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sexta-feira, 6 de março de 2026

UM CONTO DE SANDRA SAN'TOS

A   R E V O L T A   N O   D E S C A R T E

POR SANDRA SAN'TOS

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Eu não estava sozinho; junto a mim, muitas coisas familiares: livros, revistas, salmos da igreja, roupas, algumas ferramentas de pedreiro, um par de óculos, e outras que não conseguia divisar. Era um lugar escuro, cheio de ruídos desconhecidos, além de um cheiro modorrento a causar-me desconforto.

 Tem mais alguém acordado? Sabem que lugar é esse? – falei, dirigindo-me aos companheiros de destino incerto.

 Eu acho que estamos no lixo. Agora calem-se, porque alguém se aproxima. – respondeu um objeto abaixo de mim.

Seguiram-se sons de sacos se abrindo e caixas sendo rasgadas. Um dos visitantes, considerei que seriam ao menos dois, assoviava um trecho de uma música desconhecida. Sim, só poderíamos estar no lixo, pois conforme andavam, o mau cheiro também era revirado.

 Caramba! Quanta tralha! Só tem porcaria aqui, tô achando que é perda de tempo. Olha isso: livro, remédio, roupas rasgadas, roupas cortadas... Quem jogou não queria que ninguém pegasse. - O som de coisas quebrando denunciava a raiva por não encontrarem nada de valor, ou que lhes tivesse serventia.

 É isso o que acontece com as coisas dos mortos amigo: vão para o lixo. Se eu fosse tua mulher, botava você no lixo. Lugar de tranqueira é no lixo mesmo. – riu da própria piada e completou antes que o amigo lhe respondesse com alguma ofensa:

 Ei, olha só, eu achei um rádio. Eita, que é uma velharia! Será que funciona essa merda? Se não funcionar, vendo as peças e já no lucro.

 Pode ser, mas vambora que eu tô com fome. – retrucou o outro.

Assim que se afastaram, teve início uma verdadeira balbúrdia entre os objetos que jaziam comigo no descarte.

 Isso não é justo, eu ainda estou em boas condições. - gritou o livro de teologia me fazendo duvidar da sua religiosidade.

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 Vamos balançar a caixa com força, todos juntos até virar, assim vão ver que as coisas de valor estão aqui. – sugeriu a chave de fenda enferrujada, que fora enrolada em um lençol.

 Pra quê minha senhora? Sairemos andando? É isso o que sugere? – estamos velhos e sem uso já há algum tempo. Quem estava em boas condições foi destruído antes de ser colocado aqui. Não percebe que nem pra doação nós servimos? – retrucou um disco quebrado.

A essa altura da discussão, a camisa estava em prantos, derramando linhas por todos os lados, enquanto o livro de marcenaria se desesperava com a falta de suas folhas iniciais.

 Quem fez isso estava com raiva. Não se rasga um livro, isso é absolutamente revoltante. – completou o livro de teologia.

Arlindo, meu dono, provavelmente morrera. Eu não tinha mais dúvidas. O burburinho de meus companheiros me cansava, então preferi o silêncio; afinal, eu era o mais velho daquela caixa. Era hora de fechar os olhos, ficar quieto e aceitar meu fim. Me calei, e me abstraí de mim mesmo escutando a chuva que batucava o exterior de nossa caixa.

Meu humano costumava passar muito tempo calado, comigo nas mãos, pensando em sabe-se lá o quê, apenas me observava. Ele me mantivera por hábito e não por necessidade; talvez até por afeto, pois eu, já não exercia minha função há bom tempo. Além de ser objeto de contemplação para Arlindo, eu também servira de brinquedo para sua neta, a menina Clara, que tinha o talento de lhe reacender o olhar.

 Clara, devolve pro vovô. Se você derrubar, vai quebrar, cuidado. – falava mesmo sabendo que eu era um caso perdido. Para mim, não havia mais conserto.

Era isso, Arlindo morrera e eu morreria também, ponto final. Preferi manter-me alheio àquela conversação inútil.

 Talvez ainda tenhamos uma chance. Tem muita gente precisando de algo útil. – arguiu uma luminária antiga.

 Depende do que você chama de útil. – completou o martelo sem cabo.

 Deixa de soberba e verá, sou um bom livro, edição caprichada. Logo estarei servindo a olhos inteligentes.

 Fiquem quietos e ouçam, está chegando alguém... Com passos pequenos, se for criança, não se interessará por nenhum de nós. – interrompeu a chave de fenda.

Era Clara, a neta de Arlindo. A menina passou um bom tempo abrindo e fechando caixas. Vasculhou uma por uma, até que abriu a nossa. Retirou objeto por objeto, mantendo em uma das mãos uma revista da igreja que o avô frequentava, enquanto a outra penetrava no desconhecido. Senti quando fui levado para fora e recostado ao seu peito.

 Clarinha, Clarinha! O que está fazendo minha filha? Porque tá revirando o lixo? – gritou sua mãe do outro lado da rua.

 Mamãe, são as coisas do vovô. Eu preciso pegar tudo de volta.

 Filha, foi sua avó quem jogou tudo isso fora. Ela não vai ficar feliz se souber o que você tá fazendo... E eu, também não quero essas coisas lá em casa.

 Mas, mãe... por que a vovó colocou as coisas do vovô no lixo?

