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quarta-feira, 2 de abril de 2025

A DROGA DA VIOLÊNCIA E O MACHISMO

 A DROGA DA VIOLÊNCIA E O MACHISMO

Por Margarida Montejano

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Quando eu e minha irmã éramos crianças, morávamos com nossos pais numa casa humilde. Ao lado, separado por um muro, havia um bar.  Eu tinha doze anos, e minha irmã dez.  Era comum, às noites, os “homens de família”, inclusive meu pai, se reunirem no bar vizinho para relaxar, trocar ideias, rir e beber, enquanto suas mulheres cuidavam da janta, das crianças e dos afazeres domésticos. Assim eram nossos finais de tarde e, quando a gente já se preparava para dormir, era também comum, depois das risadas altas e dos falatórios que transpunham o muro e as paredes do quarto, ouvirmos o som de garrafas quebradas, cadeiras e mesas atiradas nas paredes e gritos permeados de palavrões. Nossa mãe, naqueles momentos, dizia: Essa droga da violência de novo! Por isso é que eu digo pra vocês! Falta educação! Ela começava a cantar a fim de que dormíssemos e aumentava o volume de seu canto para que não escutássemos a tal violência que nos fazia arregalar os olhos tentando identificar o som da voz de nosso pai que, para relaxar, trocar ideias, rir e beber estava no bar. Ela, com paciência, nos acalmava e nos colocava na cama, pois sabia que seria melhor que já estivéssemos dormindo quando ele chegasse.

Minha irmã eu não sei, mas eu fingia dormir, ficava atenta e, muitas vezes, ouvi minha mãe soluçando e rezando sozinha, enquanto aguardava o marido que com certeza chegaria alterado em casa. Por fim, eu acabava dormindo tropeçando nas ave-marias que tentava rezar, no intuito de enfrentar meus medos. No dia seguinte, vendo meu pai irritado pela ressaca e minha mãe com olhos vermelhos de tanto chorar, tomei coragem e perguntei: - Mãe, o que a senhora tem?... é a droga da violência?

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E ela, parecendo entender a razão de minha pergunta, abaixou-se à altura de meus olhos e me disse, quase que cochichando, para que meu pai não ouvisse:

— Filha, a droga da violência é tudo o que sobra quando falta o conhecimento. Ela se instala gratuitamente e vai se fortalecendo aos poucos, cegando, ensurdecendo, enfurecendo e, por fim, destrói o sujeito, que rejeita o diálogo e se abastece de rótulos, de mensagens instantâneas. Confia no que vê e no que ouve...

— Não entendi, mãe! e ela, com paciência tentou outra vez me explicar:

— Presta atenção, meu amor... a droga da violência é a ignorância que, quando se junta à droga do vício e da mentira, fica mais forte, se potencializa e se transforma em estupidez. E, quem sofre com isso, são as mulheres e as crianças. Homens violentos maltratam e matam sem dó e sem se sentirem culpados...  E o pior, minha filha, é que eles acreditam que o que estão fazendo é correto!

— Mãe! a professora falou na escola sobre isso. É por isso que os homens matam as mulheres?   perguntei. 

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Minha mãe, com o dorso da mão secou as lágrimas que corriam no rosto e parecendo refletir sobre minha pergunta, fitou-me nos olhos dizendo: 

— Querida, outro dia vi na televisão um indígena falando uma coisa muito interessante. – E o que ele disse, mãe? – Falou que para a pessoa ignorante, existe a escola, e para aquele que é estúpido, resta a cadeia[*].

E então, parecendo entender o que dizia  levantou-se, pegou minha mão e a mão de minha irmã, sua bolsa e saímos batendo a porta de casa rumo à Delegacia da Mulher!

Naquele dia eu entendi que meu pai era um estúpido.

______________________________

[*] Daniel Munduruku

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Arquivo pessoal da autora
Margarida Montejano, mora em Paulínia/SP. É Escritora, Poeta, Contista; Func. Pública na Secretaria Municipal de Educação de Campinas. Defensora ativa dos direitos da Mulher, sendo membra do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Campinas; Coordenadora do Projeto Bem-Me-Quero: Empoderamento Feminino e Igualdade de Gênero e, Produtora do Canal Literário – N’outras Palavras –  histórias que inspiram, no Youtube. Autora dos livros "Fio de Prata" - Ed. Siano (2022); "Chão Ancestral", TAUP Editora (2023) e dos livros infanto juvenis "A Poeta e a Flor" e "A Poeta e a Sabiá", pela Editora Siano. (2024). @margaridamontejano.escritora


sexta-feira, 31 de maio de 2024

LEIA MUITO, MARIA! NÃO ESTAMOS SOZINHAS, POR ELIZABETE NASCIMENTO


LEIA MUITO, MARIA! NÃO ESTAMOS SOZINHAS 

      Maria Elizabete Nascimento deOliveira[1]

Saímos de um estado que embora insatisfatório, embora esmagador, estava estruturado sobre certezas. Isso foi ontem. Até então ninguém duvidava do seu papel. Nem homens, nem muito menos mulheres. [...] Mas essa certeza nós a quebramos para poder sair do cercado.


