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terça-feira, 31 de março de 2026

CRÔNICAS DA SUSTÂNCIA*


HISTÓRIAS DA MINHA MÃE: "O MEU TORTÉI"


Naquele tempo suspenso da pandemia, no ano de 2020, em que os dias pareciam caber dentro de casa, decidimos fazer algo para nos esperançar: tirar fotografias em família. Contratamos uma fotógrafa, ajeitamos os cabelos, fizemos maquiagem, colocamos um sorriso no rosto e escolhemos roupas com cuidado – como se, ao nos organizarmos por fora, também encontrássemos algum equilíbrio por dentro.

Minha mãe, D. Maria Lucia, estava ali, como sempre, no centro de tudo. Frágil no corpo, firme nos gestos, guardiã de saberes que não se aprendem apressadamente.

No meio da sessão de fotografias, realizada ao sentir do vento e dos pés no chão, no sítio dos pais da minha cunhada, tentando deixar minha mãe mais à vontade, para retratá-la, a fotógrafa lhe fez uma pergunta simples:

D. Maria Lucia, qual é a comida que a sua filha faz e de que a senhora mais gosta?

Minha mãe escutou com atenção, como quem acolhe a pergunta antes de respondê-la. E então disse, com toda naturalidade:

O meu tortéi. 

Fonte: Autoria própria (2025)

Houve um breve silêncio, logo atravessado por risos espontaneamente surgidos nos seus netos, Samuel e Vicente; nos seus filhos, eu e meu irmão Carlos; e na nora, Camila. Ela não disse a comida que eu fazia, mas a que ela fazia.

E, pensando bem, fazia todo sentido.

Entre tantas coisas que nos reunem, em família, há o tortéi. Não é de um dia só, mas algo que sempre volta, quase como um ritual. Sempre que ela o faz, a casa se enche de um cheiro conhecido, e a mesa ganha outro significado. Não é apenas comida –  é um modo de estarmos juntos.

Todos gostam.

Por isso, no fundo, não foi engano a resposta dela. O tortéi é dela. É dela o jeito de abrir a massa, o cuidado com o recheio, o ponto certo do molho. Mesmo quando alguém a ajuda, é ela quem sustenta esse saber.

As fotografias guardaram a lembrança daquele instante. Mas o que ficou mesmo foi outra coisa: a certeza de que há receitas que não pertencem apenas ao prato. Pertencem a quem as vive.

E, naquele dia, minha mãe disse isso do jeito mais simples possível:

– "O meu tortéi".

Fonte: Autoria própria (2025)


Buon appetito!

Obs.: Tortéi é uma palavra aportuguesada do italiano tortelli (ou tortelli di zucca), prato típico da região de Lombardia e muito comum em descendentes de italianos aqui no Brasil. É uma massa recheada com abóbora cabotiá.

☆_____________________☆_____________________☆

Arquivo pessoal (autoria de Alan Winkoski)

Rosangela Marquezi é professora de formação e atuação que acredita que a literatura tem o poder de modificar vidas... Graduada em Letras, Mestra em Educação e Doutora em Desenvolvimento Regional, é professora de Literatura na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Faz parte da Academia de Letras e Artes de sua cidade, Pato Branco - PR. Nas horas vagas, escreve poemas, crônicas e contos e já participou de coletâneas e antologias no Brasil e também em Portugal.

*Sustância - personagem fictícia que define a escritora de crônicas que habita em mim, "a ânsia, a substância, a Sustância!" (Marquezi, 2017). 

sexta-feira, 6 de março de 2026

UM CONTO DE SANDRA SAN'TOS

A   R E V O L T A   N O   D E S C A R T E

POR SANDRA SAN'TOS

Imagem Pinterest
Eu não estava sozinho; junto a mim, muitas coisas familiares: livros, revistas, salmos da igreja, roupas, algumas ferramentas de pedreiro, um par de óculos, e outras que não conseguia divisar. Era um lugar escuro, cheio de ruídos desconhecidos, além de um cheiro modorrento a causar-me desconforto.

 Tem mais alguém acordado? Sabem que lugar é esse? – falei, dirigindo-me aos companheiros de destino incerto.

 Eu acho que estamos no lixo. Agora calem-se, porque alguém se aproxima. – respondeu um objeto abaixo de mim.

Seguiram-se sons de sacos se abrindo e caixas sendo rasgadas. Um dos visitantes, considerei que seriam ao menos dois, assoviava um trecho de uma música desconhecida. Sim, só poderíamos estar no lixo, pois conforme andavam, o mau cheiro também era revirado.

 Caramba! Quanta tralha! Só tem porcaria aqui, tô achando que é perda de tempo. Olha isso: livro, remédio, roupas rasgadas, roupas cortadas... Quem jogou não queria que ninguém pegasse. - O som de coisas quebrando denunciava a raiva por não encontrarem nada de valor, ou que lhes tivesse serventia.

 É isso o que acontece com as coisas dos mortos amigo: vão para o lixo. Se eu fosse tua mulher, botava você no lixo. Lugar de tranqueira é no lixo mesmo. – riu da própria piada e completou antes que o amigo lhe respondesse com alguma ofensa:

 Ei, olha só, eu achei um rádio. Eita, que é uma velharia! Será que funciona essa merda? Se não funcionar, vendo as peças e já no lucro.

 Pode ser, mas vambora que eu tô com fome. – retrucou o outro.

Assim que se afastaram, teve início uma verdadeira balbúrdia entre os objetos que jaziam comigo no descarte.

 Isso não é justo, eu ainda estou em boas condições. - gritou o livro de teologia me fazendo duvidar da sua religiosidade.

