Astrid Cabral: “exímia inventora de tesouros, a explorar os preciosos filões dos sentimentos”
Palestra de Rita Alencar Clark sobre a escritora amazonense homenageada na Feira do SESC 2025, Astrid Cabral. A Feira teve curadoria de Leyla Leong. A palestra aconteceu no dia 30 de outubro de 2025, às 15:00h, no Centro de Convenções Vasco Vasques (Manaus/AM).
| Astrid Cabral |
1. Como se faz um bom poema, Astrid?
Quando aceitei o convite de Leyla Leong para falar de Astrid Cabral, da sua poesia diária, a Poética das Pequenas Coisas, grandes ou delicadas, que nos deparamos pela vida, de certo que aceitei e quero, antes de tudo, agradecer-lhe a honra de estar aqui.
E de tanto pensar no que escreveria, vieram-me lembranças intensas de nossa convivência familiar no Rio de Janeiro, onde todos morávamos. Astrid nunca faltou, não sem avisar, a um aniversário do meu pai, seu companheiro de poesia e Clube da Madrugada, Alencar e Silva, para ela, o Neto. Naqueles dias, fomos convidados para o almoço de aniversário de Astrid, em seu apartamento no Parque Guinle. Meu pai já acordara ansioso e assobiando, sempre temendo inevitáveis atrasos. “Nair… compraste o presente da Astrid? – Sim, Neto”. E foi pra esse lugar que minhas memórias me levaram.
Como em toda casa de amazonenses, fomos recebidos por Astrid e doutor Afonso com abundância de delicadezas, incluindo-se o, sempre farto, menu amazônico. Mamãe e Astrid, antes do almoço, trocavam informações e urgências, fossem novidades fresquinhas de Manaus, fossem receitas fantásticas, agruras da maternidade desejada e a realidade de serem mulheres e trabalharem fora… não se tinha uma brecha no diálogo. E eu, com um caderninho na mão, de tocaia para fazer uma intervenção, quando ela falou: “Ritinha, senta aqui do meu lado”. Como caloura do curso de Letras na Santa Úrsula, não podia perder a oportunidade de entrevistar Astrid Cabral. Ela pegou na minha mão e perguntou: o que queres saber? “Como se faz um bom poema?” Rimos as duas em cumplicidade, ela respondeu, ainda sorrindo, que “primeiro tens que dominar a gramática, qual usas?” – Cunha, Luft e Cegalla, respondi. “Pois, lute com eles! Depois, comece a dominar a arte de cortar... os primeiros serão os artigos, depois preposições e interjeições, por último os adjetivos. O que sobrar é o esboço do poema. E, então, começas o trabalho de lapidação”. Que maravilha de resposta, nunca pude esquecer e até hoje impacta no meu processo criativo. Astrid, para mim, é a tia escolhida, por saber da grande amizade, respeito e admiração de meu pai por ela, pela grande poeta que é. Após o almoço todos iam para o living e, entre licores e cafés, a tarde se estendia, era só poesia.
| Arquivo da autora |
2. Os versos, essas aves das ideias
Segundo Alencar e Silva, em artigo sobre Astrid (Quadros da Moderna Poesia Amazonense – Valer, 2011): “Astrid Cabral Félix de Sousa nasceu em Manaus, a 25.9.1936, onde integrou o movimento renovador Clube da Madrugada, desde as primeiras horas, transferindo-se ainda adolescente para o Rio de Janeiro, onde diplomou-se em Letras Neolatinas, na atual UFRJ e lecionou Línguas e Literatura na Universidade de Brasília, saindo em 1965, em consequência do golpe militar.