                          [Marina Colasanti]

 

 

Apresentamos a obra - Chão Ancestral - de Margarida Montejano (2023), por intermédio de um recorte já anunciado no título dessa reflexão ao evocar o título de três poemas da autora. Ainda nesse viés, exibimos, na íntegra, essa tríade poética que ostenta a figura feminina nas suas diversas facetas e nos impulsionam às trilhas de emancipação e autoria de percursos.

 

LEIA MUITO

 

leia muito.

 

Leia marx

leia cristo

leia paulo freire

leia poesia!

 

Reflita, discute, estuda

dispa-te da venda

que te nutre a cegueira

 

e destrava

tua língua

tuas florestas

tuas matas

teus rios

teus bichos

 

resgate a ti deste lugar onde te calaram

(Montejano, 2023, p.49)

MARIA

 

tarde da noite Maria sai

enfrenta as ruas

os olhares de esgueio

o julgamento alheio

Maria sabe que a caminhada é longa

que há perigos à espreita

e, mesmo temendo, confia

endireita o tronco, respira fundo

floreia e segue

espanta o medo, segura a fé

enfrenta o mundo

sente na pele o preconceito, o machismo, a ignorância sente no corpo a sede,

a fome, o cansaço

Maria segue

Maria resiste

 

Maria vence.

(Montejano, 2023, p. 75)

NÃO ESTAMOS SOZINHAS

 

somos uma rede e em rede enredadas estamos

 

somos uma, somos muitas somos intocáveis

 

quando ferem a mim ferem elas

 

quando ferem elas ferem a mim

 

sou-somos um fio da rede e quando desfiadas, integramos outras

 

estamos “(entre)laçadas”.

(Montejano, 2023, p. 27)

 

O poema Leia muito traz a força da voz imperativa que pode ser interpretada como um apelo à leitura crítica e consciente que propõe a luta pela libertação pessoal e social por meio do conhecimento e da reflexão crítica. Composto por versos livres, sem rima ou métrica fixa, confere uma sensação de espontaneidade e urgência, onde a ausência de pontuação sugere um fluxo contínuo de pensamentos e de ideias.

O eu poemático evoca figuras icônicas como Marx, Cristo e Paulo Freire, além de “poesia”. Cada um desses nomes carrega uma simbologia de ideias e pensamentos que convidam à reflexão sobre diferentes aspectos da vida: política, espiritualidade, educação e a arte como expressão humana. Nos versos “Reflita, discute, estuda”, há um chamado à ação intelectual, onde os verbos no imperativo incitam o leitor a não ser passivo, mas a participar ativamente do processo de aprendizagem e questionamento do seu lugar no mundo.

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A metáfora: “dispa-te da venda que te nutre a cegueira” insinua a necessidade de remover a ignorância imposta, que é nutrida pela falta de conhecimento ou pela aceitação passiva de informações, fato que fortalece a ideia de que essa venda mantém a cegueira e se constitui como um impedimento ao necessário entendimento e à liberdade.

Versos como: “destrava tua língua / tuas florestas / tuas matas / teus rios / teus bichos” podem ser interpretados como um chamado para se reconectar com a essência natural e original do ser humano ao contexto externo, conexão vista como parte do processo de libertação e autoconhecimento.

Já o último verso: “resgate a ti deste lugar onde te calaram” reforça a ideia de que a leitura e o conhecimento são ferramentas poderosas para fortalecer a própria voz e identidade, que podem ter sido silenciadas por forças externas ou internas ao longo do tempo. Assim, o poema é uma convocação à emancipação intelectual e pessoal por meio da leitura e do pensamento crítico, onde a inclusão de figuras históricas e literárias serve para ilustrar a diversidade de pensamentos que enriquecem a compreensão do leitor sobre o mundo e sobre si mesmo; pois ler e refletir são atos revolucionários que desatam as amarras da ignorância e da opressão, permitindo uma reconexão mais profunda com a própria essência e com o entorno natural.

O segundo poema, intitulado: Maria apresenta uma narrativa sobre a resistência e a perseverança de uma mulher chamada Maria. Trata-se de um poema escrito em versos livres, sem rima ou métrica regular em que a linguagem é simples e direta contribui na intensidade e na clareza da mensagem. A estrutura linear da narrativa poética acompanha a trajetória de Maria e cria um efeito de progressão e movimento que permeia seu cotidiano. O poema situa Maria em um momento específico do dia: “tarde da noite”, horário que sugere um contexto de vulnerabilidade e perigo. Maria “enfrenta as ruas / os olhares de esgueio / o julgamento alheio”, indica que sua jornada não é apenas física, mas também social e emocional. Apesar dos perigos e do julgamento, Maria continua: “mesmo temendo, confia / endireita o tronco, respira fundo”. Destaca-se nesses versos a coragem de Maria que enfrenta seus medos com determinação e com uma postura física que simboliza resistência.

