Mostrando postagens com marcador feminário conexões. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador feminário conexões. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 12 de junho de 2026

A PALAVRA INSUBMISSA: O PODER DA ESCRITA NEGRA, POR CARLA NEPOMUCENO



«A nossa escrevivência não é para ninar os da casa-grande, é para acordá-los dos seus sonos injustos»  

Conceição Evaristo

Por Carla Nepomuceno

O título da impactante antologia organizada pelo professor Henrique Marques Samyn, «Para despertar os da casa-grande: (alguns) novos escritos de mulheres negras brasileiras», evoca imediatamente uma das máximas mais célebres da literatura nacional. A frase da escritora Conceição Evaristo — segundo a qual a escrita das mulheres negras não serve para adormecer os senhores, mas para despertá-los dos seus «sonhos injustos» — serve de base ética e estética para esta obra. Publicado pela Através Editora no âmbito da Coleção Através do Brasil, o livro funciona como uma ponte internacional que projeta a produção literária e política de autoria negra contemporânea para novos horizontes geográficos. Sob o olhar de Henrique Marques Samyn, professor da UERJ e investigador especialista em raça e gênero, a obra consolida-se como um manifesto de urgência histórica.

A premissa desta antologia habita na sua capacidade de reunir uma ampla variedade de vozes. A seleção de Samyn desafia a iniciação e o esquecimento, ao colocar em diálogo autoras que já alcançaram destaque significativo no panorama editorial recente com escritoras que estão iniciando a caminhada literária. Esta heterogeneidade reflete-se na encantadora variedade de géneros que compõem o volume, onde a fluidez da prosa, a densidade da poesia e o rigor dos ensaios se unem de forma orgânica. Ao longo das páginas, emergem temas caros à subjetividade das mulheres negras: o confronto com corpos racializados, a recuperação da ancestralidade como estratégia de sobrevivência, a celebração e a festividade como pilares de resistência e uma oposição permanente às tentativas históricas de apagamento.



Longe de ser apenas um registro documental, a obra destaca-se pelo seu profundo impacto estético e político. A linguagem aqui não é passiva; ela fere, tensiona e desconstrói a imagem subordinada que, durante séculos, tentou reduzir a mulher negra ao papel de contadora de contos populares ou de empregada doméstica. As autoras dominam as estruturas literárias com técnica e requinte, alcançando assim o seu objetivo de tirar a leitora e o leitor da sua zona de conforto. Além disso, o cuidado editorial da editora Através Editora merece elogios, pois ilustra a importância decisiva do intercâmbio transatlântico de ideias para que a literatura de resistência conquiste mercados historicamente elitistas.

«Para acordar os da casa-grande» é a continuação de vozes que foram silenciadas no passado. 

Nessa antologia da Através Editora, a ancestralidade funciona como um escudo e uma raiz. As escritoras invocam as memórias das avós, das mães e das mulheres escravizadas para autentificar o seu discurso presente. Escrever, é portanto, um ato de justiça histórica.

Em resumo, pode-se afirmar que «Para acordar os da casa-grande» é uma prova indiscutível dos novos horizontes que a literatura brasileira contemporânea está abrindo atualmente. A antologia deixa claro que a escrita das mulheres negras não precisa de permissão para existir; ela se afirma como uma obra estética independente que chegou definitivamente para romper a letargia e o silêncio do racismo estrutural.

O trabalho meticuloso da Através Editora nesta edição demonstra o compromisso da editora em publicar obras que não apenas entretêm, mas também intervêm diretamente no debate social contemporâneo.

Mais informações

♡___________◇___________♤__________♧___________



Arquivo da autora




Carla Nepomuceno é poeta, escritora e produtora cultural, Mestra em Literatura, Cultura e Diversidade no âmbito galego-português e Mestra em Educação. Organizadora do projeto literário Café com Português (literatura em galego-português). Livro solo publicado: Não prometo o Nenúfar (TAUP, 2024).

segunda-feira, 8 de junho de 2026

A VERGONHA MUDOU DE LADO, POR RITA ALENCAR CLARK

 Uma mulher que escreve é uma mulher muito perigosa. 

Por Rita Alencar Clark

Imagem Pinterest
Uma mulher que escreve é uma mulher muito perigosa, dizia bell hooks. Que o diga Gisèle Pelicot! Quando o mundo ficou sabendo que uma mãe de família, casada, com três filhos, levando uma vida pacata numa cidade do interior da França foi abusada sexualmente durante uma década pelo próprio marido, autorizando diversos homens a violarem depois de dopá-la, muitos não acreditaram. Como assim? Como um marido poderia fazer isso sem levantar suspeitas? Foram tantas as perguntas e as dúvidas que o caso, narrado pela autora no livro autobiográfico A vergonha precisa mudar de lado  um hino à vida, publicado pela Editora Companhia das Letras, em 2026, viralizou pelo mundo.  

A violência e o abuso escancararam um portal sombrio, no qual muitas mulheres são mantidas como reféns, de maridos, de amantes, de pais e de companheiros. No caso de Gisèle, reiteradamente por anos e inconsciente do que lhe acontecia, dopada, anestesiada, violentada e filmada. Parece ficção, mas não é. E, o que mais nos choca: com a participação de quem prometeu amá-la, protegê-la e respeitá-la. O hoje condenado ex-marido arregimentou mais de 50 homens da comunidade local, de todas as idades (homens e não monstros), para participarem desse ritual violento e abusivo, sem culpa ou ressentimentos, por mais de dez anos transitando pela cidade livres do peso na consciência; amorais, todos eles. A mensagem de Gisèle, ao decidir expor seu caso e abrir mão do anonimato a que tem direito (e juridicamente concedido) é: A vergonha mudou de lado.

