domingo, 8 de março de 2026
O DIA INTERNACIONAL DA MULHER
segunda-feira, 22 de dezembro de 2025
62 ANOS ! (SOBRE)VIVER É UM ATO POLÍTICO
"Escrevo porque a palavra sempre foi minha ferramenta de sobrevivência."
Hoje completo 62 anos. Entrego minha idade com velas mágicas e com o corpo inteiro aceso. Celebrar a minha vida como mulher, neste país onde mulheres são interrompidas diariamente, é um gesto que carrega peso histórico, ético e político.
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| Arquivo da autora |
Enquanto escrevo esse texto, penso nas Tainaras, Isabelas e milhares de outras que não chegaram até aqui. Penso nas mulheres cujos aniversários foram silenciados pelo feminicídio, essa chaga social que o sistema não consegue encontrar a cura, e que lobos disfarçados de cordeiros romantizam dizendo ser adquirida do amor e do ciúme, mas que na verdade ela existe simplesmente pelo fato de sermos mulheres, pelo ódio, pelo controle exercido pelo patriarcado e pela certeza de que nossos corpos são territórios de posse. Na verdade, a culpa é do machismo estrutural que disfarça de homicídio os crimes misóginos.
Simone de Beauvoir já nos alertava que não se nasce mulher, torna-se, isto é, aprende -se a ser mulher dentro de um sistema patriarcal que impõe normas, papéis e silenciamentos. Muitas mulheres são brutalmente interrompidas não por não alcancarem esse "tornar-se ", mas por desafiarem ou não se ajustarem às expectativas que lhes são impostas.
Para uma mulher que chega aos 62 anos, num país que ocupa a quinta maior taxa de feminicídio do mundo, é atravessar um campo minado com passos insistentes. É ter sido menina afetiva e tímida, adolescente intensa e romântica, sem imaginar que ser mulher é ser subjugada, objetificada e coagida. É ter acreditado no amor, lutado em meio a um casamento abusivo e ainda ter se reinventado como mãe solo, leoa, colo, sustento e abrigo.
Minha história pessoal não está dissociada da história coletiva das mulheres. Como escreveu Bell hooks, o amor, para nós, nunca foi neutro, ele sempre precisou ser reaprendido fora da lógica da dominação.
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| Arquivo da autora |
E hoje eu celebro meu aniversário escrevendo com prazer, como mulher e como escritora, porque escrevo com o corpo que amou, viveu, perdeu e resistiu. Escrevo porque a palavra sempre foi minha ferramenta de sobrevivência. Audre Lorde dizia que transformar o silêncio em linguagem e ação é um ato de coragem. E eu escrevo para fazer barulho, porque sei que o silêncio mata e não apenas metaforicamente.
O feminicídio não é um desvio de conduta individual. É o ponto extremo de uma cultura que naturaliza a violência contra mulheres, que relativiza agressões, que pergunta “o que ela fez?” em vez de perguntar “por que ele matou?”. Djamila Ribeiro nos lembra que não existe neutralidade quando a estrutura é desigual. Celebrar minha vida hoje, aos 62, é também denunciar essa estrutura.
Minha existência é prova, minha maturidade é prova e minha escrita é o carimbo.
Cada ruga que carrego não é sinal de desgaste, mas de permanência, de permanecer viva, lúcida e criativa, escrevendo sobre o feminino num mundo que insiste em nos apagar.
Isso para mim é uma forma de insurgência.
Hoje não celebro apenas mais um ano de vida, celebro o direito de continuar, celebro as mulheres que vieram antes de mim e abriram caminhos, celebro as que caminham comigo. E como ser humano sinto os rasgos na minha pele com indignação e compromisso por todas as que não (se)ssentaram e sim ficaram com os corpos estendidos ao chão.
Que minha voz aos 62, ecoe como denúncia e manifesto. Porque enquanto uma mulher for morta por ser mulher, nenhuma de nós estará inteira. E ainda assim estamos aqui:
Escrevendo, vivendo e resistindo.
FEMINICÍDIO
Matam em casa todo dia uma mulher!
A voz sufocada
Pincelada de sangue
Reside nas paredes
Ecoa na sala o noticiário
Agredindo os tímpanos
Na surdez da lei
Tudo é corriqueiro
Mas a dor velada das Marias
Rasga a minha pele
E do meu verso perplexo
Arranco o silêncio
Enterrado no sexo
E eu grito na poesia :
Basta! O machismo já fede!
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| Arquivo da autora |
quarta-feira, 22 de novembro de 2023
NA TRILHA DO FEMININO: LARGADA DOMÉSTICA, DE RILNETE MELO
Era uma segunda-feira, dessas do tal calorão de 39° que quase fritava meus miolos e fritava também ovo no asfalto, dessas em que o dia branco, na verdade foi cinza; Do bombril impregnado nas unhas, pó de casa varrida no pé e massa cinzenta pensando debaixo do chuveiro: Tenho que fazer isso, depois isso, amanhã aquilo... E eternamente isso!
