domingo, 8 de março de 2026
O DIA INTERNACIONAL DA MULHER
sexta-feira, 6 de março de 2026
UM CONTO DE SANDRA SAN'TOS
A R E V O L T A N O D E S C A R T E
POR SANDRA SAN'TOS
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─ Tem
mais alguém acordado? Sabem que lugar é esse? – falei, dirigindo-me aos
companheiros de destino incerto.
─ Eu
acho que estamos no lixo. Agora calem-se, porque alguém se aproxima. – respondeu
um objeto abaixo de mim.
Seguiram-se
sons de sacos se abrindo e caixas sendo rasgadas. Um dos visitantes, considerei
que seriam ao menos dois, assoviava um trecho de uma música desconhecida. Sim,
só poderíamos estar no lixo, pois conforme andavam, o mau cheiro também era
revirado.
─ Caramba! Quanta tralha! Só tem porcaria aqui, tô achando que é perda de tempo.
Olha isso: livro, remédio, roupas rasgadas, roupas cortadas... Quem jogou não
queria que ninguém pegasse. - O som de coisas quebrando denunciava a raiva por
não encontrarem nada de valor, ou que lhes tivesse serventia.
─ É
isso o que acontece com as coisas dos mortos amigo: vão para o lixo. Se eu
fosse tua mulher, botava você no lixo. Lugar de tranqueira é no lixo mesmo. –
riu da própria piada e completou antes que o amigo lhe respondesse com alguma
ofensa:
─ Ei, olha
só, eu achei um rádio. Eita, que é uma velharia! Será que funciona essa merda? Se
não funcionar, vendo as peças e já tô no lucro.
─ Pode
ser, mas vambora que eu tô com fome. – retrucou o outro.
Assim
que se afastaram, teve início uma verdadeira balbúrdia entre os objetos que jaziam comigo no descarte.
─ Isso
não é justo, eu ainda estou em boas condições. - gritou o livro de teologia me
fazendo duvidar da sua religiosidade.
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─ Pra quê
minha senhora? Sairemos andando? É isso o que sugere? – estamos velhos e sem
uso já há algum tempo. Quem estava em boas condições foi destruído antes de ser
colocado aqui. Não percebe que nem pra doação nós servimos? – retrucou um disco
quebrado.
A essa
altura da discussão, a camisa estava em prantos, derramando linhas por todos os
lados, enquanto o livro de marcenaria se desesperava com a falta de suas folhas
iniciais.
─ Quem
fez isso estava com raiva. Não se rasga um livro, isso é absolutamente
revoltante. – completou o livro de teologia.
Arlindo,
meu dono, provavelmente morrera. Eu não tinha mais dúvidas. O burburinho de
meus companheiros me cansava, então preferi o silêncio; afinal, eu era o mais
velho daquela caixa. Era hora de fechar os olhos, ficar quieto e aceitar meu
fim. Me calei, e me abstraí de mim mesmo escutando a chuva que batucava o
exterior de nossa caixa.
Meu
humano costumava passar muito tempo calado, comigo nas mãos, pensando em
sabe-se lá o quê, apenas me observava. Ele me mantivera por hábito e não por
necessidade; talvez até por afeto, pois eu, já não exercia minha função há bom
tempo. Além de ser objeto de contemplação para Arlindo, eu também servira de brinquedo
para sua neta, a menina Clara, que tinha o talento de lhe reacender o olhar.
─ Clara,
devolve pro vovô. Se você derrubar, vai quebrar, cuidado. – falava mesmo
sabendo que eu era um caso perdido. Para mim, não havia mais conserto.
Era
isso, Arlindo morrera e eu morreria também, ponto final. Preferi manter-me
alheio àquela conversação inútil.
─ Talvez
ainda tenhamos uma chance. Tem muita gente precisando de algo útil. – arguiu uma
luminária antiga.
─ Depende do que você chama de útil. – completou o martelo sem cabo.
─ Deixa
de soberba e verá, sou um bom livro, edição caprichada. Logo estarei servindo a
olhos inteligentes.
─ Fiquem
quietos e ouçam, está chegando alguém... Com passos pequenos, se for criança,
não se interessará por nenhum de nós. – interrompeu a chave de fenda.
Era Clara,
a neta de Arlindo. A menina passou um bom tempo abrindo e fechando caixas. Vasculhou
uma por uma, até que abriu a nossa. Retirou objeto por objeto, mantendo em uma
das mãos uma revista da igreja que o avô frequentava, enquanto a outra penetrava
no desconhecido. Senti quando fui levado para fora e recostado ao seu peito.
