A N I M A I S
POR SANDRA GODINHO
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As
vozes vinham de dentro das paredes e trabalhavam em uníssono; era preciso, para
combater a fome e a sensação de vazio. As entranhas davam o tom e a cadência,
tangendo a necessidade que, naquela casa, eram muitas. Bílis, vísceras, nervos
e podridão, tudo desgastado pelo uso. As tábuas de madeira rangiam, no risco de
se romperem. As dobradiças das janelas, enferrujadas, não obedeciam ao manuseio
das mãos, não abriam nem fechavam. Também já não havia mãos. As que habitavam a
casa há muito tinham se ido, antes que ela se precipitasse sobre os corpos, soterrando
músculos e pelancas. Só restaram os ruídos e o estrago nas fendas.
As
fendas eram muitas. Profundas. Algumas se preenchiam com raízes de árvores
próximas, que avançavam sobre o local que mais parecia um túmulo. Por acaso não
sabiam que, para cada função, havia uma madeira específica? Paxiúba para
revestir assoalhos, caibros de andiroba para afastar os carapanãs, acariquara
para os parapeitos e as varandas, louro vermelho para as paredes laterais, palha
do buçu para a cobertura. Tivessem escolhido a madeira adequada, não estaríamos
lá, nos banqueteando com os restos.
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Aquela
família ribeirinha resistia por obra de Deus ou do Diabo, só para entender o
resto da sua existência. Nunca aprenderam que as árvores nos davam o mundo
inteiro, a nós e a eles. As castanheiras forneciam os ouriços; os açaizeiros, o
fruto, tão energético que punha todos de pé e em estado de espera, aguardando a
farinha e o peixe. O fruto roxo saía da floresta e chegava ao porto ainda de
madrugada, em paneiros ou rasas
de açaí, para ser
comercializado em todo canto. Todos lá trabalhavam. O pai pescava o tambaqui, o
menino colhia o açaí das árvores, a menina criava as galinhas e a mãe passava
horas para produzir a farinha de macaxeira. Esse era o mundo inteiro, o mundo
que conheciam, o que fazia explodir histórias em fúria lenta, sempre à noite e
sob a luz dos candeeiros, conversando com os vizinhos e os compadres. Viviam
bem até darem ouvidos a quem sempre foi surdo à natureza. Cederam tanto a esses
rabos de conversa que, em pouco tempo, a vida degringolou, feito barranco de
rio em época da vazante, quando os espaços de ar desmanchavam a terra.
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É
só descuidar do fogo da coivara e deixar o terreno arder um pouco mais pra
botar pasto, dizia um. Umas cabeças de gado, só para começar, dizia outro. Se
não der, o compadre passa a terra pra frente, que o que não falta na região é
grileiro e garimpeiro, retrucava o outro, forasteiro. A região se encheu deles,
insistiam que tinha muita empresa querendo tomar posse e facilitar a mineração.
Foram tantas as ideias alimentadas pelas palavras dos outros que o pai viu seu
futuro cintilar antecipado na planície. Um futuro enfeitiçado, onde a tudo
botavam preço: água, terra e céu. Um lago azul no meio do verde valia milhões. Foi
assim que o pai se esqueceu do rio, da mata, dos animais, dele mesmo e dos
gestos de generosidade que ainda vicejava na família e naquele mundo de
compadrio. As palavras martelaram, costurando muitos dias e noites na
imaginação, em poderosa urdidura. Até que a família colocou as palavras em
prática. Atearam fogo e energia, se empenharam a desbastar o que viam pela
frente. Não notaram as chuvas se espaçarem, a terra ressecar, os rios murcharem.
Dentro em pouco, atravessaram até a outra margem do seu mundo. O açaí começou a
queimar no pé, sem força de florescer. Os rios e igarapés perderam a correnteza.
Nem golfinho conseguia atravessar as barreiras do imponderável, morrendo na
superfície dos rios e dos lagos; a mandioca desistiu de crescer, mergulhada no
próprio enterro, debaixo da terra. Sem o milho, as galinhas morriam de fome,
desgraçadas pelo destino.
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Foram
as primeiras a se rebelar depois que a generosidade deixou de existir entre
eles. Os animais, como homens, se defendiam da fome, procurando outros
caminhos. Cruzaram o sítio como se a família fosse a inimiga, bicando e
debicando as mãos que encontraram pela frente antes de sumir pelos arbustos.
Mãos que tentaram segurar a carne branca que ainda viam como sustento. De
nervos expostos, sangrando, sem se conciliar ao sono, a família partiu, calando
as corujas, os guaribas e os jacus, que deixaram de visitar o sítio.
Para
nós, restaram as madeiras. Já não fazemos distinção de nenhuma delas, também
nós mudamos com o novo clima; seguiremos abocanhando até a última farpa. No ano
que vem, a gente
não sabe como vai ser. Talvez tenhamos de aprender a nos alimentar de podridão,
assim como os urubus.
Sandra Godinho nasceu em 1960 em São Paulo, é graduada e Mestre em Letras. Já participou de várias coletâneas e antologias de contos, sendo agraciada com alguns prêmios. É membro número 78 da AILB, Academia Internacional de Literatura Brasileira.