sexta-feira, 5 de junho de 2026

UM CONTO DE SANDRA SAN'TOS

A vizinha do andar de cima

Por Sandra San'tos

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O sol a espreitava entre as folhas da jabuticabeira no quintal do vizinho. Seis horas da manhã e ela esteve acordada por quase toda a noite. Marta estava de mau humor. Seu relógio biológico andava fora dos eixos: não dormia, a menstruação estava irregular, a fome desaparecera, o intestino andava preguiçoso, o pensamento mostrava-se confuso, e seu humor irritadiço. Creditava sua má sorte à insônia e culpava a vizinha do andar de cima por falar alto a noite toda, todas as noites. Inconformada, apelidou-a de “a louca do telefone”.

Sem sair da cama, contabilizou mentalmente os sons matinais: a vizinha à esquerda, gritaria com os filhos na luta de impedir que se atrasassem para a escola. - Bem na hora! Agora começará a algazarra dos papagaios... Ué! Hoje se atrasaram... – Quase riu. A sinfonia dos papagaios se dava por conta das jabuticabas, eles comiam até cansar, e iam embora. - Esses sim são felizes, fazem o que querem, quando lhes dá na telha. – concluiu, resignada em arrumar-se para mais um dia modorrento de trabalho na repartição.

Havia se mudado há três semanas, após assinar o contrato de aluguel em tempo recorde. Não pesquisara muito. O apartamento bem localizado e com bom preço tinha que ter um defeito, nesse caso: a vizinha notívaga e faladeira. Marta nunca a vira, mas pelo timbre de voz grave e metálico, imaginava uma senhorinha, fumante ou ex-fumante.

- Isso é novidade. Inferno! Já é dia e ela começou cedo. Agora até durante o dia? Com quem ela tanto conversa? Será que é com uma pessoa só? Será que não percebe que os outros seres humanos do planeta querem dormir? – Engoliu a raiva insone, e enfiou a escova cheia de creme dental na boca.

O dia seguiu arrastado e Marta chegou do trabalho por volta das vinte horas, desejando que o importante assunto da vizinha, por fim estivesse resolvido. Despejou sobre a mesa da cozinha algumas sacolas de compras: produtos de limpeza, uns copos novos e insumos para preparar um lanche, já que não tinha ânimo para o fogão. Ainda não se acostumara a cozinhar apenas para ela.

Ouviu um LP do Chico, comeu seu lanche, tomou banho e decidiu ir para a cama mais cedo. Silêncio, luzes apagadas. Quase sentiu-se feliz. Ajeitou-se nos lençóis lavados com um amaciante de perfume de longa duração. (Pelo menos é o que prometia o anúncio publicitário). Relembrou as atividades do dia, planejou mentalmente o próximo, e fechou os olhos que já lhe pesavam. Silêncio...

- Eu já disse, então... É... Eu tô te falando. (Pausa) Eu não vim pra esta cidade à toa. Eu sempre tive um propósito. Todos temos que ter um! É... eu falei, mas ela não ouve.... (Pausa) Simmmm... É o que eu acho... É, é.... Então... Eu tô... verdade, tudo isso é muito importante. – bradava a mulher entre as pausas de seu interlocutor.

- Não é possível! Ela esperou eu me deitar pra começar a falar? – Marta arregalou os olhos sentindo o coração disparar movido pela raiva. Apertou o travesseiro sobre os ouvidos tentando, em vão, abafar o som da conversa. Eu vou filtrar, não vou ouvir. Não me interessa. Será que só eu tô ouvindo? Não é possível que ninguém mais além de mim a ouça. Vou falar com o síndico. – Desvencilhou-se bruscamente das cobertas e ganhou a janela.

A noite avançou pela madrugada, a longa confabulação da vizinha também. Marta acreditou que haviam sido pelo menos três interlocutores diferentes, e com o último, o diálogo evoluíra para uma briga, pois passou a ouvir murros, possivelmente na mesa ou nas portas de algum armário. Foi uma noite regada a palavras de raiva e passos a atravessar o piso, no caso, o teto de seu quarto. Teve ímpetos de soltar um palavrão libertador, de mandá-la calar a boca, de gritar que precisava dormir. Talvez se reclamasse bem alto, algum outro vizinho a apoiasse na reclamação. Pensou, ameaçou, e não o fez.

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No auge dos seus 46 anos, viver sozinha era novidade. Recém-divorciada, não se acostumara a ter mais espaço na cama, ou com a ausência de Alcides e seu sono da morte. O homem roncava tanto que, por vezes, apenas seu ronco lhe trazia a certeza de que ele estava vivo. Quantas noites mal dormidas por culpa da apneia do marido num prenúncio de morte por asfixia. Agora, pela lógica, deveria dormir melhor, afinal estava sozinha.

Como não conseguia dormir, passou a distrair-se tentando entender a conversa da vizinha. Calculou o grau de paciência que teria o interlocutor do outro lado da linha. - Essa deve ser alguma parenta... Esse deve ser o chefe. Será que ela ainda trabalha? Bem pode ser que trabalhe com algum tipo de atendimento telefônico... mas existe Telemarketing de madrugada? Vai ver, conversa à noite por conta do fuso horário. Deve ser isso: os filhos moram fora, e só consegue falar com eles de madrugada. – Sentiu vergonha ao pegar-se com os ouvidos na parede.

