domingo, 8 de março de 2026
O DIA INTERNACIONAL DA MULHER
terça-feira, 23 de dezembro de 2025
NÃO ESTAMOS SOZINHAS!
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"E, por que nos matam? Porque somos mulheres."
Cara leitora, caro leitor!Estamos às vésperas do Natal e nunca a presença do amor e da empatia se fez tão necessária! Convido aquelas e aqueles que se engajam no movimento feminista para esta reflexão, me embasando no poder da poesia, que grita e se expõe sem medo, à espera de que as palavras aqui reunidas encontrem eco e façam sentido a partir do poema ANUNCIAÇÃO (Margarida Montejano/2023):
Anuncia a
mulher que labuta, que urra, que luta,
briga pelo pão,
insiste contra o não e é o que pretende ser.
Anuncia! explica
a mulher que abre a porta para o dia,
que enfrenta
a rotina de se saber aflita.
Enquanto o
infinito não vem, anuncia,
arregaça as
mangas da avó, da mãe, da filha e grita:
Quem mandou matar Marielle?
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E, por que nos matam? Porque somos mulheres. Porque ousamos pensar e desafiar a ordem estabelecida que enfatizou e enfatiza que sempre foi assim e que assim deve ser. Recusamos a ideia de que existem papeis específicos para cada gênero e que estes devem ser propalados e perpetuados, pelos séculos dos séculos.
Essas pseudocertezas, repetidas ao longo do tempo de maneira intencional pelas instituições, família, igreja e sociedades, produziram e produzem, o empoderamento dos homens, engendrando uma estrutura social baseada no modelo patriarcal hierarquizante. Nesta forma de atuar historicamente sobre as gerações, foram e vão se solidificando as convenções, tendo como base formativa a misoginia, sustentada pela prática de ações sexistas e machistas de homens frágeis e fracos emocionalmente. Forjados para serem fortes, são eles educados para não desenvolverem em si o afeto, a empatia, o cuidado. Homens que, seduzidos por um suposto poder e força, não conseguem lidar com contrariedades e, por isso, violam a consciência, ferem, estupram, desqualificam, desfiguram o corpo e o rosto e, por fim, assassinam as mulheres com requintes de perversão e crueldade.
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Sem escrúpulos, muitos compartilham nas redes sociais sua valentia desprovida de qualquer traço de empatia e de humanidade, expondo a crueldade do ato em si, gratuito na aplicação e rentoso na execução, pois algoritmos sobem e monetizam. Assim quanto mais brutal e degradante for a ação criminosa sobre o corpo da mulher, mais rentável será e maior repercussão terá entre os grupos de homens que propagam o ódio às mulheres.
É uma realidade amedrontadora, que se articula com base no interesse econômico, visando a manutenção do patriarcado e é amplamente disseminada pela força midiática. Em 2023, num evento em Campinas, a atriz e cantora, Elisa Lucinda, comentou sobre esses acontecimentos: “Colocamos filhos no mundo para nos matar”. Esta afirmação contundente encontra eco na literatura e na voz feminina gritando que, quando uma mulher é assassinada, todos, de algum modo, morrem!
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Por isso essa estrutura misógina, diz Virginia Woolf, teme o Feminismo, porque sabe que este movimento social, político e ideológico reivindica a igualdade social, econômica e política entre homens e mulheres, a autonomia feminina e o fim da violência contra a mulher. Essa luta carrega em seu ventre o sangue e a força ancestral de mulheres que resistiram às atrocidades por eles já cometidas e que, por conta disso, tem o poder de vislumbrar relações que reconheçam incondicionalmente os direitos da mulher.
Nesse cenário desafiador não tem como não apostar na educação, pois o conhecimento esclarecedor se transforma no instrumento eficaz para combater o ódio. Erika C. Furlan acrescenta que “O importante é sempre prevenir, o que é muito difícil numa sociedade em que o machismo é estrutural e a disseminação de grupos conservadores misóginos alimentam o imaginário e o ideário de homem macho varão provedor e mulher submissa. Deste modo, a formação de crianças desde cedo é o caminho mais seguro para se desconstruir, através do desenvolvimento da consciência histórica e, sobretudo crítica, o quanto essas práticas seculares nos violentaram e subjugaram.