Exausta, depois de me virar nos 30, marido já dormindo, ponho um cafezinho na xícara, destravo o celular para escrever alguma coisa, embora com o corpo pedindo arrego, a mente ainda escrevive! Passeio pelo Instagram e vejo, enfeitando o feed viralizado, o tema da redação do Enem 2023: “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”.
Mas o comentário que me desafiou a escrever essa crônica foi lançado para mim em um post recente, quando ainda nem tinha ideia do tema da redação e já abordava exatamente sobre a invisibilidade do papel da mulher desde os tempos mais remotos até os dias atuais, que é cuidar, amar, cuidar... E no profícuo ofício de cuidar, mendigar amor! E o famigerado machista, agora já deletado do meu perfil e denunciado, de pronto comentou: “Se você conseguir descarregar caminhão, trocar pneu de jamanta e emboçar parede, pra senhorita eu dou “A taça cacete", (me diz aí quem não soltaria as cachorras??).
Saiba muito bem, pai da Santa ignorância e do olho cego, que se tivesse olimpíadas para o trabalho doméstico, não haveria taças para tantas vencedoras! Dada a largada, a categoria “Excesso de cuidados" subiria ao pódio ao som de uma “Ave Maria", pois, no silêncio rotineiro da mulher, o cuidado doméstico soa como uma música piedosa que é (in)visível, embalando as protagonistas nos bastidores do cotidiano.
Na sociedade capitalista, a relação de poder do homem em detrimento da mulher, ouço dizer que se “dá(va) “?? pelo fato do homem ser responsável pela renda familiar, mas o mercado de trabalho foi aberto para as mulheres e a conta ainda não fechou, pois agora é dobradinha:
“Trabalho e cuidados".
A verdade é que, em pleno século XXI, a mulher ainda é o “anjo do lar”, e que anjo!! Carrega nas asas o peso do trabalho dobrado, dentro e fora de casa, no sonho de alçar voo rumo à igualdade de gênero e à equidade.
“Desde que me lembro de ser gente, lá em casa, quem dobrava os lençóis da cama era eu, minhas irmãs ou mamãe", porque isso era serviço de mulher! Isso tem mais de meio século e os lençóis ainda não chegaram nas mãos dos homens, pois eles não sabem dobrar as pontas iguais, afinal, de igualdade o universo masculino nada quer saber, né? E se sabe, ainda pergunta onde fica.
Lembro que minha avó costurava, fazia crochê, consertava guarda-chuvas, fazia a comida, varria a casa, passava a roupa no ferro de brasa, e fazia e fazia, e ainda ajudava meu avô a plantar e colher, botava a comida dele na mesa e, no final do dia, ele pedia o lençol para dormir, pois não sabia onde estava... Será que lembrava de agradecer?. Fala sério, mudou alguma coisa? Um tantinho? Nada? Coisa nenhuma?
Conquistamos sim, quebramos alguns tabus e estereótipos, como o direito ao voto e ao trabalho desigualmente remunerado, mas há um trabalho (cuidado) eterno que continua invisível, o status quo “gestão do lar”, sempre na manutenção das condições observadas.... Casa varrida, roupa lavada, fralda trocada, mamadeira pronta, comida no prato, cama arrumada... Na verdade é uma verdadeira “Largada doméstica” apenas com ponto de partida.
E aqui eu deixo um poema de minha autoria para que possamos refletir sobre nossa saúde mental, sobre o excesso de cuidados para com o outro e das situações estressantes às quais nós mulheres estamos mais propensas e sem reconhecimentos.
LARGADA DOMÉSTICA
Lambeu o chão,
esticou a língua
ao sal
e correu para a panela,
como sempre correu contra o
tempo.
Cozinhou os sonhos,
o prazer,
a vida.
- Do menu servido
no prato cotidiano -
a carne parida,
o amor ofertado,
e o reconhecimento
ao molho.
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quarta-feira, 15 de março de 2023
NA TRILHA DO FEMININO: MINHA IDADE NÃO ME DEFINE, POR RILNETE MELO
Dá uma coceira no meu cérebro quando vejo circulando na mídia assuntos que ferem a figura feminina. "ETARISMO", "IDADISMO", "AGEÍSMO", nada além de denominações para um preconceito patriarcal antigo. Sim! Um preconceito que coloca no "congelador social" exclusivamente as mulheres, pois eu senti na pele esse bullying nefasto ao entrar na faculdade depois dos 40 anos, enquanto havia, na mesma sala, homens de 50, com os ouvidos virgens eu ouvia: "Nossa! Você dessa idade fazendo faculdade!" ou "Você já tem mais de 40, mas nem parece!"... Esses comentários, embora disfarçados de "boas intenções", vinham carregados de preconceitos, pois eu era excluída dos grupos das "novinhas" nas apresentações acadêmicas, entre outros eventos, ficando nos grupos dos que se aproximavam da minha idade.