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Maria sente “na pele o preconceito, o machismo, a ignorância”. Esta tríade de opressões representa os desafios sociais que muitas mulheres enfrentam diariamente e que cada dia está mais evidenciado nas mídias e no contexto social. A menção ao “preconceito”, “machismo” e “ignorância” indica uma crítica social e um reconhecimento das lutas de gênero, no entanto, além das adversidades sociais, Maria também enfrenta dificuldades físicas: “sente no corpo a sede, / a fome, o cansaço”. Assim, destaca-se que a resistência de Maria é tanto física quanto emocional, ao mostrar sua capacidade de superar múltiplas adversidades. Nesse viés, a mulher quando fala, mesmo na voz de um eu poemático está, muitas vezes, a falar “de sua própria tessitura verbal, algo tão vivo, frágil e poderoso como a própria vida ali representada pela ficção”. (Coelho, 1993, p. 274).

O poema culmina com a afirmação de que “Maria segue / Maria resiste / Maria vence”. Este desfecho é uma celebração da força e da resistência de Maria que simboliza a superação de todas as mulheres que enfrentam desafios similares. Trata-se de uma ode à força e à resistência, especialmente daquelas que enfrentam preconceitos, machismo e outras formas de opressão. A figura de Maria é emblemática e representa a luta diária e a perseverança que muitas mulheres encarnam em suas vidas. A narrativa do poema é simples, mas não simplista porque destaca a trajetória de Maria desde a vulnerabilidade inicial até a superação. Cada verso acrescenta uma camada à compreensão do leitor sobre a experiência de Maria que culmina em um final que celebra a resiliência, a coragem e a resistência feminina e reconhece os desafios que enfrenta em sua trajetória cotidiana em busca de um processo evolutivo necessário e urgente. Evolução que como disse Nelly Novaes Coelho, “[...] podemos resumir como o embate dialético entre o eu e o outro, entre a unidade e a dispersão, entre o pensamento e a linguagem, ou em termos de forma poética, entre o ‘discurso’ e a ‘escritura’”. (Coelho, 1993, p. 60).

O terceiro poema: Não estamos sozinhas explora a ideia da coletividade e da interconexão entre mulheres ao destacar a solidariedade e a força que emergem da união. Escrito em versos livres, com uma estrutura compacta que reforça a ideia de união e interconexão, o texto traz ainda a ausência de pontuação tradicional, como pontos finais, fator que contribui para a fluidez da leitura e reflete a continuidade e a interdependência das experiências femininas.

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Nos versos: “somos uma rede e em rede enredadas estamos” nos reportam imediatamente a metáfora central do poema: a rede que simboliza a conexão entre as mulheres e sugere que estão intrinsecamente ligadas, que suas vidas e experiências estão interconectadas. Em: “somos uma, somos muitas / somos intocáveis” há uma dualidade que destaca a individualidade de cada mulher, mas também a força coletiva que representam. O termo: “intocáveis” insinua uma força inquebrável quando estão unidas.

Já nos versos: “quando ferem a mim ferem elas / quando ferem elas ferem a mim” enfatiza a empatia e a solidariedade mútua; onde a dor de uma é sentida por todas, instigam a pensar em como as experiências individuais de sofrimento são compartilhadas e reconhecidas coletivamente. Em: “sou-somos um fio da rede e quando desfiadas, integramos outras” alude que mesmo quando uma mulher é prejudicada ou enfraquecida (“desfiada”), ela encontra força e apoio na rede, integrando-se em outras conexões e renovando-se na/pela coletividade.

O termo: “entrelaçadas” reforça a ideia de que as mulheres estão firmemente ligadas umas às outras. A forma como a palavra é apresentada — “(entre)laçadas” — sugere uma camada adicional de significado e enfatiza que tanto a união, quanto a complexidade das relações destacam a força da coletividade e a importância da solidariedade. A metáfora da rede é central para a compreensão das experiências femininas e simboliza a interconexão e a interdependência de suas lutas cotidianas.

A estrutura do poema, com versos curtos e a ausência de pontuação tradicional, contribui para a sensação de continuidade e interligação ao refletir a própria natureza das conexões descritas. Cada verso adiciona uma nova dimensão à metáfora da rede, de modo a aprofundar a compreensão do leitor sobre a complexidade e a força da união feminina. A ideia de que as mulheres estão unidas em uma rede de apoio mútuo é central. A solidariedade é apresentada como uma fonte de força e de resiliência ao mostrar que a dor e a luta de uma são compartilhadas por todas. Esses elementos reforçam a ideia de que quando uma mulher é afetada, a rede de apoio permite a renovação e a continuidade da luta, sobretudo, ao despontar a resiliência coletiva, mesmo diante das adversidades.

