Mostrando postagens com marcador Margarida Montejano. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Margarida Montejano. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

E O NOVO, MESMO QUE NÃO QUEIRAM, VIRÁ!

E o que virá traga de novo / nosso olhar leitor de estrelas

Por Margarida Montejano

Imagem Pinterest

Virá.

Era ontem, virou hoje.

Era passado,

virou presente.

Éramos crianças

viramos adultos.

Era sonho,

virou realidade

Éramos desconhecidos,

viramos amigas, amigos.

Éramos inocentes,

éramos. Éramos…

Tornamo-nos conscientes?

Quem sabe!


Que nossa consciência esteja atenta

à preservação da vida,

das florestas, do planeta.

Aos cuidados com a saúde

do corpo, da alma e da mente.

A do outro e, a da gente.


E do que  éramos ontem,

sejamos seres melhorados

e, da força do mal,

curados.


E o que virá, vire história 

de amor,

de compaixão e solidariedade.

E o que virá, resgate da memória

os nossos sonhos, fantasias, 

a nossa criança! 


E o que virá traga de novo

nosso olhar leitor de estrelas,

nosso ser de encantamento  e  de possibilidades, 

capaz de compor poesia e esperança.


O que éramos, o que somos e o que seremos?


O bem nos acena e 

nesta cena o que é que se faz? 

Sejamos o bem!

Sonhemos juntos de novo!


Que  o ano de 2026 seja bom e supere 2025.

Que os nossos sonhos se tornem o bem.

EM NOME do AMOR, DA VIDA E DA PAZ, 

AMEM, AMÉM!


Feliz Ano Novo!

☆_____________________☆_____________________☆

Arquivo da autora
Margarida Montejano, mora em Paulínia/SP. É Poeta e escritora feminista; Func. Pública na Secretaria Municipal de Educação de Campinas. Defensora ativa dos direitos da Mulher, sendo membra do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Campinas; Coordenadora do Projeto Bem-Me-Quero: Empoderamento Feminino e Igualdade de Gênero e, Produtora do Canal Literário – N’outras Palavras –  histórias que inspiram, no Youtube. Autora dos livros Fio de Prata - Ed. Siano (2022); Chão Ancestral, TAUP Editora (2023) e dos livros infanto juvenis A Poeta e a Flor e A Poeta e a Sabiá, pela Editora Siano. (2024). Para contatar com a autora: @margaridamontejano.escritora


terça-feira, 23 de dezembro de 2025

NÃO ESTAMOS SOZINHAS!

Imagem Pinterest

"E, por que nos matam? Porque somos mulheres." 

Cara leitora, caro leitor!

Estamos às vésperas do Natal e nunca a presença do amor e da empatia se fez tão necessária! Convido aquelas e aqueles que se engajam no movimento feminista para esta reflexão, me embasando no poder da poesia, que grita e se expõe sem medo, à espera de que as palavras aqui reunidas encontrem eco e façam sentido a partir do poema ANUNCIAÇÃO (Margarida Montejano/2023):

Anuncia a mulher que labuta, que urra, que luta,

briga pelo pão, insiste contra o não e é o que pretende ser.

Anuncia! explica a mulher que abre a porta para o dia,

que enfrenta a rotina de se saber aflita.

Enquanto o infinito não vem, anuncia,

arregaça as mangas da avó, da mãe, da filha e grita:

Quem mandou matar Marielle?

Imagem Pinterest
E assim tem sido. Uma menina, uma mulher, duas mulheres, três, quatro, dez...  De acordo com o Mapa da Violência de Gênero, no primeiro semestre de 2025, 718 feminicídios foram registrados em todo o país  — uma média de cerca de 4 mulheres mortas por dia pelas mãos de um homem, um feminicida. No mesmo período foram contabilizados 33.999 estupros contra meninas e mulheres, na média de 187 casos por dia, realizados no interior de suas próprias casas e, na sua maioria, por familiares e conhecidos da família. A cada minuto, microviolências ocorrem sobre a vida, a mente e o corpo de uma mulher.

E, por que nos matam? Porque somos mulheres. Porque ousamos pensar e desafiar a ordem estabelecida que enfatizou e enfatiza que sempre foi assim e que assim deve ser. Recusamos a ideia de que existem papeis específicos para cada gênero e que estes devem ser propalados e perpetuados, pelos séculos dos séculos.

