terça-feira, 31 de março de 2026

CRÔNICAS DA SUSTÂNCIA*


HISTÓRIAS DA MINHA MÃE: "O MEU TORTÉI"


Naquele tempo suspenso da pandemia, no ano de 2020, em que os dias pareciam caber dentro de casa, decidimos fazer algo para nos esperançar: tirar fotografias em família. Contratamos uma fotógrafa, ajeitamos os cabelos, fizemos maquiagem, colocamos um sorriso no rosto e escolhemos roupas com cuidado – como se, ao nos organizarmos por fora, também encontrássemos algum equilíbrio por dentro.

Minha mãe, D. Maria Lucia, estava ali, como sempre, no centro de tudo. Frágil no corpo, firme nos gestos, guardiã de saberes que não se aprendem apressadamente.

No meio da sessão de fotografias, realizada ao sentir do vento e dos pés no chão, no sítio dos pais da minha cunhada, tentando deixar minha mãe mais à vontade, para retratá-la, a fotógrafa lhe fez uma pergunta simples:

D. Maria Lucia, qual é a comida que a sua filha faz e de que a senhora mais gosta?

Minha mãe escutou com atenção, como quem acolhe a pergunta antes de respondê-la. E então disse, com toda naturalidade:

O meu tortéi. 

Fonte: Autoria própria (2025)

Houve um breve silêncio, logo atravessado por risos espontaneamente surgidos nos seus netos, Samuel e Vicente; nos seus filhos, eu e meu irmão Carlos; e na nora, Camila. Ela não disse a comida que eu fazia, mas a que ela fazia.

E, pensando bem, fazia todo sentido.

Entre tantas coisas que nos reunem, em família, há o tortéi. Não é de um dia só, mas algo que sempre volta, quase como um ritual. Sempre que ela o faz, a casa se enche de um cheiro conhecido, e a mesa ganha outro significado. Não é apenas comida –  é um modo de estarmos juntos.

Todos gostam.

Por isso, no fundo, não foi engano a resposta dela. O tortéi é dela. É dela o jeito de abrir a massa, o cuidado com o recheio, o ponto certo do molho. Mesmo quando alguém a ajuda, é ela quem sustenta esse saber.

As fotografias guardaram a lembrança daquele instante. Mas o que ficou mesmo foi outra coisa: a certeza de que há receitas que não pertencem apenas ao prato. Pertencem a quem as vive.

E, naquele dia, minha mãe disse isso do jeito mais simples possível:

– "O meu tortéi".

Fonte: Autoria própria (2025)


Buon appetito!

Obs.: Tortéi é uma palavra aportuguesada do italiano tortelli (ou tortelli di zucca), prato típico da região de Lombardia e muito comum em descendentes de italianos aqui no Brasil. É uma massa recheada com abóbora cabotiá.

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Arquivo pessoal (autoria de Alan Winkoski)

Rosangela Marquezi é professora de formação e atuação que acredita que a literatura tem o poder de modificar vidas... Graduada em Letras, Mestra em Educação e Doutora em Desenvolvimento Regional, é professora de Literatura na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Faz parte da Academia de Letras e Artes de sua cidade, Pato Branco - PR. Nas horas vagas, escreve poemas, crônicas e contos e já participou de coletâneas e antologias no Brasil e também em Portugal.

*Sustância - personagem fictícia que define a escritora de crônicas que habita em mim, "a ânsia, a substância, a Sustância!" (Marquezi, 2017). 

terça-feira, 10 de março de 2026

PROTAGONISMO FEMININO EM FOCO

A ESCRITA DAS MULHERES E A REINVENÇÃO DA LOUCURA: DE STELLA DO PATROCÍNIO ÀS AUTORAS CONTEMPORÂNEAS 

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1. O controle social através da saúde mental
 

