se nesse absurdo, fosse por imposição do patriarcado, fosse pela falta de acesso, ou simplesmente pela proibição aos estudos e aos livros, “estudar era caro ou pensar não era coisa de mulher”.

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Com o tempo, e graças a tantas autoras corajosas e brilhantes, dispostas a enfrentar o patriarcado, as mulheres persistiram, resistiram e continuam escrevendo à revelia desta infâmia. Hoje, um número considerável e insurgente de mulheres aponta na Literatura Contemporânea com obras importantes, escrevem mesmo alquebradas por insultos machistas, tentativas de desmerecimento e apagamento dos seus trabalhos literários, muitas vezes produzidos à base de jornadas triplas, sem descanso ou redes de apoio, dividindo seu tempo entre filhos, cuidados domésticos, maridos descontentes, trabalhos mal remunerados e lidando com as incômodas “crises de impostora” durante a madrugada. Não há pagamento, muito menos garantias. Contudo, as mulheres escrevem até as mãos sangrarem no teclado de um notebook, revisando o texto até o dia amanhecer, exaustas, só para recomeçar a rotina doméstica e profissional no dia seguinte. A esta dura rotina, agrega-se outra tarefa relevante: enfrentar a baía de tubarões prontos ao ataque, disfarçados de editores e de críticos literários  não todos, obviamente, há gratas exceções – mas os tubarões são famintos, e se alimentam das fragilidades. Cabe às mulheres não se deixarem abater por análises rasas e não fundamentadas dos seus originais de romances, de poemas, de resenhas, de ensaios, etc. Compete às mulheres buscar a maestria do ofício, sem se deixar contaminar pelo veneno corrosivo de uma depreciação precipitada, capaz de levar autoras principiantes, e algumas veteranas inseguras, a abortarem precocemente suas carreiras literárias. Esta é, sem dúvida, mais um tipo de violência para nossa longa lista. 

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Aquelas que sobrevivem a esta Via Crucis de provações, escapando dos tubarões, das armadilhas da auto sabotagem, da falta de incentivos, certamente conseguem um lugar nas editoras independentes, publicando seus livros, ainda com a missão árdua de vendê-los, divulgá-los, consigná-los em livrarias simpáticas e meios confiáveis para receber, com sorte, um percentual ínfimo por livro vendido. Essa é a nossa realidade, a das autoras que publicam de forma independente, e quer saber mais? Temos muito ainda para falar. Trazemos novas temáticas ao mercado editorial, falamos de útero, abusos, violações, amores livres, nossos corpos, nossos prazeres, poemas eróticos, rasgamos o ventre e abortamos dores seculares, remontamos nossas histórias em romances e novelas. Nossas obras não podem, e nem serão preteridas eternamente em concursos e prêmios literários por pareceristas não capacitados ou gabaritados para exercer a função. Denunciaremos o desprestígio, a intimidação e o silenciamento de nossas vozes, assim como os extermínios de povos originários e das minorias periféricas, das deflorações dos corpos e das florestas, dos abandonos paternos, das alienações parentais, dos preconceitos de gênero, racismo e misoginia. Escancaramos as portas lacradas das alcovas sombrias e revelamos os segredos mais escondidos e vis do patriarcado, porque também nós temos direito à palavra.

Texto pronto e uma alegria íntima, legítima e inconfessável corre pelo corpo e pela alma, com a sensação de ter caminhado por um deserto quente e inóspito, ansiando por publicar e encontrar nossos leitores, sabendo que temos nas mãos escritos dignos de serem lidos e apreciados. Assim nos mostrou Gisèle Pelicot, assim desmontamos o teatro vulgar da hipocrisia, revelando que o mundo masculino não pode sobreviver na impunidade dos arredores domésticos, nos pactos de silêncio e no acobertamento mútuo. Sim, escrever é muito perigoso, principalmente se essa escrita é feita com o sangue e a mente de uma mulher. Gisèle Pelicot nos encorajou a lutar e continuar a escrever; mesmo aterrorizadas, em fúria, despidas e violadas. Porque nossa escrita é única, vem impressa sobre nossos corpos e dores, na pele, não em armaduras frias ou máscaras de persona, mas iluminada por ideias que acendem a alma.