Essas pseudocertezas, repetidas ao longo do tempo de maneira intencional pelas instituições, família, igreja e sociedades, produziram e produzem, o empoderamento dos homens, engendrando uma estrutura social baseada no modelo patriarcal hierarquizante. Nesta forma de atuar historicamente sobre as gerações, foram e vão se solidificando as convenções, tendo como base formativa a misoginia, sustentada pela prática de ações sexistas e machistas de homens frágeis e fracos emocionalmente. Forjados para serem fortes, são eles educados para não desenvolverem em si o afeto, a empatia, o cuidado. Homens que, seduzidos por um suposto poder e força, não conseguem lidar com contrariedades e, por isso, violam a consciência, ferem, estupram, desqualificam, desfiguram o corpo e o rosto e, por fim, assassinam as mulheres com requintes de perversão e crueldade.

Imagem Pinterest
Violência abjeta, praticada na maioria das vezes contra aquelas as quais eles, valendo-se de um pronome possessivo que lhes garante uma pretensa superioridade, as chamam de “sua”: “sua mulher”, “sua filha”, “sua mãe”, “sua irmã”, “sua amiga”, “sua colega”... Parece que submetê-las às formas mais vis de violência configura-se num direito, porque as consideram um mero “objeto de posse”, algo de sua propriedade, de modo que lhes é permitido fazer o que bem entenderem com elas, sejam maridos, namorados, filhos, parentes, amantes...

Sem escrúpulos, muitos compartilham nas redes sociais sua valentia desprovida de qualquer traço de empatia e de humanidade, expondo a crueldade do ato em si, gratuito na aplicação e rentoso na execução, pois algoritmos sobem e monetizam. Assim quanto mais brutal e degradante for a ação criminosa sobre o corpo da mulher, mais rentável será e maior repercussão terá entre os grupos de homens que propagam o ódio às mulheres.

É uma realidade amedrontadora, que se articula com base no interesse econômico, visando a manutenção do patriarcado e é amplamente disseminada pela força midiática. Em 2023, num evento em Campinas, a atriz e cantora, Elisa Lucinda, comentou sobre esses acontecimentos: “Colocamos filhos no mundo para nos matar”. Esta afirmação contundente encontra eco na literatura e na voz feminina gritando que, quando uma mulher é assassinada, todos, de algum modo, morrem! 

Imagem Pinterest
Assim, somos todos os dias sacudidas pelo noticiário de mais mulheres sem vida. Nos assustamos e nos indignamos com a atrocidade desses atos e com os vergonhosos índices de feminicídio, denominando aqueles que os praticam como monstros e insanos. Contudo eles não são nem uma coisa nem outra: eles nada mais são do que homens com a masculinidade exacerbada e com dificuldade em gerir a própria sexualidade. Apoiam-se na toxidade das ideias neles incutidas como verdades e se portam como se naturalmente lhes coubesse o papel de dominar. Entretando, por trás dessa virilidade intensificada pelo machismo escondem-se sujeito débeis, frágeis e impotentes que não suportam o direito de uma mulher ser, estar, existir e ter autonomia para dizer “sim” e “não”. Logo, precisam se valer da força física e da intimidação. Segundo a advogada criminalista, Erika C. Furlan, “O avanço em direitos e garantias para as mulheres incomoda o público masculino hétero, porque hoje a mulher não aceita mais qualquer tipo de relacionamento [...]”. Ela reage.

Por isso essa estrutura misógina, diz Virginia Woolf, teme o Feminismo, porque sabe que este movimento social, político e ideológico reivindica a igualdade social, econômica e política entre homens e mulheres, a autonomia feminina e o fim da violência contra a mulher. Essa luta carrega em seu ventre o sangue e a força ancestral de mulheres que resistiram às atrocidades por eles já cometidas e que, por conta disso, tem o poder de vislumbrar relações que reconheçam incondicionalmente os direitos da mulher.

Nesse cenário desafiador não tem como não apostar na educação, pois o conhecimento esclarecedor se transforma no instrumento eficaz para combater o ódio. Erika C. Furlan acrescenta que “O importante é sempre prevenir, o que é muito difícil numa sociedade em que o machismo é estrutural e a disseminação de grupos conservadores misóginos alimentam o imaginário e o ideário de homem macho varão provedor e mulher submissa. Deste modo, a formação de crianças desde cedo é o caminho mais seguro para se desconstruir, através do desenvolvimento da consciência histórica e, sobretudo crítica, o quanto essas práticas seculares nos violentaram e subjugaram.

