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segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

62 ANOS ! (SOBRE)VIVER É UM ATO POLÍTICO

 "Escrevo porque a palavra sempre foi minha ferramenta de sobrevivência."

Hoje completo 62 anos. Entrego minha idade com velas mágicas e com o corpo inteiro aceso. Celebrar a minha vida como mulher, neste país onde mulheres são interrompidas diariamente, é um gesto que carrega peso histórico, ético e político.

Arquivo da autora

Enquanto escrevo esse texto, penso nas Tainaras, Isabelas e milhares de outras que não chegaram até aqui. Penso nas mulheres cujos aniversários foram silenciados pelo feminicídio, essa chaga social que o sistema não consegue encontrar a cura, e que lobos disfarçados de cordeiros romantizam dizendo ser adquirida do amor e do ciúme, mas que na verdade ela existe simplesmente pelo fato de sermos mulheres, pelo ódio,  pelo controle exercido pelo patriarcado e pela certeza  de que nossos corpos são territórios de posse. Na verdade, a culpa é do machismo estrutural que disfarça de homicídio os crimes misóginos.

Simone de Beauvoir já nos alertava que não se nasce mulher, torna-se, isto é, aprende -se a ser mulher dentro de um sistema patriarcal que impõe normas, papéis  e silenciamentos. Muitas mulheres são brutalmente interrompidas não por não alcancarem esse "tornar-se ", mas por desafiarem ou não se ajustarem às expectativas  que lhes são  impostas.

Para uma mulher que chega aos 62 anos, num país que ocupa a quinta maior taxa de feminicídio do mundo, é atravessar um campo minado com passos insistentes. É ter sido menina afetiva e tímida, adolescente intensa e romântica, sem imaginar que ser mulher é ser subjugada, objetificada e coagida. É ter acreditado no amor, lutado em meio a um casamento abusivo e ainda ter se reinventado como mãe solo, leoa, colo, sustento e abrigo.

Minha história pessoal não está dissociada da história coletiva das mulheres. Como escreveu Bell hooks, o amor, para nós, nunca foi neutro, ele sempre precisou ser reaprendido fora da lógica da dominação.

Arquivo da autora

E hoje eu celebro meu aniversário escrevendo com prazer, como mulher e como escritora, porque escrevo com o corpo que amou, viveu, perdeu e resistiu. Escrevo porque a palavra sempre foi minha ferramenta de sobrevivência. Audre Lorde dizia que transformar o silêncio em linguagem e ação é um ato de coragem. E eu escrevo para fazer barulho, porque sei que o silêncio mata  e não apenas metaforicamente.

O feminicídio não é um desvio de conduta individual. É o ponto extremo de uma cultura que naturaliza a violência contra mulheres, que relativiza agressões, que pergunta “o que ela fez?” em vez de perguntar “por que ele matou?”. Djamila Ribeiro nos lembra que não existe neutralidade quando a estrutura é desigual. Celebrar minha vida hoje, aos 62, é também denunciar essa estrutura.

Minha existência é prova, minha maturidade é prova e minha escrita é o carimbo.

Cada ruga que carrego não é sinal de desgaste, mas de permanência, de permanecer viva, lúcida e criativa, escrevendo sobre o feminino num mundo que insiste em nos apagar.

Isso para mim é uma forma de insurgência.

Hoje não celebro apenas mais um ano de vida, celebro o direito de continuar, celebro as mulheres que vieram antes de mim e abriram caminhos, celebro as que caminham comigo. E como ser humano sinto os rasgos na minha pele com indignação e compromisso por todas as que não (se)ssentaram e sim ficaram com os corpos estendidos ao chão.

Que minha voz aos 62,  ecoe como denúncia e manifesto. Porque enquanto uma mulher for morta por ser mulher, nenhuma de nós estará inteira. E ainda assim estamos aqui:

Escrevendo, vivendo e resistindo.

FEMINICÍDIO

Matam em casa todo dia uma mulher!

A voz sufocada

Pincelada de sangue

Reside nas paredes

Ecoa na sala o noticiário

 Agredindo os tímpanos

Na surdez da lei

Tudo é corriqueiro

Mas a dor velada das Marias

Rasga a minha pele

E do meu verso perplexo

Arranco o silêncio

Enterrado no sexo

E eu grito na poesia :

Basta! O machismo já fede!

♡__________________◇_________________♤_________________♧__________________♡

Arquivo da autora

Rilnete Melo é maranhense, poeta, escritora, cronista e cordelista, membro das academias de letras ACILBRAS e ABMLP, colunista no blog Feminário Conexões e colaborada da Revista internacional The Bard, coautora de várias antologias nacionais e internacionais, vencedora de seis concursos literários, autora dos livros Construindo Versos, O máximo de mim e outros mínimos poemas, Pérolas do meu silêncio, zine Dezcontos micros e autora de cinco cordéis.

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

NA TRILHA DO FEMININO: LARGADA DOMÉSTICA, DE RILNETE MELO

N A    T R I L H A    D O    F E M I N I N O|08

LARGADA DOMÉSTICA

Era uma segunda-feira, dessas do tal calorão de 39° que quase fritava meus miolos e  fritava também ovo no asfalto,  dessas em que o dia branco, na verdade foi cinza; Do  bombril  impregnado nas unhas,  pó de casa varrida no pé e massa cinzenta pensando debaixo do chuveiro: Tenho que fazer isso, depois isso, amanhã  aquilo... E eternamente isso! 

Exausta, depois de me virar nos 30,  marido já  dormindo, ponho um cafezinho na xícara, destravo o celular para escrever alguma coisa, embora com o corpo pedindo arrego, a mente  ainda escrevive!  Passeio  pelo Instagram  e vejo, enfeitando o feed  viralizado, o tema da redação do Enem 2023: “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”.