Ser mulher não tem sido tarefa fácil nos dias atuais. De qualquer modo, nós mulheres, sabemos que, principalmente no Brasil, isso nunca foi usual. A sabedoria oriental milenar nos estimula a evitar extremismos, optando, sempre que possível, pelo caminho do meio. Em contrapartida, o respaldo científico para esse debate encaminha a diversos estudos que evidenciam a utilização das instituições de saúde mental para exercer controle social e patriarcal sobre o universo feminino. Historicamente, o monitoramento estratégico do comportamento e a tendência à patologização do corpo e da mente feminina já provocaram dores e tragédias, isolando mulheres e desestabilizando inúmeras famílias. Compreender essas dinâmicas permite lançar um olhar perscrutador sob densa névoa: estratégias envolvendo cuidados com a saúde física e mental sempre mascararam projetos de dominação e de controle social. 

2. Exílio e silenciamento: o caso Stella do Patrocínio 

Isso remete ao artigo da edição de fevereiro da Revista Voo Livre, em que citamos a internação involuntária da poeta Stella do Patrocínio, no Rio de Janeiro. Mais um caso de exílio: uma mulher negra, cuja voz era incompreensível no contexto institucional da época. Não se pode desconsiderar também o momento político e social desse acontecimento, quando o emprego maciço de práticas eugenistas de higienização dos espaços sagrados tratava corpos negros como indesejáveis na arquitetura central das cidades. Há relatos de que as constantes mudanças de localidade, no início do tratamento manicomial, impossibilitaram o acompanhamento familiar. Assim, Stella permaneceu reclusa nessas instituições até seu falecimento, quarenta anos depois. 

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3. A lógica da submissão: de "O Alienista" à história de Pierina
 

Nesse contexto, a literatura nos instiga a questionar sobre os tratamentos de saúde mental como práticas de silenciamento e de coerção, principalmente das mulheres. Alegoricamente, Machado de Assis, o imortal crítico da sociedade e das instituições, trata desse tema na obra “O Alienista”. Também a literatura acadêmica nos adverte a respeito do que ainda precisamos compreender sobre esses mecanismos históricos de dominação. O livro-tese da historiadora Yonissa Wadi “História de Pierina: subjetividade, crime e loucura” é bastante elucidativo: no início do século XX, a trajetória de uma mulher e suas cartas são julgados a partir de uma ótica exclusivamente masculina, metódica e patriarcal. Nesse relato, a partir de uma pequena comunidade do sul do país, a internação manicomial de Pierina desencadeou a adequação de seu comportamento à lógica da subserviência: afinal silenciada e submissa ao papel tradicional de esposa e de mãe, nos moldes sociais e econômicos requeridos por sua comunidade de imigrantes italianos. A sistematicidade dos métodos científico e jurídico, aliada à rigidez das estruturas patriarcais não permitiu que fossem, sequer, ouvidas as queixas da mulher. Percebe-se que, ao final de dois anos de tratamento psiquiátrico, Pierina cansou-se de tentar se fazer ouvir. Isso foi suficiente para que obtivesse alta e fosse encaminhada, mesmo contra a própria vontade, às funções modelares de mãe e de esposa, em sua pequena cidade, no Rio Grande do Sul. 