Imagem Pinterest
Não se pode omitir que a misoginia é o preconceito contra as mulheres mais antigo que existe na trajetória da humanidade. Mais que ódio às mulheres, é um sentimento que emerge como uma construção histórica pautada na hierarquia dos sexos, em que os homens são tidos como seres superiores e, por conta dessa crença, as mulheres que colocassem em risco essa estrutura hierárquica deveriam ser punidas. Diante dessa perspectiva calcada no ressentimento, na raiva e medo de perder privilégios, práticas como o machismo e o sexismo tornaram-se seus principais difusores.

É preciso entender bem esses conceitos. O machismo se revela por comportamentos, opiniões e sentimentos que consentem e validam a desigualdade de direitos entre os sexos. Por isso admite que a mulher, por ser considerada inferior ao homem, possa ser subjugada motivando a violência contra ela e a sua repetição, via de regra, pode conduzir ao feminicídio. Por sua vez, o sexismo é a crença de que homens e mulheres devem ocupar papéis específicos, os quais são determinados com base no sexo, envolvendo brinquedos, atividades, cores e tipos de roupa etc. Ao se desobedecer ou contrariar esses padrões, se reforça e se estimula o ódio às mulheres, justificando condutas amparadas na convicção de que elas necessitam ser controladas e punidas.

Frente à tragicidade que esses episódios representam, torna-se indispensável que a misoginia seja considerada crime hediondo inafiançável e que o controle rigoroso das redes sociais possa se constituir num instrumento capaz de neutralizar e combater os estímulos à violência de gênero. Porém, mais importante é a implementação nas escolas de projetos educacionais que vise, desde a infância, uma sólida formação embasada na proteção dos direitos da mulher, conforme o Art.5º da Constituição Federal de 1988.

Imagem Pinterest
E quanto a nós mulheres, não esquecermos que estamos em rede e em rede enredadas estamos. Cabe-nos estar coletivamente em contínua vigilância na luta por salvaguardar direitos já conquistados e por assegurar aqueles que ainda estão e estarão em pauta, a fim de que nossa dignidade seja integralmente reconhecida. Daí a importância de se fazer valer o fato de que somos maioria e eleger candidatas e candidatos efetivamente comprometidos com políticas afirmativas que visem a justiça e equidade social e o combate à desigualdade de gênero. 

Não se pode baixar a guarda jamais, pois a estrutura patriarcal é ardilosa, não dorme nunca e está sempre à espreita para nos devorar e submeter com as ferramentas de que dispõe.  O demônio que estupra e mata mulheres e crianças é um homem que teme a convivência em condições de igualdade, a empatia nos relacionamentos e a força feminina. Nossas Ancestrais estão em vigília constante nos inspirando a renovar nosso poder intuitivo e a força vital de nossas entranhas!  Não desanimemos! Não estamos sozinhas!

☆_____________________☆_____________________☆

Arquivo da autora
Margarida Montejano, mora em Paulínia/SP. É Poeta e escritora feminista; Func. Pública na Secretaria Municipal de Educação de Campinas. Defensora ativa dos direitos da Mulher, sendo membra do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Campinas; Coordenadora do Projeto Bem-Me-Quero: Empoderamento Feminino e Igualdade de Gênero e, Produtora do Canal Literário – N’outras Palavras –  histórias que inspiram, no Youtube. Autora dos livros Fio de Prata - Ed. Siano (2022); Chão Ancestral, TAUP Editora (2023) e dos livros infanto juvenis A Poeta e a Flor e A Poeta e a Sabiá, pela Editora Siano. (2024). Para contatar com a autora: @margaridamontejano.escritora

quarta-feira, 7 de maio de 2025

CHÃO ANCESTRAL, DE MARGARIDA MONTEJANO

 E L A   A C E N D E   O   M U N D O   C O M   A    V O Z

Por Marta Cortezão

Chão ancestral é o primeiro livro de poemas de Margarida Montejano, cujo título evoca profunda simbologia: a terra como esse chão sagrado que ordena o mundo vivo com seu caráter divino e sua função maternal, administrando o mistério vida-morte-vida. Uma Terra Sagrada que agoniza e definha nas mãos desumanas da cobiça pelo “líquido lucro/ extraído pelo bruto”; o bruto e histriônico ser humano que, acometido pela cegueira e selvageria do capital, interpreta, sob os holofotes do mundo, a clássica farsa de “estancar a hemorragia/ com cuspe e panos quentes” (p.19), enquanto a fome e a guerra assolam o mundo.

