Catálogo Virtual Literário do Feminino

sábado, 30 de abril de 2022

LINGUAGEM DO BATOM VERMELHO, POR CAROLLINA COSTA

 




LINGUAGEM DO BATOM VERMELHO|09


CRÔNICA: EMPODERAMENTO É BRUXARIA

Por Carollina Costa


Essa semana tive a felicidade de estar no card de estreia da seleção de poetas para a coletânea I Tomo das Bruxas e comecei a pensar um pouco mais sobre essa personagem: a bruxa.

No geral, quando pensamos nos contos de fadas e filmes, a bruxa é aquela mulher mais velha, má e amargurada que quer sempre prejudicar a princesa protagonista da história, mas por que essa relação? Como isso afeta o nosso imaginário, nosso entendimento do feminino e até mesmo como a sociedade enxerga — ou encaixota — os diversos tipos de mulheres? Meus pensamentos sobre isso tomaram o formato de crônica e, em homenagem à estreia do I Tomo e às múltiplas mulheres que habitam cada uma de nós, resolvi compartilhá-la por aqui no texto dessa semana.


Empoderamento é bruxaria


Não há uma mulher que não tenha crescido ouvindo que deveria ser uma "boa menina", seja em casa ou na sociedade ou por todos os lados. Ao crescerem ouvem que devem ser "boas mulheres", e não é possível ser uma "boa mulher" se você não tiver um pouco da "boa menina" dentro de si. Mas o que é ser "boa" e "boa" para quem?

A "boa menina" e "boa mulher" normalmente são boas para todo mundo, menos para elas próprias. Você é "boa" se não discute, se não discorda, se sabe se vestir e se "comportar", você é boa principalmente se se esvaziar das suas necessidades para enxugar o gelo das necessidades infindáveis de todos a sua volta. Reconhecemos aí a imagem clássica das princesas.

Do mesmo modo, é "má" aquela mulher que olha para si mesma, que reconhece suas necessidades, que reage quando ferida e que impõe limites para não ser mais explorada — emocionalmente, psicologicamente, fisicamente, da forma que for. É "má" a mulher que clama pela e com a própria voz, que diz Sim quando quer dizer sim e Não quando quer dizer não, sem rodeios. É "má" a mulher que toma posse de si mesma, de seus encantos e desencantos, de seu corpo, sua mente, sua caminhada. Vemos aí a imagem das bruxas, nem todas as de contos de fadas, mas principalmente as humanas que foram queimadas.

Se você toma um chá e cura uma gripe, é bruxa. Se envelhece, é bruxa. Se tem mais saberes que um homem sobre algo, é bruxa. Se diz não, é bruxa. Quando penso nos contos de fadas antigos, especialmente os da Disney, que embalaram minha infância, lembro das princesas sendo reféns da vontade de alguém o tempo inteiro, trocando apenas de algoz. Quando penso nas bruxas lembro de mulheres que, mesmo com o mundo virando as costas para elas, eram dotadas de poderes sobre-humanos, criavam e "descriavam", tinham o que queriam quando queriam e como queriam sem se render a algoz nenhum.


Hoje em dia os contos de fadas estão mais modernos e desconstruíndo a muralha por séculos erguida entre a bruxa e a princesa, a "moça boa" e a "moça má". Elza vai em busca de si mesma e encontra seu lugar em meio à natureza. Malévola recupera suas asas e, estando inteira, abraça a inteireza da sobrinha Aurora, amando-a mais que o príncipe e salvando-a no final. Merida se disfarça de menino e luta pela própria mão em casamento, superando todos os príncipes e vencendo a disputa. Rapunzel rende um fugitivo e foge com ele da torre para explorar o mundo. Princesas com traços de bruxas. Os contos estão tentando ficar um pouco mais próximos da realidade.


Vibro ao ver essas narrativas mudarem, mas até serem internalizadas no imaginário social com a força dos contos tradicionais vai levar um tempinho e essa divisão simplista vai demorar para se desfazer. Até lá, escolho abraçar a bruxa que há em mim. A bruxa que diz não, que protege seu caminho e seu espaço, que na jornada do empoderamento não será vencida pelo cansaço. 


Como Malévola e Aurora receberam uma a outra, assim as "Carollinas" que me habitam vão se recebendo em amor, respeito e crescimento.





sábado, 16 de abril de 2022

LINGUAGEM DO BATOM VERMELHO, POR CAROLLINA COSTA

 





LINGUAGEM DO BATOM VERMELHO|08


VERONICA FRANCO: BIOGRAFIA E POESIA


Por Carollina Costa


Buscar referências femininas na literatura é sem dúvidas uma reeducação do nosso olhar e julgamentos sobre o que é literatura e quem a escreve. Não raro nossa lista de referências é repleta de autores masculinos, com uma Clarice Lispector aqui, uma Virginia Woolf ali, uma Carolina de Jesus acolá acenando de longe. E que bom que, apesar dos pesares, essas mulheres conseguiram seu espaço no universo literário, espaço esse que precisa ser constantemente reafirmado das mais diversas formas.


