sexta-feira, 8 de maio de 2026

UMA CRÔNICA DE MARGARIDA MONTEJANO

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REATANDO O CORDÃO

Ela me amou primeiro.
Eu a amei no segundo segundo.
Construímos juntas
nossa história de Amor.

Por Margarida Montejano

Cara leitora, caro leitor! Sobre a maldade impressa e expressa em atos e palavras contra a mulher, os animais, a natureza, compartilho está crônica com vocês!

Minha mãe aprendeu com a mãe dela, que aprendeu com a avó, que aprendeu com a tataravó… que aprendeu com a Mãe Terra que o cordão umbilical cortado ao nascer, um dia, pela força da palavra, será reatado. 

E, antes mesmo de eu aprender a falar, minha mãe já tomava o cuidado de me ensinar a ler. A ler o dia e a noite. A interpretar a chuva e o vento. A admirar o sol, a flor, as árvores e o mar. A pensar antes de falar e que, estranhamente, pensamento e palavra moravam no coração!  Que vida e morte andavam de mãos dadas. Eu só ouvia.

Dizia ela com palavras de bem-querer, que a vida se constrói aos poucos e, com os pedacinhos do tempo e das palavras que destinamos às plantas, aos bichos, às gentes e…, devagarinho completava… “às criancinhas”. Insistia em falar que nós, no uso do tempo e das palavras, tecemos a forma de nossa morte.

Eu não entendia nada, mas achava tudo muito lindo. No som melodioso das palavras tudo, segundo ela, num dado momento da vida formaria um grande quebra-cabeça incompleto. Sim! Insistia em dizer que faltava, entre as coisas, bichos, flores, gentes e palavras, o meu pedacinho, a minha parte.

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Eu a observava por horas na lida do dia e, quando cansada, jogava água no rosto e lançava o olhar ao infinito, desfiando, no rosário invisível entre os dedos, o “Salve Rainha” a rezar. Ela, baixinho, pedia a Deus, com delicadeza, que protegesse a palavra. O pensamento, a boca, as mãos e o coração.

Não entendia eu que palavra ela pedia para Deus proteger. Curiosa, queria saber. Um dia, desses dias comuns que povoam as nossas lembranças, a peguei sussurrando ao pé do ouvido de meu pai.  Esforcei-me pra ouvir e, com muito custo, descobri, no sussurro e cumplicidade entre os dois, a palavra cantada a entoar gentileza.

Dizia ela a ele: - Seja gentil! Pense bem! A vida de mulheres, dos bichos, das florestas e rios, pede cuidado.  Cuidado com pensamento e linguagem. Ambos moram no coração! Cuide, ao falar! A palavra retorna insana a quem mal a profana! Numa breve pausa, continuava ela: palavras não foram feitas para agredir ninguém. São ondas sonoras através das quais os sentimentos, maus e bons, vão e vêm. Cuidado! Nosso cordão umbilical, vínculo com a vida precisa ser reatado.

Vida?   Será esta a PALAVRA?

P.S.: Ofereço esta crônica a todas as Mamães de todos os tempos. À minha, à tua...

Margarida Montejano - 10/05/2026

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Arquivo da autora
Margarida Montejano, mora em Paulínia/SP. É Poeta e escritora feminista; Func. Pública na Secretaria Municipal de Educação de Campinas. Defensora ativa dos direitos da Mulher, sendo membra do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher; Coordenadora do Projeto Bem-Me-Quero: Empoderamento Feminino e Igualdade de Gênero e, Criadora do Canal Literário – N’outras Palavras –  histórias que inspiram, no Youtube. Autora dos livros Fio de Prata - Ed. Siano (2022); Chão Ancestral, TAUP Editora (2023) e dos livros infanto juvenis A Poeta e a Flor,  A Poeta e a Sabiá, pela Editora Siano. (2024) e O Silêncio da Loba, TAUP, Editora (2025). Para contatar com a autora: @margaridamontejano.escritora

A LITERATURA COMO ABRIGO, ESPELHO E TRAVESSIA, POR ELIZABETE NASCIMENTO

Arquivo da autora

ALMA EM PALAVRAS: A LITERATURA COMO ABRIGO, ESPELHO E TRAVESSIA – A FORÇA DA ESCRITA FEMININA NA 14ª COLETÂNEA DA AJEB

Por Elizabete Nascimento

INTRODUÇÃO

 

[...] se não falo, é porque escrevo/a dor que não ousa contar.

Marly Lopes (In: Alma em Palavras, 2026, p. 61)

 

 

A literatura sempre foi um espaço de encontro, resistência e ressignificação. Em 2026, a Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB) reafirma esse compromisso com o lançamento da Coletânea Internacional – Alma em Palavras: A Literatura como Abrigo, Espelho e Travessia. Organizada pela presidente da AJEB Mato Grosso, esta obra marca a 14ª coletânea da associação que se consolida como um marco na literatura feminina contemporânea.