E de repente foi o assunto mais comentado na semana  e  alvo de debates polêmicos nas redes sociais. Dos memes às charges,  o que mais me impressionou foram os comentários machistas do tipo: “Trabalho? Que trabalho?”, “E a invisibilidade de quem paga as contas, o Inep não vai comentar?”. Circulou até um vídeo de um  deputado  falando que daria punição à filha se ela tirasse boa nota nessa redação! (Santa imaculada do feminino sofrido, que nos proteja desse patriarcado!!)

Mas o comentário que me desafiou a escrever essa  crônica foi lançado para mim em um post recente, quando ainda nem tinha ideia do tema da redação e já  abordava exatamente sobre a invisibilidade do papel da mulher desde os tempos mais remotos até os dias atuais, que é cuidar, amar, cuidar... E no profícuo ofício de cuidar, mendigar amor! E o famigerado machista, agora  já deletado  do meu perfil e denunciado, de pronto comentou: “Se você conseguir descarregar caminhão, trocar pneu de jamanta e emboçar parede, pra senhorita eu dou “A  taça cacete", (me diz aí quem não soltaria as cachorras??).

Saiba muito bem, pai da Santa  ignorância e do olho cego, que  se  tivesse olimpíadas para o trabalho doméstico, não haveria taças  para tantas vencedoras! Dada a largada, a categoria “Excesso de cuidados" subiria ao pódio ao som de uma “Ave Maria", pois, no silêncio rotineiro da mulher, o cuidado  doméstico soa como uma música piedosa que é (in)visível,  embalando  as protagonistas  nos bastidores do cotidiano.

Na sociedade capitalista, a relação de poder do homem em detrimento da mulher, ouço dizer que se “dá(va) “?? pelo fato do homem ser responsável pela renda familiar, mas o mercado de trabalho foi aberto  para as mulheres e a conta ainda não fechou, pois agora é dobradinha:

 “Trabalho e cuidados".

A verdade é que, em pleno século XXI, a mulher ainda é o “anjo do lar”, e que anjo!!   Carrega nas asas o peso do trabalho dobrado, dentro e fora de casa, no sonho de  alçar voo rumo à igualdade de gênero e à equidade.

“Desde que me lembro de ser gente, lá em casa, quem dobrava os lençóis da cama era eu, minhas irmãs ou mamãe", porque isso era serviço de mulher!  Isso tem mais de meio século e os lençóis ainda não chegaram nas mãos dos homens, pois eles não sabem dobrar as pontas iguais, afinal, de igualdade o universo masculino  nada quer saber, né? E se sabe, ainda pergunta onde fica.

Lembro que minha avó costurava, fazia crochê, consertava guarda-chuvas, fazia a comida, varria a casa, passava a roupa no ferro de brasa, e fazia e fazia, e ainda  ajudava meu avô a plantar e colher, botava a comida dele na mesa e, no final do dia, ele pedia o lençol para dormir, pois não sabia onde estava... Será que lembrava de agradecer?. Fala sério, mudou alguma coisa? Um tantinho? Nada? Coisa nenhuma?

Conquistamos  sim, quebramos alguns tabus e estereótipos, como o direito ao voto e ao trabalho desigualmente remunerado, mas há um trabalho (cuidado) eterno  que  continua  invisível, o status quo “gestão do lar”, sempre na manutenção das condições observadas.... Casa varrida, roupa lavada, fralda trocada, mamadeira pronta, comida no prato,  cama arrumada... Na verdade é uma verdadeira “Largada doméstica” apenas com ponto de partida. 

E aqui eu deixo um poema de minha autoria para que possamos refletir sobre nossa saúde mental,  sobre  o excesso de cuidados para com o outro e das situações estressantes às quais nós mulheres estamos mais propensas e sem reconhecimentos. 


LARGADA DOMÉSTICA 


Lambeu o chão,

esticou a língua 

ao sal

e correu para a panela,

como sempre correu contra o

tempo.

Cozinhou os sonhos,

o prazer,

a vida.

- Do menu servido

no prato cotidiano -

a carne parida,

o amor ofertado,

e o reconhecimento

ao molho. 

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Rilnete Melo é brasileira, maranhense, graduada em letras/espanhol, escritora, cordelista membro das academias ACILBRAS, ABMLP e AIML, participou de várias antologias nacionais e internacionais, autora de cinco cordéis e dos livros solo Construindo Versos e O máximo de mim e outros mínimos poemas.

quarta-feira, 15 de março de 2023

NA TRILHA DO FEMININO: MINHA IDADE NÃO ME DEFINE, POR RILNETE MELO

N A    T R I L H A    D O    F E M I N I N O|07

MINHA IDADE NÃO ME DEFINE

Dá uma coceira no meu cérebro quando vejo circulando na mídia assuntos que ferem a figura feminina. "ETARISMO", "IDADISMO", "AGEÍSMO", nada além de denominações  para um preconceito patriarcal antigo. Sim! Um preconceito que coloca no "congelador social" exclusivamente as mulheres, pois eu senti na pele esse bullying nefasto ao entrar na faculdade depois dos 40 anos, enquanto havia, na mesma sala, homens de 50,  com os ouvidos virgens  eu ouvia: "Nossa! Você dessa idade fazendo faculdade!" ou "Você já tem mais de 40, mas nem parece!"... Esses comentários, embora disfarçados de "boas intenções", vinham carregados de preconceitos, pois eu era excluída dos grupos das "novinhas"  nas apresentações acadêmicas, entre outros eventos, ficando nos grupos dos que se aproximavam da minha idade. 


Quem nunca ouviu: "menina, você já está na idade de casar!", (Eu casei aos 27 anos) ou "você foi mãe muito tarde!" (Fui mãe aos 28 e aos 31)... Tempo limite imposto por uma sociedade machista! Está  arraigado na memória da sociedade, mas é tempo de dar um basta nessa intolerância que supervaloriza a juventude de uma mulher. Homem coroa é um charme,  se casar com novinha é elogiado por sua virilidade, mas se mulher coroa casa com novinho é uma ridícula, assanhada e por aí vai...  É hora de combater esses estereótipos e mostrar ao mundo que envelhecer faz parte do ciclo natural da vida e não amputa a nossa capacidade de criar,  de ser, de viver, de lutar por nossos objetivos e fazer o que a gente quiser!  