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É
preciso entender bem esses conceitos. O machismo se revela por comportamentos,
opiniões e sentimentos que consentem e validam a desigualdade de direitos entre
os sexos. Por isso admite que a mulher, por ser considerada inferior ao homem,
possa ser subjugada motivando a violência contra ela e a sua repetição, via de
regra, pode conduzir ao feminicídio. Por sua vez, o sexismo é a crença de que
homens e mulheres devem ocupar papéis específicos, os quais são determinados
com base no sexo, envolvendo brinquedos, atividades, cores e tipos de roupa
etc. Ao se desobedecer ou contrariar esses padrões, se reforça e se estimula o
ódio às mulheres, justificando condutas amparadas na convicção de que elas
necessitam ser controladas e punidas.
Frente à tragicidade que esses episódios representam, torna-se indispensável que a
misoginia seja considerada crime hediondo inafiançável e que o controle
rigoroso das redes sociais possa se constituir num instrumento capaz de
neutralizar e combater os estímulos à violência de gênero. Porém, mais
importante é a implementação nas escolas de projetos educacionais que vise,
desde a infância, uma sólida formação embasada na proteção dos direitos da mulher, conforme o Art.5º da Constituição Federal de 1988.
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Não
se pode baixar a guarda jamais, pois a estrutura patriarcal é ardilosa, não
dorme nunca e está sempre à espreita para nos devorar e submeter com as
ferramentas de que dispõe. O demônio que
estupra e mata mulheres e crianças é um homem que teme a convivência em
condições de igualdade, a empatia nos relacionamentos e a força feminina.
Nossas Ancestrais estão em vigília constante nos inspirando a renovar nosso
poder intuitivo e a força vital de nossas entranhas! Não desanimemos! Não estamos sozinhas!
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segunda-feira, 22 de dezembro de 2025
62 ANOS ! (SOBRE)VIVER É UM ATO POLÍTICO
"Escrevo porque a palavra sempre foi minha ferramenta de sobrevivência."
Hoje completo 62 anos. Entrego minha idade com velas mágicas e com o corpo inteiro aceso. Celebrar a minha vida como mulher, neste país onde mulheres são interrompidas diariamente, é um gesto que carrega peso histórico, ético e político.
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| Arquivo da autora |
Enquanto escrevo esse texto, penso nas Tainaras, Isabelas e milhares de outras que não chegaram até aqui. Penso nas mulheres cujos aniversários foram silenciados pelo feminicídio, essa chaga social que o sistema não consegue encontrar a cura, e que lobos disfarçados de cordeiros romantizam dizendo ser adquirida do amor e do ciúme, mas que na verdade ela existe simplesmente pelo fato de sermos mulheres, pelo ódio, pelo controle exercido pelo patriarcado e pela certeza de que nossos corpos são territórios de posse. Na verdade, a culpa é do machismo estrutural que disfarça de homicídio os crimes misóginos.
Simone de Beauvoir já nos alertava que não se nasce mulher, torna-se, isto é, aprende -se a ser mulher dentro de um sistema patriarcal que impõe normas, papéis e silenciamentos. Muitas mulheres são brutalmente interrompidas não por não alcancarem esse "tornar-se ", mas por desafiarem ou não se ajustarem às expectativas que lhes são impostas.
Para uma mulher que chega aos 62 anos, num país que ocupa a quinta maior taxa de feminicídio do mundo, é atravessar um campo minado com passos insistentes. É ter sido menina afetiva e tímida, adolescente intensa e romântica, sem imaginar que ser mulher é ser subjugada, objetificada e coagida. É ter acreditado no amor, lutado em meio a um casamento abusivo e ainda ter se reinventado como mãe solo, leoa, colo, sustento e abrigo.
Minha história pessoal não está dissociada da história coletiva das mulheres. Como escreveu Bell hooks, o amor, para nós, nunca foi neutro, ele sempre precisou ser reaprendido fora da lógica da dominação.
