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terça-feira, 31 de março de 2026

CRÔNICAS DA SUSTÂNCIA*


HISTÓRIAS DA MINHA MÃE: "O MEU TORTÉI"


Naquele tempo suspenso da pandemia, no ano de 2020, em que os dias pareciam caber dentro de casa, decidimos fazer algo para nos esperançar: tirar fotografias em família. Contratamos uma fotógrafa, ajeitamos os cabelos, fizemos maquiagem, colocamos um sorriso no rosto e escolhemos roupas com cuidado – como se, ao nos organizarmos por fora, também encontrássemos algum equilíbrio por dentro.

Minha mãe, D. Maria Lucia, estava ali, como sempre, no centro de tudo. Frágil no corpo, firme nos gestos, guardiã de saberes que não se aprendem apressadamente.

No meio da sessão de fotografias, realizada ao sentir do vento e dos pés no chão, no sítio dos pais da minha cunhada, tentando deixar minha mãe mais à vontade, para retratá-la, a fotógrafa lhe fez uma pergunta simples:

D. Maria Lucia, qual é a comida que a sua filha faz e de que a senhora mais gosta?

Minha mãe escutou com atenção, como quem acolhe a pergunta antes de respondê-la. E então disse, com toda naturalidade:

O meu tortéi. 

Fonte: Autoria própria (2025)

Houve um breve silêncio, logo atravessado por risos espontaneamente surgidos nos seus netos, Samuel e Vicente; nos seus filhos, eu e meu irmão Carlos; e na nora, Camila. Ela não disse a comida que eu fazia, mas a que ela fazia.

E, pensando bem, fazia todo sentido.

Entre tantas coisas que nos reunem, em família, há o tortéi. Não é de um dia só, mas algo que sempre volta, quase como um ritual. Sempre que ela o faz, a casa se enche de um cheiro conhecido, e a mesa ganha outro significado. Não é apenas comida –  é um modo de estarmos juntos.

Todos gostam.

Por isso, no fundo, não foi engano a resposta dela. O tortéi é dela. É dela o jeito de abrir a massa, o cuidado com o recheio, o ponto certo do molho. Mesmo quando alguém a ajuda, é ela quem sustenta esse saber.

As fotografias guardaram a lembrança daquele instante. Mas o que ficou mesmo foi outra coisa: a certeza de que há receitas que não pertencem apenas ao prato. Pertencem a quem as vive.

E, naquele dia, minha mãe disse isso do jeito mais simples possível:

– "O meu tortéi".

Fonte: Autoria própria (2025)


Buon appetito!

Obs.: Tortéi é uma palavra aportuguesada do italiano tortelli (ou tortelli di zucca), prato típico da região de Lombardia e muito comum em descendentes de italianos aqui no Brasil. É uma massa recheada com abóbora cabotiá.

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Arquivo pessoal (autoria de Alan Winkoski)

Rosangela Marquezi é professora de formação e atuação que acredita que a literatura tem o poder de modificar vidas... Graduada em Letras, Mestra em Educação e Doutora em Desenvolvimento Regional, é professora de Literatura na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Faz parte da Academia de Letras e Artes de sua cidade, Pato Branco - PR. Nas horas vagas, escreve poemas, crônicas e contos e já participou de coletâneas e antologias no Brasil e também em Portugal.

*Sustância - personagem fictícia que define a escritora de crônicas que habita em mim, "a ânsia, a substância, a Sustância!" (Marquezi, 2017). 

domingo, 8 de março de 2026

O DIA INTERNACIONAL DA MULHER

"é difícil aceitar o perfume quando o ar está saturado pelo cheiro de pólvora"


Oito de março. Aceito o café na cama, mas engulo um calendário que insiste no vermelho para marcar o feriado que celebra “O dia internacional da mulher” que, na verdade, é um marco das nossas  lutas e conquistas. Tudo bem, tento entrar no clima do dia, mas sobre mulheres o que vejo é o vermelho que escorre na TV e nas redes sociais. Neste dia, as flores ofertadas parecem pesar toneladas, pois é difícil aceitar o perfume quando o ar está saturado pelo cheiro de pólvora, de medo e de uma injustiça que se renova a cada noticiário.


Dizem que o lar é o porto seguro, mas para milhares de brasileiras, ele é o epicentro do abalo sísmico. O feminicídio não é um raio em céu azul; é o estágio final de um roteiro escrito a muitas mãos, pela posse travestida de amor e cuidado, pelo silêncio dos vizinhos e pela cegueira de um “Sistema” que chega sempre depois que o corpo já esfriou. As formas brutais de morte, que temos visto ultimamente, com requintes de crueldades - que desafiam a sanidade -, não são apenas crimes; são mensagens de ódio e dor enviadas a todas nós, um lembrete violento de quem ainda se julga dono da vida alheia.

E se o fim é trágico, o começo é desolador.

Recentemente, Minas Gerais nos esfregou na cara a ferida aberta da nossa falha civilizatória. Uma menina de 12 anos, uma criança que deveria estar ocupada com cadernos, brincadeiras e o florescer lento da juventude, vivendo com um homem de 35. Não consigo chamar isso de "relacionamento",  o nome é estupro de vulnerável, é exploração, é o roubo sistemático de uma infância que nunca será devolvida. Quando permitimos que normalizem relações de  "homens mais velhos com crianças", estamos pavimentando o caminho para o abuso, estamos dizendo que o corpo de uma menina é um território a ser conquistado, e não uma vida a ser protegida.