TERRA SAGRADA

estancar a hemorragia

dos corpos suados

da terra sagrada

das matas, dos rios

das rochas rachadas

 

estancar a hemorragia

dos olhos encharcados

das ruas inchadas

 


das águas sagradas

 

do líquido lucro

extraído pelo bruto

 

estancar a hemorragia

com cuspe e panos quentes


Através de uma linguagem aparentemente simples capaz de emocionar pela destreza, fluidez e amabilidade poéticas, este livro revela plurissignificativa união entre palavras e fotografias abocanhadas da realidade. E, nesse exercício de encaixe e desencaixe, vai construindo um fino diálogo com a estética do impacto, onde os contraditórios se chocam e as semelhanças ganham resistência para trazer à tona o despertar da necessária consciência, porque “Toda a nossa história é a mesma história. A história do chão” (p. 83). É urgente desvendar os olhos e sair “deste lugar/ onde te calaram”, nem que para isso seja necessário Nascer pela segunda vez, “nascer de novo, de novo e de novo/ Nascer pela segunda vez, mas agora/ do lado certo da história!” (p. 93).


Montejano conduz a voz lírica, serena, sábia e implacável da Deusa. Essa voz oracular inconfundível, que munida de conhecimento profundo sobre o desconcerto do mundo, traça um mar de versos catárticos onde a face da crua dor se vê refletida. Entretanto, temas tão profundos e universais como o amor e a esperança ganham espaço no cenário de Chão ancestral, eles surgem especialmente da herança deixada pelas bruxas às crias das bruxas contemporâneas: “temos em nós…/ a intuição constante/ (...) a magia para sobreviver/ …das bruxas// herdamos delas/ a matéria que não se esgarça// (...) o tecido da vida/ para curar a história// sarar os males/ combater o ódio/ o machismo insano/ as guerras por terras” (p. 57). Somos “um sonho/ da Deusa”, somos sim as crias das bruxas, mulheres grávidas de Consciência no “meio da insanidade/ dos homens”, mulheres que carregam “o futuro/ do mundo” (p. 31).

HERANÇA

desvendamos as linhas das mãos,

lemos o incerto nas fases da lua,

adivinhamos tempestades

para entender o amanhã

 

temos em nós...

a intuição constante,

o canto profundo,

a reza certeira,

as mãos benzedeiras

a magia para sobreviver

                         ...das bruxas

 

herdamos a matéria que não se esgarça

elas que tecem e cerzem o tecido da vida

 

para curar a história

saras os males,

combater o ódio,

o machismo insano,

as guerras por terras

 

bruxa-divina-escondida

o desejo insaciável

da Deusa-Mulher

 

CONSCIÊNCIA

somos um sonho

da Deusa

 

no meio da insanidade

dos homens

Margarida Montejano e Marta Cortezao/SP

E nas linhas do tempo do Agora ou nunca, a voz poética e generosa da autora se oferta em palavras para fazer o chamado:

“Estou aqui e te dou a minha vida, a minha história, os meus poemas. Te dou a minha palavra, a minha melhor fase, a minha face te dou. A crença nas estrelas, a esperança do sol, minha alegria, minha noite e o meu dia. Só não demora. O tempo, devora” (pág. 65).

Leitura do poema 'Canteiro' (p.81)

                                                               Leitura do poema 'Placenta' (p.35)

Para aquisição de exemplares, entre em contato com a própria autora via Facebook ou Instagram.

_____________________

MONTEJANO, Margarida. Chão Ancestral. Curitiba (PR): Editora TAUP, 2023.

☆_____________________☆_____________________☆

Arquivo da autora
Margarida Montejano, mora em Paulínia/SP. É Escritora, Poeta, Contista; Func. Pública na Secretaria Municipal de Educação de Campinas. Defensora ativa dos direitos da Mulher, sendo membra do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Campinas; Coordenadora do Projeto Bem-Me-Quero: Empoderamento Feminino e Igualdade de Gênero e, Produtora do Canal Literário – N’outras Palavras –  histórias que inspiram, no Youtube. Autora dos livros "Fio de Prata" - Ed. Siano (2022); "Chão Ancestral", TAUP Editora (2023) e dos livros infanto juvenis "A Poeta e a Flor" e "A Poeta e a Sabiá", pela Editora Siano. (2024). @margaridamontejano.escritora


