A
vizinha do andar de cima
Por Sandra San'tos
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Sem
sair da cama, contabilizou mentalmente os sons matinais: a vizinha à esquerda,
gritaria com os filhos na luta de impedir que se atrasassem para a escola. - Bem
na hora! Agora começará a algazarra dos papagaios... Ué! Hoje se
atrasaram... – Quase riu. A sinfonia dos papagaios se dava por conta das
jabuticabas, eles comiam até cansar, e iam embora. - Esses sim são felizes,
fazem o que querem, quando lhes dá na telha. – concluiu, resignada em arrumar-se
para mais um dia modorrento de trabalho na repartição.
Havia
se mudado há três semanas, após assinar o contrato de aluguel em tempo recorde.
Não pesquisara muito. O apartamento bem localizado e com bom preço tinha que
ter um defeito, nesse caso: a vizinha notívaga e faladeira. Marta nunca
a vira,
mas pelo timbre de voz grave e metálico, imaginava uma senhorinha, fumante ou
ex-fumante.
-
Isso é novidade. Inferno! Já é dia e ela começou cedo. Agora até durante o dia?
Com quem ela tanto conversa? Será que é com uma pessoa só? Será que não percebe
que os outros seres humanos do planeta querem dormir? –
Engoliu a raiva insone, e enfiou a escova cheia de creme dental na boca.
O
dia seguiu arrastado e Marta chegou do trabalho por volta das vinte horas, desejando
que o importante assunto da vizinha, por fim estivesse resolvido. Despejou
sobre a mesa da cozinha algumas sacolas de compras: produtos de limpeza, uns
copos novos e insumos para preparar um lanche, já que não tinha ânimo para o
fogão. Ainda não se acostumara a cozinhar apenas para ela.
Ouviu
um LP do Chico, comeu seu lanche, tomou banho e decidiu ir para a cama mais
cedo. Silêncio, luzes apagadas. Quase sentiu-se feliz. Ajeitou-se nos lençóis lavados
com um amaciante de perfume de longa duração. (Pelo menos é o que prometia o
anúncio publicitário). Relembrou as atividades do dia, planejou mentalmente o próximo,
e fechou os olhos que já lhe pesavam. Silêncio...
-
Eu já disse, então... É... Eu tô te falando. (Pausa) Eu não vim pra esta cidade
à toa. Eu sempre tive um propósito. Todos temos que ter um! É... eu falei, mas
ela não ouve.... (Pausa) Simmmm... É o que eu acho... É, é.... Então... Eu
tô... verdade, tudo isso é muito importante. – bradava a mulher entre as pausas
de seu interlocutor.
-
Não é possível! Ela esperou eu me deitar pra começar a falar? – Marta
arregalou os olhos sentindo o coração disparar movido pela raiva. Apertou o
travesseiro sobre os ouvidos tentando, em vão, abafar o som da conversa. Eu
vou filtrar, não vou ouvir. Não me interessa. Será que só eu tô ouvindo? Não é
possível que ninguém mais além de mim a ouça. Vou falar com o síndico. – Desvencilhou-se
bruscamente das cobertas e ganhou a janela.
A
noite avançou pela madrugada, a longa confabulação da vizinha também. Marta
acreditou que haviam sido pelo menos três interlocutores diferentes, e com o
último, o diálogo evoluíra para uma briga, pois passou a ouvir murros,
possivelmente na mesa ou nas portas de algum armário. Foi uma noite regada a palavras
de raiva e passos a atravessar o piso, no caso, o teto de seu quarto. Teve
ímpetos de soltar um palavrão libertador, de mandá-la calar a boca, de gritar
que precisava dormir. Talvez se reclamasse bem alto, algum outro vizinho a
apoiasse na reclamação. Pensou, ameaçou, e não o fez.
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Como
não conseguia dormir, passou a distrair-se tentando entender a conversa da
vizinha. Calculou o grau de paciência que teria o interlocutor do outro lado da
linha. - Essa deve ser alguma parenta... Esse deve ser o chefe. Será que ela
ainda trabalha? Bem pode ser que trabalhe com algum tipo de atendimento
telefônico... mas existe Telemarketing de madrugada? Vai ver, conversa à noite
por conta do fuso horário. Deve ser isso: os filhos moram fora, e só consegue
falar com eles de madrugada. – Sentiu vergonha ao pegar-se com os ouvidos
na parede.
Passava
os dias sonolenta, até que cedeu aos soníferos; primeiro os naturais, depois os
tarja preta que conseguiu com uma colega. Graças a esses, por uma semana viu
resultados, mas foi só. A insônia venceu. Tudo o que lhe restara era aquela voz
incansável. - Chega, vou tomar uma atitude, assim não dá. Amanhã bato na
porta dela.
A
privação do sono permitiu que a vizinha preenchesse todas as horas de seu dia, provocando
dores de cabeça e a queda de rendimento no escritório. Marta estava um caco e aos
poucos, a delusão expulsou a razão, abrindo caminho para toda a ordem de pensamentos
intrusos e infundados. - E se essa mulher nem existir? Será que sou
só eu que a ouço? Tô enlouquecendo, preciso dormir. - Esgotada e confusa, começou
a faltar no trabalho.
Sentindo
a vida lhe escapar pelas mãos, considerou tomar alguma atitude, antes que a
loucura se apossasse de sua mente. Cogitou ligar para Alcides, mas não lhe
daria essa prova de fraqueza. - Eu consigo, amanhã eu resolvo. - O
amanhã passava para depois, sempre depois.