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 Bem, sua avó e seu avô... Não se davam nada bem. Mas, esse é o tipo de coisa que você só vai entender quando ficar mais velha. Agora vem, larga essas coisas aí, que não quero irritar a sua avó. – falou a mãe encerrando o assunto.

A menina havia chafurdado no que restara do avô. Aquelas coisas tinham enorme valor para ela; mesmo assim, antecipando um embate inútil, obedeceu. Não sem antes esconder-me em seu bolso. Devolveu as revistas para a caixa e fechou-a com cuidado, despedindo-se não apenas de coisas, mas de uma pessoa que lhe faria muita falta.

 Adeus vovô – disse em voz alta, sem entender a lógica dos adultos.

Por muito tempo fui seu segredo e dos meus companheiros de caixa, nada mais eu soube.

Passei muito tempo escondido entre livros, roupas, fotos e coisas importantes, até a menina se sentir segura para assumir ter me tirado do lixo.  Quando saí da clandestinidade, fui polido e ganhei uma corrente nova. Nunca mais andei em um bolso, pois esse era um costume de Arlindo. Fui contemplado com um relicário e hoje resido sobre o piano de Clara, de onde a vi crescer e se tornar moça. Vi sua formatura, a vi se casar, assisti a muitos outros momentos importantes, felizes ou nem tanto.

Ela nunca mandou me consertar, porque eu sou uma extensão de seu avô, e ter-me por perto lhe basta. Dele, herdou o hábito de me contemplar longamente, pensando em sabe-se lá o quê. Tal avô, tal neta.

O tempo ensina, e de tempo eu entendo, mesmo que meus ponteiros aposentados mostrem o passar das horas de uma forma diferente. Um dia, Clara também não aparecerá mais e, quem sabe, talvez um dia ela tenha uma neta, e essa me guarde, e aprenda a admirar esse velho relógio que registra em silêncio a caminhada de gerações.

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Arquivo pessoal da autora

Sandra A. Santos é pedagoga com especialização em Educação Ambiental, ambientalista apaixonada pela natureza e pela vida em todas as suas formas. Hoje aposentada, dedica-se à literatura, escrevendo contos, romances e poesias que giram em torno do universo feminino. Com trabalhos publicados em antologias no Brasil e na Argentina.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

REMINISCÊNCIAS INFANTO-JUVENIS, POR MARIA DO CARMO SILVA

 "No fim da tarde quando tudo se aquietava..."

Por Maria do Carmo Silva

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"Das muitas coisas do meu tempo de criança, guardo vivo na lembrança...” são versos de Pe. Zezinho-SCJ, escritor e músico, da canção Utopia (1990), que me trazem as memórias testemunhadas e vivenciadas na minha infância cujos pilares eram os valores humanos, as relações familiares e escolares, o convívio afetivo com os vizinhos e o lazer.

Pedir a bênção aos pais, padrinhos, avós, tios e às pessoas mais velhas, independente de ter vínculo familiar, era uma prática cotidiana respeitosa e afetuosa que ultrapassava o período da infância, estendendo-se aos jovens e até aos adultos já casados, que com reverência estendia a mão direita pedindo a bênção. “A bença a Dona Maria, a bença a Seu José",  sendo a bênção ofertada de forma calorosa com um “Deus te abençoe, Deus te dê uma boa sorte, Deus te faça feliz".

No ambiente doméstico, o respeito e a obediência aos mais velhos era regra geral: os filhos mais velhos ajudavam os pais no cuidado com os irmãos mais novos - ressaltando que normalmente a prole era extensa -, auxiliavam a mãe nas tarefas domésticas e em outras atividades no campo, tudo sob o olhar dos mais velhos que já gerava intimidação e um alerta para a obediência.

“No fim da tarde quando tudo se aquietava...” - ainda soa a canção de Pe. Zezinho. Ao final da tarde, todos se reuniam, sentados no banco de madeira, normalmente da cozinha, ao redor do fogão a lenha, para ouvir as histórias e causos contados pelos mais velhos. O candeeiro iluminava o ambiente e o calor das brasas do fogão aquecia a prosa. À noite, era comum os pais contarem histórias para os filhos. As crianças ouviam, em silêncio, as lendas do lobisomem e de outros seres estranhos, ficavam apavoradas sem reagir e nem interagir. 

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Na cidade ou no campo a diversão das crianças ficava por conta das brincadeiras no terreiro, onde cantavam roda, pulavam corda, jogavam gude, baleado, amarelinha, brincavam de esconde-esconde, faziam piquenique, dentre tantas outras brincadeiras e, ao primeiro chamado do pai ou da mãe, retornavam para casa sem pestanejar. A vida fluía com alegria, simplicidade, serenidade e respeito.

À época, a tecnologia nem sonhava existir e os brinquedos eram artesanais, feitos pelas próprias crianças ou pelos pais com materiais reaproveitados ou retirados da natureza: cavalo de pau, panelas de barro, bonecas de pano, bolas de meia com enchimento de papel, carrinhos feitos com vasilhame de oléo ou de manteiga e com rodas feitas com borracha de sandálias.