Passava os dias sonolenta, até que cedeu aos soníferos; primeiro os naturais, depois os tarja preta que conseguiu com uma colega. Graças a esses, por uma semana viu resultados, mas foi só. A insônia venceu. Tudo o que lhe restara era aquela voz incansável. - Chega, vou tomar uma atitude, assim não dá. Amanhã bato na porta dela.

A privação do sono permitiu que a vizinha preenchesse todas as horas de seu dia, provocando dores de cabeça e a queda de rendimento no escritório. Marta estava um caco e aos poucos, a delusão expulsou a razão, abrindo caminho para toda a ordem de pensamentos intrusos e infundados. - E se essa mulher nem existir? Será que sou só eu que a ouço? Tô enlouquecendo, preciso dormir. - Esgotada e confusa, começou a faltar no trabalho.

Sentindo a vida lhe escapar pelas mãos, considerou tomar alguma atitude, antes que a loucura se apossasse de sua mente. Cogitou ligar para Alcides, mas não lhe daria essa prova de fraqueza. - Eu consigo, amanhã eu resolvo. - O amanhã passava para depois, sempre depois.

Uma tarde, após experimentar um período de longo silêncio, encheu-se de coragem. - A infeliz deve estar dormindo... então eu vou acordá-la. Que sinta o gostinho de ser incomodada. - Seria sua pequena vingança.

Subiu o lance de escadas e parou em frente à porta sentindo o coração bater cada vez mais rápido. Observou uma enorme quantidade de pó sob o batente, e teve a impressão que há muito tempo ninguém passava por ali. Sentiu um misto de raiva e dó da figura que enfim conheceria. Dó, pois afinal experimentavam da mesma bebida: a solidão. E sentiu raiva de si mesma pois, de alguma forma, identificava-se com uma pessoa, no mínimo, desequilibrada.

Engoliu em seco e bateu várias vezes. Quando pensou em desistir, a porta se abriu revelando a pequena figura de uma senhora na faixa de seus 70 anos. Trajava roupas surradas, os cabelos em desalinho, e um par de olhos opacos.

Em frente a culpada de sua tortura, Marta desmontou, deixando que as palavras de seu discurso ensaiado fugissem pela escada de serviço.

- O que deseja menina? – indagou a figura que não condizia com aquela voz potente de suas noites mal dormidas.

- Eu... eu preciso falar com a senhora. Me desculpe simplesmente bater em sua porta, mas, mas...

- Meu nome é Mirtes, e você quem é? – perguntou.

- Eu... Meu nome é Marta, e moro no apartamento abaixo do seu. Queria dizer que... bem, se a senhora precisar de alguma coisa, é só chamar, tá?

- O que mais você quer, menina? - perguntou a mulher, sem nenhuma emoção visível.

- Não, nada não. Era só isso mesmo. Me desculpe a intromissão... – Assim como seu discurso, sua coragem também descera pelas escadas, impulsionando-a seguir pelo mesmo caminho. - Como sempre me acovardei. Marta, você é uma idiota covarde.

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Na esperança de reclamar com alguém, correu escada abaixo, dirigindo-se à portaria. Se não conseguia entrar em um conflito, então o caminho seria uma reclamação formal. Chegando ao térreo, abriu apressadamente a porta dando de cara com o porteiro, que conversava animadamente com um jovem casal.

- Oi, Dona...

- Marta. - respondeu prontamente ao porteiro.

- Desculpe, mas ainda não decorei seu nome. É a idade pesando. – justificou encabulado pela gafe, e sorriu mudando de assunto: - Esses são seus novos vizinhos. Estão de mudança pro número 7, exatamente um andar acima do seu... Vocês vão gostar daqui, só tem gente boa. Sejam muito bem-vindos. – completou dirigindo-se ao casal que já se afastava.

- Sim, cla...claro, sejam bem-vindos. – disse Marta, que por inércia, não desmanchou o sorriso que havia pregado na cara.

- O número sete... está vazio? – perguntou incrédula.

- Ah, sim, já tem mais de um ano. Desde que Dona Mirtes faleceu... Que Deus a tenha. A senhora está bem Dona Marta? Posso ajudar em alguma coisa? – indagou o porteiro fitando-a com ar preocupado.

- Não. Está tudo bem... vou subir, eu esqueci a carteira em casa.

Correu para o elevador e sentiu um grande alívio quando a porta se fechou escondendo-a do porteiro que ainda a observava. - Será que a louca sou eu? Não é possível! Eu a vi! Eu falei com ela! - Olhou-se no espelho do elevador como a esperar uma resposta. Porém, Marta não reconhecia a imagem da pessoa que a fitava de volta.