Ao enlaçarmos essa tríade poética destacamos os quão interconectados precisam estar os aspectos focais apresentados nestes textos líricos na existência da figura feminina, primeiro pela necessidade de estarmos conscientes da árdua tarefa de construirmos rupturas por entre esse sistema econômico, político e cultural que sempre privilegiou a casta masculina; segundo pela necessária batalha para conhecer a nós, mulheres, nesse percurso que até pouco tempo foi delineado por homens e terceiro pela consciência do lugar que estamos a erigir e da necessidade da feitura desse lugar ser realizado no coletivo, no entrelaçar de mãos pungentes e, também, femininas. Desse modo, reafirmamos “a eterna tarefa dos poetas: ‘pensar o mundo’ e nunca pactuar com qualquer forma de poder arbitrário que aprisione ou esmague a liberdade de pensar, falar e agir de todos” (Coelho, 1993, p. 95).

                                                                            

Referências                                                                                                 

COELHO, Nely Novaes. A literatura feminina no Brasil contemporâneo. São Paulo: Siciliano, 1993.

MONTEJANO, Margarida. Chão Ancestral. Fotografias de André Montejano. Curitiba: Eu-i, 2023.

XAVIER, Elódia. Tudo no feminino: a mulher e a narrativa brasileira contemporânea. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991.



[1] Doutora em Estudos Literários, atualmente, professora formadora do componente curricular de Língua Portuguesa na Diretoria Regional de Educação/DRE-Cáceres/MT.

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Margarida Montejano é natural de Mogi Guaçu, SP. Reside em Paulínia, SP. É doutora em Educação, funcionária pública municipal em Campinas. Poeta e escritora. Autora dos livros de contos "Fio de Prata", 1ª ed., Scenarium Livros Artesanais em 2022, reed. pela Ed. Siano em 2023 e, do livro de poemas “Chão Ancestral”, Ed. TAUP em 2023.


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Elizabete Nascimento é Doutora em Estudos Literários. Autora das obras: A Educação Ambiental e Manoel de Barros: diálogos poéticos (2012); Asas do Inaudível em Luzes de Vaga-lume (2019); Sinfonia de Letras (2021); Granada (2023). Identidade mais sublime nessa vida: vovó do Samuel e da Alícia; acredita que o amor é infinito.

segunda-feira, 24 de julho de 2023

AMOR E EROTISMO: A DUPLA CHAMA NAS PÁGINAS DE "É tudo ficção", "meu silêncio lambe a sua orelha" e "Fio de Prata", Por ISA CORGOSINHO

 

AMOR E EROTISMO: A DUPLA CHAMA NAS PÁGINAS DE 

É tudo ficção, meu silêncio lambe a sua orelha e Fio de Prata

POR ISA CORGOSINHO

 

Chegaram-me às mãos três livros das amigas poetas do projeto Enluaradas. É tudo ficção e Fio de prata aportaram matutinos quando as autoras Flavia Ferrari e Margarida Montejano estiveram em Brasília, em pleno verão, já o meu silêncio lambe a sua orelha, de Marta Cortezão, chegou marcando o final do outono.

Releio algumas passagens do livro A dupla chama: amor e erotismo, de Octavio Paz, para me acompanhar nesse pequeno artigo, que escrevo para nosso encontro em Campinas, marcado para o final de julho de 2023.  

Os livros das três autoras reforçam, na realidade sensível, que a poesia é o testemunho do mundo dos sentidos. Um testemunho que projeta sua veracidade nas imagens que se oferecem ao leitor como palpáveis, visíveis e audíveis.

O que nos ensina a poesia está no real ou na ilusão? Pergunta que permeia o livro É tudo ficção, de Flávia Ferrari. A ambivalência da resposta está na sustentável fusão de ver e crer. É na conjunção do ver e crer que está o segredo e os testemunhos da poesia a serem desvelados pelo leitor, pois aquilo que vemos na poesia não pode ser visto com nossos olhos da matéria, e sim com as janelas da alma, os olhos do espírito.

FUSÃO


Percebo as vidas soltas

Que deixam de ser invisíveis

Quando contemplo os pés descalços

__ Sempre os pés __

Ponto de apoio quando caminho

Há outro destino disponível que não a espera?

Penso no tempo e em sua medida

Tão legitimada e disseminada

Tão suscetível ao espanto

Há quase tudo por fazer

E tantos lamentos que não alimentam nem o minuto

 

Octavio Paz acerta quando diz que a experiência com a poesia é a mesma que experimentamos no sonho e no encontro erótico. Na poesia de Ferrari, marcadamente no capítulo 5. Entre paredes, tanto nos sonhos como no ato sexual o eu poético abraça fantasmas, ausências, reminiscências. 

