domingo, 8 de março de 2026
O DIA INTERNACIONAL DA MULHER
segunda-feira, 22 de dezembro de 2025
62 ANOS ! (SOBRE)VIVER É UM ATO POLÍTICO
"Escrevo porque a palavra sempre foi minha ferramenta de sobrevivência."
Hoje completo 62 anos. Entrego minha idade com velas mágicas e com o corpo inteiro aceso. Celebrar a minha vida como mulher, neste país onde mulheres são interrompidas diariamente, é um gesto que carrega peso histórico, ético e político.
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| Arquivo da autora |
Enquanto escrevo esse texto, penso nas Tainaras, Isabelas e milhares de outras que não chegaram até aqui. Penso nas mulheres cujos aniversários foram silenciados pelo feminicídio, essa chaga social que o sistema não consegue encontrar a cura, e que lobos disfarçados de cordeiros romantizam dizendo ser adquirida do amor e do ciúme, mas que na verdade ela existe simplesmente pelo fato de sermos mulheres, pelo ódio, pelo controle exercido pelo patriarcado e pela certeza de que nossos corpos são territórios de posse. Na verdade, a culpa é do machismo estrutural que disfarça de homicídio os crimes misóginos.
Simone de Beauvoir já nos alertava que não se nasce mulher, torna-se, isto é, aprende -se a ser mulher dentro de um sistema patriarcal que impõe normas, papéis e silenciamentos. Muitas mulheres são brutalmente interrompidas não por não alcancarem esse "tornar-se ", mas por desafiarem ou não se ajustarem às expectativas que lhes são impostas.
Para uma mulher que chega aos 62 anos, num país que ocupa a quinta maior taxa de feminicídio do mundo, é atravessar um campo minado com passos insistentes. É ter sido menina afetiva e tímida, adolescente intensa e romântica, sem imaginar que ser mulher é ser subjugada, objetificada e coagida. É ter acreditado no amor, lutado em meio a um casamento abusivo e ainda ter se reinventado como mãe solo, leoa, colo, sustento e abrigo.
Minha história pessoal não está dissociada da história coletiva das mulheres. Como escreveu Bell hooks, o amor, para nós, nunca foi neutro, ele sempre precisou ser reaprendido fora da lógica da dominação.
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| Arquivo da autora |
E hoje eu celebro meu aniversário escrevendo com prazer, como mulher e como escritora, porque escrevo com o corpo que amou, viveu, perdeu e resistiu. Escrevo porque a palavra sempre foi minha ferramenta de sobrevivência. Audre Lorde dizia que transformar o silêncio em linguagem e ação é um ato de coragem. E eu escrevo para fazer barulho, porque sei que o silêncio mata e não apenas metaforicamente.
O feminicídio não é um desvio de conduta individual. É o ponto extremo de uma cultura que naturaliza a violência contra mulheres, que relativiza agressões, que pergunta “o que ela fez?” em vez de perguntar “por que ele matou?”. Djamila Ribeiro nos lembra que não existe neutralidade quando a estrutura é desigual. Celebrar minha vida hoje, aos 62, é também denunciar essa estrutura.
Minha existência é prova, minha maturidade é prova e minha escrita é o carimbo.
Cada ruga que carrego não é sinal de desgaste, mas de permanência, de permanecer viva, lúcida e criativa, escrevendo sobre o feminino num mundo que insiste em nos apagar.
Isso para mim é uma forma de insurgência.
Hoje não celebro apenas mais um ano de vida, celebro o direito de continuar, celebro as mulheres que vieram antes de mim e abriram caminhos, celebro as que caminham comigo. E como ser humano sinto os rasgos na minha pele com indignação e compromisso por todas as que não (se)ssentaram e sim ficaram com os corpos estendidos ao chão.
Que minha voz aos 62, ecoe como denúncia e manifesto. Porque enquanto uma mulher for morta por ser mulher, nenhuma de nós estará inteira. E ainda assim estamos aqui:
Escrevendo, vivendo e resistindo.
FEMINICÍDIO
Matam em casa todo dia uma mulher!
