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segunda-feira, 8 de junho de 2026

A VERGONHA MUDOU DE LADO, POR RITA ALENCAR CLARK

 Uma mulher que escreve é uma mulher muito perigosa. 

Por Rita Alencar Clark

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Uma mulher que escreve é uma mulher muito perigosa, dizia bell hooks. Que o diga Gisèle Pelicot! Quando o mundo ficou sabendo que uma mãe de família, casada, com três filhos, levando uma vida pacata numa cidade do interior da França foi abusada sexualmente durante uma década pelo próprio marido, autorizando diversos homens a violarem depois de dopá-la, muitos não acreditaram. Como assim? Como um marido poderia fazer isso sem levantar suspeitas? Foram tantas as perguntas e as dúvidas que o caso, narrado pela autora no livro autobiográfico A vergonha precisa mudar de lado  um hino à vida, publicado pela Editora Companhia das Letras, em 2026, viralizou pelo mundo.  

A violência e o abuso escancararam um portal sombrio, no qual muitas mulheres são mantidas como reféns, de maridos, de amantes, de pais e de companheiros. No caso de Gisèle, reiteradamente por anos e inconsciente do que lhe acontecia, dopada, anestesiada, violentada e filmada. Parece ficção, mas não é. E, o que mais nos choca: com a participação de quem prometeu amá-la, protegê-la e respeitá-la. O hoje condenado ex-marido arregimentou mais de 50 homens da comunidade local, de todas as idades (homens e não monstros), para participarem desse ritual violento e abusivo, sem culpa ou ressentimentos, por mais de dez anos transitando pela cidade livres do peso na consciência; amorais, todos eles. A mensagem de Gisèle, ao decidir expor seu caso e abrir mão do anonimato a que tem direito (e juridicamente concedido) é: A vergonha mudou de lado.

Foi sua resposta aos abusos extremos que sofreu que lhe deu força e controle sobre sua vida. As violências continuam a acontecer com outras mulheres, são de todos os tipos e levam a diversas mortes: física, moral, psicológica, emocional, financeira e patrimonial. Sim, há inúmeras mortes para as mulheres que sofrem agressões, até para as que resistem fisicamente a elas, mesmo morrendo todos os dias devido aos traumas. Ser mulher na contemporaneidade é um risco diário e um exercício contínuo de sobrevivência.

A sexual é apenas uma delas. No topo da lista, incluo o epidêmico e atualíssimo feminicídio, mas há outra violação camuflada e abafada pela comunidade intelectualizada, protagonizada por homens em sua maioria. Trata-se da violação literária contra as mulheres que escrevem. Um abuso antigo, que remonta aos primórdios da implantação, no Brasil, das máquinas tipográficas, trazidas em 1808 por D. João VI. Desde esse período, e só para ficar no âmbito nacional, as mulheres que escreviam, muitas sem qualquer pretensão de publicar, já eram relegadas ao mutismo das aspirações literárias. Ou vamos acreditar no “conto da Carochinha", que mulher nunca soube escrever? Por muito tempo, acreditou-se nesse absurdo, fosse por imposição do patriarcado, fosse pela falta de acesso, ou simplesmente pela proibição aos estudos e aos livros, “estudar era caro ou pensar não era coisa de mulher”.

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Com o tempo, e graças a tantas autoras corajosas e brilhantes, dispostas a enfrentar o patriarcado, as mulheres persistiram, resistiram e continuam escrevendo à revelia desta infâmia. Hoje, um número considerável e insurgente de mulheres aponta na Literatura Contemporânea com obras importantes, escrevem mesmo alquebradas por insultos machistas, tentativas de desmerecimento e apagamento dos seus trabalhos literários, muitas vezes produzidos à base de jornadas triplas, sem descanso ou redes de apoio, dividindo seu tempo entre filhos, cuidados domésticos, maridos descontentes, trabalhos mal remunerados e lidando com as incômodas “crises de impostora” durante a madrugada. Não há pagamento, muito menos garantias. Contudo, as mulheres escrevem até as mãos sangrarem no teclado de um notebook, revisando o texto até o dia amanhecer, exaustas, só para recomeçar a rotina doméstica e profissional no dia seguinte. A esta dura rotina, agrega-se outra tarefa relevante: enfrentar a baía de tubarões prontos ao ataque, disfarçados de editores e de críticos literários  não todos, obviamente, há gratas exceções – mas os tubarões são famintos, e se alimentam das fragilidades. Cabe às mulheres não se deixarem abater por análises rasas e não fundamentadas dos seus originais de romances, de poemas, de resenhas, de ensaios, etc. Compete às mulheres buscar a maestria do ofício, sem se deixar contaminar pelo veneno corrosivo de uma depreciação precipitada, capaz de levar autoras principiantes, e algumas veteranas inseguras, a abortarem precocemente suas carreiras literárias. Esta é, sem dúvida, mais um tipo de violência para nossa longa lista. 

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Aquelas que sobrevivem a esta Via Crucis de provações, escapando dos tubarões, das armadilhas da auto sabotagem, da falta de incentivos, certamente conseguem um lugar nas editoras independentes, publicando seus livros, ainda com a missão árdua de vendê-los, divulgá-los, consigná-los em livrarias simpáticas e meios confiáveis para receber, com sorte, um percentual ínfimo por livro vendido. Essa é a nossa realidade, a das autoras que publicam de forma independente, e quer saber mais? Temos muito ainda para falar. Trazemos novas temáticas ao mercado editorial, falamos de útero, abusos, violações, amores livres, nossos corpos, nossos prazeres, poemas eróticos, rasgamos o ventre e abortamos dores seculares, remontamos nossas histórias em romances e novelas. Nossas obras não podem, e nem serão preteridas eternamente em concursos e prêmios literários por pareceristas não capacitados ou gabaritados para exercer a função. Denunciaremos o desprestígio, a intimidação e o silenciamento de nossas vozes, assim como os extermínios de povos originários e das minorias periféricas, das deflorações dos corpos e das florestas, dos abandonos paternos, das alienações parentais, dos preconceitos de gênero, racismo e misoginia. Escancaramos as portas lacradas das alcovas sombrias e revelamos os segredos mais escondidos e vis do patriarcado, porque também nós temos direito à palavra.