A Escola era o “lugar do aprender”. Sentados em bancos de madeira, com olhar fixo no professor, no ABC e na cartilha, todos cumpriam suas tarefas e mantinham obediência ao professor da mesma forma que ao seus pais e aos mais velhos, tratando-o com o devido respeito, pois se lhes faltasse com ele,  seria severamente punido.

Na contemporaneidade, os valores humanos e as relações familiares estão quase que descartados, causando sérias e drásticas consequências à sociedade como um todo. A escola é para muitos, apenas um lugar de encontro com colegas, um lugar de distração. Reconhecê-la como espaço de produção e de aquisição do conhecimento não é regra geral.  Pedir a bênção aos mais velhos saiu de moda. A tecnologia trouxe brinquedos eletrônicos, bonecos que simulam seres humanos, ridicularizando-o com o desrespeito, a violência, a pornografia. A prosa e as brincadeiras com colegas, familiares e amigos foi substituída pela “comunicação virtual”, via redes sociais, espaço de “liberdade” e de “permissividade”.

O respeito, a solidariedade, a fraternidade e a humanização foram substituídos pela robotização dos humanos. Quais lições, histórias e memórias das crianças e jovens da sociedade contemporânea transmitiremos à posteridade?

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Maria do Carmo Silva -  Natural de Mutuípe-BA; Professora, poeta e escritora. Licenciada em Geografia, graduada em História; Especialista em Gestão e Educação Ambiental, Estudos linguísticos e literários e Comunicação, Cultura Organizacional e Tecnologia. Autora dos livros de poesias: "Retalhos de Vivências", "Recomendações Poéticas", "Leituras e Releituras", "Colheitas Ancestrais & Primaveras". Tem participação em diversas Antologias Poéticas nacionais e internacionais. Colunista no site de notícias Tribuna do Recôncavo e colaboradora do blog Feminário Conexões. Integrante dos Coletivos Mulherio das Letras e Enluaradas.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

NÃO ESTAMOS SOZINHAS!

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"E, por que nos matam? Porque somos mulheres." 

Cara leitora, caro leitor!

Estamos às vésperas do Natal e nunca a presença do amor e da empatia se fez tão necessária! Convido aquelas e aqueles que se engajam no movimento feminista para esta reflexão, me embasando no poder da poesia, que grita e se expõe sem medo, à espera de que as palavras aqui reunidas encontrem eco e façam sentido a partir do poema ANUNCIAÇÃO (Margarida Montejano/2023):

Anuncia a mulher que labuta, que urra, que luta,

briga pelo pão, insiste contra o não e é o que pretende ser.

Anuncia! explica a mulher que abre a porta para o dia,

que enfrenta a rotina de se saber aflita.

Enquanto o infinito não vem, anuncia,

arregaça as mangas da avó, da mãe, da filha e grita:

Quem mandou matar Marielle?

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E assim tem sido. Uma menina, uma mulher, duas mulheres, três, quatro, dez...  De acordo com o Mapa da Violência de Gênero, no primeiro semestre de 2025, 718 feminicídios foram registrados em todo o país  — uma média de cerca de 4 mulheres mortas por dia pelas mãos de um homem, um feminicida. No mesmo período foram contabilizados 33.999 estupros contra meninas e mulheres, na média de 187 casos por dia, realizados no interior de suas próprias casas e, na sua maioria, por familiares e conhecidos da família. A cada minuto, microviolências ocorrem sobre a vida, a mente e o corpo de uma mulher.

E, por que nos matam? Porque somos mulheres. Porque ousamos pensar e desafiar a ordem estabelecida que enfatizou e enfatiza que sempre foi assim e que assim deve ser. Recusamos a ideia de que existem papeis específicos para cada gênero e que estes devem ser propalados e perpetuados, pelos séculos dos séculos.

Essas pseudocertezas, repetidas ao longo do tempo de maneira intencional pelas instituições, família, igreja e sociedades, produziram e produzem, o empoderamento dos homens, engendrando uma estrutura social baseada no modelo patriarcal hierarquizante. Nesta forma de atuar historicamente sobre as gerações, foram e vão se solidificando as convenções, tendo como base formativa a misoginia, sustentada pela prática de ações sexistas e machistas de homens frágeis e fracos emocionalmente. Forjados para serem fortes, são eles educados para não desenvolverem em si o afeto, a empatia, o cuidado. Homens que, seduzidos por um suposto poder e força, não conseguem lidar com contrariedades e, por isso, violam a consciência, ferem, estupram, desqualificam, desfiguram o corpo e o rosto e, por fim, assassinam as mulheres com requintes de perversão e crueldade.

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Violência abjeta, praticada na maioria das vezes contra aquelas as quais eles, valendo-se de um pronome possessivo que lhes garante uma pretensa superioridade, as chamam de “sua”: “sua mulher”, “sua filha”, “sua mãe”, “sua irmã”, “sua amiga”, “sua colega”... Parece que submetê-las às formas mais vis de violência configura-se num direito, porque as consideram um mero “objeto de posse”, algo de sua propriedade, de modo que lhes é permitido fazer o que bem entenderem com elas, sejam maridos, namorados, filhos, parentes, amantes...

Sem escrúpulos, muitos compartilham nas redes sociais sua valentia desprovida de qualquer traço de empatia e de humanidade, expondo a crueldade do ato em si, gratuito na aplicação e rentoso na execução, pois algoritmos sobem e monetizam. Assim quanto mais brutal e degradante for a ação criminosa sobre o corpo da mulher, mais rentável será e maior repercussão terá entre os grupos de homens que propagam o ódio às mulheres.