Imagem Pinterest
 Vamos balançar a caixa com força, todos juntos até virar, assim vão ver que as coisas de valor estão aqui. – sugeriu a chave de fenda enferrujada, que fora enrolada em um lençol.

 Pra quê minha senhora? Sairemos andando? É isso o que sugere? – estamos velhos e sem uso já há algum tempo. Quem estava em boas condições foi destruído antes de ser colocado aqui. Não percebe que nem pra doação nós servimos? – retrucou um disco quebrado.

A essa altura da discussão, a camisa estava em prantos, derramando linhas por todos os lados, enquanto o livro de marcenaria se desesperava com a falta de suas folhas iniciais.

 Quem fez isso estava com raiva. Não se rasga um livro, isso é absolutamente revoltante. – completou o livro de teologia.

Arlindo, meu dono, provavelmente morrera. Eu não tinha mais dúvidas. O burburinho de meus companheiros me cansava, então preferi o silêncio; afinal, eu era o mais velho daquela caixa. Era hora de fechar os olhos, ficar quieto e aceitar meu fim. Me calei, e me abstraí de mim mesmo escutando a chuva que batucava o exterior de nossa caixa.

Meu humano costumava passar muito tempo calado, comigo nas mãos, pensando em sabe-se lá o quê, apenas me observava. Ele me mantivera por hábito e não por necessidade; talvez até por afeto, pois eu, já não exercia minha função há bom tempo. Além de ser objeto de contemplação para Arlindo, eu também servira de brinquedo para sua neta, a menina Clara, que tinha o talento de lhe reacender o olhar.

 Clara, devolve pro vovô. Se você derrubar, vai quebrar, cuidado. – falava mesmo sabendo que eu era um caso perdido. Para mim, não havia mais conserto.

Era isso, Arlindo morrera e eu morreria também, ponto final. Preferi manter-me alheio àquela conversação inútil.

 Talvez ainda tenhamos uma chance. Tem muita gente precisando de algo útil. – arguiu uma luminária antiga.

 Depende do que você chama de útil. – completou o martelo sem cabo.

 Deixa de soberba e verá, sou um bom livro, edição caprichada. Logo estarei servindo a olhos inteligentes.

 Fiquem quietos e ouçam, está chegando alguém... Com passos pequenos, se for criança, não se interessará por nenhum de nós. – interrompeu a chave de fenda.

Era Clara, a neta de Arlindo. A menina passou um bom tempo abrindo e fechando caixas. Vasculhou uma por uma, até que abriu a nossa. Retirou objeto por objeto, mantendo em uma das mãos uma revista da igreja que o avô frequentava, enquanto a outra penetrava no desconhecido. Senti quando fui levado para fora e recostado ao seu peito.

 Clarinha, Clarinha! O que está fazendo minha filha? Porque tá revirando o lixo? – gritou sua mãe do outro lado da rua.

 Mamãe, são as coisas do vovô. Eu preciso pegar tudo de volta.

 Filha, foi sua avó quem jogou tudo isso fora. Ela não vai ficar feliz se souber o que você tá fazendo... E eu, também não quero essas coisas lá em casa.

 Mas, mãe... por que a vovó colocou as coisas do vovô no lixo?

Imagem Pinterest
 Bem, sua avó e seu avô... Não se davam nada bem. Mas, esse é o tipo de coisa que você só vai entender quando ficar mais velha. Agora vem, larga essas coisas aí, que não quero irritar a sua avó. – falou a mãe encerrando o assunto.

A menina havia chafurdado no que restara do avô. Aquelas coisas tinham enorme valor para ela; mesmo assim, antecipando um embate inútil, obedeceu. Não sem antes esconder-me em seu bolso. Devolveu as revistas para a caixa e fechou-a com cuidado, despedindo-se não apenas de coisas, mas de uma pessoa que lhe faria muita falta.

 Adeus vovô – disse em voz alta, sem entender a lógica dos adultos.

Por muito tempo fui seu segredo e dos meus companheiros de caixa, nada mais eu soube.

Passei muito tempo escondido entre livros, roupas, fotos e coisas importantes, até a menina se sentir segura para assumir ter me tirado do lixo.  Quando saí da clandestinidade, fui polido e ganhei uma corrente nova. Nunca mais andei em um bolso, pois esse era um costume de Arlindo. Fui contemplado com um relicário e hoje resido sobre o piano de Clara, de onde a vi crescer e se tornar moça. Vi sua formatura, a vi se casar, assisti a muitos outros momentos importantes, felizes ou nem tanto.

Ela nunca mandou me consertar, porque eu sou uma extensão de seu avô, e ter-me por perto lhe basta. Dele, herdou o hábito de me contemplar longamente, pensando em sabe-se lá o quê. Tal avô, tal neta.

O tempo ensina, e de tempo eu entendo, mesmo que meus ponteiros aposentados mostrem o passar das horas de uma forma diferente. Um dia, Clara também não aparecerá mais e, quem sabe, talvez um dia ela tenha uma neta, e essa me guarde, e aprenda a admirar esse velho relógio que registra em silêncio a caminhada de gerações.