Texto pronto e uma alegria íntima, legítima e inconfessável corre pelo corpo e pela alma, com a sensação de ter caminhado por um deserto quente e inóspito, ansiando por publicar e encontrar nossos leitores, sabendo que temos nas mãos escritos dignos de serem lidos e apreciados. Assim nos mostrou Gisèle Pelicot, assim desmontamos o teatro vulgar da hipocrisia, revelando que o mundo masculino não pode sobreviver na impunidade dos arredores domésticos, nos pactos de silêncio e no acobertamento mútuo. Sim, escrever é muito perigoso, principalmente se essa escrita é feita com o sangue e a mente de uma mulher. Gisèle Pelicot nos encorajou a lutar e continuar a escrever; mesmo aterrorizadas, em fúria, despidas e violadas. Porque nossa escrita é única, vem impressa sobre nossos corpos e dores, na pele, não em armaduras frias ou máscaras de persona, mas iluminada por ideias que acendem a alma.

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Rita Alencar Clark
foto: arquivo da autora

Escritora, poeta, cronista, colunista 

do blog feminarioconexoes.blogspot.com 

Colaboradora do Coletivo Enluaradas Amazônia

sexta-feira, 5 de junho de 2026

UM CONTO DE SANDRA SAN'TOS

A vizinha do andar de cima

Por Sandra San'tos

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O sol a espreitava entre as folhas da jabuticabeira no quintal do vizinho. Seis horas da manhã e ela esteve acordada por quase toda a noite. Marta estava de mau humor. Seu relógio biológico andava fora dos eixos: não dormia, a menstruação estava irregular, a fome desaparecera, o intestino andava preguiçoso, o pensamento mostrava-se confuso, e seu humor irritadiço. Creditava sua má sorte à insônia e culpava a vizinha do andar de cima por falar alto a noite toda, todas as noites. Inconformada, apelidou-a de “a louca do telefone”.

Sem sair da cama, contabilizou mentalmente os sons matinais: a vizinha à esquerda, gritaria com os filhos na luta de impedir que se atrasassem para a escola. - Bem na hora! Agora começará a algazarra dos papagaios... Ué! Hoje se atrasaram... – Quase riu. A sinfonia dos papagaios se dava por conta das jabuticabas, eles comiam até cansar, e iam embora. - Esses sim são felizes, fazem o que querem, quando lhes dá na telha. – concluiu, resignada em arrumar-se para mais um dia modorrento de trabalho na repartição.

Havia se mudado há três semanas, após assinar o contrato de aluguel em tempo recorde. Não pesquisara muito. O apartamento bem localizado e com bom preço tinha que ter um defeito, nesse caso: a vizinha notívaga e faladeira. Marta nunca a vira, mas pelo timbre de voz grave e metálico, imaginava uma senhorinha, fumante ou ex-fumante.

- Isso é novidade. Inferno! Já é dia e ela começou cedo. Agora até durante o dia? Com quem ela tanto conversa? Será que é com uma pessoa só? Será que não percebe que os outros seres humanos do planeta querem dormir? – Engoliu a raiva insone, e enfiou a escova cheia de creme dental na boca.

O dia seguiu arrastado e Marta chegou do trabalho por volta das vinte horas, desejando que o importante assunto da vizinha, por fim estivesse resolvido. Despejou sobre a mesa da cozinha algumas sacolas de compras: produtos de limpeza, uns copos novos e insumos para preparar um lanche, já que não tinha ânimo para o fogão. Ainda não se acostumara a cozinhar apenas para ela.

Ouviu um LP do Chico, comeu seu lanche, tomou banho e decidiu ir para a cama mais cedo. Silêncio, luzes apagadas. Quase sentiu-se feliz. Ajeitou-se nos lençóis lavados com um amaciante de perfume de longa duração. (Pelo menos é o que prometia o anúncio publicitário). Relembrou as atividades do dia, planejou mentalmente o próximo, e fechou os olhos que já lhe pesavam. Silêncio...

- Eu já disse, então... É... Eu tô te falando. (Pausa) Eu não vim pra esta cidade à toa. Eu sempre tive um propósito. Todos temos que ter um! É... eu falei, mas ela não ouve.... (Pausa) Simmmm... É o que eu acho... É, é.... Então... Eu tô... verdade, tudo isso é muito importante. – bradava a mulher entre as pausas de seu interlocutor.

- Não é possível! Ela esperou eu me deitar pra começar a falar? – Marta arregalou os olhos sentindo o coração disparar movido pela raiva. Apertou o travesseiro sobre os ouvidos tentando, em vão, abafar o som da conversa. Eu vou filtrar, não vou ouvir. Não me interessa. Será que só eu tô ouvindo? Não é possível que ninguém mais além de mim a ouça. Vou falar com o síndico. – Desvencilhou-se bruscamente das cobertas e ganhou a janela.

A noite avançou pela madrugada, a longa confabulação da vizinha também. Marta acreditou que haviam sido pelo menos três interlocutores diferentes, e com o último, o diálogo evoluíra para uma briga, pois passou a ouvir murros, possivelmente na mesa ou nas portas de algum armário. Foi uma noite regada a palavras de raiva e passos a atravessar o piso, no caso, o teto de seu quarto. Teve ímpetos de soltar um palavrão libertador, de mandá-la calar a boca, de gritar que precisava dormir. Talvez se reclamasse bem alto, algum outro vizinho a apoiasse na reclamação. Pensou, ameaçou, e não o fez.

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No auge dos seus 46 anos, viver sozinha era novidade. Recém-divorciada, não se acostumara a ter mais espaço na cama, ou com a ausência de Alcides e seu sono da morte. O homem roncava tanto que, por vezes, apenas seu ronco lhe trazia a certeza de que ele estava vivo. Quantas noites mal dormidas por culpa da apneia do marido num prenúncio de morte por asfixia. Agora, pela lógica, deveria dormir melhor, afinal estava sozinha.

Como não conseguia dormir, passou a distrair-se tentando entender a conversa da vizinha. Calculou o grau de paciência que teria o interlocutor do outro lado da linha. - Essa deve ser alguma parenta... Esse deve ser o chefe. Será que ela ainda trabalha? Bem pode ser que trabalhe com algum tipo de atendimento telefônico... mas existe Telemarketing de madrugada? Vai ver, conversa à noite por conta do fuso horário. Deve ser isso: os filhos moram fora, e só consegue falar com eles de madrugada. – Sentiu vergonha ao pegar-se com os ouvidos na parede.

