Catálogo Virtual Literário do Feminino

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

ENLUARADAS: A POÉTICA DO ABRAÇO, POR JOCINEIDE MACIEL

Clique na imagem e baixe o I Tomo das Bruxas gratuitamente
 

ENLUARADAS: A POÉTICA DO ABRAÇO NO I TOMO DAS BRUXAS


POR JOCINEIDE MACIEL


O livro I Tomo das Bruxas: do Ventre à Vida, organizado por Marta Cortezão & Patrícia Cacau, é composto por três partes que relacionam às três condições necessárias para a liberdade: meu Corpo, minhas normas, meu Templo Sagrado; Dos Silêncios que ardem no fogo das injustiças e dos Prodígios da Palavra; Da chama Poética que abrasa o ventre Divino das Bruxas.

Ao percorrer a primeira parte da obra, o leitor poderá encontrar diversos eus poemáticos que se embrenham na perspectiva histórica sobre o lugar que a mulher ocupou/ocupa ao longo da história da humanidade, principalmente as mulheres que ousaram sonhar, pensar, e acima de tudo assumiram a autonomia dos seus corpos e de suas vozes “negra índia branca amarela/ sou mulher!/ [...] não me julgue pelo que vê/ ou pelo que tenho na bolsa/ respeite minha identidade biológica ou social/ esse lugar é meu e dele não abro mão!” (CACAU; CORTEZÃO, 2022, p.43).

O encadeamento dos poemas que compõem a segunda parte da obra permitirá o vislumbre da escrita feminina num olhar que transcende: “as obrigações imposta socialmente a mulher” e alcança a magnitude da alma humana, em um envolvente jogo de palavras em que o fazer poético e o existir se metaforiza “[...] Quando eu começar a escrever,/ a mulher que, até um dia,/ pelas janelas olhava,/ abrirá as portas que nunca/ lhes deveriam ter sido fechadas,/ E será, na vida, tudo aquilo/ que um dia havia desejado.” (CACAU; CORTEZÃO, 2022, p. 105).

A última parte do livro finaliza a grande roda, onde cada uma e todas têm o seu lugar, onde os corpos bailam aquecidos em volta da fogueira que elas acenderam para clarear os caminhos e as noites escuras, nos gritos eufóricos por liberdade de expressão, elas se fortalecem na compreensão de que as bruxas nunca andam sós, mas são povoadas por muitas, com diversas paragens, espaços em que a escrita é a única e necessária poção “[...] é tempo de origens/ e coreográficas travessias/ despojadas da carne/ expõe-se às fibras/ e a nada mais” (CACAU; CORTEZÃO, 2022, p. 192).

Destacamos a escrita da poeta, professora, doutora, crítica literária e pesquisadora Elizabete de Nascimento, que nessa coletânea nos agracia com dois poemas intitulados: Promessas do meu Patoá e Essa miserável, uma dobradinha perfeita, que repercute dois pontos essenciais na produção dessa obra de forma geral. No primeiro poema, compreendemos que a vida e a poesia são metaforizados pelo próprio sangue a correr na veia: “[...] Sangue, música torrencial dessa vida dissoluta, minha essência./ Você! Ah, você!?/ Você é minha melhor poesia,/ é quem sustenta as missivas da minha biografia”. (CACAU; CORTEZÃO, 2022, p. 132) e o segundo reúne a força de todas as escritoras que se lançam à escrita, e que em suas condições de poetas anseiam pelo reencantamento do mundo: “[...] Essa miserável, que dá boca e orelha ao papel, que torna público o impublicável/ Ah! Essa miserável, a poeta, ainda tiro-a do anonimato e entrego-a à forca” (CACAU; CORTEZÃO, 2022, p. 133).

Que esse meu eco de leitura encontre com os ecos de outros leitores e promovam um alarde literário a fim de fortalecer, ainda mais, a escrita feminina contemporânea.

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Referência bibliográfica:

CORTEZÃO, Marta; CACAU, Patrícia (Org.). I Tomo das bruxas: Do Ventre a Vida. Juiz de Fora, MG: Editora Siano, 2022.

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Jocineide Catarina Maciel de Souza é Quilombola Pita Canudos, possui graduação em Letras (2009) e Mestrado em Estudos Literários pela Universidade do Estado de Mato Grosso (2014). Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários PPGEL/UNEMAT (2021). Componente do Grupo de Pesquisa em Poesia Contemporânea de Autoria Feminina do Norte, do Nordeste e do Centro-Oeste do Brasil - GPFENNCO-UNIR/CNPQ. Professora de língua portuguesa, atuando como formadora no DRE/CEFAPRO em Cáceres/MT. Bolsista do Programa de Apoio à Pós-Graduação da Amazônia Legal Edital 013/CAPES. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura Brasileira, atuando principalmente nos seguintes temas: literatura mato-grossense, historiografia literária, Literatura de Autoria Feminina, literatura e ensino, letramento literário, literatura afro-brasileiras e Poéticas orais. É membra fundadora (2017) do Coletivo de Mulheres Negras de Cáceres/MT.

 

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

LETRAS ICAMIABAS: TUDO FOI VIVIDO, LIVRO NOVO DE MARINA MARINO

 


LETRAS ICAMIABAS|01

Letras Icamiabas do blog Feminário Conexões é uma seção pensada para a divulgação de lançamentos de livros de autoria feminina. A etimologia da palavra Icamiabas, segundo Luis Caldas Tibiricá, no Dicionário Tupi-Português, vem do tupi kama + îaba que significa "peito partido". E, para mim, trazer à luz um livro é também "partir o peito", é também lutar contra as próprias inseguranças e fragmentar-se em pedaços tantos e oferecer-se à contemplação dos olhos leitores que desejem juntar estas partes a suas outras tantas partes, contruindo novas perspectivas. 


As Icamiabas são citadas no registro de viagem de 1492 do invasor espanhol Francisco de Orellana, quando sua esquadra passava pelo Espelho da Lua, região atual de Nhamundá, no Amazonas. E no relato, o invasor fez uma analogia com as guerreiras gregas Amazonas, e por isso batizou o velho rio das Icamiabas com o nome de "rio novo", Amazonas. Fico imaginando aquelas mulheres indígenas, guerreiras, lutando, apenas de arco e flecha, pela defesa de seu território. É assim que muitas vezes me sinto quando tento publicar um livro no mercado editorial... Acredito que muitas outras autoras também ja tenham se sentido assim ou se sintam assim: lutando para defender o próprio teritório, o livro. O precioso objeto que carrega os sonhos de um corpo sagrado, em luta; que carrega a força e o desejo verdes da pedra amazonita, a muiraquitã. 


Quem abre esta seção é a escritora Marina Marino, com a boa-nova de seu mais novo rebento-muiraquitã Tudo foi vivido. E se você tem o seu livro para divulgar, entre em contato via e-mail martabartez@gmail.com. E agora vamos ler o que Marina tem preparado!


MARINA MARINO anuncia novo livro, TUDO FOI VIVIDO (Scortecci Editora)**


Marina Marino

O lançamento da obra está agendado para 3 de dezembro, das 19h30 às 21h no Espaço Scortecci, em São Paulo / SP

Marina Marino é brasileira, nascida em São Paulo. É pedagoga, escritora e poeta. Também é editora da Voo Livre Revista Literária. Com 11 anos, ganhou o primeiro concurso de poesia, o que a incentivou a trilhar o caminho das letras.

Depois de se tornar professora, passou a escrever mais, escrevia para os alunos. E uma dessas histórias se transformou em seu primeiro livro, mas só foi publicado em 2014, com o título O Mágico que veio de longe.

Ela entende que histórias podem demorar para virar livro, mas a verdade é que depois de publicar o primeiro, não parou mais de escrever. Para o público infantil fez também A menina que sonhava e Uma viagem pelas copas do mundo, além do Almanaque de Parlendas e Trava-Línguas, um livro de colorir.

Mas Marina não escreve só para crianças. Desde que começou a participar de coletâneas, publicou poemas, contos e crônicas voltados para a temática feminina, posicionando-se neste lugar de fala, afinal é mulher, mãe, avó, professora, escritora e tem muito o que dizer em nome desses grupos. Foi por essa razão que, em 2019, juntamente com mais duas autoras, publicou o livro Divas, Mulheres que se Superaram, onde contou algumas experiências transformadoras que teve na vida.

Hoje Marina faz parte de dois coletivos que promovem a literatura contemporânea do feminino, o Projeto Enluaradas e o Elas & as Letras, contribuindo com sua poética de desconstrução de crenças na busca da própria essência.

Agora Marina apresenta o seu novo livro, Tudo foi Vivido - O Feminino Sobre a Terra de contos e crônicas do universo feminino, com lançamento marcado para o próximo dia 3 de dezembro, das 19h30 às 21h, com noite de autógrafos na sede da Scortecci Editora (Rua Deputado Lacerda Franco, 96 – Pinheiros – São Paulo / SP).


A autora espera encontrar você durante o evento para um abraço, além de uma dedicatória no seu exemplar!