Quem nunca ouviu: "menina, você já está na idade de casar!", (Eu casei aos 27 anos) ou "você foi mãe muito tarde!" (Fui mãe aos 28 e aos 31)... Tempo limite imposto por uma sociedade machista! Está arraigado
na memória da sociedade, mas é tempo de dar um basta nessa intolerância que
supervaloriza a juventude de uma mulher. Homem coroa é um charme, se casar com novinha é elogiado por sua
virilidade, mas se mulher coroa casa com novinho é uma ridícula, assanhada e por
aí vai... É hora de combater esses
estereótipos e mostrar ao mundo que envelhecer faz parte do ciclo natural da
vida e não amputa a nossa capacidade de criar,
de ser, de viver, de lutar por nossos objetivos e fazer o que a gente
quiser!
Há alguns dias postei uma "geladinha" na mesa de um bar e não me faltaram comentários: "Você ainda bebendo?", cuidado! Hein?"
Que é isso? Homem com 60 pode, né? Calma!! Eu não estou passada, o viço não morre, as vontades não cessam e quando meu corpo sinalizar o alerta, serei suficientemente madura para canalizar meus limites. Acredito que meu espírito só envelhece se eu permitir, e não vou aceitar o desrespeito, o desprezo, os estigmas e as humilhações que minhas rugas possam vir lhe causar. As minhas limitações serão autoimpostas por minha necessidade de controle.
Na obra "A velhice " , Simone de Beauvoir propõe que uma pessoa não deve se aproximar do fim da sua vida de mãos vazias e solitárias , mas que para isso é necessário refazer completamente a humanidade... É sobre ressignificar esse pensamento deturpado da sociedade, de que ficamos ultrapassadas com a idade, que devemos lutar para desafiar o sistema e fazer acontecer.
Liguem o alerta, queridas companheiras! Vamos mostrar a essa sociedade patriarcal que estamos lutando contra essa força maldita e não vamos nos calar!
Já CONQUISTAMOS muito, mas precisamos “desenhar” o percurso para que possamos
chegar ao topo.
Será difícil atingirmos uma sociedade igualitária, pois vivemos em uma distopia marcada pelo
preconceito, violência e opressão de gênero,
porém se unirmos forças e plasmarmos novos conceitos poderemos esvaziar
muitos estereótipos e discriminações.
Foram infelizes as "novinhas" que hostilizaram a
universitária Patrícia Linares, pois creio que elas não sabem que mulheres de 40 são "AS LOBAS", as
que sexualmente são bem resolvidas, têm
no rosto as marcas das emoções sentidas e vividas, e experiência suficiente para saber onde
querem chegar, sem menosprezar as fases já passadas e as que irão passar com
maturidade.
Pois é! Já passei dos 50, lancei meu primeiro livro solo em 2022 e acredito que foi cedo, pois sonhos não tem idade. Quanto ao meu corpo, as pedras que encontrei pelo caminho moldaram-o a cada tempo vivido, acumulei com perfeição as experiências e vesti minha pele de elegância espiritual, trago as marcas das emoções sentidas e domino a arte de seduzir através da poesia, meus cabelos têm a cor da minha alma, deixei e continuo deixando pegadas por onde passo, pisando forte no solo que plantei horizontes eu vou em busca dos meus objetivos, até enquanto sentir o sopro da vida, pois MINHA IDADE NÃO ME DEFINE.
sexta-feira, 23 de dezembro de 2022
NA TRILHA DO FEMININO: UM AMOR DE VÉSPERA, POR RILNETE MELO
Era véspera de Natal. Ela entrara na igreja com o pé
direito e o lado esquerdo do cérebro pedindo que orasse para esquecer aquela
paixão fulminante, que quase conseguiu abrir a armadura que ela usava desde o
término do seu casamento. Ainda não havia deletado as últimas mensagens do
WhatsApp e logo que sentou-se, abriu a pequena bolsa nude e retirou o celular
para mais uma vez certificar-se da sua decepção.
Ali estavam as últimas palavras de Raí e o soco no
estômago que Nely tomara naquela tarde em que tomava café, na cozinha do
hospital, com os amigos de trabalho.
— Sabe Nely, nunca existiu... Você é maravilhosa,
mas...
Naquele dia Nely saiu da mesa, deixando a fatia de
bolo de abacaxi no prato (seu bolo preferido) e os sonhos de um novo
relacionamento jogados no espaço. Correu para o quarto de repouso do hospital e
abraçada ao travesseiro chorou, enxugou as lagrimas e falou baixinho pra si
mesma que as lágrimas de hoje regariam o futuro de amanhã. Havia lido o livro
“O segredo” de Rhonda Byrne e acreditava no poder do universo, costumava usar
mantras e apostou no “Tenho tudo ao meu redor, se não foi com esse será com um
melhor”.