Foi sua resposta aos abusos extremos que sofreu que lhe deu força e controle sobre sua vida. As violências continuam a acontecer com outras mulheres, são de todos os tipos e levam a diversas mortes: física, moral, psicológica, emocional, financeira e patrimonial. Sim, há inúmeras mortes para as mulheres que sofrem agressões, até para as que resistem fisicamente a elas, mesmo morrendo todos os dias devido aos traumas. Ser mulher na contemporaneidade é um risco diário e um exercício contínuo de sobrevivência.

A sexual é apenas uma delas. No topo da lista, incluo o epidêmico e atualíssimo feminicídio, mas há outra violação camuflada e abafada pela comunidade intelectualizada, protagonizada por homens em sua maioria. Trata-se da violação literária contra as mulheres que escrevem. Um abuso antigo, que remonta aos primórdios da implantação, no Brasil, das máquinas tipográficas, trazidas em 1808 por D. João VI. Desde esse período, e só para ficar no âmbito nacional, as mulheres que escreviam, muitas sem qualquer pretensão de publicar, já eram relegadas ao mutismo das aspirações literárias. Ou vamos acreditar no “conto da Carochinha", que mulher nunca soube escrever? Por muito tempo, acreditou-se nesse absurdo, fosse por imposição do patriarcado, fosse pela falta de acesso, ou simplesmente pela proibição aos estudos e aos livros, “estudar era caro ou pensar não era coisa de mulher”.

Imagem Pinterest
Com o tempo, e graças a tantas autoras corajosas e brilhantes, dispostas a enfrentar o patriarcado, as mulheres persistiram, resistiram e continuam escrevendo à revelia desta infâmia. Hoje, um número considerável e insurgente de mulheres aponta na Literatura Contemporânea com obras importantes, escrevem mesmo alquebradas por insultos machistas, tentativas de desmerecimento e apagamento dos seus trabalhos literários, muitas vezes produzidos à base de jornadas triplas, sem descanso ou redes de apoio, dividindo seu tempo entre filhos, cuidados domésticos, maridos descontentes, trabalhos mal remunerados e lidando com as incômodas “crises de impostora” durante a madrugada. Não há pagamento, muito menos garantias. Contudo, as mulheres escrevem até as mãos sangrarem no teclado de um notebook, revisando o texto até o dia amanhecer, exaustas, só para recomeçar a rotina doméstica e profissional no dia seguinte. A esta dura rotina, agrega-se outra tarefa relevante: enfrentar a baía de tubarões prontos ao ataque, disfarçados de editores e de críticos literários  não todos, obviamente, há gratas exceções – mas os tubarões são famintos, e se alimentam das fragilidades. Cabe às mulheres não se deixarem abater por análises rasas e não fundamentadas dos seus originais de romances, de poemas, de resenhas, de ensaios, etc. Compete às mulheres buscar a maestria do ofício, sem se deixar contaminar pelo veneno corrosivo de uma depreciação precipitada, capaz de levar autoras principiantes, e algumas veteranas inseguras, a abortarem precocemente suas carreiras literárias. Esta é, sem dúvida, mais um tipo de violência para nossa longa lista. 

Imagem Pinterest
Aquelas que sobrevivem a esta Via Crucis de provações, escapando dos tubarões, das armadilhas da auto sabotagem, da falta de incentivos, certamente conseguem um lugar nas editoras independentes, publicando seus livros, ainda com a missão árdua de vendê-los, divulgá-los, consigná-los em livrarias simpáticas e meios confiáveis para receber, com sorte, um percentual ínfimo por livro vendido. Essa é a nossa realidade, a das autoras que publicam de forma independente, e quer saber mais? Temos muito ainda para falar. Trazemos novas temáticas ao mercado editorial, falamos de útero, abusos, violações, amores livres, nossos corpos, nossos prazeres, poemas eróticos, rasgamos o ventre e abortamos dores seculares, remontamos nossas histórias em romances e novelas. Nossas obras não podem, e nem serão preteridas eternamente em concursos e prêmios literários por pareceristas não capacitados ou gabaritados para exercer a função. Denunciaremos o desprestígio, a intimidação e o silenciamento de nossas vozes, assim como os extermínios de povos originários e das minorias periféricas, das deflorações dos corpos e das florestas, dos abandonos paternos, das alienações parentais, dos preconceitos de gênero, racismo e misoginia. Escancaramos as portas lacradas das alcovas sombrias e revelamos os segredos mais escondidos e vis do patriarcado, porque também nós temos direito à palavra.

Texto pronto e uma alegria íntima, legítima e inconfessável corre pelo corpo e pela alma, com a sensação de ter caminhado por um deserto quente e inóspito, ansiando por publicar e encontrar nossos leitores, sabendo que temos nas mãos escritos dignos de serem lidos e apreciados. Assim nos mostrou Gisèle Pelicot, assim desmontamos o teatro vulgar da hipocrisia, revelando que o mundo masculino não pode sobreviver na impunidade dos arredores domésticos, nos pactos de silêncio e no acobertamento mútuo. Sim, escrever é muito perigoso, principalmente se essa escrita é feita com o sangue e a mente de uma mulher. Gisèle Pelicot nos encorajou a lutar e continuar a escrever; mesmo aterrorizadas, em fúria, despidas e violadas. Porque nossa escrita é única, vem impressa sobre nossos corpos e dores, na pele, não em armaduras frias ou máscaras de persona, mas iluminada por ideias que acendem a alma.

