domingo, 8 de março de 2026
O DIA INTERNACIONAL DA MULHER
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026
REMINISCÊNCIAS INFANTO-JUVENIS, POR MARIA DO CARMO SILVA
"No fim da tarde quando tudo se aquietava..."
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Pedir a bênção aos pais,
padrinhos, avós, tios e às pessoas mais velhas, independente de ter vínculo
familiar, era uma prática cotidiana respeitosa e afetuosa que ultrapassava o
período da infância, estendendo-se aos jovens e até aos adultos já casados, que
com reverência estendia a mão direita pedindo a bênção. “A bença a Dona Maria,
a bença a Seu José", sendo a bênção ofertada de forma calorosa com um “Deus te
abençoe, Deus te dê uma boa sorte, Deus te faça feliz".
No ambiente doméstico, o
respeito e a obediência aos mais velhos era regra geral: os filhos mais velhos
ajudavam os pais no cuidado com os irmãos mais novos - ressaltando que
normalmente a prole era extensa -, auxiliavam a mãe nas tarefas domésticas e em
outras atividades no campo, tudo sob o olhar dos mais velhos que já gerava
intimidação e um alerta para a obediência.
“No fim da tarde quando
tudo se aquietava...” - ainda soa a canção de Pe. Zezinho. Ao final da tarde, todos se reuniam, sentados no banco de madeira, normalmente da cozinha, ao redor
do fogão a lenha, para ouvir as histórias e causos contados pelos mais velhos.
O candeeiro iluminava o ambiente e o calor das brasas do fogão aquecia a prosa.
À noite, era comum os pais contarem histórias para os filhos. As crianças ouviam, em silêncio, as lendas do lobisomem e de outros seres estranhos, ficavam apavoradas sem
reagir e nem interagir.
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À época, a tecnologia nem
sonhava existir e os brinquedos eram artesanais, feitos pelas próprias crianças
ou pelos pais com materiais reaproveitados ou retirados da natureza: cavalo de
pau, panelas de barro, bonecas de pano, bolas de meia com enchimento de papel,
carrinhos feitos com vasilhame de oléo ou de manteiga e com rodas feitas com
borracha de sandálias.
A Escola era o “lugar do
aprender”. Sentados em bancos de madeira, com olhar fixo no professor, no ABC e
na cartilha, todos cumpriam suas tarefas e mantinham obediência ao professor da
mesma forma que ao seus pais e aos mais velhos, tratando-o com o devido
respeito, pois se lhes faltasse com ele,
seria severamente punido.
Na contemporaneidade, os
valores humanos e as relações familiares estão quase que descartados, causando
sérias e drásticas consequências à sociedade como um todo. A escola é para
muitos, apenas um lugar de encontro com colegas, um lugar de distração. Reconhecê-la
como espaço de produção e de aquisição do conhecimento não é regra geral. Pedir a bênção aos mais velhos saiu de moda.
A tecnologia trouxe brinquedos eletrônicos, bonecos que simulam seres humanos,
ridicularizando-o com o desrespeito, a violência, a pornografia. A prosa e as
brincadeiras com colegas, familiares e amigos foi substituída pela “comunicação
virtual”, via redes sociais, espaço de “liberdade” e de “permissividade”.
O respeito, a solidariedade, a
fraternidade e a humanização foram substituídos pela robotização dos humanos.
Quais lições, histórias e memórias das crianças e jovens da sociedade
contemporânea transmitiremos à posteridade?
☆_____________________☆_____________________☆
terça-feira, 30 de dezembro de 2025
O LIMITE DE UMA MULHER
"Eu saúdo, honro e apoio as mulheres que estão dizendo não"
Por Flavia Ferrari
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Somos socializadas a escutar e a prestar atenção, pois a distração e o movimento são características dos meninos.