A coletânea foi oficialmente lançada durante o VI Encontro Nacional e V Encontro Internacional da AJEB/2026. O evento ocorreu na cidade de Sinop, no estado de Mato Grosso, entre os dias 09 e 12 de abril, e contou com a participação de aproximadamente 70 mulheres escritoras e jornalistas representantes de diversas regiões do país para celebrar a união, a troca de experiências e a força da produção literária e jornalística feminina.


Fonte: https://www.revistamaisbonita.com.br

A AJEB, nos seus 56 anos de existência, foi fundada pela visionária Hellê Vellozo Fernandes que carrega um longo histórico de incentivo à voz e ao talento das mulheres. Com o olhar voltado para a riqueza cultural de cada estado, a AJEB Mato Grosso celebra sua identidade tendo como patrona a professora, musicista, jornalista e escritora Dunga Rodrigues, uma figura inspiradora que reflete a força, a pesquisa, a cultura e a tradição das letras em Mato Grosso. É sob essa tradição de acolhimento e valorização que a atual edição se ergue ao unir o talento de mulheres de 20 regiões do Brasil (e de representações internacionais), formatando assim um grande mosaico cultural vibrante e representativo. Assim, convidamos Nelly Novaes Coelho (1993) e Simone de Beauvoir (1980) para legitimar o movimento da literatura contemporânea escrita por mulheres, focalizando na coletânea internacional da AJEB: Alma em Palavras – a literatura como abrigo, espelho e travessia (2026).

Coletânea Internacional AJEB/2026

A FORÇA DA ESCRITA FEMININA NA 14ª COLETÂNEA DA AJEB 

Escrever é uma forma de existir.

Clarice Lispector

 

 

A epígrafe acima abre a obra - Alma em Palavras: a literatura como abrigo, espelho e travessia (2026) – simboliza a trajetória da escrita feminina que alavanca a partir da [re]existência. Mais do que uma antologia de textos, a obra funciona como um documento de valor histórico e afetivo. A coletânea traz um mapeamento detalhado, apresentando:

  • A data de fundação de cada coordenadoria da AJEB;
  • O nome da presidente responsável por cada regional;
  • A trajetória das mulheres-jornalistas-autoras por meio de seus textos e de suas biografias.

Essa organização editorial permite que o leitor compreenda a capilaridade da instituição e a força do trabalho em rede realizado pelas jornalistas e escritoras em todo o território nacional. A pluralidade é a grande tônica da obra. A composição da coletânea abrange diversos gêneros discursivos, o que permite que cada escritora expresse sua singularidade e seu estilo próprio. Os leitores encontrarão um panorama diversificado que inclui:

  • Crônicas: Reflexões sensíveis sobre o cotidiano, as dores e as alegrias da vida moderna;
  • Contos: Narrativas envolventes que exploram o mistério, a ficção e a condição humana;
  • Poesias: Versos que tocam o coração e exploram a profundidade da alma feminina.

O título da 14ª coletânea da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB) possui uma forte carga simbólica e metafórica que nos permite compreender sua densidade, podemos cruzar o pensamento existencialista e feminista de Simone de Beauvoir com a crítica literária e os estudos sobre a literatura de autoria feminina de Nelly Novaes Coelho. A união desses dois olhares teóricos nos permite enxergar a obra não apenas como uma antologia, mas como um manifesto de existência, autonomia e acolhimento.

Em sua célebre obra O Segundo Sexo, Simone de Beauvoir discute como a mulher historicamente foi colocada na posição de “Outro”, confinada à imanência, enquanto o homem se realizava na transcendência. A escrita literária surge, nessa perspectiva, como um dos caminhos para que a mulher alcance sua própria voz e autonomia.

O Espelho (Identidade e Alteridade): Beauvoir argumenta que a mulher precisa se libertar das imagens construídas pelo olhar patriarcal sobre ela. O “espelho” no título da coletânea simboliza a ressignificação do eu: o texto literário é a própria mulher porque, permite que ela se veja como autora do discurso e de sua história.

A Travessia (Ação e Transcendência): Para a autora, a literatura é uma ferramenta de ação no mundo. A "travessia" representa o ato de romper os limites impostos pelo silenciamento histórico e transitar para a transcendência, onde a mulher se torna dona de seu destino e de suas narrativas. “Não se nasce mulher, torna-se mulher.” (Beauvoir, 1980, p. 9)

 

A renomada crítica literária brasileira Nelly Novaes Coelho dedicou-se a investigar o lugar da mulher nas letras. Em seus estudos, especialmente na obra A Literatura Feminina no Brasil Contemporâneo, analisa como o discurso feito por mulheres rompe com os modelos tradicionais e se torna um espaço de amadurecimento da consciência crítica.

Para Coelho, a literatura atua como um refúgio para as vivências que foram silenciadas na sociedade. O termo “abrigo” sintetiza esse espaço seguro onde a “alma” (a subjetividade, a sensibilidade e a intelectualidade feminina) encontra acolhimento para se manifestar sem receio de julgamentos porque como poetiza Márcia Schweizer (2026, p. 58): “cada sílaba é ponte/cada rima, abrigo, / onde a alma repousa/e se veste de infinito”. A autora destaca que a literatura feminina não é apenas ficção, mas o próprio sopro vital materializado em linguagem que traduz a singularidade do pensamento feminino.