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Arquivo pessoal da autora

Sandra A. Santos é pedagoga com especialização em Educação Ambiental, ambientalista apaixonada pela natureza e pela vida em todas as suas formas. Hoje aposentada, dedica-se à literatura, escrevendo contos, romances e poesias que giram em torno do universo feminino. Com trabalhos publicados em antologias no Brasil e na Argentina.

quarta-feira, 2 de abril de 2025

A DROGA DA VIOLÊNCIA E O MACHISMO

 A DROGA DA VIOLÊNCIA E O MACHISMO

Por Margarida Montejano

Imagem Pinterest
Quando eu e minha irmã éramos crianças, morávamos com nossos pais numa casa humilde. Ao lado, separado por um muro, havia um bar.  Eu tinha doze anos, e minha irmã dez.  Era comum, às noites, os “homens de família”, inclusive meu pai, se reunirem no bar vizinho para relaxar, trocar ideias, rir e beber, enquanto suas mulheres cuidavam da janta, das crianças e dos afazeres domésticos. Assim eram nossos finais de tarde e, quando a gente já se preparava para dormir, era também comum, depois das risadas altas e dos falatórios que transpunham o muro e as paredes do quarto, ouvirmos o som de garrafas quebradas, cadeiras e mesas atiradas nas paredes e gritos permeados de palavrões. Nossa mãe, naqueles momentos, dizia: Essa droga da violência de novo! Por isso é que eu digo pra vocês! Falta educação! Ela começava a cantar a fim de que dormíssemos e aumentava o volume de seu canto para que não escutássemos a tal violência que nos fazia arregalar os olhos tentando identificar o som da voz de nosso pai que, para relaxar, trocar ideias, rir e beber estava no bar. Ela, com paciência, nos acalmava e nos colocava na cama, pois sabia que seria melhor que já estivéssemos dormindo quando ele chegasse.

Minha irmã eu não sei, mas eu fingia dormir, ficava atenta e, muitas vezes, ouvi minha mãe soluçando e rezando sozinha, enquanto aguardava o marido que com certeza chegaria alterado em casa. Por fim, eu acabava dormindo tropeçando nas ave-marias que tentava rezar, no intuito de enfrentar meus medos. No dia seguinte, vendo meu pai irritado pela ressaca e minha mãe com olhos vermelhos de tanto chorar, tomei coragem e perguntei: - Mãe, o que a senhora tem?... é a droga da violência?

Imagem Pinterest

E ela, parecendo entender a razão de minha pergunta, abaixou-se à altura de meus olhos e me disse, quase que cochichando, para que meu pai não ouvisse:

— Filha, a droga da violência é tudo o que sobra quando falta o conhecimento. Ela se instala gratuitamente e vai se fortalecendo aos poucos, cegando, ensurdecendo, enfurecendo e, por fim, destrói o sujeito, que rejeita o diálogo e se abastece de rótulos, de mensagens instantâneas. Confia no que vê e no que ouve...

— Não entendi, mãe! e ela, com paciência tentou outra vez me explicar:

— Presta atenção, meu amor... a droga da violência é a ignorância que, quando se junta à droga do vício e da mentira, fica mais forte, se potencializa e se transforma em estupidez. E, quem sofre com isso, são as mulheres e as crianças. Homens violentos maltratam e matam sem dó e sem se sentirem culpados...  E o pior, minha filha, é que eles acreditam que o que estão fazendo é correto!

— Mãe! a professora falou na escola sobre isso. É por isso que os homens matam as mulheres?   perguntei. 

Imagem Pinterest
Minha mãe, com o dorso da mão secou as lágrimas que corriam no rosto e parecendo refletir sobre minha pergunta, fitou-me nos olhos dizendo: 

— Querida, outro dia vi na televisão um indígena falando uma coisa muito interessante. – E o que ele disse, mãe? – Falou que para a pessoa ignorante, existe a escola, e para aquele que é estúpido, resta a cadeia[*].

E então, parecendo entender o que dizia  levantou-se, pegou minha mão e a mão de minha irmã, sua bolsa e saímos batendo a porta de casa rumo à Delegacia da Mulher!

Naquele dia eu entendi que meu pai era um estúpido.

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[*] Daniel Munduruku

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Arquivo pessoal da autora
Margarida Montejano, mora em Paulínia/SP. É Escritora, Poeta, Contista; Func. Pública na Secretaria Municipal de Educação de Campinas. Defensora ativa dos direitos da Mulher, sendo membra do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Campinas; Coordenadora do Projeto Bem-Me-Quero: Empoderamento Feminino e Igualdade de Gênero e, Produtora do Canal Literário – N’outras Palavras –  histórias que inspiram, no Youtube. Autora dos livros "Fio de Prata" - Ed. Siano (2022); "Chão Ancestral", TAUP Editora (2023) e dos livros infanto juvenis "A Poeta e a Flor" e "A Poeta e a Sabiá", pela Editora Siano. (2024). @margaridamontejano.escritora


sexta-feira, 10 de novembro de 2023

MOSAICO DE IDEIAS: INDIGESTÃO, POR SANDRA SA'NTOS

 MOSAICO DE IDEIAS - SEMEANDO PALAVRAS E COLHENDO BORBOLETAS|04

I N D I G E S T Ã O  (CRÔNICA)

POR SANDRA  SA'NTOS

[Imagem do Pinterest]
Ontem fiz feijoada, um mimo de domingo para agradar a família. Alimentei-os ciente que agradaria mais ao espírito que ao estômago. Carinho de mãe, eles gostam, então caprichei. Hoje, aqui sozinha à mesa, não consigo comer. A comida embola, não desce nem na marra, e mesmo sem vontade, empurro mais uma garfada goela abaixo. Por opção não ligo a TV, evitando as imagens terríveis despejadas em minha casa. Só em imaginar o que passa nos jornais agora, minha fome foge esgueirando-se pelo quintal. Deixo que a culpa me inunde por evitar saber sobre a guerra.

Sim, em 2023 acontece mais uma guerra absurda, se é que algum dia, houve de fato, uma razão lógica para qualquer que tenha sido o conflito. Do outro lado do mundo, tantas pessoas separadas de mim pelo conceito abstrato dos fusos horários, nem sabem se terão o que comer.  Não termino de colocar a comida na boca, pois em meus ouvidos ecoa o som de mais um míssil, ou de incontáveis projéteis em um novo confronto. Só de imaginar a cena, emudeço e o estômago trava.

