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terça-feira, 30 de dezembro de 2025

O LIMITE DE UMA MULHER

"Eu saúdo, honro e apoio as mulheres que estão dizendo não"

Por Flavia Ferrari 

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Desde pequenas acostumamo-nos a esgarçar nossos limites. Coisas do processo educativo das meninas. Controlamos nossa energia desde cedo, incentivadas a brincar com objetos que requerem foco e delicadeza. Temos roupas, penteados, acessórios não convidativos a uma escalada ou banho de lama. A bola rolando com gente em volta pertence a um grupo fechado, e a coragem para entrar no jogo não nos é dada de saída. 

Somos socializadas a escutar e a prestar atenção, pois a distração e o movimento são características dos meninos. 

Na adolescência, nos viramos desde início com maquiagem, roupa, cabelo, de acordo com o que a maioria faz - não pertencer a esse grupo majoritário tem um alto custo social. Somos automaticamente levadas à dinâmica do cuidar: do corpo, das coisas, dos hábitos, dos espaços, das plantas, dos bichos, dos filhos. O peso simbólico e permanente da palavra “mãe” sobrevive à própria vida das mães. É por esta via que mulheres são lembradas e exaltadas na família. 

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É claro que as mudanças estão aí, e ser mulher hoje é muito mais plural do que há cinquenta anos - e o preço disso é muitas vezes pago com a vida. Sabemos disso e somos nós que gritamos frente à barbárie. 

É por isso que, quando uma mulher diz que não aguenta mais, é porque o limite tão esgarçado já perdeu toda a elasticidade, e não respeitar essa frágil película que separa o prosseguir do recusar é abrir mão da própria sanidade. Eu saúdo, honro e apoio as mulheres que estão dizendo não, buscando recalcular rotas e transformar suas vidas, seja saindo de casamentos, relacionamentos, das casas, das cidades ou dos países em que não querem mais estar. 

Avante, mulheres! Cada dia há de ser menos pior do que o dia anterior.

Para adquirir os livros da autora clique AQUI.

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Flavia Ferrari (São Paulo, 1976). Poeta e professora da rede pública de São Paulo, Flavia Ferrari tem três livros de poesia publicados, Meio-Fio: Poemas de Passagem (2021) e É Tudo Ficção (2022) e Espólio (2025). A autora escreve desde a adolescência, mas começou a publicar seus poemas no início de 2020, compartilhando seu trabalho nas redes sociais, participando de antologias e contribuindo com revistas literárias digitais. Desde o princípio, os seus poemas foram muito bem recebidos pelas leitoras e leitores.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

62 ANOS ! (SOBRE)VIVER É UM ATO POLÍTICO

 "Escrevo porque a palavra sempre foi minha ferramenta de sobrevivência."

Hoje completo 62 anos. Entrego minha idade com velas mágicas e com o corpo inteiro aceso. Celebrar a minha vida como mulher, neste país onde mulheres são interrompidas diariamente, é um gesto que carrega peso histórico, ético e político.

Arquivo da autora

Enquanto escrevo esse texto, penso nas Tainaras, Isabelas e milhares de outras que não chegaram até aqui. Penso nas mulheres cujos aniversários foram silenciados pelo feminicídio, essa chaga social que o sistema não consegue encontrar a cura, e que lobos disfarçados de cordeiros romantizam dizendo ser adquirida do amor e do ciúme, mas que na verdade ela existe simplesmente pelo fato de sermos mulheres, pelo ódio,  pelo controle exercido pelo patriarcado e pela certeza  de que nossos corpos são territórios de posse. Na verdade, a culpa é do machismo estrutural que disfarça de homicídio os crimes misóginos.

Simone de Beauvoir já nos alertava que não se nasce mulher, torna-se, isto é, aprende -se a ser mulher dentro de um sistema patriarcal que impõe normas, papéis  e silenciamentos. Muitas mulheres são brutalmente interrompidas não por não alcancarem esse "tornar-se ", mas por desafiarem ou não se ajustarem às expectativas  que lhes são  impostas.

Para uma mulher que chega aos 62 anos, num país que ocupa a quinta maior taxa de feminicídio do mundo, é atravessar um campo minado com passos insistentes. É ter sido menina afetiva e tímida, adolescente intensa e romântica, sem imaginar que ser mulher é ser subjugada, objetificada e coagida. É ter acreditado no amor, lutado em meio a um casamento abusivo e ainda ter se reinventado como mãe solo, leoa, colo, sustento e abrigo.

Minha história pessoal não está dissociada da história coletiva das mulheres. Como escreveu Bell hooks, o amor, para nós, nunca foi neutro, ele sempre precisou ser reaprendido fora da lógica da dominação.