♡_________________◇_________________♤________________♧_________________♡


Rita Alencar Clark
foto: arquivo da autora

Escritora, poeta, cronista, colunista 

do blog feminarioconexoes.blogspot.com 

Colaboradora do Coletivo Enluaradas Amazônia

sexta-feira, 5 de junho de 2026

UM CONTO DE SANDRA SAN'TOS

A vizinha do andar de cima

Por Sandra San'tos

Imagem Pinterest
O sol a espreitava entre as folhas da jabuticabeira no quintal do vizinho. Seis horas da manhã e ela esteve acordada por quase toda a noite. Marta estava de mau humor. Seu relógio biológico andava fora dos eixos: não dormia, a menstruação estava irregular, a fome desaparecera, o intestino andava preguiçoso, o pensamento mostrava-se confuso, e seu humor irritadiço. Creditava sua má sorte à insônia e culpava a vizinha do andar de cima por falar alto a noite toda, todas as noites. Inconformada, apelidou-a de “a louca do telefone”.

Sem sair da cama, contabilizou mentalmente os sons matinais: a vizinha à esquerda, gritaria com os filhos na luta de impedir que se atrasassem para a escola. - Bem na hora! Agora começará a algazarra dos papagaios... Ué! Hoje se atrasaram... – Quase riu. A sinfonia dos papagaios se dava por conta das jabuticabas, eles comiam até cansar, e iam embora. - Esses sim são felizes, fazem o que querem, quando lhes dá na telha. – concluiu, resignada em arrumar-se para mais um dia modorrento de trabalho na repartição.

Havia se mudado há três semanas, após assinar o contrato de aluguel em tempo recorde. Não pesquisara muito. O apartamento bem localizado e com bom preço tinha que ter um defeito, nesse caso: a vizinha notívaga e faladeira. Marta nunca a vira, mas pelo timbre de voz grave e metálico, imaginava uma senhorinha, fumante ou ex-fumante.

- Isso é novidade. Inferno! Já é dia e ela começou cedo. Agora até durante o dia? Com quem ela tanto conversa? Será que é com uma pessoa só? Será que não percebe que os outros seres humanos do planeta querem dormir? – Engoliu a raiva insone, e enfiou a escova cheia de creme dental na boca.

O dia seguiu arrastado e Marta chegou do trabalho por volta das vinte horas, desejando que o importante assunto da vizinha, por fim estivesse resolvido. Despejou sobre a mesa da cozinha algumas sacolas de compras: produtos de limpeza, uns copos novos e insumos para preparar um lanche, já que não tinha ânimo para o fogão. Ainda não se acostumara a cozinhar apenas para ela.

Ouviu um LP do Chico, comeu seu lanche, tomou banho e decidiu ir para a cama mais cedo. Silêncio, luzes apagadas. Quase sentiu-se feliz. Ajeitou-se nos lençóis lavados com um amaciante de perfume de longa duração. (Pelo menos é o que prometia o anúncio publicitário). Relembrou as atividades do dia, planejou mentalmente o próximo, e fechou os olhos que já lhe pesavam. Silêncio...

- Eu já disse, então... É... Eu tô te falando. (Pausa) Eu não vim pra esta cidade à toa. Eu sempre tive um propósito. Todos temos que ter um! É... eu falei, mas ela não ouve.... (Pausa) Simmmm... É o que eu acho... É, é.... Então... Eu tô... verdade, tudo isso é muito importante. – bradava a mulher entre as pausas de seu interlocutor.

- Não é possível! Ela esperou eu me deitar pra começar a falar? – Marta arregalou os olhos sentindo o coração disparar movido pela raiva. Apertou o travesseiro sobre os ouvidos tentando, em vão, abafar o som da conversa. Eu vou filtrar, não vou ouvir. Não me interessa. Será que só eu tô ouvindo? Não é possível que ninguém mais além de mim a ouça. Vou falar com o síndico. – Desvencilhou-se bruscamente das cobertas e ganhou a janela.

A noite avançou pela madrugada, a longa confabulação da vizinha também. Marta acreditou que haviam sido pelo menos três interlocutores diferentes, e com o último, o diálogo evoluíra para uma briga, pois passou a ouvir murros, possivelmente na mesa ou nas portas de algum armário. Foi uma noite regada a palavras de raiva e passos a atravessar o piso, no caso, o teto de seu quarto. Teve ímpetos de soltar um palavrão libertador, de mandá-la calar a boca, de gritar que precisava dormir. Talvez se reclamasse bem alto, algum outro vizinho a apoiasse na reclamação. Pensou, ameaçou, e não o fez.

Imagem Pinterest
No auge dos seus 46 anos, viver sozinha era novidade. Recém-divorciada, não se acostumara a ter mais espaço na cama, ou com a ausência de Alcides e seu sono da morte. O homem roncava tanto que, por vezes, apenas seu ronco lhe trazia a certeza de que ele estava vivo. Quantas noites mal dormidas por culpa da apneia do marido num prenúncio de morte por asfixia. Agora, pela lógica, deveria dormir melhor, afinal estava sozinha.

Como não conseguia dormir, passou a distrair-se tentando entender a conversa da vizinha. Calculou o grau de paciência que teria o interlocutor do outro lado da linha. - Essa deve ser alguma parenta... Esse deve ser o chefe. Será que ela ainda trabalha? Bem pode ser que trabalhe com algum tipo de atendimento telefônico... mas existe Telemarketing de madrugada? Vai ver, conversa à noite por conta do fuso horário. Deve ser isso: os filhos moram fora, e só consegue falar com eles de madrugada. – Sentiu vergonha ao pegar-se com os ouvidos na parede.

Passava os dias sonolenta, até que cedeu aos soníferos; primeiro os naturais, depois os tarja preta que conseguiu com uma colega. Graças a esses, por uma semana viu resultados, mas foi só. A insônia venceu. Tudo o que lhe restara era aquela voz incansável. - Chega, vou tomar uma atitude, assim não dá. Amanhã bato na porta dela.