Ingressou posteriormente no Itamaraty, onde serviu como Oficial de Chancelaria em Brasília, Beirute, Rio de Janeiro e Chicago. Casada com o poeta Affonso Felix de Sousa, é mãe de cinco filhos: Raul, Alfredo, Giles (já falecido), Isabela e Mariana. Detentora de importantes prêmios, participa de numerosas antologias no Brasil e no exterior (...) Sua obra poética já se estende por mais de dez títulos, entre os quais se contam: Alameda, 1963 (ficção); Ponto de Cruz, 1979 (poesia); Torna Viagem, 1981 (poesia); Zé Pirulito, 1983 (estória infantil); Visgo da Terra, 1986 (poesia); Lição de Alice, 1986 (poesia); Rês Desgarrada, 1994 (poesia); De déu em déu, 1998 (poesia reunida); Intramuros, 1998 (poesia); Rasos d’Água, 2003 (poesia); Jaula, 2006; Antessala, 2007; 50 poemas escolhidos pelo autor, 2008; Palavra na berlinda, 2011; Infância em franjas, 2014; Sobre escritos: Rastros de leitura (Crítica literária –ensaios de Astrid Cabral – Org. Helena Ortiz, 2015). É detentora dos seguintes prêmios: José Décio Filho, da UBE-GO, 1981; Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras, 1987; Casa do Escritor, São Paulo, 1987; Cine-vídeo de Porto Alegre/Lei Sarney, 1987; e Jorge Fernandes, da UBE-RJ, 1996, entre outros."
Vejamos um poema de Alencar e Silva para Astrid, no primeiro livro do autor, Painéis, 1952:
À Astrid Cabral
Tens na voz algum ninho, um ninho de ouro,
que lembra, numa chuva de açucenas,
as manhãs claras, musicais, serenas,
de um celeste e rosado logradouro
E ouvir-lhe os sons, ouvir esse tesouro
de harmonias de mágicas avenas,
é dar asas à alma e ver-se apenas
voando à claridade de um céu louro.
Pois, quando surges, luz e canto, em cena,
voando de tua garganta de açucena,
os versos, essas aves das ideias,
como que aroma e música espalhando,
as almas todas vais sonorizando
e arrebatando as lívidas plateias.”
Alencar continua em sua resenha crítica: “Um dia, quando ia em pleno andamento a segunda caravana que empreendêramos, pelo sul do país, com Jorge Tufic, Antísthenes Pinto e Guimarães de Paula (...) estivemos em visita de cortesia à nossa conterrânea, que se encontrava hospedada num pensionato para estudantes, na Rua da Glória, no Rio de Janeiro, cidade onde ela se diplomaria em Letras Neolatinas, pela Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil, atual UFRJ.” Apesar da distância entre Manaus e Rio de Janeiro, além de todas as dificuldades de deslocamento, pois estamos falando dos anos de 1953/1954, o posto de musa no Clube da Madrugada sempre foi cultivado e respeitado por seus companheiros de poesia, como nos relata aqui Alencar e Silva: “Desde a adolescência, Astrid Cabral tem tido destacada participação na vida cultural de Manaus, quer atuando em grêmios literários, como a SAEL (Sociedade Amazonense de Estudos Literários, que ela ajudou a fundar e levou a funcionar em uma sala do Instituto de Educação, cedida por sua diretora, e avó, Dona Eunice Serrano Telles de Souza), quer em publicações de vanguarda, como o jornal “Nossos Dias”, de Francisco Vasconcellos e João Bosco Evangelista, onde apareceriam os seus primeiros poemas. E o autor de Lunamarga continua: “Além do toque de qualidade que a distingue, o que sobreleva na obra de Astrid Cabral (...) é, sem dúvida, a consciência profissional em que se espelha o seu saber-fazer poético.” (...) “atesta, efetivamente, a presença de uma poderosa força criadora, que se exerce, com total domínio, sobre a palavra emprestando-lhe à linguagem aquela ressonância, a um tempo próxima e distante, aparentemente estranha e aparentemente familiar, das coisas eternas. (...) “Visgo da Terra”– obra em que celebra a memória dos seres e coisas que povoaram a paisagem do que fora Manaus da sua adolescência – aquele, entre os seus livros, em que melhor podemos observar uma das faces mais constantes de sua poesia – a das EVOCAÇÕES – e, aí, vê-la como exímia inventora de tesouros, a explorar os preciosos filões dos sentimentos e a trazer de seus subsolos as gemas mais belas, para maior glória de sua cidade.” (ALENCAR E SILVA (Quadros da Moderna Poesia Amazonense, Ed. Valer, 2011).