4. A urgência de racializar o debate na saúde pública 

Entretanto, apesar desse reconhecimento, a violência de gênero contra as mulheres não tem sido tratada, de modo explícito, como um fator de risco para a saúde mental. Entendemos, portanto, que é urgente implementar, nos serviços de saúde, intervenções mais eficazes para o acolhimento e o cuidado das mulheres que são, cotidianamente, vitimadas pelas inúmeras violências de gênero. Nesse contexto, o Plano Nacional de Políticas para as Mulheres (III PNPM), realizado em 2013, enfatizou a transversalidade e o investimento na saúde integral, como possibilidades de transformação desses espaços cristalizados de dominação e de invisibilização da figura feminina no aparato estatal. A conferência abordou também a violência e a saúde mental. Por outro lado, estudos acadêmicos e clínicos de problemas psicológicos e psiquiátricos que afligem pessoas negras, no Brasil, ainda enfrentam silenciamento histórico, embora haja obras pioneiras e fundamentais que se tornaram referências no tema. A respeito desse tema, a literatura negro-brasileira contribui, dando destaque a intelectuais como Lélia Gonzales, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro, Sueli Carneiro, Cida Bento, Jarid Arraes, Miriam Alves, Geni Guimarães, Elisa Lucinda, entre outras. A produção autoral dessas mulheres fornece base teórica e conceitual para que se investigue o racismo como elemento fulcral na saúde mental dos indivíduos. De modo semelhante, o reconhecido psiquiatra e pensador caribenho Frantz Fanon analisou o sofrimento mental e concluiu que a opressão colonial e o racismo desencadeiam despersonalização e impõem um sentimento de suposta inferioridade que impacta, grandemente e de forma negativa, a saúde mental da população afrodescendente. Há também diversos braços do Movimento Negro, como a Articulação Nacional de Psicólogas/os Negras/os e Pesquisadoras/es (ANPSINEP), que vem consolidando, através de pesquisas e congressos, uma produção teórica contínua que une psicologia, saúde coletiva e racialização das relações. Trabalhos dessa natureza atualizam o debate sobre os desdobramentos do racismo estrutural no cotidiano social, mais especificamente, da população negra, com impactos inquestionáveis sobre a vida das mulheres. 

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5. Escrevivência e herança colonial: o legado de Conceição Evaristo
 

No campo literário, Conceição Evaristo, premiada intelectual, produziu obras de reconhecido valor para o arcabouço da literatura brasileira contemporânea. Ela é, hoje, uma das escritoras negras mais prestigiadas no contexto da produção escrita das mulheres. Entre seus livros mais lidos e comentados, figura o romance Ponciá Vicêncio, cuja trama resgata o sofrimento psíquico, no seio familiar, decorrente do racismo estrutural e da herança colonial. Nessa obra, a saúde mental da protagonista aparece ancorada em condicionamentos históricos que legaram às famílias afro-brasileiras: rigorosos desafios sociais e econômicos, preconceito e rejeição histórica. Assim, Ponciá é afetada por uma série de violências simbólicas e físicas que refletem a realidade da maioria das mulheres negras no Brasil. 

6. A palavra como cura: literatura e resistência na contemporaneidade 

Nessa conjuntura, a literatura vem se estabelecendo, cada vez mais, como palco da resistência feminina. De um ponto a outro do país, encontramos autoras produzindo cura a partir da palavra poética e da ficcionalização. Assim, de um rico mosaico de intelectuais, destacamos o trabalho da escritora e psicoterapeuta nipo-brasileira Patrícia Gondo de Goes, imortal da ALBSC (Academia de Letras do Brasil de Santa Catarina), seccional Joinville, que vem escrevendo sob a égide da saúde mental e emocional. Ela, que morou no Japão por 25 anos e é tradutora do idioma japonês, desenvolveu abordagem holística acerca da psique feminina, a partir de suas vivências, da psicoterapia e de terapias integrativas . Além de atuar no campo da saúde, das Letras e das artes, Patrícia desenvolve, paralelamente, um trabalho profícuo e comprometido, voltado para os direitos das mulheres, na cidade de Joinville, com reflexos intensos no conjunto de sua obra, que conta com um livro publicado e outro no prelo. Das Minas Gerais, destacamos a psicóloga clínica e poeta Stella Maris Souza Marques, que é doutora em Psicologia, suas atividades profissionais incluem oficinas de Teatro do Oprimido, meditações guiadas e palestras para estudantes em escolas públicas. A autora publicou a trilogia Além do que Parece: “Parecia Amor”; “Parecia Viagem” e “Parecia Dom". O foco da sua escrita inclui promover reflexões sobre relacionamentos tóxicos e outras formas de violências, inclusive, as mais sutis. A autora discute o luto coletivo, as altas habilidades, a inclusão e a sanidade mental, principalmente, entre adolescentes e adultos jovens. 