E essa  violência travestida de "amor" é só a ponta do iceberg, por baixo dela sustenta-se, há séculos, a montanha de gelo da desigualdade, do machismo e da misoginia. É a mulher que não sai de casa porque não tem autonomia financeira, a mãe que acumula três jornadas e ainda é culpada pela "rebeldia" dos filhos, a menina que aprende desde cedo que o seu "não" vale menos que o desejo de um homem.


Almoço a dois, mas nesse dia degusto o feminismo não como uma escolha teórica ou uma pauta de militância distante, mas como um kit de sobrevivência, como um grito que exige que as meninas de 12 anos sejam apenas crianças e que as mulheres adultas não se tornem estatísticas antes do jantar. 

Que a nossa indignação seja maior do que  o que nos alimenta de maneira indigesta, porque, enquanto uma de nós for silenciada pelo cano de uma arma ou pela mão de um abusador, nenhuma de nós estará, de fato celebrando “O dia internacional da mulher”.

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Rilnete  Melo é maranhense, poeta, escritora, cronista e cordelista, membro das academias de letras ACILBRAS e ABMLP, colunista no blog Feminário Conexões e colaborada da Revista internacional The Bard, coautora de várias antologias nacionais e internacionais, vencedora de seis concursos literários,  autora dos livros Construindo Versos, O máximo de mim e outros mínimos poemas, Pérolas do  meu silêncio, zine Dezcontos micros e autora de cinco cordéis.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

62 ANOS ! (SOBRE)VIVER É UM ATO POLÍTICO

 "Escrevo porque a palavra sempre foi minha ferramenta de sobrevivência."

Hoje completo 62 anos. Entrego minha idade com velas mágicas e com o corpo inteiro aceso. Celebrar a minha vida como mulher, neste país onde mulheres são interrompidas diariamente, é um gesto que carrega peso histórico, ético e político.

Arquivo da autora

Enquanto escrevo esse texto, penso nas Tainaras, Isabelas e milhares de outras que não chegaram até aqui. Penso nas mulheres cujos aniversários foram silenciados pelo feminicídio, essa chaga social que o sistema não consegue encontrar a cura, e que lobos disfarçados de cordeiros romantizam dizendo ser adquirida do amor e do ciúme, mas que na verdade ela existe simplesmente pelo fato de sermos mulheres, pelo ódio,  pelo controle exercido pelo patriarcado e pela certeza  de que nossos corpos são territórios de posse. Na verdade, a culpa é do machismo estrutural que disfarça de homicídio os crimes misóginos.

Simone de Beauvoir já nos alertava que não se nasce mulher, torna-se, isto é, aprende -se a ser mulher dentro de um sistema patriarcal que impõe normas, papéis  e silenciamentos. Muitas mulheres são brutalmente interrompidas não por não alcancarem esse "tornar-se ", mas por desafiarem ou não se ajustarem às expectativas  que lhes são  impostas.

Para uma mulher que chega aos 62 anos, num país que ocupa a quinta maior taxa de feminicídio do mundo, é atravessar um campo minado com passos insistentes. É ter sido menina afetiva e tímida, adolescente intensa e romântica, sem imaginar que ser mulher é ser subjugada, objetificada e coagida. É ter acreditado no amor, lutado em meio a um casamento abusivo e ainda ter se reinventado como mãe solo, leoa, colo, sustento e abrigo.

Minha história pessoal não está dissociada da história coletiva das mulheres. Como escreveu Bell hooks, o amor, para nós, nunca foi neutro, ele sempre precisou ser reaprendido fora da lógica da dominação.

Arquivo da autora

E hoje eu celebro meu aniversário escrevendo com prazer, como mulher e como escritora, porque escrevo com o corpo que amou, viveu, perdeu e resistiu. Escrevo porque a palavra sempre foi minha ferramenta de sobrevivência. Audre Lorde dizia que transformar o silêncio em linguagem e ação é um ato de coragem. E eu escrevo para fazer barulho, porque sei que o silêncio mata  e não apenas metaforicamente.

O feminicídio não é um desvio de conduta individual. É o ponto extremo de uma cultura que naturaliza a violência contra mulheres, que relativiza agressões, que pergunta “o que ela fez?” em vez de perguntar “por que ele matou?”. Djamila Ribeiro nos lembra que não existe neutralidade quando a estrutura é desigual. Celebrar minha vida hoje, aos 62, é também denunciar essa estrutura.

Minha existência é prova, minha maturidade é prova e minha escrita é o carimbo.

Cada ruga que carrego não é sinal de desgaste, mas de permanência, de permanecer viva, lúcida e criativa, escrevendo sobre o feminino num mundo que insiste em nos apagar.

Isso para mim é uma forma de insurgência.

Hoje não celebro apenas mais um ano de vida, celebro o direito de continuar, celebro as mulheres que vieram antes de mim e abriram caminhos, celebro as que caminham comigo. E como ser humano sinto os rasgos na minha pele com indignação e compromisso por todas as que não (se)ssentaram e sim ficaram com os corpos estendidos ao chão.

Que minha voz aos 62,  ecoe como denúncia e manifesto. Porque enquanto uma mulher for morta por ser mulher, nenhuma de nós estará inteira. E ainda assim estamos aqui:

Escrevendo, vivendo e resistindo.

FEMINICÍDIO

Matam em casa todo dia uma mulher!