Na adolescência, nos viramos desde início com maquiagem, roupa, cabelo, de acordo com o que a maioria faz - não pertencer a esse grupo majoritário tem um alto custo social. Somos automaticamente levadas à dinâmica do cuidar: do corpo, das coisas, dos hábitos, dos espaços, das plantas, dos bichos, dos filhos. O peso simbólico e permanente da palavra “mãe” sobrevive à própria vida das mães. É por esta via que mulheres são lembradas e exaltadas na família.
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É por isso que, quando uma mulher diz que não aguenta mais, é porque o limite tão esgarçado já perdeu toda a elasticidade, e não respeitar essa frágil película que separa o prosseguir do recusar é abrir mão da própria sanidade. Eu saúdo, honro e apoio as mulheres que estão dizendo não, buscando recalcular rotas e transformar suas vidas, seja saindo de casamentos, relacionamentos, das casas, das cidades ou dos países em que não querem mais estar.
Avante, mulheres! Cada dia há de ser menos pior do que o dia anterior.
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segunda-feira, 22 de dezembro de 2025
62 ANOS ! (SOBRE)VIVER É UM ATO POLÍTICO
"Escrevo porque a palavra sempre foi minha ferramenta de sobrevivência."
Hoje completo 62 anos. Entrego minha idade com velas mágicas e com o corpo inteiro aceso. Celebrar a minha vida como mulher, neste país onde mulheres são interrompidas diariamente, é um gesto que carrega peso histórico, ético e político.
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| Arquivo da autora |
Enquanto escrevo esse texto, penso nas Tainaras, Isabelas e milhares de outras que não chegaram até aqui. Penso nas mulheres cujos aniversários foram silenciados pelo feminicídio, essa chaga social que o sistema não consegue encontrar a cura, e que lobos disfarçados de cordeiros romantizam dizendo ser adquirida do amor e do ciúme, mas que na verdade ela existe simplesmente pelo fato de sermos mulheres, pelo ódio, pelo controle exercido pelo patriarcado e pela certeza de que nossos corpos são territórios de posse. Na verdade, a culpa é do machismo estrutural que disfarça de homicídio os crimes misóginos.
Simone de Beauvoir já nos alertava que não se nasce mulher, torna-se, isto é, aprende -se a ser mulher dentro de um sistema patriarcal que impõe normas, papéis e silenciamentos. Muitas mulheres são brutalmente interrompidas não por não alcancarem esse "tornar-se ", mas por desafiarem ou não se ajustarem às expectativas que lhes são impostas.
Para uma mulher que chega aos 62 anos, num país que ocupa a quinta maior taxa de feminicídio do mundo, é atravessar um campo minado com passos insistentes. É ter sido menina afetiva e tímida, adolescente intensa e romântica, sem imaginar que ser mulher é ser subjugada, objetificada e coagida. É ter acreditado no amor, lutado em meio a um casamento abusivo e ainda ter se reinventado como mãe solo, leoa, colo, sustento e abrigo.
Minha história pessoal não está dissociada da história coletiva das mulheres. Como escreveu Bell hooks, o amor, para nós, nunca foi neutro, ele sempre precisou ser reaprendido fora da lógica da dominação.
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| Arquivo da autora |
E hoje eu celebro meu aniversário escrevendo com prazer, como mulher e como escritora, porque escrevo com o corpo que amou, viveu, perdeu e resistiu. Escrevo porque a palavra sempre foi minha ferramenta de sobrevivência. Audre Lorde dizia que transformar o silêncio em linguagem e ação é um ato de coragem. E eu escrevo para fazer barulho, porque sei que o silêncio mata e não apenas metaforicamente.
O feminicídio não é um desvio de conduta individual. É o ponto extremo de uma cultura que naturaliza a violência contra mulheres, que relativiza agressões, que pergunta “o que ela fez?” em vez de perguntar “por que ele matou?”. Djamila Ribeiro nos lembra que não existe neutralidade quando a estrutura é desigual. Celebrar minha vida hoje, aos 62, é também denunciar essa estrutura.
Minha existência é prova, minha maturidade é prova e minha escrita é o carimbo.
