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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A POESIA DAS PEQUENAS COISAS - A OBRA POÉTICA DE ASTRID CABRAL

Astrid Cabral: “exímia inventora de tesouros, a explorar os preciosos filões dos sentimentos”

Palestra de Rita Alencar Clark sobre a escritora amazonense homenageada na Feira do SESC 2025, Astrid Cabral. A Feira teve curadoria de Leyla Leong. A palestra aconteceu no dia 30 de outubro de 2025, às 15:00h, no Centro de Convenções Vasco Vasques (Manaus/AM).

Astrid Cabral

1. Como se faz um bom poema, Astrid?

Quando aceitei o convite de Leyla Leong para falar de Astrid Cabral, da sua poesia diária, a Poética das Pequenas Coisas, grandes ou delicadas, que nos deparamos pela vida, de certo que aceitei e quero, antes de tudo, agradecer-lhe a honra de estar aqui.

E de tanto pensar no que escreveria, vieram-me lembranças intensas de nossa convivência familiar no Rio de Janeiro, onde todos morávamos. Astrid nunca faltou, não sem avisar, a um aniversário do meu pai, seu companheiro de poesia e Clube da Madrugada, Alencar e Silva, para ela, o Neto. Naqueles dias, fomos convidados para o almoço de aniversário de Astrid, em seu apartamento no Parque Guinle. Meu pai já acordara ansioso e assobiando, sempre temendo inevitáveis atrasos. “Nair… compraste o presente da Astrid?  Sim, Neto”. E foi pra esse lugar que minhas memórias me levaram.

Como em toda casa de amazonenses, fomos recebidos por Astrid e doutor Afonso com abundância de delicadezas, incluindo-se o, sempre farto, menu amazônico. Mamãe e Astrid, antes do almoço, trocavam informações e urgências, fossem novidades fresquinhas de Manaus, fossem receitas fantásticas, agruras da maternidade desejada e a realidade de serem mulheres e trabalharem fora… não se tinha uma brecha no diálogo. E eu, com um caderninho na mão, de tocaia para fazer uma intervenção, quando ela falou: “Ritinha, senta aqui do meu lado”. Como caloura do curso de Letras na Santa Úrsula, não podia perder a oportunidade de entrevistar Astrid Cabral. Ela pegou na minha mão e perguntou: o que queres saber? “Como se faz um bom poema?” Rimos as duas em cumplicidade, ela respondeu, ainda sorrindo, que “primeiro tens que dominar a gramática, qual usas?”  Cunha, Luft e Cegalla, respondi. “Pois, lute com eles! Depois, comece a dominar a arte de cortar... os primeiros serão os artigos, depois preposições e interjeições, por último os adjetivos. O que sobrar é o esboço do poema. E, então, começas o trabalho de lapidação”. Que maravilha de resposta, nunca pude esquecer e até hoje impacta no meu processo criativo. Astrid, para mim, é a tia escolhida, por saber da grande amizade, respeito e admiração de meu pai por ela, pela grande poeta que é. Após o almoço todos iam para o living e, entre licores e cafés, a tarde se estendia, era só poesia. 

Arquivo da autora

2. Os versos, essas aves das ideias

Segundo Alencar e Silva, em artigo sobre Astrid  (Quadros da Moderna Poesia Amazonense  Valer, 2011): “Astrid Cabral Félix de Sousa nasceu em Manaus, a 25.9.1936, onde integrou o movimento renovador Clube da Madrugada, desde as primeiras horas, transferindo-se ainda adolescente para o Rio de Janeiro, onde diplomou-se em Letras Neolatinas, na atual UFRJ e lecionou Línguas e Literatura na Universidade de Brasília, saindo em 1965, em consequência do golpe militar.

Ingressou posteriormente no Itamaraty, onde serviu como Oficial de Chancelaria em Brasília, Beirute, Rio de Janeiro e Chicago. Casada com o poeta Affonso Felix de Sousa, é mãe de cinco filhos: Raul, Alfredo, Giles (já falecido), Isabela e Mariana. Detentora de importantes prêmios, participa de numerosas antologias no Brasil e no exterior (...) Sua obra poética já se estende por mais de dez títulos, entre os quais se contam: Alameda, 1963 (ficção); Ponto de Cruz, 1979 (poesia); Torna Viagem, 1981 (poesia); Zé Pirulito, 1983 (estória infantil); Visgo da Terra, 1986 (poesia); Lição de Alice, 1986 (poesia); Rês Desgarrada, 1994 (poesia); De déu em déu, 1998 (poesia reunida); Intramuros, 1998 (poesia); Rasos d’Água, 2003 (poesia); Jaula, 2006; Antessala, 2007; 50 poemas escolhidos pelo autor, 2008; Palavra na berlinda, 2011; Infância em franjas, 2014; Sobre escritos: Rastros de leitura (Crítica literária ensaios de Astrid Cabral  Org. Helena Ortiz, 2015). É detentora dos seguintes prêmios: José Décio Filho, da UBE-GO, 1981; Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras, 1987; Casa do Escritor, São Paulo, 1987; Cine-vídeo de Porto Alegre/Lei Sarney, 1987; e Jorge Fernandes, da UBE-RJ, 1996, entre outros."

Vejamos um poema de Alencar e Silva para Astrid, no primeiro livro do autor, Painéis, 1952:

À Astrid Cabral

Tens na voz algum ninho, um ninho de ouro,

que lembra, numa chuva de açucenas,

as manhãs claras, musicais, serenas,

de um celeste e rosado logradouro


E ouvir-lhe os sons, ouvir esse tesouro

de harmonias de mágicas avenas, 

é dar asas à alma e ver-se apenas

voando à claridade de um céu louro.


Pois, quando surges, luz e canto, em cena,

voando de tua garganta de açucena,

os versos, essas aves das ideias,


como que aroma e música espalhando,

as almas todas vais sonorizando

e arrebatando as lívidas plateias.”