 

A literatura feminina vem ganhando um espaço cada vez mais significativo [...] no panorama geral da Literatura Brasileira [...] com o amadurecimento crescente de sua consciência crítica. (Coelho, 1991, p. 91)

 

A junção dessas duas abordagens teóricas nos permite decompor o título da coletânea da seguinte maneira:
               Alma em Palavras: focaliza na interioridade, as dores, as alegrias e os anseios da mulher (sua alma) ganham contorno e existência por meio da linguagem escrita (palavras).
                Abrigo: destaca uma "casa" de proteção e identificação mútua entre as escritoras e suas leitoras.
            Espelho: simboliza quem a mulher é de fato, longe dos estereótipos, fator que permite o autoconhecimento.
                Travessia: ressalta o movimento de transição, onde a mulher passa da condição de mero objeto histórico (imanência) para a condição de autoria ativa que transforma sua realidade (transcendência).

Selecionamos e trazemos para este cenário, um poema da obra – Sorriso Espelhado (2026, p. 163) – de Brenda Marques Pena, a fim de apresentar a profunda sensibilidade feminina voltada ao universo interior, onde a memória e o autoconhecimento são pontos focais. Analisar este texto à luz das abordagens de Simone de Beauvoir e Nelly Novaes Coelho nos permite compreender a escrita como um ato de ressignificação da existência feminina e de expressão da subjetividade feminina.

O poema inicia-se com “No meu coração escorre um rio”, demonstra que o eu lírico encontra em seu próprio interior o refúgio (abrigo) para as suas emoções. A “alma” mencionada na coletânea encontra, aqui, morada no próprio corpo e na sensibilidade.

No trecho “e brinco de fazer correnteza / lançando pequenos objetos”, a voz poética assume um papel ativo. A mulher que brinca com o fluxo da água demonstra que é capaz de interferir em sua própria história e no mundo ao seu redor, de modo a romper com a imanência e exercer a transcendência. Reconhecer-se como ser é também o primeiro passo para a conquista da independência e da autenticidade da experiência vivida.

O verso “No fundo dele Encontro pedras / De construir poemas” traduz exatamente o conceito de amadurecimento da consciência crítica. As “pedras” (obstáculos, dores ou marcas da vida) não são rejeitadas; são utilizadas como matéria-prima para a construção da poesia, assim transforma a vivência em linguagem e arte. “A literatura da mulher é o registro do seu amadurecimento, onde o íntimo se torna universal pela força da palavra.”

Nos versos finais, “Vejo o movimento / como se o lago / sorrisse para mim”, observa-se uma metáfora que remete ao espelho de Beauvoir. O lago não reflete a imagem imposta pelo olhar do “Outro” (patriarcal), mas simboliza a própria subjetividade da mulher. O sorriso é o símbolo do autoamor, da autovalorização e do reconhecimento de si mesma como protagonista.

O poema “Sorriso Espelhado” dialoga com o título da coletânea Alma em Palavras ao articular os seguintes elementos:

Abrigo: revelado na infância e nas memórias da segundo estrofe, que protegem a essência da mulher.

Epelho: apresentado no reflexo das águas (lago), onde a mulher se vê e se reconhece com afeto.

Travessia: simbolizada pelo movimento da correnteza e pela transição do sofrimento à criação poética (“construir poemas”).


Para a crítica Nelly Novaes Coelho, a literatura de autoria feminina funciona como um espaço onde a mulher elabora suas vivências de forma crítica e sensível, deste modo legitima voz às suas dores e superações. O texto de Brenda Marques Pena, assim como de outras mulheres que participam da coletânea Alma em Palavras, materializa a força da escrita feminina, aponta que olhar para o próprio interior é um ato de coragem e de autolibertação porque no final o que nós, mulheres, desejamos: “é Ser/Tão somente ser” (Botelho. In: Alma em palavras, 2026, p.36).

 


CONCLUSÃO

Na perspectiva existencialista de Simone de Beauvoir, a libertação da mulher passa pela capacidade de transformar a experiência vivida em ação e transcendência, de modo a libertar da passividade ou da autoalienação.

Mais do que uma simples reunião de textos, a Coletânea Internacional Alma em Palavras é um convite ao acolhimento. Ao utilizar a literatura como abrigo, espelho e travessia, as autoras oferecem ao público/leitor uma janela para suas vivências e visões de mundo. A obra configura-se como um testemunho vivo da potência da mulher na literatura e do poder que a palavra escrita tem de conectar, transformar e transcender fronteiras.

Palavras-chave: Literatura Feminina; AJEB (Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil); Crítica Literária; Subjetividade; Transcendência.

REFERÊNCIAS

BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo (Vol. 2: A Experiência Vivida). Tradução de Sérgio Milliet. São Paulo: Difel, 1980.

COELHO, Nelly Novaes. A literatura feminina no Brasil contemporâneo. Língua e Literatura, São Paulo, n. 19, p. 91-101, 1991.

COELHO, Nelly Novaes. A Literatura Feminina no Brasil Contemporâneo. São Paulo: Siciliano, 1993.