Arquivo da autora

E hoje eu celebro meu aniversário escrevendo com prazer, como mulher e como escritora, porque escrevo com o corpo que amou, viveu, perdeu e resistiu. Escrevo porque a palavra sempre foi minha ferramenta de sobrevivência. Audre Lorde dizia que transformar o silêncio em linguagem e ação é um ato de coragem. E eu escrevo para fazer barulho, porque sei que o silêncio mata  e não apenas metaforicamente.

O feminicídio não é um desvio de conduta individual. É o ponto extremo de uma cultura que naturaliza a violência contra mulheres, que relativiza agressões, que pergunta “o que ela fez?” em vez de perguntar “por que ele matou?”. Djamila Ribeiro nos lembra que não existe neutralidade quando a estrutura é desigual. Celebrar minha vida hoje, aos 62, é também denunciar essa estrutura.

Minha existência é prova, minha maturidade é prova e minha escrita é o carimbo.

Cada ruga que carrego não é sinal de desgaste, mas de permanência, de permanecer viva, lúcida e criativa, escrevendo sobre o feminino num mundo que insiste em nos apagar.

Isso para mim é uma forma de insurgência.

Hoje não celebro apenas mais um ano de vida, celebro o direito de continuar, celebro as mulheres que vieram antes de mim e abriram caminhos, celebro as que caminham comigo. E como ser humano sinto os rasgos na minha pele com indignação e compromisso por todas as que não (se)ssentaram e sim ficaram com os corpos estendidos ao chão.

Que minha voz aos 62,  ecoe como denúncia e manifesto. Porque enquanto uma mulher for morta por ser mulher, nenhuma de nós estará inteira. E ainda assim estamos aqui:

Escrevendo, vivendo e resistindo.

FEMINICÍDIO

Matam em casa todo dia uma mulher!

A voz sufocada

Pincelada de sangue

Reside nas paredes

Ecoa na sala o noticiário

 Agredindo os tímpanos

Na surdez da lei

Tudo é corriqueiro

Mas a dor velada das Marias

Rasga a minha pele

E do meu verso perplexo

Arranco o silêncio

Enterrado no sexo

E eu grito na poesia :

Basta! O machismo já fede!

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Arquivo da autora

Rilnete Melo é maranhense, poeta, escritora, cronista e cordelista, membro das academias de letras ACILBRAS e ABMLP, colunista no blog Feminário Conexões e colaborada da Revista internacional The Bard, coautora de várias antologias nacionais e internacionais, vencedora de seis concursos literários, autora dos livros Construindo Versos, O máximo de mim e outros mínimos poemas, Pérolas do meu silêncio, zine Dezcontos micros e autora de cinco cordéis.

terça-feira, 14 de outubro de 2025

CRÔNICAS DA SUSTÂNCIA - Por Rosangela Marquezi

 


SOBRE ESPELHOS E ESPERANÇAS

Rosangela Marquezi


Meu espelho quebrado...
Meu espelhinho quebrado...
Quebrei um espelho... Estava em frente à janela, aproveitando a luz solar para tirar aqueles pelinhos do buço que só a gente vê – e finge que ninguém mais nota. Distraí-me olhando a rua – moro diante de uma bem movimentada – e eis que o espelhinho, tão bonito e presente de uma amiga, escorregou-me das mãos. Em segundos, um dos lados virou dezenas de cacos pelo chão.


(Nesse instante, lembrei-me dos famosos "sete anos de azar". Curiosa como sou, fui investigar! Dizem que essa crença vem da Grécia e da Roma antigas, onde se acreditava que a imagem refletida carregava poderes mágicos. Lembram de Narciso? Pois é, a coisa vem de tempos! Mas, parece, foram os romanos, por volta do século III, com o surgimento do espelho de vidro, que associaram o ato de quebrá-lo ao azar: se o reflexo fosse destruído, a sorte também se quebrava. Sete anos, porque se acreditava que o corpo levava esse tempo para se renovar... Mas, como esse texto não é uma aula de história, e sim uma crônica, volto ao meu espelho.)

O espelho se quebrou. Abaixei-me para juntar os pedaços e, enquanto recolhia – um a um – os cacos espalhados pelo chão, pensei que, ao contrário das histórias de azar, talvez esse espelho me oferecesse outra chance: a de romper, de vez, com tudo que não me faz bem! Decidida, fui dando significado a cada fragmento. A cada caco, deixava para trás uma mágoa, um medo, um peso antigo...

