«A nossa escrevivência não é para ninar os da casa-grande, é para acordá-los dos seus sonos injustos»
Conceição Evaristo
Por Carla Nepomuceno
O título da impactante antologia organizada pelo
professor Henrique Marques Samyn, «Para despertar os da casa-grande: (alguns)
novos escritos de mulheres negras brasileiras», evoca imediatamente uma das
máximas mais célebres da literatura nacional. A frase da escritora Conceição
Evaristo — segundo a qual a escrita das mulheres negras não serve para
adormecer os senhores, mas para despertá-los dos seus «sonhos injustos» — serve
de base ética e estética para esta obra. Publicado pela Através Editora no âmbito
da Coleção Através do Brasil, o livro funciona como uma ponte internacional que
projeta a produção literária e política de autoria negra contemporânea para
novos horizontes geográficos. Sob o olhar de Henrique Marques Samyn,
professor da UERJ e investigador especialista em raça e gênero, a obra
consolida-se como um manifesto de urgência histórica.
A premissa desta antologia habita na sua capacidade de
reunir uma ampla variedade de vozes. A seleção de Samyn desafia a iniciação e o
esquecimento, ao colocar em diálogo autoras que já alcançaram destaque
significativo no panorama editorial recente com escritoras que estão iniciando
a caminhada literária. Esta heterogeneidade reflete-se na encantadora variedade
de géneros que compõem o volume, onde a fluidez da prosa, a densidade da poesia
e o rigor dos ensaios se unem de forma orgânica. Ao longo das páginas, emergem
temas caros à subjetividade das mulheres negras: o confronto com corpos
racializados, a recuperação da ancestralidade como estratégia de sobrevivência,
a celebração e a festividade como pilares de resistência e uma oposição
permanente às tentativas históricas de apagamento.
Longe de ser apenas um registro documental, a obra
destaca-se pelo seu profundo impacto estético e político. A linguagem aqui não
é passiva; ela fere, tensiona e desconstrói a imagem subordinada que, durante
séculos, tentou reduzir a mulher negra ao papel de contadora de contos
populares ou de empregada doméstica. As autoras dominam as estruturas
literárias com técnica e requinte, alcançando assim o seu objetivo de tirar a
leitora e o leitor da sua zona de conforto. Além disso, o cuidado editorial da
editora Através Editora merece elogios, pois ilustra a importância decisiva do
intercâmbio transatlântico de ideias para que a literatura de resistência
conquiste mercados historicamente elitistas.
«Para acordar os da casa-grande» é a continuação de
vozes que foram silenciadas no passado.
Nessa antologia da Através Editora, a ancestralidade
funciona como um escudo e uma raiz. As escritoras invocam as memórias das avós,
das mães e das mulheres escravizadas para autentificar o seu discurso presente.
Escrever, é portanto, um ato de justiça histórica.
Em resumo, pode-se afirmar que «Para acordar
os da casa-grande» é uma prova indiscutível dos novos horizontes que a
literatura brasileira contemporânea está abrindo atualmente. A antologia deixa
claro que a escrita das mulheres negras não precisa de permissão para existir;
ela se afirma como uma obra estética independente que chegou definitivamente
para romper a letargia e o silêncio do racismo estrutural.
❧
O trabalho meticuloso da Através Editora nesta edição demonstra o compromisso da editora em publicar obras que não apenas entretêm, mas também intervêm diretamente no debate social contemporâneo.

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