ZILIOTTO, Leni Chiarello (Org.). Alma em palavras: a literatura como abrigo, espelho e travessia. Passo Fundo: LINE, 2026.

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Arquivo da autora

Betina Costa é integrante da AJEB Piauí. Advogada há mais de 20 anos, é fundadora do Instituto Consensum - Educação e Soluções Corporativas e consultora em Gestão de Conflitos Organizacionais, integrando Mindfulness, Mediação Corporativa e Segurança Psicológica. É Mestre em Direito com ênfase em Resolução de Conflitos pela Ambra University. Palestrante, TEDx Speaker, autora dos livros Universo Particular e Gestão de Conflitos Organizacionais, além de coautora em obras sobre cultura de paz. No currículo afetivo, é filha de Cláudia e Joaquim, esposa de Celso e mãe de Joaquim, Catarina e Benício.


Arquivo da autora

Elizabete NascimentoMãe de Jefferson Thiago, Diego Terada e Ighor Vinícius; vovó do Samuel e da Alícia. Doutora em Estudos Literários (PPGEL/UNEMAT), atualmente, professora formadora do componente curricular de Língua Portuguesa na Diretoria Regional de Educação/DRE, município de Cáceres-Mato Grosso. Autora dos livros: A educação ambiental e Manoel de Barros: diálogos poéticos (Paulinas, 2012); Asas do inaudível em luzes de vaga-lumes (Carlini & Caniato, 2019); Sinfonia de Letras: acordes literários com Dunga Rodrigues (2021); Granada (2023); Quando aprendi outra linda forma de amar (2024); Império (2024); Pétalas de Aço (2025); Memórias: Alforrias e Traços de Mulher (org. 2026). Integrante da AJEB/Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil e do PEN Clube  Associação Mundial de Escritores. http://lattes.cnpq.br/4585210198661387


sexta-feira, 24 de abril de 2026

A ARTE DE EDUCAR PELO RELATO, POR ELIZABETE NASCIMENTO

 A Arte de Educar pelo Relato – Próxima Aula – de Claudia Vecchi-Annunciato

[...] o sangue da vida e da morte

faz parte o meu eu feminino.

E veio correndo me abraçar.

 

Vecchi-Annunciato, C. 2024, p. 109.

 

 

O ponto central da obra reside na premissa apresentada logo no prólogo – Toda professora é uma contadora de história – onde a protagonista defende que o conhecimento não é transmitido de forma fria ou estática, mas sim intermediado por encadeamento de vivências, de afetos e de narrativas que capturam a atenção e a imaginação do estudante-leitor.

Embora o livro seja classificado como um romance, ele se distancia da estrutura linear clássica. O texto é construído por narrativas curtas, onde cada capítulo, se é que podemos nomear assim, se constitui na simulação de uma “aula”. Percebemos a – Aula como Episódio – onde cada narrativa articula uma história distinta, mas que, no conjunto, costura a jornada da protagonista e suas reflexões sobre a vida cotidiana e a profissão docente. Acrescento ainda que outras personagens, que fizeram presença no contexto da narradora, adentram a aula com as especificidades que contribuíram no fortalecimento da aprendizagem da narradora: Vera, Fred, Zélia, Madalena e outras. Além disso, há um ritmo ágil porque os textos são breves, fator que confere um dinamismo único à leitura, que permite que o leitor ou a leitora ouça a música que fecha cada relato e observe que sempre fica uma nota-gancho para a próxima aula.

O tema de cada aula surge organicamente da história contada. Vecchi-Annunciato utiliza uma linguagem sensível e próxima ao brincar com o cotidiano escolar, como uma personagem viva “talvez seja esse o papel das metamorfoses nas metáforas: refletir qual transformação importa. A das formas ou das almas?” (Joana. In: Annunciato, 2024, p.09). A obra retira a professora do pedestal da autoridade técnica para mostrá-la como um ser humano que aprende enquanto vive e narra. Deste modo, ao tratar a educação como contação de histórias, o livro flerta com a metalinguagem, é uma história sobre a importância de se contar histórias.

Próxima Aula – é uma leitura essencial tanto para educadores que buscam reencontrar o encanto em sua prática quanto para leitores de ficção que apreciam estruturas experimentais. Claudia Vecchi-Annunciato consegue provar que a melhor maneira de aprender sobre o mundo não é na decoração de fatos, mas sim no mergulho, nas histórias repletas de simbologias e poéticas que elas carregam. Trata-se no meu olhar de um romance fragmentado que entrelaça vários episódios e celebra a sala de aula como um espaço de criação literária e troca-vivências humanizada.

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Arquivo da autora

Claudia Vecchi-Annunciato – é escritora, bióloga e pedagoga, com mestrado e doutorado em Ciências pela USP. Descobriu-se escritora depois de passar pelo tratamento de câncer de mama. Publicou seu primeiro livro de contos "Desabrochar de uma miscelânea" em 2023, pela Editora Polifonia; e dois livros infantis – “Coisas de se ver” e “A princesa atrapalhada e o príncipe fedido” em 2024, ambos pela Editora Tagarela. “Próxima Aula” é o seu primeiro romance.