Há alguns dias postei uma "geladinha" na mesa de um bar e não me faltaram comentários: "Você ainda bebendo?", cuidado! Hein?"

Que é isso? Homem com 60 pode, né? Calma!! Eu não estou passada, o viço não morre, as vontades não cessam e quando meu corpo  sinalizar o alerta, serei suficientemente madura para canalizar meus limites. Acredito que meu espírito só envelhece se eu permitir,   não vou aceitar o desrespeito,  o desprezo, os estigmas e as humilhações que minhas rugas possam  vir lhe causar.  As minhas limitações serão autoimpostas por  minha necessidade de controle.

Na obra "A velhice " , Simone de Beauvoir propõe que uma pessoa não deve se aproximar do fim da sua vida de mãos vazias e solitárias ,  mas que para isso é necessário refazer completamente a humanidade... É sobre ressignificar esse pensamento deturpado da sociedade, de que ficamos ultrapassadas com a idade,  que  devemos lutar para desafiar o sistema e fazer acontecer. 

Liguem o alerta, queridas companheiras! Vamos mostrar a essa sociedade patriarcal que estamos lutando contra essa força maldita e não vamos nos calar! Já CONQUISTAMOS muito, mas precisamos “desenhar” o percurso para que possamos chegar ao topo.  

Será difícil atingirmos uma sociedade igualitária,  pois   vivemos em uma distopia marcada pelo preconceito, violência e opressão de gênero,  porém se unirmos forças e plasmarmos novos conceitos poderemos esvaziar muitos estereótipos e discriminações.

Foram infelizes as "novinhas"  que hostilizaram a universitária Patrícia Linares, pois creio que elas não sabem que  mulheres de 40 são "AS LOBAS", as que  sexualmente são bem resolvidas, têm no rosto as marcas das emoções sentidas e vividas, e  experiência suficiente para saber onde querem chegar, sem menosprezar as fases já passadas e as que irão passar com maturidade.

Pois é! Já passei dos 50, lancei meu  primeiro livro solo em 2022 e acredito que foi cedo,  pois sonhos  não tem idade. Quanto ao meu corpo, as pedras que encontrei pelo caminho moldaram-o a cada tempo vivido, acumulei com perfeição as experiências e vesti minha pele de elegância espiritual, trago as marcas das emoções sentidas e domino a arte de seduzir através da poesia, meus cabelos têm a cor da minha alma, deixei e continuo deixando pegadas por onde passo, pisando forte  no solo que plantei horizontes eu vou em busca dos meus objetivos, até enquanto sentir o sopro da vida, pois  MINHA IDADE NÃO ME DEFINE.

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Rilnete Melo é brasileira, maranhense, graduada em letras/espanhol, escritora, cordelista membro das academias ACILBRAS, ABMLP e AIML, participou de várias antologias nacionais e internacionais, autora do livro "Construindo Versos" e autora de cinco cordéis. 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

NA TRILHA DO FEMININO: UM AMOR DE VÉSPERA, POR RILNETE MELO



N A    T R I L H A    D O    F E M I N I N O|06

UM AMOR DE VÉSPERA

                                                                                                                  POR RILNETE MELO


Era véspera de Natal. Ela entrara na igreja com o pé direito e o lado esquerdo do cérebro pedindo que orasse para esquecer aquela paixão fulminante, que quase conseguiu abrir a armadura que ela usava desde o término do seu casamento. Ainda não havia deletado as últimas mensagens do WhatsApp e logo que sentou-se, abriu a pequena bolsa nude e retirou o celular para mais uma vez certificar-se da sua decepção.

Ali estavam as últimas palavras de Raí e o soco no estômago que Nely tomara naquela tarde em que tomava café, na cozinha do hospital, com os amigos de trabalho.

— Sabe Nely, nunca existiu... Você é maravilhosa, mas...

Naquele dia Nely saiu da mesa, deixando a fatia de bolo de abacaxi no prato (seu bolo preferido) e os sonhos de um novo relacionamento jogados no espaço. Correu para o quarto de repouso do hospital e abraçada ao travesseiro chorou, enxugou as lagrimas e falou baixinho pra si mesma que as lágrimas de hoje regariam o futuro de amanhã. Havia lido o livro “O segredo” de Rhonda Byrne e acreditava no poder do universo, costumava usar mantras e apostou no “Tenho tudo ao meu redor, se não foi com esse será com um melhor”.

Já havia se passado dois meses, acreditava que aquele momento na igreja iria lhe fazer bem, então deletou todas as mensagens e ajoelhou-se em oração. A igreja estava cheia, lá fora o céu estava carregado de nuvens cinzentas, mas fazia calor lá dentro e ela mudou para um banco próximo ao ventilador. Havia um clima de Natal por ali, luzes coloridas cintilavam no altar, adolescentes com gorros de papai Noel entoavam “Noite Feliz” regidas por um maestro que acenava a batuta em gestos mágicos, dando o ar da graça aos coristas. Crianças fantasiadas de duendes e outros personagens natalinos se agrupavam esperando a hora da apresentação no palco.

A igreja apresentava na sua arquitetura elementos decorativos de estilo neoclássico, tal como Nely que buscava superar o passado. A sensação era a de que algum espírito natalino, ou mesmo papai Noel poderia aportar por ali, pois tudo era mágico como nos cenários de filmes infantis.

Talvez tudo aquilo conseguiria apagar o acontecimento dos últimos dias, então resolveu entregar-se aquela magia e deixar a frustração para trás. Acomodou-se no banco e sorriu com entusiasmo para uma garotinha de cabelos cacheados e pele morena, que vestia um vestido vermelho de saia plissada, o que lhe fez lembrar de um episódio triste da infância, onde trajava uma roupa semelhante àquela, logo expulsou aqueles pensamentos, que lhe causara trauma e deu uma olhada no folheto da liturgia.