A privação do sono permitiu que a vizinha preenchesse todas as horas de seu dia, provocando dores de cabeça e a queda de rendimento no escritório. Marta estava um caco e aos poucos, a delusão expulsou a razão, abrindo caminho para toda a ordem de pensamentos intrusos e infundados. - E se essa mulher nem existir? Será que sou só eu que a ouço? Tô enlouquecendo, preciso dormir. - Esgotada e confusa, começou a faltar no trabalho.

Sentindo a vida lhe escapar pelas mãos, considerou tomar alguma atitude, antes que a loucura se apossasse de sua mente. Cogitou ligar para Alcides, mas não lhe daria essa prova de fraqueza. - Eu consigo, amanhã eu resolvo. - O amanhã passava para depois, sempre depois.

Uma tarde, após experimentar um período de longo silêncio, encheu-se de coragem. - A infeliz deve estar dormindo... então eu vou acordá-la. Que sinta o gostinho de ser incomodada. - Seria sua pequena vingança.

Subiu o lance de escadas e parou em frente à porta sentindo o coração bater cada vez mais rápido. Observou uma enorme quantidade de pó sob o batente, e teve a impressão que há muito tempo ninguém passava por ali. Sentiu um misto de raiva e dó da figura que enfim conheceria. Dó, pois afinal experimentavam da mesma bebida: a solidão. E sentiu raiva de si mesma pois, de alguma forma, identificava-se com uma pessoa, no mínimo, desequilibrada.

Engoliu em seco e bateu várias vezes. Quando pensou em desistir, a porta se abriu revelando a pequena figura de uma senhora na faixa de seus 70 anos. Trajava roupas surradas, os cabelos em desalinho, e um par de olhos opacos.

Em frente a culpada de sua tortura, Marta desmontou, deixando que as palavras de seu discurso ensaiado fugissem pela escada de serviço.

- O que deseja menina? – indagou a figura que não condizia com aquela voz potente de suas noites mal dormidas.

- Eu... eu preciso falar com a senhora. Me desculpe simplesmente bater em sua porta, mas, mas...

- Meu nome é Mirtes, e você quem é? – perguntou.

- Eu... Meu nome é Marta, e moro no apartamento abaixo do seu. Queria dizer que... bem, se a senhora precisar de alguma coisa, é só chamar, tá?

- O que mais você quer, menina? - perguntou a mulher, sem nenhuma emoção visível.

- Não, nada não. Era só isso mesmo. Me desculpe a intromissão... – Assim como seu discurso, sua coragem também descera pelas escadas, impulsionando-a seguir pelo mesmo caminho. - Como sempre me acovardei. Marta, você é uma idiota covarde.

Imagem Pinterest
Na esperança de reclamar com alguém, correu escada abaixo, dirigindo-se à portaria. Se não conseguia entrar em um conflito, então o caminho seria uma reclamação formal. Chegando ao térreo, abriu apressadamente a porta dando de cara com o porteiro, que conversava animadamente com um jovem casal.

- Oi, Dona...

- Marta. - respondeu prontamente ao porteiro.

- Desculpe, mas ainda não decorei seu nome. É a idade pesando. – justificou encabulado pela gafe, e sorriu mudando de assunto: - Esses são seus novos vizinhos. Estão de mudança pro número 7, exatamente um andar acima do seu... Vocês vão gostar daqui, só tem gente boa. Sejam muito bem-vindos. – completou dirigindo-se ao casal que já se afastava.

- Sim, cla...claro, sejam bem-vindos. – disse Marta, que por inércia, não desmanchou o sorriso que havia pregado na cara.

- O número sete... está vazio? – perguntou incrédula.

- Ah, sim, já tem mais de um ano. Desde que Dona Mirtes faleceu... Que Deus a tenha. A senhora está bem Dona Marta? Posso ajudar em alguma coisa? – indagou o porteiro fitando-a com ar preocupado.

- Não. Está tudo bem... vou subir, eu esqueci a carteira em casa.

Correu para o elevador e sentiu um grande alívio quando a porta se fechou escondendo-a do porteiro que ainda a observava. - Será que a louca sou eu? Não é possível! Eu a vi! Eu falei com ela! - Olhou-se no espelho do elevador como a esperar uma resposta. Porém, Marta não reconhecia a imagem da pessoa que a fitava de volta.

Entrou em casa, jogou-se no sofá, e imóvel assistiu o dia virar noite. - Ela vai começar a falar, eu sei que vai. Fale Dona Mirtes, não me importa com quem, apenas fale. - O sangue lhe fugia, o suor escorria por seu rosto, enquanto as longas conversas de Dona Mirtes lhe invadiam a memória.

Estranhou o som do silêncio.

- É isso... tenho que ir pra cama, aí ela começa... Se eu deitar e tentar dormir ela começa. Então que venha Dona Mirtes... Que venha, pois estou pronta para a senhora.  

Deitou-se como quem arma uma estratégia de guerra.

- É... Eu sei. Não disse que seria assim? - Mirtes atacava novamente.

-  Eu avisei, mas... ela não me ouve... As coisas têm que mudar! Não... não fala besteira, eu sei do que estou falando, eu já passei por isso... Acho melhor marcarmos uma reunião...

Sentindo como se tivesse ganho uma batalha, Marta de um pulo colocou-se em pé, e apressada, avançou pelas escadas. Preparou-se para bater, mas desta feita, a porta abriu-se antes da primeira pancada.

- O que você quer, menina Marta? – perguntou a mulher, fitando-a com seu olhar sem viço e um sorriso no canto da boca.

- Apenas conversar, Dona Mirtes... Só quero conversar. Posso?

- Entre, menina... entre. Eu já lhe esperava. – respondeu a vizinha fechando a porta atrás delas.

E assim, no andar de cima, a solidão quebrou o silêncio.