─ Clarinha, Clarinha! O que está fazendo minha filha? Porque tá revirando o lixo?
– gritou sua mãe do outro lado da rua.
─ Mamãe, são as coisas do vovô. Eu preciso pegar tudo de volta.
─ Filha, foi sua avó quem jogou tudo isso fora. Ela não vai ficar feliz se souber
o que você tá fazendo... E eu, também não quero essas coisas lá em casa.
─ Mas,
mãe... por que a vovó colocou as coisas do vovô no lixo?
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A
menina havia chafurdado no que restara do avô. Aquelas coisas tinham enorme valor
para ela; mesmo assim, antecipando um embate inútil, obedeceu. Não sem antes
esconder-me em seu bolso. Devolveu as revistas para a caixa e fechou-a com
cuidado, despedindo-se não apenas de coisas, mas de uma pessoa que lhe faria
muita falta.
─ Adeus vovô – disse em voz alta, sem entender a lógica dos adultos.
Por
muito tempo fui seu segredo e dos meus companheiros de caixa, nada mais eu
soube.
Passei
muito tempo escondido entre livros, roupas, fotos e coisas importantes, até a
menina se sentir segura para assumir ter me tirado do lixo. Quando saí da clandestinidade, fui polido e ganhei
uma corrente nova. Nunca mais andei em um bolso, pois esse era um costume de
Arlindo. Fui contemplado com um relicário e hoje resido sobre o piano de Clara,
de onde a vi crescer e se tornar moça. Vi sua formatura, a vi se casar, assisti
a muitos outros momentos importantes, felizes ou nem tanto.
Ela
nunca mandou me consertar, porque eu sou uma extensão de seu avô, e ter-me por
perto lhe basta. Dele, herdou o hábito de me contemplar longamente, pensando em
sabe-se lá o quê. Tal avô, tal neta.
O
tempo ensina, e de tempo eu entendo, mesmo que meus ponteiros aposentados mostrem
o passar das horas de uma forma diferente. Um dia, Clara também não aparecerá
mais e, quem sabe, talvez um dia ela tenha uma neta, e essa me guarde, e
aprenda a admirar esse velho relógio que registra em silêncio a caminhada de
gerações.
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| Arquivo pessoal da autora |
Sandra A. Santos é pedagoga com especialização em Educação Ambiental, ambientalista apaixonada pela natureza e pela vida em todas as suas formas. Hoje aposentada, dedica-se à literatura, escrevendo contos, romances e poesias que giram em torno do universo feminino. Com trabalhos publicados em antologias no Brasil e na Argentina.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026
REMINISCÊNCIAS INFANTO-JUVENIS, POR MARIA DO CARMO SILVA
"No fim da tarde quando tudo se aquietava..."
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Pedir a bênção aos pais,
padrinhos, avós, tios e às pessoas mais velhas, independente de ter vínculo
familiar, era uma prática cotidiana respeitosa e afetuosa que ultrapassava o
período da infância, estendendo-se aos jovens e até aos adultos já casados, que
com reverência estendia a mão direita pedindo a bênção. “A bença a Dona Maria,
a bença a Seu José", sendo a bênção ofertada de forma calorosa com um “Deus te
abençoe, Deus te dê uma boa sorte, Deus te faça feliz".
No ambiente doméstico, o
respeito e a obediência aos mais velhos era regra geral: os filhos mais velhos
ajudavam os pais no cuidado com os irmãos mais novos - ressaltando que
normalmente a prole era extensa -, auxiliavam a mãe nas tarefas domésticas e em
outras atividades no campo, tudo sob o olhar dos mais velhos que já gerava
intimidação e um alerta para a obediência.
“No fim da tarde quando
tudo se aquietava...” - ainda soa a canção de Pe. Zezinho. Ao final da tarde, todos se reuniam, sentados no banco de madeira, normalmente da cozinha, ao redor
do fogão a lenha, para ouvir as histórias e causos contados pelos mais velhos.
O candeeiro iluminava o ambiente e o calor das brasas do fogão aquecia a prosa.
À noite, era comum os pais contarem histórias para os filhos. As crianças ouviam, em silêncio, as lendas do lobisomem e de outros seres estranhos, ficavam apavoradas sem
reagir e nem interagir.