A voz sufocada

Pincelada de sangue

Reside nas paredes

Ecoa na sala o noticiário

 Agredindo os tímpanos

Na surdez da lei

Tudo é corriqueiro

Mas a dor velada das Marias

Rasga a minha pele

E do meu verso perplexo

Arranco o silêncio

Enterrado no sexo

E eu grito na poesia :

Basta! O machismo já fede!

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Arquivo da autora

Rilnete Melo é maranhense, poeta, escritora, cronista e cordelista, membro das academias de letras ACILBRAS e ABMLP, colunista no blog Feminário Conexões e colaborada da Revista internacional The Bard, coautora de várias antologias nacionais e internacionais, vencedora de seis concursos literários, autora dos livros Construindo Versos, O máximo de mim e outros mínimos poemas, Pérolas do meu silêncio, zine Dezcontos micros e autora de cinco cordéis.

terça-feira, 14 de outubro de 2025

CRÔNICAS DA SUSTÂNCIA - Por Rosangela Marquezi

 


SOBRE ESPELHOS E ESPERANÇAS

Rosangela Marquezi


Meu espelho quebrado...
Meu espelhinho quebrado...
Quebrei um espelho... Estava em frente à janela, aproveitando a luz solar para tirar aqueles pelinhos do buço que só a gente vê – e finge que ninguém mais nota. Distraí-me olhando a rua – moro diante de uma bem movimentada – e eis que o espelhinho, tão bonito e presente de uma amiga, escorregou-me das mãos. Em segundos, um dos lados virou dezenas de cacos pelo chão.


(Nesse instante, lembrei-me dos famosos "sete anos de azar". Curiosa como sou, fui investigar! Dizem que essa crença vem da Grécia e da Roma antigas, onde se acreditava que a imagem refletida carregava poderes mágicos. Lembram de Narciso? Pois é, a coisa vem de tempos! Mas, parece, foram os romanos, por volta do século III, com o surgimento do espelho de vidro, que associaram o ato de quebrá-lo ao azar: se o reflexo fosse destruído, a sorte também se quebrava. Sete anos, porque se acreditava que o corpo levava esse tempo para se renovar... Mas, como esse texto não é uma aula de história, e sim uma crônica, volto ao meu espelho.)

O espelho se quebrou. Abaixei-me para juntar os pedaços e, enquanto recolhia – um a um – os cacos espalhados pelo chão, pensei que, ao contrário das histórias de azar, talvez esse espelho me oferecesse outra chance: a de romper, de vez, com tudo que não me faz bem! Decidida, fui dando significado a cada fragmento. A cada caco, deixava para trás uma mágoa, um medo, um peso antigo...

A primeira coisa que joguei fora foi a tristeza que volta e meia insiste em querer se instalar em minha vida. No decorrer de nossa existência, vamos acumulando choro, raiva, mágoas... E isso só causa peso desnecessário à vida! Como cantava Tim Maia, “Tristezas que passaram na vida não devemos mais lembrar / Só pense no amanhã / tristezas não vão mais / Passar no meu caminho nunca mais”. Que assim seja! Confesso que foram muitos pedacinhos aqui...

Joguei fora também palavras mal ditas e malditas! Ditas e ouvidas! Palavras têm tanto poder que, se lembrássemos disso todos os dias, de nossa boca só sairiam as que edificam e alegram! Palavras são ondas sonoras... Gosto de imaginá-las voando por aí, encontrando-se nesse espaço além-tempo, valsando em vibrações. Que lindo seria se pudéssemos viver envolvidos apenas por palavras doces, belas, valorosas, amorosas!

Propus-me ainda a jogar fora a falta de esperança. Vivemos tempos difíceis. Guerras cruéis espalhadas pelo mundo, violências diárias... Ver isso constantemente nos noticiários vai criando a falsa ideia de que "A vida é assim mesmo! Nada muda”. Isso é terrível e destrói nossa fé na humanidade. Tentei jogar fora essa desesperança, mas confesso: a dura realidade continua lembrando que é preciso estarmos atentos!

Fui descartando também dores físicas e espirituais, dias tristes e dias mal vividos... Histórias ruins, amores que não deram certo, venenos verbais acumulados... Recordações doloridas e pesadas penas...

Aos poucos, minha alma e meu corpo foram se sentindo mais leves e fui vendo que a vida ganhava novo ânimo. Guardei tudo com cuidado e descartei, como quem se despede do que já não serve. Foi mais do que uma faxina doméstica, foi uma limpeza de alma, tão necessária a nossos dias!

Quiçá não sejam sete anos de azar o que vem pela frente, mas sete anos e mais sete e mais sete – tantos quantos me forem permitidos – em que, mais leve e grávida de esperanças, eu possa ver a vida e as pessoas com mais boniteza!

É o que merecemos: esperança e amor!

Abraços! Seja Feliz.

Rosangela Marquezi
Professora de formação e atuação, mas alguém que crê na esperança como verbo...


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DICAS DA RÔ
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1. Ouça a música “Enquanto houver sol”, na voz dos Titãs. É uma daquelas canções que abraçam por dentro, lembrando-nos que, mesmo nos dias mais nublados, ainda pode haver uma fresta de luz. A canção, escrita por Sérgio Britto e lançada no álbum "Como estão vocês" (2003), é quase um mantra de resistência suave, daqueles que a gente canta baixinho para não esquecer de acreditar.

“Quando não houver saída
Quando não houver mais solução
Ainda há de haver saída
Nenhuma ideia vale uma vida".