Pensando sobre as diversas formas de expressão da mulher nas letras, essa semana resolvi tirar mais uma escritora da lista das desconhecidas e trazer para a coluna do Batom Vermelho. Poeta que conheci através de um filme de ficção biográfica que me comoveu profundamente e me fez refletir se, sendo uma mulher ambiciosa em um tempo que mal podíamos pensar, seria possível ter escolhas ou destinos felizes. Apresento aqui uma breve biografia da poeta e cortesã italiana Veronica Franco, finalizando com um poema de minha autoria intitulado À Veneziana.


Veronica Franco: Breve biografia

Nascida em uma época que só existiam dois tipos de mulheres — e uma jaula social para cada uma —, Veronica Franco (1546-1591) foi  uma cortesã da Itália renascentista e filha de Paola Fracassa, que também foi uma cortesã e lhe apresentou a profissão. Naquela época havia um documento chamado “Catálogo de todas as principais e mais honradas cortesãs de Veneza” (1565) e nele constam os nomes de Paola e Veronica, o que as caracteriza como cortigiane oneste (meretrizes honradas, virtuosas).

As cortigane oneste eram as mulheres que não só eram cortesãs, mas acompanhantes sociais de homens da alta sociedade veneziana por serem as únicas mulheres permitidas à estudos como literatura, geografia, política e economia, além de viagens e presenças em festas. A intelectualidade dessas mulheres fazia parte do trabalho de acompanhante, além de ser um atrativo que diferenciava a cortigana onesta de outras colegas de profissão, como a meretrice.

Em Poems and Selected Letters, livro organizado pela Universidade de Chicago com poemas e cartas escritos por Veronica, é contada um pouco da biografia de Veronica ressaltando que ela também foi poeta e sua escrita era respeitada pelos homens da alta sociedade veneziana, algo incomum para uma mulher daquela época e com sua profissão. Quanto mais crescia como cortesã, mais se envolvia com os círculos de intelectuais da época, tornando-se anfitriã de muitas das reuniões dos Salões Literários italianos.

Veronica escrevia sobre a situação das mulheres de Veneza, algo considerado atualmente como protofeminismo — fazendo, inclusive, referência a outras mulheres escritoras de sua época como Isotta Nogarola, Cassandra Fedele, Laura Cereta e Olimpia Morata — e seus poemas flertam com o erotismo. Sua linguagem erudita e conhecimento das formas poéticas, como o soneto petrarquiano, a colocava par a par com seus correspondentes masculinos, resultando em vitórias em duelos de rimas nos círculo de intelectuais venezianos e um tutor que ajudou Veronica a publicar seu primeiro livro de poemas chamado Terze Rime.


Em 1580 Veronica foi acusada de bruxaria pela Inquisição Veneziana. Foi levada a julgamento e o filme de ficção biográfica chamado Em Luta pelo Amor (que não é tão romântica quanto o título sugere), retrata essa cena com um discurso de Veronica forte e emocionante sobre suas escolhas de vida e a situação da mulher veneziana. Ela foi absolvida, porém sua reputação não foi mais a mesma. Veronica morreu aos 45 anos numa das vizinhanças mais pobres da cidade.

Na biografia ficcional que assisti, uma das cenas que me marcou muito foi quando Veronica, já cortesã, conversava em segredo com sua antiga amiga de infância Beatrice — oferecida pelo pai em casamento para um senador quase 30 anos mais velho — e Bea pede para Veronica tornar sua futura filha uma cortesã pois "nenhum inferno bíblico poderia ser pior do que o inferno vivido nessas quatro paredes" em que Beatrice se encontrava dia após dia, isolada e controlada por tudo e todos a sua volta. Em resposta, Veronica diz que ela "não sabe o que pede" porque "essa jaula pode parecer grande, mas ainda é uma jaula" que também mantinha Veronica presa, só que de outra forma. Ambas sentiam-se como fantoches nas mãos dos homens que as cercavam, uma na cozinha e outra no quarto, limitadas aos personagens que elas deveriam representar.

Nos poemas e cartas escritos por Veronica, é possível perceber as denúncias que ela fazia acerca de sua situação e da situação das mulheres de Veneza. Não só sobre as cortesãs e meretrizes, mas também as mães e as adolescentes, e sobre como todo o sistema legal e social era organizado para que as mulheres estivessem sempre subjugadas a alguma figura masculina.