Passava os dias sonolenta, até que cedeu aos soníferos; primeiro os naturais, depois os tarja preta que conseguiu com uma colega. Graças a esses, por uma semana viu resultados, mas foi só. A insônia venceu. Tudo o que lhe restara era aquela voz incansável. - Chega, vou tomar uma atitude, assim não dá. Amanhã bato na porta dela.

A privação do sono permitiu que a vizinha preenchesse todas as horas de seu dia, provocando dores de cabeça e a queda de rendimento no escritório. Marta estava um caco e aos poucos, a delusão expulsou a razão, abrindo caminho para toda a ordem de pensamentos intrusos e infundados. - E se essa mulher nem existir? Será que sou só eu que a ouço? Tô enlouquecendo, preciso dormir. - Esgotada e confusa, começou a faltar no trabalho.

Sentindo a vida lhe escapar pelas mãos, considerou tomar alguma atitude, antes que a loucura se apossasse de sua mente. Cogitou ligar para Alcides, mas não lhe daria essa prova de fraqueza. - Eu consigo, amanhã eu resolvo. - O amanhã passava para depois, sempre depois.

Uma tarde, após experimentar um período de longo silêncio, encheu-se de coragem. - A infeliz deve estar dormindo... então eu vou acordá-la. Que sinta o gostinho de ser incomodada. - Seria sua pequena vingança.

Subiu o lance de escadas e parou em frente à porta sentindo o coração bater cada vez mais rápido. Observou uma enorme quantidade de pó sob o batente, e teve a impressão que há muito tempo ninguém passava por ali. Sentiu um misto de raiva e dó da figura que enfim conheceria. Dó, pois afinal experimentavam da mesma bebida: a solidão. E sentiu raiva de si mesma pois, de alguma forma, identificava-se com uma pessoa, no mínimo, desequilibrada.

Engoliu em seco e bateu várias vezes. Quando pensou em desistir, a porta se abriu revelando a pequena figura de uma senhora na faixa de seus 70 anos. Trajava roupas surradas, os cabelos em desalinho, e um par de olhos opacos.

Em frente a culpada de sua tortura, Marta desmontou, deixando que as palavras de seu discurso ensaiado fugissem pela escada de serviço.

- O que deseja menina? – indagou a figura que não condizia com aquela voz potente de suas noites mal dormidas.

- Eu... eu preciso falar com a senhora. Me desculpe simplesmente bater em sua porta, mas, mas...

- Meu nome é Mirtes, e você quem é? – perguntou.

- Eu... Meu nome é Marta, e moro no apartamento abaixo do seu. Queria dizer que... bem, se a senhora precisar de alguma coisa, é só chamar, tá?

- O que mais você quer, menina? - perguntou a mulher, sem nenhuma emoção visível.

- Não, nada não. Era só isso mesmo. Me desculpe a intromissão... – Assim como seu discurso, sua coragem também descera pelas escadas, impulsionando-a seguir pelo mesmo caminho. - Como sempre me acovardei. Marta, você é uma idiota covarde.

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Na esperança de reclamar com alguém, correu escada abaixo, dirigindo-se à portaria. Se não conseguia entrar em um conflito, então o caminho seria uma reclamação formal. Chegando ao térreo, abriu apressadamente a porta dando de cara com o porteiro, que conversava animadamente com um jovem casal.

- Oi, Dona...

- Marta. - respondeu prontamente ao porteiro.

- Desculpe, mas ainda não decorei seu nome. É a idade pesando. – justificou encabulado pela gafe, e sorriu mudando de assunto: - Esses são seus novos vizinhos. Estão de mudança pro número 7, exatamente um andar acima do seu... Vocês vão gostar daqui, só tem gente boa. Sejam muito bem-vindos. – completou dirigindo-se ao casal que já se afastava.

- Sim, cla...claro, sejam bem-vindos. – disse Marta, que por inércia, não desmanchou o sorriso que havia pregado na cara.

- O número sete... está vazio? – perguntou incrédula.

- Ah, sim, já tem mais de um ano. Desde que Dona Mirtes faleceu... Que Deus a tenha. A senhora está bem Dona Marta? Posso ajudar em alguma coisa? – indagou o porteiro fitando-a com ar preocupado.

- Não. Está tudo bem... vou subir, eu esqueci a carteira em casa.

Correu para o elevador e sentiu um grande alívio quando a porta se fechou escondendo-a do porteiro que ainda a observava. - Será que a louca sou eu? Não é possível! Eu a vi! Eu falei com ela! - Olhou-se no espelho do elevador como a esperar uma resposta. Porém, Marta não reconhecia a imagem da pessoa que a fitava de volta.

Entrou em casa, jogou-se no sofá, e imóvel assistiu o dia virar noite. - Ela vai começar a falar, eu sei que vai. Fale Dona Mirtes, não me importa com quem, apenas fale. - O sangue lhe fugia, o suor escorria por seu rosto, enquanto as longas conversas de Dona Mirtes lhe invadiam a memória.

Estranhou o som do silêncio.

- É isso... tenho que ir pra cama, aí ela começa... Se eu deitar e tentar dormir ela começa. Então que venha Dona Mirtes... Que venha, pois estou pronta para a senhora.  

Deitou-se como quem arma uma estratégia de guerra.

- É... Eu sei. Não disse que seria assim? - Mirtes atacava novamente.

-  Eu avisei, mas... ela não me ouve... As coisas têm que mudar! Não... não fala besteira, eu sei do que estou falando, eu já passei por isso... Acho melhor marcarmos uma reunião...

Sentindo como se tivesse ganho uma batalha, Marta de um pulo colocou-se em pé, e apressada, avançou pelas escadas. Preparou-se para bater, mas desta feita, a porta abriu-se antes da primeira pancada.

- O que você quer, menina Marta? – perguntou a mulher, fitando-a com seu olhar sem viço e um sorriso no canto da boca.

- Apenas conversar, Dona Mirtes... Só quero conversar. Posso?

- Entre, menina... entre. Eu já lhe esperava. – respondeu a vizinha fechando a porta atrás delas.

E assim, no andar de cima, a solidão quebrou o silêncio.