2. Assista ao filme “Um conto chinês” (Un cuento chino), lançado em 2011, dirigido por Sebastián Borensztein e estrelado pelo maravilhoso ator argentino Ricardo Darín. À primeira vista, parece apenas uma comédia inusitada sobre o encontro improvável entre dois mundos: um argentino ranzinza e um jovem chinês perdido. Mas, aos poucos, percebemos que é uma história sobre acaso, acolhimento e os laços invisíveis que nos conectam, mesmo quando não falamos a mesma língua. Esse filme nos faz pensar nos encontros inesperados que mudam nossa vida... Afinal, às vezes, a boniteza está justamente no que não planejamos.

3. Leia o poema “Aninha e suas pedras”, da poeta goiana Cora Coralina, publicado em 1983 no livro “Vintém de cobre: meias confissões de aninha”. É um poema que fala direto ao coração, sem artifícios, com a força da sabedoria vivida. Cora nos convida a olhar para as dificuldades não como obstáculos, mas como pedras com as quais podemos construir caminhos. Às vezes, a poesia só nos lembra do que já sabemos: somos mais fortes do que pensamos...

"Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça."

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Arquivo pessoal (autoria de Alan Winkoski)

Rosangela Marquezi é professora de formação e atuação que acredita que a literatura tem o poder de modificar vidas... Graduada em Letras, Mestra em Educação e Doutora em Desenvolvimento Regional, é professora de Literatura na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Faz parte da Academia de Letras e Artes de sua cidade, Pato Branco - PR. Nas horas vagas, escreve poemas, crônicas e contos e já participou de coletâneas e antologias no Brasil e também em Portugal.

Sustância - personagem fictícia que define a escritora de crônicas que habita em mim, "a ânsia, a substância, a Sustância!" (Marquezi, 2017). 

quinta-feira, 30 de maio de 2024

O PORTO ALEGRE DE ALICE NO PAÍS DOS ASSOMBROS - POR ISA CORGOSINHO

 O PORTO ALEGRE DE ALICE NO PAÍS DOS ASSOMBROS

POR ISA CORGOSINHO

A questão inicial que se coloca no romance Quarenta dias, de Maria Valéria Rezende, é o deslocamento. Numa primeira instância, temos a geográfico, que se desdobrará progressivamente como jornada socioexistencial. O destino da professora paraibana aposentada é Porto Alegre (Nordeste x Sul), que parte para cuidar da família embrionária da filha, desenhada com traços pequeno-burgueses com projetos individualistas (uma crítica sem intenções de sutilezas, principalmente, aos filhos da classe média). A chegada em Porto Alegre é a queda no poço do não pertencimento. Alijada do lugar e dos objetos afetivos, largada pela filha, Alice se vê à revelia dos assombros. 

Na restrita bagagem, a narradora personagem traz um caderno com a capa estampada pela boneca Barbie, signo consagrado do consumo e modelo de beleza que alimentou o sonho de gerações de crianças e adolescentes no mundo inteiro (e agora, para não perder o mercado, ainda retorna com o discurso midiático do feminismo).

A presença desse signo no caderno, feito de diário da professora que lê Wislawa Szymborska, insere a ironia como estrutura mestra para compreender a composição de Quarenta dias.  A mudança, a queda, a travessia estão relacionadas à busca de um filho conterrâneo que emigrou para Porto Alegre em busca de trabalho.    

Para compreensão dos mecanismos interdiscursivos que constituem a ironia, é preciso considerar a presença de elementos da oralidade, principalmente na relação entre a narradora Alice e o diário com a Barbie, que é também uma das faces do leitor empírico.  Isso significa que o discurso irônico joga essencialmente com a ambiguidade, convidando o receptor a uma dupla leitura: linguística e discursiva. Esse convite à participação ativa coloca o receptor na condição de coprodutor da significação, o que implica sua instauração como interlocutor.

O diário de Alice parodia os diários adolescentes com a inserção de variados gêneros textuais verbais e não verbais recolhidos nas andanças, peregrinações da narradora personagem. Os capítulos são introduzidos por textos que Alice vai recolhendo em suas andanças, uma espécie de mapeamento da cidade, sinalizações semânticas da travessia, significâncias do percurso social e existencial.

Maria Valéria Rezende
No poço do não pertencimento, a Alice de Maria Valéria vai traçar uma nova cartografia do êxodo nordestino na cosmopolita Porto Alegre, quebrando as rotas normalmente conhecidas e mapeadas pela literatura (a autora nos mostra a extensão indiscriminada desse êxodo).  É nos rastros de um jovem desgarrado do sertão, em busca de trabalho, que a narradora refletora nos mostrará a periferia porto-alegrense, com a caligrafia e os desenhos conhecidos do mapa de exclusão no Brasil.          

O diário instaura a proximidade com o leitor empírico, parte de uma descrição minuciosa, dramática e humorística do percurso da personagem, nos vemos representados no prosaísmo das imagens e linguagem nas andanças de Alice. O uso do discurso indireto livre é um jogo de perspicácia da autora. A conversa com a Barbie é de uma coloquialidade irônica e brincalhona, está sempre simulando ou descrevendo o trajeto, as peregrinações, o modo de agir e sentir, como deve se portar, nos envolvendo num jogo que devemos aprender no meio da partida.

As transformações da personagem, que chega a morar nas ruas de Porto Alegre, são carregadas de episódios irônicos e muitas vezes responsáveis pela leveza necessária às dramáticas travessias de Alice. Outra questão relevante é o fato de a narradora personagem não abrir mão da condição de leitora. Observamos a preocupação em aliar a escritura com a humanização, o prazer da leitura, duas atividades estreitamente conexas no romance. A leitura é prazer, enquanto a escritura é trabalho, necessidade. O fato de Alice não abrir mão de portar livros entre os itens básicos de sobrevivência como moradora de rua, nos revela a condição diferenciada do vínculo da literatura com a vida, mesmo e, sobretudo, na precariedade.   