As cortesãs, em especial as cortigane oneste, eram as mulheres que gozavam de maior liberdade. Eram as únicas que tinham controle sobre suas finanças e posses, as únicas permitidas aos estudos eruditos de sua livre escolha e, até certo ponto, também escolhiam quem receberiam em seus leitos. Digo até certo ponto porque deitar com o homem certo era o que lhes proporcionava as demais liberdades. No fim das contas é apenas uma jaula maior. Mas em época que à mulher só era permitida uma vida enjaulada, valia a tentativa de escolher a jaula menos claustrofóbica.


Os séculos passaram e celebro, como em postagens anteriores, a atual liberdade da mulher em ser dona de si mesma e de tudo que possui, incluindo palavras e corpo. Celebro aqui com minha escrita através de um poema que fiz relacionando cenas do filme Em Luta pelo Amor com passagens do livro Poems And Selected Letters.



À Veneziana


Veneza

Paraíso, orgulho e beleza

Onde o prazer é o único dever


Dançamos com destinos selados

Mas até este encontro

Enfeitemos os fatos


Da mulher celebramos a beleza

E a que não pudermos desfrutar

Mantemos presa


Já as que podem nos agradar

Até ao Rei da França iremos ofertar

E em troca nos dará armas e navios

Com Veronica a representar-nos neste pedido


Veneza não é suficiente só

Uma cittadini originale é preciso

Para que nossa nação não vire pó


Ganha

Celebra

À veneziana vencemos

Com a veneziana festejemos

Até a próxima queda


Agora

Nossas Vênus penduradas semi-mortas


Veronica

A vera icona veneziana

Pela Inquisição inquirida

Pelo Estado absolvida

Finda os dias

Sem festas ou acolhidas

quinta-feira, 7 de abril de 2022

RODAS DE CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS: ELIANE POTIGUARA E CONCEIÇÃO EVARISTO



PROTAGONISMO|04

RODAS DE CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS: ELIANE POTIGUARA E CONCEIÇÃO EVARISTO                       

                                                                                                                           Por Heliene Rosa


O projeto de leitura "Rodas de Contação de Histórias: Eliane Potiguara e Conceição Evaristo" promove a divulgação da escrita das mulheres indígenas e negras, no contexto da literatura contemporânea brasileira. Idealizado por mim, vem sendo desenvolvido em parceria com o Programa de Pós-graduação em Estudos Literários (PPLET/UFU), com coordenação partilhada com o professor doutor Carlos Augusto de Melo (PPLET/ ILEEL/UFU) e com apoio financeiro do Programa Municipal de Incentivo à Cultura.

 Durante o ano de 2021, aconteceram oito encontros virtuais que reuniram centenas de pessoas para ler e debater obras de autoras indígenas e negras, durante a pandemia da Covid-19. Contribuíram para o sucesso desses eventos, pesquisadoras e pesquisadores, poetas e escritoras em interação dinâmica: Cátia de Jesus Lima, Débora Lima, Eva Potiguara, Fernanda Felisberto, Girlane Santos Silva, Heliene Rosa, Joel Vieira, Mirian Santos, Neli Edite dos Santos, Rosivânia Santos, Simone Ricco, Verônica de Souza, Letícia Santana Stacciarini. Os debates ocorreram em torno das obras: O Pássaro Encantado, A Cura da Terra e Metade Cara, Metade Máscara, de Eliane Potiguara; Ay Kakyri Tama (eu moro na cidade), de Márcia Wayna Kambeba; Olhos d’Água, Insubmissas Lágrimas de Mulheres, Poemas da Recordação e outros movimentos, de Conceição Evaristo; e Terra Negra, de Cristiane Sobral, escritas representativas das literaturas negras e indígenas brasileiras.


         Esse trabalho de disseminação da produção literária das intelectuais indígenas e negras contribui para a desconstrução de estereótipos e de preconceitos que giram em torno dos povos negros e indígenas, de forma a favorecer o respeito pelas diferenças étnicas, sociais e de gênero. Debates e leituras realizados durante os oito encontros, no decorrer do ano de 2021, culminaram com a produção de um livro em e-book. Uma obra organizada em duas seções intituladas: ensinar e acolher.

A primeira parte, “Palavras que ensinam”, apresenta contribuições de pesquisadoras e pesquisadores que conduziram leituras literárias nos encontros da Roda de Contação de histórias. São os artigos: “Curar a terra antes que o céu despenque: a escrita engajada de Eliane Potiguara”, de Joel Vieira da Silva Filho; “Eliane Potiguara: a voz ancestral da literatura indígena brasileira”, de Rosivânia dos Santos; “Análise do livro Lua-menina e menino-onça da escritora indígena Lia Minápoty”, de Letícia Santana Stacciarini; “Memória e Resistência na Poética de Conceição Evaristo”, de Cátia de Jesus Lima; “Terra Negra: Corpos Insurgentes”, de Mirian Cristina dos Santos.