Cada grão de feijão ganha o nome de uma pessoa abatida em nome de uma causa, e isso me enoja. O choro das crianças inunda minhas noites. Mesmo assim durmo... Ainda bem que meus pais não estão aqui para ver isso. Mais culpa.

[Imagem do Pinterest]

Não sou suficientemente sábia para explanar sobre “motivos”. Sou uma ignorante movida por um pensamento simplista em que a vida é um presente, e assim, precisa ser sorvida com delicadeza e gratidão. Para mim, nada justifica a barbárie e eu, no auge dos meus sessenta e um anos, não consigo entender, muito menos aceitar o que os move. Nem de um lado, nem do outro. Como posso engolir meu feijão se pais, mães, avôs, avós e crianças, provavelmente vão engolir terra? Mastigo a derradeira garfada.

Minha despensa está cheia, enquanto pessoas em bunkers, não possuem perspectiva alguma. Mais cedo fui ao mercado e vasculhei as prateleiras, em busca de cupom de desconto para quem tem um cadastro. Já me pequei comprando coisas das quais não precisava, só pra aproveitar a oferta. Novamente esbarro na culpa, e encaro no espelho a impotência por não ser nada além de mim mesma. Espero que a guerra acabe antes do natal.

[Imagem do Pinterest]

Procuro um motivo que faça algum sentido para dar início a uma guerra e não encontro. As empresas armamentistas as financiam, e a mídia se alimenta delas... Talvez seja isso. Cresci, em meio a conflitos de toda natureza: Vietnã, Afeganistão, Golfo, guerra fria. Uma vez vi uma foto de uma criança nua, correndo em prantos. Me falaram que era vietnamita. Nunca me esqueci o choque ao perceber que crianças podiam passar por algo semelhante. O ano era 1972, eu e ela tínhamos idades próximas, então, o que a fazia tão diferente de mim? Apavorada, fechei a revista.

Do alto da minha ingenuidade, pensei: bom que no Brasil não temos guerra. - Doce ilusão, temos sim, uma silenciosa. Atualmente, nem tanto. Naquele tempo se ouvia à boca miúda, sobre pessoas que sumiam sem deixar qualquer rastro, ouvia-se sobre a tortura e sobre a censura. Essa última, forte e onipresente com poderes para fazer uma palavra morrer na garganta, antes de ser proferida. Só a ela era dado o direito de decidir sobre a pertinência ou a periculosidade das palavras, das músicas, e das reportagens. Mas, artistas e jornalistas, (nem todos), constituíram a resistência, e espalharam por meio de metáforas a ideia de que calar-se, não era uma opção. Eu os amo por isso.

O tempo passou e a censura mostrou-se sábia. Parou de proibir palavras, e soube esperar pacientemente. - Deixe que falem bobagens, incentivem a baderna. Não há a menor necessidade de calá-los. - Infelizmente, deu certo. Surgiu um arsenal de ideias caóticas revestidas de contemporaneidade. Um sem número de subcelebridades que perdeu o nariz, a barriga e a vergonha em alguma cirurgia plástica. Um mar de futilidade se instalou de tal forma que o pensamento crítico se escondeu em alguma toca.  Hoje palavras fúteis jorram de bocas cada dia mais desfiguradas, (quanto mais grossas e carnudas melhor). E eu, culpada por não aguentar assistir TV?  

[Imagem do Pinterest]
Nesse mundo raso, (há exceções Graças a Deus), nossas guerras diárias passam pela desinformação sistemática, pelos Fake News, por um sem número de novidades estéticas, pela inflação, pelo desemprego, e outras mazelas. Vivemos um período em que não há mais defesa de opinião, há embates extremos. Por qualquer bobagem, em nome do entretenimento, pessoas se digladiam defendendo até a morte seu participante preferido, em algum reality inútil.

Para além dessa burrice crônica, facções crescem e se organizam, a Cracolândia povoa a cidade e prolifera seus zumbis, (pobres coitados que já perderam sua guerra pessoal). Acredito que em cada guerra, seja ela solitária ou não, existem dois lados, e de cada lado uma versão. A verdade, talvez, não more em nenhum deles.

Para a minha criança interior, digo: sim, a menina vietnamita poderia ter sido sua amiguinha. Por ela, até hoje perco o sono, e a fome. Como permitimos que crianças passem por tanto medo e por tanta dor?

Sem resposta, afago a criança que fui.  

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Sandra Sa'ntos é pedagoga com especialização em Educação Ambiental, pela faculdade de Saúde Publica da Universidade de São Paulo- FMS/USP. Ambientalista apaixonada pela natureza e pela vida em todas as suas formas. Escritora, dedica-se a poesia e aos contos. Publicou "Jardim dos Silêncios" - Editora Viseu e organiza seu primeiro livros de contos. Além de um romance a caminho. Sua temática gira em torno do universo feminino, com trabalhos publicados em antologias no Brasil e na Argentina. 

quarta-feira, 22 de março de 2023

MOSAICO DE IDEIAS: UM TANGO PARA EULÁLIA, POR SANDRA SA'NTOS

 

[Imagem Pinterest]

MOSAICO DE IDEIAS - SEMEANDO PALAVRAS E COLHENDO BORBOLETAS|03

U M  T A N G O   P A R A   E U L Á L I A 

POR SANDRA  SA'NTOS


Pela música que invade nossas almas, por um sonho, pela dança, pela poesia, e principalmente pela nossa liberdade. Dancemos com Eulália.


O hotel em que estavam hospedados era antigo, chique e pretensamente “Cult”. Tão refinado quanto ultrapassado, lindo mesmo assim. Eulália estava com Jairo em Buenos Ayres para algo que ela considerava uma espécie de lua de mel.