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Rita Alencar Clark
foto: arquivo da autora

Escritora, poeta, cronista, colunista 

do blog feminarioconexoes.blogspot.com 

Colaboradora do Coletivo Enluaradas Amazônia

sexta-feira, 5 de junho de 2026

UM CONTO DE SANDRA SAN'TOS

A vizinha do andar de cima

Por Sandra San'tos

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O sol a espreitava entre as folhas da jabuticabeira no quintal do vizinho. Seis horas da manhã e ela esteve acordada por quase toda a noite. Marta estava de mau humor. Seu relógio biológico andava fora dos eixos: não dormia, a menstruação estava irregular, a fome desaparecera, o intestino andava preguiçoso, o pensamento mostrava-se confuso, e seu humor irritadiço. Creditava sua má sorte à insônia e culpava a vizinha do andar de cima por falar alto a noite toda, todas as noites. Inconformada, apelidou-a de “a louca do telefone”.

Sem sair da cama, contabilizou mentalmente os sons matinais: a vizinha à esquerda, gritaria com os filhos na luta de impedir que se atrasassem para a escola. - Bem na hora! Agora começará a algazarra dos papagaios... Ué! Hoje se atrasaram... – Quase riu. A sinfonia dos papagaios se dava por conta das jabuticabas, eles comiam até cansar, e iam embora. - Esses sim são felizes, fazem o que querem, quando lhes dá na telha. – concluiu, resignada em arrumar-se para mais um dia modorrento de trabalho na repartição.

Havia se mudado há três semanas, após assinar o contrato de aluguel em tempo recorde. Não pesquisara muito. O apartamento bem localizado e com bom preço tinha que ter um defeito, nesse caso: a vizinha notívaga e faladeira. Marta nunca a vira, mas pelo timbre de voz grave e metálico, imaginava uma senhorinha, fumante ou ex-fumante.

- Isso é novidade. Inferno! Já é dia e ela começou cedo. Agora até durante o dia? Com quem ela tanto conversa? Será que é com uma pessoa só? Será que não percebe que os outros seres humanos do planeta querem dormir? – Engoliu a raiva insone, e enfiou a escova cheia de creme dental na boca.

O dia seguiu arrastado e Marta chegou do trabalho por volta das vinte horas, desejando que o importante assunto da vizinha, por fim estivesse resolvido. Despejou sobre a mesa da cozinha algumas sacolas de compras: produtos de limpeza, uns copos novos e insumos para preparar um lanche, já que não tinha ânimo para o fogão. Ainda não se acostumara a cozinhar apenas para ela.

Ouviu um LP do Chico, comeu seu lanche, tomou banho e decidiu ir para a cama mais cedo. Silêncio, luzes apagadas. Quase sentiu-se feliz. Ajeitou-se nos lençóis lavados com um amaciante de perfume de longa duração. (Pelo menos é o que prometia o anúncio publicitário). Relembrou as atividades do dia, planejou mentalmente o próximo, e fechou os olhos que já lhe pesavam. Silêncio...

- Eu já disse, então... É... Eu tô te falando. (Pausa) Eu não vim pra esta cidade à toa. Eu sempre tive um propósito. Todos temos que ter um! É... eu falei, mas ela não ouve.... (Pausa) Simmmm... É o que eu acho... É, é.... Então... Eu tô... verdade, tudo isso é muito importante. – bradava a mulher entre as pausas de seu interlocutor.

- Não é possível! Ela esperou eu me deitar pra começar a falar? – Marta arregalou os olhos sentindo o coração disparar movido pela raiva. Apertou o travesseiro sobre os ouvidos tentando, em vão, abafar o som da conversa. Eu vou filtrar, não vou ouvir. Não me interessa. Será que só eu tô ouvindo? Não é possível que ninguém mais além de mim a ouça. Vou falar com o síndico. – Desvencilhou-se bruscamente das cobertas e ganhou a janela.