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Elizabete Nascimento (Cáceres/MT) -  é poeta, professora e avó. O silêncio e o tempo são seus mestres e, por isso, tenta guardar as dores com dignidade e as ressignifica em páginas, na ânsia de apontar que o verbo pode ser abrigo, cura e voo. Cada palavra que rabisca é na tentativa de ofertar um sopro de esperança ao mundo. Aprendeu que escrever e amar são, voos de pássaros, os únicos caminhos, verdadeiramente, eternos.

terça-feira, 31 de março de 2026

CRÔNICAS DA SUSTÂNCIA*


HISTÓRIAS DA MINHA MÃE: "O MEU TORTÉI"


Naquele tempo suspenso da pandemia, no ano de 2020, em que os dias pareciam caber dentro de casa, decidimos fazer algo para nos esperançar: tirar fotografias em família. Contratamos uma fotógrafa, ajeitamos os cabelos, fizemos maquiagem, colocamos um sorriso no rosto e escolhemos roupas com cuidado – como se, ao nos organizarmos por fora, também encontrássemos algum equilíbrio por dentro.

Minha mãe, D. Maria Lucia, estava ali, como sempre, no centro de tudo. Frágil no corpo, firme nos gestos, guardiã de saberes que não se aprendem apressadamente.

No meio da sessão de fotografias, realizada ao sentir do vento e dos pés no chão, no sítio dos pais da minha cunhada, tentando deixar minha mãe mais à vontade, para retratá-la, a fotógrafa lhe fez uma pergunta simples:

D. Maria Lucia, qual é a comida que a sua filha faz e de que a senhora mais gosta?

Minha mãe escutou com atenção, como quem acolhe a pergunta antes de respondê-la. E então disse, com toda naturalidade:

O meu tortéi. 

Fonte: Autoria própria (2025)

Houve um breve silêncio, logo atravessado por risos espontaneamente surgidos nos seus netos, Samuel e Vicente; nos seus filhos, eu e meu irmão Carlos; e na nora, Camila. Ela não disse a comida que eu fazia, mas a que ela fazia.

E, pensando bem, fazia todo sentido.

Entre tantas coisas que nos reunem, em família, há o tortéi. Não é de um dia só, mas algo que sempre volta, quase como um ritual. Sempre que ela o faz, a casa se enche de um cheiro conhecido, e a mesa ganha outro significado. Não é apenas comida –  é um modo de estarmos juntos.

Todos gostam.

Por isso, no fundo, não foi engano a resposta dela. O tortéi é dela. É dela o jeito de abrir a massa, o cuidado com o recheio, o ponto certo do molho. Mesmo quando alguém a ajuda, é ela quem sustenta esse saber.

As fotografias guardaram a lembrança daquele instante. Mas o que ficou mesmo foi outra coisa: a certeza de que há receitas que não pertencem apenas ao prato. Pertencem a quem as vive.

E, naquele dia, minha mãe disse isso do jeito mais simples possível:

– "O meu tortéi".

Fonte: Autoria própria (2025)


Buon appetito!

Obs.: Tortéi é uma palavra aportuguesada do italiano tortelli (ou tortelli di zucca), prato típico da região de Lombardia e muito comum em descendentes de italianos aqui no Brasil. É uma massa recheada com abóbora cabotiá.

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Arquivo pessoal (autoria de Alan Winkoski)

Rosangela Marquezi é professora de formação e atuação que acredita que a literatura tem o poder de modificar vidas... Graduada em Letras, Mestra em Educação e Doutora em Desenvolvimento Regional, é professora de Literatura na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Faz parte da Academia de Letras e Artes de sua cidade, Pato Branco - PR. Nas horas vagas, escreve poemas, crônicas e contos e já participou de coletâneas e antologias no Brasil e também em Portugal.

*Sustância - personagem fictícia que define a escritora de crônicas que habita em mim, "a ânsia, a substância, a Sustância!" (Marquezi, 2017). 

terça-feira, 10 de março de 2026

PROTAGONISMO FEMININO EM FOCO

A ESCRITA DAS MULHERES E A REINVENÇÃO DA LOUCURA: DE STELLA DO PATROCÍNIO ÀS AUTORAS CONTEMPORÂNEAS 

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1. O controle social através da saúde mental
 

Ser mulher não tem sido tarefa fácil nos dias atuais. De qualquer modo, nós mulheres, sabemos que, principalmente no Brasil, isso nunca foi usual. A sabedoria oriental milenar nos estimula a evitar extremismos, optando, sempre que possível, pelo caminho do meio. Em contrapartida, o respaldo científico para esse debate encaminha a diversos estudos que evidenciam a utilização das instituições de saúde mental para exercer controle social e patriarcal sobre o universo feminino. Historicamente, o monitoramento estratégico do comportamento e a tendência à patologização do corpo e da mente feminina já provocaram dores e tragédias, isolando mulheres e desestabilizando inúmeras famílias. Compreender essas dinâmicas permite lançar um olhar perscrutador sob densa névoa: estratégias envolvendo cuidados com a saúde física e mental sempre mascararam projetos de dominação e de controle social. 