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À época, a tecnologia nem
sonhava existir e os brinquedos eram artesanais, feitos pelas próprias crianças
ou pelos pais com materiais reaproveitados ou retirados da natureza: cavalo de
pau, panelas de barro, bonecas de pano, bolas de meia com enchimento de papel,
carrinhos feitos com vasilhame de oléo ou de manteiga e com rodas feitas com
borracha de sandálias.
A Escola era o “lugar do
aprender”. Sentados em bancos de madeira, com olhar fixo no professor, no ABC e
na cartilha, todos cumpriam suas tarefas e mantinham obediência ao professor da
mesma forma que ao seus pais e aos mais velhos, tratando-o com o devido
respeito, pois se lhes faltasse com ele,
seria severamente punido.
Na contemporaneidade, os
valores humanos e as relações familiares estão quase que descartados, causando
sérias e drásticas consequências à sociedade como um todo. A escola é para
muitos, apenas um lugar de encontro com colegas, um lugar de distração. Reconhecê-la
como espaço de produção e de aquisição do conhecimento não é regra geral. Pedir a bênção aos mais velhos saiu de moda.
A tecnologia trouxe brinquedos eletrônicos, bonecos que simulam seres humanos,
ridicularizando-o com o desrespeito, a violência, a pornografia. A prosa e as
brincadeiras com colegas, familiares e amigos foi substituída pela “comunicação
virtual”, via redes sociais, espaço de “liberdade” e de “permissividade”.
O respeito, a solidariedade, a
fraternidade e a humanização foram substituídos pela robotização dos humanos.
Quais lições, histórias e memórias das crianças e jovens da sociedade
contemporânea transmitiremos à posteridade?
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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026
A POESIA DAS PEQUENAS COISAS - A OBRA POÉTICA DE ASTRID CABRAL
Astrid Cabral: “exímia inventora de tesouros, a explorar os preciosos filões dos sentimentos”
Palestra de Rita Alencar Clark sobre a escritora amazonense homenageada na Feira do SESC 2025, Astrid Cabral. A Feira teve curadoria de Leyla Leong. A palestra aconteceu no dia 30 de outubro de 2025, às 15:00h, no Centro de Convenções Vasco Vasques (Manaus/AM).
| Astrid Cabral |
1. Como se faz um bom poema, Astrid?
Quando aceitei o convite de Leyla Leong para falar de Astrid Cabral, da sua poesia diária, a Poética das Pequenas Coisas, grandes ou delicadas, que nos deparamos pela vida, de certo que aceitei e quero, antes de tudo, agradecer-lhe a honra de estar aqui.
E de tanto pensar no que escreveria, vieram-me lembranças intensas de nossa convivência familiar no Rio de Janeiro, onde todos morávamos. Astrid nunca faltou, não sem avisar, a um aniversário do meu pai, seu companheiro de poesia e Clube da Madrugada, Alencar e Silva, para ela, o Neto. Naqueles dias, fomos convidados para o almoço de aniversário de Astrid, em seu apartamento no Parque Guinle. Meu pai já acordara ansioso e assobiando, sempre temendo inevitáveis atrasos. “Nair… compraste o presente da Astrid? – Sim, Neto”. E foi pra esse lugar que minhas memórias me levaram.
Como em toda casa de amazonenses, fomos recebidos por Astrid e doutor Afonso com abundância de delicadezas, incluindo-se o, sempre farto, menu amazônico. Mamãe e Astrid, antes do almoço, trocavam informações e urgências, fossem novidades fresquinhas de Manaus, fossem receitas fantásticas, agruras da maternidade desejada e a realidade de serem mulheres e trabalharem fora… não se tinha uma brecha no diálogo. E eu, com um caderninho na mão, de tocaia para fazer uma intervenção, quando ela falou: “Ritinha, senta aqui do meu lado”. Como caloura do curso de Letras na Santa Úrsula, não podia perder a oportunidade de entrevistar Astrid Cabral. Ela pegou na minha mão e perguntou: o que queres saber? “Como se faz um bom poema?” Rimos as duas em cumplicidade, ela respondeu, ainda sorrindo, que “primeiro tens que dominar a gramática, qual usas?” – Cunha, Luft e Cegalla, respondi. “Pois, lute com eles! Depois, comece a dominar a arte de cortar... os primeiros serão os artigos, depois preposições e interjeições, por último os adjetivos. O que sobrar é o esboço do poema. E, então, começas o trabalho de lapidação”. Que maravilha de resposta, nunca pude esquecer e até hoje impacta no meu processo criativo. Astrid, para mim, é a tia escolhida, por saber da grande amizade, respeito e admiração de meu pai por ela, pela grande poeta que é. Após o almoço todos iam para o living e, entre licores e cafés, a tarde se estendia, era só poesia.