Alencar continua em sua resenha crítica: “Um dia, quando ia em pleno andamento a segunda caravana que empreendêramos, pelo sul do país, com Jorge Tufic, Antísthenes Pinto e Guimarães de Paula (...) estivemos em visita de cortesia à nossa conterrânea, que se encontrava hospedada num pensionato para estudantes, na Rua da Glória, no Rio de Janeiro, cidade onde ela se diplomaria em Letras Neolatinas, pela Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil, atual UFRJ.” Apesar da distância entre Manaus e Rio de Janeiro, além de todas as dificuldades de deslocamento, pois estamos falando dos anos de 1953/1954, o posto de musa no Clube da Madrugada sempre foi cultivado e respeitado por seus companheiros de poesia, como nos relata aqui Alencar e Silva: “Desde a adolescência, Astrid Cabral tem tido destacada participação na vida cultural de Manaus, quer atuando em grêmios literários, como a SAEL (Sociedade Amazonense de Estudos Literários, que ela ajudou a fundar e levou a funcionar em uma sala do Instituto de Educação, cedida por sua diretora, e avó, Dona Eunice Serrano Telles de Souza), quer em publicações de vanguarda, como o jornal “Nossos Dias”, de Francisco Vasconcellos e João Bosco Evangelista, onde apareceriam os seus primeiros poemas. E o autor de Lunamarga continua: “Além do toque de qualidade que a distingue, o que sobreleva na obra de Astrid Cabral (...) é, sem dúvida, a consciência profissional em que se espelha o seu saber-fazer poético.” (...) “atesta, efetivamente, a presença de uma poderosa força criadora, que se exerce, com total domínio, sobre a palavra emprestando-lhe à linguagem aquela ressonância, a um tempo próxima e distante, aparentemente estranha e aparentemente familiar, das coisas eternas. (...) “Visgo da Terra” obra em que celebra a memória dos seres e coisas que povoaram a paisagem do que fora Manaus da sua adolescência  aquele, entre os seus livros, em que melhor podemos observar uma das faces mais constantes de sua poesia  a das EVOCAÇÕES  e, aí, vê-la como exímia inventora de tesouros, a explorar os preciosos filões dos sentimentos e a trazer de seus subsolos as gemas mais belas, para maior glória de sua cidade.” (ALENCAR E SILVA (Quadros da Moderna Poesia Amazonense, Ed. Valer, 2011).

Astrid Cabral

3. A poética das pequenas coisas

Astrid Cabral faz a Poesia das Pequenas Coisas. O seu olhar costura o poema por dentro, alinhavando com precisão, na imaginação do seu leitor, os versos no pensamento, que flutuam no ritmo do poema, vislumbrando decifrar-lhe as metáforas, buscando as chaves e códigos do poema. 

Vejamos o que nos diz José Godoy Garcia, na edição de Astrid Cabral-50 poemas escolhidos pelo autor (Edições Galo Branco, RJ,2008): “A começar pelo título do livro, Ponto de Cruz, onde principiamos a tomar contato com as pequenas-grandes coisas da vida doméstica, como que colocadas harmoniosamente sobre a mesa. Mas, como toda a boa poesia, esta que nos vem de Astrid não nos prende à aridez e ao limitado território das palavras. Do exíguo mundo, das humildes e pequeninas coisas do dia-a-dia da cozinha, da casa, do quintal, projeta-nos alto e longe, graças ao mistério que só os autênticos artistas conseguem alcançar.”

Ponto de Cruz        (recorte do  blog Alma Acreana)

Lá fui eu ao armazém

comprar açúcar e mel.

Voltei com um quilo de sal

na boca o gosto do desgosto

lágrimas no rosto embutidas.

No balcão ao pedir vinho

vinagre me foi servido,

queria um maço de fogos

chuvas de prata e estrelas

para comemorar a noite

porém só havia velas

com que imitar o dia.

Lá fui eu ao armarinho

(tangida por que ventos

por que pérfidas sereias?)

comprar um dedal de amor.

Voltei com este coração

são sebastião de alfinetes.

O peito? retrós entaniçado

por mil linhas de aflição

euzinha toda por dentro

que nem pano em bastidor:

bico de agulha finoferoz

sobe-desce-sobe bordando

minha vida em ponto de cruz. 

(CABRAL, Astrid. De déu em déu: poemas reunidos (1979/1994). Rio de Janeiro: Sette Letras, 1998. p.42)

No poema que dá o título ao livro, podemos observar com nitidez o poder evocativo da poesia de Astrid, que se destaca pela capacidade de sugerir e provocar sensações, lembranças e estados de espírito no leitor, em vez de descrevê-los diretamente. O “manuseio” de recursos tais como: a subjetividade, o simbolismo, oposições de ideias, ritmos, aliterações, assim como temas como o “eu” interior, a melancolia e o mistério. Tudo isso faz do poema um repositório de imagens poéticas que buscam uma expressão espiritual e etérea, para criar uma atmosfera misteriosa e transpessoal.

De déu em déu

No livro De déu em déu 
 Poemas reunidos (1979-1994), o Professor Dr. Antônio Paulo Graça nos diz sobre Astrid, em seu artigo de apresentação: “Se “Torna-Viagem” se abria para o espaço amplo, para o exterior (em todos os sentidos), “Lição de Alice” se concentra na intimidade, no mínimo espaço, na vida doméstica e nas experiências que uma voz sensível, muitas vezes, outras, extremamente cáustica, não faltando mesmo, aqui e ali, um toque de crueldade. O leitor de Astrid Cabral não deve se deixar envolver inteiramente por sua sensibilidade. Como antídoto, preste-se atenção nos versos finais de ‘Nudez’  “Mas bendizemos o corpo que nos redime / e nos queremos selvagens, puros, nus. / Salvos pela misericórdia de nossa miséria.”  em que o paradoxo da última linha não nos deixa esquecer nossa condição liliputiana. Ao lado desse pendor crítico, há também uma tentação pela agressão pura, agressão contra as falsas convenções.”