7. Considerações finais 

Em suma, seguimos resistindo e contornando as mazelas do pensamento androcêntrico e do antifeminismo que, infelizmente, ainda dita o tom de muitos dos discursos que nos atravessam. Porém, é incontestável que compreender e tratar a saúde mental envolve abordar o ser em sua complexidade inerente. Isso envolve considerar diversos fatores, como os históricos e os sociais e, - não se pode negar, - a necessidade de racializar o debate. Desse modo, promovemos rupturas com práticas institucionais e com discursos legitimadores de silenciamento e de jugo sobre as subjetividades femininas. As narrativas que emergem da literatura, da pesquisa e do trabalho de escritoras, demais artistas e profissionais contemporâneas são reveladoras do poder da palavra. Essa incrível potência que, devidamente manejada, torna-se mecanismo de resistência e de cura. Assim, nosso artigo dá relevo à voz de mulheres que são capazes de transformar dor em reflexão e experiência em conhecimento. Afinal, ao revisitar o passado e questionar antigas certezas, escritoras, pesquisadoras e profissionais da saúde reafirmam que a escuta sensível pode ampliar a compreensão acerca da saúde mental e romper com estruturas históricas de opressão. Ademais, reconhecer a violência de gênero e o racismo estrutural como elementos intrínsecos a esse debate é indispensável para desenvolver práticas de cuidado eficazes, éticas e inclusivas. Nesse aspecto, a literatura, tanto como fonte quanto como produto, nos fortalece e nos convoca a envidar esforços em prol do nosso direito à saúde, ao cuidado e ao respeito, em âmbito privado e institucional. Sigamos juntas… 

8. Referências para esse artigo 

ASSIS, Machado de. O Alienista. MonteCristo Editora, 2023. BRASIL, Secretaria de Políticas Para Mulheres: II Plano Nacional de Políticas para Mulheres. Brasília, 2008. Disponível em: https://www.gov.br/mulheres/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/arquivo2IIPNPM (Acesso em fevereiro de 2026). 

COSTA, Heliene Rosa da. Poéticas da resistência: o legado de Stella do Patrocínio e a luta antimanicomial contemporânea no Brasil. Revista Voo Livre, Ano 6, número 64, Fevereiro de 2026, pp:26-28. Disponível em: https://revistavoolivre.com.br/revista-voo-livre-ano-6-no-64-fevereiro-de-2026/ (Acesso em fevereiro de 2026). 

EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2003. FANON, Frantz. Alienação e liberdade: escritos psiquiátricos. São Paulo: UBU Editora, 2020. 

GOES, Patrícia Gondo. Ancestralidade Eu, Descendência. Joinville/SC: Clube de Autores, 2023.

MARQUES, Stella Maris de Souza, Parecia Amor. Uberlândia/MG: Editora Subsolo, 2024.

MARQUES, Stella Maris de Souza. Parecia Viagem. Uberlândia/MG:Editora Subsolo, 2024.

MARQUES, Stella Maris de Souza. Parecia Dom. Uberlândia/MG: Editora Subsolo, 2024. Stella do Patrocínio. Museu Bispo de Rosário: Arte Contemporânea. Disponível em: https://museubispodorosario.com/stella-do-patrocinio-memorias/ (Acesso em fevereiro de 2026). WADI, Yonissa Marmit. A história de Pierina: subjetividade, crime e loucura. Uberlândia: EDUFU, 2009.

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Arquivo pessoal
Heliene Rosa, natural de Patos de Minas, Minas Gerais, é uma escritora, professora e pesquisadora dedicada às poéticas femininas. Mestre em Linguística e doutora em Estudos Literários pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Heliene é uma voz ativa na militância pelas causas das mulheres e da negritude. Articulista no Blog Feminário Conexões e integrante de diversos coletivos femininos, fundou, em 2016, o GELIPLIT (Grupo de Estudos em Língua Portuguesa e Literaturas), com o propósito de promover a formação continuada de professores de Língua Portuguesa e Literatura.