Quarenta Dias é substancialmente um jogo literário, que implica a possibilidade de alcançar o conhecimento do real, drama vivido pelo confronto dialógico do mundo escrito no diário da Barbie e o mundo abertamente vivenciado pelos personagens estreitados nos becos, nas ruas, nos espaços periféricos trilhados por Alice. O leitor experimenta o cansaço, as frustrações, a angústia da personagem nos desafios da busca por si mesma nos rastros do jovem nordestino, invisibilizado nas comunidades proletárias do Brasil. O jovem pedreiro é o duplo da filha acadêmica de Alice. A relação temporal forma uma coreografia entrecruzada de passado e presente, instalando a dúvida do que é verdadeiro ou falso, fora e dentro de nós, gerando a incerteza de uma identidade fixa.

Outro viés que merece atenção é o metaficcional. Patrícia Waugh[1] indica algumas interpretações importantes a esse respeito: uma extrema autoconsciência sobre a linguagem, a forma literária e o ato de escrever ficções; uma incerteza generalizada sobre a relação da ficção com a realidade.  Em síntese, a metaficção é o termo dado à escrita ficcional que autoconsciente e sistematicamente chama a atenção ao seu status como artefato para propor questões sobre a relação entre ficção e realidade.

Ao fornecer uma crítica de seus próprios métodos de construção, tais escritas não só examinam as estruturas fundamentais da narrativa ficcional, mas também exploram a possível ficcionalidade do mundo externo ao texto literário. O resgate do romanesco metaficcional é intencionalmente guiado pela imprevisibilidade, fertilizado por misturas de sementes literárias variadas, cuja floração permite ao leitor empírico o contato com dialógicas confluências de estilos, gêneros e tempos narrativos.

Se o nosso conhecimento do mundo é mediado pela linguagem, a ficção literária, que são mundos construídos inteiramente de linguagem outra, continua a ser uma travessia útil para a aprendizagem sobre a construção da “realidade” enquanto tal. Esse dilema é confrontado em Quarenta Dias por meio de uma prática que resulta na escrita que consistentemente mostra a sua convencionalidade que, explicita e abertamente, exibe a sua condição de artifício e que, por meio disso, estuda a relação problemática entre a vida e a ficção.

A metaficção pode-se desdobrar em alguns tipos de relação: com aquelas convenções particulares do romance que mostram o processo de sua construção; com a forma da paródia, que serve tanto como exemplo quanto como uma crítica do conhecido romance parodiado. Esta última foi a opção de Maria Valéria com a retomada paródica do clássico Alice no país das maravilhas, de Lewis Caroll.

Em virtude de sua abrangência autoconsciente, a prática metaficcional tem-se tornado particularmente importante na compreensão da ficção contemporânea. A metaficção exibe, exagera e mostra as bases de sua instabilidade: o fato de que os romances são criados por meio de uma assimilação contínua das formas históricas cotidianas da comunicação. Não há uma “linguagem de ficção” privilegiada. Há linguagens de memórias, jornais, diários, histórias, registros de conversações, arquivos, jornalismo e documentação, comics etc. Essas linguagens competem entre si, de tal forma que uma extensão da “linguagem de ficção” é sempre, se não muitas vezes secretamente, autoconsciente.

Ao declarar a opção por uma escrita metaficcional que persegue a complexidade por meio de um catálogo de possibilidades linguísticas diversas, Maria Valéria retoma o viés plurilinguístico do romanesco tanto como uma resposta quanto uma contribuição a um sentido radical mais extremo de que a realidade ou a história são provisórias: já não há mais um mundo de eternas verdades, mas uma série de construções, artifícios e estruturas inconstantes.

Os escritores metaficcionais voltam-se interiormente ao seu próprio meio de expressão para examinar a relação entre a forma ficcional e a realidade social. Nessa perspectiva, Waugh observa que eles têm focalizado na noção de que a linguagem cotidiana defende e sustenta tais estruturas de poder pelo contínuo processo de naturalização, por meio do qual as formas de opressão são construídas em representações aparentemente “inocentes”.

O desafio que a obra se propõe é disputar o leitor contemporâneo, assediado por uma indústria cultural que interpela e embrutece mentes e sentidos, e trazê-lo à leitura de textos desafiantes, que apontem outras formas de compreensão e interpretação do mundo e da arte. Quarenta dias apresenta uma abrangente pluridiscursividade dialogizada. No nível do dialogismo intrínseco, a autora cita diversos escritores em epígrafes, com as quais estabelece um diálogo de interação e intercomplementação discursivas.

Qualquer começo é só prosseguimento e o livro dos eventos está sempre aberto ao meio . Wislawa Szymborska. (REZENDE, 2014, p.  25)

Não pergunte por que lhe escrevo. Escrevo porque as palavras estão aí, como a cidade, a noite, a chuva, o rio, diante de mim, dentro de mim, uma torrente de palavras que não me cumprem. (Marília Arnaud). (REZENDE, 2014, p. 7)

Passo agora o dia todo a escrever o diário. (...) Dá-me a sensação da onipotência, da onisciência, de ser dono dos meus dias, das minhas horas e minutos, da minha verdade enfim... (Edson Amâncio). (REZENDE, 2014, p. 21).