Já havia se passado dois meses, acreditava que aquele
momento na igreja iria lhe fazer bem, então deletou todas as mensagens e
ajoelhou-se em oração. A igreja estava cheia, lá fora o céu estava carregado de
nuvens cinzentas, mas fazia calor lá dentro e ela mudou para um banco próximo
ao ventilador. Havia um clima de Natal por ali, luzes coloridas cintilavam no
altar, adolescentes com gorros de papai Noel entoavam “Noite Feliz” regidas por
um maestro que acenava a batuta em gestos mágicos, dando o ar da graça aos
coristas. Crianças fantasiadas de duendes e outros personagens natalinos se
agrupavam esperando a hora da apresentação no palco.
A igreja apresentava na sua arquitetura elementos
decorativos de estilo neoclássico, tal como Nely que buscava superar o passado.
A sensação era a de que algum espírito natalino, ou mesmo papai Noel poderia
aportar por ali, pois tudo era mágico como nos cenários de filmes infantis.
Talvez tudo aquilo conseguiria apagar o acontecimento
dos últimos dias, então resolveu entregar-se aquela magia e deixar a frustração
para trás. Acomodou-se no banco e sorriu com entusiasmo para uma garotinha de
cabelos cacheados e pele morena, que vestia um vestido vermelho de saia
plissada, o que lhe fez lembrar de um episódio triste da infância, onde trajava
uma roupa semelhante àquela, logo expulsou aqueles pensamentos, que lhe causara
trauma e deu uma olhada no folheto da liturgia.
Nely observava o movimento dos fiéis na igreja e os
casais que entravam de mãos dadas e por um instante pensou em Raí. Distraiu -se
com um senhor vestido de papai Noel distribuindo presentes para as crianças que
faziam a maior festa, logo despertou com a presença de um homem ao lado que lhe
observava há bastante tempo. Ele cumprimentou-a, era simpático e educado e
aparentava ter alguns tempos de vida a mais que ela, parecia ser solitário,
pois durante o sermão do padre comentou que não gostava do Natal, uma vez que
sempre comemorava sozinho. Nely ficou comovida, mas manteve-se calada.
O padre celebrou a missa, houve uma pequena peça
teatral e a bênção final. Nely dirigia-se para a porta de saída quando o homem
tocou em seu ombro e pediu o número do seu telefone. Ela hesitou, mas tomada
por empatia e comoção cedeu. Já estava a caminho de casa quando espantou-se com
a buzina de um carro, e aquele cavalheiro da igreja com toda gentileza lhe
oferecendo carona. Estranhamente, mesmo sem conhecê-lo aceitou. Não se
incomodou com os prováveis mexericos ou mesmo o receio do estranho. Abandonou-se
ao carisma que emanava daquele sorriso fácil e foi. Ao entrar no carro, ele se
apresentou, chamava-se Peter, era divorciado, economista aposentado e, como
ela, era devotado de fé. Estava uma noite linda e a lua cheia, enamorando o
firmamento, dava o ar da graça. No vidro do carro refletiam os pisca-piscas das
lojas e residências, e o azul dos olhos de Peter refletia no retrovisor,
roubando por vezes o olhar distante de Nely. Durante o percurso trocaram
algumas palavras, e ela gostou do jeito culto, respeitoso e cheio de sabedoria
com que ele dirigia o diálogo.
Saíram para um passeio na praia.
Nely era divorciada, casou-se jovem, criou os filhos
sozinha, carregava consigo um certo ar de independência e resistência ao
machismo e aos estereótipos impostos pela sociedade, porém percebia que a
solidão não era sua boa companheira.
Gostou da companhia de Peter.
A orla marítima era bem distante do mar, mas dava para
ouvir o barulho das ondas. A calçada colorida era harmônica com o azul do mar,
havia uns quiosques rústicos e convidativos para um drink a dois. Caminharam
por muito tempo e optaram por um boteco com cobertura de sapê, acabamentos
coloniais e música ao vivo. Era pequeno e aconchegante, escolheram uma mesa de
frente para o mar, havia pouca luz, apenas arandelas artesanais nas colunas e
samambaias penduradas. A brisa tocava em Nely, como se acariciasse sua alma e
sussurrasse em seu ouvido que para sentir é necessário fazer sentido.
A mão masculina tocou a sua e ela sentiu que o calor
humano era bem melhor que o frio da solidão, embora gostasse da sua liberdade.
Peter entregou o coquetel Sex on the beach em suas mãos e com a outra
mão acariciou a nuca de Nely que sentiu um calor percorrer todo o seu corpo,
dando-lhe a certeza que já estava enamorada. Ao som de How deep is your love
de Bee Gees, os dois saíram para a pista de dança e os corpos colados
encontraram os lábios, que sem entenderem que o céu é o limite, abandonaram as
línguas no céu da boca.