FIM

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Arquivo da autora


Sandra A. Santos é pedagoga com especialização em Educação Ambiental, ambientalista apaixonada pela natureza e pela vida em todas as suas formas. Hoje aposentada, dedica-se à literatura, escrevendo contos, romances e poesias que giram em torno do universo feminino. Com trabalhos publicados em antologias no Brasil e na Argentina.

terça-feira, 10 de março de 2026

PROTAGONISMO FEMININO EM FOCO

A ESCRITA DAS MULHERES E A REINVENÇÃO DA LOUCURA: DE STELLA DO PATROCÍNIO ÀS AUTORAS CONTEMPORÂNEAS 

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1. O controle social através da saúde mental
 

Ser mulher não tem sido tarefa fácil nos dias atuais. De qualquer modo, nós mulheres, sabemos que, principalmente no Brasil, isso nunca foi usual. A sabedoria oriental milenar nos estimula a evitar extremismos, optando, sempre que possível, pelo caminho do meio. Em contrapartida, o respaldo científico para esse debate encaminha a diversos estudos que evidenciam a utilização das instituições de saúde mental para exercer controle social e patriarcal sobre o universo feminino. Historicamente, o monitoramento estratégico do comportamento e a tendência à patologização do corpo e da mente feminina já provocaram dores e tragédias, isolando mulheres e desestabilizando inúmeras famílias. Compreender essas dinâmicas permite lançar um olhar perscrutador sob densa névoa: estratégias envolvendo cuidados com a saúde física e mental sempre mascararam projetos de dominação e de controle social. 

2. Exílio e silenciamento: o caso Stella do Patrocínio 

Isso remete ao artigo da edição de fevereiro da Revista Voo Livre, em que citamos a internação involuntária da poeta Stella do Patrocínio, no Rio de Janeiro. Mais um caso de exílio: uma mulher negra, cuja voz era incompreensível no contexto institucional da época. Não se pode desconsiderar também o momento político e social desse acontecimento, quando o emprego maciço de práticas eugenistas de higienização dos espaços sagrados tratava corpos negros como indesejáveis na arquitetura central das cidades. Há relatos de que as constantes mudanças de localidade, no início do tratamento manicomial, impossibilitaram o acompanhamento familiar. Assim, Stella permaneceu reclusa nessas instituições até seu falecimento, quarenta anos depois. 

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3. A lógica da submissão: de "O Alienista" à história de Pierina
 

Nesse contexto, a literatura nos instiga a questionar sobre os tratamentos de saúde mental como práticas de silenciamento e de coerção, principalmente das mulheres. Alegoricamente, Machado de Assis, o imortal crítico da sociedade e das instituições, trata desse tema na obra “O Alienista”. Também a literatura acadêmica nos adverte a respeito do que ainda precisamos compreender sobre esses mecanismos históricos de dominação. O livro-tese da historiadora Yonissa Wadi “História de Pierina: subjetividade, crime e loucura” é bastante elucidativo: no início do século XX, a trajetória de uma mulher e suas cartas são julgados a partir de uma ótica exclusivamente masculina, metódica e patriarcal. Nesse relato, a partir de uma pequena comunidade do sul do país, a internação manicomial de Pierina desencadeou a adequação de seu comportamento à lógica da subserviência: afinal silenciada e submissa ao papel tradicional de esposa e de mãe, nos moldes sociais e econômicos requeridos por sua comunidade de imigrantes italianos. A sistematicidade dos métodos científico e jurídico, aliada à rigidez das estruturas patriarcais não permitiu que fossem, sequer, ouvidas as queixas da mulher. Percebe-se que, ao final de dois anos de tratamento psiquiátrico, Pierina cansou-se de tentar se fazer ouvir. Isso foi suficiente para que obtivesse alta e fosse encaminhada, mesmo contra a própria vontade, às funções modelares de mãe e de esposa, em sua pequena cidade, no Rio Grande do Sul. 

4. A urgência de racializar o debate na saúde pública 

Entretanto, apesar desse reconhecimento, a violência de gênero contra as mulheres não tem sido tratada, de modo explícito, como um fator de risco para a saúde mental. Entendemos, portanto, que é urgente implementar, nos serviços de saúde, intervenções mais eficazes para o acolhimento e o cuidado das mulheres que são, cotidianamente, vitimadas pelas inúmeras violências de gênero. Nesse contexto, o Plano Nacional de Políticas para as Mulheres (III PNPM), realizado em 2013, enfatizou a transversalidade e o investimento na saúde integral, como possibilidades de transformação desses espaços cristalizados de dominação e de invisibilização da figura feminina no aparato estatal. A conferência abordou também a violência e a saúde mental. Por outro lado, estudos acadêmicos e clínicos de problemas psicológicos e psiquiátricos que afligem pessoas negras, no Brasil, ainda enfrentam silenciamento histórico, embora haja obras pioneiras e fundamentais que se tornaram referências no tema. A respeito desse tema, a literatura negro-brasileira contribui, dando destaque a intelectuais como Lélia Gonzales, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro, Sueli Carneiro, Cida Bento, Jarid Arraes, Miriam Alves, Geni Guimarães, Elisa Lucinda, entre outras. A produção autoral dessas mulheres fornece base teórica e conceitual para que se investigue o racismo como elemento fulcral na saúde mental dos indivíduos. De modo semelhante, o reconhecido psiquiatra e pensador caribenho Frantz Fanon analisou o sofrimento mental e concluiu que a opressão colonial e o racismo desencadeiam despersonalização e impõem um sentimento de suposta inferioridade que impacta, grandemente e de forma negativa, a saúde mental da população afrodescendente. Há também diversos braços do Movimento Negro, como a Articulação Nacional de Psicólogas/os Negras/os e Pesquisadoras/es (ANPSINEP), que vem consolidando, através de pesquisas e congressos, uma produção teórica contínua que une psicologia, saúde coletiva e racialização das relações. Trabalhos dessa natureza atualizam o debate sobre os desdobramentos do racismo estrutural no cotidiano social, mais especificamente, da população negra, com impactos inquestionáveis sobre a vida das mulheres. 

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5. Escrevivência e herança colonial: o legado de Conceição Evaristo
 

No campo literário, Conceição Evaristo, premiada intelectual, produziu obras de reconhecido valor para o arcabouço da literatura brasileira contemporânea. Ela é, hoje, uma das escritoras negras mais prestigiadas no contexto da produção escrita das mulheres. Entre seus livros mais lidos e comentados, figura o romance Ponciá Vicêncio, cuja trama resgata o sofrimento psíquico, no seio familiar, decorrente do racismo estrutural e da herança colonial. Nessa obra, a saúde mental da protagonista aparece ancorada em condicionamentos históricos que legaram às famílias afro-brasileiras: rigorosos desafios sociais e econômicos, preconceito e rejeição histórica. Assim, Ponciá é afetada por uma série de violências simbólicas e físicas que refletem a realidade da maioria das mulheres negras no Brasil. 