Ao lado desse coro autoral, Maria Valéria comparece com igual isonomia entre as demais consciências, apresentando seu projeto maior que se intitula Quarenta dias, em diálogo estreitíssimo com o conjunto de citações que precedem cada capítulo, sem abdicar do seu papel de regente do coro de vozes. Fica evidente, portanto, que a liberdade dos demais autores ficcionalizados é sempre relativa, que não se situa fora de um programa, de uma poética da autora.

Maria Valéria Rezende
Outro procedimento intertextual usado por Maria Valéria são as tipologias textuais, verbais e não verbais que a personagem vai recolhendo em suas andanças pela cidade: folhetos publicitários dos mais variados serviços e empreendimentos, guardanapos com anotações, comandas de restaurante, listas, santinhos, recibos etc. A diversidade textual serve de registro para interpretação do grande texto semiótico que é a cidade, estão ali colados no diário da Barbie. Essa colagem textual revela um desenho disforme do abandono e da opulência de um Brasil dos assombros.

O sentido dialógico presente na obra ultrapassa o contexto intrínseco das personagens e avança rumo ao diálogo cronotópico, reatando laços e rompendo outros no grande coro de galos cantantes que tecem a aurora, o pôr do sol e a noite do tempo grande do romance.

  O crítico argentino Ricardo Piglia[2] afirma em seu ensaio sobre memória e tradição que o ato criador é o entrecruzamento de textos. Ao discutir a tradição, ele exclui as relações de posse pessoal do escritor em face da linguagem, ao entender a memória cultural de cada um como um tecido cuja trama se compõe de citações, lembranças e esquecimentos.

Nos dias de hoje, tornam-se cada vez mais complexas as definições dos conceitos de inspiração, de originalidade e de intertextualidade já que nossa cultura tem-se caracterizado por traços impessoais e anônimos e pelo desaparecimento gradativo da noção de sujeito. Tudo isso se reflete na diluição da figura do autor e contribui para o alargamento do espaço textual e discursivo, pois tanto a obra quanto o escritor participam do sistema coletivo de enunciação de saberes. Dessa forma, é possível um diálogo permanente entre os textos, que passa a receber o sopro revitalizante de receptores futuros e da inevitável transformação dessa mesma tradição.   

O sopro revitalizante escolhido por Maria Valéria Rezende é o já citado Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll, ele próprio composto de infinitas referências literárias, como destaca Sebastião Uchoa Leite, tradutor brasileiro do romance de Carroll. 

(...) é a comprovação das alusões históricas dos textos de Alice e, sobretudo das alusões literárias. Este é o caso das canções inseridas nos textos. (...) dos 24 poemas dos textos de Alice, são paródias de poemas e canções inglesas bem conhecidas na época  (LEITE, p. 150).

O que importa assinalar aqui é o quanto a fantasia carrolliana está presa a um universo de referências, inclusive as literárias, sendo, nesse último aspecto, tão metaliterária quanto inúmeras passagens dessa épica paródica que foi o Ulisses, de James Joyce.  Também os personagens de Carrollianos são, em grande parte, referenciados seja em poemas infantis e contos da tradição popular, seja a expressões e costumes locais. (LEITE, p. 150-151).

Assim como no Alice de Carroll, o leitor vai encontrar citações explícitas que comparecem no dialogismo extrínseco de Quarenta dias:

Tão de repente que Alice nem teve tempo de tentar parar antes de despencar no que seria um poço muito fundo. (REZENDE, 2014, p. 73)

(...) mil vezes o telefone, ecoando no apartamento vazio, vazio, porque eu não estava lá, tinha entrado pelos livros adentro, caído num poço profundo, passado para outro mundo louco, um ‘wonderland’ qualquer de onde esta Alice não pretendia voltar tão cedo.” (REZENDE, 2014,.p.. 85)    

A Alice de Maria Valéria Rezende nos apresenta, como um narrador refletor, uma Porto Alegre que não aparece normalmente na mídia. Já imersa no poço, começa a  escavação em busca do paradeiro do jovem paraibano Cícero Araújo, mas nos mostra muito mais: denuncia  a vulnerabilidade social do trabalhador informal, dos proletários  que vivem em comunidades periféricas, formadas em grande parte por moradores nordestinos que ali se estabeleceram em busca de trabalho e nunca mais puderam retornar à terra natal. Essa busca transforma-se na busca de sentido para sua própria vida, depois que se vê abandonada pela filha.  Assim como a personagem de Carroll, Alice vive sua experiência vertiginosa no poço labiríntico de uma Porto Alegre desconhecida:   

Saí, em busca de Cícero Araújo ou sei lá de quê, mas sem despir-me dessa nova Alice, arisca e áspera, que tinha brotado e se esgalhado nesses últimos meses e tratava de escamotear-se, perder-se num mundo sem porteira, fugir ao controle de quem quer que fosse. (REZENDE, 2014, p. 95) 

O salto fundamental de Maria Valéria baseia-se na utopia do reconhecimento de que a leitura do mundo, mesmo esfacelado pelas desigualdades sociais, apresenta a possibilidade de converter a angústia da escritura, vivenciada pela personagem narradora, no prazer do texto como um ato estético e ético. Oxalá possa abrir os horizontes da cultura complexa e multifacetada do mundo, e que sob nossa responsabilidade deveremos ser capazes de construir no movimento incessante de nossa peregrinação angustiada e alegre em busca do sentido da vida.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

______. Problemas da poética de Dostoiévski. Trad. Paulo Bezerra. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005.