A voz sufocada
Pincelada de sangue
Reside nas paredes
Ecoa na sala o noticiário
Agredindo os tímpanos
Na surdez da lei
Tudo é corriqueiro
Mas a dor velada das Marias
Rasga a minha pele
E do meu verso perplexo
Arranco o silêncio
Enterrado no sexo
E eu grito na poesia :
Basta! O machismo já fede!
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| Arquivo da autora |
quinta-feira, 24 de abril de 2025
"PÉROLAS DO MEU SILÊNCIO": NOVO LIVRO DE RILNETE MELO
LETRAS ICAMIABAS|04
"PÉROLAS DO MEU SILÊNCIO": NOVO LIVRO DE RILNETE MELO
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| Capa do livro |
Em
Pérolas do meu silêncio, a escritora Rilnete Melo nos convida ao mergulho; nos
propõe o desafio de, após a contemplação da superfície, nos lançarmos ao fundo,
em busca das pérolas submersas.
Para
compor as cento e cinquenta pequenas narrativas que nos oferece nesta obra, a
autora selecionou cada uma de suas palavras — poucas, portanto valiosas — com
precisão, cautela e sagacidade.
No
equilíbrio entre o dito e o não-dito, o que flutua e o que se deixa submergir,
a autora aborda o universo feminino em temas como luto, dor, abusos, abandonos,
mas também abre espaço para aqueles que evidenciam o amor, a graça, a
delicadeza.
Convite
feito, cabe ao leitor apanhar o que vai na superfície, depois mergulhar,
deixar-se alagar e voltar à tona com uma reflexão, uma inquietação, um sorriso;
com uma única pérola certeira ou com as mãos cheias.
Fernanda Caleffi Barbetta,
jornalista e escritora
¨¨¨¨¨¨¨¨*¨¨¨¨¨¨¨¨*¨¨¨¨¨¨¨*¨¨¨¨¨¨¨*¨¨¨¨¨¨¨¨¨*¨¨¨¨¨¨¨¨*¨¨¨¨¨¨¨¨
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| Contracapa do livro |
"entre noites silenciosas
e conchinhas, encontrei
as micropérolas para
me livrar do
ostracismo."
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O livro está à venda em Amazon (clique AQUI). Lançado pela Editora Clube de Autores (1 janeiro 2024), de capa comum, 55 páginas, ISBN-10: 6526629652; ISBN-13: 978-6526629659, cujas dimensões 0.44 x 14.8 x 21 cm. Além de Pérolas do meu silêncio, você encontrará outros títulos da autora, como: O máximo de mim e outros mínimos poemas, Estro poético, Construindo versos, entre outros.
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| Arquivo da autora |
quarta-feira, 22 de novembro de 2023
NA TRILHA DO FEMININO: LARGADA DOMÉSTICA, DE RILNETE MELO
Era uma segunda-feira, dessas do tal calorão de 39° que quase fritava meus miolos e fritava também ovo no asfalto, dessas em que o dia branco, na verdade foi cinza; Do bombril impregnado nas unhas, pó de casa varrida no pé e massa cinzenta pensando debaixo do chuveiro: Tenho que fazer isso, depois isso, amanhã aquilo... E eternamente isso!
Exausta, depois de me virar nos 30, marido já dormindo, ponho um cafezinho na xícara, destravo o celular para escrever alguma coisa, embora com o corpo pedindo arrego, a mente ainda escrevive! Passeio pelo Instagram e vejo, enfeitando o feed viralizado, o tema da redação do Enem 2023: “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”.
Mas o comentário que me desafiou a escrever essa crônica foi lançado para mim em um post recente, quando ainda nem tinha ideia do tema da redação e já abordava exatamente sobre a invisibilidade do papel da mulher desde os tempos mais remotos até os dias atuais, que é cuidar, amar, cuidar... E no profícuo ofício de cuidar, mendigar amor! E o famigerado machista, agora já deletado do meu perfil e denunciado, de pronto comentou: “Se você conseguir descarregar caminhão, trocar pneu de jamanta e emboçar parede, pra senhorita eu dou “A taça cacete", (me diz aí quem não soltaria as cachorras??).