Entrou em casa, jogou-se no sofá, e imóvel assistiu o dia virar noite. - Ela vai começar a falar, eu sei que vai. Fale Dona Mirtes, não me importa com quem, apenas fale. - O sangue lhe fugia, o suor escorria por seu rosto, enquanto as longas conversas de Dona Mirtes lhe invadiam a memória.

Estranhou o som do silêncio.

- É isso... tenho que ir pra cama, aí ela começa... Se eu deitar e tentar dormir ela começa. Então que venha Dona Mirtes... Que venha, pois estou pronta para a senhora.  

Deitou-se como quem arma uma estratégia de guerra.

- É... Eu sei. Não disse que seria assim? - Mirtes atacava novamente.

-  Eu avisei, mas... ela não me ouve... As coisas têm que mudar! Não... não fala besteira, eu sei do que estou falando, eu já passei por isso... Acho melhor marcarmos uma reunião...

Sentindo como se tivesse ganho uma batalha, Marta de um pulo colocou-se em pé, e apressada, avançou pelas escadas. Preparou-se para bater, mas desta feita, a porta abriu-se antes da primeira pancada.

- O que você quer, menina Marta? – perguntou a mulher, fitando-a com seu olhar sem viço e um sorriso no canto da boca.

- Apenas conversar, Dona Mirtes... Só quero conversar. Posso?

- Entre, menina... entre. Eu já lhe esperava. – respondeu a vizinha fechando a porta atrás delas.

E assim, no andar de cima, a solidão quebrou o silêncio.


FIM

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Arquivo da autora


Sandra A. Santos é pedagoga com especialização em Educação Ambiental, ambientalista apaixonada pela natureza e pela vida em todas as suas formas. Hoje aposentada, dedica-se à literatura, escrevendo contos, romances e poesias que giram em torno do universo feminino. Com trabalhos publicados em antologias no Brasil e na Argentina.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

A OBRA DE DANÚBIA LEÃO E AS OFERENDAS DO PANTANAL, POR ELIZABETE NASCIMENTO

Entre Ciência e Arte: A Obra de Danúbia Leão e as Oferendas do Pantanal nos Pigmentos Naturais de Ana Paula Piveta 

Por Elizabete Nascimento 

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Resumo: O presente estudo analisa a intersecção entre estética, ciência e reflexão ecológica na obra contemporânea Punho em flores (2024), idealizada pela bióloga, investigadora e artista Danúbia Leão. A produção estabelece um manifesto visual em defesa do Pantanal ao equilibrar, conceitualmente, força e delicadeza. A imagem central de um punho cerrado ao sustentar uma rosa simboliza a resistência ativa contra a degradação ambiental e os incêndios florestais, ato que contrasta com a vulnerabilidade intrínseca da natureza diante da ação humana. Do ponto de vista material, a obra assume um caráter político e ecológico ao utilizar pigmentos naturais, como: terra, plantas e minerais. Coletados no próprio bioma pela artista Ana Paula Piveta, essa paleta orgânica de tons sépia, marrons e rosados confere à aquarela uma textura que funciona como extensão física do território pantaneiro. Adicionalmente, o artigo fundamenta-se na fenomenologia de Gaston Bachelard (1993) para discutir a relação entre o espaço e a memória afetiva, deste modo monstra a pintura como uma guardiã do tempo suspenso, um abrigo para a imaginação e um convite ao devaneio poético. As percepções de Leão nas Ciências Ambientais escorrem para a tela, conferem à arte um papel pedagógico e transformador que traduz o conhecimento científico em ativismo visual, assim aponta à urgência de salvaguardar um dos biomas mais ricos e ameaçados do mundo.

Palavras-chave: Arte e Ciência; Pigmentos Naturais; Pantanal; Danúbia Leão; Gaston Bachelard.

Considerações Preliminares

A produção artística contemporânea tem se consolidado como um potente território de convergência entre a busca estética e a urgência do debate ecológico. Diante da crescente crise climática e da degradação dos ecossistemas globais, a arte deixa de ser um elemento meramente contemplativo para assumir uma função político-pedagógica, capaz de sensibilizar e tensionar a relação entre o ser humano e o meio ambiente. Nesse cenário de intersecção entre a sensibilidade artística e o rigor científico, destaca-se o trabalho da bióloga, investigadora e artista visual Danúbia Leão, cuja atuação nas Ciências Ambientais transborda diretamente para a materialidade de suas telas.

Este artigo propõe uma análise intertextual e estética da obra Punho em flores (2024), criada por Leão a partir de uma técnica de aquarela que utiliza pigmentos naturais coletados no Pantanal pela também artista Ana Paula Piveta. A composição, que tensiona a força de um punho cerrado à fragilidade de uma rosa, atua como um manifesto visual contra os incêndios e as ameaças que assolam o bioma pantaneiro. O uso da própria terra, de plantas e de minerais da região como matéria-prima pictórica confere ao suporte uma ligação visceral e orgânica com o território pantaneiro, deste modo transforma a pintura em uma extensão física da paisagem.