Conheça agora o livro TUDO FOI VIVIDO - O Feminino Sobre a Terra, de MARINA MARINO:

Tantas histórias permaneceram escondidas da humanidade, como as deste livro. Histórias que, mesmo tristes e revoltantes, precisam ser contadas.

Com essa leitura, você vai saber que houve um tempo em que as mulheres tinham liberdade, autonomia e viviam em harmonia consigo mesmas, com os outros e com o mundo natural. Porém, um acontecimento inesperado mudou essa condição para sempre. Desde então, as histórias protagonizadas por mulheres passaram a ser cheias de dor, tristeza, violência e preconceito até os dias de hoje...

Nossas protagonistas vivenciaram juntas aquele momento terrível e, após éons de separação, têm agora a oportunidade, através dos laços invisíveis da existência, de se reencontrarem e de se reconhecerem.

Tudo o que foi vivido por elas, no correr do tempo, será revelado neste livro, que conduz o leitor à trilha da ancestralidade feminina, esta que ecoa pelas linhas e entrelinhas costuradas pela autora.

Para falar com a Marina, e ela adora receber feedbacks de seus escritos, você pode encontrá-la nas mídias sociais ou por e-mail:

marina@livrariavoolivre.com.br

Facebook: Marina Marino

Instagram: @marina_revistavoolivre

 

**Texto postado no Blog Vida de Escritor

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

AVE, CRÔNICA: VIBRA BRASIL, POR EUNICE TOMÉ

 


AVE, CRÔNICA|06

V I B R A   B R A S I L

POR EUNICE TOMÉ

Hoje estarei indo para a cidade de João Pessoa, na Paraíba, para o V Encontro Nacional do Mulherio de Letras, um movimento de escritoras, editoras, ilustradoras e promotoras da literatura, e que foi gestado em tempos atrás lá e aqui em Santos também. 

A Capital da Paraíba é o ponto mais oriental das Américas, por estar situada na Ponta do Seixas, no extremo do Nordeste, conhecida também como “porta do sol”, por ser onde o sol nasce primeiro no continente americano, além de ser a segunda capital mais verde do mundo.

Praia do Jacaré - Foto do Jornal da Paraíba-11/2022

De 25 a 27 de novembro, a presença feminina estará recebendo essas energias e, ao mesmo tempo, resplandecendo o calor do sol entre tantas mulheres de todo o nosso país, na busca de engrandecer os feitos da escrita nas falas de brancas, indígenas, pretas, em total miscigenação. Para celebrar, uma Coletânea será lançada, com textos em prosa e versos de suas participantes. 



Assistirei ao jogo do Brasil, em sua estreia na Copa, direto de lá. Será uma experiência nova, mas acredito que interessante por mesclar as torcidas de diferentes lugares, em torno da mesma paixão. E isso me faz ampliar a ideia de que uma disputa mundial, como essa, onde estão presentes tantas nações, de várias raças, cores e costumes, pode dar a dimensão de que devemos estar unidos em torno de buscar resultados e na defesa do país.

Em tempos muito ruins de polaridade política, estivemos lutando contra princípios e valores nefastos. O pavilhão nacional sendo apropriado como uma sigla partidária, e agora, fazendo parte de janelas e tremulando nos prédios como símbolo de todos, na torcida pelo melhor desemprenho no futebol.

Bem a calhar essa Copa, e já temos visto aqui na região bairros inteiros sendo coloridos e enfeitados para o grito de gol de todas as gargantas, não importa de onde venha. Na minha memória de adolescente, a Copa do México, em 1970, foi comemorada com muito entusiasmo e a influência foi tamanha, que a partir daí foi criada a comunidade na periferia de São Vicente, como o nome de México 70.

Vamos fazer o mesmo coro e torcer que consigamos nessa edição de 2022, a mesma vitória e sejamos campeões, mas além do melhor desempenho nas quatro linhas do campo, o que mais desejamos é ver unificado o país e todos buscando o melhor resultado na economia, nas áreas sociais, na educação, saúde, meio ambiente e nos esportes.

Esse será o melhor gol e com mais uma estrela brilhando a nosso favor.

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Eunice Tomé é santista, jornalista, mestre em Comunicação pela USP, escritora, poeta, haicaísta e promotora cultural. Possui oito livros publicados, incluindo contos, artigos, crônicas, poesias e haicais. No ano de 2020, apesar e até devido à pandemia, desenvolveu um projeto denominado Sarau em Casa com Pratas da Casa, onde divulgou 80 poetas locais da Baixada Santista, declamando suas poesias e resumindo um histórico. 

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

UMA CARTOGRAFIA DA ESCRITA DE MULHERES: ENTREVISTA COM MILENA MARTINS MOURA, POR GABRIELA LAGES VELOSO

  


UMA CARTOGRAFIA DA ESCRITA DE MULHERES |04

ENTREVISTA COM MILENA MARTINS MOURA

Por Gabriela Lages Veloso

Segundo a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, “A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da cultura, então temos que mudar nossa cultura”. Diante disso, a literatura manifesta-se como uma importante arma de combate contra as desigualdades de gênero, ao dar voz e poder às mulheres. Na intenção de mapear as margens e abrir espaço para as novas vozes sociais, nossa coluna intitulada Uma Cartografia da Escrita de Mulheres tem como principal objetivo promover a valorização das escritoras, sobretudo contemporâneas, através de entrevistas e ensaios sobre as suas obras. Hoje, temos a honra de receber a escritora Milena Martins Moura, uma importante voz para a cultura feminista atual, que ao promover a literatura escrita por mulheres, faz um convite à reflexão e à luta por igualdade.

ENTREVISTA COM MILENA MARTINS MOURA:

Arquivo pessoal da autora

Milena Martins Moura nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro em 1986. É poeta, editora, tradutora, além de bacharel, licenciada e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Publicou os livros Promessa Vazia (Multifoco, 2011), Os Oráculos dos meus Óculos (Multifoco, 2014) e A Orquestra dos Inocentes Condenados (Primata, 2021), além do plaquete de poesias Banquete dos Séculos (edição da autora, 2021). É editora da revista feminista cassandra e seu selo erótico Héstia e integra as equipes de colunistas da revista Tamarina e de poetas do portal Fazia Poesia. Como integrante da Rede AFETIVA de culturas, iniciativa que reúne revistas e editoras em prol da circulação de arte e conhecimento, organiza eventos on-line e presenciais, principalmente sobre a escrita de mulheres. Tem poemas e contos em portais e revistas como Jornal RelevO, Uso, Subversa, Torquato, Mallarmargens, Ruído Manifesto, Lavoura, Zine Marítimas, Zine Felisberta, Laudelinas, La Loba, Mormaço, Caliban, Desvario, toró, Arara, Alcateia, Kuruma’tá, Aboio, Arribação, Totem Pagu, Granuja (México) e Kametsa (Peru).

Você estuda, escreve e trabalha com Literatura. Como foi o seu encontro com o mundo das Letras?

Acho que sempre conto que meu primeiro grande sonho na vida foi ser astrônoma. Entrar no mundo dos livros foi um grande acaso impensado e nada planejado. Cresci com um avô leitor, o que me fez querer aprender a ler muito cedo. E, por ter uma tia alfabetizadora de crianças, eu realmente aprendi. Antes de ler os muitos livros que tinha, eu brincava com eles, fazia cabana, subia neles e fingia me exercitar. O objeto livro ganhou bem cedo essa ideia de prazer e diversão para mim, Eu sou simplesmente obcecada por livros. E assim da leitura eu cheguei à escrita, também sem querer, incentivada (por livre e espontânea pressão) na escola. Eu sempre fui uma pessoa bastante artística, estudava música, gostava de pintura e desenho, e a escrita então se tornou mais um meio de expressão. Crianças são artistas potenciais com as quais devemos aprender (elas simplesmente fazem a arte, sem especialismos, sem cara de conteúdo, sem nariz em pé) e eu ainda era uma criança neurodivergente não diagnosticada, que não entendia (e muito ainda não entendo) dos ditames de socialização. Muito sozinha, eu me escondia na arte, na pintura, na música, na poesia. Vejo como um caminho quase automático ter trazido tudo isso para minha vida profissional e acadêmica.

Além de escritora, você também é tradutora. A literatura perpassa toda sua escrita ou são linguagens diferentes?

Eu fui uma criança/jovem pobre, de uma família que fez de tudo que pôde pela minha educação, mas que não pôde muito. Nunca tive dinheiro para fazer um curso de inglês, mas sempre amei a língua e quis aprender. Eu pegava músicas e ficava indo e voltando tentando entender a letra, com um dicionário do lado. Na época eu nem sonhava em ter um computador com internet que me proporcionasse pesquisar. Via filmes repetidos com legendas em inglês, séries com closed captions. Tive que correr atrás de métodos para aprender o idioma por mim mesma e acabei criando hábitos que me levaram de cabeça à tradução. E dela à criação no próprio idioma, principalmente nos idos de juventude, com minhas bandas de metal. Sempre compus muito mais em inglês, quase absolutamente. Mais uma vez, não rolou um grande plano de vida: vou ser tradutora, então preciso fazer isso e aquilo. Essa é mais uma parte da minha carreira profissional para onde fui arrastada pelos acontecimentos. E gosto bastante de trabalhar nisso também.