Nely observava o movimento dos fiéis na igreja e os casais que entravam de mãos dadas e por um instante pensou em Raí. Distraiu -se com um senhor vestido de papai Noel distribuindo presentes para as crianças que faziam a maior festa, logo despertou com a presença de um homem ao lado que lhe observava há bastante tempo. Ele cumprimentou-a, era simpático e educado e aparentava ter alguns tempos de vida a mais que ela, parecia ser solitário, pois durante o sermão do padre comentou que não gostava do Natal, uma vez que sempre comemorava sozinho. Nely ficou comovida, mas manteve-se calada.

O padre celebrou a missa, houve uma pequena peça teatral e a bênção final. Nely dirigia-se para a porta de saída quando o homem tocou em seu ombro e pediu o número do seu telefone. Ela hesitou, mas tomada por empatia e comoção cedeu. Já estava a caminho de casa quando espantou-se com a buzina de um carro, e aquele cavalheiro da igreja com toda gentileza lhe oferecendo carona. Estranhamente, mesmo sem conhecê-lo aceitou. Não se incomodou com os prováveis mexericos ou mesmo o receio do estranho. Abandonou-se ao carisma que emanava daquele sorriso fácil e foi. Ao entrar no carro, ele se apresentou, chamava-se Peter, era divorciado, economista aposentado e, como ela, era devotado de fé. Estava uma noite linda e a lua cheia, enamorando o firmamento, dava o ar da graça. No vidro do carro refletiam os pisca-piscas das lojas e residências, e o azul dos olhos de Peter refletia no retrovisor, roubando por vezes o olhar distante de Nely. Durante o percurso trocaram algumas palavras, e ela gostou do jeito culto, respeitoso e cheio de sabedoria com que ele dirigia o diálogo.

Saíram para um passeio na praia.

Nely era divorciada, casou-se jovem, criou os filhos sozinha, carregava consigo um certo ar de independência e resistência ao machismo e aos estereótipos impostos pela sociedade, porém percebia que a solidão não era sua boa companheira.

Gostou da companhia de Peter.

A orla marítima era bem distante do mar, mas dava para ouvir o barulho das ondas. A calçada colorida era harmônica com o azul do mar, havia uns quiosques rústicos e convidativos para um drink a dois. Caminharam por muito tempo e optaram por um boteco com cobertura de sapê, acabamentos coloniais e música ao vivo. Era pequeno e aconchegante, escolheram uma mesa de frente para o mar, havia pouca luz, apenas arandelas artesanais nas colunas e samambaias penduradas. A brisa tocava em Nely, como se acariciasse sua alma e sussurrasse em seu ouvido que para sentir é necessário fazer sentido.

A mão masculina tocou a sua e ela sentiu que o calor humano era bem melhor que o frio da solidão, embora gostasse da sua liberdade. Peter entregou o coquetel Sex on the beach em suas mãos e com a outra mão acariciou a nuca de Nely que sentiu um calor percorrer todo o seu corpo, dando-lhe a certeza que já estava enamorada. Ao som de How deep is your love de Bee Gees, os dois saíram para a pista de dança e os corpos colados encontraram os lábios, que sem entenderem que o céu é o limite, abandonaram as línguas no céu da boca.

Saíram os dois em direção ao mar. O sol já soltava seus primeiros raios. Vento e areia misturavam-se nos corpos abandonados, liberando endorfina. Ele apertou sua mão implorando que ficasse para sempre, ela respondeu baixinho: Nunca mais estarás sozinho, Feliz Natal!

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Rilnete Melo é brasileira, maranhense, graduada em letras/espanhol, escritora, cordelista membro das academias ACILBRAS, ABMLP e AIML, participou de várias antologias nacionais e internacionais, autora do livro “Construindo Versos" e autora de cinco cordéis. 

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

NA TRILHA DO FEMININO: O ARCO-ÍRIS

  


N A    T R I L H A    D O    F E M I N I N O|05

O ARCO-ÍRIS 


“Em todo adulto espreita uma criança – uma criança eterna, algo que está sempre vindo a ser, que nunca está completo e que solicita cuidado, atenção e educação incessantes. Essa é a parte da personalidade humana que quer desenvolver-se e tornar-se completa” (Carl Gustavo Jung).

A fala do psiquiatra Jung,   remete-nos a criança que mora em cada um de  nós e tudo que evidencia-se ao longo da nossa existência em decorrência da infância.  É dos eventos que vivenciamos nessa fase  da vida, que carregamos grande parte da nossa personalidade.

Quem não suspira ao lembrar do seu tempo de criança? Seja das alegrias,  dos momentos de fantasias, ou das tristezas e represálias...

Como disse “Casimiro de Abreu"  Oh! Que saudades que eu tenho da aurora da minha vida, da minha Infância querida que os anos não trazem mais...

Ah! O pé  no chão, as escaladas de árvores, os cordéis  lidos por minha avó , o cheirinho dos pratos deliciosos da minha mãe, os doces de pitanga,  o algodão doce no parque, as cantigas de rodas ao ar livre, as comidinhas de terra  e folhinha no quintal de casa, as minhas bonecas/filhas, os joelhos ralados,   os banhos de chuvas e nos igarapés, as pipas,  o peão rodopiando, o carrinho... A liberdade de ser menina/criança, de ter pureza, de ter um mundo de paz... A lembrança que carrego comigo é que era tudo mágico!

A magia existia, mas foi lá na infância que começou a se delinear os estereótipos, a separar cores, brinquedos, espaços... Eis então a contaminação da ideologia patriarcal.

E não é só por ai... A tecnologia chegou e a mídia e a publicidade infantil estão encurtando a infância feminina, através da erotização precoce e da adultização. Todavia, eu ainda cultivo minhas lembranças de uma infância de ingenuidade, feliz e romantizada, bem, como  por vezes, me vejo tendo comportamentos infantis. Como disse Clarice Lispector: “Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais”. 