Cada ruga que carrego não é sinal de desgaste, mas de permanência, de permanecer viva, lúcida e criativa, escrevendo sobre o feminino num mundo que insiste em nos apagar.
Isso para mim é uma forma de insurgência.
Hoje não celebro apenas mais um ano de vida, celebro o direito de continuar, celebro as mulheres que vieram antes de mim e abriram caminhos, celebro as que caminham comigo. E como ser humano sinto os rasgos na minha pele com indignação e compromisso por todas as que não (se)ssentaram e sim ficaram com os corpos estendidos ao chão.
Que minha voz aos 62, ecoe como denúncia e manifesto. Porque enquanto uma mulher for morta por ser mulher, nenhuma de nós estará inteira. E ainda assim estamos aqui:
Escrevendo, vivendo e resistindo.
FEMINICÍDIO
Matam em casa todo dia uma mulher!
A voz sufocada
Pincelada de sangue
Reside nas paredes
Ecoa na sala o noticiário
Agredindo os tímpanos
Na surdez da lei
Tudo é corriqueiro
Mas a dor velada das Marias
Rasga a minha pele
E do meu verso perplexo
Arranco o silêncio
Enterrado no sexo
E eu grito na poesia :
Basta! O machismo já fede!
♡__________________◇_________________♤_________________♧__________________♡
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| Arquivo da autora |
terça-feira, 14 de outubro de 2025
CRÔNICAS DA SUSTÂNCIA - Por Rosangela Marquezi
SOBRE ESPELHOS E ESPERANÇAS
Rosangela Marquezi
| Meu espelhinho quebrado... |
“Quando não houver saídaQuando não houver mais soluçãoAinda há de haver saídaNenhuma ideia vale uma vida".
"Recria tua vida, sempre, sempre.Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça."
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Rosangela Marquezi é professora de formação e atuação que acredita que a literatura tem o poder de modificar vidas... Graduada em Letras, Mestra em Educação e Doutora em Desenvolvimento Regional, é professora de Literatura na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Faz parte da Academia de Letras e Artes de sua cidade, Pato Branco - PR. Nas horas vagas, escreve poemas, crônicas e contos e já participou de coletâneas e antologias no Brasil e também em Portugal.
Sustância - personagem fictícia que define a escritora de crônicas que habita em mim, "a ânsia, a substância, a Sustância!" (Marquezi, 2017).
quinta-feira, 11 de setembro de 2025
LANÇAMENTO DE COLHEITAS ANCESTRAIS & PRIMAVERAS, DA POETA MARIA DO CARMO
DE COLHEITAS E PRIMAVERAS
Por Marta Cortezão
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| Convite da autora |
E desse lugar, de quem a lê, de quem a acompanha em
seus movimentos e produções literárias, posso dizer que sua escrita nos
descortina um caleidoscópio de importantes reflexões sobre o caótico mundo em
que vivemos, mantendo sempre os olhos postos no horizonte das utopias e das
esperanças necessárias para mudanças futuras, estas que urgem ações para a
agoridade do tempo presente, cujo ponto de partida é a leitura. Neste livro,
seguindo a linha de uma literatura de compromisso social, a autora aprofunda a
conexão com suas raízes ancestrais de forma a criar conhecimento através da
própria filosofia de vida que, não somente explique o caos do mundo, mas que nos
conscientize da importância do crescimento e transformação humanos, como se
pode ler nos seguintes trechos:
O preconceito racial não prevalecerá!
No coração do povo negro, pulsa o verbo lutar! (Resistência, p.30)
Axé é a voz da resistência!
É a voz da ancestralidade a nos
abraçar. (Voz da Resistência,
p.37)
a tua resiliência materna,
Continua acreditando na regeneração
do coração humano. (Terra-Mãe,
p.20)
Ações humanas impensadas
À natureza, causam consequências
irreversíveis.
E o ser humano prossegue egoísta e
insensível. (Reflexão
matinal, p.21)
A guerra bombardeia os corações!
A guerra é o terror das nações!
A guerra destroça vidas. (Corações Bombardeados, p.31)
Garimpam a vida dos povos indígenas.