2. Exílio e silenciamento: o caso Stella do Patrocínio 

Isso remete ao artigo da edição de fevereiro da Revista Voo Livre, em que citamos a internação involuntária da poeta Stella do Patrocínio, no Rio de Janeiro. Mais um caso de exílio: uma mulher negra, cuja voz era incompreensível no contexto institucional da época. Não se pode desconsiderar também o momento político e social desse acontecimento, quando o emprego maciço de práticas eugenistas de higienização dos espaços sagrados tratava corpos negros como indesejáveis na arquitetura central das cidades. Há relatos de que as constantes mudanças de localidade, no início do tratamento manicomial, impossibilitaram o acompanhamento familiar. Assim, Stella permaneceu reclusa nessas instituições até seu falecimento, quarenta anos depois. 

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3. A lógica da submissão: de "O Alienista" à história de Pierina
 

Nesse contexto, a literatura nos instiga a questionar sobre os tratamentos de saúde mental como práticas de silenciamento e de coerção, principalmente das mulheres. Alegoricamente, Machado de Assis, o imortal crítico da sociedade e das instituições, trata desse tema na obra “O Alienista”. Também a literatura acadêmica nos adverte a respeito do que ainda precisamos compreender sobre esses mecanismos históricos de dominação. O livro-tese da historiadora Yonissa Wadi “História de Pierina: subjetividade, crime e loucura” é bastante elucidativo: no início do século XX, a trajetória de uma mulher e suas cartas são julgados a partir de uma ótica exclusivamente masculina, metódica e patriarcal. Nesse relato, a partir de uma pequena comunidade do sul do país, a internação manicomial de Pierina desencadeou a adequação de seu comportamento à lógica da subserviência: afinal silenciada e submissa ao papel tradicional de esposa e de mãe, nos moldes sociais e econômicos requeridos por sua comunidade de imigrantes italianos. A sistematicidade dos métodos científico e jurídico, aliada à rigidez das estruturas patriarcais não permitiu que fossem, sequer, ouvidas as queixas da mulher. Percebe-se que, ao final de dois anos de tratamento psiquiátrico, Pierina cansou-se de tentar se fazer ouvir. Isso foi suficiente para que obtivesse alta e fosse encaminhada, mesmo contra a própria vontade, às funções modelares de mãe e de esposa, em sua pequena cidade, no Rio Grande do Sul. 

4. A urgência de racializar o debate na saúde pública 

Entretanto, apesar desse reconhecimento, a violência de gênero contra as mulheres não tem sido tratada, de modo explícito, como um fator de risco para a saúde mental. Entendemos, portanto, que é urgente implementar, nos serviços de saúde, intervenções mais eficazes para o acolhimento e o cuidado das mulheres que são, cotidianamente, vitimadas pelas inúmeras violências de gênero. Nesse contexto, o Plano Nacional de Políticas para as Mulheres (III PNPM), realizado em 2013, enfatizou a transversalidade e o investimento na saúde integral, como possibilidades de transformação desses espaços cristalizados de dominação e de invisibilização da figura feminina no aparato estatal. A conferência abordou também a violência e a saúde mental. Por outro lado, estudos acadêmicos e clínicos de problemas psicológicos e psiquiátricos que afligem pessoas negras, no Brasil, ainda enfrentam silenciamento histórico, embora haja obras pioneiras e fundamentais que se tornaram referências no tema. A respeito desse tema, a literatura negro-brasileira contribui, dando destaque a intelectuais como Lélia Gonzales, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro, Sueli Carneiro, Cida Bento, Jarid Arraes, Miriam Alves, Geni Guimarães, Elisa Lucinda, entre outras. A produção autoral dessas mulheres fornece base teórica e conceitual para que se investigue o racismo como elemento fulcral na saúde mental dos indivíduos. De modo semelhante, o reconhecido psiquiatra e pensador caribenho Frantz Fanon analisou o sofrimento mental e concluiu que a opressão colonial e o racismo desencadeiam despersonalização e impõem um sentimento de suposta inferioridade que impacta, grandemente e de forma negativa, a saúde mental da população afrodescendente. Há também diversos braços do Movimento Negro, como a Articulação Nacional de Psicólogas/os Negras/os e Pesquisadoras/es (ANPSINEP), que vem consolidando, através de pesquisas e congressos, uma produção teórica contínua que une psicologia, saúde coletiva e racialização das relações. Trabalhos dessa natureza atualizam o debate sobre os desdobramentos do racismo estrutural no cotidiano social, mais especificamente, da população negra, com impactos inquestionáveis sobre a vida das mulheres. 

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5. Escrevivência e herança colonial: o legado de Conceição Evaristo
 

No campo literário, Conceição Evaristo, premiada intelectual, produziu obras de reconhecido valor para o arcabouço da literatura brasileira contemporânea. Ela é, hoje, uma das escritoras negras mais prestigiadas no contexto da produção escrita das mulheres. Entre seus livros mais lidos e comentados, figura o romance Ponciá Vicêncio, cuja trama resgata o sofrimento psíquico, no seio familiar, decorrente do racismo estrutural e da herança colonial. Nessa obra, a saúde mental da protagonista aparece ancorada em condicionamentos históricos que legaram às famílias afro-brasileiras: rigorosos desafios sociais e econômicos, preconceito e rejeição histórica. Assim, Ponciá é afetada por uma série de violências simbólicas e físicas que refletem a realidade da maioria das mulheres negras no Brasil. 