Já a segunda parte, “Palavras que acolhem”, traz depoimentos de participantes a respeito das suas experiências leitoras na Roda, no ano de 2021. Textos cativantes de quem se emocionou, aprendeu e ensinou: Manancial, da socióloga e acadêmica do Curso de Letras Helisa Vieira Magalhães; Roda de Contação: ouvir, aprender e se Emocionar, de Jeane Almeida da Silva; Conta Lá Que Eu Conto Cá, de Maria Célia Gomes de Souza, e; Relato de Experiência, da professora universitária e doutoranda em Estudos Literários Márcia Dias Dos Santos.

            Em breve anunciaremos o lançamento do e-book nas redes sociais do projeto, onde deverá permanecer disponível para leitura e download. Venham participar com a gente desse banquete literário: https://www.instagram.com/rodasdecontacaodehistorias/; https://www.youtube.com/channel/UC98mTBclMZaadfrX7IwWlgA. 




sábado, 2 de abril de 2022

LINGUAGEM DO BATOM VERMELHO, POR CAROLLINA COSTA

 




LINGUAGEM DO BATOM VERMELHO|07


RESENHA: O DIÁRIO DE ANNE FRANK


Por Carollina Costa


As diversas crises que estamos vivendo ao redor do mundo não estão deixando ninguém passar ileso. Desde o final de 2019 todos passamos por perdas e sofrimentos de diversas ordens e longe de mim entrar numa de "essa dor é maior do que aquela".

Só quem sente é que sabe. Os sapatos dos outros são sempre dos outros e cada um utiliza o seu para caminhar em sua própria jornada. E agora também com tantos conflitos bélicos em alta ao redor do mundo, todo esse cenário de caos me fez lembrar um único livro de uma autora surpreendentemente singular: Anne Frank.

No texto dessa semana irei apresentar uma resenha do livro O Diário de Anne Frank, seguida se um poema de minha autoria que fiz relacionando o livro com os eventos atuais.


Resenha: O Diário de Anne Frank, editado por  Otto H. Frank e Mirjam Pressler

Anne foi uma menina judia nascida em Frankfurt, Alemanha, de família humilde que se mudou para Holanda assim que surgiu a Alemanha de Hitler. Ela, sua família e outros judeus viveram por dois anos no sótão do escritório de seu pai até serem delatados e levados aos campos de concentração. Nesse tempo ela escreveu um diário sobre as experiências vividas em seu mundo interior e exterior durante esse período.

Anne foi uma criança de extrema sensibilidade que, mesmo entendendo tudo o que se passava ao  seu redor, ainda assim conseguia trazer toques de leveza e humor para seu cotidiano e, claro, para suas anotações. Certa vez, próximo do fim da guerra, ela ouviu no rádio que o governo holandês colheria testemunhos escritos e oculares dos sobreviventes, e foi aí que ela resolveu que faria de seu diário um livro.

Anne morreu de tifo aos 15 anos e seu pai, Otto Frank, foi o único familiar sobrevivente do Holocausto. Em busca de realizar o desejo da filha, entregou os manuscritos ao Instituto Estatal Holandês, que, com o tempo, veio a ser estudado e se tornou um livro. Em 1960 foi inaugurada a Casa de Anne Frank, um museu em Amsterdã que fica exatamente onde era o antigo esconderijo de Anne e sua família.  

Misturando alegria, medo e várias outras emoções num grande caldeirão, O Diário de Anne Frank é um livro que indicaria em qualquer época, mas acredito que nesse momento é possível criar uma conexão com o livro de uma forma que em nenhum outro tempo seria possível. E a linguagem é bem tranquila, o que ajuda nesse processo.



Antes dos quinze

É preciso coragem para

Ser feliz

Isso já é sabido

Mas essa coragem só vem

Quando se olha além

Do próprio umbigo


Ninguém tem autoridade

Para dizer que a dor do outro

Só vale metade

E que só a sua própria

É verdadeiro sufoco


Antes dos quinze anos de idade

Já havia uma pequena

A um pé do campo de concentração

Ensinando lição

A muito adulto airado


Enxergar bem o que se tem

Não é pecado

Querer ir além

É mais que desejado 

Juntar os dois

É garantia de sustento

Da sola de sapatos gastos

De quem caminhou por tantos altos e baixos

Mas ainda escolhe ficar de pé




quarta-feira, 23 de março de 2022

TRILOGIA DAS DEUSAS - A MENINA, A MULHER E A BRUXA


                            Baixe o edital clicando AQUI

TRILOGIA DAS DEUSAS - A MENINA, A MULHER E A BRUXA


 Por Margarida Montejano

Patricia Cacau

Agora vamos para trilogia.