A primeira coisa que joguei fora foi a tristeza que volta e meia insiste em querer se instalar em minha vida. No decorrer de nossa existência, vamos acumulando choro, raiva, mágoas... E isso só causa peso desnecessário à vida! Como cantava Tim Maia, “Tristezas que passaram na vida não devemos mais lembrar / Só pense no amanhã / tristezas não vão mais / Passar no meu caminho nunca mais”. Que assim seja! Confesso que foram muitos pedacinhos aqui...

Joguei fora também palavras mal ditas e malditas! Ditas e ouvidas! Palavras têm tanto poder que, se lembrássemos disso todos os dias, de nossa boca só sairiam as que edificam e alegram! Palavras são ondas sonoras... Gosto de imaginá-las voando por aí, encontrando-se nesse espaço além-tempo, valsando em vibrações. Que lindo seria se pudéssemos viver envolvidos apenas por palavras doces, belas, valorosas, amorosas!

Propus-me ainda a jogar fora a falta de esperança. Vivemos tempos difíceis. Guerras cruéis espalhadas pelo mundo, violências diárias... Ver isso constantemente nos noticiários vai criando a falsa ideia de que "A vida é assim mesmo! Nada muda”. Isso é terrível e destrói nossa fé na humanidade. Tentei jogar fora essa desesperança, mas confesso: a dura realidade continua lembrando que é preciso estarmos atentos!

Fui descartando também dores físicas e espirituais, dias tristes e dias mal vividos... Histórias ruins, amores que não deram certo, venenos verbais acumulados... Recordações doloridas e pesadas penas...

Aos poucos, minha alma e meu corpo foram se sentindo mais leves e fui vendo que a vida ganhava novo ânimo. Guardei tudo com cuidado e descartei, como quem se despede do que já não serve. Foi mais do que uma faxina doméstica, foi uma limpeza de alma, tão necessária a nossos dias!

Quiçá não sejam sete anos de azar o que vem pela frente, mas sete anos e mais sete e mais sete – tantos quantos me forem permitidos – em que, mais leve e grávida de esperanças, eu possa ver a vida e as pessoas com mais boniteza!

É o que merecemos: esperança e amor!

Abraços! Seja Feliz.

Rosangela Marquezi
Professora de formação e atuação, mas alguém que crê na esperança como verbo...


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DICAS DA RÔ
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1. Ouça a música “Enquanto houver sol”, na voz dos Titãs. É uma daquelas canções que abraçam por dentro, lembrando-nos que, mesmo nos dias mais nublados, ainda pode haver uma fresta de luz. A canção, escrita por Sérgio Britto e lançada no álbum "Como estão vocês" (2003), é quase um mantra de resistência suave, daqueles que a gente canta baixinho para não esquecer de acreditar.

“Quando não houver saída
Quando não houver mais solução
Ainda há de haver saída
Nenhuma ideia vale uma vida".


2. Assista ao filme “Um conto chinês” (Un cuento chino), lançado em 2011, dirigido por Sebastián Borensztein e estrelado pelo maravilhoso ator argentino Ricardo Darín. À primeira vista, parece apenas uma comédia inusitada sobre o encontro improvável entre dois mundos: um argentino ranzinza e um jovem chinês perdido. Mas, aos poucos, percebemos que é uma história sobre acaso, acolhimento e os laços invisíveis que nos conectam, mesmo quando não falamos a mesma língua. Esse filme nos faz pensar nos encontros inesperados que mudam nossa vida... Afinal, às vezes, a boniteza está justamente no que não planejamos.

3. Leia o poema “Aninha e suas pedras”, da poeta goiana Cora Coralina, publicado em 1983 no livro “Vintém de cobre: meias confissões de aninha”. É um poema que fala direto ao coração, sem artifícios, com a força da sabedoria vivida. Cora nos convida a olhar para as dificuldades não como obstáculos, mas como pedras com as quais podemos construir caminhos. Às vezes, a poesia só nos lembra do que já sabemos: somos mais fortes do que pensamos...

"Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça."

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Arquivo pessoal (autoria de Alan Winkoski)

Rosangela Marquezi é professora de formação e atuação que acredita que a literatura tem o poder de modificar vidas... Graduada em Letras, Mestra em Educação e Doutora em Desenvolvimento Regional, é professora de Literatura na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Faz parte da Academia de Letras e Artes de sua cidade, Pato Branco - PR. Nas horas vagas, escreve poemas, crônicas e contos e já participou de coletâneas e antologias no Brasil e também em Portugal.

Sustância - personagem fictícia que define a escritora de crônicas que habita em mim, "a ânsia, a substância, a Sustância!" (Marquezi, 2017). 