      

O TAMANHO DAS COISAS


uma memória pode ser maior que o vento

e mesmo quando surge com todo o seu domínio

é ainda menor que o meu amor presente

 

o tecido que me envolve

e que agora se desmancha na fúria da sua luz

já nos embrulhou em nossas fugas

das histórias ruins que repartimos

e acatou os segredos que soubemos oferecer

 

esses pontos que foram se soltando

e que antes entrelaçavam as banalidades e as aventuras e o pacto

foram alterando toda a estrutura

tivemos que nos arrancar de nós

 

agora que há tão pouco aqui comigo

e mesmo tirando tudo o que persiste

eu não consigo me escapar

 

nem no momento de maior aflição

desejei não ter vivido nossa verdade

mesmo que jamais consiga fazer parar

 

prometo que não escreverei mais

assim diretamente

saber-me invasiva da sua nova  vida

agora me constrange

e me encerra aqui

neste ponto exato

de onde não haverá partida        

    

Embora nosso parceiro tenha corpo, nome e face, na sua realidade, precisamente no momento mais intenso do abraço, acontece a dispersão em ondas de sensações que inexoravelmente se dissipam. A pergunta que insiste em não se calar, está sempre ecoando pelas bocas dos apaixonados, porque guarda em si o mistério erótico:  quem é você? Não é possível obter a resposta, porque os sentidos são e não são deste mundo. É a poesia, por meio deles, que ergue uma ponte entre o ver e o crer. Por essa ponte transita a imaginação, por ela ganha corpo e os corpos se convertem em imagens.

A poesia de Marta Cortezão nos convida a tocar o impalpável e a escutar as ondas do silêncio cobrindo uma terra devastada pelos insones. O testemunho poético refrata, revela um outro mundo dentro deste, o mundo outro – alteridade – que é este mundo.  Os sentidos aqui trabalham, sem descuidar de seus poderes, como servidores da imaginação e nos incitam a ouvir o inaudito e ver o imperceptível.

Quem ri quando goza / é poesia / até quando prosa 

                                                                {Alice Ruiz}

desvãos

 

meu silêncio lambe tua orelha

e se arvora feito cobra

para infiltrar-te o veneno

 

meu silêncio se espicha

pelas frestas feito lagartixa

para roubar-te a fala

 

meu silêncio aflora

e ri que goza

quando lambe

quando cobra

quando se larga e atiça

para confundir-te as horas

e de olhos nos olhos

alimentar-te a prosa

com íntima poesia

 

Octavio Paz faz uma profícua relação entre erotismo e poesia. Segundo ele, o erotismo é uma poética corporal e a poesia é uma erótica verbal. Os dois são compostos de uma oposição complementar. A linguagem – som que emite sentido, traço material que denota ideias corpóreas – e é capaz de dar nome ao mais fugaz e evanescente: a sensação; por sua vez, o erotismo não é mera sexualidade animal – é cerimônia, representação.

No livro meu silencio lambe a sua orelha, de Cortezão, encontramos as imagens recorrentes da chama vermelha do erotismo, transfigurada em linguagem.   

Eu não nasci rodeada de livros, e sim rodeada de palavras 

                                                              {Conceição Evaristo}

geossintaxe                    


com passos indecisos

percorro as sentenças

da língua que me devora

 

reviro os escaninhos

dos verbos obtusos

cuja geometria

adensa os advérbios

que florescem das pedras

 

meus sapatos sujos de pausas

deixam todas as pegadas

órfãs de sintaxe-delírio

 

onde guardei a palavra

com gosto de chuva?

 

onde minha língua

se entrelaçará na tua

para cópula ardente

de neologismos?

 

quando o sexo verbal

gozará metonímias

em teu corpo metáfora

afro afrodisíaco

Afrodite de palavras?

 

Na poesia de Cortezão ocorre a concreção daquilo que afirma Paz. O erotismo é sexualidade transfigurada: metáfora, e a imaginação é o agente que move o ato erótico e o poético. É, afirmativamente, a potência que transfigura o sexo em cerimônia e rito e a linguagem em ritmo e metáfora.  Observamos em sua poesia a imagem poética como um abraço de realidades opostas, os versos livres e a poesia concreta encenam a cópula de imagens e sons. Sua poesia erotiza a linguagem e o mundo, porque ela própria, em modus operandis, já é erotismo.

Diferente da mera sexualidade, o erotismo é uma metáfora do sexo animal, reafirmando o significado conotativo designa algo que está além da realidade que lhe dá origem, uma invenção distinta dos termos que a compõe. Igualmente, a poesia já não aspira a dizer, e sim a ser. A poesia interrompe a comunicação prosaica do cotidiano como o erotismo, a reprodução. 

Os sentidos do amor e do erotismo também estão presentes no conto A metáfora do Buraco e a Água no Rosto, do livro Fio de prata, da escritora e poeta Margarida Montejano, do qual destacamos alguns fragmentos.

__ Caro amigo,

Você já teve a sensação de que está andando, ou parado e que, de repente, um buraco se abre e sua frente e você é simplesmente engolido por ele?

[...]

Água! Me dei conta que... minha boca, nariz e olhos estavam cheios de areia. Meu corpo sendo sacolejado por mãos delicadas. Mãos de mulher. Água sobre o meu rosto ela jogou.