Para compreender a profundidade dessa conexão e a carga emotiva que a obra carrega, este estudo ancora-se nas reflexões fenomenológicas de Gaston Bachelard acerca do espaço e da memória afetiva. Sob a ótica bachelardiana, o espaço não é um vazio geométrico, mas sim um guardião do tempo comprimido e um abrigo para o devaneio poético. Pretende-se, portanto, investigar como Punho em flores opera como um “fóssil de duração” e um refúgio de resistência, especialmente ao demonstrar que a união entre os saberes científicos da conservação ambiental e a potência da arte é capaz de salvaguardar a memória e pulsar a vida de um dos biomas mais ricos e ameaçados do mundo. 

A Obra de Danúbia Leão e as Oferendas do Pantanal nos Pigmentos Naturais de Ana Paula Piveta

A produção artística contemporânea tem procurado, cada vez mais, estabelecer pontes entre a estética e a reflexão ecológica. No trabalho da bióloga, investigadora e artista Danúbia Leão, essa relação ganha contornos de urgência e autenticidade.

Figura 01: Punho em flores
Fonte: arquivo da autora

A obra em foco, produzida em 2024 com o título Punho em flores (Fig. 01), utiliza a técnica de aquarela com pigmentos naturais do Pantanal sobre papel e apresenta uma mão erguida que sustenta uma rosa, compondo uma imagem simbólica em que força e delicadeza se encontram. As flores em tons rosados e violáceos emergem em meio a manchas aquareladas orgânicas. Neste viés, sugere uma atmosfera sensível e poética. O gesto do punho, associado à resistência e afirmação, contrasta e, ao mesmo tempo, dialoga com a fragilidade das pétalas.

A composição da obra equilibra elementos de força e delicadeza que dialogam diretamente com a realidade do bioma. O punho fechado, elemento central da imagem, é um símbolo universal de luta, resistência e determinação. No contexto do Pantanal, este gesto representa a defesa ativa do ecossistema face às ameaças da degradação ambiental e dos incêndios. Deste modo, transcende a mera representação visual e transforma-se num manifesto sobre a urgência de olhar e sentir o Pantanal e suas oferendas.

Em contraste com a rigidez do punho, surge a flor, delicada e frágil. Esta oposição conceptual ilustra a dualidade entre a força necessária para proteger a biodiversidade e a vulnerabilidade da própria natureza frente à feroz ação do ser humano. As rosas dispostas na base da composição, com tons de vinho e roxo, criam uma base densa que parece nutrir e sustentar o gesto de resistência, gesto que evoca uma sensação de intensidade e paixão pela terra.

Um dos aspectos mais marcantes da obra de Danúbia Leão é o manuseio de pigmentos naturais, recolhidos pela também artista Ana Paula Piveta no próprio Pantanal. Esta escolha não é meramente estética; constitui um ato político e ecológico. Ao utilizar a terra, as plantas e os minerais da região, as artistas apresentam uma ligação direta e visceral entre o suporte físico da obra e o ambiente retratado.

A paleta de cores, dominada por tons de sépia, marrons e tons suaves de rosa desbotado, confere à aquarela uma textura orgânica e irregular. Esta materialidade reflete a própria textura do solo e das águas pantaneiras, permitindo que a pintura funcione quase como uma extensão física da paisagem, dotada de uma atmosfera de nostalgia e conexão profunda com o território.

A perspectiva de Danúbia Leão enriquece a leitura da obra. Enquanto bióloga e investigadora na área das Ciências Ambientais, o seu trabalho na conservação e restauração do Pantanal transborda para a tela. A arte deixa de ser apenas contemplativa e assume um papel pedagógico e transformador.


Em seus mil alvéolos, o espaço retém o tempo comprimido. É essa a função do espaço [...]. Aqui o espaço é tudo, pois o tempo já não anima a memória. A memória — coisa estranha! — não registra a duração concreta, a duração no sentido bergsoniano. Não podemos reviver as durações abolidas. Só podemos pensá-las, pensá-las na linha de um tempo abstrato privado de qualquer espessura. É pelo espaço, é no espaço que encontramos os belos fósseis de duração concretizados por longas permanências. (Bachelard, 1993, p. 27-28)

Nesta passagem, Bachelard explora a relação íntima entre o espaço e a nossa memória afetiva, demonstrando como os locais funcionam como “fósseis” que retêm o tempo e as vivências. A obra da artista visual e ilustradora Danúbia Leão traz uma profunda sensibilidade e um diálogo íntimo com a delicadeza da natureza, da espiritualidade e das emoções. A imagem, que une as mãos, as flores e tons quentes e envolventes, se conecta com o pensamento de Bachelard por intermédio dos seguintes pontos:

  • O Espaço como Guardião da Memória: Bachelard nos lembra que o espaço retém o tempo comprimido. A pintura de Danúbia atua da mesma forma: a representação do gesto e da natureza (as rosas) cria um espaço físico e simbólico onde o tempo é suspenso, e assim sustenta a emoção ou uma lembrança afetiva que de outra forma seria fugaz.
  • A Dialética da Intimidade: O filósofo analisa como os espaços íntimos (como cantos, ninhos e redutos) nos protegem e nos permitem sonhar. A figura da mão que segura ou protege as flores na arte atua como esse “ninho” ou “abrigo” para a imaginação e para a interioridade do ser.
  • O Devaneio Poético: Em sua fenomenologia, Bachelard afirma que a imagem poética emerge do coração e da alma. A paleta de cores e a pincelada poética na obra de Danúbia convidam o observador ao devaneio, trazendo à tona sensações de permanência, afeto e delicadeza.