FIM

♡__________________◇_________________♤________________♧_________♡

Arquivo da autora


Sandra A. Santos é pedagoga com especialização em Educação Ambiental, ambientalista apaixonada pela natureza e pela vida em todas as suas formas. Hoje aposentada, dedica-se à literatura, escrevendo contos, romances e poesias que giram em torno do universo feminino. Com trabalhos publicados em antologias no Brasil e na Argentina.

sexta-feira, 6 de março de 2026

UM CONTO DE SANDRA SAN'TOS

A   R E V O L T A   N O   D E S C A R T E

POR SANDRA SAN'TOS

Imagem Pinterest
Eu não estava sozinho; junto a mim, muitas coisas familiares: livros, revistas, salmos da igreja, roupas, algumas ferramentas de pedreiro, um par de óculos, e outras que não conseguia divisar. Era um lugar escuro, cheio de ruídos desconhecidos, além de um cheiro modorrento a causar-me desconforto.

 Tem mais alguém acordado? Sabem que lugar é esse? – falei, dirigindo-me aos companheiros de destino incerto.

 Eu acho que estamos no lixo. Agora calem-se, porque alguém se aproxima. – respondeu um objeto abaixo de mim.

Seguiram-se sons de sacos se abrindo e caixas sendo rasgadas. Um dos visitantes, considerei que seriam ao menos dois, assoviava um trecho de uma música desconhecida. Sim, só poderíamos estar no lixo, pois conforme andavam, o mau cheiro também era revirado.

 Caramba! Quanta tralha! Só tem porcaria aqui, tô achando que é perda de tempo. Olha isso: livro, remédio, roupas rasgadas, roupas cortadas... Quem jogou não queria que ninguém pegasse. - O som de coisas quebrando denunciava a raiva por não encontrarem nada de valor, ou que lhes tivesse serventia.

 É isso o que acontece com as coisas dos mortos amigo: vão para o lixo. Se eu fosse tua mulher, botava você no lixo. Lugar de tranqueira é no lixo mesmo. – riu da própria piada e completou antes que o amigo lhe respondesse com alguma ofensa:

 Ei, olha só, eu achei um rádio. Eita, que é uma velharia! Será que funciona essa merda? Se não funcionar, vendo as peças e já no lucro.

 Pode ser, mas vambora que eu tô com fome. – retrucou o outro.

Assim que se afastaram, teve início uma verdadeira balbúrdia entre os objetos que jaziam comigo no descarte.

 Isso não é justo, eu ainda estou em boas condições. - gritou o livro de teologia me fazendo duvidar da sua religiosidade.

Imagem Pinterest
 Vamos balançar a caixa com força, todos juntos até virar, assim vão ver que as coisas de valor estão aqui. – sugeriu a chave de fenda enferrujada, que fora enrolada em um lençol.

 Pra quê minha senhora? Sairemos andando? É isso o que sugere? – estamos velhos e sem uso já há algum tempo. Quem estava em boas condições foi destruído antes de ser colocado aqui. Não percebe que nem pra doação nós servimos? – retrucou um disco quebrado.

A essa altura da discussão, a camisa estava em prantos, derramando linhas por todos os lados, enquanto o livro de marcenaria se desesperava com a falta de suas folhas iniciais.

 Quem fez isso estava com raiva. Não se rasga um livro, isso é absolutamente revoltante. – completou o livro de teologia.

Arlindo, meu dono, provavelmente morrera. Eu não tinha mais dúvidas. O burburinho de meus companheiros me cansava, então preferi o silêncio; afinal, eu era o mais velho daquela caixa. Era hora de fechar os olhos, ficar quieto e aceitar meu fim. Me calei, e me abstraí de mim mesmo escutando a chuva que batucava o exterior de nossa caixa.

Meu humano costumava passar muito tempo calado, comigo nas mãos, pensando em sabe-se lá o quê, apenas me observava. Ele me mantivera por hábito e não por necessidade; talvez até por afeto, pois eu, já não exercia minha função há bom tempo. Além de ser objeto de contemplação para Arlindo, eu também servira de brinquedo para sua neta, a menina Clara, que tinha o talento de lhe reacender o olhar.

 Clara, devolve pro vovô. Se você derrubar, vai quebrar, cuidado. – falava mesmo sabendo que eu era um caso perdido. Para mim, não havia mais conserto.

Era isso, Arlindo morrera e eu morreria também, ponto final. Preferi manter-me alheio àquela conversação inútil.

 Talvez ainda tenhamos uma chance. Tem muita gente precisando de algo útil. – arguiu uma luminária antiga.

 Depende do que você chama de útil. – completou o martelo sem cabo.

 Deixa de soberba e verá, sou um bom livro, edição caprichada. Logo estarei servindo a olhos inteligentes.

 Fiquem quietos e ouçam, está chegando alguém... Com passos pequenos, se for criança, não se interessará por nenhum de nós. – interrompeu a chave de fenda.

Era Clara, a neta de Arlindo. A menina passou um bom tempo abrindo e fechando caixas. Vasculhou uma por uma, até que abriu a nossa. Retirou objeto por objeto, mantendo em uma das mãos uma revista da igreja que o avô frequentava, enquanto a outra penetrava no desconhecido. Senti quando fui levado para fora e recostado ao seu peito.

 Clarinha, Clarinha! O que está fazendo minha filha? Porque tá revirando o lixo? – gritou sua mãe do outro lado da rua.

 Mamãe, são as coisas do vovô. Eu preciso pegar tudo de volta.

 Filha, foi sua avó quem jogou tudo isso fora. Ela não vai ficar feliz se souber o que você tá fazendo... E eu, também não quero essas coisas lá em casa.

 Mas, mãe... por que a vovó colocou as coisas do vovô no lixo?

Imagem Pinterest
 Bem, sua avó e seu avô... Não se davam nada bem. Mas, esse é o tipo de coisa que você só vai entender quando ficar mais velha. Agora vem, larga essas coisas aí, que não quero irritar a sua avó. – falou a mãe encerrando o assunto.