__ Acorda! Acorda!

Disse a voz rouca e suave!

[...]

O perfume da mulher me inebriou a mente, a alma e, como a um sonho, as imagens se desvaneceram. Sensação agradável tomou-me.

Respiro. Olho meu ouvinte de olhos arregalados e pergunto:

Quem é esse ser de meia idade abobado que acorda? Sem nome e sem história? Sem memória e feliz com o que vê? Com o que sente?

Bem! A misteriosa mulher ajudou-me a levantar. Olhou-me nos olhos e como a um encantamento, me disse:

__ Eu sabia que um dia a gente iria se encontrar de novo! Que bom que você veio!

[...]

Tenho a sensação de que uma curva do tempo me engoliu e me devolveu para esta era. Me trouxe de volta.

__ E Ela? A mulher do perfume?

Perguntou-me ele:

Respondo de pronto:

Ela é a melhor parte de mim. A minha companheira! Minha alma gêmea. A mulher que acorda ao meu lado, dia após dia! Que me acalma e me toca com a serenidade que somente no céu eu poderia encontrar, eu poderia sentir! Ela me completa, mas... mas tem algo nesta história que eu ainda preciso entender.                   

 

O personagem vivencia uma experiência na qual o tempo se entreabre e nos deixa ver o outro lado. São instantes de conjunção entre o sujeito e o objeto, do eu sou e você é, do agora e do sempre, do mais além e do aqui. A imperiosa imagem que está presente no conto de Montejano é a do amor, na qual a sensação se une ao sentimento e ambas ao espírito. O personagem experimenta um alto nível de estranhamento, uma epifania: está fora de si, lançado diante da pessoa amada -- experiência da volta à origem, a esse lugar que não está no espaço e que é a nossa pátria original. A pessoa amada é a um só tempo a terra incógnita e a casa natal; a desconhecida e a reconhecida.

Ao citar um fragmento de Hegel sobre o amor, Octavio Paz ressalta que o grande e trágico paradoxo do sentimento amoroso consiste em que os amantes não podem se separar a não ser na medida que são mortais ou quando refletem sobre a possibilidade de morrer.

No conto, a morte é a força da gravidade do amor. Ao cair no buraco, o personagem encena o impulso amoroso que nos arranca da terra e do aqui; a consciência da morte nos faz compreender que somos mortais, feitos de terra e a ela temos de voltar. A unidade compacta se rompe em dois e o tempo reaparece – é um grande buraco que nos engole. A dupla face da sexualidade reaparece no amor: o sentimento intenso da vida é indistinguível do sentimento não menos poderoso da extinção do apetite vital; a subida é queda, e a extrema tensão, distensão. Dessa forma, a fusão total implica a aceitação da morte.

Ao seu atento interlocutor, o narrador solitário ensina que amor é vida plena, unida a si própria, o contrário da separação. Ao sentir o perfume e as mãos da amada em estado epifânico, ele reencontra o abraço carnal. A união do casal se faz sentimento e este, por sua vez, se transforma em consciência: o amor é o descobrimento da unidade da vida. 

O narrador, o mar e a areia nos permitem a reflexão poética de que somos tempo, nada é durável.  O amor não vence a morte, mas a integra na vida. A morte da pessoa amada confirma nossa condenação: viver é um contínuo separar-se, mas, paradoxalmente, na morte cessam o tempo e a separação: regressamos à indistinção do princípio, a esse estado da cópula carnal.  O amor é o regresso à morte, ao lugar de reunião. 

Os poemas e conto aqui trabalhados, neste breve texto, estão em fina sintonia com importantes passagens do livro de Octavio Paz, principalmente em consonância com a magnífica imagem do fogo, elaborada por ele: a chama é a parte mais sutil do fogo, e se eleva em figura piramidal. O fogo original e primordial, a sexualidade, levanta a chama vermelha do erotismo e esta, por sua vez, sustenta outra chama, azul e trêmula: a do amor. Erotismo e amor: a dupla chama da vida.         

       

Referências bibliográficas:

CORTEZÃO, Marta. Meu silêncio lambe a tua orelha. Curitiba: Eu –i, 2023.

FERRARI, Flavia. É tudo ficção. Curitiba: Eu-i, 2023.

MONTEJANO. Margarida. Fio de Prata. São Paulo: Scenarium, 2022.

PAZ, Octavio. A dupla chama – amor e erotismo. Trad. Wladir Dupont. São Paulo: Siciliano, 1994.   

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Para adquirir os livros, entre em contanto diretamente com as autoras Flavia Ferrari, Marta Cortezão e Margarida Mntejano.