______. Questões de literatura e de estética – a teoria do romance. Trad. Aurora Fornoni Bernadini et alii. São Paulo: Editora UNESP, 1993.

CARROLL, Lewis. Aventuras de Alice no país das maravilhas. Trad. e ensaio Sebastião Uchoa Leite. São Paulo: Editora 34, 2015.

CORGOSINHO, Isabel Cristina. Se um viajante no tempo grande do romance: entre a angústia da escritura e o prazer da leitura, em Italo Calvino no período 2010-14. Tese (Doutorado em Teoria da Literatura) – Pós-Lit. Universidade de Brasília - UnB. Brasília, pp. 278. 2014.

WAUGH, Patricia.Metafiction: the theory and practice of self-conscious fiction.London & New York:Methuen(New accentes), 1984. Vii , 176 .

REZENDE, Maria Valéria. Quarenta dias. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.

 


[1] WAUGH , Patricia.Metafiction: the theory and practice of self-conscious fiction.London & New York: Methuen (New accentes), 1984. Vii , 176 p.

 

[2] PIGLIA, Ricardo. Memoria e tradición. In: CONGRESSO ABRALIC, 2,1991, Belo Horizonte. Anais... Belo Horizonte: UFMG, 1991. p. 60-66.

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Isa Corgosinho é natural de Brasília/DF, Professora doutora universitária, aposentada, poeta, cronista, contista, ensaísta. Livro “Memórias da pele” (Venas Abiertas, 2021). Coletânea Nós: Poesia selecionada e autora premiada/1° lugar Crônicas. (Selo Off-Flip, 2023); Coletânea Nordeste: poesia selecionada, conto destaque (Selo Off-Flip, 2023); Prêmio Off-Flip 2024 Conto Destaque; Prêmio Off-Flip 2024 Poesia Destaque.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

UMA CARTOGRAFIA DA ESCRITA DE MULHERES: ENTREVISTA COM LINDA BARROS, POR GABRIELA LAGES VELOSO

                               


UMA CARTOGRAFIA DA ESCRITA DE MULHERES |08

ENTREVISTA COM LINDA BARROS

Por Gabriela Lages Veloso

"Ninguém nasce mulher: torna-se mulher" essa frase de Simone de Beauvoir nos lembra de que nossas identidades, e em consequência disso, nossas vozes, estão em constante aperfeiçoamento. Nesse contexto, a literatura dá voz e poder às mulheres, bem como é uma importante arma de combate contra as desigualdades de gênero. Na intenção de mapear as margens e abrir espaço para as novas vozes sociais, nossa coluna intitulada Uma Cartografia da Escrita de Mulheres tem como principal objetivo promover a valorização de escritoras contemporâneas, através de entrevistas. Hoje, temos a honra de receber Linda Barros, uma artista de destaque na cena maranhense atual.

ENTREVISTA COM LINDA BARROS:

Arquivo pessoal da autora

Linda Barros é natural de Pastos Bons/MA. Graduada em Letras (Português-Espanhol), pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), e pós-graduada em Língua Portuguesa, pela Faculdade Atenas Maranhense (FAMA); em Dança Educacional, pelo Censupeg (SC) e em Artes Cênicas, pela mesma IES. É escritora, cronista, contista, poeta e atriz. Participa do Grupo Teatro Improviso, no qual já atuou em vários espetáculos, tais como Verão no Aquário – baseado na obra de Lygia Fagundes Telles; O Mulato, de Aluísio Azevedo; Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, onde interpretou a intrépida Rainha de Copas, Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, dentre outros. É professora da Rede Estadual de Ensino do Maranhão e do Ensino Superior na Faculdade do Maranhão – FACAM, nos cursos de Letras, Pedagogia e Turismo. É autora dos livros Palavras ao Vento (2018) e Meu Ser Espelhado em Mim (2022) e coautora de Maranhão na Ponta da Língua (2011), que reúne palavras e expressões maranhenses, em uma parceria com o escritor José Neres. Participou da Coletânea Enluaradas (2020), que conta com a participação de escritoras de várias nacionalidades, e, da coletânea Por que Escrevemos - A voz da Mulher (2021), organizada pela Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). É colunista do Portal Facetubes, que faz parte da Academia Poética Brasileira, bem como colabora com o Site Região Tocantina. É membro da AJEB-MA (Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil); da Sociedade de Cultura Latina, e da Academia Poética Brasileira (cadeira de número 99). Atualmente é, também, Secretária Executiva Nacional, da referida Academia.

Você estuda, escreve e trabalha com Literatura. Como foi o seu encontro com o mundo das Letras?

No Ensino Médio eu devorei praticamente todos os livros de literatura que havia na biblioteca da escola, a partir daí, foi um passo para fazer Letras, o curso que sempre quis. Chegando à faculdade, foi automático o interesse pela literatura.

Além de escritora, você também é atriz. A sua formação, na área de Artes Cênicas, tem alguma influência na sua escrita literária?

Sim, muito. Durante o tempo em que estava estudando Artes Cênicas, escrevi bastante, inclusive textos voltados para área do teatro. Vou confessar que me sinto privilegiada por fazer parte de “vários mundos”, fato esse que, contribuiu e contribui para meu enriquecimento intelectual.

O que é escrever para você?

Escrever além de ser um processo contínuo, devido ao contato direto com obras, autores, textos, passou a ser algo corriqueiro. Escrever é a forma mais simples de expressão de ideias, de sentimentos, é pôr no papel aquilo que às vezes não conseguimos expressar com a oralidade.