| Arquivo da autora |
2. Os versos, essas aves das ideias
Segundo Alencar e Silva, em artigo sobre Astrid (Quadros da Moderna Poesia Amazonense – Valer, 2011): “Astrid Cabral Félix de Sousa nasceu em Manaus, a 25.9.1936, onde integrou o movimento renovador Clube da Madrugada, desde as primeiras horas, transferindo-se ainda adolescente para o Rio de Janeiro, onde diplomou-se em Letras Neolatinas, na atual UFRJ e lecionou Línguas e Literatura na Universidade de Brasília, saindo em 1965, em consequência do golpe militar.
Ingressou posteriormente no Itamaraty, onde serviu como Oficial de Chancelaria em Brasília, Beirute, Rio de Janeiro e Chicago. Casada com o poeta Affonso Felix de Sousa, é mãe de cinco filhos: Raul, Alfredo, Giles (já falecido), Isabela e Mariana. Detentora de importantes prêmios, participa de numerosas antologias no Brasil e no exterior (...) Sua obra poética já se estende por mais de dez títulos, entre os quais se contam: Alameda, 1963 (ficção); Ponto de Cruz, 1979 (poesia); Torna Viagem, 1981 (poesia); Zé Pirulito, 1983 (estória infantil); Visgo da Terra, 1986 (poesia); Lição de Alice, 1986 (poesia); Rês Desgarrada, 1994 (poesia); De déu em déu, 1998 (poesia reunida); Intramuros, 1998 (poesia); Rasos d’Água, 2003 (poesia); Jaula, 2006; Antessala, 2007; 50 poemas escolhidos pelo autor, 2008; Palavra na berlinda, 2011; Infância em franjas, 2014; Sobre escritos: Rastros de leitura (Crítica literária –ensaios de Astrid Cabral – Org. Helena Ortiz, 2015). É detentora dos seguintes prêmios: José Décio Filho, da UBE-GO, 1981; Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras, 1987; Casa do Escritor, São Paulo, 1987; Cine-vídeo de Porto Alegre/Lei Sarney, 1987; e Jorge Fernandes, da UBE-RJ, 1996, entre outros."
Vejamos um poema de Alencar e Silva para Astrid, no primeiro livro do autor, Painéis, 1952:
À Astrid Cabral
Tens na voz algum ninho, um ninho de ouro,
que lembra, numa chuva de açucenas,
as manhãs claras, musicais, serenas,
de um celeste e rosado logradouro
E ouvir-lhe os sons, ouvir esse tesouro
de harmonias de mágicas avenas,
é dar asas à alma e ver-se apenas
voando à claridade de um céu louro.
Pois, quando surges, luz e canto, em cena,
voando de tua garganta de açucena,
os versos, essas aves das ideias,
como que aroma e música espalhando,
as almas todas vais sonorizando
e arrebatando as lívidas plateias.”
Alencar continua em sua resenha crítica: “Um dia, quando ia em pleno andamento a segunda caravana que empreendêramos, pelo sul do país, com Jorge Tufic, Antísthenes Pinto e Guimarães de Paula (...) estivemos em visita de cortesia à nossa conterrânea, que se encontrava hospedada num pensionato para estudantes, na Rua da Glória, no Rio de Janeiro, cidade onde ela se diplomaria em Letras Neolatinas, pela Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil, atual UFRJ.” Apesar da distância entre Manaus e Rio de Janeiro, além de todas as dificuldades de deslocamento, pois estamos falando dos anos de 1953/1954, o posto de musa no Clube da Madrugada sempre foi cultivado e respeitado por seus companheiros de poesia, como nos relata aqui Alencar e Silva: “Desde a adolescência, Astrid Cabral tem tido destacada participação na vida cultural de Manaus, quer atuando em grêmios literários, como a SAEL (Sociedade Amazonense de Estudos Literários, que ela ajudou a fundar e levou a funcionar em uma sala do Instituto de Educação, cedida por sua diretora, e avó, Dona Eunice Serrano Telles de Souza), quer em publicações de vanguarda, como o jornal “Nossos Dias”, de Francisco Vasconcellos e João Bosco Evangelista, onde apareceriam os seus primeiros poemas. E o autor de Lunamarga continua: “Além do toque de qualidade que a distingue, o que sobreleva na obra de Astrid Cabral (...) é, sem dúvida, a consciência profissional em que se espelha o seu saber-fazer poético.” (...) “atesta, efetivamente, a presença de uma poderosa força criadora, que se exerce, com total domínio, sobre a palavra emprestando-lhe à linguagem aquela ressonância, a um tempo próxima e distante, aparentemente estranha e aparentemente familiar, das coisas eternas. (...) “Visgo da Terra”– obra em que celebra a memória dos seres e coisas que povoaram a paisagem do que fora Manaus da sua adolescência – aquele, entre os seus livros, em que melhor podemos observar uma das faces mais constantes de sua poesia – a das EVOCAÇÕES – e, aí, vê-la como exímia inventora de tesouros, a explorar os preciosos filões dos sentimentos e a trazer de seus subsolos as gemas mais belas, para maior glória de sua cidade.” (ALENCAR E SILVA (Quadros da Moderna Poesia Amazonense, Ed. Valer, 2011).