Lição de Alice

No vale de lágrimas

a lição de Alice:

Não se deixar afogar.

Nadar na preamar

da própria dor.

Astrid Cabral  50 poemas escolhidos pelo autor

A primeira Lição de Alice (Philobiblion, 1986), ou seja, de Astrid Cabral, é precisamente a de levar ao leitor uma lição de pura poesia. Com raro domínio da linguagem poética, a autora ensina a difícil fórmula de, com poucas palavras, transmitir o essencial. Poesia evocativa, confessional, porém limpa: nem adornos exagerados, nem enxugamentos tais que retirem da pele do poema a própria essência poética.: “Tanta a febre de deter o instante / e sempre os rios a correrem/enchente ou vazante.” (Lenilde Freitas, em resenha crítica no livro Astrid Cabral-50 poemas escolhidos pelo autor – Edições Galo Branco, Rio de Janeiro, 2008).

Um dos poemas mais perfeitos desse livro, citado acima, na minha opinião, é “Sísifo de Avental”. Faz parte da vida de todos nós, que a lemos, essa sensação de estranha intimidade com que Astrid calibra seus versos e metáforas, como a dizer “em segredo” que somos cúmplices nas inconsistências da vida. A sua visão das pequenas coisas do dia a dia, a rotina, os filhos, a casa, o amor e o grande desafio de fazer poesia das alegrias e dores, ironias e resiliências, das agruras de existir, afinal. Existir num tempo/espaço, onde as mulheres estão em plena ascensão profissional no mundo, e de tudo o mais que a vida vai nos ensinando na prática, nos direciona o olhar a distâncias inusitadas, assustadoras e belas. Astrid encontra tempo e disciplina para escrever e nos encantar, definitivamente, com sua poesia. 

Sísifo de avental

Sísifo de avental

enche e reenche panelas

que se esvaziam na lida

de almoços e jantares

a encadear os dias

pois sempre vem a fome

que, voraz, tudo consome.

Então nessa condição

sem saída de trabalho

que não tem folga ou fim

beata, ela obra milagres

e das batatas arranca

a apoteose de purês e suflês

e mágica, extrai dos ovos

a própria neve do inverno

mais o verão consubstanciado

em dourados fios e chuviscos

petiscos de pudins e quindins

e doma as caldas nos vários

pontos de pasta fio espelho

pérola bala areia e caramelo.

E com sofisticados bifes

oblitera o massacre dos bois

e sobre toalhas faz florescer

jardins em saladas orvalhadas

de azeite vinagre e sal.

E sabe que até o fim dos dias

estão suas mãos destinadas

à faina sem folga ou fim

mas vai dando a sua faina

o seu próprio fim.

(Astrid Cabral-50 poemas escolhidos pelo autor  Edições Galo Branco, Rio de Janeiro, 2008).

3.1. As pequenas coisas do rio que transborda e inunda

Em seu Blog Palavra do Fingidor, o Acadêmico da AAL, poeta e escritor Zemaria Pinto, nos diz sobre a poeta: “A água é um elemento constante na obra poética de Astrid Cabral. O ápice dessa relação é o premiado livro Rasos d’Água: “uma viagem épica pela memória líquida, das lágrimas à neve, banhando-se de chuva, perscrutando o mar, os rios inúmeros, em permanente tensão com o pathos da morte, que ora se aproxima e sangra, ora se afasta e observa a velhice inevitável, ora apenas lembra/relembra a dor para sempre represada”, como escrevi na apresentação da segunda edição. Em Rasos d’Água, o eu lírico é um ser líquido, sem forma definida, que toma nova forma a cada poema. Para Astrid, a água é muito mais que a origem da vida e metáfora da criação: numa relação dialética que não se esgota nunca, é também fonte de morte e de destruição.

O poema “Água doce”, que é a água da memória, da infância, guarda a consciência disso, quando opõe a água do rio à água do mar, representada sempre por elementos negativos, como a “vândala violência do mar”, “a ameaça constante das vagas” e “a baba de espumas brabas”. Mas, aos poucos, essa consciência vai se redefinindo, a memória vai se recompondo, e as lembranças vêm à tona, sempre naquela relação vida/morte-criação/destruição: “A água do rio é mansa / mas também se zanga”. E enumera o lado oposto da água doce e mansa: banzeiro, enchente, correnteza, repiquete, cachoeira, redemoinho. Para quem compartilha essas memórias com Astrid, essas palavras podem parecer motivos de brincadeiras distantes. Mas ela adverte: o rio transborda e inunda, arrasta e mata, “afoga quem não sabe nadar”, “enrola quem não sabe remar”. No seu blog, Zemaria Pinto compartilha com seu público uma belíssima resenha crítica sobre a obra Rasos d’Água de Astrid Cabral (da qual retirei o excerto acima) e em parceria com o músico Mauri Mrq, publicam a obra lítero-musical A Lira da Madrugada, musicando o poema “Água doce” de Astrid Cabral.

Água doce

A água do rio é doce.

Carece de sal, carece de onda.

A água do rio carece

da vândala violência do mar.

A água do rio é mansa

sem a ameaça constante das vagas

sem a baba de espumas brabas.

A água do rio é mansa

mas também se zanga.

Tem banzeiro, enchente

correnteza e repiquete.

Pressa de corredeira

sobressalto de cachoeira

traição de redemoinho.

A água do rio é mansa

corre em leito estreito.

Mas também transborda e inunda

também é vasta, também é funda

também arrasta, também mata.

Afoga quem não sabe nadar.

Enrola quem não sabe remar.

A água do rio é doce

mas também sabe lutar.

A água doce na pororoca

enfrenta e afronta o mar.

Filha de olho-d’água e de chuva

neta de neve e de nuvem

a água doce é pura

mas também se mistura.

Tem água cor de café

tem água cor de cajá

tem água cor de garapa

tem água que nem guaraná.