Para ela que crescera em uma família humilde, tudo era novo e deslumbrante. A cidade era especial, as pessoas que passavam pelas ruas combinavam tanto com o cenário que pareciam colocadas ali, apenas para enriquecê-lo. Figurantes escolhidos cautelosamente em um set de filmagem. Mas, apesar da beleza do ambiente, e de toda a preparação para essa viagem, ela tinha uma terrível sensação de estar no lugar errado. 

Apaixonara-se loucamente por Jairo, um argentino bonito e alguns anos mais velho, responsável pela reviravolta em sua vida. Uma paixão incontrolável os envolvera, e há pouco haviam se assumido como casal pois, até então, eram amantes acostumados com a clandestinidade. Talvez, por isso a incômoda sensação de não merecer estar bem a inundava. Tentava bravamente afastar os pensamentos conflitantes que lhe povoavam a mente, acreditando que a aura de criminalidade, ficaria para trás. Depois de tudo o que enfrentaram para ficar juntos, seria natural sentir-se em paz na companhia dele, porém, pelo contrário a sensação de alegria insistia em se afastar.

- Talvez seja apenas uma questão de tempo. É tudo muito recente. – Pensava consigo mesma.

Jairo de todas as formas possíveis, fazia com que ela se sentisse amada. Mas, agora ali longe de casa, a única coisa que ela sentia era medo e insegurança, além de uma latente intuição lhe tirava a tranquilidade. O homem por quem se apaixonara, em alguns momentos, parecia-lhe um estranho, e Eulalia via pequenos sinais que a incomodavam em suas atitudes. Algo não estava certo.

- Será que nos precipitamos? Será que eu me precipitei? – Inconformada com a sensação, estava decidida a fazer o que fosse possível para sentir-se mais calma, afastando como podia os pensamentos para longe.

Saíra de um relacionamento regado a solidão e precisava da atenção que Jairo lhe dava. Mas, havia um “mas” pairando como uma névoa sobre sua cabeça. Tudo se parecia demais com uma mentira. Um lado de sua mente, já havia decretado que tudo não passava de uma grande mentira que agora, ela teria que conviver. Assim, forçava-se a ficar imune aos alertas de sua intuição.

- Como posso não me sentir feliz na companhia dele?  Agora que já estou aqui preciso relaxar e aproveitar todos os momentos – Concluiu, ensaiando uma mudança de postura.

Haviam passeado de mãos dadas pela primeira vez sem incomodarem-se com as pessoas ao redor. Agora assumidos, poderiam fazer coisas de gente normal, livres como nunca se permitiram antes. Almoçaram em um restaurante maravilhoso, foram as compras e tudo parecia perfeito. Desde que chegaram ela sentira-se extremamente bem recebida em todos os lugares que passaram, Eulália sentia-se quase uma conterrânea, na verdade, seu biotipo realmente fazia com que ela parecesse muito com uma filha da terra. Mesmo assim, para ela, algo estava fora do lugar.

Naquela noite, Jairo havia prometido levá-la para conhecer a noite portenha e seus encantos, Buenos Ayres e sua famosa boemia. Eulália tinha um lado que apreciava a beleza das noites e sentia uma curiosidade romântica acerca dos seres que vagam solitários de bar em bar.

Em sua ingenuidade, acreditava que todos os boêmios eram artistas, compositores ou músicos. Nem de longe, se permitiria imaginar criaturas tristes e solitárias vagando sem rumo, objetivos ou sem esperança. Para ela, Jairo meio que retratava essa fantasia, o via como um lindo boêmio, e essa noite prometia. Tango, vinho, boas risadas e muito romance.

Olhando-se no espelho ordenou a si mesma para que fosse feliz. Decida a mudar sua postura, preparou a banheira e deleitou-se com um longo banho, chegando mesmo a adormecer naquela água perfumada e cheia de espuma, enquanto Jairo participava de mais uma reunião de negócios com os produtores de uva. Precisavam encaminhar detalhes da próxima safra, e sua rotina fazia com que se dividisse entre a Argentina e outros países, incluindo o Brasil.  

Maquiou-se, e vestiu sua roupa especial, um belíssimo vestido que Jairo lhe dera especialmente para a ocasião. Um tomara que caia, em tafetá preto, que parecia ter sido feito sob medida, lindo e tão caro quanto seu salário de um mês. Já vestida, parou para admirar-se no espelho, tudo estava perfeito. Mesmo assim, sentiu-se estranha. Ela nunca gastaria tanto dinheiro em uma peça de roupa.

- Talvez deva me acostumar com esse tipo de luxo. – Concluiu terminando a maquiagem e aprovando sua imagem. Estava pronta para a tão esperada noite de tango, mas ali em frente ao espelho apesar de toda a produção, o que viu foi um par de olhos tristes.

- Acho que vou colocar mais rímel, um pouco mais de blush e talvez disfarce. – Foi o que fez.

Eulalia ainda ouvia os insultos e sentia os olhares de desaprovação quando a notícia de seu divórcio se fez conhecida. Fora julgada e condenada por amigos e familiares, enfim, todos os que não se deram ao trabalho de perguntar o porquê. Preferiram fingir não saber o que é possível se viver ou morrer entre quatro paredes. Houve uma espécie de escolha e na caça às bruxas, as mulheres sempre perdem.

- Santa hipocrisia, eu me separo pra viver minha vida com mais dignidade e sou tratada como uma puta. Elas preferem manter as aparências? Então tudo bem, não sei se perdoo, mas com certeza eu supero. A escolha foi sua. Você buscou a liberdade e conseguiu. Agora, bora ser feliz dona Eulália! É uma ordem!!! - Falou em voz alta, certificando-se que a mulher de olhar triste que via refletida no espelho entenderia o recado. Deu uma última ajeitada nos cabelos, e saiu do banheiro.