Saiba muito bem, pai da Santa ignorância e do olho cego, que se tivesse olimpíadas para o trabalho doméstico, não haveria taças para tantas vencedoras! Dada a largada, a categoria “Excesso de cuidados" subiria ao pódio ao som de uma “Ave Maria", pois, no silêncio rotineiro da mulher, o cuidado doméstico soa como uma música piedosa que é (in)visível, embalando as protagonistas nos bastidores do cotidiano.
Na sociedade capitalista, a relação de poder do homem em detrimento da mulher, ouço dizer que se “dá(va) “?? pelo fato do homem ser responsável pela renda familiar, mas o mercado de trabalho foi aberto para as mulheres e a conta ainda não fechou, pois agora é dobradinha:
“Trabalho e cuidados".
A verdade é que, em pleno século XXI, a mulher ainda é o “anjo do lar”, e que anjo!! Carrega nas asas o peso do trabalho dobrado, dentro e fora de casa, no sonho de alçar voo rumo à igualdade de gênero e à equidade.
“Desde que me lembro de ser gente, lá em casa, quem dobrava os lençóis da cama era eu, minhas irmãs ou mamãe", porque isso era serviço de mulher! Isso tem mais de meio século e os lençóis ainda não chegaram nas mãos dos homens, pois eles não sabem dobrar as pontas iguais, afinal, de igualdade o universo masculino nada quer saber, né? E se sabe, ainda pergunta onde fica.
Lembro que minha avó costurava, fazia crochê, consertava guarda-chuvas, fazia a comida, varria a casa, passava a roupa no ferro de brasa, e fazia e fazia, e ainda ajudava meu avô a plantar e colher, botava a comida dele na mesa e, no final do dia, ele pedia o lençol para dormir, pois não sabia onde estava... Será que lembrava de agradecer?. Fala sério, mudou alguma coisa? Um tantinho? Nada? Coisa nenhuma?
Conquistamos sim, quebramos alguns tabus e estereótipos, como o direito ao voto e ao trabalho desigualmente remunerado, mas há um trabalho (cuidado) eterno que continua invisível, o status quo “gestão do lar”, sempre na manutenção das condições observadas.... Casa varrida, roupa lavada, fralda trocada, mamadeira pronta, comida no prato, cama arrumada... Na verdade é uma verdadeira “Largada doméstica” apenas com ponto de partida.
E aqui eu deixo um poema de minha autoria para que possamos refletir sobre nossa saúde mental, sobre o excesso de cuidados para com o outro e das situações estressantes às quais nós mulheres estamos mais propensas e sem reconhecimentos.
LARGADA DOMÉSTICA
Lambeu o chão,
esticou a língua
ao sal
e correu para a panela,
como sempre correu contra o
tempo.
Cozinhou os sonhos,
o prazer,
a vida.
- Do menu servido
no prato cotidiano -
a carne parida,
o amor ofertado,
e o reconhecimento
ao molho.
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quarta-feira, 15 de março de 2023
NA TRILHA DO FEMININO: MINHA IDADE NÃO ME DEFINE, POR RILNETE MELO
Dá uma coceira no meu cérebro quando vejo circulando na mídia assuntos que ferem a figura feminina. "ETARISMO", "IDADISMO", "AGEÍSMO", nada além de denominações para um preconceito patriarcal antigo. Sim! Um preconceito que coloca no "congelador social" exclusivamente as mulheres, pois eu senti na pele esse bullying nefasto ao entrar na faculdade depois dos 40 anos, enquanto havia, na mesma sala, homens de 50, com os ouvidos virgens eu ouvia: "Nossa! Você dessa idade fazendo faculdade!" ou "Você já tem mais de 40, mas nem parece!"... Esses comentários, embora disfarçados de "boas intenções", vinham carregados de preconceitos, pois eu era excluída dos grupos das "novinhas" nas apresentações acadêmicas, entre outros eventos, ficando nos grupos dos que se aproximavam da minha idade.
Quem nunca ouviu: "menina, você já está na idade de casar!", (Eu casei aos 27 anos) ou "você foi mãe muito tarde!" (Fui mãe aos 28 e aos 31)... Tempo limite imposto por uma sociedade machista! Está arraigado
na memória da sociedade, mas é tempo de dar um basta nessa intolerância que
supervaloriza a juventude de uma mulher. Homem coroa é um charme, se casar com novinha é elogiado por sua
virilidade, mas se mulher coroa casa com novinho é uma ridícula, assanhada e por
aí vai... É hora de combater esses
estereótipos e mostrar ao mundo que envelhecer faz parte do ciclo natural da
vida e não amputa a nossa capacidade de criar,
de ser, de viver, de lutar por nossos objetivos e fazer o que a gente
quiser!