6. A palavra como cura: literatura e resistência na contemporaneidade 

Nessa conjuntura, a literatura vem se estabelecendo, cada vez mais, como palco da resistência feminina. De um ponto a outro do país, encontramos autoras produzindo cura a partir da palavra poética e da ficcionalização. Assim, de um rico mosaico de intelectuais, destacamos o trabalho da escritora e psicoterapeuta nipo-brasileira Patrícia Gondo de Goes, imortal da ALBSC (Academia de Letras do Brasil de Santa Catarina), seccional Joinville, que vem escrevendo sob a égide da saúde mental e emocional. Ela, que morou no Japão por 25 anos e é tradutora do idioma japonês, desenvolveu abordagem holística acerca da psique feminina, a partir de suas vivências, da psicoterapia e de terapias integrativas . Além de atuar no campo da saúde, das Letras e das artes, Patrícia desenvolve, paralelamente, um trabalho profícuo e comprometido, voltado para os direitos das mulheres, na cidade de Joinville, com reflexos intensos no conjunto de sua obra, que conta com um livro publicado e outro no prelo. Das Minas Gerais, destacamos a psicóloga clínica e poeta Stella Maris Souza Marques, que é doutora em Psicologia, suas atividades profissionais incluem oficinas de Teatro do Oprimido, meditações guiadas e palestras para estudantes em escolas públicas. A autora publicou a trilogia Além do que Parece: “Parecia Amor”; “Parecia Viagem” e “Parecia Dom". O foco da sua escrita inclui promover reflexões sobre relacionamentos tóxicos e outras formas de violências, inclusive, as mais sutis. A autora discute o luto coletivo, as altas habilidades, a inclusão e a sanidade mental, principalmente, entre adolescentes e adultos jovens. 

7. Considerações finais 

Em suma, seguimos resistindo e contornando as mazelas do pensamento androcêntrico e do antifeminismo que, infelizmente, ainda dita o tom de muitos dos discursos que nos atravessam. Porém, é incontestável que compreender e tratar a saúde mental envolve abordar o ser em sua complexidade inerente. Isso envolve considerar diversos fatores, como os históricos e os sociais e, - não se pode negar, - a necessidade de racializar o debate. Desse modo, promovemos rupturas com práticas institucionais e com discursos legitimadores de silenciamento e de jugo sobre as subjetividades femininas. As narrativas que emergem da literatura, da pesquisa e do trabalho de escritoras, demais artistas e profissionais contemporâneas são reveladoras do poder da palavra. Essa incrível potência que, devidamente manejada, torna-se mecanismo de resistência e de cura. Assim, nosso artigo dá relevo à voz de mulheres que são capazes de transformar dor em reflexão e experiência em conhecimento. Afinal, ao revisitar o passado e questionar antigas certezas, escritoras, pesquisadoras e profissionais da saúde reafirmam que a escuta sensível pode ampliar a compreensão acerca da saúde mental e romper com estruturas históricas de opressão. Ademais, reconhecer a violência de gênero e o racismo estrutural como elementos intrínsecos a esse debate é indispensável para desenvolver práticas de cuidado eficazes, éticas e inclusivas. Nesse aspecto, a literatura, tanto como fonte quanto como produto, nos fortalece e nos convoca a envidar esforços em prol do nosso direito à saúde, ao cuidado e ao respeito, em âmbito privado e institucional. Sigamos juntas… 

8. Referências para esse artigo 

ASSIS, Machado de. O Alienista. MonteCristo Editora, 2023. BRASIL, Secretaria de Políticas Para Mulheres: II Plano Nacional de Políticas para Mulheres. Brasília, 2008. Disponível em: https://www.gov.br/mulheres/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/arquivo2IIPNPM (Acesso em fevereiro de 2026). 

COSTA, Heliene Rosa da. Poéticas da resistência: o legado de Stella do Patrocínio e a luta antimanicomial contemporânea no Brasil. Revista Voo Livre, Ano 6, número 64, Fevereiro de 2026, pp:26-28. Disponível em: https://revistavoolivre.com.br/revista-voo-livre-ano-6-no-64-fevereiro-de-2026/ (Acesso em fevereiro de 2026). 

EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2003. FANON, Frantz. Alienação e liberdade: escritos psiquiátricos. São Paulo: UBU Editora, 2020. 

GOES, Patrícia Gondo. Ancestralidade Eu, Descendência. Joinville/SC: Clube de Autores, 2023.

MARQUES, Stella Maris de Souza, Parecia Amor. Uberlândia/MG: Editora Subsolo, 2024.

MARQUES, Stella Maris de Souza. Parecia Viagem. Uberlândia/MG:Editora Subsolo, 2024.

MARQUES, Stella Maris de Souza. Parecia Dom. Uberlândia/MG: Editora Subsolo, 2024. Stella do Patrocínio. Museu Bispo de Rosário: Arte Contemporânea. Disponível em: https://museubispodorosario.com/stella-do-patrocinio-memorias/ (Acesso em fevereiro de 2026). WADI, Yonissa Marmit. A história de Pierina: subjetividade, crime e loucura. Uberlândia: EDUFU, 2009.

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Arquivo pessoal
Heliene Rosa, natural de Patos de Minas, Minas Gerais, é uma escritora, professora e pesquisadora dedicada às poéticas femininas. Mestre em Linguística e doutora em Estudos Literários pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Heliene é uma voz ativa na militância pelas causas das mulheres e da negritude. Articulista no Blog Feminário Conexões e integrante de diversos coletivos femininos, fundou, em 2016, o GELIPLIT (Grupo de Estudos em Língua Portuguesa e Literaturas), com o propósito de promover a formação continuada de professores de Língua Portuguesa e Literatura.