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| Arquivo da autora |
E hoje eu celebro meu aniversário escrevendo com prazer, como mulher e como escritora, porque escrevo com o corpo que amou, viveu, perdeu e resistiu. Escrevo porque a palavra sempre foi minha ferramenta de sobrevivência. Audre Lorde dizia que transformar o silêncio em linguagem e ação é um ato de coragem. E eu escrevo para fazer barulho, porque sei que o silêncio mata e não apenas metaforicamente.
O feminicídio não é um desvio de conduta individual. É o ponto extremo de uma cultura que naturaliza a violência contra mulheres, que relativiza agressões, que pergunta “o que ela fez?” em vez de perguntar “por que ele matou?”. Djamila Ribeiro nos lembra que não existe neutralidade quando a estrutura é desigual. Celebrar minha vida hoje, aos 62, é também denunciar essa estrutura.
Minha existência é prova, minha maturidade é prova e minha escrita é o carimbo.
Cada ruga que carrego não é sinal de desgaste, mas de permanência, de permanecer viva, lúcida e criativa, escrevendo sobre o feminino num mundo que insiste em nos apagar.
Isso para mim é uma forma de insurgência.
Hoje não celebro apenas mais um ano de vida, celebro o direito de continuar, celebro as mulheres que vieram antes de mim e abriram caminhos, celebro as que caminham comigo. E como ser humano sinto os rasgos na minha pele com indignação e compromisso por todas as que não (se)ssentaram e sim ficaram com os corpos estendidos ao chão.
Que minha voz aos 62, ecoe como denúncia e manifesto. Porque enquanto uma mulher for morta por ser mulher, nenhuma de nós estará inteira. E ainda assim estamos aqui:
Escrevendo, vivendo e resistindo.
FEMINICÍDIO
Matam em casa todo dia uma mulher!
A voz sufocada
Pincelada de sangue
Reside nas paredes
Ecoa na sala o noticiário
Agredindo os tímpanos
Na surdez da lei
Tudo é corriqueiro
Mas a dor velada das Marias
Rasga a minha pele
E do meu verso perplexo
Arranco o silêncio
Enterrado no sexo
E eu grito na poesia :
Basta! O machismo já fede!
♡__________________◇_________________♤_________________♧__________________♡
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| Arquivo da autora |
domingo, 11 de agosto de 2024
CONTAR A PRÓPRIA HISTÓRIA É UM ATO POLÍTICO, POR MARTA CORTEZÃO
Por Marta Cortezão
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| Fonte: @artivistha - Thais Trindade |
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| Fonte: @artivistha - Thais Trindade |
No momento que escrevia o parágrafo anterior, lembrava do poema Não há oásis no deserto, da escritora gaúcha Cátia Castilho Simon, publicado na coletânea Se Essa Lua Fosse Nossa (Ser MulherArte Editorial, 2021):
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| Fonte: Pinterest |
Não há oásis no deserto
Hoje foi a vez da diarista e outras mais
O jornal anunciou o assassinato de cinco mulheres por seus homens
Outro dia uma juíza foi morta na frente das filhas
Em outros dias, horas, meses, anos,
Agora, agorinha
Por séculos dos séculos, amém e ai de nós
Elas têm se revezado como em uma corrida em meio ao deserto
Uma a uma acredita no oásis e sucumbe:
A bruxa
A frentista
A cabeleireira
A advogada
A professora
A escritora
A costureira
A médica
A manicure
E assim vão morrendo de morte matada, todas
Não há filhas nem filhos capazes de salvar daquele que se entende
escarnecido, ainda que seja o pai
Era necessário esfaquear dezesseis vezes para que voltasse ao seu lugar
Sucumbir diante das filhas ou filhos é um morrer sem fim,
É cortar o osso e segurar a dor
Doca Street, o assassino de Angela Diniz, morreu aos 86 anos há poucos dias. Morreu de morte natural, 44 anos após o crime, como um justo que nunca foi.