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

LANÇAMENTO DE COLHEITAS ANCESTRAIS & PRIMAVERAS, DA POETA MARIA DO CARMO

 DE COLHEITAS E PRIMAVERAS

Por Marta Cortezão 

Convite da autora
Depois da publicação dos livros Retalhos de Vivências (Scortecci, 2017), Recomendações Poéticas (Cogito, 2021), Leituras e Releituras (Studio Portinhola, 2023), a escritora baiana de Mutuípe, Maria do Carmo Silva, nos brinda com Colheitas Ancestrais & Primaveras. Receber o convite da autora para posfaciar seu novo poemário é uma grande satisfação, porque venho acompanhando sua escrita poética ao longo desses quatro anos. Nos conhecemos através do Projeto Tertúlias Virtuais e desde então somos parceiras e construímos uma amizade de mútuo respeito e muita admiração.

E desse lugar, de quem a lê, de quem a acompanha em seus movimentos e produções literárias, posso dizer que sua escrita nos descortina um caleidoscópio de importantes reflexões sobre o caótico mundo em que vivemos, mantendo sempre os olhos postos no horizonte das utopias e das esperanças necessárias para mudanças futuras, estas que urgem ações para a agoridade do tempo presente, cujo ponto de partida é a leitura. Neste livro, seguindo a linha de uma literatura de compromisso social, a autora aprofunda a conexão com suas raízes ancestrais de forma a criar conhecimento através da própria filosofia de vida que, não somente explique o caos do mundo, mas que nos conscientize da importância do crescimento e transformação humanos, como se pode ler nos seguintes trechos:

O preconceito racial não prevalecerá!

No coração do povo negro, pulsa o verbo lutar! (Resistência, p.30)

 

Axé é a voz da resistência!

É a voz da ancestralidade a nos abraçar. (Voz da Resistência, p.37)

 

a tua resiliência materna,

Continua acreditando na regeneração do coração humano. (Terra-Mãe, p.20)

 

Ações humanas impensadas

À natureza, causam consequências irreversíveis.

E o ser humano prossegue egoísta e insensível. (Reflexão matinal, p.21)

 

A guerra bombardeia os corações!

A guerra é o terror das nações!

A guerra destroça vidas. (Corações Bombardeados, p.31)

 

Garimpam a vida dos povos indígenas.

Garimpam a história dos povos indígenas. (Sobre Viver, p.52)

Há temas onde a matéria e imagética do poema é fresca metapoesia. A voz lírica usa o seu conhecimento sobre o fazer poético para afirmar, neste caso anaforicamente, que a poesia é um organismo vivo, um instrumento para a arquitetura de memórias e de novos mundos, portanto uma ferramenta primordial que transforma a vida humana:

A poesia rememora o ontem.

A poesia narra o agora.

A poesia medita sobre o amanhã.

A poesia é viva.

VIVA A POESIA! (A poesia vive, p.19)


A modo de conclusão, não há dúvida de que a literatura é uma potente ferramenta de transformação maior, no entanto, a angústia e a constatação do caos mundial em que vivemos (as guerras, o racismo, o aquecimento global, a violência contra mulheres, a feminização da pobreza, a injustiça para com os povos originários, o descaso e desrespeito com a educação, com a literatura, a cultura, as artes, a ciência, a saúde e com tudo que nos conecta à própria humanidade) nos revelam um contexto mundial, onde a aliança fascista ganha força e prospera descaradamente e as lideranças políticas mundiais descuidam do bem-estar de seu povo, visando apenas o lucro capital. Daí a importância da consciência de classe e do compromisso com as lutas políticas e sociais, daí a necessidade de contemplar estas primaveras carminianas: o sol da liberdade, a leveza, o amor e seus canteiros poéticos e toda sua florescência vital. Mais que contemplá-las, potencializá-las em sua força de semente, interessar-se pela sua essência que exala humanidades e entender de suas fragilidades para que prósperas primaveras continuem a florescer nos corações humanos, porque O amor resiste (p.47) e “No coração humano reside / Na humanidade habita”.

Referência bibliográfica:

CORTEZÃO, Marta. Posfácio: De Colheitas e Primaveras. In: SILVA, Maria do Carmo. Colheitas Ancestrais & Primaveras. Mutuípe/BA: Editora ArtPoesia, 2024.