Jairo já a esperava sentado confortavelmente em uma bela poltrona estilo retrô. Ao vê-la abriu seu enorme sorriso cheio de dentes, pulou em sua direção envolvendo-a nos braços. Ela, uma mulher pequena, ficava completamente escondida no enorme corpo de Jairo e aquele abraço, aquele carinho, aquela demonstração de conforto eram para ela a representação de um excelente momento pro relógio quebrar, e o tempo parar de andar. Um lapso de momento em que Eulália acalmou-se.

- Meu Deus como está linda! Me deixa ver como ficou nesse vestido, minha nossa! Eu sou muito sortudo, o homem mais sortudo de toda Buenos Ayres. - Exclamou Jairo enquanto a girava imitando um passo de dança. Findo o rodopio, olhou-a nos olhos e a beijou com a ternura e a potência que lhe eram características. Seu amor era uma bomba de sensações controversas e irresistíveis. Era um homem bonito com uma figura altiva, de gestos cautelosos e postura de leão.  Trajava um terno caro e bem cortado, que na verdade era a forma que usualmente se vestia.

- Vamos bela senhora Blanco? Senhora Eulália Blanco! Fica chic não acha? - Disse-lhe dando-lhe o braço, e empregando seu próprio sobrenome a ela.

- Senhor Jairo Blanco! Devo pressupor que isso seja um pedido de casamento? - Completou Eulália rindo.

- Vamos bela senhora, a noite nos espera. – Continuou sem responder sua pergunta. Sorrindo e rodopiando sobre si mesmo, ensaiou pequemos passos de dança enquanto atravessavam o corredor de seu quarto de hotel.

Na verdade, casamento não havia passado na cabeça de Eulália. Durante o curto período em que estavam juntos, apesar do envolvimento avassalador, se viam pouco e Eulália tinha consciência quanto a diferença de idade, e de vida entre os dois. Não haviam conversado sobre essa possibilidade, na verdade nem sequer haviam viajado juntos antes. Ela se envolvera com um homem que trabalhava muito e adorava seu trabalho, haviam se conhecido em uma convenção já que Eulália era secretária em uma empresa de eventos.

No elevador, Eulália assistiu confusa Jairo sacar o celular para checar se tudo estava encaminhado no que se referia aos convites e reservas dos convidados daquela noite.

- Convidados, que convidados? Deus do céu, quantas pessoas estarão lá? - Perguntou a si mesma indignada, pois naquele mesmo dia ele havia trabalhado. Imaginou que a noite fosse só deles. Tudo o que desejava era uma noite de romance, como ele a havia feito acreditar que seria.

Algo desabava a sua frente escancarando o que esse talvez viesse a ser a sua vida com ele, escancarando talvez o motivo de suas incertezas. Talvez nunca conseguisse ser importante o suficiente para ele, talvez não seria como agora, sequer consultada sobre algo que também a envolveria. Talvez, os negócios estivessem sempre entre os dois.

Uma nuvem de medo surgiu em seus olhos e quebrou seu espírito. Eulália não gostava de conflitos, e já apreensiva, questionava-se se deveria ou não externar sua indignação e desconforto. Preferiu calar-se, e engolindo as palavras continuou apenas observando enquanto Jairo falava, gesticulava e coordenava a tudo com desenvoltura. Seus olhos encheram-se de lágrimas e ela os baixou para que ele não percebesse. Mais uma vez, fez o que sempre fizera, calou-se como havia se calado a vida inteira.

- Que porra é essa? Não era um jantar romântico? Por que não conversou comigo antes? Por que não me avisou? – Bradou internamente sem nada dizer. A insegurança que ela ensaiara dar fim enquanto se arrumava, havia voltado e ele sequer percebeu. Eulália ainda não sabia, mas Jairo não conseguia ver muito além de si próprio.

O carro já havia andado alguns quilômetros quando enfim, a ligação terminou. O motorista, funcionário de confiança de Jairo, apenas a cumprimentou evitando olhar para ela durante todo o trajeto. Para Eulália isso foi um alívio, pois afastou o constrangimento de sua visível decepção. O destino era relativamente próximo do hotel, e a essa altura, seja lá quem o havia escolhido, fizera um bom trabalho. “La Noche”, um pequeno bar, no charmoso bairro de San Telmo.

Com móveis de madeira escura torneada, piso de ladrilhos brancos e pretos alternados. Lindo, tão lindo que parecia ser parte de outra época. Sentiu-se entrando em um túnel do tempo, num cenário perfeito, da música aos garçons, das pessoas aos cheiros que inundavam o ambiente que ostentava um refinamento único e genuíno.  

Estava encantada e considerou deixar-se levar pelo clima da noite portenha. Talvez não fosse assim tão difícil transformar aquela em uma noite inesquecível. Ela precisava desesperadamente sentir-se viva e havia entrado em um mundo de sonho. Estava deslumbrada.

Como pôde, sorriu e foi simpática com os convidados de Jairo, mesmo que para ela fossem apenas estranhos falando uma língua estranha, e que provavelmente só teriam assuntos que não lhe interessariam. Após algum tempo, abstraiu-se das conversas e desistiu mostrar-se presente na situação. Desistiu das delicadezas ensaiadas e da ausência de Jairo que se ocupou a agradar os presentes. Eulália distinguia sua voz ao longe, já que ele havia se sentado do outro lado da mesa para conversar. 

- Está tão animado e profícuo. Ou será prolixo? Essas conversas são sempre mais do mesmo e eu não vim aqui para trabalhar. Como ele pode fazer isso nessa noite? - Riu do próprio trocadilho.