É uma realidade amedrontadora, que se articula com base no interesse econômico, visando a manutenção do patriarcado e é amplamente disseminada pela força midiática. Em 2023, num evento em Campinas, a atriz e cantora, Elisa Lucinda, comentou sobre esses acontecimentos: “Colocamos filhos no mundo para nos matar”. Esta afirmação contundente encontra eco na literatura e na voz feminina gritando que, quando uma mulher é assassinada, todos, de algum modo, morrem! 

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Assim, somos todos os dias sacudidas pelo noticiário de mais mulheres sem vida. Nos assustamos e nos indignamos com a atrocidade desses atos e com os vergonhosos índices de feminicídio, denominando aqueles que os praticam como monstros e insanos. Contudo eles não são nem uma coisa nem outra: eles nada mais são do que homens com a masculinidade exacerbada e com dificuldade em gerir a própria sexualidade. Apoiam-se na toxidade das ideias neles incutidas como verdades e se portam como se naturalmente lhes coubesse o papel de dominar. Entretando, por trás dessa virilidade intensificada pelo machismo escondem-se sujeito débeis, frágeis e impotentes que não suportam o direito de uma mulher ser, estar, existir e ter autonomia para dizer “sim” e “não”. Logo, precisam se valer da força física e da intimidação. Segundo a advogada criminalista, Erika C. Furlan, “O avanço em direitos e garantias para as mulheres incomoda o público masculino hétero, porque hoje a mulher não aceita mais qualquer tipo de relacionamento [...]”. Ela reage.

Por isso essa estrutura misógina, diz Virginia Woolf, teme o Feminismo, porque sabe que este movimento social, político e ideológico reivindica a igualdade social, econômica e política entre homens e mulheres, a autonomia feminina e o fim da violência contra a mulher. Essa luta carrega em seu ventre o sangue e a força ancestral de mulheres que resistiram às atrocidades por eles já cometidas e que, por conta disso, tem o poder de vislumbrar relações que reconheçam incondicionalmente os direitos da mulher.

Nesse cenário desafiador não tem como não apostar na educação, pois o conhecimento esclarecedor se transforma no instrumento eficaz para combater o ódio. Erika C. Furlan acrescenta que “O importante é sempre prevenir, o que é muito difícil numa sociedade em que o machismo é estrutural e a disseminação de grupos conservadores misóginos alimentam o imaginário e o ideário de homem macho varão provedor e mulher submissa. Deste modo, a formação de crianças desde cedo é o caminho mais seguro para se desconstruir, através do desenvolvimento da consciência histórica e, sobretudo crítica, o quanto essas práticas seculares nos violentaram e subjugaram.

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Não se pode omitir que a misoginia é o preconceito contra as mulheres mais antigo que existe na trajetória da humanidade. Mais que ódio às mulheres, é um sentimento que emerge como uma construção histórica pautada na hierarquia dos sexos, em que os homens são tidos como seres superiores e, por conta dessa crença, as mulheres que colocassem em risco essa estrutura hierárquica deveriam ser punidas. Diante dessa perspectiva calcada no ressentimento, na raiva e medo de perder privilégios, práticas como o machismo e o sexismo tornaram-se seus principais difusores.

É preciso entender bem esses conceitos. O machismo se revela por comportamentos, opiniões e sentimentos que consentem e validam a desigualdade de direitos entre os sexos. Por isso admite que a mulher, por ser considerada inferior ao homem, possa ser subjugada motivando a violência contra ela e a sua repetição, via de regra, pode conduzir ao feminicídio. Por sua vez, o sexismo é a crença de que homens e mulheres devem ocupar papéis específicos, os quais são determinados com base no sexo, envolvendo brinquedos, atividades, cores e tipos de roupa etc. Ao se desobedecer ou contrariar esses padrões, se reforça e se estimula o ódio às mulheres, justificando condutas amparadas na convicção de que elas necessitam ser controladas e punidas.

Frente à tragicidade que esses episódios representam, torna-se indispensável que a misoginia seja considerada crime hediondo inafiançável e que o controle rigoroso das redes sociais possa se constituir num instrumento capaz de neutralizar e combater os estímulos à violência de gênero. Porém, mais importante é a implementação nas escolas de projetos educacionais que vise, desde a infância, uma sólida formação embasada na proteção dos direitos da mulher, conforme o Art.5º da Constituição Federal de 1988.

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E quanto a nós mulheres, não esquecermos que estamos em rede e em rede enredadas estamos. Cabe-nos estar coletivamente em contínua vigilância na luta por salvaguardar direitos já conquistados e por assegurar aqueles que ainda estão e estarão em pauta, a fim de que nossa dignidade seja integralmente reconhecida. Daí a importância de se fazer valer o fato de que somos maioria e eleger candidatas e candidatos efetivamente comprometidos com políticas afirmativas que visem a justiça e equidade social e o combate à desigualdade de gênero. 