A noite avançou pela madrugada, a longa confabulação da vizinha também. Marta acreditou que haviam sido pelo menos três interlocutores diferentes, e com o último, o diálogo evoluíra para uma briga, pois passou a ouvir murros, possivelmente na mesa ou nas portas de algum armário. Foi uma noite regada a palavras de raiva e passos a atravessar o piso, no caso, o teto de seu quarto. Teve ímpetos de soltar um palavrão libertador, de mandá-la calar a boca, de gritar que precisava dormir. Talvez se reclamasse bem alto, algum outro vizinho a apoiasse na reclamação. Pensou, ameaçou, e não o fez.

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No auge dos seus 46 anos, viver sozinha era novidade. Recém-divorciada, não se acostumara a ter mais espaço na cama, ou com a ausência de Alcides e seu sono da morte. O homem roncava tanto que, por vezes, apenas seu ronco lhe trazia a certeza de que ele estava vivo. Quantas noites mal dormidas por culpa da apneia do marido num prenúncio de morte por asfixia. Agora, pela lógica, deveria dormir melhor, afinal estava sozinha.

Como não conseguia dormir, passou a distrair-se tentando entender a conversa da vizinha. Calculou o grau de paciência que teria o interlocutor do outro lado da linha. - Essa deve ser alguma parenta... Esse deve ser o chefe. Será que ela ainda trabalha? Bem pode ser que trabalhe com algum tipo de atendimento telefônico... mas existe Telemarketing de madrugada? Vai ver, conversa à noite por conta do fuso horário. Deve ser isso: os filhos moram fora, e só consegue falar com eles de madrugada. – Sentiu vergonha ao pegar-se com os ouvidos na parede.

Passava os dias sonolenta, até que cedeu aos soníferos; primeiro os naturais, depois os tarja preta que conseguiu com uma colega. Graças a esses, por uma semana viu resultados, mas foi só. A insônia venceu. Tudo o que lhe restara era aquela voz incansável. - Chega, vou tomar uma atitude, assim não dá. Amanhã bato na porta dela.

A privação do sono permitiu que a vizinha preenchesse todas as horas de seu dia, provocando dores de cabeça e a queda de rendimento no escritório. Marta estava um caco e aos poucos, a delusão expulsou a razão, abrindo caminho para toda a ordem de pensamentos intrusos e infundados. - E se essa mulher nem existir? Será que sou só eu que a ouço? Tô enlouquecendo, preciso dormir. - Esgotada e confusa, começou a faltar no trabalho.

Sentindo a vida lhe escapar pelas mãos, considerou tomar alguma atitude, antes que a loucura se apossasse de sua mente. Cogitou ligar para Alcides, mas não lhe daria essa prova de fraqueza. - Eu consigo, amanhã eu resolvo. - O amanhã passava para depois, sempre depois.

Uma tarde, após experimentar um período de longo silêncio, encheu-se de coragem. - A infeliz deve estar dormindo... então eu vou acordá-la. Que sinta o gostinho de ser incomodada. - Seria sua pequena vingança.

Subiu o lance de escadas e parou em frente à porta sentindo o coração bater cada vez mais rápido. Observou uma enorme quantidade de pó sob o batente, e teve a impressão que há muito tempo ninguém passava por ali. Sentiu um misto de raiva e dó da figura que enfim conheceria. Dó, pois afinal experimentavam da mesma bebida: a solidão. E sentiu raiva de si mesma pois, de alguma forma, identificava-se com uma pessoa, no mínimo, desequilibrada.

Engoliu em seco e bateu várias vezes. Quando pensou em desistir, a porta se abriu revelando a pequena figura de uma senhora na faixa de seus 70 anos. Trajava roupas surradas, os cabelos em desalinho, e um par de olhos opacos.

Em frente a culpada de sua tortura, Marta desmontou, deixando que as palavras de seu discurso ensaiado fugissem pela escada de serviço.

- O que deseja menina? – indagou a figura que não condizia com aquela voz potente de suas noites mal dormidas.

- Eu... eu preciso falar com a senhora. Me desculpe simplesmente bater em sua porta, mas, mas...

- Meu nome é Mirtes, e você quem é? – perguntou.

- Eu... Meu nome é Marta, e moro no apartamento abaixo do seu. Queria dizer que... bem, se a senhora precisar de alguma coisa, é só chamar, tá?