| Astrid Cabral |
3. A poética das pequenas coisas
Astrid
Cabral faz a Poesia das Pequenas Coisas. O seu olhar costura o poema por
dentro, alinhavando com precisão, na imaginação do seu leitor, os versos no
pensamento, que flutuam no ritmo do poema, vislumbrando decifrar-lhe as
metáforas, buscando as chaves e códigos do poema.
Vejamos
o que nos diz José Godoy Garcia, na edição de Astrid Cabral-50 poemas
escolhidos pelo autor (Edições Galo Branco, RJ,2008): “A começar pelo
título do livro, Ponto de Cruz, onde principiamos a tomar contato
com as pequenas-grandes coisas da vida doméstica, como que colocadas
harmoniosamente sobre a mesa. Mas, como toda a boa poesia, esta que nos vem de
Astrid não nos prende à aridez e ao limitado território das palavras. Do exíguo
mundo, das humildes e pequeninas coisas do dia-a-dia da cozinha, da casa, do
quintal, projeta-nos alto e longe, graças ao mistério que só os autênticos
artistas conseguem alcançar.”
Ponto de Cruz (recorte do blog Alma Acreana)
Lá fui eu ao armazém
comprar açúcar e mel.
Voltei com um quilo de sal
na boca o gosto do desgosto
lágrimas no rosto embutidas.
No balcão ao pedir vinho
vinagre me foi servido,
queria um maço de fogos
chuvas de prata e estrelas
para comemorar a noite
porém só havia velas
com que imitar o dia.
Lá fui eu ao armarinho
(tangida por que ventos
por que pérfidas sereias?)
comprar um dedal de amor.
Voltei com este coração
são sebastião de alfinetes.
O peito? retrós entaniçado
por mil linhas de aflição
euzinha toda por dentro
que nem pano em bastidor:
bico de agulha finoferoz
sobe-desce-sobe bordando
minha vida em ponto de cruz.
(CABRAL,
Astrid. De déu em déu: poemas reunidos (1979/1994). Rio de
Janeiro: Sette Letras, 1998. p.42)
No
poema que dá o título ao livro, podemos observar com nitidez o poder evocativo
da poesia de Astrid, que se destaca pela capacidade de sugerir e provocar
sensações, lembranças e estados de espírito no leitor, em vez de descrevê-los
diretamente. O “manuseio” de recursos tais como: a subjetividade, o simbolismo,
oposições de ideias, ritmos, aliterações, assim como temas como o “eu”
interior, a melancolia e o mistério. Tudo isso faz do poema um repositório de
imagens poéticas que buscam uma expressão espiritual e etérea, para criar uma
atmosfera misteriosa e transpessoal.
| De déu em déu |
No livro De déu em déu – Poemas reunidos (1979-1994), o Professor Dr. Antônio Paulo Graça nos diz sobre Astrid, em seu artigo de apresentação: “Se “Torna-Viagem” se abria para o espaço amplo, para o exterior (em todos os sentidos), “Lição de Alice” se concentra na intimidade, no mínimo espaço, na vida doméstica e nas experiências que uma voz sensível, muitas vezes, outras, extremamente cáustica, não faltando mesmo, aqui e ali, um toque de crueldade. O leitor de Astrid Cabral não deve se deixar envolver inteiramente por sua sensibilidade. Como antídoto, preste-se atenção nos versos finais de ‘Nudez’ – “Mas bendizemos o corpo que nos redime / e nos queremos selvagens, puros, nus. / Salvos pela misericórdia de nossa miséria.” – em que o paradoxo da última linha não nos deixa esquecer nossa condição liliputiana. Ao lado desse pendor crítico, há também uma tentação pela agressão pura, agressão contra as falsas convenções.”