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| Fonte: @artivistha - Thais Trindade |
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| Fonte: @artivistha - Thais Trindade |
Falsa igualdade
Aqueles que pensam
que o vírus é igualitário
Se enganam
Ele tem endereço
certo para levar a morte
Os corpos
estendidos na frente dos hospitais lotados
Sabem bem que eles
são alvos de extermínio
Quem nada tem para
comer
Com o corpo fraco
Com baixa
imunidade
Sabe o quanto lhe
cabe e é para si essa morte
Que ronda as
cidades
São os pobres
São os pretos
Que ficam lançados
no vazio do descaso
Que nem
contabilizados são
Apenas restam mais um e um… corpo no chão
(fonte: https://revistaacrobata.com.br/anna-apolinario/poesia/4-poemas-de-jeovania-p/)
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| Fonte: @artivistha - Thais Trindade |
Canção dos corpos
Sob o luar
Ao longe
Ouço o uivo das lobas
Bruxas em círculo de
irmandade entoam
Canções de liberdade
Entre as árvores
As estrelas brilham
Enquanto o patriarcado
ataca
Elas atiçam o fogo
Em danças circulares
Acordam ancestralidades
Declaram que seu corpo
Não tem
proprietário
Num coro ritmado
Entoam
As canções dos corpos
Que falam.
Somos mulheres sobreviventes de um sistema que oprime e mata. A nossa revolta é legítima e política porque, não só nos conecta com outras mulheres, mas com nossa própria essência. Que nos emancipemos do patriarcado, que nos autorizemos a dizer sem medo, a construir espaços para diálogos conscientes através de nossas lutas.
☆_____________________☆_____________________☆
Cátia Castilho Simon é escritora, doutora em estudos da literatura
brasileira, portuguesa e luso-africanas/UFRGS. Publicações solo: Nos
labirintos da realidade – um diálogo de Clarice Lispector com Machado de Assis
(Prêmio UBE/RJ, 2014); Por que ler Clarice Lispector? (POA:TDA, 2017); Rastros
de Estrela (contos), 2022; Não há oásis no deserto (poesia) – Venas
Abiertas, 2023; Brigite – (infantil), ilustração Liana Tim, 2023. É
coorganizadora do Digressões Clariceanas, desde 2021. Integra o Mulherio das
Letras/RS, é vice-presidenta cultural da AGES, 2023/2024.
Jeovânia P. é escritora, professora, mestre em Filosofia. Nasceu
em Natal/RN, vive em Bayeux/PB. Publicações: seis livros poesias, um de contos,
e organizou nove coletâneas. Tem o selo e o canal no YouTube Literatura
Feminina, onde desenvolve o projeto “Bom dia com literatura feminina!”. Faz
parte da UBE/PB. É patrona da cadeira 27 da Academia Bayeuxsse de Ciências,
Letras e Artes. Participou da XIV Bienal Internacional do Livro de Pernambuco.
Leacide Moura nasceu à meia noite, no meio do mundo, na lua nova,
às margens do Rio Amazonas, em Macapá/AP, pelas mãos de parteira tradicional. É
mãe, avó apaixonada de Maria e Arthur, professora, sindicalista, ativista da
literatura, meio ambiente e empoderamento feminino. É da prosa e do verso,
organiza obras e tem participação ativa na literatura nacional.
quarta-feira, 22 de novembro de 2023
NA TRILHA DO FEMININO: LARGADA DOMÉSTICA, DE RILNETE MELO
Era uma segunda-feira, dessas do tal calorão de 39° que quase fritava meus miolos e fritava também ovo no asfalto, dessas em que o dia branco, na verdade foi cinza; Do bombril impregnado nas unhas, pó de casa varrida no pé e massa cinzenta pensando debaixo do chuveiro: Tenho que fazer isso, depois isso, amanhã aquilo... E eternamente isso!
Exausta, depois de me virar nos 30, marido já dormindo, ponho um cafezinho na xícara, destravo o celular para escrever alguma coisa, embora com o corpo pedindo arrego, a mente ainda escrevive! Passeio pelo Instagram e vejo, enfeitando o feed viralizado, o tema da redação do Enem 2023: “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”.