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Maria do Carmo SilvaNatural de Mutuípe-BA; Professora, poeta e escritora. Licenciada em Geografia, graduada em História; Especialista em Gestão e Educação Ambiental, Estudos linguísticos e literários e Comunicação, Cultura Organizacional e Tecnologia. Autora dos livros de poesias: "Retalhos de Vivências", "Recomendações Poéticas", "Leituras e Releituras", "Colheitas Ancestrais & Primaveras". Tem participação em diversas Antologias Poéticas nacionais e internacionais. Colunista no site de notícias Tribuna do Recôncavo e colaboradora do blog Feminário Conexões. Integrante dos Coletivos Mulherio das Letras e Enluaradas.

terça-feira, 2 de setembro de 2025

A FORÇA DA COLETIVIDADE

Por Lulih Rojansk

3ª FEIRA POPULAR DE LIVROS DE MACAPÁ
MOVIMENTO LITERÁRIO AFROLOGIA TUCUJU

Foto: Aog Lima da Rocha
É sempre inspirador testemunhar
quando um segmento artístico se coloca em movimento, pulsando em sintonia com o tempo e com sua gente. A arte, quando vivida em comunhão, transcende a simples produção estética e torna-se ponte, elo e caminho para uma sociedade mais sensível e consciente.

Ver artistas se integrarem, partilharem experiências e afetos, abrirem espaço para o outro e se disporem ao diálogo é algo que vai além da cena cultural, é um gesto político, é afirmar que, mesmo diante de diferenças, há sempre um terreno fértil onde floresce o ideal comum: a valorização da cultura e a preservação de identidades.

A III Feira Popular de Livros de Macapá, realizada pelo Movimento Afrologia Tucuju, é uma prova desse espírito de união. Mais do que um evento, ela representou um ato coletivo de resistência e comunhão, em que vozes se encontraram para reafirmar suas raízes, sua criatividade e a força da palavra. A literatura, nesse espaço, foi oralidade, memória, canto, corpo presente em movimento.

Foto: Aog Lima da Rocha
Num tempo em que tantas divisões marcam nossa sociedade, é alentador perceber que, no campo da literatura, há quem escolha o caminho do encontro e da partilha. A Feira se consolida como um espaço de troca verdadeira, em que artistas e público se reconhecem, se inspiram e se fortalecem mutuamente.

Por isso, deixo aqui meus cumprimentos ao Movimento Afrologia Tucuju e a todas as pessoas envolvidas na organização da Feira (Negra Áurea, Ivaldo Souza, Márcia Galindo, entre outras). Tenho certeza de que tudo foi feito com a energia do amor. Que iniciativas como essa sigam firmes, porque a arte é um território de afeto e de luta, onde o coletivo se sobrepõe ao individual.

Eu sigo sonhando.

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Arquivo da autora

Lulih Rojanski nasceu no Paraná. É descendente de imigrantes poloneses que vieram para o Brasil nas primeiras décadas do século XX e tiveram a sorte de escapar do Holocausto. Em 1984, migrou para a Amazônia e esqueceu-se do caminho de volta. Era muita estrada para esconder as migalhas de pão. Graduou-se em Letras, habilitou-se em Língua Portuguesa e Literatura. Trabalha em sala de aula há 28 anos. Há mais de 30 escreve contos e crônicas que desde o princípio foram publicados em diversas coletâneas. No Estado onde vive, o Amapá, a autora se destaca pela participação de sua obra em provas de concursos públicos e pelo alcance de sua escrita, que tem feito parte de antologias nacionais e binacionais (Brasil/Portugal). Seus primeiros livros: Lugar da Chuva (crônicas), Abilash (conto). Pérolas ao Sol (crônicas) e Gatos Pingados (contos) foram publicados pela Escrituras Editora (SP). Feras Soltas é seu primeiro romance publicado, o segundo é Amores enterrados no jardim (2025).

quinta-feira, 12 de junho de 2025

TORNAR-SE ESCRITORA, POR MYRIAM SCOTTI

AVE, CRÔNICA|07

T O R N A R - S E   E S C R I T O R A

Por Myriam Scotti

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Vez em quando, perguntam como me tornei escritora. Na verdade, penso que desde a infância, quando escrevia poeminhas e diários para dissipar minhas angústias, apenas demorei a me sentir pronta. No livro “Só garotos”, a artista Patti Smith escreve sobre quando ainda era apenas uma menina: “lembro que me senti confinada diante da ideia de que nascemos em um mundo onde tudo já foi mapeado pelos outros antes.” Assim como ela, eu mesma costumava questionar as razões de certos comportamentos serem os únicos aceitáveis, se quisesse, no futuro, ser uma mulher bem-sucedida-respeitada. Feito produto em série, os objetivos: estudar, casar, ter filhos e envelhecer, representava a curva da vida ideal, como se todas as mulheres desejassem as mesmas coisas para si.