Com uma carreira marcada pela coordenação de projetos literários e pedagógicos, Heliene foi premiada no Oitavo Concurso Nacional pela Igualdade de Gêneros com uma sequência didática voltada à escrita, envolvendo estudantes do Ensino Básico. É coautora em diversas coletâneas nacionais e internacionais e organizadora de antologias literárias e acadêmicas. Em sua produção autoral, destaca-se com os livros Enquanto as hortênsias florescem (2023) e Literatura é território: poéticas femininas indígenas em movimento (2024).

domingo, 8 de março de 2026

O DIA INTERNACIONAL DA MULHER

"é difícil aceitar o perfume quando o ar está saturado pelo cheiro de pólvora"


Oito de março. Aceito o café na cama, mas engulo um calendário que insiste no vermelho para marcar o feriado que celebra “O dia internacional da mulher” que, na verdade, é um marco das nossas  lutas e conquistas. Tudo bem, tento entrar no clima do dia, mas sobre mulheres o que vejo é o vermelho que escorre na TV e nas redes sociais. Neste dia, as flores ofertadas parecem pesar toneladas, pois é difícil aceitar o perfume quando o ar está saturado pelo cheiro de pólvora, de medo e de uma injustiça que se renova a cada noticiário.


Dizem que o lar é o porto seguro, mas para milhares de brasileiras, ele é o epicentro do abalo sísmico. O feminicídio não é um raio em céu azul; é o estágio final de um roteiro escrito a muitas mãos, pela posse travestida de amor e cuidado, pelo silêncio dos vizinhos e pela cegueira de um “Sistema” que chega sempre depois que o corpo já esfriou. As formas brutais de morte, que temos visto ultimamente, com requintes de crueldades - que desafiam a sanidade -, não são apenas crimes; são mensagens de ódio e dor enviadas a todas nós, um lembrete violento de quem ainda se julga dono da vida alheia.

E se o fim é trágico, o começo é desolador.

Recentemente, Minas Gerais nos esfregou na cara a ferida aberta da nossa falha civilizatória. Uma menina de 12 anos, uma criança que deveria estar ocupada com cadernos, brincadeiras e o florescer lento da juventude, vivendo com um homem de 35. Não consigo chamar isso de "relacionamento",  o nome é estupro de vulnerável, é exploração, é o roubo sistemático de uma infância que nunca será devolvida. Quando permitimos que normalizem relações de  "homens mais velhos com crianças", estamos pavimentando o caminho para o abuso, estamos dizendo que o corpo de uma menina é um território a ser conquistado, e não uma vida a ser protegida.


E essa  violência travestida de "amor" é só a ponta do iceberg, por baixo dela sustenta-se, há séculos, a montanha de gelo da desigualdade, do machismo e da misoginia. É a mulher que não sai de casa porque não tem autonomia financeira, a mãe que acumula três jornadas e ainda é culpada pela "rebeldia" dos filhos, a menina que aprende desde cedo que o seu "não" vale menos que o desejo de um homem.


Almoço a dois, mas nesse dia degusto o feminismo não como uma escolha teórica ou uma pauta de militância distante, mas como um kit de sobrevivência, como um grito que exige que as meninas de 12 anos sejam apenas crianças e que as mulheres adultas não se tornem estatísticas antes do jantar. 

Que a nossa indignação seja maior do que  o que nos alimenta de maneira indigesta, porque, enquanto uma de nós for silenciada pelo cano de uma arma ou pela mão de um abusador, nenhuma de nós estará, de fato celebrando “O dia internacional da mulher”.