Há alguns dias postei uma "geladinha" na mesa de um bar e não me faltaram comentários: "Você ainda bebendo?", cuidado! Hein?"
Que é isso? Homem com 60 pode, né? Calma!! Eu não estou passada, o viço não morre, as vontades não cessam e quando meu corpo sinalizar o alerta, serei suficientemente madura para canalizar meus limites. Acredito que meu espírito só envelhece se eu permitir, e não vou aceitar o desrespeito, o desprezo, os estigmas e as humilhações que minhas rugas possam vir lhe causar. As minhas limitações serão autoimpostas por minha necessidade de controle.
Na obra "A velhice " , Simone de Beauvoir propõe que uma pessoa não deve se aproximar do fim da sua vida de mãos vazias e solitárias , mas que para isso é necessário refazer completamente a humanidade... É sobre ressignificar esse pensamento deturpado da sociedade, de que ficamos ultrapassadas com a idade, que devemos lutar para desafiar o sistema e fazer acontecer.
Liguem o alerta, queridas companheiras! Vamos mostrar a essa sociedade patriarcal que estamos lutando contra essa força maldita e não vamos nos calar!
Já CONQUISTAMOS muito, mas precisamos “desenhar” o percurso para que possamos
chegar ao topo.
Será difícil atingirmos uma sociedade igualitária, pois vivemos em uma distopia marcada pelo
preconceito, violência e opressão de gênero,
porém se unirmos forças e plasmarmos novos conceitos poderemos esvaziar
muitos estereótipos e discriminações.
Foram infelizes as "novinhas" que hostilizaram a
universitária Patrícia Linares, pois creio que elas não sabem que mulheres de 40 são "AS LOBAS", as
que sexualmente são bem resolvidas, têm
no rosto as marcas das emoções sentidas e vividas, e experiência suficiente para saber onde
querem chegar, sem menosprezar as fases já passadas e as que irão passar com
maturidade.
Pois é! Já passei dos 50, lancei meu primeiro livro solo em 2022 e acredito que foi cedo, pois sonhos não tem idade. Quanto ao meu corpo, as pedras que encontrei pelo caminho moldaram-o a cada tempo vivido, acumulei com perfeição as experiências e vesti minha pele de elegância espiritual, trago as marcas das emoções sentidas e domino a arte de seduzir através da poesia, meus cabelos têm a cor da minha alma, deixei e continuo deixando pegadas por onde passo, pisando forte no solo que plantei horizontes eu vou em busca dos meus objetivos, até enquanto sentir o sopro da vida, pois MINHA IDADE NÃO ME DEFINE.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023
PROCESSOS DE ESCRITA: CONSTRUINDO VERSOS, POR RILNETE MELO
PROCESSOS DE ESCRITA: CONSTRUINDO VERSOS
POR RILNETE MELO
O título talvez não seja impactante, mas surgiu
do ofício da criança que costurava sentidos com as cores do perceber.
Desde
a minha tenra idade eu carregava um olhar sensível e pujante sobre as coisas e
as pessoas, e foi pelas rimas dos cordéis, lidos por minha avó paterna, à luz de
lamparina, e pedalando a sua velha máquina de costura Singer, que
nasceu a minha paixão pela poesia e a construção dos meus primeiros versos.
Tive uma infância feliz, subi em árvores, tomei banho de igarapé, corri atrás do tesouro no arco-íris, brinquei com as bonecas do milho plantado pelas mãos do meu avô Tonho, tomei leite no curral, comi doce de pitanga e recitei versinhos para os meus pais, ainda não alfabetizada, subindo em uma cadeira e recebendo os seus aplausos.
Os
sentidos que eu costurava faltou tecido aos 9 anos de idade e os versos ficaram
incompletos, tortos, xoxos e engavetados na escuridão, pois as mãos que me
ofereceram hóstias, tocaram meu corpo infantil sem meu consentimento, deixando
marcas indeléveis.