Mas o comentário que me desafiou a escrever essa crônica foi lançado para mim em um post recente, quando ainda nem tinha ideia do tema da redação e já abordava exatamente sobre a invisibilidade do papel da mulher desde os tempos mais remotos até os dias atuais, que é cuidar, amar, cuidar... E no profícuo ofício de cuidar, mendigar amor! E o famigerado machista, agora já deletado do meu perfil e denunciado, de pronto comentou: “Se você conseguir descarregar caminhão, trocar pneu de jamanta e emboçar parede, pra senhorita eu dou “A taça cacete", (me diz aí quem não soltaria as cachorras??).
Saiba muito bem, pai da Santa ignorância e do olho cego, que se tivesse olimpíadas para o trabalho doméstico, não haveria taças para tantas vencedoras! Dada a largada, a categoria “Excesso de cuidados" subiria ao pódio ao som de uma “Ave Maria", pois, no silêncio rotineiro da mulher, o cuidado doméstico soa como uma música piedosa que é (in)visível, embalando as protagonistas nos bastidores do cotidiano.
Na sociedade capitalista, a relação de poder do homem em detrimento da mulher, ouço dizer que se “dá(va) “?? pelo fato do homem ser responsável pela renda familiar, mas o mercado de trabalho foi aberto para as mulheres e a conta ainda não fechou, pois agora é dobradinha:
“Trabalho e cuidados".
A verdade é que, em pleno século XXI, a mulher ainda é o “anjo do lar”, e que anjo!! Carrega nas asas o peso do trabalho dobrado, dentro e fora de casa, no sonho de alçar voo rumo à igualdade de gênero e à equidade.
“Desde que me lembro de ser gente, lá em casa, quem dobrava os lençóis da cama era eu, minhas irmãs ou mamãe", porque isso era serviço de mulher! Isso tem mais de meio século e os lençóis ainda não chegaram nas mãos dos homens, pois eles não sabem dobrar as pontas iguais, afinal, de igualdade o universo masculino nada quer saber, né? E se sabe, ainda pergunta onde fica.
Lembro que minha avó costurava, fazia crochê, consertava guarda-chuvas, fazia a comida, varria a casa, passava a roupa no ferro de brasa, e fazia e fazia, e ainda ajudava meu avô a plantar e colher, botava a comida dele na mesa e, no final do dia, ele pedia o lençol para dormir, pois não sabia onde estava... Será que lembrava de agradecer?. Fala sério, mudou alguma coisa? Um tantinho? Nada? Coisa nenhuma?
Conquistamos sim, quebramos alguns tabus e estereótipos, como o direito ao voto e ao trabalho desigualmente remunerado, mas há um trabalho (cuidado) eterno que continua invisível, o status quo “gestão do lar”, sempre na manutenção das condições observadas.... Casa varrida, roupa lavada, fralda trocada, mamadeira pronta, comida no prato, cama arrumada... Na verdade é uma verdadeira “Largada doméstica” apenas com ponto de partida.
E aqui eu deixo um poema de minha autoria para que possamos refletir sobre nossa saúde mental, sobre o excesso de cuidados para com o outro e das situações estressantes às quais nós mulheres estamos mais propensas e sem reconhecimentos.
LARGADA DOMÉSTICA
Lambeu o chão,
esticou a língua
ao sal
e correu para a panela,
como sempre correu contra o
tempo.
Cozinhou os sonhos,
o prazer,
a vida.
- Do menu servido
no prato cotidiano -
a carne parida,
o amor ofertado,
e o reconhecimento
ao molho.