quarta-feira, 2 de abril de 2025

A DROGA DA VIOLÊNCIA E O MACHISMO

 A DROGA DA VIOLÊNCIA E O MACHISMO

Por Margarida Montejano

Imagem Pinterest
Quando eu e minha irmã éramos crianças, morávamos com nossos pais numa casa humilde. Ao lado, separado por um muro, havia um bar.  Eu tinha doze anos, e minha irmã dez.  Era comum, às noites, os “homens de família”, inclusive meu pai, se reunirem no bar vizinho para relaxar, trocar ideias, rir e beber, enquanto suas mulheres cuidavam da janta, das crianças e dos afazeres domésticos. Assim eram nossos finais de tarde e, quando a gente já se preparava para dormir, era também comum, depois das risadas altas e dos falatórios que transpunham o muro e as paredes do quarto, ouvirmos o som de garrafas quebradas, cadeiras e mesas atiradas nas paredes e gritos permeados de palavrões. Nossa mãe, naqueles momentos, dizia: Essa droga da violência de novo! Por isso é que eu digo pra vocês! Falta educação! Ela começava a cantar a fim de que dormíssemos e aumentava o volume de seu canto para que não escutássemos a tal violência que nos fazia arregalar os olhos tentando identificar o som da voz de nosso pai que, para relaxar, trocar ideias, rir e beber estava no bar. Ela, com paciência, nos acalmava e nos colocava na cama, pois sabia que seria melhor que já estivéssemos dormindo quando ele chegasse.

Minha irmã eu não sei, mas eu fingia dormir, ficava atenta e, muitas vezes, ouvi minha mãe soluçando e rezando sozinha, enquanto aguardava o marido que com certeza chegaria alterado em casa. Por fim, eu acabava dormindo tropeçando nas ave-marias que tentava rezar, no intuito de enfrentar meus medos. No dia seguinte, vendo meu pai irritado pela ressaca e minha mãe com olhos vermelhos de tanto chorar, tomei coragem e perguntei: - Mãe, o que a senhora tem?... é a droga da violência?

Imagem Pinterest

E ela, parecendo entender a razão de minha pergunta, abaixou-se à altura de meus olhos e me disse, quase que cochichando, para que meu pai não ouvisse:

— Filha, a droga da violência é tudo o que sobra quando falta o conhecimento. Ela se instala gratuitamente e vai se fortalecendo aos poucos, cegando, ensurdecendo, enfurecendo e, por fim, destrói o sujeito, que rejeita o diálogo e se abastece de rótulos, de mensagens instantâneas. Confia no que vê e no que ouve...

— Não entendi, mãe! e ela, com paciência tentou outra vez me explicar:

— Presta atenção, meu amor... a droga da violência é a ignorância que, quando se junta à droga do vício e da mentira, fica mais forte, se potencializa e se transforma em estupidez. E, quem sofre com isso, são as mulheres e as crianças. Homens violentos maltratam e matam sem dó e sem se sentirem culpados...  E o pior, minha filha, é que eles acreditam que o que estão fazendo é correto!

— Mãe! a professora falou na escola sobre isso. É por isso que os homens matam as mulheres?   perguntei. 

Imagem Pinterest
Minha mãe, com o dorso da mão secou as lágrimas que corriam no rosto e parecendo refletir sobre minha pergunta, fitou-me nos olhos dizendo: 

— Querida, outro dia vi na televisão um indígena falando uma coisa muito interessante. – E o que ele disse, mãe? – Falou que para a pessoa ignorante, existe a escola, e para aquele que é estúpido, resta a cadeia[*].

E então, parecendo entender o que dizia  levantou-se, pegou minha mão e a mão de minha irmã, sua bolsa e saímos batendo a porta de casa rumo à Delegacia da Mulher!

Naquele dia eu entendi que meu pai era um estúpido.