Virgem (Se Essa Lua Fosse Nossa)

Mulher na fertilidade (Ciranda de Deusas)

Mulher na sabedoria (I Tomo das Bruxas)

A mulher nas 3 fases da sua existência.

Formando o tripé*

 

Se essa Lua fosse Nossa

 

É manhã… muito cedo ainda…

Me ponho a olhar. Fixo os meus olhos e, a retina enfeitiçada vê a menina faceira, virgem, cheirando a alecrim e à flor de laranjeira.

 

Maria, Isabel, Marta, Teresa… Quanta energia, quanta beleza!

 

Leve e solta, canta com o sol e o vento.

Corre feliz entre os campos e, de espírito livre com flores se enfeita, na relva se deita!

Oh criatura divina que a lua do céu ilumina! 

Que da boca escorre mel! Que ofusca as estrelas do céu!

 

Fátima, Conceição, Imaculada,

Margarida e Rosário…Fiam a noite, tecem o dia, experimentam a vida!

 

Vejo  outra menina igualmente bela,

preta, branca, vermelha, amarela,

a desfilar sua singularidade entre carros e arranha céus!

Seja no campo ou na cidade ou, de qualquer ponto do universo,

as meninas encantadas, perfumam as noites estreladas 

e  à lua, declaram em prosa e verso o seu amor no papel.

Numa aquarela, seduzem, inspiram… ah se essa lua fosse nossa!

Enternecidas, cantam o amor próprio e viajam para a lua, a Consolação, a Rita de Cássia, a Glória e a Aparecida!

 

Uma Ciranda de Deusas

Afastem de mim a sua Filosofia!

Joguem fora estas Poesias de Amor!

Tessalonicenses 4:16-18

 

É tarde, mas… cedo ainda para ela. Para elas!

Pego-me a admirar a formosa mulher que de botão, flor se fez. Faz de conta que o tempo não passa e a bela corajosa, canta espantando os males e as tardes ensolaradas, encanta.

 

Da Penha, Ana, Das Dores, Gorete e Catarina, aos olhos da mãe em noite de lua, são elas ainda meninas

 

Com a alma lavada nas noites enluaradas, escreve receitas, rabisca poesias, aprende com os erros, acalma o vento e, do tempo, os temores.

Ensina o amor e inventa a esperança.

O tempo e as agruras da vida, enfrenta.

Seguem Ana, Madalena, Clara e Remédios, o caminho das pedras, no enfrentamento das dores.

 

Luta na labuta do dia e sonha na candura da noite.

Destemida, cuida da casa, da roça e das crias.

Tão fértil é ela que gesta em seu ventre a luz

e, o dia é pouco para o tanto que faz!

Ela, somente ela é capaz de, ao mesmo tempo, três verbos conjugar - amar-perdoar-seguir. 

 

Rosa, Edwirges, Luzia, Patrícia  e Helena…

tão sensíveis, tão combativas e, ao mesmo tempo,  tão serenas…

 

De versos, coragem, abraços e afetos faz rimas.

Da o colo, o ombro, faz serestas, cantigas e poemas às amigas!

Poderosa faz ela o que bem quiser e,

numa ciranda de deusas, dança e dança a madura mulher.

Chora a dor do mundo, enfrenta o ódio gratuito, o machismo, o desemprego, a fome. Sangra, teme, enfrenta os dilemas, as tempestades e não desanima. O corpo endireita, se veste de sol, põe estrelas no cabelo e a terra germina. É ela a menina, a deusa, a mulher!

 

 

I Tomo das bruxas

 

Há quem passe pelo bosque

e só veja lenha para a fogueira.

Há quem veja VIDA. 

Jéssica Freires

 

Lá vem a noite e, para ela, para elas… é cedo ainda!

Ouço atentamente. A bela senhora conta histórias com sabedoria e, sua voz reverbera no ontem, transita no hoje e se põe a sonhar o amanhã.

As histórias que compôs, que viveu, que contou e que ainda estão guardadas em seu íntimo, inspira e ilumina as mulheres, jovens e meninas, durante o luau…

 

Ela, com o sol sobre os pés, revestidas da prata da lua, viaja no tempo e busca, nas origens das origens, o grão de terra que a constitui e, ao invocar o chão ancestral, encontra as ervas para todas as curas, as palavras certas para todas as situações e a reza devida, para o livramento dos males.

 

A mulher madura, na altura da idade que carrega, respeita a hora de falar, pois aprendeu com os anos, com o peso da lenha nas costas, a lata cheia d'água na cabeça e os tombos do tempo, a arte da escuta. Os olhos delas são parceiros dos ouvidos e os lábios, quando se abrem, trazem a palavra sabedoria.