Com uma carreira marcada pela coordenação de projetos literários e pedagógicos, Heliene foi premiada no Oitavo Concurso Nacional pela Igualdade de Gêneros com uma sequência didática voltada à escrita, envolvendo estudantes do Ensino Básico. É coautora em diversas coletâneas nacionais e internacionais e organizadora de antologias literárias e acadêmicas. Em sua produção autoral, destaca-se com os livros Enquanto as hortênsias florescem (2023) e Literatura é território: poéticas femininas indígenas em movimento (2024).

sexta-feira, 6 de março de 2026

UM CONTO DE SANDRA SAN'TOS

A   R E V O L T A   N O   D E S C A R T E

POR SANDRA SAN'TOS

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Eu não estava sozinho; junto a mim, muitas coisas familiares: livros, revistas, salmos da igreja, roupas, algumas ferramentas de pedreiro, um par de óculos, e outras que não conseguia divisar. Era um lugar escuro, cheio de ruídos desconhecidos, além de um cheiro modorrento a causar-me desconforto.

 Tem mais alguém acordado? Sabem que lugar é esse? – falei, dirigindo-me aos companheiros de destino incerto.

 Eu acho que estamos no lixo. Agora calem-se, porque alguém se aproxima. – respondeu um objeto abaixo de mim.

Seguiram-se sons de sacos se abrindo e caixas sendo rasgadas. Um dos visitantes, considerei que seriam ao menos dois, assoviava um trecho de uma música desconhecida. Sim, só poderíamos estar no lixo, pois conforme andavam, o mau cheiro também era revirado.

 Caramba! Quanta tralha! Só tem porcaria aqui, tô achando que é perda de tempo. Olha isso: livro, remédio, roupas rasgadas, roupas cortadas... Quem jogou não queria que ninguém pegasse. - O som de coisas quebrando denunciava a raiva por não encontrarem nada de valor, ou que lhes tivesse serventia.

 É isso o que acontece com as coisas dos mortos amigo: vão para o lixo. Se eu fosse tua mulher, botava você no lixo. Lugar de tranqueira é no lixo mesmo. – riu da própria piada e completou antes que o amigo lhe respondesse com alguma ofensa:

 Ei, olha só, eu achei um rádio. Eita, que é uma velharia! Será que funciona essa merda? Se não funcionar, vendo as peças e já no lucro.

 Pode ser, mas vambora que eu tô com fome. – retrucou o outro.

Assim que se afastaram, teve início uma verdadeira balbúrdia entre os objetos que jaziam comigo no descarte.

 Isso não é justo, eu ainda estou em boas condições. - gritou o livro de teologia me fazendo duvidar da sua religiosidade.

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 Vamos balançar a caixa com força, todos juntos até virar, assim vão ver que as coisas de valor estão aqui. – sugeriu a chave de fenda enferrujada, que fora enrolada em um lençol.

 Pra quê minha senhora? Sairemos andando? É isso o que sugere? – estamos velhos e sem uso já há algum tempo. Quem estava em boas condições foi destruído antes de ser colocado aqui. Não percebe que nem pra doação nós servimos? – retrucou um disco quebrado.

A essa altura da discussão, a camisa estava em prantos, derramando linhas por todos os lados, enquanto o livro de marcenaria se desesperava com a falta de suas folhas iniciais.

 Quem fez isso estava com raiva. Não se rasga um livro, isso é absolutamente revoltante. – completou o livro de teologia.

Arlindo, meu dono, provavelmente morrera. Eu não tinha mais dúvidas. O burburinho de meus companheiros me cansava, então preferi o silêncio; afinal, eu era o mais velho daquela caixa. Era hora de fechar os olhos, ficar quieto e aceitar meu fim. Me calei, e me abstraí de mim mesmo escutando a chuva que batucava o exterior de nossa caixa.

Meu humano costumava passar muito tempo calado, comigo nas mãos, pensando em sabe-se lá o quê, apenas me observava. Ele me mantivera por hábito e não por necessidade; talvez até por afeto, pois eu, já não exercia minha função há bom tempo. Além de ser objeto de contemplação para Arlindo, eu também servira de brinquedo para sua neta, a menina Clara, que tinha o talento de lhe reacender o olhar.

 Clara, devolve pro vovô. Se você derrubar, vai quebrar, cuidado. – falava mesmo sabendo que eu era um caso perdido. Para mim, não havia mais conserto.

Era isso, Arlindo morrera e eu morreria também, ponto final. Preferi manter-me alheio àquela conversação inútil.

 Talvez ainda tenhamos uma chance. Tem muita gente precisando de algo útil. – arguiu uma luminária antiga.

 Depende do que você chama de útil. – completou o martelo sem cabo.

 Deixa de soberba e verá, sou um bom livro, edição caprichada. Logo estarei servindo a olhos inteligentes.

 Fiquem quietos e ouçam, está chegando alguém... Com passos pequenos, se for criança, não se interessará por nenhum de nós. – interrompeu a chave de fenda.

Era Clara, a neta de Arlindo. A menina passou um bom tempo abrindo e fechando caixas. Vasculhou uma por uma, até que abriu a nossa. Retirou objeto por objeto, mantendo em uma das mãos uma revista da igreja que o avô frequentava, enquanto a outra penetrava no desconhecido. Senti quando fui levado para fora e recostado ao seu peito.

 Clarinha, Clarinha! O que está fazendo minha filha? Porque tá revirando o lixo? – gritou sua mãe do outro lado da rua.

 Mamãe, são as coisas do vovô. Eu preciso pegar tudo de volta.

 Filha, foi sua avó quem jogou tudo isso fora. Ela não vai ficar feliz se souber o que você tá fazendo... E eu, também não quero essas coisas lá em casa.

 Mas, mãe... por que a vovó colocou as coisas do vovô no lixo?

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 Bem, sua avó e seu avô... Não se davam nada bem. Mas, esse é o tipo de coisa que você só vai entender quando ficar mais velha. Agora vem, larga essas coisas aí, que não quero irritar a sua avó. – falou a mãe encerrando o assunto.

A menina havia chafurdado no que restara do avô. Aquelas coisas tinham enorme valor para ela; mesmo assim, antecipando um embate inútil, obedeceu. Não sem antes esconder-me em seu bolso. Devolveu as revistas para a caixa e fechou-a com cuidado, despedindo-se não apenas de coisas, mas de uma pessoa que lhe faria muita falta.

 Adeus vovô – disse em voz alta, sem entender a lógica dos adultos.

Por muito tempo fui seu segredo e dos meus companheiros de caixa, nada mais eu soube.