Por meio do seu trabalho, a artista consegue traduzir a linguagem científica e o conhecimento ecológico em formas e cores acessíveis, assim sensibiliza o público-leitor para a necessidade de ofertar abrigo e proteção a um dos biomas mais ricos e ameaçados do mundo. A obra torna-se, assim, um símbolo do seu ativismo científico, onde a arte e a natureza caminham lado a lado.

Considerações Finais

A obra de Danúbia Leão vai muito além da representação visual ou da técnica pictórica; ela se torna um espaço de memória viva, um refúgio poético onde a ciência e a sensibilidade se entrelaçam. Ao trazer as cores e os elementos do Pantanal para o papel, a artista transforma a resistência em um ato de acolhimento e escuta.

O punho e a flor, unidos pelos pigmentos da própria terra, nos convidam não apenas a observar, mas a proteger o bioma. É como se cada pincelada fosse um suspiro da natureza, de onde ecoa a ideia de Bachelard de que o espaço guarda o tempo e o afeto.

A arte cumpre, assim, o seu papel mais profundo: garantir que a memória e a vida continuem a pulsar, firmes e frágeis, em um território que se mantém vivo na nossa consciência e no nosso coração.


Referências Bibliográficas 

BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. Tradução de Antônio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

LEÃO, Danúbia. Punho em flores. 2024. 1. aquarela sobre papel, pigmentos naturais do Pantanal coletados por Ana Paula Piveta. Acervo da autora.

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Elizabete Nascimento – Doutora em Estudos Literários pela Universidade do Estado de Mato Grosso/Unemat, da tese publicou o livro: Sinfonia de Letras: Acordes Literários com Dunga Rodrigues (2021). Mestre em educação pela Universidade Federal de Mato Grosso/UFMT, com a pesquisa que originou o livro: Educação Ambiental e Manoel de Barros: diálogos poéticos (2019). Também é autora de diversos livros de poemas, entre eles: Asas do inaudível em asas de vaga-lume (2019); Granada (2023); Império (2024) e Pétalas de Aço (2025). Contribuições em várias revistas acadêmicas e antologias coletivas. Produtora Cultural e Integrante da AJEB/Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – Regional Mato Grosso. Endereço Eletrônico: maria-elizabete.oliveira@edu.mt.gov.br @m_elizabete


Danúbia Leão – Doutora em Ciências Ambientais, Graduada em Ciências Biológicas; Multiartista, atualmente, coordenadora de formação na DRE/ Diretoria Regional de Educação – Cáceres/Mato Grosso. Integrante da AJEB/Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil. Endereço eletrônico: danubiadasilvaleao@gmail.com, @danubialeao.artes - http://lattes.cnpq.br/2014371440949356


sexta-feira, 8 de maio de 2026

UMA CRÔNICA DE MARGARIDA MONTEJANO

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REATANDO O CORDÃO

Ela me amou primeiro.
Eu a amei no segundo segundo.
Construímos juntas
nossa história de Amor.

Por Margarida Montejano

Cara leitora, caro leitor! Sobre a maldade impressa e expressa em atos e palavras contra a mulher, os animais, a natureza, compartilho está crônica com vocês!

Minha mãe aprendeu com a mãe dela, que aprendeu com a avó, que aprendeu com a tataravó… que aprendeu com a Mãe Terra que o cordão umbilical cortado ao nascer, um dia, pela força da palavra, será reatado. 

E, antes mesmo de eu aprender a falar, minha mãe já tomava o cuidado de me ensinar a ler. A ler o dia e a noite. A interpretar a chuva e o vento. A admirar o sol, a flor, as árvores e o mar. A pensar antes de falar e que, estranhamente, pensamento e palavra moravam no coração!  Que vida e morte andavam de mãos dadas. Eu só ouvia.

Dizia ela com palavras de bem-querer, que a vida se constrói aos poucos e, com os pedacinhos do tempo e das palavras que destinamos às plantas, aos bichos, às gentes e…, devagarinho completava… “às criancinhas”. Insistia em falar que nós, no uso do tempo e das palavras, tecemos a forma de nossa morte.

Eu não entendia nada, mas achava tudo muito lindo. No som melodioso das palavras tudo, segundo ela, num dado momento da vida formaria um grande quebra-cabeça incompleto. Sim! Insistia em dizer que faltava, entre as coisas, bichos, flores, gentes e palavras, o meu pedacinho, a minha parte.

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Eu a observava por horas na lida do dia e, quando cansada, jogava água no rosto e lançava o olhar ao infinito, desfiando, no rosário invisível entre os dedos, o “Salve Rainha” a rezar. Ela, baixinho, pedia a Deus, com delicadeza, que protegesse a palavra. O pensamento, a boca, as mãos e o coração.