A água doce do rio

não tem baleia nem tubarão

tem jacaré, candiru, piranha

poraquê e não sei mais o quê.

A água doce não é tão doce.

Antes fosse.

Clique AQUI para escutar o poema musicado.

3. 2. O cardápio diário das pequenas-grandes coisas

Hildeberto Barbosa Filho, em 50 poemas escolhidos pelo autor, afirma: “Em Astrid, as coisas, os objetos, as situações de rotina, os ambientes, as ideias, enfim, toda e qualquer matéria prima de poesia, como que se transmutam em realidades outras, integrando uma outra ordem da existência em que as noções imediatas de tempo e espaço, de espessura e de aparência terminam aniquiladas, para que se faça presente o substrato de uma ordem secreta  uma ordem que pode ser ternura ou uma ordem que pode ser crueldade  a gerir os apelos abissais das coisas e dos seres.” (P. 107)

Em “Cardápio”, poema que compõe o elenco de Lição de Alice, Astrid nos exemplifica a dissertação acima:

Cardápio

Nosso cardápio diário

inclui carnes assadas

e angústias bem passadas.

Inclui sangrentos nacos

cobertos de molhos pardos

que sabem a desgosto.

Inclui mil hipocrisias

devidamente empanadas

e servidas à francesa

bem antes da sobremesa

de frutas esquartejadas.

Inclui entre as iguarias

amizades congeladas

sonhos em banho-maria

deleites de amor requentado

em rançosos azeites.

Ódios com pó de pimenta

e as trêmulas gelatinas

de dúvidas coloridas.

Inclui o tédio guarnecido

de exóticos temperos.

Inclui o medo camuflado

em camadas de batatas.

Inclui a morte servida

sem o menor escrúpulo.

(CABRAL, Astrid. De déu em déu: poemas reunidos (1979/1994). Rio de Janeiro: Sette Letras, 1998. p.280)

A leitura dos poemas de “Lição de Alice” me tocaram a tal profundeza que de lá, dos meus “intramuros” escrevi um poema chamado “Espelho de Alice”, que faz parte do meu livro In(-)versos do meu Verso. Por lapso meu deixei de dedicá-lo à Astrid, o que faço agora. 

Espelho de Alice

                      À Astrid Cabral 

Um dia tive um sonho

Cavalo solto, crinas ao vento

Luz de luar, luar de sangrar

A guiar-me trôpegos os pés

Bosques meus, tendas minhas 


Escudo de Perseu oblíquo

Noite travestida de sol

Bocas em notas noturnas

Espelho invertido de Alice. 


Quem vem me buscar?

Sequestrei-me do sonho

Crime inafiançável, hediondo

Forasteiro de além-pátria! 


Busquei-me entre os espelhos

Sem me encontrar em nenhum

Estilhaços de mente-cuore

Cinzas de amor destratado 


E já me tardo na dor...

Vazio de bocas e vozes

Bar aberto, copos vazios

Peitos outrora plenos e meus

Hoje negro e frio acepipe. 

(Rita Alencar Clark, In(-)versos do meu Verso, TAUP, Curitiba/PR, 2024)

4. Da íntima carne da poesia de Astrid Cabral  despedida

A escrita de Astrid Cabral, antes de ser feminista, pois os tempos eram outros, era feminina. Ela nos empresta suas asas para que possamos alcançar a sensibilidade , muitas vezes crua e superior, conquanto ácida, de seus poemas. A sua costura de versos e evocações se faz por dentro da pele, e se mostra entre músculos e consciência, subindo e descendo a fina agulha da poesia em nossos corações, se assim quisermos. Penso que há muito precisávamos fazer esta homenagem à Astrid Cabral, pela sua laureada carreira literária, pelo seu talento inenarrável, pela beleza que nos comove e arrebata a todos quando lemos e penetramos na íntima carne de sua poesia.

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Arquivo da autora

Rita Alencar Clark, professora de Língua portuguesa e Literatura, poeta Amazonense, contista, cronista, ensaísta e revisora. Membro  Efetivo do Clube da Madrugada (AM) desde 1984, membro fundador da ALB/AM - Academia de Letras do Brasil/Amazonas , da ACEBRA - Academia de Educação do Brasil, Membro da AJEB/AM (Associação de Jornalistas e Escritoras) e ASSEAM (Associação dos Escritores do Amazonas) . Colaboradora do Blog Feminário Conexões e dos Coletivos Enluaradas e Mulherio das Letras, com participação em diversas coletâneas e antologias poéticas, sempre representando o Amazonas. Tem três livros publicados:  "Meu grão de poesia, Milton Hatoum - Um certo olhar pelo Oriente-Amazônico" e "In(-)versos do meu verso".


terça-feira, 25 de novembro de 2025

ASTRID CABRAL, POR SANDRA GODINHO

Fonte da imagem: aqui
Astrid Cabral nasceu em Manaus, AM, onde fez os primeiros estudos e integrou o movimento renovador Clube da Madrugada. Foi morar no Rio de Janeiro ainda quando adolescente. Graduada em Letras Neolatinas na atual UFRJ. Lecionou língua e literatura no ensino médio e na Universidade de Brasília, onde integrou a primeira turma de docentes saindo em 1965 devido ao golpe militar. Em 1968 ingressou por concurso no Itamaraty, tendo servido como Oficial de Chancelaria em Brasília, Beirute, Rio e Chicago. Com a anistia, em 1988 foi reintegrada à UnB. Ao longo de sua vida profissional desempenhou os mais variados trabalhos, fora e dentro da área cultural. Detentora de importantes prêmios, participa de numerosas antologias no Brasil e no exterior. Colabora com assiduidade em jornais e revistas especializadas. Viúva do poeta Afonso Félix de Sousa, é mãe de cinco filhos. Fonte: http://www.jornaldepoesia.jor.br/astridcabral.html 



A PROSA NA OBRA "ALAMEDA" DE ASTRID CABRAL 

Sandra Godinho

A primeira vez que tomei conhecimento de Alameda, a obra inaugural de Astrid Cabral publicada em 1963, foi através do meu querido e falecido amigo José Benedito dos Santos que, sabendo que eu escrevia um romance cujo narrador era uma árvore, deu-me o livro de presente. O efeito da escrita da autora em mim foi devastador e indelével. Meu querido amigo me fez entender a grandeza de Astrid e, além disso, reconhecer que era uma mulher à frente do seu tempo.