Não se pode baixar a guarda jamais, pois a estrutura patriarcal é ardilosa, não dorme nunca e está sempre à espreita para nos devorar e submeter com as ferramentas de que dispõe.  O demônio que estupra e mata mulheres e crianças é um homem que teme a convivência em condições de igualdade, a empatia nos relacionamentos e a força feminina. Nossas Ancestrais estão em vigília constante nos inspirando a renovar nosso poder intuitivo e a força vital de nossas entranhas!  Não desanimemos! Não estamos sozinhas!

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Arquivo da autora
Margarida Montejano, mora em Paulínia/SP. É Poeta e escritora feminista; Func. Pública na Secretaria Municipal de Educação de Campinas. Defensora ativa dos direitos da Mulher, sendo membra do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Campinas; Coordenadora do Projeto Bem-Me-Quero: Empoderamento Feminino e Igualdade de Gênero e, Produtora do Canal Literário – N’outras Palavras –  histórias que inspiram, no Youtube. Autora dos livros Fio de Prata - Ed. Siano (2022); Chão Ancestral, TAUP Editora (2023) e dos livros infanto juvenis A Poeta e a Flor e A Poeta e a Sabiá, pela Editora Siano. (2024). Para contatar com a autora: @margaridamontejano.escritora

terça-feira, 25 de novembro de 2025

ASTRID CABRAL, POR SANDRA GODINHO

Fonte da imagem: aqui
Astrid Cabral nasceu em Manaus, AM, onde fez os primeiros estudos e integrou o movimento renovador Clube da Madrugada. Foi morar no Rio de Janeiro ainda quando adolescente. Graduada em Letras Neolatinas na atual UFRJ. Lecionou língua e literatura no ensino médio e na Universidade de Brasília, onde integrou a primeira turma de docentes saindo em 1965 devido ao golpe militar. Em 1968 ingressou por concurso no Itamaraty, tendo servido como Oficial de Chancelaria em Brasília, Beirute, Rio e Chicago. Com a anistia, em 1988 foi reintegrada à UnB. Ao longo de sua vida profissional desempenhou os mais variados trabalhos, fora e dentro da área cultural. Detentora de importantes prêmios, participa de numerosas antologias no Brasil e no exterior. Colabora com assiduidade em jornais e revistas especializadas. Viúva do poeta Afonso Félix de Sousa, é mãe de cinco filhos. Fonte: http://www.jornaldepoesia.jor.br/astridcabral.html 



A PROSA NA OBRA "ALAMEDA" DE ASTRID CABRAL 

Sandra Godinho

A primeira vez que tomei conhecimento de Alameda, a obra inaugural de Astrid Cabral publicada em 1963, foi através do meu querido e falecido amigo José Benedito dos Santos que, sabendo que eu escrevia um romance cujo narrador era uma árvore, deu-me o livro de presente. O efeito da escrita da autora em mim foi devastador e indelével. Meu querido amigo me fez entender a grandeza de Astrid e, além disso, reconhecer que era uma mulher à frente do seu tempo.

Primeiro, porque ela deu protagonismo ao mundo natural. Não que não houvesse outros autores que mencionassem matas e florestas. Inferno Verde, livro de contos de Alberto Rangel publicado em 1908, e A Selva, romance de Ferreira de Castro publicado em 1930, já mencionavam o mundo natural, mas sempre como cenário, selvagem, inóspito e imenso. Astrid não somente deu protagonismo ao mundo natural, mas também relacionou o mundo natural ao humano, fazendo uma analogia à nossa própria vida. Ao personificar grãos de feijão, laranjas, rosas, papoulas, folhas, orquídeas etc., atribuindo-lhes características humanas, a autora fugiu do que poderia ser considerada uma literatura regional, algo que na tradição literária sempre foi considerada menor. Além disso, Astrid antecipa uma consciência ecológica que só tomou vulto no Brasil em meados dos anos 1980, quando a consciência nacional sobre as questões ambientais passou a ser levada a sério, corroborada por estudos científicos de maior envergadura. Não fosse isso o bastante, Astrid trouxe temáticas femininas às suas narrativas, especialmente ao tratar a terra como um “cemitério e viveiro de sementes”, reforçando a função maternal, equiparando a terra ao útero feminino; trata-se agora da mãe-terra e da mãe-natureza, mas não só. Astrid, ao abordar temas como a beleza e a reprodução, e refutando-as como o ápice das funções femininas, evidencia o ativismo feminista em suas narrativas.

Outro item que me chamou a atenção foi o título escolhido pela autora, Alameda, que é, afinal, um caminho constituído por árvores plantadas em fileiras. O que se intui através desta escolha é que realmente Astrid não quis retratar a natureza selvagem, mas uma domesticada, singularizada e culturalizada. Ao discorrer sobre esta natureza domesticada, Astrid, por analogia, fala da nossa própria domesticação frente aos valores impostos por nossa sociedade.

Alameda traz-nos 20 histórias triviais, singelas e colhidas do nosso cotidiano. Através delas, Astrid faz profundas reflexões filosóficas e psicológicas sobre nosso próprio existir. São narrativas cujos temas tratam do ciclo da vida, da finitude e do recomeço, da provisoriedade de tudo, da impermanência e da permanência, esta última vista sob o viés da beleza e da reprodução.