Lição de Alice
No vale de lágrimas
a lição de Alice:
Não se deixar afogar.
Nadar na preamar
da própria dor.
| Astrid Cabral – 50 poemas escolhidos pelo autor |
Um
dos poemas mais perfeitos desse livro, citado acima, na minha opinião, é
“Sísifo de Avental”. Faz parte da vida de todos nós, que a lemos, essa sensação
de estranha intimidade com que Astrid calibra seus versos e metáforas, como a
dizer “em segredo” que somos cúmplices nas inconsistências da vida. A sua visão
das pequenas coisas do dia a dia, a rotina, os filhos, a casa, o amor e o
grande desafio de fazer poesia das alegrias e dores, ironias e resiliências,
das agruras de existir, afinal. Existir num tempo/espaço, onde as mulheres
estão em plena ascensão profissional no mundo, e de tudo o mais que a vida vai
nos ensinando na prática, nos direciona o olhar a distâncias inusitadas,
assustadoras e belas. Astrid encontra tempo e disciplina para escrever e nos
encantar, definitivamente, com sua poesia.
Sísifo de avental
Sísifo de avental
enche e reenche panelas
que se esvaziam na lida
de almoços e jantares
a encadear os dias
pois sempre vem a fome
que, voraz, tudo consome.
Então nessa condição
sem saída de trabalho
que não tem folga ou fim
beata, ela obra milagres
e das batatas arranca
a apoteose de purês e suflês
e mágica, extrai dos ovos
a própria neve do inverno
mais o verão consubstanciado
em dourados fios e chuviscos
petiscos de pudins e quindins
e doma as caldas nos vários
pontos de pasta fio espelho
pérola bala areia e caramelo.
E com sofisticados bifes
oblitera o massacre dos bois
e sobre toalhas faz florescer
jardins em saladas orvalhadas
de azeite vinagre e sal.
E sabe que até o fim dos dias
estão suas mãos destinadas
à faina sem folga ou fim
mas vai dando a sua faina
o seu próprio fim.
(Astrid Cabral-50 poemas escolhidos pelo autor – Edições Galo Branco, Rio de Janeiro, 2008).
3.1. As pequenas coisas do rio que transborda e inunda
Em
seu Blog Palavra do Fingidor, o
Acadêmico da AAL, poeta e escritor Zemaria Pinto, nos diz sobre a poeta: “A
água é um elemento constante na obra poética de Astrid Cabral. O ápice dessa
relação é o premiado livro Rasos d’Água: “uma viagem épica pela
memória líquida, das lágrimas à neve, banhando-se de chuva, perscrutando o mar,
os rios inúmeros, em permanente tensão com o pathos da morte, que ora se
aproxima e sangra, ora se afasta e observa a velhice inevitável, ora apenas lembra/relembra
a dor para sempre represada”, como escrevi na apresentação da segunda edição.
Em Rasos d’Água, o eu lírico é um ser líquido, sem forma definida,
que toma nova forma a cada poema. Para Astrid, a água é muito mais que a origem
da vida e metáfora da criação: numa relação dialética que não se esgota nunca,
é também fonte de morte e de destruição.
O
poema “Água doce”, que é a água da memória, da infância, guarda a consciência
disso, quando opõe a água do rio à água do mar, representada sempre por
elementos negativos, como a “vândala violência do mar”, “a ameaça constante das
vagas” e “a baba de espumas brabas”. Mas, aos poucos, essa consciência vai se
redefinindo, a memória vai se recompondo, e as lembranças vêm à tona, sempre
naquela relação vida/morte-criação/destruição: “A água do rio é mansa / mas
também se zanga”. E enumera o lado oposto da água doce e mansa: banzeiro,
enchente, correnteza, repiquete, cachoeira, redemoinho. Para quem compartilha
essas memórias com Astrid, essas palavras podem parecer motivos de brincadeiras
distantes. Mas ela adverte: o rio transborda e inunda, arrasta e mata, “afoga
quem não sabe nadar”, “enrola quem não sabe remar”. No seu blog, Zemaria
Pinto compartilha com seu público uma belíssima resenha crítica sobre a
obra Rasos d’Água de Astrid Cabral (da qual retirei o excerto
acima) e em parceria com o músico Mauri Mrq, publicam a obra
lítero-musical A Lira da Madrugada, musicando o poema “Água doce”
de Astrid Cabral.