Por que você escreve?

Essa é uma pergunta recorrente e a resposta é: não sei. Só sei que existe algo inquieto que só se acalma assim. Algo faminto, que se debate, que grita. Que implora por nascer. A gente tenta, a gente cansa o queixo, a gente dói o dente, mas não consegue mastigar esse pedaço endurecido de nervo e soluço. Uma hora é preciso cuspir. E esse parágrafo é meio poético demais. Mas o fato é que eu não tenho nenhuma tecnicalidade quando o assunto é escrita. Não vou falar em termos acadêmicos, psicanalíticos, sociológicos sobre por que escrever. Tampouco acredito em musas mágicas e elementos sobrenaturais inspiradores, em ser o canal para a expressão de uma divindade ou do cosmos. Nem oito nem oitenta e oito. Poesia sai da gente, inexplicável porém indubitavelmente. Poesia é tão natural quando uma bola de comida velha embrulhada em saliva cuspida no canto do prato. Isso também é poético.

Quais escritoras(es) te inspiram?

Tantas que, por medo de esquecer alguma, melhor não citar. Só posso dizer com certeza que estou cercada de grandes artistas e me sinto muito honrada de dividir um século e um planeta com eles (desculpe o plágio, Sagan!). Ter como amigas tanta gente foda é de deixar qualquer um feliz.

Conte-nos sobre o seu primeiro livro, Promessa Vazia (2011). Como foi o processo de escrita? Quais temáticas você aborda? Onde podemos adquiri-lo?

Promessa é até então meu único livro de contos. Ele é uma reunião de histórias que versam basicamente sobre solidão, loucura, o que é ou não real, tudo isso resvalando num singelo fantástico que não foi intencional, como tudo na minha vida. Escrevi e reescrevi essas histórias ainda na adolescência, início da vida adulta, bem novinha, numa época que tanto foi de descoberta e abertura de horizontes quanto de sofrimento. O Promessa é um livro esquisito, confesso, mas ainda gosto muito dele. Tem uma parcela grande da minha insanidade naquelas páginas e ainda acho que esse é justamente o seu melhor. Ele está à venda no site da editora Multifoco.

Comente sobre Os Oráculos dos meus Óculos (2014). Qual é o mote desse livro? Onde podemos adquiri-lo?

Os Oráculos foi lançado em 2014, mas contém poemas que datam desde 2009. Ele está completamente tomado do meu período de luto pelo meu avô. Sua caminhada até a morte foi um dos momentos mais tristes que já vivi e Os Oráculos foram meu mecanismo de coping. Ali está a minha saudade, ali está o meu luto. Quase não releio os poemas dessa época, luto arrefece mas não cura. Por isso, é um livro que fica guardadinho no seu canto, que prefiro manter fechado, guardando essas dores antigas. Ele também pode ser encontrado no site da Multifoco.

E quanto ao seu livro mais recente, A Orquestra dos Inocentes Condenados (2021)? Explique o título e suas implicações no sentido/proposta da obra, e onde podemos adquiri-la.

A Orquestra é uma obra bastante diferente das demais. Em primeiro lugar, o poema homônimo foi tirado no corte final, mas o título continuou. É um título que marca duas características claras: a atual situação do país (no caso, no contexto pandêmico da época); e a minha completa capacidade de misturar todo tipo de referência. Isso porque eu gosto de MUITAS coisas diferentes, não faço a mínima questão de ser aquele tipo de escritor hiper-intelectualizado que tem que transcender em tudo. Gosto de sci-fi tanto quanto de ópera e me acabo ao som de Chandelier tanto quanto com um filme de arte escocês. A Orquestra dos Inocentes Condenados, esse título enorme e não muito explicativo, nasceu de uma mistura de referência de Beirut e X Files, uma das minhas bandas preferidas, uma das minhas séries preferidas, cuja ligação entre si é em suma nenhuma. E de fato esse título teve muito a ver com o período pandêmico, em que a falta de gestão e de empatia condenaram tantos inocentes à morte. O livro inteiro é uma grande cusparada de desespero pelos momentos atípicos trazidos pelo isolamento social, em especial na população neurodivergente da qual faço parte. Dentro dessas páginas, tem toda uma sorte de sofrimentos diversos, escritos sem critério, jogados às pressas sobre o papel numa tentativa de cura. Foi um livro escrito completamente diferente do que eu costumo, mais apressado, mais desesperado. Ele pode ser comprado no site da editora Primata ou comigo, ainda tenho alguns.

Fale sobre os seus demais projetos na área de literatura e cultura, como, por exemplo, a revista cassandra.

A cassandra foi criada com o intuito maior de abrir espaço para as artes de autoria feminina. Muitas mulheres têm receio de se assumirem, se dizerem artistas. Muitas não se acreditam ou se aceitam como tal. Mas eu insisto em que toda mulher que deseje seguir a arte e a literatura mereça um espaço que lhe diga: acreditamos em você, gostamos do que você faz e te apoiamos, por isso te publicaremos. Tem muita mina por aí desistindo da arte por falta de apoio, porque precisa colocar o pão na mesa e alimentar a cria às vezes sozinha e isso tira as forças de sonhar. Então, quando a gente diz: sua arte vale a pena, também estamos dizendo um belo você merece. Claro que abrir um espaço de publicação é apenas o mínimo. Apoiar a arte de uma mulher (ou de qualquer artista) é também comprar seus produtos, porque ninguém paga as contas com publicação. Mas se podemos ser um tijolinho a mais na parede da não desistência, se podemos dar esse gás para que escritoras continuem escrevendo, artistas continuem produzindo, então já vale o mundo. Quando criei a cassandra, a primeira coisa que pensei foi que era uma ideia insana, por motivos de saiu da minha cabeça deve ser ruim. Hoje percebo como crescemos, tanto e tão rápido, e o quanto ganhamos a confiança dos nossos leitores e das autoras que nos confiam seus materiais todo semestre. Então acho que esse era um espaço necessário, acho que fiz a coisa certa não desistindo antes de começar. Tem sido puxado, não ganhamos nada, pelo contrário, gastamos, toma tempo, dá trabalho. Mas quando vejo a felicidade das autoras selecionadas, a dedicação das colunistas, quantas nos procuram todos os meses para divulgações, parcerias, resenhas..., eu percebo que foi a coisa certa sim. E me sinto muito feliz por tudo isso.

Mais do que escrever, é necessário fazer ecoar nossas vozes. Aí entram as publicações. Qual é a importância da publicação, para você?

Ao longo da história, e vou novamente tocar no assunto mulheres embora saiba que muitos outros grupos passaram e passam por fenômeno semelhante, escritoras mulheres sofreram com as oportunidades de publicação, sem que isso se devesse à qualidade de sua obra. Quando publicadas, porém, temos relato de muitas que foram laureadas, reconhecidas e aclamadas em vida, porém não passaram para a história, um processo que os estudos atuais vêm chamando “memoricídio”. Esse padrão memoricida mata em morte, é como morrer novamente, porque não ser lembrado é quase não ter vivido. Assim, vão se construindo histórias literárias e panteões canônicos que mais excluem do que englobam, nos quais as vozes femininas raramente estão presentes e que, preguiçosamente, reduplicam os silenciamentos históricos enquanto se atualizam seguindo os mesmos padrões. Tão sabido é que as histórias da literatura que vão surgindo não corrigem os apagamentos das suas antecessoras senão apenas as copiam e inserem novos nomes, quase sempre elencados de acordo com os mesmos embotamentos das anteriores. Com isso, muitas autoras vão ficando desarquivadas, ou seja, não se gera arquivo sobre elas e, por não estarem nas publicações especializadas tampouco serem canonizadas, torna-se impossível conhecer sua trajetória. A publicação é uma forma de gerar arquivo sobre as autoras que estão produzindo e arquivo é memória. Por isso antologias são tão importantes, em especial impressas, pois isso gera um mapeamento da escrita de mulheres produzida na atualidade. Não podemos cometer o erro de deixar nossas autoras desarquivadas, como fizeram os que vieram antes de nós, tornando o processo de dessilenciamento tão penoso e por vezes impossível. Devemos publicar o maior número de mulheres que pudermos, em livros, em antologias, em revistas digitais ou impressas, com sua bio e sua foto, para que no futuro se saiba quem foram, que existiram, que escreveram e o que. Memória é direito inalienável e é nosso dever, como mulheres escrevendo, editando, publicando hoje, preservá-la para o futuro e tirar da sombra as que abriram caminho para que pudéssemos estar aqui.

Como convidada da nossa coluna Uma Cartografia da Escrita de Mulheres, qual mensagem você deixa para a nova geração de escritoras?

Vocês são escritoras e essa palavra não deve ser um peso. Não é arrogância, não é um erro e não é se achar demais. Vocês são escritoras. Escrevam. Vão dizer que é só um hobby, não é. Vão dizer que é só uma fase, não é. Vão dizer que não dá dinheiro..., não dá. rs Ainda assim, escrevam.