Em Destino, por exemplo, uma plantinha se encontra dentro de um vaso, tomando sol num canto da janela, até que um gato descuidado a derruba, destruindo o vaso que se parte em inúmeros cacos. A empregada recolhe os cacos, a planta e os atira pela janela. Esta plantinha, nomeada por Astrid de “brotinho”, traz a primeira conexão com o humano/a mulher, visto que brotinho era uma gíria da época que fazia referência a uma moça. Temos aqui também os temas caros a Astrid, que nos remete à finitude da vida, da morte que nos colhe ao acaso, ainda que no texto esteja presente certa mensagem de esperança: apesar das nossas prisões, somos abençoados por simplesmente existir. Além disso, se atentarmos para o trecho da obra: “Era o sol que lhe punha aquelas grandes sardas douradas, o ar todo faceiro. Também a pose graciosa com que distribuíra seus membros, já agora multiplicados, era convenientemente adequada ao banho de sol [...] A cútis fina, queimada de tempo, engelhava-se até a queda final, que seria mansa, ao arrepio do primeiro vento”, reparamos que a verve poética de Astrid já se faz presente nas assonâncias, aliterações, nas metáforas, nas imagens e no ritmo das frases.

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No segundo conto, Arvoreta, árvore, arvoreta, é interessante notar como Astrid, no próprio título, transmite o andar do sol pelo céu, projetando a sombra de uma árvore, que se alonga no começo da manhã, fica justa ao meio-dia e torna a se alongar no final da tarde. É o sol que banha a árvore, que lhe dá luz, mas a árvore só se enxerga através da sua sombra, sempre dentro da própria individualidade, exacerbada, orgulhosa, altiva e iludida pelo olhar alheio. Por mais que a árvore se iluda e se ache exuberante, será sempre prisioneira de si mesma, presa às próprias raízes. Observando o trecho da narrativa: “Quando fazia sol, via-se fotografada ao longo da calçada, e via-se também crescer e diminuir, a imagem apagar e acender. Gostava da brincadeira de verão, a divertida dinâmica de sua sombra a crescer e minguar num só dia – arvoreta, árvore, arvoreta. Mas tudo era jogo visual, o percurso do sol acionava a silhueta. Depois de certo tempo, não mais se iludia. [...] Bem que gostaria de escapar-se, transpor-se além de suas fronteiras a fim de fruir nova dimensão, mas não ousava”, notamos a poética pungente da autora na sua prosa.

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O conto A praça discorre sobre uma praça que foi inaugurada pelo prefeito e que, passada a euforia dos primeiros passeios, é desprezada por seus frequentadores. Aqui, a autora define a praça como sendo a terra remodelada pelo prefeito, o chão que aceita tudo e, após algum tempo, torna-se desprezado pelos homens. A mãe-natureza, tal qual as mulheres, também é ignorada pelos homens. Expressões presentes no texto como ‘pise de mansinho’ ou ´cuide de seu jardim’, evidenciam a antecipação de uma consciência ambiental. Nos trechos seguintes: “Elas, (as plantas), não viviam em função dos homens, nem deles dependiam, como era o empenho de muitos fazer supor. Descaso, desprezo, nada lhes alterava o destino da espécie” [...] “ Era portanto certo que (as plantas) existiam para autossatisfações, donas de si mesmas e tão livres dentro do repouso como o ar que as oxigenava. O que havia era abuso, exorbitância do espírito dominador dos homens”, se substituirmos ‘as plantas’ por ‘as mulheres’, a analogia ao mundo feminino ainda é pertinente.

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No conto Laranja de sobremesa, temos outra história simples e trivial, discorrendo sobre uma laranja que está sobre um prato. Ao ser servida de sobremesa, reflete sobre o ciclo da vida: ela vem de uma árvore que deu fruto, que virou semente, que virará árvore novamente. Nós, assim como a laranja, seremos consumidos pelo tempo, mas deixaremos nossas sementes sobre a terra. Astrid retrata a finitude da vida, o recomeço e também nossa submissão ao tempo. A laranja aguarda seu destino, assim como todos nós. A beleza e o viço são precários.

No texto intitulado A cerca, ela que é “uma árvore sob outra forma’, reflete sobre sua vida, está entregue agora às intempéries e aos cupins, e se sente culpada pela morte de seu amigo gato, que caiu de pé em um dos seus sarrafos pontiagudos. De sua abundância de árvore, forte e firme sobre a terra, ela está reduzida a um corpo estéril capaz de causar a morte de outro ser. Escrita em tom melancólico, a cerca fala sobre seu inconformismo e sobre sua degradação, refletindo sobre a inutilidade de tudo, convencendo-se de que sua vida foi apenas um acaso. Os temas neste conto são o sentido da vida e a inevitabilidade da morte. Apesar do tom melancólico, o que me chama a atenção nesta narrativa é a ironia empregada pela autora: a árvore firme e forte se tornou uma cerca que mal para em pé. A partir desta história aparente e linear, Astrid traz subtextos potentes: a despeito da estabilidade e da firmeza que um ser pode ter, todos podem desmoronar de uma hora para outra, ou: é suposto que uma cerca contenha as coisas, mas a cerca de Astrid não contém nada, nem a passagem do tempo, nem as ações alheias, ou: a cerca lamenta ter perdido as referências do passado, de quando era árvore, mas para viver o presente, o passado não importa, ou: nutrir um sentimento melancólico previamente à morte é vivenciar a morte em si mesma, ou: o vínculo com as nossas raízes é o que nos fortalece.