Quais escritoras(es) te inspiram?

Para quem vive no mundo das Letras e em contato direto com o mundo literário, é difícil escolher um autor ou autora específico. Seria até injusto, mas enfim. Dentre dezenas de fontes de inspiração, temos, claro, aqueles nomes de cabeceira, como Cecília Meireles, Laura Amélia Damous, José Neres, Mhario Lincoln, Celso Borges, Silvana Meneses, Luiza Cantanhêde, Fernando Sabino, Laura Neres, Dilercy Adler e tantos outros mais.

Conte-nos sobre o seu primeiro livro, Palavras ao Vento (2018). Como foi o processo de escrita? Quais temáticas você aborda?

Eu já viajei muito para trabalhar, dando aulas por cidades do interior e eu sempre ia de carona, ou seja, assim conseguia ver melhor as paisagens, a estrada como um todo. E nessas viagens levava sempre um caderninho ou uma agenda e aproveitava para escrever, por isso o título, Palavras ao Vento, é como se as palavras saltassem literalmente para o meu caderno. A temática gira em torno das coisas ou acontecimentos do percurso dessas viagens, como paisagens, natureza, pessoas que eu via pelo caminho.

E quanto ao seu livro mais recente, Meu Ser Espelhado em Mim (2022)? Qual é o principal tema dessa obra?

Aqui preciso fazer um balanço desse itinerário literário. Por quê? Porque muita coisa aconteceu no período da pandemia. Eu entrei para Academia Poética Brasileira, onde comecei a publicar textos na plataforma do Facetubes, foi o período em que também fui convidada para colaborar no Site Notícias da Região Tocantina, no meio do caos também participei de duas Antologias, a primeira, A Coletânea Enluaradas (organizada por Marta Cortezão que mora na Espanha) e a Coletânea Por que Escrevo – a voz da Mulher (organizada pela AJEB/MA). E foi também no período mais crítico da Pandemia que nasceu Meu Ser Espelhado em Mim, meu segundo livro de poemas. É uma obra, digamos, mais madura, mais consciente com a escolha dos poemas. A temática principal é sobre mim mesma, meu eu interior e mundo exterior do qual faço parte. Alguns poemas também são a título de homenagens. 

Fale sobre os seus demais projetos na área de literatura e cultura, como, por exemplo, o Grupo Teatro Improviso.

O Improviso, além de ser um grupo de teatro convencional, trabalha também com o teatro empresarial. O que isso significa? Significa que as empresas às vezes têm um projeto e precisam que isso seja mostrado para o público em geral, então chamam o grupo, mostram a proposta e a equipe de diretores monta o espetáculo. Temos formações todos os fins de semana, com leitura de textos, trabalho de corpo e voz e ensaiamos hipoteticamente algum texto, mesmo que não tenha apresentação. Em resumo, estamos sempre em  contato com o teatro. Com espetáculo, por enquanto estou só em processo de formação, no entanto o grupo segue com ensaios com outro elenco para apresentação em breve. Dentro da literatura, ainda este ano, estarei participando de antologias. Fora isso, continuo escrevendo e publicando para a plataforma Facetubes da Academia Poética Brasileira e para o site Notícias da Região Tocantina.

Na sua opinião, qual é a importância de adaptar obras literárias para o teatro?

Importante e às vezes necessário, mas muito, muito difícil. Na verdade, é desafiador, porque é outra linguagem, outra estrutura, é totalmente diferente. O texto teatral é extremamente rico, porque não é só o texto em si, a linguagem teatral envolve uma série de coisas tais como: figurino, maquiagem, elementos de cena, personagens, etc.

Mais do que escrever, é necessário fazer ecoar nossas vozes. Assim, se destacam projetos como a Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Qual é a importância da AJEB-MA, para você?

A AJEB com a diretoria aqui do Maranhão e representada pela nossa presidente Anna Liz Ribeiro, tem uma importância enorme, grandiosa na minha vida. Lá, somos todas mulheres escritoras e algumas jornalistas/escritoras. Pela AJEB, já pude ter a oportunidade de participar da antologia Por que escrevo: a voz da mulher, uma coletânea lindíssima, com textos incríveis. Nessa Associação também, já tive oportunidade de fazer performance poética, juntamente com outras autoras. Enfim, é um grupo que me levou para fora do país, pois lançamos a antologia em Portugal, onde entramos ao vivo pelo canal no YouTube, foi incrível.

Como convidada da nossa coluna Uma Cartografia da Escrita de Mulheres, qual mensagem você deixa para a nova geração de escritoras?

Eu ouço muitos relatos de jovens (homens e mulheres) que escrevem, mas não têm coragem de mostrar seus textos, então, o conselho que dou é que publiquem. Hoje em dia, existem centenas de espaços (virtuais, principalmente) para publicações, coisa que não acontecia há um tempo atrás, ou seja, hoje existem muitas oportunidades para divulgar o seu trabalho.


Contato da escritora:

Instagram: @lindabarros_

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Gabriela Lages Veloso é escritora, poeta e mestranda em Letras pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Atualmente, é colunista do Imirante.com e do Feminário Conexões. Além disso, colabora com coletâneas e revistas nacionais e internacionais. Em 2023, publicou o seu primeiro livro de poesia: O mar de vidro, pela Caravana Grupo Editorial, bem como organizou a Antologia Poéticas Contemporâneas: uma cartografia da escrita de mulheres, juntamente com a Editora Brecci Books.

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