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Isa Corgosinho é de Brasília/DF, professora universitária aposentada, poeta. Participou de várias Coletâneas, entre elas: Coletânea enluaradas (2021); 1ª Coletânea Mulherio das Letras na Lua (2021); Coletânea Ciranda de Deusas I e II (Enluaradas Selo Editorial, 2021); Poesia & Prosa (In-finita, Portugal 2021); Livro Memórias da pele, Venas Abiertas – III – Mulherio das Letras, 2021.

sábado, 21 de janeiro de 2023

LIVROS & ENCANTAMENTOS: FIO DE PRATA, DE MARGARIDA MONTEJANO


LIVROS & ENCANTAMENTOS/09

DESFIANDO  REMINISCÊNCIAS, EPIFANIAS E METÁFORAS

POR ROZANA GASTALDI COMINAL

Sociedade distópica em função da pandemia da Covid-19, isolamento social por conta do coronavírus nos últimos dois anos, leva as mulheres que escrevem a se projetar com seus escritos nos mais variados gêneros. Em múltiplas linguagens dão vozes à potência feminina que dá um basta na violência cotidiana. Nesse curto período, estamos escrevendo sobre condição social, econômica, educacional, moda, comportamento, opressão, submissão, corpos, violência, política. Nada nos detém porque, enquanto reescrevemos nossos textos, damos novo enfoque àqueles que alienam de nossa condição.

Mulheres potentes em fusão por um mundo melhor. Foi nesse contexto que conheci Margarida Montejano e sua produção literária que traz traços de suas vivências como educadora, apresentadora do Canal N’outras Palavras, mãe, amiga, esposa. enfim, uma sobrecarga de papeis a que muitas de nós estamos expostas. E, justamente, por isso vamos nos apoiar e nos ler.

Margarida Montejano -Lançamento do livro Fio de Prata
[Foto arquivo pessoal da autora]

Em Fio de Prata, seu primeiro livro de contos, Margarida Montejano mostra que veio contribuir dando vez e voz a suas personagens femininas, para isso se apoia em alguns recursos estilísticos que se destacam: a reminiscência, a epifania e a metáfora. De fato uma maneira de aprofundar sua prosa poética.

 Na filosofia, Platão recorre à anamnese, à lembrança com pouca certeza. Nessa recordação vaga – reminiscência – é possível perceber coisas que ficaram na memória inconscientemente. Com o conto Reminiscências? Talvez, que abre o livro, percebe-se o quanto isso vem à tona. Quantas vidas existem e resistem em nós, mulheres? Múltiplas somos que “esse corpo estrangeiro” quando se depara na forma física “alta, negra, cabelos longos, pele quase negra”, “um corpo estranho e um cérebro em desalinho”, “vestido longo como num filme antigo”, natural o biotipo incomodar? Quando se vive no país em que vidas negras parecem pouco importar, isso não é à toa, vive-se livre num filme em busca das raízes que nos constituem. E nos vemos cara a cara com A Mulher do Retrato, a história de Inês/Inezita é recheada de romance, de perdas e ganhos, de se reinventar a cada amanhecer. Na primeira parte – A noiva do pescador – Inezita e Julinho vivem a saga de construir família e o sustento dela, o Condor passa, lutam até o luto. Na segunda parte – A Medalha da Sorte – Inezita, viúva, beija a medalhinha de Nossa Senhora da Conceição, os ventos e os rumos mudam, chega Naldo. E na terceira parte – A Mulher, o mar e vida que segue – vemos Naldo morrer à deriva no mar, após enfrentar duas árduas ressacas: a do mar e a da bebida. Apesar das dificuldades enfrentadas, na sua simplicidade, a mulher vivia feliz. Porque o tempo todo foi ela o arrimo que a todos sustentou, mesmo “com os olhos marejados de preocupação e saudade, trabalhava e trabalhava muito. Costurava, cozinhava, cuidava dos filhos”. Exatamente por isso, D. Inês enfrentou as marés e seguiu altiva e agradecida.

[Foto do arquivo pessoal da autora]

A seguir, já anunciada no título, está A Epifania Feminina. Como Clarice Lispector, a autora explora a epifania – o(s) momento(s) de revelação. Essa característica literária nunca anda sozinha, vem acompanhada de questões existenciais: Nascer de novo? Não como menina! Repetir a mesma história? Nem pensar nessa falta de sorte. Qual o seu lugar na família numerosa? O clube do Bolinha ordena, o clube da Luluzinha executa. Deus dará, a fé ilimitada da avó determina, assim tem sido. Mas a garota de 10 anos questiona quando vê que os irmãos e primos têm tratamento diferenciado e privilégios. Sente-se arrasada quando o pai diz: “Como diz o otro, o bão e o que dá sorte é bater na nossa porta um menino pedindo anobão. Se vié uma menina, aí o ano será ruim, não será anobão”. Que desaforo! Mas menina conta com o apoio, a sensibilidade e coragem da mãe para livrar da triste sina, não ficará relegada a segundo plano enquanto os meninos seguem maiorais pelo anobão. Bandeira de luta e resistência já desde cedo o feminismo floresce.