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Os primeiros anos de casada e a gravidez do primeiro filho me arremessaram para a realidade crua de ser mulher, de ser a responsável pela casa, por gerar a vida, de ser quem renuncia a si mesma em prol do pequeno ser desconhecido, de ser quem ama o marido que se faz sempre ausente, como escreveu Roland Barthes em seus fragmentos, exatamente o que de mim restou depois de me tornar mãe e experimentar cores intensas, que até então nunca desconfiara existir. A solidão-companhia, a inveja de assistir ao parceiro seguir em frente, sem que tivesse sido afetado pela chegada do filho, o descompromisso, o individualismo, ele próprio: a reprodução de tudo o que prometera não ser. “Volto já” era a frase mais escutada, enquanto eu tentava me recompor.


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Então, a redescoberta da literatura, aconteceu por causa do vazio, bem como a escrita da prosa e da poesia. Por não encontrar à minha volta algo ou alguém para me identificar, para me compreender, busquei nos livros as respostas para todas as questões que me rondavam, as quais não permitiam que eu seguisse em frente. As histórias soavam mais verdadeiras que a realidade à minha volta, onde as mulheres pareciam estar felizes-conformadas com suas escolhas. Mas elas não me representavam nem me acolhiam. Não à toa, as queixas das personagens se confundiam com as minhas e, assim, entreguei-me completamente à literatura, hoje o meu farol e filosofia de vida. 


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Arquivo da Autora
MYRIAM SCOTTI nasceu em Manaus, é formada em Direito pela Universidade Federal do Amazonas – UFAM; é mestre em literatura e crítica literária também pela PUC-SP; com curso de extensão em práticas de leitura e formação do leitor, pela PUC-SP. A partir de 2014, baseada nas experiências com seu primogênito Daniel, estreou como escritora de histórias infantis: O menino que só sabia dizer não (publicação independente); O menino que só queria comer tomate e Quando meu irmão foi embora? (editora Chiado); além do e-book “O menino que não queria dormir sozinho”. Em 2018, estreou na poesia com o título A língua que enlaça também fere (Editora Patuá). Em 2020, lançou um segundo livro de poesia sob o título Mulheres chovem (Editora Penalux), ano em que também venceu o prêmio literário da cidade de Manaus com o romance regional Terra Úmida, publicado em 2021 pela Editora Penalux. Em 2021 lançou o primeiro romance juvenil Quem chamarei de lar? (Editora Pantograf), o qual foi admitido pelo PNLD 2021 e foi escolhido como paradidático de várias escolas do Brasil, além de ter sido selecionado no edital “Minha biblioteca” de São Paulo 2022, onde constam mais de onze mil exemplares espalhados pelas bibliotecas da capital. Em 2024, lançou o livro de crônicas Tudo um pouco mal (Editora Patuá) durante a Festa Literária de Paraty (FLIP), o título é semifinalista do prêmio nacional Sabiá de crônicas. Também em 2024 foi convidada para os Festivais Literários de Araxá e Paracatu, ambas comandadas pelo produtor cultural Afonso Borges, onde explanou sobre literatura produzida por mulheres no Amazonas. Há três anos é curadora do Festival Literário do centro de Manaus (FLIC), promovido pelo produtor cultural João Fernandes, CEO do Centro Cultural Casarão de Ideias.

CARTA A QUEM DESEJA MEU SILÊNCIO

Por Cíntia Colares (Flor de Lótus)


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Na primeira vez que me violentaram, eu era uma menina.

E calei pelo medo e vergonha.

Na segunda vez que sofri violência, passei anos sofrendo um duro assédio moral e sexual num ambiente que deveria ser seguro. Apesar de ter sido aprovada num concurso para funcionária pública federal, morri um pouco a cada dia enquanto tentava sobreviver para garantir o sustento do meu filho.

Não calei, mas paguei caro por ousar denunciar velhas práticas e por não ceder ao assédio. Na terceira vez que sofri violência foi onde buscava construir outro mundo possível. Quando busquei voz e poder de decisão como os demais, ouvi que deveria me pôr no meu lugar.

O meu lugar e o de todos nós: pessoas negras, mulheres, indígenas é onde a gente quiser e reivindicar. É onde a vida acontece e está sendo decidida.

Nada mais sobre nós sem nós.

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Não me calo, não silencio, não dou manutenção ao que não quero que siga acontecendo. Meus gritos já denunciaram violência sexual, política, verbal, psicológica e até ameaças de agressão física que sofri e vão ficar na memória daquele contraditório espaço dito de luta. Ainda temos muito que lutar por equidade de gênero, raça e diversidade.

De minha parte, muitos gritos mais ainda serão ouvidos até que me escutem e me vejam estar presente nos espaços e nas decisões.

E nunca mais calarei.