Passei muito tempo escondido entre livros, roupas, fotos e coisas importantes, até a menina se sentir segura para assumir ter me tirado do lixo.  Quando saí da clandestinidade, fui polido e ganhei uma corrente nova. Nunca mais andei em um bolso, pois esse era um costume de Arlindo. Fui contemplado com um relicário e hoje resido sobre o piano de Clara, de onde a vi crescer e se tornar moça. Vi sua formatura, a vi se casar, assisti a muitos outros momentos importantes, felizes ou nem tanto.

Ela nunca mandou me consertar, porque eu sou uma extensão de seu avô, e ter-me por perto lhe basta. Dele, herdou o hábito de me contemplar longamente, pensando em sabe-se lá o quê. Tal avô, tal neta.

O tempo ensina, e de tempo eu entendo, mesmo que meus ponteiros aposentados mostrem o passar das horas de uma forma diferente. Um dia, Clara também não aparecerá mais e, quem sabe, talvez um dia ela tenha uma neta, e essa me guarde, e aprenda a admirar esse velho relógio que registra em silêncio a caminhada de gerações.

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Arquivo pessoal da autora

Sandra A. Santos é pedagoga com especialização em Educação Ambiental, ambientalista apaixonada pela natureza e pela vida em todas as suas formas. Hoje aposentada, dedica-se à literatura, escrevendo contos, romances e poesias que giram em torno do universo feminino. Com trabalhos publicados em antologias no Brasil e na Argentina.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

REMINISCÊNCIAS INFANTO-JUVENIS, POR MARIA DO CARMO SILVA

 "No fim da tarde quando tudo se aquietava..."

Por Maria do Carmo Silva

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"Das muitas coisas do meu tempo de criança, guardo vivo na lembrança...” são versos de Pe. Zezinho-SCJ, escritor e músico, da canção Utopia (1990), que me trazem as memórias testemunhadas e vivenciadas na minha infância cujos pilares eram os valores humanos, as relações familiares e escolares, o convívio afetivo com os vizinhos e o lazer.

Pedir a bênção aos pais, padrinhos, avós, tios e às pessoas mais velhas, independente de ter vínculo familiar, era uma prática cotidiana respeitosa e afetuosa que ultrapassava o período da infância, estendendo-se aos jovens e até aos adultos já casados, que com reverência estendia a mão direita pedindo a bênção. “A bença a Dona Maria, a bença a Seu José",  sendo a bênção ofertada de forma calorosa com um “Deus te abençoe, Deus te dê uma boa sorte, Deus te faça feliz".

No ambiente doméstico, o respeito e a obediência aos mais velhos era regra geral: os filhos mais velhos ajudavam os pais no cuidado com os irmãos mais novos - ressaltando que normalmente a prole era extensa -, auxiliavam a mãe nas tarefas domésticas e em outras atividades no campo, tudo sob o olhar dos mais velhos que já gerava intimidação e um alerta para a obediência.

“No fim da tarde quando tudo se aquietava...” - ainda soa a canção de Pe. Zezinho. Ao final da tarde, todos se reuniam, sentados no banco de madeira, normalmente da cozinha, ao redor do fogão a lenha, para ouvir as histórias e causos contados pelos mais velhos. O candeeiro iluminava o ambiente e o calor das brasas do fogão aquecia a prosa. À noite, era comum os pais contarem histórias para os filhos. As crianças ouviam, em silêncio, as lendas do lobisomem e de outros seres estranhos, ficavam apavoradas sem reagir e nem interagir. 

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Na cidade ou no campo a diversão das crianças ficava por conta das brincadeiras no terreiro, onde cantavam roda, pulavam corda, jogavam gude, baleado, amarelinha, brincavam de esconde-esconde, faziam piquenique, dentre tantas outras brincadeiras e, ao primeiro chamado do pai ou da mãe, retornavam para casa sem pestanejar. A vida fluía com alegria, simplicidade, serenidade e respeito.

À época, a tecnologia nem sonhava existir e os brinquedos eram artesanais, feitos pelas próprias crianças ou pelos pais com materiais reaproveitados ou retirados da natureza: cavalo de pau, panelas de barro, bonecas de pano, bolas de meia com enchimento de papel, carrinhos feitos com vasilhame de oléo ou de manteiga e com rodas feitas com borracha de sandálias.

A Escola era o “lugar do aprender”. Sentados em bancos de madeira, com olhar fixo no professor, no ABC e na cartilha, todos cumpriam suas tarefas e mantinham obediência ao professor da mesma forma que ao seus pais e aos mais velhos, tratando-o com o devido respeito, pois se lhes faltasse com ele,  seria severamente punido.

Na contemporaneidade, os valores humanos e as relações familiares estão quase que descartados, causando sérias e drásticas consequências à sociedade como um todo. A escola é para muitos, apenas um lugar de encontro com colegas, um lugar de distração. Reconhecê-la como espaço de produção e de aquisição do conhecimento não é regra geral.  Pedir a bênção aos mais velhos saiu de moda. A tecnologia trouxe brinquedos eletrônicos, bonecos que simulam seres humanos, ridicularizando-o com o desrespeito, a violência, a pornografia. A prosa e as brincadeiras com colegas, familiares e amigos foi substituída pela “comunicação virtual”, via redes sociais, espaço de “liberdade” e de “permissividade”.

O respeito, a solidariedade, a fraternidade e a humanização foram substituídos pela robotização dos humanos. Quais lições, histórias e memórias das crianças e jovens da sociedade contemporânea transmitiremos à posteridade?

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Maria do Carmo Silva -  Natural de Mutuípe-BA; Professora, poeta e escritora. Licenciada em Geografia, graduada em História; Especialista em Gestão e Educação Ambiental, Estudos linguísticos e literários e Comunicação, Cultura Organizacional e Tecnologia. Autora dos livros de poesias: "Retalhos de Vivências", "Recomendações Poéticas", "Leituras e Releituras", "Colheitas Ancestrais & Primaveras". Tem participação em diversas Antologias Poéticas nacionais e internacionais. Colunista no site de notícias Tribuna do Recôncavo e colaboradora do blog Feminário Conexões. Integrante dos Coletivos Mulherio das Letras e Enluaradas.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

LITERATURA É TERRITÓRIO EM DISPUTA: O QUE ESCREVEMOS É LITERATURA SIM


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A literatura brasileira é vasta, rica e diversa — e, ainda assim, parte significativa de sua produção continua à margem dos espaços de prestígio e reconhecimento. Autores e autoras negras, indígenas, ciganas, periféricas e dissidentes têm sido, sistematicamente, deslegitimados por uma crítica hegemônica que insiste em restringir o que se entende por “literatura”. No entanto, reafirmamos: o que escrevemos é literatura sim e da melhor qualidade. 