Saíram os dois em direção ao mar. O sol já soltava seus
primeiros raios. Vento e areia misturavam-se nos corpos abandonados, liberando
endorfina. Ele apertou sua mão implorando que ficasse para sempre, ela
respondeu baixinho: Nunca mais estarás sozinho, Feliz Natal!
quarta-feira, 12 de outubro de 2022
NA TRILHA DO FEMININO: O ARCO-ÍRIS
“Em todo adulto espreita uma criança – uma criança eterna, algo que está sempre vindo a ser, que nunca está completo e que solicita cuidado, atenção e educação incessantes. Essa é a parte da personalidade humana que quer desenvolver-se e tornar-se completa” (Carl Gustavo Jung).
A fala do psiquiatra Jung,
remete-nos a criança que mora em cada um de nós e tudo que evidencia-se ao longo da nossa
existência em decorrência da infância. É dos eventos que vivenciamos nessa fase da vida, que carregamos grande parte da nossa
personalidade.
Quem não suspira ao lembrar do seu tempo de criança? Seja
das alegrias, dos momentos de fantasias,
ou das tristezas e represálias...
Como disse “Casimiro de Abreu" Oh! Que saudades que eu tenho da aurora da
minha vida, da minha Infância querida que
os anos não trazem mais...
Ah! O pé no chão,
as escaladas de árvores, os cordéis
lidos por minha avó , o cheirinho dos pratos deliciosos da minha mãe, os
doces de pitanga, o algodão doce no
parque, as cantigas de rodas ao ar livre, as comidinhas de terra e folhinha no quintal de casa, as minhas
bonecas/filhas, os joelhos ralados, os
banhos de chuvas e nos igarapés, as pipas,
o peão rodopiando, o carrinho... A liberdade de ser menina/criança, de ter pureza, de ter um mundo de paz... A lembrança que carrego comigo é que era tudo mágico!
A magia existia, mas foi lá na infância que começou a se delinear os estereótipos, a
separar cores, brinquedos, espaços... Eis então a contaminação da ideologia patriarcal.
E não é só por ai... A tecnologia chegou e a mídia e a publicidade infantil estão encurtando a infância feminina, através da erotização precoce e da adultização. Todavia, eu ainda cultivo minhas lembranças de uma infância de ingenuidade, feliz e romantizada, bem, como por vezes, me vejo tendo comportamentos infantis. Como disse Clarice Lispector: “Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais”.
E pegando carona nesse dia das crianças trago para vocês um
texto da minha autoria:
O ARCO-ÍRIS
Quando eu era criança eu tinha as minhas crendices e
fantasias; acreditava que havia um tesouro na extremidade do Arco-íris. Morava
em um lugarejo, desses que não tem água encanada e nem luz elétrica, mas a paz reinava por lá, onde
eu era feliz à luz do luar e tomando banho com água de poço. Era lá que eu
sonhava em um dia encontrar o meu tesouro!
- Certo dia,
debruçada na minha janela, eis que surge no céu um Arco-íris.
- É hoje! É hoje!
Vou alcançar o meu tesouro!
-Ah! O arco-íris,
ele tem forma de escorregador (Eu pensei...). E se tivesse uma escada bem longa e
eu subisse e escorregasse até a extremidade?... Mas, onde encontrar essa escada?
Desalentada, desisti
da ideia e de repente meus olhinhos brilharam de alegria... Eu vi que a
extremidade estava exatamente ali onde eu costumava brincar de cirandas com as
amiguinhas, onde eu brincava de bonecas e jogava pedrinhas. Naquela calçada
alta, onde eu ficava ouvindo a velha Iaiá contar suas estórias a luz do luar.
Lá na calçada do Sr. Ribamar! Era alta! eu ia alcançar!
Corri cheia de
esperanças pra pegar o meu tesouro, mas quanto mais eu palmilhava e
esticava meus passinhos mais o arco-íris
se distanciava e as cores iam perdendo o seu fulgor... o arco-íris ia
desaparecendo e com ele o meu sonho, o meu tesouro!
Meus olhos fotografavam aquele local, onde vi a extremidade do arco-íris. Aquele cenário explêndido, cheio de cores, não me saia do pensamento... Se o arco-íris estava ali tão próximo, porque não consegui alcançar o meu tesouro?
Quando cresci
consegui entender que o arco celeste era apenas uma ilusão de ótica, mas as cores, o fulgor e os sonhos, estavam
realmente naquele local, alí onde eu brincava, onde eu ouvia as estórias da
velha iaiá, onde eu cantava as cantigas de roda e acalentava bonecas, onde eu era criança... Ali onde
estava a minha infância. O meu tesouro!