Porque minhas dores gritam em mim até no silêncio. No olhar que fere, na boca que nos enxota.

Não estarei olhando do lado de fora e não estarei em silêncio do lado de dentro, fazendo apenas figuração para aliviar suas consciências.”

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Arquivo da Autora


Cíntia Colares (Flor de Lótus) é uma mulher preta cis, jornalista, poeta e coautora em coletâneas, antologias, revistas e sites de poesia. É ativista no antirracismo e mãe solo de um adolescente negro, morando na periferia de Porto Alegre/RS.


Obrigada por ler até aqui  “Sou Flor de Lótus🪷

segunda-feira, 9 de junho de 2025

ÀS VEZES AGENDO MEU CHORO

Por Cíntia Colares 


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Esses dias eu estava ouvindo aquela música que a letra diz: “Às vezes eu quero chorar, mas o dia amanhece e eu esqueço…”

Lembrei o quanto essa letra sempre me toca. 

Me veio a lembrança de quantas vezes quis chorar, mas…

Agora não…

estou na rua…

Agora não…

…não vou chorar na frente dessa pessoa…

(ainda que a pessoa esteja me dando todos os motivos para chorar)

Agora não…

deixa não ter ninguém por perto… 

Agora não...

não adianta chorar escondido…vai voltar com os olhos vermelhos…vão perceber…não fica bem…

Agora não…

Preciso buscar meu filho, preciso transmitir alegria quando nos reencontrarmos depois de passarmos o dia inteiro longe…

Agora não…

o ônibus tá lotado…alguém vai ver…

Agora não…

deixa chegar em casa…

Agora não…

deixa atender meu filho primeiro…

Agora não….

Espera meu filho não estar por perto…

Agora não…

Tomara que você durma logo, filho…

Agora não…

preciso tanto chorar, mas na tua frente não….

Agora não…

eu precisava tanto chorar hoje…está entalado…

Agora não…

Um novo dia vai começar. 

Preciso me levantar e não dá mais tempo pra chorar.

Os dias correm assim.

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Às vezes agendo meu choro e não compareço ao meu próprio evento, porque sempre tem algo ou muitos "algos" ao meu redor que não me permitem olhar para mim ou me sentir. 

Porque antes de pensar em mim, eu preciso dar conta, resolver, prevenir, ensinar, acolher, tratar, corrigir, aguentar, quebrar as molduras que insistem em tentar me enquadrar e preciso, principalmente, manter viva a crença de que valerá a pena lutar por mudanças, que é para eu não andar por aí morta em vida.

No meio desse turbilhão cotidiano, até eu conseguir algum tempo pra mim, o choro já empedrou por dentro e me endureceu também por fora.

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Sou Cíntia Colares, sou Flor de Lótus 🪷

terça-feira, 13 de maio de 2025

PARA SE DIZER ANTIRRACISTA É PRECISO AGIR***, POR CÍNTIA COLARES

Por Cíntia Colares 

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Chega o mês de maio e então todos lembram de falar sobre questões raciais em função da data da falsa abolição. Depois vem novembro e aí sim o frenesi aumenta. Depois parece que a gente deixa de existir. Parece que as mudanças na sociedade racista em que vivemos deixam de ter urgência novamente. Então chega marco do outro ano já. Todo dia 8 de março recebemos muitas mensagens de feliz dia da Mulher. 

Quando explicamos que essas não são datas ou mês lúdicos e sim de luta e reflexões, ainda somos taxadas de 'desmancha prazeres': "custava sorrir e agradecer?" Nessa pergunta, faltou nos dizer: e silenciar... e manter tudo como está. Pois não silencio. Falo cotidianamente contra essas estruturas que tentam nos oprimir e manter os privilégios do patriarcado e da branquitude em dia.

De março a março são negadas oportunidades a mulheres negras porque ainda esperam que a gente ocupe apenas posições de subserviência. Em outras palavras, nos tratam como se não pudéssemos desempenhar funções intelectuais ou de liderança e tivéssemos um perfil engessado para somente servir.

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Esses dias li um comentário que me chamou atenção. O comentário dizia que falas sobre situações de racismo não traziam nenhuma surpresa nos dias de hoje. A pessoa contava que já havia decidido de uns tempos pra cá ser antirracista e que, inclusive, é preciso agir urgentemente. Fiquei pensando sobre. 

Sabe, relatos de situações de racismo me surpreendem. Mesmo eu sendo uma mulher negra, ou seja, vivenciando situações de racismo desde criança, ainda assim as falas de outras pessoas negras e a maneira como alguns autores descrevem a engrenagem de como o racismo e o pacto da branquitude acontecem no cotidiano me surpreendem.