Água doce
A água do rio é doce.
Carece de sal, carece de onda.
A água do rio carece
da vândala violência do mar.
A água do rio é mansa
sem a ameaça constante das vagas
sem a baba de espumas brabas.
A água do rio é mansa
mas também se zanga.
Tem banzeiro, enchente
correnteza e repiquete.
Pressa de corredeira
sobressalto de cachoeira
traição de redemoinho.
A água do rio é mansa
corre em leito estreito.
Mas também transborda e inunda
também é vasta, também é funda
também arrasta, também mata.
Afoga quem não sabe nadar.
Enrola quem não sabe remar.
A água do rio é doce
mas também sabe lutar.
A água doce na pororoca
enfrenta e afronta o mar.
Filha de olho-d’água e de chuva
neta de neve e de nuvem
a água doce é pura
mas também se mistura.
Tem água cor de café
tem água cor de cajá
tem água cor de garapa
tem água que nem guaraná.
A água doce do rio
não tem baleia nem tubarão
tem jacaré, candiru, piranha
poraquê e não sei mais o quê.
A água doce não é tão doce.
Antes fosse.
Clique AQUI para escutar o poema musicado.
3. 2. O cardápio diário das pequenas-grandes coisas
Hildeberto Barbosa Filho, em 50 poemas escolhidos pelo autor, afirma: “Em Astrid, as coisas, os objetos, as situações de rotina, os ambientes, as ideias, enfim, toda e qualquer matéria prima de poesia, como que se transmutam em realidades outras, integrando uma outra ordem da existência em que as noções imediatas de tempo e espaço, de espessura e de aparência terminam aniquiladas, para que se faça presente o substrato de uma ordem secreta – uma ordem que pode ser ternura ou uma ordem que pode ser crueldade – a gerir os apelos abissais das coisas e dos seres.” (P. 107)
Em
“Cardápio”, poema que compõe o elenco de Lição de Alice, Astrid nos
exemplifica a dissertação acima:
Cardápio
Nosso cardápio diário
inclui carnes assadas
e angústias bem passadas.
Inclui sangrentos nacos
cobertos de molhos pardos
que sabem a desgosto.
Inclui mil hipocrisias
devidamente empanadas
e servidas à francesa
bem antes da sobremesa
de frutas esquartejadas.
Inclui entre as iguarias
amizades congeladas
sonhos em banho-maria
deleites de amor requentado
em rançosos azeites.
Ódios com pó de pimenta
e as trêmulas gelatinas
de dúvidas coloridas.
Inclui o tédio guarnecido
de exóticos temperos.
Inclui o medo camuflado
em camadas de batatas.
Inclui a morte servida
sem o menor escrúpulo.
(CABRAL, Astrid. De déu em déu: poemas reunidos (1979/1994). Rio de Janeiro: Sette Letras, 1998. p.280)
A leitura dos poemas de “Lição de Alice” me tocaram a tal profundeza que de lá, dos meus “intramuros” escrevi um poema chamado “Espelho de Alice”, que faz parte do meu livro In(-)versos do meu Verso. Por lapso meu deixei de dedicá-lo à Astrid, o que faço agora.
Espelho de Alice
À Astrid Cabral
Um dia tive um sonho
Cavalo solto, crinas ao vento
Luz de luar, luar de sangrar
A guiar-me trôpegos os pés
Bosques meus, tendas minhas
Escudo de Perseu oblíquo
Noite travestida de sol
Bocas em notas noturnas
Espelho invertido de Alice.
Quem vem me buscar?
Sequestrei-me do sonho
Crime inafiançável, hediondo
Forasteiro de além-pátria!
Busquei-me entre os espelhos
Sem me encontrar em nenhum
Estilhaços de mente-cuore
Cinzas de amor destratado
E já me tardo na dor...
Vazio de bocas e vozes
Bar aberto, copos vazios
Peitos outrora plenos e meus
Hoje negro e frio acepipe.