Contatos da escritora:

Instagram: @milena.martins.moura

Twitter: @milena_m_moura

Instagram da revista cassandra: @revistacassandra

Site da revista cassandra: https://revistacassandra.com.br/

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Gabriela Lages Veloso é escritora, poeta e mestranda em Letras pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). É colunista da Revista Sucuru e do Feminário Conexões, editora do núcleo poético de divulgação feminina Sociedade Carolina e membro do projeto Entre Vasos y Versos, que conta com a participação de escritores de diversas nacionalidades. Além disso, colabora com coletâneas e revistas nacionais e internacionais.

domingo, 20 de novembro de 2022

FELIZ ANIVERSÁRIO CECÍLIA, POR FLAVIA FERRARI

 

                      POESIA NA REDE|08

FELIZ ANIVERSÁRIO, CECÍLIA
                                                                                                 Por Flavia Ferrari

   Escrevo este texto poucos dias depois do aniversário de Cecília Meireles. Poeta presente em minha vida desde a infância, não tinha reparado a intensidade de nossa conexão, a impressão dos seus versos no meu repertório, a saudade de relê-la. Tudo isso foi vivenciado nas últimas semanas, em que me debrucei sobre sua poética, sua história, vídeos declamando sua poesia, textos analisando sua obra, tendo como ponto de chegada a celebração dos seus 121 anos, junto à sua neta Fernanda Meireles em uma deliciosa live no Instagram.
    
    Cecília me faz ter a certeza de que é possível dialogar verdadeiramente com a poesia. As inquietações de ordem existencial, filosófica, social e política encontram ideias, caminhos e até uma boa conversa lendo a obra de Cecília.

   No dia de seu aniversário, 7 de novembro, muitos poetas fizeram homenagens a ela nas redes, mencionando versos, estrofes, poemas que me encantavam a cada leitura. A beleza da leitura dos bons poemas reside justamente na surpresa de sua releitura. É como se à memória o poema pudesse ser repetido como se fosse sempre a primeira vez, preservando aquele assombro da descoberta de um significado até então inexistente em nossa consciência.

    Em um exercício de formar minha própria antologia de seus poemas, me senti como uma apanhadora de estrelas no firmamento; o que escolho tem relação mais com a proximidade e a oportunidade de estar perto do que propriamente a estrela em si, pois tudo brilha!

  Deixo aqui um poema que escolhi para a “minha antologia de Cecília”, mas que também foi compartilhado por algumas pessoas na celebração de seu aniversário.

 

Inscrição


Sou entre flor e nuvem,

estrela e mar.

Por que havemos de ser unicamente humanos,

limitados em chorar?

 

Não encontro caminhos

fáceis de andar

Meu rosto vário desorienta as firmes pedras

que não sabem de água e de ar.

 

E por isso levito.

É bom deixar

um pouco de ternura e encanto indiferente

de herança, em cada lugar.

 

Rastro de flor e estrela,

nuvem e mar.

Meu destino é mais longe e meu passo mais rápido:

a sombra é que vai devagar.

 

Poema Inscrição de Cecília Meireles livro Mar Absoluto e Outros Poemas (1945)

 

                Finalizo com um belíssimo poema feito em homenagem a Cecília Meireles, de Nic Cardeal, um passeio pelas obras e suas belezas na companhia de Nic:

 

CECÍLIA

 

Hoje tu vês bem melhor¹, eu sei!

Espectros²?

Nunca mais³... ou, quem sabe... que importa?

Tuas mãos já se abriram ao infinito⁴

e podes ver o Mar Absoluto⁵ em tua eternidade!

 

Já não te fazes em solombra⁶:

não há mais nenhuma tristeza por causa da morte,

os mistérios, o tempo, as memórias, mesmo a solidão,

passaram...

Teu corpo, que te foi dado em pai e mãe

e em todos os que te fizeram⁷

em retrato natural⁸

ou em doze noturnos⁹,

também passaram...

 

Tu és a aeronauta¹⁰ que escolheu o seu sonho¹¹

e viveu a viagem¹²,

fazendo-te de ti mesma o poema dos poemas¹³!

Não. Não foste um sonho a realizar¹⁴,

foste a própria vida:

vaga música¹⁵ que se fez à imagem do mar¹⁶,

sem perder a sina da terra!

 

Tu sabes: não terminaste!

Agora vês com os teus [próprios] olhos¹⁷

que o que se diz e o que se entende¹⁸

nem sempre está no mesmo lugar!

Não há lugar... nem tempo,

o que há são as baladas para El-Rei¹⁹ para sempre entoadas...

Porque agora tu és o cântico dos cânticos²⁰

e te pões em tudo, como Deus²¹!

 

(Nic Cardeal*, poema participante da antologia 'Memorial Cecília Meireles  - Homenagem em Poesia', São Paulo: Selo Editorial Independente, 2021, p. 85/86 e 109/110)

 

Referências:

(1) “(...) Mas tu verás melhor...” (excerto do Cântico XXVI, in: Cânticos, Cecília Meireles, livro de 1981).

(2) Espectros, Cecília Meireles, livro de 1919.

(3) Nunca mais... e poema dos poemas, Cecília Meireles, livro de 1923.

(4) “(...) E abre as tuas mãos sobre o infinito. (...)” (excerto do Cântico XXV, in: Cânticos, Cecília Meireles, livro de 1981).

(5) Mar absoluto e outros poemas, Cecília Meireles, livro de 1945.

(6) Solombra, Cecília Meireles, livro de 1963.

(7) “Não digas: Este que me deu corpo é meu Pai. / Esta que me deu corpo é minha Mãe. / Muito mais teu Pai e tua Mãe são os que te fizeram/Em espírito. (...)” (excerto do Cântico XXIV, in: Cânticos, Cecília Meireles, livro de 1981). 

(8) Retrato natural, Cecília Meireles, livro de 1949.

(9) Doze noturnos da Holanda, Cecília Meireles, livro de 1952.

(10) O aeronauta, Cecília Meireles, livro de 1952.

(11) Escolha o seu sonho, Cecília Meireles, livro de 1964.

(12) Viagem, Cecília Meireles, livro de 1939.

(13) Nunca mais... e poema dos poemas, Cecília Meireles, livro de 1923.

(14) “Não faças de ti/Um sonho a realizar. (...)” (excerto do Cântico XXIII, in: Cânticos, Cecília Meireles, livro de 1981).

(15) Vaga música, Cecília Meireles, livro de 1942.

(16) “(...) Faze-te à imagem do mar. (...)” (excerto do Cântico XXII, in: Cânticos, Cecília Meireles, livro de 1981).

(17) “(...) Tu verás com os teus olhos. / Em sabedoria. / E verás muito além.” (excerto do Cântico XXI, in: Cânticos, Cecília Meireles, livro de 1981).

(18) O que se diz e o que se entende, Cecília Meireles, livro de 1980.

(19) Baladas para El-Rei, Cecília Meireles, livro de 1925.

(20) Cânticos, Cecília Meireles, livro póstumo, de 1981.

(21) “(...) Que o teu olhar, estando em toda parte/Te ponha em tudo, / Como Deus.” (excerto do Cântico I, in: Cânticos, Cecília Meireles, livro de 1981).

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* Nic Cardeal, catarinense radicada em Curitiba, graduada em Direito, é autora de Sede de céu (poesia, Penalux/2019) e Costurando Ventanias - uns contos e outras Crônicas (Penalux, 2021). Atualmente tem textos publicados em 44 antologias e coletâneas no Brasil, Portugal e Alemanha. É integrante do movimento Mulherio das Letras desde sua criação. Seus escritos estão compilados na página do Facebook “Escrevo porque sou rascunho”. É editora adjunta da Revista Feminina de Arte Contemporânea Ser MulherArte.


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Flavia Ferrari
[foto arquivo pessoal]

Poeta e professora da rede pública de São Paulo, Flavia Ferrari lançou, em novembro/2021,  o seu primeiro livro de poemas, intitulado "Meio-Fio: Poemas de Passagem". A obra foi editada pelo Toma Aí Um Poema, o maior podcast de leitura de poemas lusófonos. Flavia Ferrari escreve desde a adolescência, mas começou publicar seus poemas no início da pandemia, compartilhando seu trabalho nas redes sociais e contribuindo com revistas literárias digitais. Desde o princípio, os seus poemas foram muito bem recebidos pelos leitores e pelos periódicos digitais. @fmferrari

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

BAIXE O E-BOOK GRÁTIS: I TOMO DAS BRUXAS: DO VENTRE À VIDA

 


Baixe o e-book I Tomo das Bruxas clicando na imagem
Arte do card: Patrícia Cacau 


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Por Marta Cortezão

O Projeto Enluaradas, neste dia festivo de 15 de novembro de 2022, congratula-se com todas as autoras poetas pela publicação da Coletânea Enluaradas III: I Tomo das Bruxas – do Ventre à Vida, em versão e-book, fechando assim esta trilogia iniciada com a Coletânea Enluaradas I: Se Essa Lua Fosse Nossa (Ser MulherArte Editorial, 2021) e seguida pela Coletânea II: uma Ciranda de Deusas (Sarasvati Editora, 2021). A versão do livro físico já foi encaminhada via correios a todas as autoras participantes. Temos os lançamentos presenciais confirmados na Bienal Internacional do Livro do Ceará, 18/NOV/2022, às 15h e no 5º Encontro Nacional do Mulherio das Letras – João Pessoa/PB, 25 de novembro, às 19h30, na Usina Cultural Energisa – Tenda 3.