Sabe porque me surpreendem? 

Porque fico me interrogando: como essas situações ainda se reproduzem?

Como não foi visto ainda que é preciso agir para combater situações tão desumanizantes? 

Como algumas pessoas passam a vida toda sem se dar conta de uma desigualdade tão gritante como se fosse normal nos verem majoritariamente em situações de subserviência no mercado de trabalho, por exemplo, uma situação que todos vivenciam e não tem como não ver a desigualdade de posições. 

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Será que uma vida inteira não se perguntaram o porquê disso? Ou quiseram acreditar que era normal porque era cômodo não pensar sobre seus privilégios e dá trabalho se mexer para agir contra esses absurdos? 

A nós, pessoas negras, eram negadas oportunidades e voz nos espaços de decisão, mas e as pessoas brancas que sempre tiveram acesso aos melhores estudos, livros, debates sobre a sociedade e ainda assim não pensaram sobre isso e não agiram contra uma vida inteira? 

A mim sempre espanta. Desde sempre não consigo ver a desumanização de alguém e ficar impávida. E assim criei meu filho para sempre pensar em que mundo vive, com quem convive em sociedade e como estão sendo tratadas as pessoas nessa sociedade. 

Ter esse olhar que humaniza já teria despertado ações antirracistas há décadas, séculos, mas há pessoas que passam a vida sem nos ver. Somos desumanizados desde que jogaram nossos antepassados aqui. 

O racismo nunca deixou de existir, apenas se adaptou a cada época. Então cada vez que ouço um relato de racismo me surpreende que as pessoas brancas ainda tenham a coragem de praticar tantas desumanidades. 

É por conta desse olhar, que nos desumaniza, que a gente ainda passa por situações de racismo, nossos filhos passarão, nossos pais passaram e nossos netos ainda sentirão essas dores. 

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Perceba a carga de cada relato de racismo que você ouvir ou ler. Cada relato é sobre oportunidades que nos são tiradas pelas características da nossa pele, cabelo, nariz, enfim por existirmos. Esses relatos são sobre as consequências dessa perversa invisibilização das pessoas negras e de tudo o que vivemos desde que nossos ancestrais foram sequestrados de África e jogados aqui para exploração de nossa força e anulação de nossa condição humana. 

Hoje não é na senzala que nos prendem, mas basta ler o Pacto da Branquitude de Cida Bento e outras tantas obras que analisam a sociedade em que vivemos para saber onde ainda nos prendem e de que forma ainda açoitam nossa pele. 

Essa situação não começou agora e nem de uns tempos pra cá. Situações de racismo são vivenciadas de maneira escancarada desde sempre. E no entanto, às vezes, leva uma vida para as pessoas brancas pararem para pensar o que acontece conosco há séculos e o que podem fazer para combater? 

Por isso o slogan “Vidas Negras Importam”. Não quer dizer que outras vidas não importam. É uma afirmação que tenta construir a narrativa de que nossas vidas importam, porque cotidianamente a branquitude nos diz que não importamos. É como se o que fazem conosco não estivesse sendo feito com seres humanos. 

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Se a gente der sorte, um dia vem o estalo que é preciso falar sobre a desumanização e apagamento que tentam fazer conosco. Até lá, via de regra, nas situações de racismo, a vítima se insurge sozinha e ainda tentam taxá-la de exagerada, barraqueira, vitimista ou paranóica. 

Quando nos dizem que não tinham pensado antes em tudo isso que a gente passa durante a vida toda, às vezes, a sensação que dá é que a gente não existia para essas pessoas. Por isso, eu sempre me surpreendo com as falas. Me surpreendo, me indigno e me pergunto: como as pessoas brancas "não viram" o racismo antes e que era urgente agir? O racismo não começou a existir de uns tempos para cá. Essa urgência não é de hoje. Quando cada um de nós que está lendo essa reflexão agora nasceu, essa urgência já existia.

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***Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do blog Feminário Conexões.

Arquivo da autora
Cíntia Colares (Flor de Lótus),mulher preta cis, jornalista (Mtb 11082), poeta, ultimamente anda se expressando em forma de crônicas e contos também. Coautora em coletâneas, antologias, revistas e sites de poesia, coletivos como o Enluaradas e 20 Poemas Para Novembro. Ativista no antirracismo, mãe solo de um adolescente negro, mora na periferia de Porto Alegre/RS. @jornalistacintiacolares 

"Escrevo para buscar me aquilombar com mãos e vozes para desconstruir o que está posto na sociedade em que vivemos e construir o que precisamos para termos direito a oportunidade de viver com dignidade e não apenas sobreviver."



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