Não entendia eu que palavra ela pedia para Deus proteger. Curiosa, queria saber. Um dia, desses dias comuns que povoam as nossas lembranças, a peguei sussurrando ao pé do ouvido de meu pai.  Esforcei-me pra ouvir e, com muito custo, descobri, no sussurro e cumplicidade entre os dois, a palavra cantada a entoar gentileza.

Dizia ela a ele: - Seja gentil! Pense bem! A vida de mulheres, dos bichos, das florestas e rios, pede cuidado.  Cuidado com pensamento e linguagem. Ambos moram no coração! Cuide, ao falar! A palavra retorna insana a quem mal a profana! Numa breve pausa, continuava ela: palavras não foram feitas para agredir ninguém. São ondas sonoras através das quais os sentimentos, maus e bons, vão e vêm. Cuidado! Nosso cordão umbilical, vínculo com a vida precisa ser reatado.

Vida?   Será esta a PALAVRA?

P.S.: Ofereço esta crônica a todas as Mamães de todos os tempos. À minha, à tua...

Margarida Montejano - 10/05/2026

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Arquivo da autora
Margarida Montejano, mora em Paulínia/SP. É Poeta e escritora feminista; Func. Pública na Secretaria Municipal de Educação de Campinas. Defensora ativa dos direitos da Mulher, sendo membra do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher; Coordenadora do Projeto Bem-Me-Quero: Empoderamento Feminino e Igualdade de Gênero e, Criadora do Canal Literário – N’outras Palavras –  histórias que inspiram, no Youtube. Autora dos livros Fio de Prata - Ed. Siano (2022); Chão Ancestral, TAUP Editora (2023) e dos livros infanto juvenis A Poeta e a Flor,  A Poeta e a Sabiá, pela Editora Siano. (2024) e O Silêncio da Loba, TAUP, Editora (2025). Para contatar com a autora: @margaridamontejano.escritora

A LITERATURA COMO ABRIGO, ESPELHO E TRAVESSIA, POR ELIZABETE NASCIMENTO

Arquivo da autora

ALMA EM PALAVRAS: A LITERATURA COMO ABRIGO, ESPELHO E TRAVESSIA – A FORÇA DA ESCRITA FEMININA NA 14ª COLETÂNEA DA AJEB

Por Elizabete Nascimento

INTRODUÇÃO

 

[...] se não falo, é porque escrevo/a dor que não ousa contar.

Marly Lopes (In: Alma em Palavras, 2026, p. 61)

 

 

A literatura sempre foi um espaço de encontro, resistência e ressignificação. Em 2026, a Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB) reafirma esse compromisso com o lançamento da Coletânea Internacional – Alma em Palavras: A Literatura como Abrigo, Espelho e Travessia. Organizada pela presidente da AJEB Mato Grosso, esta obra marca a 14ª coletânea da associação que se consolida como um marco na literatura feminina contemporânea.

A coletânea foi oficialmente lançada durante o VI Encontro Nacional e V Encontro Internacional da AJEB/2026. O evento ocorreu na cidade de Sinop, no estado de Mato Grosso, entre os dias 09 e 12 de abril, e contou com a participação de aproximadamente 70 mulheres escritoras e jornalistas representantes de diversas regiões do país para celebrar a união, a troca de experiências e a força da produção literária e jornalística feminina.


Fonte: https://www.revistamaisbonita.com.br

A AJEB, nos seus 56 anos de existência, foi fundada pela visionária Hellê Vellozo Fernandes que carrega um longo histórico de incentivo à voz e ao talento das mulheres. Com o olhar voltado para a riqueza cultural de cada estado, a AJEB Mato Grosso celebra sua identidade tendo como patrona a professora, musicista, jornalista e escritora Dunga Rodrigues, uma figura inspiradora que reflete a força, a pesquisa, a cultura e a tradição das letras em Mato Grosso. É sob essa tradição de acolhimento e valorização que a atual edição se ergue ao unir o talento de mulheres de 20 regiões do Brasil (e de representações internacionais), formatando assim um grande mosaico cultural vibrante e representativo. Assim, convidamos Nelly Novaes Coelho (1993) e Simone de Beauvoir (1980) para legitimar o movimento da literatura contemporânea escrita por mulheres, focalizando na coletânea internacional da AJEB: Alma em Palavras – a literatura como abrigo, espelho e travessia (2026).

Coletânea Internacional AJEB/2026

A FORÇA DA ESCRITA FEMININA NA 14ª COLETÂNEA DA AJEB 

Escrever é uma forma de existir.

Clarice Lispector

 

 

A epígrafe acima abre a obra - Alma em Palavras: a literatura como abrigo, espelho e travessia (2026) – simboliza a trajetória da escrita feminina que alavanca a partir da [re]existência. Mais do que uma antologia de textos, a obra funciona como um documento de valor histórico e afetivo. A coletânea traz um mapeamento detalhado, apresentando:

  • A data de fundação de cada coordenadoria da AJEB;
  • O nome da presidente responsável por cada regional;
  • A trajetória das mulheres-jornalistas-autoras por meio de seus textos e de suas biografias.