Foram anos de silenciamento, dor e
interrupção criativa, mas no desvelamento do não-dito, aos 15 anos resolvi
escrever textos poéticos no meu diário.
Como se não bastasse o abrupto corte criativo, causado pelo luto invisível da alma, perdi o meu querido diário em uma viagem de ônibus do Maranhão para Natal-RN.
Pois bem, nunca tive o hábito de decorar meus escritos, então lá se foram meus segredos inconfessáveis e os versos que eu havia construído desde a infância.
Eu
não queria parar, pois fervilhava em minhas veias o sangue poético, aquecendo
minha pele feminina de inquietações. Por vezes, entre as trocas de fraldas, as
conversas com as panelas, ou mesmo nos intervalos do trabalho, vinham os insights poéticos
e eu registrava em um caderno (no meu campo de silêncio), onde a palavra tinha
sede de grito.
Em 1996, engravidei do segundo filho e deixei também palavras grávidas, nas crônicas que escrevi na coluna do Jornal “O Potiguar” em Natal-RN, foi aí que percebi algo latente me cobrando audácia e coragem para prosseguir, pois com dois filhos e um casamento fracassado, eu dei minha “cara a tapa” e tirei as correntes das mãos, para representar a voz feminina e fazer valer a minha resistência aos estereótipos, e ao machismo que tentava me calar.
Em meio a um relacionamento pedindo socorro, veio a separação, e com ela a sensação de liberdade invadindo meu cérebro e levando forças para atingir os meus objetivos. Retorno ao Maranhão, com dois filhos pré-adolescentes e na bagagem a coragem de uma mulher “sem eira nem beira” e a força de uma mãe plantando sementes e sonhando com grandes searas.
Para
incentivar a formação dos meus filhos, veio a minha graduação no curso de Letras,
embora tardia, mas chegou desatando os nós e criando um vínculo
marital com a palavra. Sim! Afiei a língua, cortei as amarras e crenças limitantes,
soltei o verbo e deixei os meus textos voarem no mundo
virtual, abrindo olhares e olheiros.
Na
vida, o que alavanca as realizações são as oportunidades e os recomeços, por
isso ativei o modus operandi, e numa onda de “desvencilhamento”, me
lancei no mercado editorial, através das antologias e concursos literários.
E veio a aproximação no distanciamento... Paradoxal, né? Pois é, mas foi na pandemia que a poesia me abraçou com força!
A pandemia foi um acontecimento planetário, inusitado e catastrófico, evidenciando a fragilidade da humanidade, mas exibindo a força da voz feminina, que como antídoto avançou no ambiente on-line. Os coletivos literários femininos explodiram, exigindo que nós mulheres poetas, não deixasse esse momento sem palavras, então Juntei-me ao coletivo “Enluaradas” entre outros, e lancei-me ao desafio de ressignificar a dor, o medo e a falta do calor humano através da poesia.
Em meio ao caos pandêmico, os impactos
me serviram como dispositivos criativos, e como se quisesse tornar
tangível o confinamento, deixei
gestar “Construindo Versos”, para oferecer ao meu
leitor as minhas inquietações humanas e femininas.
Um Spoiler do
livro:
Combatentes
Removendo pedras
do solo endurecido,
a ranger de dor,
atira no rabecão
pai, mãe, irmão...
Os olhos tecem,
o rude engasgo
do invisível severo,
que não deixa velar.
Marcha para a rua vazia;
os combatentes,
a esperar a sorte tecer o
troféu:
da fome,
do medo,
da dor,
ou do viver!
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sexta-feira, 23 de dezembro de 2022
NA TRILHA DO FEMININO: UM AMOR DE VÉSPERA, POR RILNETE MELO
Era véspera de Natal. Ela entrara na igreja com o pé
direito e o lado esquerdo do cérebro pedindo que orasse para esquecer aquela
paixão fulminante, que quase conseguiu abrir a armadura que ela usava desde o
término do seu casamento. Ainda não havia deletado as últimas mensagens do
WhatsApp e logo que sentou-se, abriu a pequena bolsa nude e retirou o celular
para mais uma vez certificar-se da sua decepção.