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Rilnete  Melo é maranhense, poeta, escritora, cronista e cordelista, membro das academias de letras ACILBRAS e ABMLP, colunista no blog Feminário Conexões e colaborada da Revista internacional The Bard, coautora de várias antologias nacionais e internacionais, vencedora de seis concursos literários,  autora dos livros Construindo Versos, O máximo de mim e outros mínimos poemas, Pérolas do  meu silêncio, zine Dezcontos micros e autora de cinco cordéis.

sexta-feira, 6 de março de 2026

UM CONTO DE SANDRA SAN'TOS

A   R E V O L T A   N O   D E S C A R T E

POR SANDRA SAN'TOS

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Eu não estava sozinho; junto a mim, muitas coisas familiares: livros, revistas, salmos da igreja, roupas, algumas ferramentas de pedreiro, um par de óculos, e outras que não conseguia divisar. Era um lugar escuro, cheio de ruídos desconhecidos, além de um cheiro modorrento a causar-me desconforto.

 Tem mais alguém acordado? Sabem que lugar é esse? – falei, dirigindo-me aos companheiros de destino incerto.

 Eu acho que estamos no lixo. Agora calem-se, porque alguém se aproxima. – respondeu um objeto abaixo de mim.

Seguiram-se sons de sacos se abrindo e caixas sendo rasgadas. Um dos visitantes, considerei que seriam ao menos dois, assoviava um trecho de uma música desconhecida. Sim, só poderíamos estar no lixo, pois conforme andavam, o mau cheiro também era revirado.

 Caramba! Quanta tralha! Só tem porcaria aqui, tô achando que é perda de tempo. Olha isso: livro, remédio, roupas rasgadas, roupas cortadas... Quem jogou não queria que ninguém pegasse. - O som de coisas quebrando denunciava a raiva por não encontrarem nada de valor, ou que lhes tivesse serventia.

 É isso o que acontece com as coisas dos mortos amigo: vão para o lixo. Se eu fosse tua mulher, botava você no lixo. Lugar de tranqueira é no lixo mesmo. – riu da própria piada e completou antes que o amigo lhe respondesse com alguma ofensa:

 Ei, olha só, eu achei um rádio. Eita, que é uma velharia! Será que funciona essa merda? Se não funcionar, vendo as peças e já no lucro.

 Pode ser, mas vambora que eu tô com fome. – retrucou o outro.

Assim que se afastaram, teve início uma verdadeira balbúrdia entre os objetos que jaziam comigo no descarte.

 Isso não é justo, eu ainda estou em boas condições. - gritou o livro de teologia me fazendo duvidar da sua religiosidade.

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 Vamos balançar a caixa com força, todos juntos até virar, assim vão ver que as coisas de valor estão aqui. – sugeriu a chave de fenda enferrujada, que fora enrolada em um lençol.

 Pra quê minha senhora? Sairemos andando? É isso o que sugere? – estamos velhos e sem uso já há algum tempo. Quem estava em boas condições foi destruído antes de ser colocado aqui. Não percebe que nem pra doação nós servimos? – retrucou um disco quebrado.

A essa altura da discussão, a camisa estava em prantos, derramando linhas por todos os lados, enquanto o livro de marcenaria se desesperava com a falta de suas folhas iniciais.

 Quem fez isso estava com raiva. Não se rasga um livro, isso é absolutamente revoltante. – completou o livro de teologia.

Arlindo, meu dono, provavelmente morrera. Eu não tinha mais dúvidas. O burburinho de meus companheiros me cansava, então preferi o silêncio; afinal, eu era o mais velho daquela caixa. Era hora de fechar os olhos, ficar quieto e aceitar meu fim. Me calei, e me abstraí de mim mesmo escutando a chuva que batucava o exterior de nossa caixa.

Meu humano costumava passar muito tempo calado, comigo nas mãos, pensando em sabe-se lá o quê, apenas me observava. Ele me mantivera por hábito e não por necessidade; talvez até por afeto, pois eu, já não exercia minha função há bom tempo. Além de ser objeto de contemplação para Arlindo, eu também servira de brinquedo para sua neta, a menina Clara, que tinha o talento de lhe reacender o olhar.

 Clara, devolve pro vovô. Se você derrubar, vai quebrar, cuidado. – falava mesmo sabendo que eu era um caso perdido. Para mim, não havia mais conserto.