Essa organização editorial permite que o leitor compreenda a capilaridade da instituição e a força do trabalho em rede realizado pelas jornalistas e escritoras em todo o território nacional. A pluralidade é a grande tônica da obra. A composição da coletânea abrange diversos gêneros discursivos, o que permite que cada escritora expresse sua singularidade e seu estilo próprio. Os leitores encontrarão um panorama diversificado que inclui:

  • Crônicas: Reflexões sensíveis sobre o cotidiano, as dores e as alegrias da vida moderna;
  • Contos: Narrativas envolventes que exploram o mistério, a ficção e a condição humana;
  • Poesias: Versos que tocam o coração e exploram a profundidade da alma feminina.

O título da 14ª coletânea da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB) possui uma forte carga simbólica e metafórica que nos permite compreender sua densidade, podemos cruzar o pensamento existencialista e feminista de Simone de Beauvoir com a crítica literária e os estudos sobre a literatura de autoria feminina de Nelly Novaes Coelho. A união desses dois olhares teóricos nos permite enxergar a obra não apenas como uma antologia, mas como um manifesto de existência, autonomia e acolhimento.

Em sua célebre obra O Segundo Sexo, Simone de Beauvoir discute como a mulher historicamente foi colocada na posição de “Outro”, confinada à imanência, enquanto o homem se realizava na transcendência. A escrita literária surge, nessa perspectiva, como um dos caminhos para que a mulher alcance sua própria voz e autonomia.

O Espelho (Identidade e Alteridade): Beauvoir argumenta que a mulher precisa se libertar das imagens construídas pelo olhar patriarcal sobre ela. O “espelho” no título da coletânea simboliza a ressignificação do eu: o texto literário é a própria mulher porque, permite que ela se veja como autora do discurso e de sua história.

A Travessia (Ação e Transcendência): Para a autora, a literatura é uma ferramenta de ação no mundo. A "travessia" representa o ato de romper os limites impostos pelo silenciamento histórico e transitar para a transcendência, onde a mulher se torna dona de seu destino e de suas narrativas. “Não se nasce mulher, torna-se mulher.” (Beauvoir, 1980, p. 9)

 

A renomada crítica literária brasileira Nelly Novaes Coelho dedicou-se a investigar o lugar da mulher nas letras. Em seus estudos, especialmente na obra A Literatura Feminina no Brasil Contemporâneo, analisa como o discurso feito por mulheres rompe com os modelos tradicionais e se torna um espaço de amadurecimento da consciência crítica.

Para Coelho, a literatura atua como um refúgio para as vivências que foram silenciadas na sociedade. O termo “abrigo” sintetiza esse espaço seguro onde a “alma” (a subjetividade, a sensibilidade e a intelectualidade feminina) encontra acolhimento para se manifestar sem receio de julgamentos porque como poetiza Márcia Schweizer (2026, p. 58): “cada sílaba é ponte/cada rima, abrigo, / onde a alma repousa/e se veste de infinito”. A autora destaca que a literatura feminina não é apenas ficção, mas o próprio sopro vital materializado em linguagem que traduz a singularidade do pensamento feminino.

 

A literatura feminina vem ganhando um espaço cada vez mais significativo [...] no panorama geral da Literatura Brasileira [...] com o amadurecimento crescente de sua consciência crítica. (Coelho, 1991, p. 91)

 

A junção dessas duas abordagens teóricas nos permite decompor o título da coletânea da seguinte maneira:
               Alma em Palavras: focaliza na interioridade, as dores, as alegrias e os anseios da mulher (sua alma) ganham contorno e existência por meio da linguagem escrita (palavras).
                Abrigo: destaca uma "casa" de proteção e identificação mútua entre as escritoras e suas leitoras.
            Espelho: simboliza quem a mulher é de fato, longe dos estereótipos, fator que permite o autoconhecimento.
                Travessia: ressalta o movimento de transição, onde a mulher passa da condição de mero objeto histórico (imanência) para a condição de autoria ativa que transforma sua realidade (transcendência).

Selecionamos e trazemos para este cenário, um poema da obra – Sorriso Espelhado (2026, p. 163) – de Brenda Marques Pena, a fim de apresentar a profunda sensibilidade feminina voltada ao universo interior, onde a memória e o autoconhecimento são pontos focais. Analisar este texto à luz das abordagens de Simone de Beauvoir e Nelly Novaes Coelho nos permite compreender a escrita como um ato de ressignificação da existência feminina e de expressão da subjetividade feminina.

O poema inicia-se com “No meu coração escorre um rio”, demonstra que o eu lírico encontra em seu próprio interior o refúgio (abrigo) para as suas emoções. A “alma” mencionada na coletânea encontra, aqui, morada no próprio corpo e na sensibilidade.