A menina havia chafurdado no que restara do avô. Aquelas coisas tinham enorme valor para ela; mesmo assim, antecipando um embate inútil, obedeceu. Não sem antes esconder-me em seu bolso. Devolveu as revistas para a caixa e fechou-a com cuidado, despedindo-se não apenas de coisas, mas de uma pessoa que lhe faria muita falta.

 Adeus vovô – disse em voz alta, sem entender a lógica dos adultos.

Por muito tempo fui seu segredo e dos meus companheiros de caixa, nada mais eu soube.

Passei muito tempo escondido entre livros, roupas, fotos e coisas importantes, até a menina se sentir segura para assumir ter me tirado do lixo.  Quando saí da clandestinidade, fui polido e ganhei uma corrente nova. Nunca mais andei em um bolso, pois esse era um costume de Arlindo. Fui contemplado com um relicário e hoje resido sobre o piano de Clara, de onde a vi crescer e se tornar moça. Vi sua formatura, a vi se casar, assisti a muitos outros momentos importantes, felizes ou nem tanto.

Ela nunca mandou me consertar, porque eu sou uma extensão de seu avô, e ter-me por perto lhe basta. Dele, herdou o hábito de me contemplar longamente, pensando em sabe-se lá o quê. Tal avô, tal neta.

O tempo ensina, e de tempo eu entendo, mesmo que meus ponteiros aposentados mostrem o passar das horas de uma forma diferente. Um dia, Clara também não aparecerá mais e, quem sabe, talvez um dia ela tenha uma neta, e essa me guarde, e aprenda a admirar esse velho relógio que registra em silêncio a caminhada de gerações.

♡__________________◇_________________♤________________♧_________________♡

Arquivo pessoal da autora

Sandra A. Santos é pedagoga com especialização em Educação Ambiental, ambientalista apaixonada pela natureza e pela vida em todas as suas formas. Hoje aposentada, dedica-se à literatura, escrevendo contos, romances e poesias que giram em torno do universo feminino. Com trabalhos publicados em antologias no Brasil e na Argentina.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

REMINISCÊNCIAS INFANTO-JUVENIS, POR MARIA DO CARMO SILVA

 "No fim da tarde quando tudo se aquietava..."

Por Maria do Carmo Silva

Imagem Pinterest
"Das muitas coisas do meu tempo de criança, guardo vivo na lembrança...” são versos de Pe. Zezinho-SCJ, escritor e músico, da canção Utopia (1990), que me trazem as memórias testemunhadas e vivenciadas na minha infância cujos pilares eram os valores humanos, as relações familiares e escolares, o convívio afetivo com os vizinhos e o lazer.

Pedir a bênção aos pais, padrinhos, avós, tios e às pessoas mais velhas, independente de ter vínculo familiar, era uma prática cotidiana respeitosa e afetuosa que ultrapassava o período da infância, estendendo-se aos jovens e até aos adultos já casados, que com reverência estendia a mão direita pedindo a bênção. “A bença a Dona Maria, a bença a Seu José",  sendo a bênção ofertada de forma calorosa com um “Deus te abençoe, Deus te dê uma boa sorte, Deus te faça feliz".

No ambiente doméstico, o respeito e a obediência aos mais velhos era regra geral: os filhos mais velhos ajudavam os pais no cuidado com os irmãos mais novos - ressaltando que normalmente a prole era extensa -, auxiliavam a mãe nas tarefas domésticas e em outras atividades no campo, tudo sob o olhar dos mais velhos que já gerava intimidação e um alerta para a obediência.

“No fim da tarde quando tudo se aquietava...” - ainda soa a canção de Pe. Zezinho. Ao final da tarde, todos se reuniam, sentados no banco de madeira, normalmente da cozinha, ao redor do fogão a lenha, para ouvir as histórias e causos contados pelos mais velhos. O candeeiro iluminava o ambiente e o calor das brasas do fogão aquecia a prosa. À noite, era comum os pais contarem histórias para os filhos. As crianças ouviam, em silêncio, as lendas do lobisomem e de outros seres estranhos, ficavam apavoradas sem reagir e nem interagir. 

Imagem Pinterest
Na cidade ou no campo a diversão das crianças ficava por conta das brincadeiras no terreiro, onde cantavam roda, pulavam corda, jogavam gude, baleado, amarelinha, brincavam de esconde-esconde, faziam piquenique, dentre tantas outras brincadeiras e, ao primeiro chamado do pai ou da mãe, retornavam para casa sem pestanejar. A vida fluía com alegria, simplicidade, serenidade e respeito.

À época, a tecnologia nem sonhava existir e os brinquedos eram artesanais, feitos pelas próprias crianças ou pelos pais com materiais reaproveitados ou retirados da natureza: cavalo de pau, panelas de barro, bonecas de pano, bolas de meia com enchimento de papel, carrinhos feitos com vasilhame de oléo ou de manteiga e com rodas feitas com borracha de sandálias.

A Escola era o “lugar do aprender”. Sentados em bancos de madeira, com olhar fixo no professor, no ABC e na cartilha, todos cumpriam suas tarefas e mantinham obediência ao professor da mesma forma que ao seus pais e aos mais velhos, tratando-o com o devido respeito, pois se lhes faltasse com ele,  seria severamente punido.

Na contemporaneidade, os valores humanos e as relações familiares estão quase que descartados, causando sérias e drásticas consequências à sociedade como um todo. A escola é para muitos, apenas um lugar de encontro com colegas, um lugar de distração. Reconhecê-la como espaço de produção e de aquisição do conhecimento não é regra geral.  Pedir a bênção aos mais velhos saiu de moda. A tecnologia trouxe brinquedos eletrônicos, bonecos que simulam seres humanos, ridicularizando-o com o desrespeito, a violência, a pornografia. A prosa e as brincadeiras com colegas, familiares e amigos foi substituída pela “comunicação virtual”, via redes sociais, espaço de “liberdade” e de “permissividade”.