 

Para além da filosofia, não é à toa que as mãos, sabedoras das medidas exatas preparam os chás, caldos e quitutes mais sofisticados do mundo e, com docilidade essas mãos, quando tocam a parte que dói nos corpos doentes, são capazes de curar. Com reza, alecrim e guiné, fazem poesia.

 

Não é à toa que essas incríveis criaturas são tão temidas! Pois, se são capazes de suportar a dor com resiliência, de enfrentar o machismo secular e de defender com unhas e dentes a causa a que acreditam, o que mais elas podem fazer? Ah! Elas podem muito, desafiam a ciência as tais feiticeiras! Elas podem, quando de mãos dadas, mudarem o mundo!

 

Na dúvida, melhor silenciá-las!

 

Assim tem se revelado as duras estatísticas do feminicídio.

Ato que substitui a fogueira e demonstra a covardia daqueles que se acham mais fortes.

Covardes eles são!

Malditos! Estes não são dignos de desatar as sandálias dessas maravilhosas bruxas do nosso tempo!

 

À  todas as mulheres que viveram, lutaram e se foram antes de nós! À Joana D’arc, a Carolina de Jesus; Irmã Dulce, Dorothy Stang; Zilda Arms, Márcia, Joene, Marielles, Elzas e a todas as Marias do mundo! O nosso respeito, admiração e reverência!

 

Estamos aqui por elas, por nós e pelas que ainda virão. Continuaremos a marcha por uma e por todas. A luta que a força bruta não estanca. O amor e o poder feminino que a tirania não vence! Seguiremos confiantes de que, na mistura perfeita da semente humana e divina, o ventre da terra haverá de gestar um mundo em que todos tenham um lugar.

Um lugar para viver dignamente e sem preconceitos, amar!






terça-feira, 22 de março de 2022

A RELAÇÃO SISTÊMICA AUTOPOIÉTICA NAS GESTAS DAS ÁGUAS – NAS TROVAS DAS AMAZONIDADES, POR ISA CORGOSINHO






FEMININO SELVAGEM & CONTEMPORANEIDADE|04


A RELAÇÃO SISTÊMICA AUTOPOIÉTICA NAS GESTAS DAS ÁGUAS – NAS TROVAS DAS AMAZONIDADES

 

Isa Corgosinho

 

O livro que desenha os cursos das amazonidades nos indica, logo no título, uma das possíveis chaves interpretativas: seguir as gestas das águas. Seguindo os fluxos dos braços dos rios que deslizam sob a linguagem poética, adentramos um mundo que em nada refrata o modelo como a ciência moderna percebia o homem e seu ecossistema. O relógio, metáfora da forma mecânica de descrição deste mundo, é incapaz de marcar a complexidade da união sistêmica dos afluentes gestados nos capítulos, unidades unas e potentes, que formam um todo. O eu lírico, que se desdobra nas experiências vivenciadas no e pelos rios, não é um mero observador do curso e concurso das águas. Se vê refratado e refrata para o leitor as relações intricadas da objetividade dos rios e a subjetividade do poeta: os elementos constituintes da realidade desse ecossistema vivem nas alteridades complexas do sistema.

Edgar Morin (2006), ao discorrer sobre o paradigma cartesiano, faz uso do termo "simplificador". Assim, a simplicidade põe ordem no universo, expulsa dele a desordem e a ordem se reduz a uma lei, a um princípio. Segundo o filósofo, este paradigma simplificador vê o uno, ou o múltiplo, mas não consegue ver que o uno pode ser ao mesmo tempo múltiplo. Ou o princípio da simplicidade separa o que está ligado (disjunção), ou unifica o que é diverso (redução). Em resposta a esse paradigma, Morin apresenta o Paradigma da Complexidade, cujo postulado está na relação entre a parte e o todo: não é apenas a parte que está no todo, mas o todo que está igualmente na parte.

O conhecimento adquirido com as vivências nos rios, que no livro de Cortezão é o todo, volta-se sobre a parte população ribeirinha, formando um ecossistema múltiplo da floresta e região. As amazonidades nos convidam a uma visão das dimensões holísticas da região pelos rios Negro e Solimões que atravessam as vidas dos ribeirinhos do norte do país.  Os perfis humanos, herdeiros dos povos originários, são seres-em-relação e o EU lírico se define sempre diante de um Tu, esse TU significativo e caudaloso, que é o rio.   

Para girar a chave e abrir a compreensão que nos permite uma melhor interpretação do livro de Cortezão, a afirmação de Luhmann (1987) nos é muito bem-vinda. Para ele, o desenvolvimento do pensamento sistêmico percorreu três distintas fases históricas: na primeira, os sistemas eram arquitetados como totalidades fechadas; na segunda,  aconteceu uma mudança radical em comparação à primeira, e os estudiosos passaram a conceber os sistemas como abertos, em outras palavras como sistemas que realizam trocas com o seu meio; e terceira, também chamada a fase dos sistemas autorreferenciados ou autopoiéticos, é defendida principalmente por Maturana e Varella (1995).       