E pegando carona nesse dia das crianças trago para vocês um texto da minha autoria:

O ARCO-ÍRIS

Quando eu era criança eu tinha as minhas crendices e fantasias; acreditava que havia um tesouro na extremidade do Arco-íris. Morava em um lugarejo, desses que não tem água encanada e nem  luz elétrica, mas a paz reinava por lá, onde eu era feliz à luz do luar e tomando banho com água de poço. Era lá que eu sonhava em um dia encontrar o meu tesouro!

- Certo dia, debruçada na minha janela, eis que surge no céu um Arco-íris.

- É hoje! É hoje! Vou alcançar o meu tesouro!

-Ah! O arco-íris, ele tem forma de escorregador (Eu pensei...). E se tivesse uma escada bem longa e eu subisse e escorregasse até a extremidade?... Mas, onde encontrar essa escada?

Desalentada, desisti da ideia e de repente meus olhinhos brilharam de alegria... Eu vi que a extremidade estava exatamente ali onde eu costumava brincar de cirandas com as amiguinhas, onde eu brincava de bonecas e jogava pedrinhas. Naquela calçada alta, onde eu ficava ouvindo a velha Iaiá contar suas estórias a luz do luar. Lá na calçada do Sr. Ribamar! Era alta! eu ia alcançar!

Corri cheia de esperanças pra pegar o meu tesouro, mas quanto mais eu palmilhava e esticava  meus passinhos mais o arco-íris se distanciava e as cores iam perdendo o seu fulgor... o arco-íris ia desaparecendo e com ele o meu sonho, o meu tesouro!

Meus olhos fotografavam aquele local, onde vi a extremidade do arco-íris. Aquele cenário explêndido, cheio de cores, não me saia do pensamento... Se o arco-íris estava ali tão próximo, porque não consegui alcançar o meu tesouro?

Quando cresci consegui entender que o arco celeste era apenas uma ilusão de ótica, mas  as cores, o fulgor e os sonhos, estavam realmente naquele local, alí onde eu brincava, onde eu ouvia as estórias da velha iaiá, onde eu cantava as cantigas de roda e acalentava bonecas, onde eu era criança... Ali onde estava a minha infância. O meu tesouro!

"A Infância é como o arco-íris, quanto mais palmilhamos, ela vai se distanciando e as cores e o fulgor vão desaparecendo.” (Rilnete Melo)

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Rilnete Melo é brasileira, maranhense, graduada em letras/espanhol, escritora, cordelista membro das academias ACILBRAS, ABMLP e AIML, participou de várias antologias nacionais e internacionais, autora do livro “Construindo Versos" e autora de cinco cordéis. 


sexta-feira, 16 de setembro de 2022

NA TRILHA DO FEMININO: AMAR - ELO QUE FAZ A COR DAR, POR RILNETE MELO


N A   T R I L H A   D O   F E M I N I N O|04

 AMAR - ELO QUE FAZ A COR DAR

Por RILNETE MELO


"Marisa,  26 anos, universitária, teve fotografias íntimas divulgadas pelo seu ex-namorado. A jovem terminou um relacionamento de 8 meses e  Túlio, seu parceiro inconformado, chegou a ameaçá-la de morte. Marisa fez o boletim de ocorrência face à ameaça e, então Túlio vazou as fotos da sua ex-amada nas redes sociais, em sites pornográficos e perfis falsos do Instagram.  Tal fato quase leva Marisa a tirar sua própria vida."

O relato acima é matéria de jornal e os nomes são fictícios,   mas a realidade sobre a exposição imagética feminina no ciberespaço é preocupante, pois tem levado muitas pessoas ao suicídio.


Pegando carona nesses meados de “setembro amarelo", eu faço uma breve reflexão sobre o assunto,  pois a violência contra as mulheres na Internet tem gerado uma onda de suicídio e tem me  incomodado muito. Há alguns meses, a filha “trans”  de uma amiga minha, sofreu bullying e injúria através de comentários em uma rede social, chegando a cortar os pulsos.  Outra filha de uma conhecida,  teve um vídeo intimo viralizado no ciberespaço e tentou envenenar-se com medicamentos.... São muitos os casos!  Vamos fazer valer a campanha de prevenção ao suicídio que visa a conscientização sobre esse grave problema e formas de evitá-los. Fiquemos atentas para o sinal de alerta e vigiai o espaço virtual!

Sou consciente que  existe uma dificuldade de controle das novas tecnologias,  mas convenhamos que a existência de leis, como a  13.718/18 que tipifica crime de divulgação de imagens, não é uma condição para erradicação desses e outros crimes que acontecem no universo virtual feminino, pois o patriarcado machista não nos exime sequer das violências fisicas/domésticas. O que se observa é que o estigma de inferioridade e subordinação social da mulher é gritante nesse tipo de violência, e tal crime configura difamação,  violência psicológica e injúria. O que se recebe como bônus é simplesmente a retirada do conteúdo do provedor, e uma pena (se tiver) de doação de cestas para o agressor, mas a dor da vítima permanece, o estrago na honra e na alma é irreparável  e a mente fraca...  ah! Essa  é  capaz de apagar o brilho do sol!

Estejamos atentas queridas leitoras, Mães,  adolescentes,  jovens mulheres ou qualquer gênero que possa sofrer esse tipo de violência, pois a vulnerabilidade do ciberespaço é algo extremamente perigoso.

Tenho um perfil no Facebook com mais de 4.000 seguidores, por ser escritora, às vezes aceito solicitações de perfis masculinos, com interesse em comum (literário), porém já sofri vários assédios provenientes de postagem de uma simples foto da minha imagem. Ou seja, não posso me dar ao luxo da prática da auto estima? Simplesmente porque sou mulher? Sei que pode existe crimes cibernéticos contra a figura masculina, mas os maiores índices de crimes praticados no ambiente on-line são contra nós mulheres, o que tem nos levado a uma grande  insegurança ao navegarmos no ambiente virtual, onde somos vítimas de uma misoginia desenfreada.