No trecho “e brinco de fazer correnteza / lançando pequenos objetos”, a voz poética assume um papel ativo. A mulher que brinca com o fluxo da água demonstra que é capaz de interferir em sua própria história e no mundo ao seu redor, de modo a romper com a imanência e exercer a transcendência. Reconhecer-se como ser é também o primeiro passo para a conquista da independência e da autenticidade da experiência vivida.

O verso “No fundo dele Encontro pedras / De construir poemas” traduz exatamente o conceito de amadurecimento da consciência crítica. As “pedras” (obstáculos, dores ou marcas da vida) não são rejeitadas; são utilizadas como matéria-prima para a construção da poesia, assim transforma a vivência em linguagem e arte. “A literatura da mulher é o registro do seu amadurecimento, onde o íntimo se torna universal pela força da palavra.”

Nos versos finais, “Vejo o movimento / como se o lago / sorrisse para mim”, observa-se uma metáfora que remete ao espelho de Beauvoir. O lago não reflete a imagem imposta pelo olhar do “Outro” (patriarcal), mas simboliza a própria subjetividade da mulher. O sorriso é o símbolo do autoamor, da autovalorização e do reconhecimento de si mesma como protagonista.

O poema “Sorriso Espelhado” dialoga com o título da coletânea Alma em Palavras ao articular os seguintes elementos:

Abrigo: revelado na infância e nas memórias da segundo estrofe, que protegem a essência da mulher.

Epelho: apresentado no reflexo das águas (lago), onde a mulher se vê e se reconhece com afeto.

Travessia: simbolizada pelo movimento da correnteza e pela transição do sofrimento à criação poética (“construir poemas”).


Para a crítica Nelly Novaes Coelho, a literatura de autoria feminina funciona como um espaço onde a mulher elabora suas vivências de forma crítica e sensível, deste modo legitima voz às suas dores e superações. O texto de Brenda Marques Pena, assim como de outras mulheres que participam da coletânea Alma em Palavras, materializa a força da escrita feminina, aponta que olhar para o próprio interior é um ato de coragem e de autolibertação porque no final o que nós, mulheres, desejamos: “é Ser/Tão somente ser” (Botelho. In: Alma em palavras, 2026, p.36).

 


CONCLUSÃO

Na perspectiva existencialista de Simone de Beauvoir, a libertação da mulher passa pela capacidade de transformar a experiência vivida em ação e transcendência, de modo a libertar da passividade ou da autoalienação.

Mais do que uma simples reunião de textos, a Coletânea Internacional Alma em Palavras é um convite ao acolhimento. Ao utilizar a literatura como abrigo, espelho e travessia, as autoras oferecem ao público/leitor uma janela para suas vivências e visões de mundo. A obra configura-se como um testemunho vivo da potência da mulher na literatura e do poder que a palavra escrita tem de conectar, transformar e transcender fronteiras.

Palavras-chave: Literatura Feminina; AJEB (Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil); Crítica Literária; Subjetividade; Transcendência.

REFERÊNCIAS

BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo (Vol. 2: A Experiência Vivida). Tradução de Sérgio Milliet. São Paulo: Difel, 1980.

COELHO, Nelly Novaes. A literatura feminina no Brasil contemporâneo. Língua e Literatura, São Paulo, n. 19, p. 91-101, 1991.

COELHO, Nelly Novaes. A Literatura Feminina no Brasil Contemporâneo. São Paulo: Siciliano, 1993.

ZILIOTTO, Leni Chiarello (Org.). Alma em palavras: a literatura como abrigo, espelho e travessia. Passo Fundo: LINE, 2026.

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Arquivo da autora

Betina Costa é integrante da AJEB Piauí. Advogada há mais de 20 anos, é fundadora do Instituto Consensum - Educação e Soluções Corporativas e consultora em Gestão de Conflitos Organizacionais, integrando Mindfulness, Mediação Corporativa e Segurança Psicológica. É Mestre em Direito com ênfase em Resolução de Conflitos pela Ambra University. Palestrante, TEDx Speaker, autora dos livros Universo Particular e Gestão de Conflitos Organizacionais, além de coautora em obras sobre cultura de paz. No currículo afetivo, é filha de Cláudia e Joaquim, esposa de Celso e mãe de Joaquim, Catarina e Benício.


Arquivo da autora

Elizabete NascimentoMãe de Jefferson Thiago, Diego Terada e Ighor Vinícius; vovó do Samuel e da Alícia. Doutora em Estudos Literários (PPGEL/UNEMAT), atualmente, professora formadora do componente curricular de Língua Portuguesa na Diretoria Regional de Educação/DRE, município de Cáceres-Mato Grosso. Autora dos livros: A educação ambiental e Manoel de Barros: diálogos poéticos (Paulinas, 2012); Asas do inaudível em luzes de vaga-lumes (Carlini & Caniato, 2019); Sinfonia de Letras: acordes literários com Dunga Rodrigues (2021); Granada (2023); Quando aprendi outra linda forma de amar (2024); Império (2024); Pétalas de Aço (2025); Memórias: Alforrias e Traços de Mulher (org. 2026). Integrante da AJEB/Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil e do PEN Clube  Associação Mundial de Escritores. http://lattes.cnpq.br/4585210198661387


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