______________________________

[*] Daniel Munduruku

☆_____________________☆_____________________☆

Arquivo pessoal da autora
Margarida Montejano, mora em Paulínia/SP. É Escritora, Poeta, Contista; Func. Pública na Secretaria Municipal de Educação de Campinas. Defensora ativa dos direitos da Mulher, sendo membra do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Campinas; Coordenadora do Projeto Bem-Me-Quero: Empoderamento Feminino e Igualdade de Gênero e, Produtora do Canal Literário – N’outras Palavras –  histórias que inspiram, no Youtube. Autora dos livros "Fio de Prata" - Ed. Siano (2022); "Chão Ancestral", TAUP Editora (2023) e dos livros infanto juvenis "A Poeta e a Flor" e "A Poeta e a Sabiá", pela Editora Siano. (2024). @margaridamontejano.escritora


sexta-feira, 31 de maio de 2024

LEIA MUITO, MARIA! NÃO ESTAMOS SOZINHAS, POR ELIZABETE NASCIMENTO


LEIA MUITO, MARIA! NÃO ESTAMOS SOZINHAS 

      Maria Elizabete Nascimento deOliveira[1]

Saímos de um estado que embora insatisfatório, embora esmagador, estava estruturado sobre certezas. Isso foi ontem. Até então ninguém duvidava do seu papel. Nem homens, nem muito menos mulheres. [...] Mas essa certeza nós a quebramos para poder sair do cercado.


                          [Marina Colasanti]

 

 

Apresentamos a obra - Chão Ancestral - de Margarida Montejano (2023), por intermédio de um recorte já anunciado no título dessa reflexão ao evocar o título de três poemas da autora. Ainda nesse viés, exibimos, na íntegra, essa tríade poética que ostenta a figura feminina nas suas diversas facetas e nos impulsionam às trilhas de emancipação e autoria de percursos.

 

LEIA MUITO

 

leia muito.

 

Leia marx

leia cristo

leia paulo freire

leia poesia!

 

Reflita, discute, estuda

dispa-te da venda

que te nutre a cegueira

 

e destrava

tua língua

tuas florestas

tuas matas

teus rios

teus bichos

 

resgate a ti deste lugar onde te calaram

(Montejano, 2023, p.49)

MARIA

 

tarde da noite Maria sai

enfrenta as ruas

os olhares de esgueio

o julgamento alheio

Maria sabe que a caminhada é longa

que há perigos à espreita

e, mesmo temendo, confia

endireita o tronco, respira fundo

floreia e segue

espanta o medo, segura a fé

enfrenta o mundo

sente na pele o preconceito, o machismo, a ignorância sente no corpo a sede,

a fome, o cansaço

Maria segue

Maria resiste

 

Maria vence.

(Montejano, 2023, p. 75)

NÃO ESTAMOS SOZINHAS

 

somos uma rede e em rede enredadas estamos

 

somos uma, somos muitas somos intocáveis

 

quando ferem a mim ferem elas

 

quando ferem elas ferem a mim

 

sou-somos um fio da rede e quando desfiadas, integramos outras

 

estamos “(entre)laçadas”.

(Montejano, 2023, p. 27)

 

O poema Leia muito traz a força da voz imperativa que pode ser interpretada como um apelo à leitura crítica e consciente que propõe a luta pela libertação pessoal e social por meio do conhecimento e da reflexão crítica. Composto por versos livres, sem rima ou métrica fixa, confere uma sensação de espontaneidade e urgência, onde a ausência de pontuação sugere um fluxo contínuo de pensamentos e de ideias.

O eu poemático evoca figuras icônicas como Marx, Cristo e Paulo Freire, além de “poesia”. Cada um desses nomes carrega uma simbologia de ideias e pensamentos que convidam à reflexão sobre diferentes aspectos da vida: política, espiritualidade, educação e a arte como expressão humana. Nos versos “Reflita, discute, estuda”, há um chamado à ação intelectual, onde os verbos no imperativo incitam o leitor a não ser passivo, mas a participar ativamente do processo de aprendizagem e questionamento do seu lugar no mundo.

Imagem Pinterest
A metáfora: “dispa-te da venda que te nutre a cegueira” insinua a necessidade de remover a ignorância imposta, que é nutrida pela falta de conhecimento ou pela aceitação passiva de informações, fato que fortalece a ideia de que essa venda mantém a cegueira e se constitui como um impedimento ao necessário entendimento e à liberdade.

Versos como: “destrava tua língua / tuas florestas / tuas matas / teus rios / teus bichos” podem ser interpretados como um chamado para se reconectar com a essência natural e original do ser humano ao contexto externo, conexão vista como parte do processo de libertação e autoconhecimento.