Era isso, Arlindo morrera e eu morreria também, ponto final. Preferi manter-me alheio àquela conversação inútil.

 Talvez ainda tenhamos uma chance. Tem muita gente precisando de algo útil. – arguiu uma luminária antiga.

 Depende do que você chama de útil. – completou o martelo sem cabo.

 Deixa de soberba e verá, sou um bom livro, edição caprichada. Logo estarei servindo a olhos inteligentes.

 Fiquem quietos e ouçam, está chegando alguém... Com passos pequenos, se for criança, não se interessará por nenhum de nós. – interrompeu a chave de fenda.

Era Clara, a neta de Arlindo. A menina passou um bom tempo abrindo e fechando caixas. Vasculhou uma por uma, até que abriu a nossa. Retirou objeto por objeto, mantendo em uma das mãos uma revista da igreja que o avô frequentava, enquanto a outra penetrava no desconhecido. Senti quando fui levado para fora e recostado ao seu peito.

 Clarinha, Clarinha! O que está fazendo minha filha? Porque tá revirando o lixo? – gritou sua mãe do outro lado da rua.

 Mamãe, são as coisas do vovô. Eu preciso pegar tudo de volta.

 Filha, foi sua avó quem jogou tudo isso fora. Ela não vai ficar feliz se souber o que você tá fazendo... E eu, também não quero essas coisas lá em casa.

 Mas, mãe... por que a vovó colocou as coisas do vovô no lixo?

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 Bem, sua avó e seu avô... Não se davam nada bem. Mas, esse é o tipo de coisa que você só vai entender quando ficar mais velha. Agora vem, larga essas coisas aí, que não quero irritar a sua avó. – falou a mãe encerrando o assunto.

A menina havia chafurdado no que restara do avô. Aquelas coisas tinham enorme valor para ela; mesmo assim, antecipando um embate inútil, obedeceu. Não sem antes esconder-me em seu bolso. Devolveu as revistas para a caixa e fechou-a com cuidado, despedindo-se não apenas de coisas, mas de uma pessoa que lhe faria muita falta.

 Adeus vovô – disse em voz alta, sem entender a lógica dos adultos.

Por muito tempo fui seu segredo e dos meus companheiros de caixa, nada mais eu soube.

Passei muito tempo escondido entre livros, roupas, fotos e coisas importantes, até a menina se sentir segura para assumir ter me tirado do lixo.  Quando saí da clandestinidade, fui polido e ganhei uma corrente nova. Nunca mais andei em um bolso, pois esse era um costume de Arlindo. Fui contemplado com um relicário e hoje resido sobre o piano de Clara, de onde a vi crescer e se tornar moça. Vi sua formatura, a vi se casar, assisti a muitos outros momentos importantes, felizes ou nem tanto.

Ela nunca mandou me consertar, porque eu sou uma extensão de seu avô, e ter-me por perto lhe basta. Dele, herdou o hábito de me contemplar longamente, pensando em sabe-se lá o quê. Tal avô, tal neta.

O tempo ensina, e de tempo eu entendo, mesmo que meus ponteiros aposentados mostrem o passar das horas de uma forma diferente. Um dia, Clara também não aparecerá mais e, quem sabe, talvez um dia ela tenha uma neta, e essa me guarde, e aprenda a admirar esse velho relógio que registra em silêncio a caminhada de gerações.

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Arquivo pessoal da autora

Sandra A. Santos é pedagoga com especialização em Educação Ambiental, ambientalista apaixonada pela natureza e pela vida em todas as suas formas. Hoje aposentada, dedica-se à literatura, escrevendo contos, romances e poesias que giram em torno do universo feminino. Com trabalhos publicados em antologias no Brasil e na Argentina.

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CRÔNICAS DA SUSTÂNCIA*

HISTÓRIAS DA MINHA MÃE: "O MEU TORTÉI" Rosangela Marquezi Naquele tempo s uspenso da pandemia, no ano de 2020, em que os dias par...