6. A palavra como cura: literatura e resistência na contemporaneidade 

Nessa conjuntura, a literatura vem se estabelecendo, cada vez mais, como palco da resistência feminina. De um ponto a outro do país, encontramos autoras produzindo cura a partir da palavra poética e da ficcionalização. Assim, de um rico mosaico de intelectuais, destacamos o trabalho da escritora e psicoterapeuta nipo-brasileira Patrícia Gondo de Goes, imortal da ALBSC (Academia de Letras do Brasil de Santa Catarina), seccional Joinville, que vem escrevendo sob a égide da saúde mental e emocional. Ela, que morou no Japão por 25 anos e é tradutora do idioma japonês, desenvolveu abordagem holística acerca da psique feminina, a partir de suas vivências, da psicoterapia e de terapias integrativas . Além de atuar no campo da saúde, das Letras e das artes, Patrícia desenvolve, paralelamente, um trabalho profícuo e comprometido, voltado para os direitos das mulheres, na cidade de Joinville, com reflexos intensos no conjunto de sua obra, que conta com um livro publicado e outro no prelo. Das Minas Gerais, destacamos a psicóloga clínica e poeta Stella Maris Souza Marques, que é doutora em Psicologia, suas atividades profissionais incluem oficinas de Teatro do Oprimido, meditações guiadas e palestras para estudantes em escolas públicas. A autora publicou a trilogia Além do que Parece: “Parecia Amor”; “Parecia Viagem” e “Parecia Dom". O foco da sua escrita inclui promover reflexões sobre relacionamentos tóxicos e outras formas de violências, inclusive, as mais sutis. A autora discute o luto coletivo, as altas habilidades, a inclusão e a sanidade mental, principalmente, entre adolescentes e adultos jovens. 

7. Considerações finais 

Em suma, seguimos resistindo e contornando as mazelas do pensamento androcêntrico e do antifeminismo que, infelizmente, ainda dita o tom de muitos dos discursos que nos atravessam. Porém, é incontestável que compreender e tratar a saúde mental envolve abordar o ser em sua complexidade inerente. Isso envolve considerar diversos fatores, como os históricos e os sociais e, - não se pode negar, - a necessidade de racializar o debate. Desse modo, promovemos rupturas com práticas institucionais e com discursos legitimadores de silenciamento e de jugo sobre as subjetividades femininas. As narrativas que emergem da literatura, da pesquisa e do trabalho de escritoras, demais artistas e profissionais contemporâneas são reveladoras do poder da palavra. Essa incrível potência que, devidamente manejada, torna-se mecanismo de resistência e de cura. Assim, nosso artigo dá relevo à voz de mulheres que são capazes de transformar dor em reflexão e experiência em conhecimento. Afinal, ao revisitar o passado e questionar antigas certezas, escritoras, pesquisadoras e profissionais da saúde reafirmam que a escuta sensível pode ampliar a compreensão acerca da saúde mental e romper com estruturas históricas de opressão. Ademais, reconhecer a violência de gênero e o racismo estrutural como elementos intrínsecos a esse debate é indispensável para desenvolver práticas de cuidado eficazes, éticas e inclusivas. Nesse aspecto, a literatura, tanto como fonte quanto como produto, nos fortalece e nos convoca a envidar esforços em prol do nosso direito à saúde, ao cuidado e ao respeito, em âmbito privado e institucional. Sigamos juntas… 

8. Referências para esse artigo 

ASSIS, Machado de. O Alienista. MonteCristo Editora, 2023. BRASIL, Secretaria de Políticas Para Mulheres: II Plano Nacional de Políticas para Mulheres. Brasília, 2008. Disponível em: https://www.gov.br/mulheres/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/arquivo2IIPNPM (Acesso em fevereiro de 2026). 

COSTA, Heliene Rosa da. Poéticas da resistência: o legado de Stella do Patrocínio e a luta antimanicomial contemporânea no Brasil. Revista Voo Livre, Ano 6, número 64, Fevereiro de 2026, pp:26-28. Disponível em: https://revistavoolivre.com.br/revista-voo-livre-ano-6-no-64-fevereiro-de-2026/ (Acesso em fevereiro de 2026). 

EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2003. FANON, Frantz. Alienação e liberdade: escritos psiquiátricos. São Paulo: UBU Editora, 2020. 

GOES, Patrícia Gondo. Ancestralidade Eu, Descendência. Joinville/SC: Clube de Autores, 2023.

MARQUES, Stella Maris de Souza, Parecia Amor. Uberlândia/MG: Editora Subsolo, 2024.

MARQUES, Stella Maris de Souza. Parecia Viagem. Uberlândia/MG:Editora Subsolo, 2024.