Primeiro, porque ela deu protagonismo ao mundo natural. Não que não houvesse outros autores que mencionassem matas e florestas. Inferno Verde, livro de contos de Alberto Rangel publicado em 1908, e A Selva, romance de Ferreira de Castro publicado em 1930, já mencionavam o mundo natural, mas sempre como cenário, selvagem, inóspito e imenso. Astrid não somente deu protagonismo ao mundo natural, mas também relacionou o mundo natural ao humano, fazendo uma analogia à nossa própria vida. Ao personificar grãos de feijão, laranjas, rosas, papoulas, folhas, orquídeas etc., atribuindo-lhes características humanas, a autora fugiu do que poderia ser considerada uma literatura regional, algo que na tradição literária sempre foi considerada menor. Além disso, Astrid antecipa uma consciência ecológica que só tomou vulto no Brasil em meados dos anos 1980, quando a consciência nacional sobre as questões ambientais passou a ser levada a sério, corroborada por estudos científicos de maior envergadura. Não fosse isso o bastante, Astrid trouxe temáticas femininas às suas narrativas, especialmente ao tratar a terra como um “cemitério e viveiro de sementes”, reforçando a função maternal, equiparando a terra ao útero feminino; trata-se agora da mãe-terra e da mãe-natureza, mas não só. Astrid, ao abordar temas como a beleza e a reprodução, e refutando-as como o ápice das funções femininas, evidencia o ativismo feminista em suas narrativas.

Outro item que me chamou a atenção foi o título escolhido pela autora, Alameda, que é, afinal, um caminho constituído por árvores plantadas em fileiras. O que se intui através desta escolha é que realmente Astrid não quis retratar a natureza selvagem, mas uma domesticada, singularizada e culturalizada. Ao discorrer sobre esta natureza domesticada, Astrid, por analogia, fala da nossa própria domesticação frente aos valores impostos por nossa sociedade.

Alameda traz-nos 20 histórias triviais, singelas e colhidas do nosso cotidiano. Através delas, Astrid faz profundas reflexões filosóficas e psicológicas sobre nosso próprio existir. São narrativas cujos temas tratam do ciclo da vida, da finitude e do recomeço, da provisoriedade de tudo, da impermanência e da permanência, esta última vista sob o viés da beleza e da reprodução.

Em Destino, por exemplo, uma plantinha se encontra dentro de um vaso, tomando sol num canto da janela, até que um gato descuidado a derruba, destruindo o vaso que se parte em inúmeros cacos. A empregada recolhe os cacos, a planta e os atira pela janela. Esta plantinha, nomeada por Astrid de “brotinho”, traz a primeira conexão com o humano/a mulher, visto que brotinho era uma gíria da época que fazia referência a uma moça. Temos aqui também os temas caros a Astrid, que nos remete à finitude da vida, da morte que nos colhe ao acaso, ainda que no texto esteja presente certa mensagem de esperança: apesar das nossas prisões, somos abençoados por simplesmente existir. Além disso, se atentarmos para o trecho da obra: “Era o sol que lhe punha aquelas grandes sardas douradas, o ar todo faceiro. Também a pose graciosa com que distribuíra seus membros, já agora multiplicados, era convenientemente adequada ao banho de sol [...] A cútis fina, queimada de tempo, engelhava-se até a queda final, que seria mansa, ao arrepio do primeiro vento”, reparamos que a verve poética de Astrid já se faz presente nas assonâncias, aliterações, nas metáforas, nas imagens e no ritmo das frases.

Imagem Pinterest
No segundo conto, Arvoreta, árvore, arvoreta, é interessante notar como Astrid, no próprio título, transmite o andar do sol pelo céu, projetando a sombra de uma árvore, que se alonga no começo da manhã, fica justa ao meio-dia e torna a se alongar no final da tarde. É o sol que banha a árvore, que lhe dá luz, mas a árvore só se enxerga através da sua sombra, sempre dentro da própria individualidade, exacerbada, orgulhosa, altiva e iludida pelo olhar alheio. Por mais que a árvore se iluda e se ache exuberante, será sempre prisioneira de si mesma, presa às próprias raízes. Observando o trecho da narrativa: “Quando fazia sol, via-se fotografada ao longo da calçada, e via-se também crescer e diminuir, a imagem apagar e acender. Gostava da brincadeira de verão, a divertida dinâmica de sua sombra a crescer e minguar num só dia – arvoreta, árvore, arvoreta. Mas tudo era jogo visual, o percurso do sol acionava a silhueta. Depois de certo tempo, não mais se iludia. [...] Bem que gostaria de escapar-se, transpor-se além de suas fronteiras a fim de fruir nova dimensão, mas não ousava”, notamos a poética pungente da autora na sua prosa.

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O conto A praça discorre sobre uma praça que foi inaugurada pelo prefeito e que, passada a euforia dos primeiros passeios, é desprezada por seus frequentadores. Aqui, a autora define a praça como sendo a terra remodelada pelo prefeito, o chão que aceita tudo e, após algum tempo, torna-se desprezado pelos homens. A mãe-natureza, tal qual as mulheres, também é ignorada pelos homens. Expressões presentes no texto como ‘pise de mansinho’ ou ´cuide de seu jardim’, evidenciam a antecipação de uma consciência ambiental. Nos trechos seguintes: “Elas, (as plantas), não viviam em função dos homens, nem deles dependiam, como era o empenho de muitos fazer supor. Descaso, desprezo, nada lhes alterava o destino da espécie” [...] “ Era portanto certo que (as plantas) existiam para autossatisfações, donas de si mesmas e tão livres dentro do repouso como o ar que as oxigenava. O que havia era abuso, exorbitância do espírito dominador dos homens”, se substituirmos ‘as plantas’ por ‘as mulheres’, a analogia ao mundo feminino ainda é pertinente.