Ali estavam as últimas palavras de Raí e o soco no
estômago que Nely tomara naquela tarde em que tomava café, na cozinha do
hospital, com os amigos de trabalho.
— Sabe Nely, nunca existiu... Você é maravilhosa,
mas...
Naquele dia Nely saiu da mesa, deixando a fatia de
bolo de abacaxi no prato (seu bolo preferido) e os sonhos de um novo
relacionamento jogados no espaço. Correu para o quarto de repouso do hospital e
abraçada ao travesseiro chorou, enxugou as lagrimas e falou baixinho pra si
mesma que as lágrimas de hoje regariam o futuro de amanhã. Havia lido o livro
“O segredo” de Rhonda Byrne e acreditava no poder do universo, costumava usar
mantras e apostou no “Tenho tudo ao meu redor, se não foi com esse será com um
melhor”.
Já havia se passado dois meses, acreditava que aquele
momento na igreja iria lhe fazer bem, então deletou todas as mensagens e
ajoelhou-se em oração. A igreja estava cheia, lá fora o céu estava carregado de
nuvens cinzentas, mas fazia calor lá dentro e ela mudou para um banco próximo
ao ventilador. Havia um clima de Natal por ali, luzes coloridas cintilavam no
altar, adolescentes com gorros de papai Noel entoavam “Noite Feliz” regidas por
um maestro que acenava a batuta em gestos mágicos, dando o ar da graça aos
coristas. Crianças fantasiadas de duendes e outros personagens natalinos se
agrupavam esperando a hora da apresentação no palco.
A igreja apresentava na sua arquitetura elementos
decorativos de estilo neoclássico, tal como Nely que buscava superar o passado.
A sensação era a de que algum espírito natalino, ou mesmo papai Noel poderia
aportar por ali, pois tudo era mágico como nos cenários de filmes infantis.
Talvez tudo aquilo conseguiria apagar o acontecimento
dos últimos dias, então resolveu entregar-se aquela magia e deixar a frustração
para trás. Acomodou-se no banco e sorriu com entusiasmo para uma garotinha de
cabelos cacheados e pele morena, que vestia um vestido vermelho de saia
plissada, o que lhe fez lembrar de um episódio triste da infância, onde trajava
uma roupa semelhante àquela, logo expulsou aqueles pensamentos, que lhe causara
trauma e deu uma olhada no folheto da liturgia.
Nely observava o movimento dos fiéis na igreja e os
casais que entravam de mãos dadas e por um instante pensou em Raí. Distraiu -se
com um senhor vestido de papai Noel distribuindo presentes para as crianças que
faziam a maior festa, logo despertou com a presença de um homem ao lado que lhe
observava há bastante tempo. Ele cumprimentou-a, era simpático e educado e
aparentava ter alguns tempos de vida a mais que ela, parecia ser solitário,
pois durante o sermão do padre comentou que não gostava do Natal, uma vez que
sempre comemorava sozinho. Nely ficou comovida, mas manteve-se calada.
O padre celebrou a missa, houve uma pequena peça
teatral e a bênção final. Nely dirigia-se para a porta de saída quando o homem
tocou em seu ombro e pediu o número do seu telefone. Ela hesitou, mas tomada
por empatia e comoção cedeu. Já estava a caminho de casa quando espantou-se com
a buzina de um carro, e aquele cavalheiro da igreja com toda gentileza lhe
oferecendo carona. Estranhamente, mesmo sem conhecê-lo aceitou. Não se
incomodou com os prováveis mexericos ou mesmo o receio do estranho. Abandonou-se
ao carisma que emanava daquele sorriso fácil e foi. Ao entrar no carro, ele se
apresentou, chamava-se Peter, era divorciado, economista aposentado e, como
ela, era devotado de fé. Estava uma noite linda e a lua cheia, enamorando o
firmamento, dava o ar da graça. No vidro do carro refletiam os pisca-piscas das
lojas e residências, e o azul dos olhos de Peter refletia no retrovisor,
roubando por vezes o olhar distante de Nely. Durante o percurso trocaram
algumas palavras, e ela gostou do jeito culto, respeitoso e cheio de sabedoria
com que ele dirigia o diálogo.
Saíram para um passeio na praia.