"A Infância é
como o arco-íris, quanto mais palmilhamos, ela vai se distanciando e as cores e o fulgor vão desaparecendo.” (Rilnete Melo)
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sexta-feira, 16 de setembro de 2022
NA TRILHA DO FEMININO: AMAR - ELO QUE FAZ A COR DAR, POR RILNETE MELO
N A T R I L H A D O F E M I N I N O|04
AMAR - ELO QUE FAZ A COR DAR
Por RILNETE MELO
"Marisa, 26 anos, universitária, teve fotografias íntimas divulgadas pelo seu ex-namorado. A jovem terminou um relacionamento de 8 meses e Túlio, seu parceiro inconformado, chegou a ameaçá-la de morte. Marisa fez o boletim de ocorrência face à ameaça e, então Túlio vazou as fotos da sua ex-amada nas redes sociais, em sites pornográficos e perfis falsos do Instagram. Tal fato quase leva Marisa a tirar sua própria vida."
O relato acima é matéria de jornal e os nomes são fictícios, mas a realidade sobre a exposição imagética feminina no ciberespaço é preocupante, pois tem levado muitas pessoas ao suicídio.
Pegando carona nesses meados de “setembro amarelo", eu faço uma breve reflexão sobre o assunto, pois a violência contra as mulheres na Internet tem gerado uma onda de suicídio e tem me incomodado muito. Há alguns meses, a filha “trans” de uma amiga minha, sofreu bullying e injúria através de comentários em uma rede social, chegando a cortar os pulsos. Outra filha de uma conhecida, teve um vídeo intimo viralizado no ciberespaço e tentou envenenar-se com medicamentos.... São muitos os casos! Vamos fazer valer a campanha de prevenção ao suicídio que visa a conscientização sobre esse grave problema e formas de evitá-los. Fiquemos atentas para o sinal de alerta e vigiai o espaço virtual!
Sou
consciente que existe uma dificuldade de
controle das novas tecnologias, mas
convenhamos que a existência de leis, como a 13.718/18 que tipifica crime de divulgação de
imagens, não é uma condição para erradicação desses e outros crimes que
acontecem no universo virtual feminino, pois o patriarcado machista não nos exime
sequer das violências fisicas/domésticas.
O que se observa é que o estigma de inferioridade e subordinação social da
mulher é gritante nesse tipo de violência, e tal crime configura difamação, violência psicológica e injúria. O que se
recebe como bônus é simplesmente a retirada do conteúdo do provedor, e uma pena
(se tiver) de doação de cestas para o agressor, mas a dor da vítima permanece,
o estrago na honra e na alma é irreparável e a mente fraca... ah! Essa é capaz
de apagar o brilho do sol!
Estejamos
atentas queridas leitoras, Mães,
adolescentes, jovens mulheres ou
qualquer gênero que possa sofrer esse tipo de violência, pois a vulnerabilidade
do ciberespaço é algo extremamente perigoso.
Tenho
um perfil no Facebook com mais de 4.000 seguidores, por ser escritora, às vezes aceito solicitações de perfis masculinos, com interesse em comum (literário), porém já sofri vários assédios
provenientes de postagem de uma simples
foto da minha imagem. Ou seja, não posso me dar ao luxo da prática da auto estima? Simplesmente porque sou mulher? Sei que pode existe crimes cibernéticos contra a figura masculina, mas os maiores índices de crimes praticados
no ambiente on-line são contra nós mulheres, o que tem nos levado a uma
grande insegurança ao navegarmos no
ambiente virtual, onde somos vítimas de
uma misoginia desenfreada.
E
falando de misoginia, eu já cheguei a uma conclusão que a Vagina é o órgão mais poderoso desse universo.
Sim! Uma simples anatomia do corpo é capaz de trazer desigualdades, revolta,
insegurança, agressividade e por aí
vai... Como bem disse Simone de Beauvoir “Ninguém, na frente das mulheres, é mais arrogante, agressivo e desdenhoso do
que o homem inseguro da sua própria masculinidade.”
É hora de darmos um basta nessa violência sem limites que está interrompendo
vidas. Vamos tirar da teoria a sororidade, vamos nos dar as mãos, unir
forças e lutar para fazer valer a lei ‘Carolina Dieckmann" e muitas outras que dormem nos
arquivos dos tribunais. É hora de soltar a voz, seja através da poesia, música ou qualquer meio de comunicação e/ ou
movimentos coletivos.
O nosso blog “Feminário Conexões” é um dos grandes
aliados nessa luta, pois tem sido um importante espaço virtual para deixar ecoar
esse grito, uma espécie de carinho no que se refere às causas
femininas, onde, através da poesia,
crônicas contos e outros textos,
temos abordados assuntos que traçam rotas, estratégias e articulações em torno
das questões que dizem respeito às nossas vivências e pautas enquanto mulheres.