(Rita Alencar Clark, In(-)versos do meu Verso, TAUP, Curitiba/PR, 2024)
4. Da íntima carne da poesia de Astrid Cabral – despedida
A escrita de Astrid Cabral, antes de
ser feminista, pois os tempos eram outros, era feminina. Ela nos empresta suas
asas para que possamos alcançar a sensibilidade , muitas vezes crua e superior,
conquanto ácida, de seus poemas. A sua costura de versos e evocações se faz por
dentro da pele, e se mostra entre músculos e consciência, subindo e descendo a
fina agulha da poesia em nossos corações, se assim quisermos. Penso que há
muito precisávamos fazer esta homenagem à Astrid Cabral, pela sua laureada carreira
literária, pelo seu talento inenarrável, pela beleza que nos comove e arrebata
a todos quando lemos e penetramos na íntima carne de sua poesia.
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| Arquivo da autora |
Rita Alencar Clark, professora de Língua portuguesa e Literatura, poeta Amazonense, contista, cronista, ensaísta e revisora. Membro Efetivo do Clube da Madrugada (AM) desde 1984, membro fundador da ALB/AM - Academia de Letras do Brasil/Amazonas , da ACEBRA - Academia de Educação do Brasil, Membro da AJEB/AM (Associação de Jornalistas e Escritoras) e ASSEAM (Associação dos Escritores do Amazonas) . Colaboradora do Blog Feminário Conexões e dos Coletivos Enluaradas e Mulherio das Letras, com participação em diversas coletâneas e antologias poéticas, sempre representando o Amazonas. Tem três livros publicados: "Meu grão de poesia, Milton Hatoum - Um certo olhar pelo Oriente-Amazônico" e "In(-)versos do meu verso".
quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
E O NOVO, MESMO QUE NÃO QUEIRAM, VIRÁ!
E o que virá traga de novo / nosso olhar leitor de estrelas
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Virá.
Era ontem, virou hoje.
Era passado,
virou presente.
Éramos crianças
viramos adultos.
Era sonho,
virou realidade
Éramos desconhecidos,
viramos amigas, amigos.
Éramos inocentes,
éramos. Éramos…
Tornamo-nos conscientes?
Quem sabe!
Que nossa consciência esteja atenta
à preservação da vida,
das florestas, do planeta.
Aos cuidados com a saúde
do corpo, da alma e da mente.
A do outro e, a da gente.
E do que éramos ontem,
sejamos seres melhorados
e, da força do mal,
curados.
E o que virá, vire história
de amor,
de compaixão e solidariedade.
E o que virá, resgate da memória
os nossos sonhos, fantasias,
a nossa criança!
E o que virá traga de novo
nosso olhar leitor de estrelas,
nosso ser de encantamento e de possibilidades,
capaz de compor poesia e esperança.
O que éramos, o que somos e o que seremos?
O bem nos acena e
nesta cena o que é que se faz?
Sejamos o bem!
Sonhemos juntos de novo!
Que o ano de 2026 seja bom e supere 2025.
Que os nossos sonhos se tornem o bem.
EM NOME do AMOR, DA VIDA E DA PAZ,
AMEM, AMÉM!
Feliz Ano Novo!
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| Arquivo da autora |
terça-feira, 30 de dezembro de 2025
O LIMITE DE UMA MULHER
"Eu saúdo, honro e apoio as mulheres que estão dizendo não"
Por Flavia Ferrari
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Somos socializadas a escutar e a prestar atenção, pois a distração e o movimento são características dos meninos.
Na adolescência, nos viramos desde início com maquiagem, roupa, cabelo, de acordo com o que a maioria faz - não pertencer a esse grupo majoritário tem um alto custo social. Somos automaticamente levadas à dinâmica do cuidar: do corpo, das coisas, dos hábitos, dos espaços, das plantas, dos bichos, dos filhos. O peso simbólico e permanente da palavra “mãe” sobrevive à própria vida das mães. É por esta via que mulheres são lembradas e exaltadas na família.
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É por isso que, quando uma mulher diz que não aguenta mais, é porque o limite tão esgarçado já perdeu toda a elasticidade, e não respeitar essa frágil película que separa o prosseguir do recusar é abrir mão da própria sanidade. Eu saúdo, honro e apoio as mulheres que estão dizendo não, buscando recalcular rotas e transformar suas vidas, seja saindo de casamentos, relacionamentos, das casas, das cidades ou dos países em que não querem mais estar.
Avante, mulheres! Cada dia há de ser menos pior do que o dia anterior.
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