Garimpam a história dos povos indígenas. (Sobre Viver, p.52)
Há temas onde a matéria e imagética do poema é fresca
metapoesia. A voz lírica usa o seu conhecimento sobre o fazer poético para
afirmar, neste caso anaforicamente, que a poesia é um organismo vivo, um
instrumento para a arquitetura de memórias e de novos mundos, portanto uma
ferramenta primordial que transforma a vida humana:
A poesia rememora o ontem.
A poesia narra o agora.
A poesia medita sobre o
amanhã.
A poesia é viva.
VIVA A POESIA! (A poesia vive, p.19)
CORTEZÃO, Marta. Posfácio: De Colheitas e
Primaveras. In: SILVA, Maria do Carmo. Colheitas Ancestrais &
Primaveras. Mutuípe/BA: Editora ArtPoesia, 2024.
terça-feira, 2 de setembro de 2025
A FORÇA DA COLETIVIDADE
Por Lulih Rojansk
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| Foto: Aog Lima da Rocha |
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| Foto: Aog Lima da Rocha |
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| Arquivo da autora |
Lulih Rojanski nasceu no Paraná. É descendente de imigrantes poloneses que vieram para o Brasil nas primeiras décadas do século XX e tiveram a sorte de escapar do Holocausto. Em 1984, migrou para a Amazônia e esqueceu-se do caminho de volta. Era muita estrada para esconder as migalhas de pão. Graduou-se em Letras, habilitou-se em Língua Portuguesa e Literatura. Trabalha em sala de aula há 28 anos. Há mais de 30 escreve contos e crônicas que desde o princípio foram publicados em diversas coletâneas. No Estado onde vive, o Amapá, a autora se destaca pela participação de sua obra em provas de concursos públicos e pelo alcance de sua escrita, que tem feito parte de antologias nacionais e binacionais (Brasil/Portugal). Seus primeiros livros: Lugar da Chuva (crônicas), Abilash (conto). Pérolas ao Sol (crônicas) e Gatos Pingados (contos) foram publicados pela Escrituras Editora (SP). Feras Soltas é seu primeiro romance publicado, o segundo é Amores enterrados no jardim (2025).
quinta-feira, 12 de junho de 2025
TORNAR-SE ESCRITORA, POR MYRIAM SCOTTI
AVE, CRÔNICA|07
T O R N A R - S E E S C R I T O R A
Por Myriam Scotti
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| Arquivo da Autora |
CARTA A QUEM DESEJA MEU SILÊNCIO
Por Cíntia Colares (Flor de Lótus)
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E calei pelo medo e vergonha.
Na segunda vez que sofri violência, passei anos sofrendo um duro assédio moral e sexual num ambiente que deveria ser seguro. Apesar de ter sido aprovada num concurso para funcionária pública federal, morri um pouco a cada dia enquanto tentava sobreviver para garantir o sustento do meu filho.
Não calei, mas paguei caro por ousar denunciar velhas práticas e por não ceder ao assédio. Na terceira vez que sofri violência foi onde buscava construir outro mundo possível. Quando busquei voz e poder de decisão como os demais, ouvi que deveria me pôr no meu lugar.
O meu lugar e o de todos nós: pessoas negras, mulheres, indígenas é onde a gente quiser e reivindicar. É onde a vida acontece e está sendo decidida.
Nada mais sobre nós sem nós.
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De minha parte, muitos gritos mais ainda serão ouvidos até que me escutem e me vejam estar presente nos espaços e nas decisões.
E nunca mais calarei.
Porque minhas dores gritam em mim até no silêncio. No olhar que fere, na boca que nos enxota.
Não estarei olhando do lado de fora e não estarei em silêncio do lado de dentro, fazendo apenas figuração para aliviar suas consciências.”
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| Arquivo da Autora |
Obrigada por ler até aqui “Sou Flor de Lótus🪷
Feminário Conexões, o blog que conecta você!
CRÔNICAS DA SUSTÂNCIA*
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