 



DO PERCURSO RUMO A UMA LUA TODA NOSSA

A abertura do edital da Coletânea Enluaradas I: Se Essa Lua Fosse Nossa aconteceu em 01/01/2021. Naquele momento em que vivíamos uma assustadora pandemia, recebemos uma expressiva adesão de escritoras/poetas. Foram mais de 200 (duzentas) inscrições, das quais 168 (cento e sessenta e oito) foram selecionadas para compor o livro digital. O e-book possui temática livre, mas faz reverência à força da Deusa Selene, essa “lua toda nossa”, uma metáfora-lugar que desenhamos, juntamente com as autoras enluaradas, neste espaço poético-virtual que aninhou as angústias do nosso mundo real. Esta primeira coletânea teve lançamento virtual no dia 21/04, quarta-feira, via canal do YouTube Banzeiro Conexões, às 17h30m (BSB), com a participação de autoras via depoimentos gravados que foram ao ar, em transmissão ao vivo, com muita música e muita poesia:

Elizabete Nascimento: [...] A “Coletânea enluaradas” apresenta a escrita poética de várias mulheres escritoras de diversos países e, que, na maioria das vezes, não têm a oportunidade de publicação. Então, no meu olhar, o projeto se constitui como um exercício de travessia e tem como foco a efetiva ação, vamos dizer assim, implícita, do vocábulo sororidade. Então compreendo que, ao nos dá as mãos, especialmente no cenário contemporâneo, nós provocamos algumas rupturas no sistema, nos tornamos mais fortes e exercemos alguns princípios éticos e estéticos que fazem o ser e o estar no mundo com os outros ou com as outras coisas do mundo. E com isso, nos tornamos, de certa forma, juntas, a ponte, a água, a luz rumo a um mundo, a uma sociedade com equidade, porque “Juntas somos as Enluaradas”!

Eunice Tomé: [...] Uma lua jogou sua luz sobre minha cabeça/ em tempos que não julgávamos possível olhar para o céu e contemplar os astros. Uma mutação aconteceu e foi por esta inspiração que me fez escrever poesia e acreditar que a beleza não se esconde nas nuvens e vendavais por mais que estejamos cegos e descrentes. Na adesão de revisitar a lua, partindo de uma centena e mais de outras vozes femininas, o universo se abriu e deixou entrar uma força vulcânica em gritos de amor e de sublimação. Passei a contemplar a lua e suas estações em noites de insônia e aprender com ela os gestos divinos. Foi assim que surgiu em mim o “Projeto Enluaradas” e julgo que a forma livre e aberta de tantas vertentes literárias encontrou um espaço sem fim no céu com outras tantas estrelas de muita luz. Que venham outras coletâneas tão bem organizadas e coordenadas por suas idealizadoras. Juntas somos as Enluaradas!

Daiana Pasquim: [...] Estou me sentindo extremamente feliz porque a Coletânea Enluaradas me inaugurou no útero das poesias [...] Essa coletânea significa um entrelaçamento, um “congressamento” com as mulheres, as lobas, as inspiradas pela lua. São mulheres do mundo inteiro. Juntas Somos as Enluaradas!

Roberta Gasparotto: […] para mim, ter participado da Coletânea Enluaradas 2021, foi um respiro, um refresco em meio a tantas notícias tristes que a gente vem recebendo diariamente e, em meio a tanto sofrimento que o mundo, de uma maneira geral e o Brasil em particular, estão passando nesse momento. E até [...] pela temática da lua, pela magia da lua e, principalmente, pelo projeto de vanguarda que a Marta Cortezão e a Patrícia Cacau, que são as idealizadoras do projeto. Elas tiveram a sensibilidade de fazer um projeto que, além de uma coletânea de poemas de mulheres, que ficou lindo, a coletânea ficou maravilhosa! – elas também fizeram lives com cada uma das participantes que quiseram participar [...]. Então, assim, a Patrícia e a Marta, elas colocaram em prática uma palavra que hoje em dia é muito usada, mas que a gente não coloca tanto em prática quanto a gente usa essa palavra, que é sororidade. Então assim, é um projeto belíssimo, conheci mulheres maravilhosas, porque tive a grande alegria de além de participar da live enquanto escritora, participar também entrevistando essas mulheres maravilhosas. E estou muito feliz [...]. gratidão, Marta e Patrícia. Juntas somos as enluaradas!

Edna Almeida: [...] O projeto Enluaradas foi sedutor [...] foi inclusivo, foi libertador, foi verbalizar, um resgate da poesia feminina e o e-book ele vem assim num cenário literário contemporâneo com um grande presente pra humanidade, uma grande lição de amor e altruísmo, uma alavanca de leitura, onde o sexto sentido se multiplica. Estou ainda vivendo essa ciranda das enluaradas. Se, enquanto as bombas caiam, na 2ª guerra mundial, os franceses faziam amor; na pandemia, nós fazíamos lives poéticas. Juntas somos as Enluaradas!

Rita Queiroz: [...] Participar do Projeto Enluaradas “Se Essa Lua Fosse Nossa” foi um presente nos dado por Marta Cortezão e Patrícia Cacau. Eu já acompanho o projeto desde o final do ano passado, quando foi lançado no Facebook com aquelas lives das enluaradas, eu sempre acompanhei, sempre me deliciei muito com as lives. E quando a Marta e a Patrícia lançaram a coletânea, em janeiro, eu [...] já mandei mensagem no Instagram dizendo “eu quero participar” [...] porque é um projeto que agrega, que agregou e que vai agregar mais e mais. E um projeto que se diferencia dos outros projetos porque houve um entrelaçamento entre essas enluaradas. As enluaradas se conheceram, se integraram e, a partir desse projeto, outros projetos estão surgindo. Então foi uma grande satisfação participar desse projeto e apostar nesse projeto e acreditar no projeto e, querendo já o número 2, número 3, número 4, infinitamente porque Somos Enluaradas!

Tainá Oliveira: [...] Eu tenho muito orgulho de dizer que sou uma das 168 autoras que fazem parte da coletânea “Se Essa Lua Fosse Nossa”. Um projeto muito especial, um projeto que na minha vida em particular, foi um divisor de águas porque é a primeira vez que meus poemas saem lá da pastinha da criatividade e levantam voo e vão ganhar o mundo aí afora. Então eu tenho muito orgulho de fazer parte dessa Coletânea [...] Gosto de frisar que ela é um afago na nossa alma, em período ainda de pandemia, tão complexo, mas poder fazer conexão com outras escritoras, com outras mulheres que dividem o mesmo sonho [...] foi maravilhoso, foi uma experiência incrível. E creio que ele (o projeto) é um marco também para nossa literatura nacional porque está abrindo portas para novas escritoras, para novas obras. Então eu vejo muita importância nele, no cenário literário e é uma honra fazer parte disso tudo e poder dizer “Juntas somos as Enluaradas!”

Vânia Perciani: O que dizer sobre o Movimento Enluaradas? Vamos dar a palavra para as idealizadoras, as fomentadoras do projeto, desse processo de escrita feminina. Marta Cortezão, num comentário muito interessante “ser casulo para entender-se. Ser lagarta para saber-se [...] ser borboleta para voar livre”. E Patrícia Cacau complementa “Se meter no caminho incerto [...] a alma livre com botas novas, com coragem, com fé para criar um mundo novo”. Quais de nós, mulheres, poetas e escritoras, não temos essas vozes chacoalhando, gritando em nosso coração? Queremos espaços nas prateleiras das bibliotecas, queremos ser lidas, queremos ser ouvidas. Esse é o desafio e essa é a promessa que permeia a coletânea que nós fizemos. “Coletânea Enluaradas Se Essa Lua Fosse Nossa”, essa lua está se tornando nossa. Quando uma loba uiva para a lua, a alcateia responde a uma só voz: Juntas Somos as Enluaradas!

Rosangela Marquezi: [...] ter participado do Projeto Enluaradas, organizado pela Marta e pela Patrícia, as quais agradeço de coração, foi para mim uma mistura de emoções à flor da pele, de alegria de sentimento e coletividade, de luta por igualdade e, principalmente, oportunidade de soltar a minha própria voz. Vejo o “Projeto Enluaradas” como um fortalecimento coletivo de mulheres que precisam ser mais ouvidas, mais lidas e mais vistas. A poesia ela não se constrói somente a partir dos cânones, ela também se faz a partir de pequenas manifestações diárias poéticas em que muitas vozes se unem e se tornam potência. É isso: Juntas somos as Enluaradas!