Com linguagem potente, estética refinada e compromisso com a realidade, nossas obras ampliam os horizontes do que se lê e do que se entende por literatura no Brasil. Viva a literatura que rompe cercas simbólicas, que permite voz e expressão aos intelectuais de todos os cantos do país, de todos os estratos sociais, de diferentes culturas e múltiplas vivências. Afinal, literatura é, antes de tudo, território de liberdade — e nós escrevemos para existir. 

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Os que tentam nos calar 

A voz da branquitude insiste em determinar quem pode ou não gozar do status de autor(a) literário(a). Querem nos dizer quem faz e quem não faz literatura, rotular como “marginais” os que escrevem fora do eixo hegemônico e, até mesmo, proibir a circulação de nossos livros. Mas seguimos escrevendo. 

Do Monte Caburaí ao Arroio Chuí, do escritor porto-alegrense Jeferson Tenório à poeta roraimense Sony Ferseck, nossos autores e autoras têm enfrentado estigmas e restrições impostos por setores editoriais e midiáticos que não sabem — ou não querem — ler outras realidades. 

Nesse contexto, em 2018, a Academia Brasileira de Letras rejeitou o nome de Conceição Evaristo, uma das maiores vozes da literatura negro-brasileira. 

Essa recusa foi um espelho do preconceito institucional que ainda define os contornos do que se considera "alta literatura" no país, mas os ventos começaram a mudar: em 2025, Ana Maria Gonçalves — autora de Um defeito de cor — tornou-se imortal da ABL. Sua entrada nessa instituição representa um movimento tardio, mas simbólico, de abertura do cânone à escrita potente, política, performática e estética das mulheres negras brasileiras. 

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Nesse aspecto, convém lembrar - e o faço sem intenção retórica - que as academias se anteciparam ao laurear com o título de doutor/doutora "Honoris Causa": Beatriz Nascimento (UFF/2022), Conceição Evaristo (UFMG/2025), Lélia Gonzalez (UnB/2025), Milton Santos (UFSC/1996), Luiz Gama (USP/2021), Ailton Krenak (UFJF/2016) e Eliane Potiguara (UFRJ/2021), dentre outros e outras. Em contrapartida, há sempre uma via de mão dupla e escolhas perigosas. Jeferson Tenório sofreu tentativas de censura e foi perseguido nas redes sociais por polêmicas em torno de seus livros. Escritoras e escritores indígenas do país inteiro, como os do povo Maraguá, no Amazonas, enfrentam o apagamento sistemático de suas vozes, suas línguas e dos seus modos de narrar e de representar o mundo. 

De minha parte, prefiro ouvir a voz da sabedoria ancestral. Nossos avós diziam: “Não batam palmas para maluco dançar.” Por isso, costumo optar por não dar palco nem notoriedade aos ataques. Não reposto, não alardeio. Expresso minhas opiniões quando sou instada a fazê-lo — não sem um pouco de azedume, devo confessar. 

As estratégias para nos silenciar são sofisticadas e tecnológicas, multiplicam-se, de modo intencionado nos debates contemporâneos, no entanto, resistimos. E foi assim, resistindo e re(existindo), que não desaparecemos e nem desapareceremos do mapa. 

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Enquanto tentam nos invisibilizar, silenciar, desprestigiar — nós escrevemos. E ao escrever, permanecemos. Por um Brasil que leia a sua própria diversidade Continuamos aqui. Escrevendo com as marcas da ancestralidade, com as urgências do presente e com os olhos voltados para o futuro. 

Nossos livros não pedem desculpas. Nossas palavras não cabem em molduras coloniais. Fazemos literatura para reinventar a roda frenética da vida e para curar feridas. Somos palavra que grita e sobrevive em estado de luta. E, se tentam nos silenciar, respondemos escrevendo mais: mais histórias, mais vivências, mais poesia, mais reflexão. Se tentam nos apagar, respondemos com memória. Porque toda vez que escrevemos, ocupamos — e resistimos. Das pedras do Cais do Valongo, nossos ancestrais gritam por nós. 

Que mais leitores, escolas, feiras e instituições se abram à leitura da literatura negra, indígena, cigana e periférica brasileira. Porque só haverá real literatura brasileira quando todas as vozes couberem dentro dela. Apesar do que ousam dizer os que se consideram donos do fazer literário. Ps. Esse texto foi originalmente publicado na Revista Voo Livre, na edição de setembro/2025. Lemos aqui uma versão adaptada para conter a premiação da escritora Conceição Evaristo que foi noticiada pela mídia após a referida edição.

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Arquivo da autora
Heliene Rosa, natural de Patos de Minas, Minas Gerais, é uma escritora, professora e pesquisadora dedicada às poéticas femininas. Mestre em Linguística e doutora em Estudos Literários pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Heliene é uma voz ativa na militância pelas causas das mulheres e da negritude. Articulista no Blog Feminário Conexões e integrante de diversos coletivos femininos, fundou, em 2016, o GELIPLIT (Grupo de Estudos em Língua Portuguesa e Literaturas), com o propósito de promover a formação continuada de professores de Língua Portuguesa e Literatura.

Com uma carreira marcada pela coordenação de projetos literários e pedagógicos, Heliene foi premiada no Oitavo Concurso Nacional pela Igualdade de Gêneros com uma sequência didática voltada à escrita, envolvendo estudantes do Ensino Básico. É coautora em diversas coletâneas nacionais e internacionais e organizadora de antologias literárias e acadêmicas. Em sua produção autoral, destaca-se com os livros Enquanto as hortênsias florescem (2023) e Literatura é território: poéticas femininas indígenas em movimento (2024).

Feminário Conexões, o blog que conecta você!

A PALAVRA INSUBMISSA: O PODER DA ESCRITA NEGRA, POR CARLA NEPOMUCENO

«A nossa escrevivência não é para ninar os da casa-grande, é para acordá-los dos seus sonos injustos»    Conceição Evaristo Por Carla Nepo...