Já o último verso: “resgate a ti deste lugar onde te calaram” reforça a ideia de que a leitura e o conhecimento são ferramentas poderosas para fortalecer a própria voz e identidade, que podem ter sido silenciadas por forças externas ou internas ao longo do tempo. Assim, o poema é uma convocação à emancipação intelectual e pessoal por meio da leitura e do pensamento crítico, onde a inclusão de figuras históricas e literárias serve para ilustrar a diversidade de pensamentos que enriquecem a compreensão do leitor sobre o mundo e sobre si mesmo; pois ler e refletir são atos revolucionários que desatam as amarras da ignorância e da opressão, permitindo uma reconexão mais profunda com a própria essência e com o entorno natural.

O segundo poema, intitulado: Maria apresenta uma narrativa sobre a resistência e a perseverança de uma mulher chamada Maria. Trata-se de um poema escrito em versos livres, sem rima ou métrica regular em que a linguagem é simples e direta contribui na intensidade e na clareza da mensagem. A estrutura linear da narrativa poética acompanha a trajetória de Maria e cria um efeito de progressão e movimento que permeia seu cotidiano. O poema situa Maria em um momento específico do dia: “tarde da noite”, horário que sugere um contexto de vulnerabilidade e perigo. Maria “enfrenta as ruas / os olhares de esgueio / o julgamento alheio”, indica que sua jornada não é apenas física, mas também social e emocional. Apesar dos perigos e do julgamento, Maria continua: “mesmo temendo, confia / endireita o tronco, respira fundo”. Destaca-se nesses versos a coragem de Maria que enfrenta seus medos com determinação e com uma postura física que simboliza resistência.

Imagem Pinterest
Maria sente “na pele o preconceito, o machismo, a ignorância”. Esta tríade de opressões representa os desafios sociais que muitas mulheres enfrentam diariamente e que cada dia está mais evidenciado nas mídias e no contexto social. A menção ao “preconceito”, “machismo” e “ignorância” indica uma crítica social e um reconhecimento das lutas de gênero, no entanto, além das adversidades sociais, Maria também enfrenta dificuldades físicas: “sente no corpo a sede, / a fome, o cansaço”. Assim, destaca-se que a resistência de Maria é tanto física quanto emocional, ao mostrar sua capacidade de superar múltiplas adversidades. Nesse viés, a mulher quando fala, mesmo na voz de um eu poemático está, muitas vezes, a falar “de sua própria tessitura verbal, algo tão vivo, frágil e poderoso como a própria vida ali representada pela ficção”. (Coelho, 1993, p. 274).

O poema culmina com a afirmação de que “Maria segue / Maria resiste / Maria vence”. Este desfecho é uma celebração da força e da resistência de Maria que simboliza a superação de todas as mulheres que enfrentam desafios similares. Trata-se de uma ode à força e à resistência, especialmente daquelas que enfrentam preconceitos, machismo e outras formas de opressão. A figura de Maria é emblemática e representa a luta diária e a perseverança que muitas mulheres encarnam em suas vidas. A narrativa do poema é simples, mas não simplista porque destaca a trajetória de Maria desde a vulnerabilidade inicial até a superação. Cada verso acrescenta uma camada à compreensão do leitor sobre a experiência de Maria que culmina em um final que celebra a resiliência, a coragem e a resistência feminina e reconhece os desafios que enfrenta em sua trajetória cotidiana em busca de um processo evolutivo necessário e urgente. Evolução que como disse Nelly Novaes Coelho, “[...] podemos resumir como o embate dialético entre o eu e o outro, entre a unidade e a dispersão, entre o pensamento e a linguagem, ou em termos de forma poética, entre o ‘discurso’ e a ‘escritura’”. (Coelho, 1993, p. 60).

O terceiro poema: Não estamos sozinhas explora a ideia da coletividade e da interconexão entre mulheres ao destacar a solidariedade e a força que emergem da união. Escrito em versos livres, com uma estrutura compacta que reforça a ideia de união e interconexão, o texto traz ainda a ausência de pontuação tradicional, como pontos finais, fator que contribui para a fluidez da leitura e reflete a continuidade e a interdependência das experiências femininas.

Imagem Pinterest
Nos versos: “somos uma rede e em rede enredadas estamos” nos reportam imediatamente a metáfora central do poema: a rede que simboliza a conexão entre as mulheres e sugere que estão intrinsecamente ligadas, que suas vidas e experiências estão interconectadas. Em: “somos uma, somos muitas / somos intocáveis” há uma dualidade que destaca a individualidade de cada mulher, mas também a força coletiva que representam. O termo: “intocáveis” insinua uma força inquebrável quando estão unidas.