Imagem Pinterest
No conto Laranja de sobremesa, temos outra história simples e trivial, discorrendo sobre uma laranja que está sobre um prato. Ao ser servida de sobremesa, reflete sobre o ciclo da vida: ela vem de uma árvore que deu fruto, que virou semente, que virará árvore novamente. Nós, assim como a laranja, seremos consumidos pelo tempo, mas deixaremos nossas sementes sobre a terra. Astrid retrata a finitude da vida, o recomeço e também nossa submissão ao tempo. A laranja aguarda seu destino, assim como todos nós. A beleza e o viço são precários.

No texto intitulado A cerca, ela que é “uma árvore sob outra forma’, reflete sobre sua vida, está entregue agora às intempéries e aos cupins, e se sente culpada pela morte de seu amigo gato, que caiu de pé em um dos seus sarrafos pontiagudos. De sua abundância de árvore, forte e firme sobre a terra, ela está reduzida a um corpo estéril capaz de causar a morte de outro ser. Escrita em tom melancólico, a cerca fala sobre seu inconformismo e sobre sua degradação, refletindo sobre a inutilidade de tudo, convencendo-se de que sua vida foi apenas um acaso. Os temas neste conto são o sentido da vida e a inevitabilidade da morte. Apesar do tom melancólico, o que me chama a atenção nesta narrativa é a ironia empregada pela autora: a árvore firme e forte se tornou uma cerca que mal para em pé. A partir desta história aparente e linear, Astrid traz subtextos potentes: a despeito da estabilidade e da firmeza que um ser pode ter, todos podem desmoronar de uma hora para outra, ou: é suposto que uma cerca contenha as coisas, mas a cerca de Astrid não contém nada, nem a passagem do tempo, nem as ações alheias, ou: a cerca lamenta ter perdido as referências do passado, de quando era árvore, mas para viver o presente, o passado não importa, ou: nutrir um sentimento melancólico previamente à morte é vivenciar a morte em si mesma, ou: o vínculo com as nossas raízes é o que nos fortalece.

Imagem Pinteret
O conto A aventura dos crótons fala de uma planta ornamental, o cróton, que, crescendo belo num canteiro graças às podas do jardineiro, passa a invejar as heras que “pintam de verde as paredes da casa da esquina”, crescendo horizontalmente para todos os lados, em total liberdade. O cróton quer se aventurar, então roga à natureza que lhe conceda este desejo. A natureza parece atendê-lo, lançando uma chuva torrencial que liberta suas raízes do solo e o leva, mas, sem ter como fincar-se à terra, é levado pelas águas e sucumbe. O texto fala sobre deixar uma vida cercada de segurança, já que a “tenacidade do jardineiro zelava pela dócil submissão de todos”, mas limitada e cheia de marasmo. Astrid refere-se à impermanência, à liberdade e ao risco de viver. Podemos fazer outras reflexões, como: a inveja e o anseio por outras terras estão presentes tanto nas plantas quanto nos seres humanos, ou: o resultado de todo esforço é uma surpresa, nem sempre agradável, ou:  o  “jardim do lado de lá”, pode ser apenas uma ilusão, ou: é preciso dar valor à terra onde se vive, ou: o desejo de mudar pode gerar uma frustração imensa, é preciso ter os meios, não só o desejo, ou: o desgosto em habitar um lugar que não se deseja faz perder todo o sentido e o encanto da vida. Neste texto, há também uma consciência da heterogeneidade, do outro e do lugar que ele ocupa.

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No conto Queixa contra o vento, uma quaresmeira reclama dos caprichos do tempo, sempre lutando contra a ameaça de tombar e sucumbir. Neste trecho da obra “O vento fica aí a soprar sem cessar. Sem saber do meu medo, da gana de fechá-lo em algum lugar. Dentro de um morro, de uma gruta. Afinal, que pretensão pensar nisso. Logo eu, que não me aguento em pé, que sofro de câimbras, que não resisto ao seu menor suspiro”, notamos o uso de rimas, cadência das frases, assonâncias e aliterações, evidenciando a forte verve poética de Astrid, presente desde esta obra inaugural.

O conto O parque fala de um parque cujas “árvores espichadas, esguias, e arbustos baixotes, corpulentos, mantêm-se atados pela tranquilidade de pedra. Ali a vida não se pui com o uso, não implica amanhãs e mortes, mas trata-se de uma paz de pedra, marmórea e mortal. Neste mundo de pedra, é sempre noite. O tema de Astrid nesta narrativa é a domesticação da própria existência. Este viver de modo mecânico, sem notar se é dia ou noite, sem atentar para o que realmente importa, é um não viver.

No conto Avispiscis pulcherrima, Astrid fala de uma árvore imaginada, uma árvore fabulosa, com a capacidade fantástica de se adaptar a tudo, aos charcos, ao deserto, às geleiras dos polos e que é de uma beleza inigualável. Apesar da exuberância, ela tem frutos estéreis, incapaz de deixar descendência, motivo de suas lágrimas. A temática de Astrid nesta narrativa diz respeito à validação da beleza pela capacidade de reprodução. A uma planta (mantendo a analogia com relação à mulher) não basta ser vistosa sem reproduzir, é necessário deixar sementes e descendência para ser validada sob o olhar dos humanos. São temas intrinsicamente femininos.