MARQUES, Stella Maris de Souza. Parecia Dom. Uberlândia/MG: Editora Subsolo, 2024. Stella do Patrocínio. Museu Bispo de Rosário: Arte Contemporânea. Disponível em: https://museubispodorosario.com/stella-do-patrocinio-memorias/ (Acesso em fevereiro de 2026). WADI, Yonissa Marmit. A história de Pierina: subjetividade, crime e loucura. Uberlândia: EDUFU, 2009.

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Arquivo pessoal
Heliene Rosa, natural de Patos de Minas, Minas Gerais, é uma escritora, professora e pesquisadora dedicada às poéticas femininas. Mestre em Linguística e doutora em Estudos Literários pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Heliene é uma voz ativa na militância pelas causas das mulheres e da negritude. Articulista no Blog Feminário Conexões e integrante de diversos coletivos femininos, fundou, em 2016, o GELIPLIT (Grupo de Estudos em Língua Portuguesa e Literaturas), com o propósito de promover a formação continuada de professores de Língua Portuguesa e Literatura.

Com uma carreira marcada pela coordenação de projetos literários e pedagógicos, Heliene foi premiada no Oitavo Concurso Nacional pela Igualdade de Gêneros com uma sequência didática voltada à escrita, envolvendo estudantes do Ensino Básico. É coautora em diversas coletâneas nacionais e internacionais e organizadora de antologias literárias e acadêmicas. Em sua produção autoral, destaca-se com os livros Enquanto as hortênsias florescem (2023) e Literatura é território: poéticas femininas indígenas em movimento (2024).

domingo, 8 de março de 2026

O DIA INTERNACIONAL DA MULHER

"é difícil aceitar o perfume quando o ar está saturado pelo cheiro de pólvora"


Oito de março. Aceito o café na cama, mas engulo um calendário que insiste no vermelho para marcar o feriado que celebra “O dia internacional da mulher” que, na verdade, é um marco das nossas  lutas e conquistas. Tudo bem, tento entrar no clima do dia, mas sobre mulheres o que vejo é o vermelho que escorre na TV e nas redes sociais. Neste dia, as flores ofertadas parecem pesar toneladas, pois é difícil aceitar o perfume quando o ar está saturado pelo cheiro de pólvora, de medo e de uma injustiça que se renova a cada noticiário.


Dizem que o lar é o porto seguro, mas para milhares de brasileiras, ele é o epicentro do abalo sísmico. O feminicídio não é um raio em céu azul; é o estágio final de um roteiro escrito a muitas mãos, pela posse travestida de amor e cuidado, pelo silêncio dos vizinhos e pela cegueira de um “Sistema” que chega sempre depois que o corpo já esfriou. As formas brutais de morte, que temos visto ultimamente, com requintes de crueldades - que desafiam a sanidade -, não são apenas crimes; são mensagens de ódio e dor enviadas a todas nós, um lembrete violento de quem ainda se julga dono da vida alheia.

E se o fim é trágico, o começo é desolador.

Recentemente, Minas Gerais nos esfregou na cara a ferida aberta da nossa falha civilizatória. Uma menina de 12 anos, uma criança que deveria estar ocupada com cadernos, brincadeiras e o florescer lento da juventude, vivendo com um homem de 35. Não consigo chamar isso de "relacionamento",  o nome é estupro de vulnerável, é exploração, é o roubo sistemático de uma infância que nunca será devolvida. Quando permitimos que normalizem relações de  "homens mais velhos com crianças", estamos pavimentando o caminho para o abuso, estamos dizendo que o corpo de uma menina é um território a ser conquistado, e não uma vida a ser protegida.


E essa  violência travestida de "amor" é só a ponta do iceberg, por baixo dela sustenta-se, há séculos, a montanha de gelo da desigualdade, do machismo e da misoginia. É a mulher que não sai de casa porque não tem autonomia financeira, a mãe que acumula três jornadas e ainda é culpada pela "rebeldia" dos filhos, a menina que aprende desde cedo que o seu "não" vale menos que o desejo de um homem.


Almoço a dois, mas nesse dia degusto o feminismo não como uma escolha teórica ou uma pauta de militância distante, mas como um kit de sobrevivência, como um grito que exige que as meninas de 12 anos sejam apenas crianças e que as mulheres adultas não se tornem estatísticas antes do jantar. 

Que a nossa indignação seja maior do que  o que nos alimenta de maneira indigesta, porque, enquanto uma de nós for silenciada pelo cano de uma arma ou pela mão de um abusador, nenhuma de nós estará, de fato celebrando “O dia internacional da mulher”.

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Rilnete  Melo é maranhense, poeta, escritora, cronista e cordelista, membro das academias de letras ACILBRAS e ABMLP, colunista no blog Feminário Conexões e colaborada da Revista internacional The Bard, coautora de várias antologias nacionais e internacionais, vencedora de seis concursos literários,  autora dos livros Construindo Versos, O máximo de mim e outros mínimos poemas, Pérolas do  meu silêncio, zine Dezcontos micros e autora de cinco cordéis.

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UMA CRÔNICA DE MARGARIDA MONTEJANO

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