A fase sistêmica que pulsa nas trovas das Amazonidades forma sistemas autopoiéticos, que se definem como configurações vivas que se constituem e mantêm a si mesmas. Seus componentes interagem num processo circular, produzindo mais componentes necessários para a autopreservação e constituindo-se em uma unidade delimitada que necessariamente é um ser vivo. Esse sistema nos parece apropriado para compreender a arquitetônica dos cinco rios que gestam em suas águas a pluralidade regional, cultural de sua gente.

O Rio I – DOS ACESUMES são trovas que entoam o vasto campo semântico da dupla chama amor e erotismo, sob a cumplicidade do rio, na ribeira do Negro o lamento do amigo que partiu caboclas águas: é o rio da presença e da ausência, nos incertos destinos heracletianos do rio como um devir a ser do homem.  A água e o fogo são as matérias compostas das temperaturas que sobem do rio e penetram o corpo desejante, exaltam a dupla chama: o rio é fálico, é o amante que penetra suas águas no cio sob a saia:

Quando caniçava as águas,

e me remava de rios,

sacava-me o vento a saia

na fértil relva de cios.           

 

Mas a amante deseja a chama do amor perene, e propõe acordo com o amado, encarnado no rio. Oferece os bens necessários terra, fogo, alimento e um interminável sentimento:

Dou uma roça de meia

três latas de querosene

e o que tiver no paneiro

por um rio de amor perene.

 

O Rio II – DAS COMILANÇAS. Aracu, Jaraqui, Pequiá e uma série de alimentos que provêm direta ou indiretamente dos rios: os peixes; a mandioca que produz a farinha; as frutas do café, do açaí, do maracujá são alguns dos ricos e variados alimentos que fazem a festança da cunhatã. A mãe natureza provedora e seu filho rio com sua fauna e flora abastecem, nutrem os povos originários, as famílias ribeirinhas. Os rios são amantes e são também provedores. O modelo sistêmico autopoiético aqui também comparece evidenciando uma de suas características que é produzir por si mesmos o que necessitam para a sua organização, acolhem tudo que é necessário para sua subsistência e autorreprodução.  

 

O Rio III – DAS LESEIRAS. O afluente das leseiras é rico nas caracterizações do rio e do clima quente e úmido, que invocam os fluidos, temperamentos, as malícias, as espertezas dos caboclos. A leseira não é apenas um modo macunaímico de ser, está presente na língua afiada dos abelhudos, pissiqueiros, tagarelas. Tudo cabe na sintaxe metafórica dos ditos populares: o humor afiado estampa a ambivalência do riso, presente nas relações brejeiras dos ribeirinhos.

 

Vai a canoa à deriva

florindo-se em doce brisa

devaneios na peneira...

Eita, mormaço leseira!

  

Amizade de invejoso

e ferrada de mutuca!

Eu num quero é nem com nojo:

Sorve a alma e o sangue suga!

 

Considero o Rio III um dos mais instigantes. No meio das leseiras, uma trova entrava o riso: é o curumim que sobe a ladeira com o bucho pinhado de lombriga. O descaso com a saúde dos povos originários e seus descendentes mostra que o projeto de extinção desses povos segue seu curso, jamais interrompido. A morte lenta, gradual por doenças, fome, matanças.  

Outro aspecto que o torna marcante, talvez nuclear entre os rios, é a deliciosa, sensual e brincante reflexão autoconsciente que Cortezão faz sobre o ritmo da trova, como o mais adequado para musicalizar as amazonidades, gestantes das águas. Reafirma uma poesia que ultrapassa a cor local e se coloca em plena segurança sobre o jogo de enunciações que rementem à comunicação metapoética.

Caniçar verso é custoso:

se o verbo-isca do arrebol

não flertar vivo, viçoso,

os versos fogem do anzol.

 

Pesquei um  verso porrudo,

desses de esticar caniço,

separei-o em pés miúdos

só pra fornicar com isso! 

 

Fornicando com o verso,

descobri pelo cansaço

da vulva, que o ritmo ereto

não desabrocha cabaço.

 

Rio IV – DAS CABOQUICES. Em ritmo que beira o melancólico, as trovas insinuam a dança da despedida, a saudade antecipada das relações profundas como o chão inalcançável dos rios. O lugar do eu lírico é o entre: não partiu ainda, mas já não está mais aqui, onde sua identidade compunha as alteridades complementares. A cabocla vai partir e pressente a falta do todo sistêmico do qual era parte viva e pulsante. A poesia é o lugar do resgate, da memória e das reminiscências do vivido, por isso a trova se faz mais vigorosa, estende sua quadra e forma o novo chão a caminhar.