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Na narrativa A agonia da rosa, Astrid discorre sobre rosas que acabaram de florescer e, estando no esplendor de sua beleza, são colhidas e colocadas como um ramalhete dentro de uma caixa de celofane. Aqui, a beleza vira acessório, serve somente para dar alegria e prazer a alguém e, portanto, tem vida curta. A essência feminina é comprimida em um receptáculo. Aprisionada, ela murcha e seca em definitivo. A autora faz uma crítica à superficialidade, à vida de aparências e à provisoriedade de tudo.

No texto Um grão de feijão e sua história, o conto mais lindo desta coletânea na minha opinião, grãos de feijão estão sendo selecionados para serem cozidos, mas um grão é deixado de lado por não atender às expectativas da empregada. Ele é jogado pela janela e vai parar numa terra fértil, enchendo-se de esperança, julgando que vai brotar, enraizar e reproduzir, até que a empregada, que tinha o mau hábito de jogar coisas pela janela, derrama um jato de água quente sobre ele, desfazendo seu futuro. A partir desta história singela, podemos pensar em inúmeras inferências, tais como: só inteiros temos o ‘direito’ de ‘estar no mundo’, ou: a finitude nos torna tão vulneráveis quanto um grão de feijão, ou: mesmo uma planta é capaz de sentir, ou: para ‘ser’ algo ou alguém é preciso ocupar um determinado lugar, ou: é na terra que está a vida; é ela que preserva toda nossa descendência, ou: é preciso criar raízes para florescer. Astrid abre portas para vários subtextos e várias interpretações.

Imagem Pinterest
Passando ao último conto da coletânea, encontramos À sombra da papouleira, onde uma folha seca e outra verde conversam à sombra da papouleira, dentro do jardim de uma casa. Elas escutam a aproximação do jardineiro e se surpreendem ao saber que o dono quer derrubar a papouleira para fazer um novo jardim. Então, as folhas se revoltam, tomando ciência de que a vida é breve e que, aos homens, “era comum o hábito de derrubar plantas e até florestas inteiras. A preocupação de Astrid com o meio-ambiente e com a prática dos homens de devastar se faz notória. Num mundo onde “a vida é um rosário de pequenas mortes”, só resistindo em coletivo podemos sobreviver.

A grandiosidade da obra inaugural de Astrid é notável e pujante, seja nos temas, seja na sua prosa poética, na sua visão à frente do seu tempo, na sua preocupação com o feminismo e nas questões ambientais, fazendo os leitores refletirem sobre a vida através de histórias singelas do nosso cotidiano, lhe reservando o merecido lugar de destaque na literatura amazonense e na literatura brasileira contemporânea. Leiam Astrid!

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Arquivo da autora


Sandra Godinho nasceu em 1960 em São Paulo, é graduada e Mestre em Letras. Já participou de várias coletâneas e antologias de contos, sendo agraciada com alguns prêmios. É membro número 78 da AILB, Academia Internacional de Literatura Brasileira. 

sábado, 18 de junho de 2022

CALDEIRÃO LITERÁRIO II: DA FORÇA DOS SONHOS QUE NOS MOVE




         CALDEIRÃO LITERÁRIO II: DA FORÇA DOS SONHOS QUE NOS MOVE


Por Marta Cortezão

 

Tragediazinha

 

Cansou-se da eterna espera

o morno amor chove-não-molha

e retirou seu cavalinho

da chuva peneirando lá fora.

Casou-se com a igreja

o fogão a máquina de costura

e recheou os frios dias

de tríduos e novenas

biscoitos bolos rendas.

Mas na calada da noite

no recato escuro

ainda embala o velho sonho

de um amor absoluto. 

{Astrid Cabral, em "Lição de Alice". Rio de Janeiro: Philobiblion, 1986, p. 39.}

 

Ano passado, durante a apresentação das poetas que participavam da Coletânea II: uma Ciranda de Deusas, fui selecionando textos de autoras contemporâneas e/ou do cânone para celebrar a presença de cada escritora que cirandava conosco, mas não somente. O meu desejo também era fomentar diálogos, mergulhar nas velhas certezas e debater-me no mar das dúvidas que ora nos preenche ora nos esvazia, nos levando sempre a provocações e ao desejo de seguir abocanhando com gosto a maçã do conhecimento.

Na ocasião, o texto-poema que selecionei foi Tragediazinha, de Astrid Cabral, que, naquele momento, me provocou o seguinte:

 

Esperar pelo exato momento que nunca chega, pelo sonho tantas vezes adiado, pela euforia adormecida no corpo, pelo corpo que se debruça, cansado, sobre o regaço do sonho guardado, pela palavra-corpo sempre prestes a nascer, pelo voo adestrado... Não, é preciso um basta! É tempo de libertar este pássaro-sonho de canto triste e solitário, no azul da alma! É tempo de permitir-se abrasar pelo fogo do "amor absoluto", pois a Literatura ainda é esse abraço que cura a fadiga diária da vida. Escrevamos!”

[Marta Cortezão, 18/06/2021]

 

         A poeta amazonense Astrid Cabral já, no título, ironiza, por meio do tom pejorativo do diminutivo “tragediazinha”, as situações tão normalizadas pela repressão patriarcal sofrida pelas mulheres e que são difíceis de serem detectadas com clareza e consciência, pois há uma dinâmica da repressão sistemática do feminino que vem se impondo – quase que invisivelmente ao longo de séculos e séculos – através das funções matriarcais que nos são atribuídas de forma pejorativa. A tríade cozinha-casa-igreja continua sendo as nossas prisões. Contudo, é ledo engano pensar que somos apenas vítimas nessa história mal contada, porque é “na calada da noite/ no recato escuro” que se “embala o velho sonho/ de um amor absoluto”. 

         O encontro com o “amor absoluto” é a liberdade não apenas no corpo, mas da mente; é a condição que nos faz abrir os olhos e negar, rotundamente, a liberdade de um voo adestrado. Essa liberdade genuína a que me refiro é a que aduba o canteiro dos sonhos, é a que gira a engrenagem e põe mulheres em movimento, porque é SEMPRE tempo de libertar este pássaro-sonho de canto triste e solitário, no azul da alma! É sempre tempo de nos permitir ser abrasadas pelo fogo do “amor absoluto”, pois a Literatura ainda é esse abraço que cura a fadiga diária da vida. Escrevamos!