Já nos versos: “quando ferem a mim ferem elas / quando ferem elas ferem a mim” enfatiza a empatia e a solidariedade mútua; onde a dor de uma é sentida por todas, instigam a pensar em como as experiências individuais de sofrimento são compartilhadas e reconhecidas coletivamente. Em: “sou-somos um fio da rede e quando desfiadas, integramos outras” alude que mesmo quando uma mulher é prejudicada ou enfraquecida (“desfiada”), ela encontra força e apoio na rede, integrando-se em outras conexões e renovando-se na/pela coletividade.

O termo: “entrelaçadas” reforça a ideia de que as mulheres estão firmemente ligadas umas às outras. A forma como a palavra é apresentada — “(entre)laçadas” — sugere uma camada adicional de significado e enfatiza que tanto a união, quanto a complexidade das relações destacam a força da coletividade e a importância da solidariedade. A metáfora da rede é central para a compreensão das experiências femininas e simboliza a interconexão e a interdependência de suas lutas cotidianas.

A estrutura do poema, com versos curtos e a ausência de pontuação tradicional, contribui para a sensação de continuidade e interligação ao refletir a própria natureza das conexões descritas. Cada verso adiciona uma nova dimensão à metáfora da rede, de modo a aprofundar a compreensão do leitor sobre a complexidade e a força da união feminina. A ideia de que as mulheres estão unidas em uma rede de apoio mútuo é central. A solidariedade é apresentada como uma fonte de força e de resiliência ao mostrar que a dor e a luta de uma são compartilhadas por todas. Esses elementos reforçam a ideia de que quando uma mulher é afetada, a rede de apoio permite a renovação e a continuidade da luta, sobretudo, ao despontar a resiliência coletiva, mesmo diante das adversidades.

Ao enlaçarmos essa tríade poética destacamos os quão interconectados precisam estar os aspectos focais apresentados nestes textos líricos na existência da figura feminina, primeiro pela necessidade de estarmos conscientes da árdua tarefa de construirmos rupturas por entre esse sistema econômico, político e cultural que sempre privilegiou a casta masculina; segundo pela necessária batalha para conhecer a nós, mulheres, nesse percurso que até pouco tempo foi delineado por homens e terceiro pela consciência do lugar que estamos a erigir e da necessidade da feitura desse lugar ser realizado no coletivo, no entrelaçar de mãos pungentes e, também, femininas. Desse modo, reafirmamos “a eterna tarefa dos poetas: ‘pensar o mundo’ e nunca pactuar com qualquer forma de poder arbitrário que aprisione ou esmague a liberdade de pensar, falar e agir de todos” (Coelho, 1993, p. 95).

                                                                            

Referências                                                                                                 

COELHO, Nely Novaes. A literatura feminina no Brasil contemporâneo. São Paulo: Siciliano, 1993.

MONTEJANO, Margarida. Chão Ancestral. Fotografias de André Montejano. Curitiba: Eu-i, 2023.

XAVIER, Elódia. Tudo no feminino: a mulher e a narrativa brasileira contemporânea. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991.



[1] Doutora em Estudos Literários, atualmente, professora formadora do componente curricular de Língua Portuguesa na Diretoria Regional de Educação/DRE-Cáceres/MT.

☆_____________________☆_____________________☆


Margarida Montejano é natural de Mogi Guaçu, SP. Reside em Paulínia, SP. É doutora em Educação, funcionária pública municipal em Campinas. Poeta e escritora. Autora dos livros de contos "Fio de Prata", 1ª ed., Scenarium Livros Artesanais em 2022, reed. pela Ed. Siano em 2023 e, do livro de poemas “Chão Ancestral”, Ed. TAUP em 2023.


☆_____________________☆_____________________☆


Elizabete Nascimento é Doutora em Estudos Literários. Autora das obras: A Educação Ambiental e Manoel de Barros: diálogos poéticos (2012); Asas do Inaudível em Luzes de Vaga-lume (2019); Sinfonia de Letras (2021); Granada (2023). Identidade mais sublime nessa vida: vovó do Samuel e da Alícia; acredita que o amor é infinito.

Feminário Conexões, o blog que conecta você!

A POESIA DAS PEQUENAS COISAS - A OBRA POÉTICA DE ASTRID CABRAL

Astrid Cabral: “exímia inventora de tesouros, a explorar os preciosos filões dos sentimentos” Palestra de Rita Alencar Clark sobre a escrit...