- O que mais você quer, menina? - perguntou a mulher, sem nenhuma emoção visível.

- Não, nada não. Era só isso mesmo. Me desculpe a intromissão... – Assim como seu discurso, sua coragem também descera pelas escadas, impulsionando-a seguir pelo mesmo caminho. - Como sempre me acovardei. Marta, você é uma idiota covarde.

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Na esperança de reclamar com alguém, correu escada abaixo, dirigindo-se à portaria. Se não conseguia entrar em um conflito, então o caminho seria uma reclamação formal. Chegando ao térreo, abriu apressadamente a porta dando de cara com o porteiro, que conversava animadamente com um jovem casal.

- Oi, Dona...

- Marta. - respondeu prontamente ao porteiro.

- Desculpe, mas ainda não decorei seu nome. É a idade pesando. – justificou encabulado pela gafe, e sorriu mudando de assunto: - Esses são seus novos vizinhos. Estão de mudança pro número 7, exatamente um andar acima do seu... Vocês vão gostar daqui, só tem gente boa. Sejam muito bem-vindos. – completou dirigindo-se ao casal que já se afastava.

- Sim, cla...claro, sejam bem-vindos. – disse Marta, que por inércia, não desmanchou o sorriso que havia pregado na cara.

- O número sete... está vazio? – perguntou incrédula.

- Ah, sim, já tem mais de um ano. Desde que Dona Mirtes faleceu... Que Deus a tenha. A senhora está bem Dona Marta? Posso ajudar em alguma coisa? – indagou o porteiro fitando-a com ar preocupado.

- Não. Está tudo bem... vou subir, eu esqueci a carteira em casa.

Correu para o elevador e sentiu um grande alívio quando a porta se fechou escondendo-a do porteiro que ainda a observava. - Será que a louca sou eu? Não é possível! Eu a vi! Eu falei com ela! - Olhou-se no espelho do elevador como a esperar uma resposta. Porém, Marta não reconhecia a imagem da pessoa que a fitava de volta.

Entrou em casa, jogou-se no sofá, e imóvel assistiu o dia virar noite. - Ela vai começar a falar, eu sei que vai. Fale Dona Mirtes, não me importa com quem, apenas fale. - O sangue lhe fugia, o suor escorria por seu rosto, enquanto as longas conversas de Dona Mirtes lhe invadiam a memória.

Estranhou o som do silêncio.

- É isso... tenho que ir pra cama, aí ela começa... Se eu deitar e tentar dormir ela começa. Então que venha Dona Mirtes... Que venha, pois estou pronta para a senhora.  

Deitou-se como quem arma uma estratégia de guerra.

- É... Eu sei. Não disse que seria assim? - Mirtes atacava novamente.

-  Eu avisei, mas... ela não me ouve... As coisas têm que mudar! Não... não fala besteira, eu sei do que estou falando, eu já passei por isso... Acho melhor marcarmos uma reunião...

Sentindo como se tivesse ganho uma batalha, Marta de um pulo colocou-se em pé, e apressada, avançou pelas escadas. Preparou-se para bater, mas desta feita, a porta abriu-se antes da primeira pancada.

- O que você quer, menina Marta? – perguntou a mulher, fitando-a com seu olhar sem viço e um sorriso no canto da boca.

- Apenas conversar, Dona Mirtes... Só quero conversar. Posso?

- Entre, menina... entre. Eu já lhe esperava. – respondeu a vizinha fechando a porta atrás delas.

E assim, no andar de cima, a solidão quebrou o silêncio.


FIM

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Arquivo da autora


Sandra A. Santos é pedagoga com especialização em Educação Ambiental, ambientalista apaixonada pela natureza e pela vida em todas as suas formas. Hoje aposentada, dedica-se à literatura, escrevendo contos, romances e poesias que giram em torno do universo feminino. Com trabalhos publicados em antologias no Brasil e na Argentina.

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A PALAVRA INSUBMISSA: O PODER DA ESCRITA NEGRA, POR CARLA NEPOMUCENO

«A nossa escrevivência não é para ninar os da casa-grande, é para acordá-los dos seus sonos injustos»    Conceição Evaristo Por Carla Nepo...