Distraiu-se analisando tanto Jairo quanto o seu interlocutor, um senhor mais velho que prestava uma atenção sobre-humana nas palavras em suas palavras.

Acho que o homem não colocou direito a peruca. Sim, acho que ele usa peruca. - Cerrou os olhos prestando atenção aos detalhes que pudessem lhe entregar a verdade sobre o caso.

- É, eu estou certa. Aquela quantidade de cabelo sobre sua cabeça não combina nem com seu rosto, nem com os ralos cabelos nas laterais, e a cor é diferente. – Concluiu que a partir de então, seria um ótimo passatempo encontrar defeitos em todos que estavam estragando a sua noite, pelo menos assim, ficaria com uma expressão risonha o que daria a impressão de estar satisfeita.

Foi o que fez com o auxílio do garçom um tanto empolgado com a moça que parecia deslocada. O rapaz, decidira manter sua taça cheia, num bom pretexto para estar por perto numa espécie de flerte proibido. Ela por sua vez, entregou-se inteira as delícias do líquido sagrado.

A imagem de Jairo, aos poucos, desapareceu na fumaça dos cigarros, no som da música, e na leseira daquele bom vinho. Ele tornou-se apenas mais um no meio de tantas pessoas e Eulalia já não estava mais com eles. Estava sozinha como nos longos anos de seu casamento. Estava em um lugar repleto de gente, mas sozinha.

Como não entendia muito bem o idioma, decidiu colocar mentalmente uma legenda nas palavras que jorravam das bocas das pessoas fazendo com que a dificuldade de comunicação, passasse então a diverti-la. Agora a língua que eles falavam já nem era mais tão estrangeira assim.

A liberdade etílica, que captura facilmente aqueles não acostumados ao álcool, fez com que ela se sentisse à vontade consigo mesma. Deixou-se levar pela vibração do ambiente e assistiu extasiada à apresentação musical de três senhores que tocavam acordes perfeitos em instrumentos que ela nem conhecia. Teve a impressão de que o restante dos músicos talvez, estivesse escondido, como era possível, apenas três senhores, só três, inundarem todo o salão com tamanha magia? A harmonia daquelas figuras já idosas, se encaixava perfeitamente ao cenário, e Eulália divagava alternando-se entre o real e a fantasia trazida por Baco.

- Talvez tenham nascido aqui, têm a mesma idade do bar. Acho que bebi demais. - Percebendo o absurdo que pensara, decidiu que era hora de comer alguma coisa, tomar um copo de água, e andar um pouco. Precisava se recuperar antes que alguém notasse sua embriaguez. Levantou-se com calma e dirigiu-se ao banheiro.

Nem se deu ao trabalho de comunicar a Jairo. Cuidou em andar de forma leve e cautelosa para que ninguém percebesse que estava “alta”. Lavou o rosto, retocou a maquiagem, e sentindo-se melhor resolveu retornar à sua mesa. No caminho de volta, distraiu-se com os homens e mulheres bem vestidos, e com a alegria que pairava no ar, sem dúvida era o ambiente perfeito para casais apaixonados.

Voltou a passos lentos, ciente de que havia demorado mais que o normal, mas agora sentia-se bem. Constatou que Jairo que trocara de interlocutor, ainda não voltara para a cadeira ao seu lado, talvez nem tivesse dado por sua falta. Estava contrariada e decidida a não estragar ainda mais a sua noite quando o anúncio da apresentação principal lhe atraiu a atenção.

- Tango! – Exclamou batendo palmas entusiasmada. Ajustou-se rapidamente na cadeira no mesmo momento em que o prestativo garçom, lhe oferecia mais uma taça de vinho que ela mais que prontamente, aceitou. Assistiu à apresentação hipnotizada, pondo-se a calcular o nível de harmonia e entrosamento que um casal de profissionais da dança deve possuir para realizar com tamanha desenvoltura aqueles passos intricados.

- Se o sexo fosse uma música, definitivamente seria o tango. – Concluiu acompanhando com atenção cada movimento. Mentalmente bailou com eles chegando a inferir se fora do palco, também seriam um par. Invejou a dança e invejou aquela moça que rodopiava leve nos braços de seu parceiro. Gostaria de trocar de lugar com ela.

Sem que Eulália soubesse, era praxe ao fim da apresentação que os dançarinos escolhessem pessoas entre o público para dançar, como se fosse uma aula. Entusiasmada acompanhou atentamente toda a movimentação. A moça, após andar um pouco, convidou um senhor grisalho e tímido de uma mesa no lado oposto do salão. O rapaz sem nenhuma hesitação, assim que se separou da parceira, buscou por Eulália e a olhou fixamente. Caminhou em sua direção com a determinação de quem sabia muito bem o que queria. Queria Eulália. Parou em sua frente, sorriu e estendeu-lhe a mão.

Com o coração acelerado, mais que depressa ela aceitou o convite e saíram de mãos dadas rumo a pista de danças. Já no meio do salão lembrou-se de Jairo, dirigiu seu olhar a ele procurando talvez, um sinal de aprovação que não recebeu. Pelo contrário, ele a observava com um misto de surpresa e raiva. Sua reação negativa não a demoveu. Era visível que ele estava perplexo e que se pudesse dizer algo naquele momento, com certeza a impediria. Eulália olhou a sua volta, e recebeu a aprovação do bar inteiro por meio de palmas e palavras de incentivo, para ela e para o senhor tímido que agora sorria. Era isso o que todas as mulheres naquele bar queriam, e era isso o ela queria. Esqueceu-se de Jairo, e se entregou ao tango como antes se entregara ao vinho.

Nos braços daquele estranho fascinante se deixou conduzir como uma amante que flui nas mãos de seu homem. Olhavam-se fixamente e ela agiu como se dançar lhe fosse algo costumeiro, como se eles já houvessem ensaiado aquela dança muitas e muitas vezes.