E falando de misoginia, eu já cheguei a uma conclusão que a  Vagina é o órgão mais poderoso desse universo. Sim!  Uma simples anatomia do corpo  é capaz de trazer desigualdades, revolta, insegurança,  agressividade e por aí vai... Como bem disse Simone de Beauvoir “Ninguém, na frente das mulheres,  é mais arrogante, agressivo e desdenhoso do que o homem inseguro da sua própria masculinidade.”

É  hora de darmos um basta nessa  violência sem limites que está interrompendo vidas. Vamos tirar da teoria a   sororidade, vamos nos dar as mãos,   unir forças e lutar para fazer valer a lei ‘Carolina  Dieckmann" e muitas outras que dormem nos arquivos dos tribunais. É hora de soltar a voz, seja através da poesia, música  ou qualquer meio de comunicação e/ ou movimentos coletivos.

O nosso blog “Feminário Conexões” é um dos grandes aliados nessa luta, pois tem sido um importante espaço virtual para deixar ecoar esse grito, uma espécie de  carinho no que se refere  às  causas femininas, onde, através da poesia,  crônicas  contos e outros textos, temos abordados assuntos que traçam rotas, estratégias e articulações em torno das questões que dizem respeito às nossas vivências e pautas enquanto mulheres.  

De acordo com o relatório da Febrasgo (Federação brasileira de ginecologia e obstetrícia), o número de suicídios femininos no Brasil cresceu de 45,7% entre 2009 e 2021 e muitos desses casos foram provenientes de crimes cibernéticos. E essa dor é nossa. Essa dor é minha, pois veste a minha pele e aperta minha alma,  e embora com um misto de insegurança e impotência, eu grito e não desisto. A poesia é minha arma,    pois como escreveu Gabriel Celaya  em “ Cantos Íberos”: “A poesia é uma arma carregada de futuro”. É através da poesia que ouço meus ecos e mato os meus demônios todos os dias. A dor do suicídio sangra nas minhas entranhas,  pois já andou rondando a minha vida... Eu considero-me uma mulher gigante, embora com 1,50m de altura e uma dismetria na perna direita, eu me apoio na “esquerda”  e sigo pisando as pedras no meio do meu caminho. É sem papas na língua que alcanço essa realidade que me inquieta. Eu solto o verbo no papel por todos, todas e todes que sofrem com esse caos e essa barbárie que caminha o nosso país nesse desgoverno misógino, racista e que tenta cercear a nossa liberdade de expressão.

O momento é de expungir essa sociedade de “machos" e fazer um apelo aos  que transitam no nosso espaço presencial e virtual: Expulsem de vocês essa insanidade do patriarcado machista, tornem-se homens elegantes e lembrem-se que pelo sacrifício divino viestes ao mundo através de uma mulher, portanto deixem-nos viver em paz. Deixo para alguém, que  em algum momento possa ter tido um pensamento suicida o Poema “Eco", de minha autoria:


ECO


Presa no porão escuro

das dúvidas atormentadas,

quando em desatino

desatei o nó em palavras

desfiz  o suicídio...

 

Na ponta do lápis

o socorro em tessitura

Agarrou o papel

 

Com as lágrimas do ontem

E o pó da agonia ,

Eu fiz meu café

ferver na poesia,

Exalando o socorro

dos dias pósteros

Em que transcorria

 

Não sei em qual tempo

(Talvez setembro...)

Amarelo

Tempo que não nego

Ao ouvir em meus versos

Quase em decesso


A voz

Numa  rima atrevida

Em eco:

Vida

Vida

Vida

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quarta-feira, 7 de setembro de 2022

NA TRILHA DO FEMININO: 0 GRITO FEMININO NA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL, POR RILNETE MELO



N A   T R I L H A   D O   F E M I N I N O|03

 0 GRITO FEMININO NA INDEPENDÊNCIA  DO BRASIL


Por RILNETE MELO


              Era final de outono na Bahia, o sol começava a se esconder ao longe, no horizonte da estrada de terra batida da fazenda Itapororoca. Pelo caminho uma dupla prosseguia a pé, cantando o refrão: “Pelo bem dessa nação/ pela terra e pelo pão /independência na cabeça e amor no coração” ... Era Quitéria e seu cunhado soldado Medeiros que voltavam de mais um dia de caça. Durante todo o percurso matutava na cabeça de Quitéria a ideia de ingressar no exército, e assim como José Medeiros lutar pela independência do seu país, bem como dar um basta nessa ideologia de desigualdade de gênero. Naquele dia, ao chegar em casa, tirando o casaco suado, pendurando o canil no armador da rede, exibindo o cinturão com algumas munições e a espingarda que lhe descia quadril abaixo, ela batia na mesa dando socos e em voz alta gritava: Eu vou amanhã naquele quartel! Nem que eu tenha que fugir de casa! Ah! Juro que eu vou!

Na semana anterior, um emissário do governo havia ido à casa do pai de Quitéria com o objetivo de convocar voluntários para o combate libertário. O velho Gonçalves disse que não tinha nenhum filho para enviar à guerra e que deixassem ele em paz. Escondida atrás da porta Quitéria ouvia todo aquele blá blá blá com paixão, curiosidade e o peito de mulher guerreira batendo descompassado, ardendo de vontade de dizer que ela ia, e pensava; Ah! Como eu queria ser homem nessa hora!

Mas, desgarrando-se do modelo de família cristã burguesa, tendo conhecimento de que seus hormônios femininos não tiravam seus atributos de inteligência e criatividade, teve um insight brilhante!

—Tetê! Eu vou me apresentar no exército brasileiro amanhã! - disse Quitéria.

—Você enlouqueceu menina? No exército não aceita mulher, sem esquecer que nosso pai jamais aceitará essa sua decisão. - retrucou Tereza

Tetê, como Quitéria chamava sua irmã mais nova, fora cuidada por ela desde que sua mãe havia falecido lhe deixando com 10 anos de idade, dois irmãos e uma irmã para cuidar.  A vida não fora fácil para Quitéria depois que sua mãezinha foi morar no céu, pois sua madrasta não aceitava esse seu espírito independente, com sede de emancipação e quebra de tabus. E nessa lengalenga ela cresceu, ouvindo que mulher nasceu para bordar, tecer, fiar, cozinhar e cuidar da casa e do marido. O tempo passou, Tereza casou-se com José Medeiros e Quitéria permaneceu solteira, não teve oportunidade de estudar, mas de caça, pesca, montaria, armas e anseio de autonomia... ah! ela entendia até demais!