De acordo
com o relatório da Febrasgo (Federação brasileira de ginecologia e obstetrícia),
o número de suicídios femininos no Brasil cresceu de 45,7% entre 2009 e 2021 e muitos
desses casos foram provenientes de crimes cibernéticos. E essa dor é nossa. Essa
dor é minha, pois veste a minha pele e aperta minha alma, e embora com um misto de insegurança e impotência,
eu grito e não desisto. A poesia é minha arma, pois como
escreveu Gabriel Celaya em “ Cantos Íberos”: “A poesia é uma arma carregada de futuro”. É através da poesia que ouço meus ecos
e mato os meus demônios todos os dias. A dor do suicídio sangra nas minhas entranhas, pois já andou rondando a minha vida...
Eu considero-me uma mulher gigante, embora com 1,50m de altura e uma dismetria na perna direita, eu me apoio na
“esquerda” e sigo pisando as pedras no meio
do meu caminho. É sem papas na língua que alcanço essa realidade que me inquieta.
Eu solto o verbo no papel por todos, todas e todes que sofrem com esse caos e essa
barbárie que caminha o nosso país nesse desgoverno misógino, racista e que tenta
cercear a nossa liberdade de expressão.
O momento é de expungir essa sociedade de “machos" e fazer um apelo aos que transitam no nosso espaço presencial e virtual: Expulsem de vocês essa insanidade do patriarcado machista, tornem-se homens elegantes e lembrem-se que pelo sacrifício divino viestes ao mundo através de uma mulher, portanto deixem-nos viver em paz. Deixo para alguém, que em algum momento possa ter tido um pensamento suicida o Poema “Eco", de minha autoria:
ECO
Presa no porão escuro
das
dúvidas atormentadas,
quando
em desatino
desatei
o nó em palavras
desfiz o suicídio...
Na
ponta do lápis
o
socorro em tessitura
Agarrou
o papel
Com as
lágrimas do ontem
E o pó
da agonia ,
Eu fiz
meu café
ferver
na poesia,
Exalando
o socorro
dos
dias pósteros
Em que
transcorria
Não sei
em qual tempo
(Talvez
setembro...)
Amarelo
Tempo
que não nego
Ao
ouvir em meus versos
Quase
em decesso
A voz
Numa rima atrevida
Em
eco:
Vida
Vida
Vida
☆_____________________☆_____________________☆
quarta-feira, 7 de setembro de 2022
NA TRILHA DO FEMININO: 0 GRITO FEMININO NA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL, POR RILNETE MELO
Era final de outono na Bahia, o sol começava a se esconder ao longe, no horizonte da estrada de terra batida da fazenda Itapororoca. Pelo caminho uma dupla prosseguia a pé, cantando o refrão: “Pelo bem dessa nação/ pela terra e pelo pão /independência na cabeça e amor no coração” ... Era Quitéria e seu cunhado soldado Medeiros que voltavam de mais um dia de caça. Durante todo o percurso matutava na cabeça de Quitéria a ideia de ingressar no exército, e assim como José Medeiros lutar pela independência do seu país, bem como dar um basta nessa ideologia de desigualdade de gênero. Naquele dia, ao chegar em casa, tirando o casaco suado, pendurando o canil no armador da rede, exibindo o cinturão com algumas munições e a espingarda que lhe descia quadril abaixo, ela batia na mesa dando socos e em voz alta gritava: Eu vou amanhã naquele quartel! Nem que eu tenha que fugir de casa! Ah! Juro que eu vou!
Na semana anterior, um emissário do governo havia ido
à casa do pai de Quitéria com o objetivo de convocar voluntários para o combate
libertário. O velho Gonçalves disse que não tinha nenhum filho para enviar à
guerra e que deixassem ele em paz. Escondida atrás da porta Quitéria ouvia todo
aquele blá blá blá com paixão, curiosidade e o peito de mulher guerreira
batendo descompassado, ardendo de vontade de dizer que ela ia, e pensava; Ah!
Como eu queria ser homem nessa hora!
Mas, desgarrando-se do modelo de família cristã burguesa,
tendo conhecimento de que seus hormônios femininos não tiravam seus atributos
de inteligência e criatividade, teve um insight brilhante!
—Tetê! Eu vou me apresentar no exército brasileiro
amanhã! - disse Quitéria.
—Você enlouqueceu menina? No exército não aceita
mulher, sem esquecer que nosso pai jamais aceitará essa sua decisão. - retrucou
Tereza
Tetê, como Quitéria chamava sua irmã mais nova, fora
cuidada por ela desde que sua mãe havia falecido lhe deixando com 10 anos de idade,
dois irmãos e uma irmã para cuidar. A vida não fora fácil para Quitéria
depois que sua mãezinha foi morar no céu, pois sua madrasta não aceitava esse
seu espírito independente, com sede de emancipação e quebra de tabus. E nessa lengalenga
ela cresceu, ouvindo que mulher nasceu para bordar, tecer, fiar, cozinhar e
cuidar da casa e do marido. O tempo passou, Tereza casou-se com José Medeiros e
Quitéria permaneceu solteira, não teve oportunidade de estudar, mas de caça,
pesca, montaria, armas e anseio de autonomia... ah! ela entendia até demais!