O respeito, a solidariedade, a fraternidade e a humanização foram substituídos pela robotização dos humanos. Quais lições, histórias e memórias das crianças e jovens da sociedade contemporânea transmitiremos à posteridade?

☆_____________________☆_____________________☆


Maria do Carmo Silva -  Natural de Mutuípe-BA; Professora, poeta e escritora. Licenciada em Geografia, graduada em História; Especialista em Gestão e Educação Ambiental, Estudos linguísticos e literários e Comunicação, Cultura Organizacional e Tecnologia. Autora dos livros de poesias: "Retalhos de Vivências", "Recomendações Poéticas", "Leituras e Releituras", "Colheitas Ancestrais & Primaveras". Tem participação em diversas Antologias Poéticas nacionais e internacionais. Colunista no site de notícias Tribuna do Recôncavo e colaboradora do blog Feminário Conexões. Integrante dos Coletivos Mulherio das Letras e Enluaradas.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

NÃO ESTAMOS SOZINHAS!

Imagem Pinterest

"E, por que nos matam? Porque somos mulheres." 

Cara leitora, caro leitor!

Estamos às vésperas do Natal e nunca a presença do amor e da empatia se fez tão necessária! Convido aquelas e aqueles que se engajam no movimento feminista para esta reflexão, me embasando no poder da poesia, que grita e se expõe sem medo, à espera de que as palavras aqui reunidas encontrem eco e façam sentido a partir do poema ANUNCIAÇÃO (Margarida Montejano/2023):

Anuncia a mulher que labuta, que urra, que luta,

briga pelo pão, insiste contra o não e é o que pretende ser.

Anuncia! explica a mulher que abre a porta para o dia,

que enfrenta a rotina de se saber aflita.

Enquanto o infinito não vem, anuncia,

arregaça as mangas da avó, da mãe, da filha e grita:

Quem mandou matar Marielle?

Imagem Pinterest
E assim tem sido. Uma menina, uma mulher, duas mulheres, três, quatro, dez...  De acordo com o Mapa da Violência de Gênero, no primeiro semestre de 2025, 718 feminicídios foram registrados em todo o país  — uma média de cerca de 4 mulheres mortas por dia pelas mãos de um homem, um feminicida. No mesmo período foram contabilizados 33.999 estupros contra meninas e mulheres, na média de 187 casos por dia, realizados no interior de suas próprias casas e, na sua maioria, por familiares e conhecidos da família. A cada minuto, microviolências ocorrem sobre a vida, a mente e o corpo de uma mulher.

E, por que nos matam? Porque somos mulheres. Porque ousamos pensar e desafiar a ordem estabelecida que enfatizou e enfatiza que sempre foi assim e que assim deve ser. Recusamos a ideia de que existem papeis específicos para cada gênero e que estes devem ser propalados e perpetuados, pelos séculos dos séculos.

Essas pseudocertezas, repetidas ao longo do tempo de maneira intencional pelas instituições, família, igreja e sociedades, produziram e produzem, o empoderamento dos homens, engendrando uma estrutura social baseada no modelo patriarcal hierarquizante. Nesta forma de atuar historicamente sobre as gerações, foram e vão se solidificando as convenções, tendo como base formativa a misoginia, sustentada pela prática de ações sexistas e machistas de homens frágeis e fracos emocionalmente. Forjados para serem fortes, são eles educados para não desenvolverem em si o afeto, a empatia, o cuidado. Homens que, seduzidos por um suposto poder e força, não conseguem lidar com contrariedades e, por isso, violam a consciência, ferem, estupram, desqualificam, desfiguram o corpo e o rosto e, por fim, assassinam as mulheres com requintes de perversão e crueldade.

Imagem Pinterest
Violência abjeta, praticada na maioria das vezes contra aquelas as quais eles, valendo-se de um pronome possessivo que lhes garante uma pretensa superioridade, as chamam de “sua”: “sua mulher”, “sua filha”, “sua mãe”, “sua irmã”, “sua amiga”, “sua colega”... Parece que submetê-las às formas mais vis de violência configura-se num direito, porque as consideram um mero “objeto de posse”, algo de sua propriedade, de modo que lhes é permitido fazer o que bem entenderem com elas, sejam maridos, namorados, filhos, parentes, amantes...

Sem escrúpulos, muitos compartilham nas redes sociais sua valentia desprovida de qualquer traço de empatia e de humanidade, expondo a crueldade do ato em si, gratuito na aplicação e rentoso na execução, pois algoritmos sobem e monetizam. Assim quanto mais brutal e degradante for a ação criminosa sobre o corpo da mulher, mais rentável será e maior repercussão terá entre os grupos de homens que propagam o ódio às mulheres.

É uma realidade amedrontadora, que se articula com base no interesse econômico, visando a manutenção do patriarcado e é amplamente disseminada pela força midiática. Em 2023, num evento em Campinas, a atriz e cantora, Elisa Lucinda, comentou sobre esses acontecimentos: “Colocamos filhos no mundo para nos matar”. Esta afirmação contundente encontra eco na literatura e na voz feminina gritando que, quando uma mulher é assassinada, todos, de algum modo, morrem! 