Stéphanie Gomes: [...] Sou uma das 168 participantes da “Coletânea Enluaradas Se Essa Lua Fosse Nossa”, uma coletânea maravilhosa idealizada pela Marta Cortezão e pela Patrícia Cacau. Então assim, gente, me sinto muito lisonjeada por estar fazendo parte dessa Coletânea junto com todas essas mulheres aí, magníficas que também integram [...] esse elenco [...] Eu acredito que quando nós temos algo dentro de nós que é bom, nosso dever é partilhar, compartilhar com outras pessoas e eu acredito sim e espero que essa coletânea alcance muitas pessoas. Agora imagina aí você lê uma coletânea com 168 cabeças pensantes, diferentes; cada mulher dessa mostrando, através da poesia, as suas ideias, a sua visão (de mundo). Será que essa lua pode ser só minha? Ou pode ser só sua? Pode ser nossa, essa lua é nossa, até porque Somos todas Enluaradas!

Ale Heidenreich: Hoje eu estou aqui, nesse dia tão especial para nós, o encerramento da nossa “Coletânea Enluaradas” e quero aproveitar e falar da importância da nossa coletânea no cenário literário contemporâneo. A nossa coletânea, ela veio como um marco, ela chegou resgatando, auxiliando, dando apoio a muitas mulheres, resgatando suas identidades ou até talvez (revelando) uma identidade nova para muitas delas. Ela veio acolhendo mulheres de todas as classes de nossa sociedade, escritoras e não escritoras. Ela veio humana, ela veio inovadora, ela veio divertida e é isso que a gente deve levar. E vai ficar pra mim, pra minha vida. Tenho a influência de muitas de vocês. Nossa querida Frida Kahlo, ela diz “onde não puderes amar, não te demores”, eu quero ficar aqui, aqui está bom demais, infelizmente eu sei que não dá, mas a gente vai se encontrar em outras coletâneas, em outros projetos. Então fica aqui meu agradecimento, de todo o coração, Patrícia Cacau, Marta Cortezão e cada uma de vocês.

Missandra Almeida: [...] E a antologia Enluaradas, pra mim, é um ajuntamento de mulheres maravilhosas, de mulheres lusófonas (e brasileiras) espalhadas pelo mundo de mãos dadas buscando e mostrando a força da mulher e da sua poesia, o encanto e todas as possibilidades de potência e de existência. E também é a possibilidade de experimentar esse lugar de publicação. Que lugar é esse? [...] Um lugar de existência, um lugar de voz, de visibilidade, mas também de acesso à leitura. Sabendo da dificuldade que nosso país tem de ofertar acesso à leitura, de valorizar a criação e a leitura como prioridade para a educação. Sabendo disso e, nesse momento, eu estar participando de uma antologia que foi oferecida ao público gratuitamente, pra mim, é extremamente especial, é muito significativo.

Janete Manacá: [...] Participar do Projeto “Se Essa Lua Fosse Nossa” foi uma oportunidade única de poder estender as mãos a mulheres de diversos lugares do planeta e mover essa ciranda encantada com palavras sábias e letras mágicas. Essa coletânea, com certeza, é um legado de amor a gerações futuras. Salve, Marta! Salve, Cacau! Vida longa às Enluaradas! Tim-tim!

Antes do lançamento da Coletânea Enluaradas I: Se Essa Lua Fosse Nossa, no encontro Enluaradas: Dia Internacional da Mulher, realizada dia 08/03/2021, via canal do Youtube Banzeiro Conexões, a saudosa amiga Enluarada Vânia Alvarez, pesquisadora, pensadora moderna, escritora e poeta paraense, afirmou, em seu discurso emocionado A poética contemporânea das Enluaradas que as autoras participantes do Projeto Enluaradas estavam “construindo a chamada Arte Contemporânea” e ela assentava as primeiras colunas sólidas deste movimento que nascia, com seu olhar observador de quem enxerga do lado de fora e de dentro, explicando o seguinte:

Não basta uma escrita definir-se como feminina, é preciso designar a fala das mulheres. Colocar-se no lugar do feminino, requer uma posição que implica ver-se no outro. E esse “ver-se no outro” vai construir esse projeto de contemporaneidade, uma contemporaneidade ocidental, racional, evolutiva e disjuntiva. 

Para Vânia Alvarez, o Enluaradas se define como este coletivo de reflexo, não apenas o que se reflete a si mesmo, aquele eu solitário, mas o que em si vê a imagem da outra se refletindo e a que, olhando para a outra, vê o próprio reflexo de si. É a humana conjugação da ação de outrar-se. A alma de Vânia Alvarez, poeta humanamente visionária, enxergou a fina essência que fortalece este projeto – formado por mulheres de luta que resistem pela força da palavra –, afirmando que somos

poetas engajadas ao contemporâneo, que falam por si e que reinterpretam as muitas vozes [...] e a lua aparece influenciando o sentimental [...] Somos mulheres, somos enluaradas, somos um projeto contemporâneo vitorioso, porque “água mole em pedra dura tanto bate até que fura” e nós, mulheres, furamos o cerco [...] porque somos um coletivo, já não estamos sós e estamos apenas no começo.

(“A poética contemporânea das enluaradas”, 08/03/2021)

O curioso deste projeto foi que ele teve início como uma simples chamada para uma coletânea e, no decorrer do processo, se constituiu num movimento agregador, literário e poético denominado “Enluaradas”. Hoje, para além de continuarmos nos designando Projeto Enluaradas, somos um coletivo feminino que vem vingando por causa da participação e da interatividade das autoras que o integram. Somos uma rede de apoio que tem dado muitos frutos, resultando em parcerias entre as próprias autoras Enluaradas, que vêm revolucionando, de forma particular e poética, o mundo da escrita de cada umas das participantes através de parcerias, de participação em outras coletâneas, entrevistas e eventos literários e, principalmente, muitas autoras nos têm falado do quanto este movimento foi importante para estimular a escrita, que estava há bastante tempo estacionada. Conjugamos o verbo ESCUTAR em todas as suas modalidades de vida nas “Enluaradas Live” (ações da primeira coletânea) que realizamos, onde as participantes da coletânea contavam de seus projetos literários, enquanto uma ciranda de mulheres, nossa “egrégora lunar”, comentava, aplaudia e se via refletida de alguma maneira em cada discurso. E, naquele momento, passaram por lá (@enluaradas2022) cento e vinte (120) autoras falando sobre sua trajetória literária, de seus medos, de seus sonhos e da alegria de fazer parte do Projeto Enluaradas. Um espaço "lunar" que abraça, praticando a escuta e a sororidade.


DAS MÃOS QUE SE UNEM PARA UMA CIRANDA DE DEUSAS

Na Coletânea II: uma Ciranda de Deusas, cujo edital foi lançado dia 21/05, numa sexta-feira de muitas expectativas, iniciamos várias ações dentro do projeto, como: Ciranda de Deusas, que foram lives realizadas, em diferentes dias da semana, tanto pela plataforma do Instagram quanto pelo canal Youtube Banzeiro Conexões, e que consistia em leituras poéticas através das quais divulgamos a literatura lusófona de mulheres de estados brasileiros e países estrangeiros. No total, foram 26 (vinte e seis) encontros (Cirandas de Deusas) realizados: 14 (catorze) via plataforma Instagram, 04 deles, em parceria com o Mulherio das Letras, a convite de Silvia Schmidt, no perfil @livrariamulherio; 11 (onze) via canal Banzeiro Conexões. Tivemos também o quadro Nas Teias do Poema, com a realização de 14 (catorze) episódios, nos quais as autoras participantes da Coletânea Enluaradas II: uma Ciranda de Deusas apresentavam poemas de sua produção autoral para falar sobre o processo criativo literário e das “teias” que envolvem esse processo do “fazer poético”. Todos os episódios do “Nas Teias do Poema” eram acompanhados de uma publicação prévia para fomentar o pensamento sobre a práxis do fazer literário do poema que antecedia cada encontro. Relaciono os links dos episódios caso haja interesse para rememorar nossas leituras:

1º) Nas Teias do poema I: CARNE E TECIDO POÉTICOSAnna Liz, Artane Inarde e Maria Alice Bragança;

2º) Nas Teias do poema II: DAS ESCREVIVÊNCIAS QUE NOS HABITAM - Ale Heidenreich, Aline Galvão e Vania Clares;

3º) Nas Teias do poema III: O (IN)CORPÓREO DA PALAVRAAdriana Teixeira, Cris Mesquita e Janete Manacá;

4º) Nas Teias do poema IV: ENTRE FIOS E METÁFORASHeliene Rosa, Isa Corgosinho e Lucila Bonina;

5º) Nas Teias do poema V: NOS FIOS DA 'ALQUIMIA DO VERBO'Dani Espíndola, Elizabete Nascimento e Maria da Paz Farias;

6º) Nas Teias do poema VI: DOS MATIZES DA LINGUAGEMLindevania Martins, Malu Baumgarten e Raquel Basilone;

7º) Nas Teias do poema VII: TECENDO EPIFANIAS POÉTICASBelise Campos, Carolina Ferreira, Flavia Ferrari e Jéssica Iancoski;

8º) Nas Teias do poema VIII: ENTRE PERCEPÇAO E MEMÓRIAMaria do Carmo Silva, Marta Cortezão e Patrícia Cacau;

9º) Nas Teias do poema IX: NO MEIO DO POEMA, O(A) LEITOR(A)Margarida Montejano, Rita Queiroz e Rosangela Marquezi;

10º) Nas Teias do poema X: NÃO SOMOS AS MESMAS DE ONTEMElisa Lago, Hydelvídia Cavalcante e Tânia Alves;

11º) Nas Teias do poema XI: INDOMÁVEL E EFÊMERA CRIAÇÃO DO BICHO-POEMAAna Mendes, Cris Arantes e Heloisa Helena Garcia;

12º) Nas Teias do poema XII: UMA LITERATURA ENGAJADACátia Castilho Simon, Frahm Torres e Marina Marino;

13º) Nas Teias do poema XIII: DA FORÇA PERENE DA PALAVRAJoelma Queiroz, Glafira Menezes Corti e Valéria Pisauro;

14º) Nas Teias do poema XIV: ENLUARADAS E A POÉTICA DO ESPAÇOCarla Sà De Morais, Neli Germano e Patrícia Cacau.