Nely era divorciada, casou-se jovem, criou os filhos
sozinha, carregava consigo um certo ar de independência e resistência ao
machismo e aos estereótipos impostos pela sociedade, porém percebia que a
solidão não era sua boa companheira.
Gostou da companhia de Peter.
A orla marítima era bem distante do mar, mas dava para
ouvir o barulho das ondas. A calçada colorida era harmônica com o azul do mar,
havia uns quiosques rústicos e convidativos para um drink a dois. Caminharam
por muito tempo e optaram por um boteco com cobertura de sapê, acabamentos
coloniais e música ao vivo. Era pequeno e aconchegante, escolheram uma mesa de
frente para o mar, havia pouca luz, apenas arandelas artesanais nas colunas e
samambaias penduradas. A brisa tocava em Nely, como se acariciasse sua alma e
sussurrasse em seu ouvido que para sentir é necessário fazer sentido.
A mão masculina tocou a sua e ela sentiu que o calor
humano era bem melhor que o frio da solidão, embora gostasse da sua liberdade.
Peter entregou o coquetel Sex on the beach em suas mãos e com a outra
mão acariciou a nuca de Nely que sentiu um calor percorrer todo o seu corpo,
dando-lhe a certeza que já estava enamorada. Ao som de How deep is your love
de Bee Gees, os dois saíram para a pista de dança e os corpos colados
encontraram os lábios, que sem entenderem que o céu é o limite, abandonaram as
línguas no céu da boca.
Saíram os dois em direção ao mar. O sol já soltava seus
primeiros raios. Vento e areia misturavam-se nos corpos abandonados, liberando
endorfina. Ele apertou sua mão implorando que ficasse para sempre, ela
respondeu baixinho: Nunca mais estarás sozinho, Feliz Natal!
quarta-feira, 12 de outubro de 2022
NA TRILHA DO FEMININO: O ARCO-ÍRIS
“Em todo adulto espreita uma criança – uma criança eterna, algo que está sempre vindo a ser, que nunca está completo e que solicita cuidado, atenção e educação incessantes. Essa é a parte da personalidade humana que quer desenvolver-se e tornar-se completa” (Carl Gustavo Jung).
A fala do psiquiatra Jung,
remete-nos a criança que mora em cada um de nós e tudo que evidencia-se ao longo da nossa
existência em decorrência da infância. É dos eventos que vivenciamos nessa fase da vida, que carregamos grande parte da nossa
personalidade.
Quem não suspira ao lembrar do seu tempo de criança? Seja
das alegrias, dos momentos de fantasias,
ou das tristezas e represálias...
Como disse “Casimiro de Abreu" Oh! Que saudades que eu tenho da aurora da
minha vida, da minha Infância querida que
os anos não trazem mais...
Ah! O pé no chão,
as escaladas de árvores, os cordéis
lidos por minha avó , o cheirinho dos pratos deliciosos da minha mãe, os
doces de pitanga, o algodão doce no
parque, as cantigas de rodas ao ar livre, as comidinhas de terra e folhinha no quintal de casa, as minhas
bonecas/filhas, os joelhos ralados, os
banhos de chuvas e nos igarapés, as pipas,
o peão rodopiando, o carrinho... A liberdade de ser menina/criança, de ter pureza, de ter um mundo de paz... A lembrança que carrego comigo é que era tudo mágico!
A magia existia, mas foi lá na infância que começou a se delinear os estereótipos, a
separar cores, brinquedos, espaços... Eis então a contaminação da ideologia patriarcal.
E não é só por ai... A tecnologia chegou e a mídia e a publicidade infantil estão encurtando a infância feminina, através da erotização precoce e da adultização. Todavia, eu ainda cultivo minhas lembranças de uma infância de ingenuidade, feliz e romantizada, bem, como por vezes, me vejo tendo comportamentos infantis. Como disse Clarice Lispector: “Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais”.
E pegando carona nesse dia das crianças trago para vocês um
texto da minha autoria:
O ARCO-ÍRIS
Quando eu era criança eu tinha as minhas crendices e
fantasias; acreditava que havia um tesouro na extremidade do Arco-íris. Morava
em um lugarejo, desses que não tem água encanada e nem luz elétrica, mas a paz reinava por lá, onde
eu era feliz à luz do luar e tomando banho com água de poço. Era lá que eu
sonhava em um dia encontrar o meu tesouro!