Imagem Pinterest
Assim, somos todos os dias sacudidas pelo noticiário de mais mulheres sem vida. Nos assustamos e nos indignamos com a atrocidade desses atos e com os vergonhosos índices de feminicídio, denominando aqueles que os praticam como monstros e insanos. Contudo eles não são nem uma coisa nem outra: eles nada mais são do que homens com a masculinidade exacerbada e com dificuldade em gerir a própria sexualidade. Apoiam-se na toxidade das ideias neles incutidas como verdades e se portam como se naturalmente lhes coubesse o papel de dominar. Entretando, por trás dessa virilidade intensificada pelo machismo escondem-se sujeito débeis, frágeis e impotentes que não suportam o direito de uma mulher ser, estar, existir e ter autonomia para dizer “sim” e “não”. Logo, precisam se valer da força física e da intimidação. Segundo a advogada criminalista, Erika C. Furlan, “O avanço em direitos e garantias para as mulheres incomoda o público masculino hétero, porque hoje a mulher não aceita mais qualquer tipo de relacionamento [...]”. Ela reage.

Por isso essa estrutura misógina, diz Virginia Woolf, teme o Feminismo, porque sabe que este movimento social, político e ideológico reivindica a igualdade social, econômica e política entre homens e mulheres, a autonomia feminina e o fim da violência contra a mulher. Essa luta carrega em seu ventre o sangue e a força ancestral de mulheres que resistiram às atrocidades por eles já cometidas e que, por conta disso, tem o poder de vislumbrar relações que reconheçam incondicionalmente os direitos da mulher.

Nesse cenário desafiador não tem como não apostar na educação, pois o conhecimento esclarecedor se transforma no instrumento eficaz para combater o ódio. Erika C. Furlan acrescenta que “O importante é sempre prevenir, o que é muito difícil numa sociedade em que o machismo é estrutural e a disseminação de grupos conservadores misóginos alimentam o imaginário e o ideário de homem macho varão provedor e mulher submissa. Deste modo, a formação de crianças desde cedo é o caminho mais seguro para se desconstruir, através do desenvolvimento da consciência histórica e, sobretudo crítica, o quanto essas práticas seculares nos violentaram e subjugaram.

Imagem Pinterest
Não se pode omitir que a misoginia é o preconceito contra as mulheres mais antigo que existe na trajetória da humanidade. Mais que ódio às mulheres, é um sentimento que emerge como uma construção histórica pautada na hierarquia dos sexos, em que os homens são tidos como seres superiores e, por conta dessa crença, as mulheres que colocassem em risco essa estrutura hierárquica deveriam ser punidas. Diante dessa perspectiva calcada no ressentimento, na raiva e medo de perder privilégios, práticas como o machismo e o sexismo tornaram-se seus principais difusores.

É preciso entender bem esses conceitos. O machismo se revela por comportamentos, opiniões e sentimentos que consentem e validam a desigualdade de direitos entre os sexos. Por isso admite que a mulher, por ser considerada inferior ao homem, possa ser subjugada motivando a violência contra ela e a sua repetição, via de regra, pode conduzir ao feminicídio. Por sua vez, o sexismo é a crença de que homens e mulheres devem ocupar papéis específicos, os quais são determinados com base no sexo, envolvendo brinquedos, atividades, cores e tipos de roupa etc. Ao se desobedecer ou contrariar esses padrões, se reforça e se estimula o ódio às mulheres, justificando condutas amparadas na convicção de que elas necessitam ser controladas e punidas.

Frente à tragicidade que esses episódios representam, torna-se indispensável que a misoginia seja considerada crime hediondo inafiançável e que o controle rigoroso das redes sociais possa se constituir num instrumento capaz de neutralizar e combater os estímulos à violência de gênero. Porém, mais importante é a implementação nas escolas de projetos educacionais que vise, desde a infância, uma sólida formação embasada na proteção dos direitos da mulher, conforme o Art.5º da Constituição Federal de 1988.

Imagem Pinterest
E quanto a nós mulheres, não esquecermos que estamos em rede e em rede enredadas estamos. Cabe-nos estar coletivamente em contínua vigilância na luta por salvaguardar direitos já conquistados e por assegurar aqueles que ainda estão e estarão em pauta, a fim de que nossa dignidade seja integralmente reconhecida. Daí a importância de se fazer valer o fato de que somos maioria e eleger candidatas e candidatos efetivamente comprometidos com políticas afirmativas que visem a justiça e equidade social e o combate à desigualdade de gênero. 

Não se pode baixar a guarda jamais, pois a estrutura patriarcal é ardilosa, não dorme nunca e está sempre à espreita para nos devorar e submeter com as ferramentas de que dispõe.  O demônio que estupra e mata mulheres e crianças é um homem que teme a convivência em condições de igualdade, a empatia nos relacionamentos e a força feminina. Nossas Ancestrais estão em vigília constante nos inspirando a renovar nosso poder intuitivo e a força vital de nossas entranhas!  Não desanimemos! Não estamos sozinhas!

☆_____________________☆_____________________☆

Arquivo da autora
Margarida Montejano, mora em Paulínia/SP. É Poeta e escritora feminista; Func. Pública na Secretaria Municipal de Educação de Campinas. Defensora ativa dos direitos da Mulher, sendo membra do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Campinas; Coordenadora do Projeto Bem-Me-Quero: Empoderamento Feminino e Igualdade de Gênero e, Produtora do Canal Literário – N’outras Palavras –  histórias que inspiram, no Youtube. Autora dos livros Fio de Prata - Ed. Siano (2022); Chão Ancestral, TAUP Editora (2023) e dos livros infanto juvenis A Poeta e a Flor e A Poeta e a Sabiá, pela Editora Siano. (2024). Para contatar com a autora: @margaridamontejano.escritora

Feminário Conexões, o blog que conecta você!

A PALAVRA INSUBMISSA: O PODER DA ESCRITA NEGRA, POR CARLA NEPOMUCENO

«A nossa escrevivência não é para ninar os da casa-grande, é para acordá-los dos seus sonos injustos»    Conceição Evaristo Por Carla Nepo...