Naquele dia, Quitéria tinha ido até a casa da irmã para lhe falar de um plano de fuga, pois soube que seu pai ia fazer uma viagem de negócios.

— Minha irmã! Eu tive uma ideia genial! posso contar com sua ajuda? – falava Quitéria entusiasmada. – Vou cortar meu cabelo igualzinho ao de um homem, vou fugir de casa e me alistar no regimento da artilharia, mas preciso que você me empreste uma roupa do Medeiros. Tereza ficou estatelada com aquela atitude da irmã, mas não podia negar seus favores àquela que sempre cuidara dela como se fosse sua mãe:

— Oxe Mainha! inté eu fiquei com vontade de ir! Não fosse o Zé e as crianças eu ia também! – disse Tereza

— Pois ande logo que eu tô avexada! Me empresta o uniforme do Zé que hoje eu vou usar seu codinome e vou ser Soldado José de Medeiros e ninguém me segura!

Esse era o maior desejo de Quitéria, pois seus ideais estavam bem longe do patriarcado machista imposto pela sociedade.   Com a necessidade de legitimar suas inquietações, agora se dirigia até a barbearia do velho Quincas para a transformação...

Então, decidida a tomar o passo mais importante da sua vida, adentrou a barbearia, dando um tapinha no ombro do Quincas, pediu que deixasse suas madeixas com um corte masculino daqueles bem militar. O velho barbeiro esbugalhou os olhos - sem entender nada - disse-lhe apenas que iria cumprir o seu papel, mas sabia que aquele feito não seria do agrado do seu pai, pois ele conservava suas filhas no âmbito doméstico, limitando o seu espaço feminino e os costumes sociais.

— Pois assunte bem Sr. Quincas! Eu não vou seguir à risca esse papel social imposto pela sociedade, e aproveitando que meu pai viajou, hoje eu vou me alistar no exército e não ouse dar com a língua nos dentes.

Cabisbaixo, sem saber a quem obedecia, mas com a ética absoluta de um bom profissional, Quincas prometeu sigilo à menina Quitéria, que agora, deixando aquele recinto em busca do jogo da vida que lhe tornaria mais feliz, sacodia os últimos fios de cabelos que teimavam em agarrar-se à sua nova pele. Um vento de reforma profunda soprava seu rosto e descia entre a abertura do uniforme, indo até o seio arfando, apertado pela faixa que tirava a protuberância feminina, dando vazão a sua autonomia e ao seu desejo incansável de luta.

As botinas eram pesadas; mas nos pés de Quitéria pareciam travesseiros de plumas. A calça folgada escondia as belas curvas e davam-lhe segurança no disfarce da sua nova identidade. A aba do quepe sobre os olhos não conseguia esconder o brilho que afugentava suas retinas, os passos acelerados iam de encontro ao batalhão “Regimentos de artilharia”, onde o sonho de lutar pela independência do brasil e a sua emancipação, ia se concretizar. Era manhã de sol forte, a rua estreita que dava acesso ao quartel agora parecia agigantar-se. Somente vira assim, a estrada densa da floresta, a mira na sua caça e o sonho de conquistar sua própria independência.

Quitéria pensava em tudo que deixaria para trás, o seu cavalo de boa montaria, as manhãs de pesca, os tiros ao alvo... e o perdão do seu pai. Não via agora com os olhos do corpo e sim com os olhos da alma lutadora e forte. Pouco conhecera da vida da cidade, mas o que ouvia sobre o laço colonial que existia entre Brasil e Portugal era suficiente para romper os obstáculos que encontrasse até chegar àquele quartel. A fila para alistamento estava grande, mas grande mesmo era a vontade de romper a fronteira predominantemente machista e poder ter sua contribuição na sociedade.

— Nome?  José da Silva Medeiros. - Goza de boa saúde? Sim senhor! – Promete honrar o seu compromisso com a pátria? Sim senhor! – Quitéria respondia a todas as perguntas sentindo que estava atendendo aos critérios militares. No início tudo estava sob o controle e seu sexo não foi reconhecido, mas passado algum tempo, seu velho pai, por desforra à sua fuga, revelou ao oficial comandante a sua verdadeira identidade. O saiote estilo escocês de Quitéria, customizado por suas delicadas mãos, deu o ar da graça em infinitas batalhas a favor da independência, afogando o machismo, que agora ficava embaixo do que vestia o seu ego, quebrando barreiras e mostrando a força da mulher.

Era manhã de verão no Rio de Janeiro, o sol trazia os primeiros raios, que entravam pela janela do quartel iluminando o diploma na parede dos aposentos do capitão do Batalhão do Imperador, que agora fumava seu charuto e descansava suas belas e torneadas pernas, após devorar um prato de farofa de ovo com bacon, tomate e cebola, preparado por suas mãos, graças aos seus dotes femininos...

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Rilnete Melo é brasileira, maranhense, graduada em letras/espanhol, escritora, cordelista membro das academias ACILBRAS, ABMLP e AIML, participou de várias antologias nacionais e internacionais, autora do livro “Construindo Versos" e autora de cinco cordéis. 

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

NA TRILHA DO FEMININO: O PERFIL FEMININO NOS CONTOS DE FADAS, POR RILNETE MELO

 


N A   T R I L H A   D O   F E M I N I N O|02

O PERFIL FEMININO NOS CONTOS DE FADAS 

Desde pequenina sempre gostei do universo literário, amava   ouvir, e quando alfabetizada gostava de ler os contos de fadas. Ficava encantada com aquele mundo mágico, e viajava com os clássicos de Perrault e dos irmãos Grimm, onde a fantasia rolava solta, mas rolava solto também na minha instigante meninice, um sentimento de piedade pela figura feminina. As vezes em meus pensamentos pueris eu me questionava; Por que a Cinderela, a Bela Adormecida, a Branca de Neve e muitas outras princesas, tinham sempre que sofrer? Só porque eram meninas?