- Certo dia,
debruçada na minha janela, eis que surge no céu um Arco-íris.
- É hoje! É hoje!
Vou alcançar o meu tesouro!
-Ah! O arco-íris,
ele tem forma de escorregador (Eu pensei...). E se tivesse uma escada bem longa e
eu subisse e escorregasse até a extremidade?... Mas, onde encontrar essa escada?
Desalentada, desisti
da ideia e de repente meus olhinhos brilharam de alegria... Eu vi que a
extremidade estava exatamente ali onde eu costumava brincar de cirandas com as
amiguinhas, onde eu brincava de bonecas e jogava pedrinhas. Naquela calçada
alta, onde eu ficava ouvindo a velha Iaiá contar suas estórias a luz do luar.
Lá na calçada do Sr. Ribamar! Era alta! eu ia alcançar!
Corri cheia de
esperanças pra pegar o meu tesouro, mas quanto mais eu palmilhava e
esticava meus passinhos mais o arco-íris
se distanciava e as cores iam perdendo o seu fulgor... o arco-íris ia
desaparecendo e com ele o meu sonho, o meu tesouro!
Meus olhos fotografavam aquele local, onde vi a extremidade do arco-íris. Aquele cenário explêndido, cheio de cores, não me saia do pensamento... Se o arco-íris estava ali tão próximo, porque não consegui alcançar o meu tesouro?
Quando cresci
consegui entender que o arco celeste era apenas uma ilusão de ótica, mas as cores, o fulgor e os sonhos, estavam
realmente naquele local, alí onde eu brincava, onde eu ouvia as estórias da
velha iaiá, onde eu cantava as cantigas de roda e acalentava bonecas, onde eu era criança... Ali onde
estava a minha infância. O meu tesouro!
"A Infância é
como o arco-íris, quanto mais palmilhamos, ela vai se distanciando e as cores e o fulgor vão desaparecendo.” (Rilnete Melo)
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CRÔNICAS DA SUSTÂNCIA*
HISTÓRIAS DA MINHA MÃE: "O MEU TORTÉI" Rosangela Marquezi Naquele tempo s uspenso da pandemia, no ano de 2020, em que os dias par...
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Salve, Enluaradas! O e-book já está disponível para leitura! BAIXE AQUI O E-BOOK COLETÂNEA ENLUARADAS I: SE ESSA LUA FOSSE NOSSA/2021 É c...
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Baixe o e-book I Tomo das Bruxas clicando na imagem Arte do card: Patrícia Cacau BAIXE O E-BOOK GRÁTIS: I TOMO DAS BRUXAS: DO VENTRE À VIDA...
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《 Quando você subestima o que você faz, o mundo vai subestimar quem você é. 》 {Oprah Winfrey} O Enluaradas Selo Editorial , em parc...
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V E R B O M U L H E R|05 AS MÁGOAS DE MARÇO POR HELENA TERRA [Imagem arquivo Pinterest] Não tenho tido tempo para escrever. Não o tanto ...
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MOSAICO DE IDEIAS - SEMEANDO PALAVRAS E COLHENDO BORBOLETAS |02 O D I A D E C Ã O POR SANDRA A. SANTOS As viagens no metrô paul...
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V E R B O M U L H E R|04 EU VI A MULHER PREPARANDO OUTRA PESSOA POR HELENA TERRA “Não existe verdade inferior. E, se eu não re...
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V E R B O M U L H E R|05 P I N T O U U M C L I M A POR HELENA TERRA Em março de dois mil e doze, escrevi na ú...
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V E R B O M U L H E R|02 HELENA SOLTE SUAS FERAS POR HELENA TERRA “Escute as feras” é o nome do livro da antropóloga fran...
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CRÔNICAS DA SUSTÂNCIA /02 SEXO E VIDA POR ROSANGELA MARQUEZI Hoje, quando acordei, me deu uma vontade de sussurrar no seu ouvido e dizer...
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LIÇÕES DE SILÊNCIO|05 POR RITA ALENCAR CLARK A CASA DA JOAQUIM NABUCO ...




