Há uma aura que emana de um corpo para outro em uma fluidez simbiótica que vem com a dança. Quando corpo e alma se misturam a uma melodia tornando-se parte dela de tal maneira, que entre dois estranhos nasce uma cumplicidade que só existe no compasso da música. Eles haviam entrado nesse universo.

Naquele bar antigo nascia uma Eulália atemporal, sem medo de lançar-se ao desconhecido. Deixou que todas as sensações pulsantes do momento, invadissem sua alma. Uma Eulália que vivia aquela fantasia sem medo de ser feliz. Ela rodopiou nos braços daquele homem, nos braços do tango e da poesia que faltava em sua vida. Esqueceu-se da tristeza e do medo. Ali não havia pecado, havia apenas a euforia da liberdade.

Não havia passado. O presente era mágico. E quanto ao futuro?

Bem... Nesse ela pensaria depois. 

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Sandra Sa'ntos é pedagoga com especialização em Educação Ambiental, pela faculdade de Saúde Publica da Universidade de São Paulo- FMS/USP. Ambientalista apaixonada pela natureza e pela vida em todas as suas formas. Escritora, dedica-se a poesia e aos contos. Publicou "Jardim dos Silêncios" - Editora Viseu e organiza seu primeiro livros de contos. Além de um romance a caminho. Sua temática gira em torno do universo feminino, com trabalhos publicados em antologias no Brasil e na Argentina. 

terça-feira, 7 de março de 2023

#8M# MARIAS - DEUSAS SIDERAIS, POR ISA CORGOSINHO


MARIAS - DEUSAS SIDERAIS[1]

Para as Enluaradas que recriam o mundo com a poesia

POR ISA CORGOSINHO

[Imagem Pinterest]

Nenhum deus precede à noite profunda da deusa Nix. Exausta das solidões do universo, mergulhou ad infinitum numa espiral de si mesma, centrifugando, para seu incomensurável ventre, constelações e outros astros desavisados e curiosos que a rondavam, seduzidos pela voracidade de suas bordas sugadoras de luz. 

Da gestação milenar de Nix, regente da noite, nasceram as três Moiras: Cloto, a primogênita, responsável por fiar partos e nascimentos, com suas mãos trajadas de aurora injetou a luz primordial nos olhos recém nascidos da vida.  

A segunda filha da deusa era Láquesis responsável por puxar e enrolar, com zelo de artesã cósmica, o fio tecido por Cloto, sorteando o quinhão de atribuições que se ganhava em vida. A terceira filha de Nix, Átropos atuava com suas longas e delgadas unhas de foices reluzentes e afiadas, cortando destemida o fio da vida, juntamente com Tânatos e outros comparsas amigos da morte. 

[Imagem Pinterest]

Lá estavam as três Moiras, também conhecidas como Parcas, girando a cíclica harmonia da máquina cósmica, nas irrevogáveis funções de presidir gestação e nascimento, crescimento e desenvolvimento, e o final da vida, quando avistaram as Três Marias e o cenário que se formava na criação de Gaia. 

As Marias, viajantes do deserto sideral, levitando para além desses céus de nossos céus, avistaram Deus – viajante das planícies incomensuráveis do vazio. Apiedaram–se de um Deus assim tão triste, petrificado em eras de solidão. Comoveram-se com um Deus assim tão só, sem destino nas solidões mudas, privado de toda experiência de vida, preso à trama de sua criação infinita.    

[Imagem Pinterest]

Por amor ao Deus tão triste, criaram Gaia:  convocaram os mais de 30 milhões de sóis na Via Láctea, e escolheram apenas um. Desceram numa poeira de pérolas de ouro, levantada pelo sopro da gratidão das Moiras. Criaram as mais exuberantes formas da flora e fauna, mas o coração de Deus permanecia mudo, destoando de toda criação.

Vaticinaram as Deusas siderais: _ Deus, terás pela frente o seu mais longo e árduo trabalho. Seus filhos e filhas terão as mais conscientes e belas formas da matéria animal, mas serão infinitamente mais tristes que o pai; serão irascíveis e amáveis; do pai herdarão a capacidade infinita da criação; serão capazes de habitar outros sóis, outras dimensões: o pensamento, a linguagem, a música, a dança, a pintura, a escultura e a poesia serão suas crias e os ensinarão a conviver com a luz e a sombra que habitam seus corações.

[Imagem Pinterest]

Do berço das Deusas ancestrais, aos terráqueos foi ofertado o Jesus menino. O irmão incansável e solidário dos homens e mulheres, o filho dileto das Deusas e Deus. Com esse homem menino, os seres devem aprender a não declinar da justiça, da paz e dos sonhos.

São elas as mães do planeta, Marias povoam o mundo desde a tenra idade dos pés de Gaia. Lá se vão bilhões de anos que a Terra vem girando: na rotação do amor e na translação de suas saias.

Isa Corgosinho

08/03/2023



[1] A primeira versão desse conto foi publicada na Coletânea Salvante V: Reminiscência do tempo. Organizadora: Vânia Clares; Diversos autores. 1. ed. São Paulo: Sarasvati Editora, 2022.     

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[arquivo pessoal a autora]

Isa Corgosinho é de Brasília/DF, professora universitária aposentada, poeta. Participou de várias Coletâneas, entre elas: Coletânea enluaradas (2021); 1ª Coletânea Mulherio das Letras na Lua (2021); Coletânea Ciranda de Deusas I e II (Enluaradas Selo Editorial, 2021); Poesia & Prosa (In-finita, Portugal 2021); Livro Memórias da pele, Venas Abiertas – III – Mulherio das Letras, 2021.

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