Tanto as ações literárias Ciranda de Deusas quanto o Nas Teias do Poema foram divulgadas pelo blog Feminário Conexões através de textos e comentários que foram/vão construindo o itinerário literário e histórico do Projeto Enluaradas, que só tem razão de ser graças à participação de todas as poetas Enluaradas que somam conosco na realização e construção desta Literatura Contemporânea Enluaradas. Lembramos também dos artigos literários das autoras Isa Corgosinho, Carla De Sà MoraisElizabete Nascimento (texto 1 e texto 2) e Margarida Montejano sobre as ações do projeto também publicados neste blog. Outro evento significativo para o projeto foi o 1º FLENLUA (Festival Literário Enluaradas), realizado nos dias 03, 04 e 05 de dezembro, com a participação da maioria das 87 (oitenta e sete) autoras/poetas. Transcrevo aqui alguns fragmentos das falas que bem ilustram o primeiro festival literário e que vale muito a pena tê-los em conta:

“trazer cada vez mais mulheres para a escrita, para a publicação, segurar na mão, cirandar [...] é parte bastante importante da militância feminista que, para mim, é uma forma de estar no mundo [...] A nossa situação como mulheres é complexa (digamos assim, para não dizer triste), no mundo inteiro. Todo o espaço que a gente tem é um espaço ganho, é lutado, nada nos é dado e nada continua a não ser pela nossa luta. [...] Este é meu lugar de mulher, é o lugar de todas as mulheres. Quem não for feminista que não use calça comprida, que devolva o passaporte, que devolva a carteira de motorista, que não vote, porque tudo é fruto desta luta.”

{Maria Alice Bragança (RS), Abertura do FLENLUA, 03/12/2021}

 

“O que eu percebo nesse grande movimento, em que as mulheres, sobretudo nesse processo criativo da literatura, das artes, é essa necessidade de se colocar mesmo como protagonistas. Eu percebo neste projeto essas dimensões muito atadas, muito “dialogizadas”, que é a questão do estético, dessa procura do processo criativo, inovador, constitutivo e também a questão social, ética, moral, no momento de distopias, de isolamento, de pandemia, de refluxos, de bandeiras do social.”

{Isa Corgosinho (PB), Abertura do FLENLUA, 03/12/2021}

 

“Estou aqui para falar com que força surgiu esse movimento, porque ele já nasceu empoderado e empoderando [...] E de poetas, num estalar de dedos, nós viramos deusas, as deusas da poesia. E isso mostra o quanto o Projeto Enluaradas veio para nos fortalecer nesse meio literário, para fortalecer a nossa escrita e a nossa poética.”

{Marina Marino (SP), Abertura do FLENLUA, 03/12/2021}

 

“Talvez a gente nem tenha noção do que é que nós estamos fazendo dentro desse coletivo, agora uma coisa eu tenho certeza, ele veio para fazer a diferença, eu não estou falando de vaidade, eu estou falando de necessidade da gente buscar sim o arquétipo dessas deusas que há muito tempo adormeceu [...] (O Projeto Enluaradas) vem com afetos, as inclusões, os acolhimentos e traz à tona a poética que nos habita. É um trabalho bem socrático, a maiêutica que reconhece que você tem dentro de você o conhecimento, só precisa de alguém para ajudar nesse parto de luz.”

{Janete Manacá (MT), Abertura do FLENLUA, 03/12/2021}

 

“Estou muito feliz por fazer parte deste movimento [...] (que) tem levado o trabalho de todas nós, conhecidas, desconhecidas, sem distinção. Isto é realmente o que eu chamo Literatura, que é dar oportunidade a todas, não só a uma parte, como se considera a elite,”

{Ana Mendes (Suíça), Abertura do FLENLUA, 03/12/2021}

 

“Lembrei da menina mulher que fui e quanto faria a diferença se eu tivesse encontrado mãos acolhedoras e agregadoras como nós temos agora e, para mim, não foi só um livro a mais, eu recebi a certeza de que é possível um mundo novo onde cada mulher, assumidamente poeta, entende o que é entrar numa ciranda, dar as mãos [...] dividindo a força, e todas sem medo de expor sua fragilidade e grandeza nesse universo de poesia”

{Vania Clares (SP), Abertura do FLENLUA, 03/12/2021}

 

“Eu sinto que eu pertenço à essa família, que eu encontrei o meu lugar, poeticamente falando, e isso é tão raro hoje em dia [...] não sei se elas (Marta e Cacau) têm a dimensão da história que elas estão fazendo na arte contemporânea, mas elas estão deixando um legado pós-moderno, reunindo o que há de melhor das escritoras que compõem esta coletânea.”

{Aline Galvão (AM), Mesa 1 do FLENLUA, 03/12/2021}

 

“A luta só começou; a gente já consegue votar, já consegue dirigir, já consegue escrever com nosso próprio nome, mas ainda tem muito que se lutar, e os nossos espaços vão ser ocupados por nós e pela próxima geração porque uma hora nós também seremos legado da próxima geração. [...] Não quero a literatura só para mim, eu preciso de um coletivo, eu preciso de mulheres que girem comigo, eu preciso de mulheres que tenham esse sentimento de não querer a literatura só para si, as oportunidades só para si.”

{Patrícia Cacau, Mesa 2 do FLENLUA, 04/12/2021}

 

“Esse projeto [...] me diz muito, me diz demais. Eu também me confesso não feminista, no sentido mais ativo dessa palavra, mas porque eu acho que não me foi dada essa oportunidade que eu vim a ter quando conheci esse projeto. Isso para mim representa muito”

{Dalva Lobo, Mesa 2 do FLENLUA, 04/12/2021}

 

“A palavra Ciranda tem tantos significados, assim como passagem do tempo, aquilo que vai passando, o transcurso dos dias, na ciranda dos dias. E a primeira acepção da palavra, se você vai para o dicionário [...] ciranda é uma peneira grossa que serve para joeirar, separar os materiais, as impurezas [...] Eu acho que nesta Ciranda com tantos significados, nos faz tirar as impurezas da vida, aquilo que não serve mais [...] que caia por terra”

{Rosangela Marquezi (PR), Mesa 2 do FLENLUA, 04/12/2021}

 

“Nós sabemos que exclusão é uma questão de patriarcado, segregação é uma questão de patriarcado, concentração de riqueza é uma questão de patriarcado e nós precisamos, mulheres, todas nós somos maioria, ter consciência do nosso papel. É muito importante essa consciência começar a explodir dentro de nós e nos fazer realmente participativas e transformadoras [...] Que as mulheres pensem muito, repensem, estudem, participem de lives, penetrem mesmo na discussão política tão em voga e que veio à tona com uma força muito grande depois do golpe que vivemos, para que vocês votem certo, conheçam seus candidatos, se aprofundem na política. Tudo é também uma questão política [...] A poesia é uma ferramenta de transformação [...] é uma ferramenta política.”

{Teresa Bendini (SP), Mesa 4 do FLENLUA, 04/12/2021}

 

“Eu trabalho com a temática das mulheres há mais de 20 anos [...] e me encontrar com esse projeto (Enluaradas), para mim foi assim uma luz mesmo no meu caminhar, porque essas produções coletivas de mulheres, elas oportunizam um conjunto de vozes silenciadas. Nós somos tantas mulheres que, individualmente, não conseguiríamos publicar [...] essas escritas que são revolucionárias, e aqui eu quero retomar, na minha fala, a fala de nosso amigo Sidnei que acho que foi muito propícia mesmo, toda vez que uma de nós constrói um verso, compõe um verso, grita esse verso para a humanidade, uma algema do patriarcado se quebra porque nós, mulheres, trazemos a revolução na nossa poesia, nas nossas vozes, somos nós com os nossos poemas, com a nossa sensibilidade que vamos construir um mundo mais humano.”