☆_____________________☆_____________________☆
quarta-feira, 15 de março de 2023
NA TRILHA DO FEMININO: MINHA IDADE NÃO ME DEFINE, POR RILNETE MELO
Dá uma coceira no meu cérebro quando vejo circulando na mídia assuntos que ferem a figura feminina. "ETARISMO", "IDADISMO", "AGEÍSMO", nada além de denominações para um preconceito patriarcal antigo. Sim! Um preconceito que coloca no "congelador social" exclusivamente as mulheres, pois eu senti na pele esse bullying nefasto ao entrar na faculdade depois dos 40 anos, enquanto havia, na mesma sala, homens de 50, com os ouvidos virgens eu ouvia: "Nossa! Você dessa idade fazendo faculdade!" ou "Você já tem mais de 40, mas nem parece!"... Esses comentários, embora disfarçados de "boas intenções", vinham carregados de preconceitos, pois eu era excluída dos grupos das "novinhas" nas apresentações acadêmicas, entre outros eventos, ficando nos grupos dos que se aproximavam da minha idade.
Quem nunca ouviu: "menina, você já está na idade de casar!", (Eu casei aos 27 anos) ou "você foi mãe muito tarde!" (Fui mãe aos 28 e aos 31)... Tempo limite imposto por uma sociedade machista! Está arraigado
na memória da sociedade, mas é tempo de dar um basta nessa intolerância que
supervaloriza a juventude de uma mulher. Homem coroa é um charme, se casar com novinha é elogiado por sua
virilidade, mas se mulher coroa casa com novinho é uma ridícula, assanhada e por
aí vai... É hora de combater esses
estereótipos e mostrar ao mundo que envelhecer faz parte do ciclo natural da
vida e não amputa a nossa capacidade de criar,
de ser, de viver, de lutar por nossos objetivos e fazer o que a gente
quiser!
Há alguns dias postei uma "geladinha" na mesa de um bar e não me faltaram comentários: "Você ainda bebendo?", cuidado! Hein?"
Que é isso? Homem com 60 pode, né? Calma!! Eu não estou passada, o viço não morre, as vontades não cessam e quando meu corpo sinalizar o alerta, serei suficientemente madura para canalizar meus limites. Acredito que meu espírito só envelhece se eu permitir, e não vou aceitar o desrespeito, o desprezo, os estigmas e as humilhações que minhas rugas possam vir lhe causar. As minhas limitações serão autoimpostas por minha necessidade de controle.
Na obra "A velhice " , Simone de Beauvoir propõe que uma pessoa não deve se aproximar do fim da sua vida de mãos vazias e solitárias , mas que para isso é necessário refazer completamente a humanidade... É sobre ressignificar esse pensamento deturpado da sociedade, de que ficamos ultrapassadas com a idade, que devemos lutar para desafiar o sistema e fazer acontecer.
Liguem o alerta, queridas companheiras! Vamos mostrar a essa sociedade patriarcal que estamos lutando contra essa força maldita e não vamos nos calar!
Já CONQUISTAMOS muito, mas precisamos “desenhar” o percurso para que possamos
chegar ao topo.
Será difícil atingirmos uma sociedade igualitária, pois vivemos em uma distopia marcada pelo
preconceito, violência e opressão de gênero,
porém se unirmos forças e plasmarmos novos conceitos poderemos esvaziar
muitos estereótipos e discriminações.
Foram infelizes as "novinhas" que hostilizaram a
universitária Patrícia Linares, pois creio que elas não sabem que mulheres de 40 são "AS LOBAS", as
que sexualmente são bem resolvidas, têm
no rosto as marcas das emoções sentidas e vividas, e experiência suficiente para saber onde
querem chegar, sem menosprezar as fases já passadas e as que irão passar com
maturidade.
Pois é! Já passei dos 50, lancei meu primeiro livro solo em 2022 e acredito que foi cedo, pois sonhos não tem idade. Quanto ao meu corpo, as pedras que encontrei pelo caminho moldaram-o a cada tempo vivido, acumulei com perfeição as experiências e vesti minha pele de elegância espiritual, trago as marcas das emoções sentidas e domino a arte de seduzir através da poesia, meus cabelos têm a cor da minha alma, deixei e continuo deixando pegadas por onde passo, pisando forte no solo que plantei horizontes eu vou em busca dos meus objetivos, até enquanto sentir o sopro da vida, pois MINHA IDADE NÃO ME DEFINE.
Feminário Conexões, o blog que conecta você!
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