Naquele dia, Quitéria tinha ido até a casa da irmã
para lhe falar de um plano de fuga, pois soube que seu pai ia fazer uma viagem
de negócios.
— Minha irmã! Eu tive uma ideia genial! posso contar
com sua ajuda? – falava Quitéria entusiasmada. – Vou cortar meu cabelo
igualzinho ao de um homem, vou fugir de casa e me alistar no regimento da
artilharia, mas preciso que você me empreste uma roupa do Medeiros. Tereza ficou
estatelada com aquela atitude da irmã, mas não podia negar seus favores àquela
que sempre cuidara dela como se fosse sua mãe:
— Oxe Mainha! inté eu fiquei com vontade de ir! Não
fosse o Zé e as crianças eu ia também! – disse Tereza
— Pois ande logo que eu tô avexada! Me empresta o
uniforme do Zé que hoje eu vou usar seu codinome e vou ser Soldado José de
Medeiros e ninguém me segura!
Esse era o maior desejo de Quitéria, pois seus
ideais estavam bem longe do patriarcado machista imposto pela
sociedade. Com a necessidade de legitimar suas inquietações, agora
se dirigia até a barbearia do velho Quincas para a transformação...
Então, decidida a tomar o passo mais importante da sua
vida, adentrou a barbearia, dando um tapinha no ombro do Quincas, pediu que
deixasse suas madeixas com um corte masculino daqueles bem militar. O velho
barbeiro esbugalhou os olhos - sem entender nada - disse-lhe apenas que iria
cumprir o seu papel, mas sabia que aquele feito não seria do agrado do seu pai,
pois ele conservava suas filhas no âmbito doméstico, limitando o seu
espaço feminino e os costumes sociais.
— Pois assunte bem Sr. Quincas! Eu não vou seguir à
risca esse papel social imposto pela sociedade, e aproveitando que meu pai
viajou, hoje eu vou me alistar no exército e não ouse dar com a língua nos
dentes.
Cabisbaixo, sem saber a quem obedecia, mas com a ética
absoluta de um bom profissional, Quincas prometeu sigilo à menina Quitéria, que
agora, deixando aquele recinto em busca do jogo da vida que lhe tornaria mais
feliz, sacodia os últimos fios de cabelos que teimavam em agarrar-se à sua nova
pele. Um vento de reforma profunda soprava seu rosto e descia entre a abertura
do uniforme, indo até o seio arfando, apertado pela faixa que tirava a
protuberância feminina, dando vazão a sua autonomia e ao seu desejo incansável
de luta.
As botinas eram pesadas; mas nos pés de Quitéria pareciam travesseiros de plumas. A calça folgada escondia as belas curvas e davam-lhe segurança no disfarce da sua nova identidade. A aba do quepe sobre os olhos não conseguia esconder o brilho que afugentava suas retinas, os passos acelerados iam de encontro ao batalhão “Regimentos de artilharia”, onde o sonho de lutar pela independência do brasil e a sua emancipação, ia se concretizar. Era manhã de sol forte, a rua estreita que dava acesso ao quartel agora parecia agigantar-se. Somente vira assim, a estrada densa da floresta, a mira na sua caça e o sonho de conquistar sua própria independência.
— Nome? José da Silva Medeiros. - Goza de boa
saúde? Sim senhor! – Promete
honrar o seu compromisso com a pátria? Sim
senhor! – Quitéria respondia a todas as perguntas sentindo que estava atendendo
aos critérios militares. No início tudo estava sob o controle e seu sexo não
foi reconhecido, mas passado algum tempo, seu velho pai, por desforra à sua
fuga, revelou ao oficial comandante a sua verdadeira identidade. O
saiote estilo escocês de Quitéria, customizado por suas delicadas mãos,
deu o ar da graça em infinitas batalhas a favor da independência, afogando
o machismo, que agora ficava embaixo do que vestia o seu ego, quebrando
barreiras e mostrando a força da mulher.
Era manhã de verão no Rio de Janeiro, o sol trazia os
primeiros raios, que entravam pela janela do quartel iluminando o diploma
na parede dos aposentos do capitão do Batalhão do Imperador, que agora fumava
seu charuto e descansava suas belas e torneadas pernas, após devorar um prato
de farofa de ovo com bacon, tomate e cebola, preparado por suas mãos,
graças aos seus dotes femininos...
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Rilnete Melo é brasileira, maranhense, graduada em letras/espanhol, escritora, cordelista membro das academias ACILBRAS, ABMLP e AIML, participou de várias antologias nacionais e internacionais, autora do livro “Construindo Versos" e autora de cinco cordéis.
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