Ah! Essas narrativas fantasiosas! Elas simplesmente reproduziram para as nossas crianças os estereótipos femininos impostos pela sociedade patriarcal, subsidiando a supremacia do homem sobre a mulher, criando nas inocentes cabecinhas uma atmosfera de subserviência feminina, condicionando os pequeninos a assumirem comportamentos e papéis tidos como corretos... Ou politicamente corretos? ...Sei lá!

O que eu nunca entendi é porque, a figura do homem nos contos de fadas, é sempre super heroica, sempre forte, linda e corajosa, uma figura capaz de trazer libertação e o famoso “Felizes para sempre”. Foi ouvindo e lendo os contos de fadas que, por alguns anos, dei abrigo aos modelos femininos, que eu acreditava que deveria seguir.  Por vezes cheguei a me imaginar sendo a Cinderela, aquela figura dócil, submissa, prendada e virtuosa. Encantava-me por aquela princesa, incapaz de ter comportamentos rebeldes. Acreditava que para ser feliz, a mulher necessitava ser passiva e esperar a fada madrinha (destino, sorte, forças externas) lhe guiar até o seu príncipe, que seria a sua tábua de salvação, a sua libertação.

Ledo engano! Perfil bloqueado 🚫

Cresci, e através das minhas vivências e experiências sociais e culturais, desmistifiquei a varinha mágica da fada madrinha, desfiz enganos, livrei-me dos mitos, ressignifiquei o mágico mundo punitivo e restritivo, imbuído nos clássicos infantis.  

Vigiai mulheres/princesas! Saiam do reduto!

Não sejamos Branca de Neve monitorada por sete anões, esperando o príncipe encantado.  Não sejamos a Bela adormecida, num estado de letargia emocional e social ou a Gata borralheira esquentando a barriga no fogão. O terceiro milênio exige que estejamos sempre na defensiva, de olhos bem abertos, pois o príncipe virou sapo e anda dando no nosso saco. O feitiço? ah!  Esse só se desfaz com nossa pretenciosa e audaciosa magia de ser bruxa, à frente do nosso tempo.

Em “Mulheres que correm com os lobos” de Clarissa Pinkola Estés, ela aborda essa desmistificação do mito e do conto de fadas e traz essa restauração da psique feminina, deturpada pelos contos de fadas. Estamos sempre fugindo dos lobos, né isso? Nessa sociedade patriarcal violenta, somos a representatividade do chapeuzinho vermelho.  Através do livro de Clarissa Pinkola, é possível ver a mulher emergindo do condicionamento cultural e transformando-se em lobas corajosas e empoderadas.  Eu recomendo!

Se faz necessário uma análise desses elementos que deturpam a mente das nossas crianças,  pois eles residem em uma realidade humana arquetípica, onde se constitui oponentes comportamentos entre os seres humanos, ou seja, a figura masculina é sempre dominante e a feminina passiva ou recalcada, tais determinantes estão bem longe da igualdade de gênero,  da igualdade social e política, tão almejada por nós mulheres, e que ao meu ver, seria o ápice que  levaria ao desenvolvimento em todas as esferas da sociedade. Em meio a esse machismo orquestrado por esse (des)governo nefasto e fascista, temos que reagir, lutar e levantar a bandeira do feminismo, para que não possamos cair em alguma página dos clássicos contos de fadas.

E por falar em luta, feminismo e conto de fadas, lembrei-me de um fato que me aconteceu certa vez. Estava eu e uma amiga em um café num shopping, em uma conversa bem informal, de repente ela me pergunta:  Rilnete, você é feminista?  E claramente respondi; Sou! Por quê? Você, não é?  Ela timidamente respondeu; ah! Sou muito ligada no tradicionalismo, tudo certinho, sabe. Como assim colega? Você é conservadora?  Não luta por seus direitos? Você não gostaria de ter um salário justo e equitativo? Não gosta de fazer suas escolhas com relação às suas roupas e seu corpo?... E claro, lógico que a resposta foi afirmativa!  Ela corou, abriu a boca em gesto de espanto e falou: Meus Deus! Descobri nesse momento que sou feminista!

Perfil desbloqueado com sucesso

Algumas pessoas ainda tem uma visão equivocada sobre o feminismo, acreditam  que ser feminista é ser  agressiva, ter aversão a homem, querer ser superior ... E por aí vai!

O feminismo é plural gente! A luta é de todos, todas e todes! Feminismo favorece homens,  mulheres,  trans, e independe de orientação sexual , pois  o feminismo discute gênero, classe, raça e  sexualidade. Não se trata de  uma ideologia, é uma luta, uma análise, uma desconstrução. 

Me descobri feminista desde que fui molestada por um padre aos 9 anos de idade, claro que sempre foi na linha do feminismo branco, mas de "Menina Capricorniana virei “Mulher Leão” e sai brigando por meus direitos, por minhas escolhas e pelas dores que não eram só minhas. Através da poesia, das crônicas e dos textos, mergulhei fundo nas minhas inquietações femininas. Sempre repudiei o conservadorismo e o comportamento ilibado, regido por padrões machistas, então tomei como verdade que o feminismo é só um movimento em defesa da igualdade de gênero, contra os comportamentos misóginos, simplesmente uma luta em prol de todas/os/es.Trata-se apenas de um desejo emancipatório, de uma fuga desse arquétipo, desse perfil de boa donzela, exaustivamente replicado desde os famosos e clássicos contos de fadas.

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Rilnete Melo
Foto do arquivo pessoal

Rilnete Melo é brasileira, maranhense, graduada em letras/espanhol, escritora, cordelista membro das academias ACILBRAS, ABMLP e AIML, participou de várias antologias nacionais e internacionais, autora do livro “Construindo Versos" e autora de cinco cordéis. 

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