{Heliene Rosa (MG), Fechamento do FLENLUA, 05/12/2021}

         

QUANDO AS BRUXAS CRIAM ASAS

                Na Coletânea III: I Tomo das Bruxas – do Ventre à Vida, tivemos o edital aberto de 10 de fevereiro a 22 de maio de 2022. Não foi um tema muito bem aceito e nos custou mais trabalho e tempo de divulgação; mas graças à adesão de nossas parceiras poetas foi possível alcançar o número expressivo de 106 (cento e seis) participações. No entanto, esta possível resistência havia sido cogitada no decorrer do processo, pois sabe-se que houve um projeto de extermínio para que as mulheres comuns, campesinas, as que conheciam o saber curativo das ervas, as ditas bruxas, fossem expurgadas da sociedade, e que todos estes conceitos e parâmetros negativos, gestados pelo patriarcado, nos foram legados e absorvidos estruturalmente. O projeto editorial desta coletânea procura trazer para o centro do discurso esta história de dor, sofrimento e perseguição através da analogia à estrutura tripartida do livro Malleus Maleficarum (Martelo das Feiticeiras), escrito em 1.487, do diálogo com as autoras Michelle Perrot (filósofa), Maria Teresa Horta (escritora, poeta), Clarissa Pinkola Estés (psicóloga) e de todo “um compêndio poético de subjetividades e vivências, tecido pela historicidade, ativismo e progressiva visibilidade das mulheres nas suas lutas e conquistas nos âmbitos público e privado” que se fazem presente no discurso poético desta coletânea.

No percurso de construção desta coletânea, realizamos, via Instagram, 22 (vinte e dois) episódios do quadro (Com)Pulsão Poética, para os quais contamos com o apoio imprescindível das poetas Enluaradas Ale Heidenreich, Carollina Costa, Lucila Bonina e Flavia Ferrari na mediação dos encontros.  O objetivo do quadro foi celebrar o poder transformador da Poesia, aquele que nos leva à realização dos sonhos, à compulsão, ao desejo de dar vazão à palavra. Esta palavra em estado de pulsão poética, que lateja, que anseia viver e sentir-se viva, esticando as asas semânticas do verbo por campos outros para desaguar em rios profundos de ardente pulsões...

Destaco aqui dois pontos importantes que marcaram a História das Mulheres pela repressão da sociedade patriarcal: a negação ao saber, eternizada na curiosidade maliciosa de Eva que nos foi herdada como 'castigo' em todos os tempos e, a partir daí, a diabolização do corpo objetificado da mulher, seu sexo insaciável propenso a vícios e às mais cruéis violências. Michelle Perrot, historiadora francesa, em seu livro Minha História das mulheres, pergunta e responde: O que querem as mulheres? Assim como Eva, elas querem morder a maçã, mas sem serem expulsas do Paraíso.

E, em pleno século XXI, continuamos perseguindo a maçã das possibilidades e o direito de permanecer no Paraíso. E este continua sendo o nosso desejo, e o fazemos com pulsão, com força poética, com a força de todos os silêncios herdados; esse é o anelo das Bruxas, eu disse 'anelo' para contrapor a 'martelo das bruxas' (Malleus Maleficarum), uma obra, escrita no século XV que justificou o assassinato, a perseguição (planejada e calculada) de bruxas e hereges durante séculos, onde encontramos afirmações como: “Eva nasceu de uma costela torta de Adão, portanto nenhuma mulher pode ser reta”. E aqui deixo mais três anelos: mulheres, pesquisemos nossa História, involucremo-nos com pautas feministas e busquemos razões para continuar a dura luta, pois o Feminismo é a grande declaração de amor que se pode fazer à Humanidade! Vamos confirir os episódios:

1º) (Com)Pulsão Poética I: Lucila Bonina Simões, Carollina Costa e Ale Heidenreich – mediação de Marta Cortezão (06/JUN/2022);

2º) (Com)Pulsão Poética II: Dilma Barrozo, Alyne Castro e Sueli Salles – mediação de Ale Heidenreich (08/JUN/2022);

3º) (Com)Pulsão Poética III: Cecília Rogers, Janine Carvalho e Simone Santos Guimarães – mediação de Lucila Bonina Simões (10/JUN/2022);

4º) (Com)Pulsão Poética IV: Giselle Pretti, Lilian Rocha e Deyse Ribeiro – mediação de Carollina Costa (12/JUN/2022);

5º) (Com)Pulsão Poética V: Verônica Oliveira, Cândida Carneiro e Magalhe Oliveira – mediação de Marta Cortezão (13/JUN/2022);

6º) (Com)Pulsão Poética VI: TidaFeliz, Amanda Pereira Santos e Rozana Gastaldi Cominal – mediação de Ale Heidenreich (15/JUN/2022);

7º) (Com)Pulsão Poética VII: Fátima Soares, Hydelvídia Cavalcante e Marina Neder Monteiro – mediação de Lucila Bonina Simões (17/JUN/2022);

8º) (Com)Pulsão Poética VIII: Valéria Pisauro – mediação de Carollina Costa (19/JUN/2022);

9º) (Com)Pulsão Poética IX: Vânia Perciani, Tati Vidal e Rita Alencar – mediação de Flavia Ferrari (20/JUN/2022);

10º) (Com)Pulsão Poética X: Amélia Costa, Helena Terra e Dorlene Macedo – mediação de Ale Heidenreich (22/JUN/2022);

11º) (Com)Pulsão Poética XI: Sandra A. Santos, Tainá Vieira e Lucirene Façanha – mediação de Lucila Bonina Simões (24/JUN/2022);

12º) (Com)Pulsão Poética XII: Célia Oliveira, Fátima Sá Sarmento e Karla Castro – mediação de Carollina Costa (26/JUN/2022);

13º) (Com)Pulsão Poética XIII: Neli Germano, Amana Assumpção e Noélia Ribeiro – mediação de Flavia Ferrari (27/JUN/2022);

14º) (Com)Pulsão Poética XIV: Malu Baumgarten e Carla De Sà Morais – mediação de Ale Heidenreich (29/JUN/2022);

15º) (Com)Pulsão Poética XV: Rilnete Melo, Lisieux Beviláqua e Érika Foresti – mediação de Lucila Bonina Simões (01/JUL/2022);

16º) (Com)Pulsão Poética XVI: Giulia Nogueira, Maria da Paz Farias e Heloisa Helena Garcia – mediação de Carollina Costa (03/JUL/2022);

17º) (Com)Pulsão Poética XVII: Cláudia V. Lopes, Sandra Santos e Adriana Bandeira – mediação de Flavia Ferrari (04/JUL/2022);

18º) (Com)Pulsão Poética XVIII: Rozana Nascimento, Cíntia Colares e Aline Leitão – mediação de Ale Heidenreich (06/JUL/2022);

19º) (Com)Pulsão Poética XIX: Wilma Amâncio, Lígia Savio e Lua Lopes – mediação de Lucila Bonina Simões (08/JUL/2022);

20º) (Com)Pulsão Poética XX: Araceli Sobreira, Patrícia Cacau e Jeane Bordignon – mediação de Carollina Costa (10/JUL/2022);

21º) (Com)Pulsão Poética XXI: Aurora Castro Mourão, Marta Cortezão e Rita Queiroz – mediação de Flavia Ferrari (11/JUL/2022);

22º) (Com)Pulsão Poética XXII: Eloísa Aragão, Chris Lafayette e Rai Albuquerque – mediação de Ale Heidenreich (13/JUL/2022);

Entretanto, não paramos apenas nestas (com)pulsões poéticas, realizamos também o quadro Caldeirão Literário, via canal do Youtube Banzeiro Conexões. Neste quadro, o objetivo foi celebrar a escrita de autoria feminina, discorrendo sobre as obras autorais das poetas, escritoras convidadas. Cada episódio abraçava uma temática para temperar o caldeirão das Bruxas. Foram 4 episódios, cujos textos eram publicados, aqui, no Feminário Conexões. Vamos a eles:

1º) Caldeirão Literário I: DAS FLORES QUE PERFUMAM O CAMINHOMaria Alice Bragança, Teresa Bendini, Clara Athayde, Cátia Castilho Simon e Dani Espíndola (11/JUN/2022);

2º) Caldeirão Literário II: DA FORÇA DOS SONHOS QUE NOS MOVEIsa Corgosinho, Margarida Montejano, Elisa Lago, Maria do Carmo Silva e Tânia Alves (18/JUN/2022);

3º) Caldeirão Literário III: DAS PULSÕES SUBVERSIVAS DA LINGUAGEMLiana Timm, Cris Mesquita, Dalva Lobo, Flavia Ferrari e Lindevania Martins (02/JUL/2022);

4º) Caldeirão Literário IV: DO PEDREGO(ZO)SO CAMINHO DA ESCRITAHeliene Rosa, Marina Marino, Patrícia Cacau, Manuela Lopes Dipp e Heliana Barriga (09/JUL/2022).

          Mas a história não acaba aqui. É apenas uma pequena pausa. Estamos escrevendo!

 

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