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O conto A aventura dos crótons fala de uma planta ornamental, o cróton, que, crescendo belo num canteiro graças às podas do jardineiro, passa a invejar as heras que “pintam de verde as paredes da casa da esquina”, crescendo horizontalmente para todos os lados, em total liberdade. O cróton quer se aventurar, então roga à natureza que lhe conceda este desejo. A natureza parece atendê-lo, lançando uma chuva torrencial que liberta suas raízes do solo e o leva, mas, sem ter como fincar-se à terra, é levado pelas águas e sucumbe. O texto fala sobre deixar uma vida cercada de segurança, já que a “tenacidade do jardineiro zelava pela dócil submissão de todos”, mas limitada e cheia de marasmo. Astrid refere-se à impermanência, à liberdade e ao risco de viver. Podemos fazer outras reflexões, como: a inveja e o anseio por outras terras estão presentes tanto nas plantas quanto nos seres humanos, ou: o resultado de todo esforço é uma surpresa, nem sempre agradável, ou:  o  “jardim do lado de lá”, pode ser apenas uma ilusão, ou: é preciso dar valor à terra onde se vive, ou: o desejo de mudar pode gerar uma frustração imensa, é preciso ter os meios, não só o desejo, ou: o desgosto em habitar um lugar que não se deseja faz perder todo o sentido e o encanto da vida. Neste texto, há também uma consciência da heterogeneidade, do outro e do lugar que ele ocupa.

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No conto Queixa contra o vento, uma quaresmeira reclama dos caprichos do tempo, sempre lutando contra a ameaça de tombar e sucumbir. Neste trecho da obra “O vento fica aí a soprar sem cessar. Sem saber do meu medo, da gana de fechá-lo em algum lugar. Dentro de um morro, de uma gruta. Afinal, que pretensão pensar nisso. Logo eu, que não me aguento em pé, que sofro de câimbras, que não resisto ao seu menor suspiro”, notamos o uso de rimas, cadência das frases, assonâncias e aliterações, evidenciando a forte verve poética de Astrid, presente desde esta obra inaugural.

O conto O parque fala de um parque cujas “árvores espichadas, esguias, e arbustos baixotes, corpulentos, mantêm-se atados pela tranquilidade de pedra. Ali a vida não se pui com o uso, não implica amanhãs e mortes, mas trata-se de uma paz de pedra, marmórea e mortal. Neste mundo de pedra, é sempre noite. O tema de Astrid nesta narrativa é a domesticação da própria existência. Este viver de modo mecânico, sem notar se é dia ou noite, sem atentar para o que realmente importa, é um não viver.

No conto Avispiscis pulcherrima, Astrid fala de uma árvore imaginada, uma árvore fabulosa, com a capacidade fantástica de se adaptar a tudo, aos charcos, ao deserto, às geleiras dos polos e que é de uma beleza inigualável. Apesar da exuberância, ela tem frutos estéreis, incapaz de deixar descendência, motivo de suas lágrimas. A temática de Astrid nesta narrativa diz respeito à validação da beleza pela capacidade de reprodução. A uma planta (mantendo a analogia com relação à mulher) não basta ser vistosa sem reproduzir, é necessário deixar sementes e descendência para ser validada sob o olhar dos humanos. São temas intrinsicamente femininos.

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Na narrativa A agonia da rosa, Astrid discorre sobre rosas que acabaram de florescer e, estando no esplendor de sua beleza, são colhidas e colocadas como um ramalhete dentro de uma caixa de celofane. Aqui, a beleza vira acessório, serve somente para dar alegria e prazer a alguém e, portanto, tem vida curta. A essência feminina é comprimida em um receptáculo. Aprisionada, ela murcha e seca em definitivo. A autora faz uma crítica à superficialidade, à vida de aparências e à provisoriedade de tudo.

No texto Um grão de feijão e sua história, o conto mais lindo desta coletânea na minha opinião, grãos de feijão estão sendo selecionados para serem cozidos, mas um grão é deixado de lado por não atender às expectativas da empregada. Ele é jogado pela janela e vai parar numa terra fértil, enchendo-se de esperança, julgando que vai brotar, enraizar e reproduzir, até que a empregada, que tinha o mau hábito de jogar coisas pela janela, derrama um jato de água quente sobre ele, desfazendo seu futuro. A partir desta história singela, podemos pensar em inúmeras inferências, tais como: só inteiros temos o ‘direito’ de ‘estar no mundo’, ou: a finitude nos torna tão vulneráveis quanto um grão de feijão, ou: mesmo uma planta é capaz de sentir, ou: para ‘ser’ algo ou alguém é preciso ocupar um determinado lugar, ou: é na terra que está a vida; é ela que preserva toda nossa descendência, ou: é preciso criar raízes para florescer. Astrid abre portas para vários subtextos e várias interpretações.

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Passando ao último conto da coletânea, encontramos À sombra da papouleira, onde uma folha seca e outra verde conversam à sombra da papouleira, dentro do jardim de uma casa. Elas escutam a aproximação do jardineiro e se surpreendem ao saber que o dono quer derrubar a papouleira para fazer um novo jardim. Então, as folhas se revoltam, tomando ciência de que a vida é breve e que, aos homens, “era comum o hábito de derrubar plantas e até florestas inteiras. A preocupação de Astrid com o meio-ambiente e com a prática dos homens de devastar se faz notória. Num mundo onde “a vida é um rosário de pequenas mortes”, só resistindo em coletivo podemos sobreviver.