 

E para mexer esse Caldeirão Literário II de hoje, experimentaremos da poção mágica das companheiras-escritoras: Tânia Alves, como seu livro Cabelos de Toin oin oin (Pontes Editora, 2021), com ilustrações de Tatiane Galheiro; também Margarida Montejano com o seu recente Fio de Prata (Scenarium livros artesanais, 2022), Isa Corgosinho acompanhada de seu livro Memórias da Pele (Editora Popular Venas Abiertas, 2022), ainda as escritoras Maria do Carmo Silva com seu Recomendações Poéticas (Cogito Editora, 2021) e Elisa Lago trazendo na bagagem seu livro-instrumento Sonoridade (Editora Edufma, 2021).

Segue abaixo a sinopse de cada livro acima citado:

 


CABELOS DE TOIN OIN OIN

Tema tão importante a ser desenvolvido desde a mais tenra infância: a importância da autoimagem positiva. Tratado de maneira tão delicada e sensível.

Valorização dos próprios traços, dos cabelos, da sua descendência... este livro trata mais do que a questão da autoestima, empodera as crianças, trazendo em versos a beleza de cada um.

 


FIO DE PRATA, publicado pela Scenarium livros artesanais, aborda a tênue linha da existência, através de sete contos ilustrados pelo artista plástico Ruy Assumpção. Os contos retratam experiências reais e imaginárias, permeadas pela fantasia que a poética da vida e da literatura ilumina. Neles, o leitor encontrará lampejos de memórias do universo feminino que o convidam e o conduzem, de forma livre e imaginativa ao exercício da reflexão.

 


O livro MEMÓRIAS DA PELE, com a simbologia de Mnemosyne, a matriarca da Musas, se abre para várias possibilidades de sentidos.

A memória evoca aqui a preocupação com a dispersão e a desmemória, o memoricídio. Há, portanto, um vínculo inseparável do que foi vivido com o que se vive, minha poesia está amparada pela historicidade de forma sincrônica e diacrônica nos vieses líricos do feminino (Quem és, Maria; Joana sob o signo do fogo etc.).

É um convite para que possamos mirar o presente com o olhar no passado, reencenar as utopias e vislumbrar o horizonte de expectativas (Fibras do tempo) para além do mínimo Eu que se volatiza na agoricidade ou se fecha nas bolhas virtuais.

São Memórias experienciadas pelos sentidos, encarnadas, expõem as paixões, as dores, os amores, as perdas, o gozo, as afeições, o estranhamento, o deslumbramento e o susto, as atrocidades praticadas e vivenciadas pela humanidade, tatuadas na extensa pele do feminino ancestral que nos habita.

Os estratos da pele recobrem de importância a percepção dos sentidos, opõem-se à perda da pele impostos a todos, principalmente às mulheres, que são submetidas aos processos culturais ultrajantes dentro desse sistema patriarcal e misógino.

De todos os sentidos, o tato é o mais ancestral. A minha poesia quer tocar e ser tocada em sua constituição de ser vivo da linguagem.

Pertenço à árvore genealógica de Clarice Lispector, que nos convida a aprofundar as raízes na potência inesgotável do tato, enquanto “(re)descoberta do mundo”.

De tato vem contato, são as imagens do con-tato que são lançadas para o leitor para que ele opere a interpretação responsiva no espírito e no abraço.

É conhecimento intuitivo que busca refratar a realidade, lançar os dados da multiplicidade do universo feminino, em contato imediato e concreto na construção das imagens poéticas.

 


RECOMENDAÇÕES PÓÉTICAS, segundo livro de poesias da autora Maria do Carmo Silva, está composto por poesias inspiradas no cotidiano humano, nas questões ambientais, humanas e sociais que ocorrem no nosso país, incluindo a temática da negritude, a amizade, a solidariedade, ao fazer poético e aos temores trazidos pela pandemia. O livro é organizado em 4 partes, sendo que cada uma destas partes é constituída por poesias com temáticas semelhantes, introduzidas com uma gravura e fragmentos de textos dos escritores: Gilberto Gil, Guilherme Arantes, Cora Coralina e Mário Quintana, reverenciando os grandes nomes da literatura brasileira, cujas produções poéticas são admiradas pela autora.

Colaboraram com a construção desta obra: o editor Ivan de Almeida da COGITO editora, O Dr. Fábio Araújo Oliveira, professor de Língua Portuguesa (UNEB DCH V), a Professora e Psicopedagoga Jocinere Soares de Almeida e o radialista, web jornalista, bacharel em Direito, editor e fundador do site de notícias e mídia TRIBUNA DO RECÔNCAVO Hélio Alves com os textos das orelhas.

 


SONORIDADE tende a se consolidar como caminho temático e/ou estético da poeta, que parece entrevistar a si própria, com sua lírica em primeira pessoa, versos em tons de diálogo e uma pontuação que sugestiona os leitores. Este novo trabalho de Elisa Lago traz uma voz poética que brada os dilemas entre os desejos e as condições de realizá-los. Ao percorrer a escuta desses acordes durante a leitura, sente-se aflorar uma saga lírico-amorosa, com sabor intimista, entrecortada de versos que revelam estados sentimentais inspirados pelo eu lírico.                                                               

(Por Ana Néres Pessoa Lima)

Aqui fica o nosso convite para você, às 17h (Brasília), somar poesia conosco, no canal do YouTube Banzeiro Conexões! Lembramos também de nosso encontro de domingo, às 19h (Brasília), no (COM)PULSão POÉTICA, encontro transmitido pelo perfil do Instagram @enluaradas__, com mediaçao da poea Carrolina Costa. Será um prazer ter a sua companhia!



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