Outras epifanias surgem em A Mão e o Espelho quando a jovem funcionária do banco fala que pratica quiromancia. Um dos colegas fica animado e põe sua mão para ela ler. A moça dá trela, pois é boa observadora de pessoas e com base nas atitudes delas “revela” as previsões futuras. Tempos depois, em outra cidade, já com outra profissão, “as revelações” se confirmaram para surpresa de Márcia, uma espécie de espelho que filtra os desejos do outro, da outra, de quem quer que seja, pois reflete também a si mesma, pois quem é que não quer ter uma vida repleta de realizações? Linhas da vida, fios entrelaçados pela escuta, o melhor dos autocuidados em nosso cotidiano tão banal, no entanto revelador se atentarmos aos detalhes.

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Finalmente as metáforas retratam várias faces. Hora de olhar as analogias, as comparações entre uma coisa e outra, qual a similaridade entre ambas? Nos contos seguintes, percebo que as personagens estão em busca do sentido da vida, partem para uma reavaliação existencial. Foi desse modo que enxerguei A Metáfora do Buraco e a Água no Rosto. O homem, em busca de sua alma gêmea, caminha sedento pelo deserto. E do nada é “engolido pelo buraco”. Perde a noção espacial e temporal. Miragem, passagem? Sente o frescor do oásis, em “fragmentos de sonho” vê a si mesmo bem mais velho, “a mulher misteriosa” nas “dunas centenárias”. Perdeu o senso ao deixar de viver o inusitado? Afinal o que é a vida? Miragem, passagem? Melhor é água no rosto, acordar para vida e dela desfrutar, ouvir a intuição, porque, às vezes, procuramos por algo bem longe de nossa vista quando o objeto de nossa fixação está abaixo de nosso nariz.

Na narrativa Se Não Entender, Pergunte!, o universo da educação se faz presente. A princípio parece ser mais um conto daqueles em que o opressor da pedagogia do oprimido vence. No entanto, Paulo Freire nos educa para uma educação que liberta então vem o revés. Somos sujeitos históricos, oras! Enquanto uma criança mantiver sua curiosidade acesa, que venham as perguntas! Já as respostas podemos encontrá-las juntos! Criatividade exige aprendizagem cooperativa. Isso se dá com interação das partes envolvidas: professor, estudante, sociedade inseridos num determinado contexto gerando uma pedagogia da esperança, metáfora que indica novas leituras, novos modelos de educar, porque os tempos são outros. Ter consciência desse processo é humanizar a nós mesmos.

[Foto arquivo pessoal da autora]

Por fim, o fechamento do livro com O Fio de Prata, canal que transmite energias vitais. Dona Maria Teresa e Nona são as anfitriãs da casa sem espelho. Ali compartilham histórias e ausência de vaidades. Em contraste com a convidada que se fixa na imagem de Narciso, de poemas, de personagens literárias, incluindo seus autores como forma de manter o corpo-matéria vibrando. Vibração esta que vem do fio de prata, pois nele está a força divina que mantém o corpo ligado ao espírito. Nesta metáfora bíblica, Margarida Montejano nos enriquece com várias outras imagens que são espelhadas e espalhadas assim como deve ser o universo literário que nos reflete, ora é susto, ora é vislumbre, ora totalmente espelho.

Após a leitura dos 7 contos, comovida, percebo que faço parte desse mulherio em movimento. Assim são as mulheres que redescobrem dentro de si mesmas verdades intrínsecas e se movem sem a validação de outros olhares, agora encontramos em nós próprias representatividade. Ressalto, ainda, que foi apenas um recorte desta leitora e que outras análises são possíveis. Encerro lembrando de um dito popular que diz que recordar é viver. Diria mais, aprender é recordar, seja conhecimento e aprendizagem por reminiscência, epifania ou metáfora. Quando se toma consciência do quanto certas situações ficcionais se aproximam de situações cotidianas experimentadas por nós, tais fragmentos de vivências nos fortalecem, estamos unidas pelo fio de prata que herdamos da literatura de Margarida Montejano, pois cada qual, a sua maneira, quer encontrar o fio condutor de sua existência.

Rozana Gastaldi Cominal

Poeta, escritora e professora

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Rozana Gastaldi Cominal, de Hortolândia/SP. Poeta e professora. Formada em Letras, faz revisão de textos. Acredita na força dos coletivos e com eles faz voz com a poesia na ordem do dia. Publicação de poemas em redes sociais, revistas literárias digitais, e-books e livros impressos. Livro solo Mulheres que voam (2022, Editora Scenarium).



Margarida Montejano, mora em Paulínia/SP. Supervisora Educacional na Rede Municipal de Campinas, Poeta, Pedagoga, Ms. em Educação PUC Campinas, Dra. em Educação pela Unicamp; Pesquisadora do Loed/Unicamp e Produtora do Canal Literário – N’outras Palavras – histórias que inspiram, no Youtube. Livro solo Fio de Prata (Editora Scenarium, 2022).

 


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