 

Das barrancas do meu Norte,

trago todas as bonanças.

Quando o peito aperta forte,

abro o pote das lembranças.        

 

Tomar o melhor atalho

é poupar braços e forças

para as difíceis remadas.

De mãos dadas, quilha e proa.

 

Construí canoa alada

que não tem quilha nem popa.

Mas para que águas passadas,

se o destino vai à proa?   

 

Ela costurou palavras,

remendos e poesia;

caiu na rede dos sonhos,

no embalo da nostalgia.

 

As caboquices estão misturadas nas lembranças, formando um sentimento ambivalente onde as alegrias da vida, gestadas nas águas, são assaltadas pelo sentimento de perda, distanciamento, despertencimento. O ritmo das trovas faz a cabocla chorar, sentimento de exílio. As águas doces dos rios estão temperadas com o sal da saudade. Os temas mais ligados a “Peneirar horas escuras” impedem que As amazonidades tropecem na visão ufanista, radiosa da cor local, alheia às adversidades, às sombras, às dores que também movem os cursos dos rios.      

 

RIO V – DOS ENCANTADOS. Para expulsar a melancolia, tomemos o curso do Rio V, parte constituinte da cultura da região norte, os ricos e dialógicos personagens lendários não poderiam ficar de fora das gestas das amazonidades. Dialógicos porque se encontram com os mitos e figuras lendárias de outras culturas, inclusive, a clássica. Os mitos e lendas perpassam todas as culturas humanas, por isso são universais, são lendas, histórias fundantes da origem dos tempos, da vida cíclica da natureza e dos homens, da qual fazem parte. As trovas que encerram as gestas dos rios ratificam a relação sistêmica dos encantados com a natureza. Representam os elementos fundamentais e estão em relação simbiótica com o fogo, o ar, a terra e a água.               

                   

Iara, se ouvisse Orfeu

doce e ledo canto teu,

a lira te brindaria;

de ti vassalo seria.

 

 

Oh, Pandora Macuxi,

por que abriste tal cumbuca?

Agora o meu quiriri

carrega o peso do mundo.

 

As relações entre mitos e personagens lendários da região norte não são absolutamente castas, são versos revestidos de carnalidade sensual, erótica. Há uma declarada antropofagia das figuras do folclore brasileiro em carnavalizada devoração dos mitos clássicos e modernos.

 

Olhos de fogo rasgando

carnosa pele do verso;

boitatá me devorando

entranhas e estro (po)ético.

 

Japu, gatuno do fogo!

Ave, Prometeu Tapuio

fez-se pássaro e seu logro

grande façanha do mundo!     

 

Um sexo seco e mirrado

devorou Macunaíma,

fruto mulher excitado

cuspiu o herói rindo, rindo...

 

Fechando a gestas das águas, resta-nos afirmar aqui um último princípio do pensamento complexo de Morin: a poesia opera a reintrodução do sujeito cognoscente. Ao poetizar o seu chão de águas da infância, da adolescência e da vida adulta, a poeta é resgatada no processo de conhecimento como autora de sua história e, consequentemente, como coautora de construções coletivas junto aos ribeirinhos de sua terra. Reafirma-se: o sujeito e o meio onde ele está inserido tornam-se codependentes, ressaltando que este meio não é entendido como algo predeterminado, mas sempre uma construção em dialógica interação com o sujeito. O caminhar sobre As amazonidades só acontece quando existe a interação entre os passos deslizantes da poeta e as gestas das águas. Privilegiados somos nós, seus leitores, que bebemos nos igarapés, nos braços e fontes dos rios que não cessam de nos maravilhar, ensinar sobre o potencial criativo de suas águas.

 

 

Bibliografia

GRZYBOWSKI, Carlos Tadeu. Por uma teoria integradora para a compreensão da realidade. In.: Revista Psicologia em Estudo. Maringá, v. 15, n. 2, p. 373-379, abr./jun. 2010.

LUHMANN, N. Soziale systeme, Frankfurt: Suhrkamp Verlag, 1987.

MATURANA, H. & Varela, F. A árvore do conhecimento. Campinas: Editorial Psy, 1995.

MORIN, E. Epistemologia da complexidade. In.: D. E. Schnitman (Org.). Novos paradigmas, cultura e subjetividade. Porto Alegre: Artmed, 1996.

MORIN, E. Introdução ao pensamento complexo. Trad. E. Lisboa. Porto Alegre: Meridional/Sulina, 2006.

MORIN, E. Complexidade e a ética da solidariedade. Trad. E. Lisboa. In.:  Ensaios de Complexidade.  Porto Alegre: Meridional Sulina, 2006

 


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