A grandiosidade da obra inaugural de Astrid é notável e pujante, seja nos temas, seja na sua prosa poética, na sua visão à frente do seu tempo, na sua preocupação com o feminismo e nas questões ambientais, fazendo os leitores refletirem sobre a vida através de histórias singelas do nosso cotidiano, lhe reservando o merecido lugar de destaque na literatura amazonense e na literatura brasileira contemporânea. Leiam Astrid!

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Arquivo da autora


Sandra Godinho nasceu em 1960 em São Paulo, é graduada e Mestre em Letras. Já participou de várias coletâneas e antologias de contos, sendo agraciada com alguns prêmios. É membro número 78 da AILB, Academia Internacional de Literatura Brasileira. 

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

A BAILARINA ANÃ E O RAPAZ FAVO DE MEL - CONTO - ISA CORGOSINHO

Por Isa Corgosinho

Eles se conheceram já adultos no circo ou naquilo que sobrou dos circos. No cenário monetizado do entretenimento virtual, os circos foram ficando cada vez mais à deriva das naturais, espontâneas alegria e diversão. As crianças radiosas não se interessam mais nem por palhaços, que dirá por anãs e homens sem mãos! Nem os circos de vocações mambembes escaparam da liquidez dos tempos.

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Sem mais valia, sem serventia, o rapaz viciado em bolachas recheadas teve que buscar trabalho no circo. A mãe morreu vítima do amor incondicional e ele,   diabético, ficou largado à própria gula. Como não tinha mãos, devoradas pelo açúcar, seu  trabalho era alimentar com sua saliva a colmeia, ali cultivada para adoçar a tristeza dos palhaços e a aguardente das trapezistas. Foi lá que encontrou a mulher Anã de Cabeça Plana.

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A anã, após ter sido espancada na cabeça durante anos, foi deixada ali pelo pai.  Com sua fantasia de bailarina, dormia com os malabaristas, os mágicos, o homem fera, a mulher barbada, o homem elefante, mas era propriedade, monetizada pelo dono do circo, sempre fantasiado de leão. A maioria era impotente, por isso apreciava o sexo com a Anã de Cabeça Plana: sem pensamentos, sem vontades!

Ela se deparou com o homem sem mãos no dia que ele adormeceu todo inchado, picado pelas abelhas, com a língua em viva carne, sangrando. Ela vinha de uma jornada gosmenta de cópulas com o leão faminto.


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Ele estava caído na entrada de um trailer sem porta, quando ela tão pequenina tropeçou nele. Ficou ali parada sobre aquele homem e, pela primeira vez em muitos anos, ergueu a cabeça e viu asas de abelhas coroando o rosto do rapaz. Sentiu ânsias de mel, ergueu-se de mansinho e lambeu com a sua as feridas expostas da língua do rapaz. Mesmo exaurido de dor, o homem a sentiu como presença da abelha rainha, ela por fim viera curar-lhe do trabalho afoito e descuidado de suas dedicadas operárias. Quis acariciar aquele pequeno corpo que se estendia sobre o seu, e foi o que fizeram seus braços como se fossem mãos. Que delicada criatura! Sentiu sua língua amalgamada na língua suave daquele ser planando íntegro e grandioso. 

Era amor o nome daquele sentimento, ela, enfim, pensou! E o circo, que dormia profundamente, se iluminou com a coreografia dos pirilampos, que anunciavam o espetáculo:

A Bailarina Anã e o Rapaz Favo de Mel!

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Arquivo da autora
ISA CORGOSINHO é natural de Brasília/DF, mas mora atualmente em João Pessoa.  Doutora em Teoria da Literatura pela UnB e Università di Roma, Sapienza. Professora universitária, aposentada, ensaísta, poeta, cronista, contista, autora de artigos e ensaios. Livro Memórias da pele (Venas Abiertas, 2021), Livro Panópticos e Girassóis (Urutau, 2024), Livro Se um viajante entre a angústia da escritura e o prazer da leitura (Caravana, 2024), Eros e Thanatos em Plenos Pecados (TAUP,2025). Coletânea NÓS Autora premiada/1° lugar Crônicas. (SELO OFF FLIP, 2023), Coletânea NORDESTE conto destaque, (SELO OFF FLIP 2024), Coletânea NÓS (SELO OFF FLIP 2024) conto destaque, Coletânea Prêmio SELO OFF FLIP 2024 com poema e conto destaques, Coletânea TERRA (SELO OFF FLIP 2025) com conto destaque. Participou de diversas antologias, entre elas Coletânea Enluaradas I (2021); 1ª Coletânea Mulherio das Letras na Lua (2021); Coletânea Enluaradas II Uma Ciranda de Deusas (Selo Editorial/Sarasvati Editora, 2021); Poesia & Prosa (In-finita, Portugal, 2021); Coletânea Mulherio das Letras para ELAS, (Amare Editora, 2021.); Colectânea Mulherio das Letras Portugal (In-finita, Portugal, 2022). Membro da Comissão de Seleção do Prêmio Carolina Maria de Jesus de Literatura Produzida por Mulheres 2023.


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