Uma
tarde, após experimentar um período de longo silêncio, encheu-se de
coragem. - A infeliz deve estar dormindo... então eu vou acordá-la. Que
sinta o gostinho de ser incomodada. - Seria sua pequena vingança.
Subiu
o lance de escadas e parou em frente à porta sentindo o coração bater cada vez
mais rápido. Observou uma enorme quantidade de pó sob o batente, e teve a
impressão que há muito tempo ninguém passava por ali. Sentiu um misto de raiva
e dó da figura que enfim conheceria. Dó, pois afinal experimentavam da mesma
bebida: a solidão. E sentiu raiva de si mesma pois, de alguma forma, identificava-se
com uma pessoa, no mínimo, desequilibrada.
Engoliu
em seco e bateu várias vezes. Quando pensou em desistir, a porta se abriu revelando
a pequena figura de uma senhora na faixa de seus 70 anos. Trajava roupas
surradas, os cabelos em desalinho, e um par de olhos opacos.
Em
frente a culpada de sua tortura, Marta desmontou, deixando que as palavras de
seu discurso ensaiado fugissem pela escada de serviço.
-
O que deseja menina? – indagou a figura que não condizia com aquela voz potente
de suas noites mal dormidas.
-
Eu... eu preciso falar com a senhora. Me desculpe simplesmente bater em sua
porta, mas, mas...
-
Meu nome é Mirtes, e você quem é? – perguntou.
-
Eu... Meu nome é Marta, e moro no apartamento abaixo do seu. Queria dizer que...
bem, se a senhora precisar de alguma coisa, é só chamar, tá?
-
O que mais você quer, menina? - perguntou a mulher, sem nenhuma emoção visível.
-
Não, nada não. Era só isso mesmo. Me desculpe a intromissão... – Assim como seu
discurso, sua coragem também descera pelas escadas, impulsionando-a seguir pelo
mesmo caminho. - Como sempre me acovardei. Marta, você é uma idiota covarde.
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-
Oi, Dona...
-
Marta. - respondeu prontamente ao porteiro.
-
Desculpe, mas ainda não decorei seu nome. É a idade pesando. – justificou encabulado
pela gafe, e sorriu mudando de assunto: - Esses são seus novos vizinhos. Estão
de mudança pro número 7, exatamente um andar acima do seu... Vocês vão gostar
daqui, só tem gente boa. Sejam muito bem-vindos. – completou dirigindo-se ao
casal que já se afastava.
-
Sim, cla...claro, sejam bem-vindos. – disse Marta, que por inércia, não
desmanchou o sorriso que havia pregado na cara.
-
O número sete... está vazio? – perguntou incrédula.
-
Ah, sim, já tem mais de um ano. Desde que Dona Mirtes faleceu... Que Deus a
tenha. A senhora está bem Dona Marta? Posso ajudar em alguma coisa? – indagou o
porteiro fitando-a com ar preocupado.
-
Não. Está tudo bem... vou subir, eu esqueci a carteira em casa.
Correu
para o elevador e sentiu um grande alívio quando a porta se fechou escondendo-a
do porteiro que ainda a observava. - Será que a louca sou eu? Não é
possível! Eu a vi! Eu falei com ela! - Olhou-se no espelho do
elevador como a esperar uma resposta. Porém, Marta não reconhecia a imagem da
pessoa que a fitava de volta.
Entrou
em casa, jogou-se no sofá, e imóvel assistiu o dia virar noite. - Ela vai
começar a falar, eu sei que vai. Fale Dona Mirtes, não me importa com quem,
apenas fale. - O sangue lhe fugia, o suor escorria por seu rosto, enquanto
as longas conversas de Dona Mirtes lhe invadiam a memória.
Estranhou
o som do silêncio.
-
É isso... tenho que ir pra cama, aí ela começa... Se
eu deitar e tentar dormir ela começa. Então que venha Dona Mirtes... Que
venha, pois estou pronta para a senhora.
Deitou-se
como quem arma uma estratégia de guerra.
-
É... Eu sei. Não disse que seria assim? - Mirtes atacava novamente.
-
Eu avisei, mas... ela não me ouve... As
coisas têm que mudar! Não... não fala besteira, eu sei do que estou falando, eu
já passei por isso... Acho melhor marcarmos uma reunião...
Sentindo
como se tivesse ganho uma batalha, Marta de um pulo colocou-se em pé, e apressada,
avançou pelas escadas. Preparou-se para bater, mas desta feita, a porta
abriu-se antes da primeira pancada.
-
O que você quer, menina Marta? – perguntou a mulher, fitando-a com seu olhar
sem viço e um sorriso no canto da boca.
-
Apenas conversar, Dona Mirtes... Só quero conversar. Posso?
-
Entre, menina... entre. Eu já lhe esperava. – respondeu a vizinha fechando a
porta atrás delas.
E
assim, no andar de cima, a solidão quebrou o silêncio.
FIM
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| Arquivo da autora |
Sandra A. Santos é pedagoga com especialização em Educação Ambiental, ambientalista apaixonada pela natureza e pela vida em todas as suas formas. Hoje aposentada, dedica-se à literatura, escrevendo contos, romances e poesias que giram em torno do universo feminino. Com trabalhos publicados em antologias no Brasil e na Argentina.
