| Astrid Cabral |
3. A poética das pequenas coisas
Astrid
Cabral faz a Poesia das Pequenas Coisas. O seu olhar costura o poema por
dentro, alinhavando com precisão, na imaginação do seu leitor, os versos no
pensamento, que flutuam no ritmo do poema, vislumbrando decifrar-lhe as
metáforas, buscando as chaves e códigos do poema.
Vejamos
o que nos diz José Godoy Garcia, na edição de Astrid Cabral-50 poemas
escolhidos pelo autor (Edições Galo Branco, RJ,2008): “A começar pelo
título do livro, Ponto de Cruz, onde principiamos a tomar contato
com as pequenas-grandes coisas da vida doméstica, como que colocadas
harmoniosamente sobre a mesa. Mas, como toda a boa poesia, esta que nos vem de
Astrid não nos prende à aridez e ao limitado território das palavras. Do exíguo
mundo, das humildes e pequeninas coisas do dia-a-dia da cozinha, da casa, do
quintal, projeta-nos alto e longe, graças ao mistério que só os autênticos
artistas conseguem alcançar.”
Ponto de Cruz (recorte do blog Alma Acreana)
Lá fui eu ao armazém
comprar açúcar e mel.
Voltei com um quilo de sal
na boca o gosto do desgosto
lágrimas no rosto embutidas.
No balcão ao pedir vinho
vinagre me foi servido,
queria um maço de fogos
chuvas de prata e estrelas
para comemorar a noite
porém só havia velas
com que imitar o dia.
Lá fui eu ao armarinho
(tangida por que ventos
por que pérfidas sereias?)
comprar um dedal de amor.
Voltei com este coração
são sebastião de alfinetes.
O peito? retrós entaniçado
por mil linhas de aflição
euzinha toda por dentro
que nem pano em bastidor:
bico de agulha finoferoz
sobe-desce-sobe bordando
minha vida em ponto de cruz.
(CABRAL,
Astrid. De déu em déu: poemas reunidos (1979/1994). Rio de
Janeiro: Sette Letras, 1998. p.42)
No
poema que dá o título ao livro, podemos observar com nitidez o poder evocativo
da poesia de Astrid, que se destaca pela capacidade de sugerir e provocar
sensações, lembranças e estados de espírito no leitor, em vez de descrevê-los
diretamente. O “manuseio” de recursos tais como: a subjetividade, o simbolismo,
oposições de ideias, ritmos, aliterações, assim como temas como o “eu”
interior, a melancolia e o mistério. Tudo isso faz do poema um repositório de
imagens poéticas que buscam uma expressão espiritual e etérea, para criar uma
atmosfera misteriosa e transpessoal.
| De déu em déu |
No livro De déu em déu – Poemas reunidos (1979-1994), o Professor Dr. Antônio Paulo Graça nos diz sobre Astrid, em seu artigo de apresentação: “Se “Torna-Viagem” se abria para o espaço amplo, para o exterior (em todos os sentidos), “Lição de Alice” se concentra na intimidade, no mínimo espaço, na vida doméstica e nas experiências que uma voz sensível, muitas vezes, outras, extremamente cáustica, não faltando mesmo, aqui e ali, um toque de crueldade. O leitor de Astrid Cabral não deve se deixar envolver inteiramente por sua sensibilidade. Como antídoto, preste-se atenção nos versos finais de ‘Nudez’ – “Mas bendizemos o corpo que nos redime / e nos queremos selvagens, puros, nus. / Salvos pela misericórdia de nossa miséria.” – em que o paradoxo da última linha não nos deixa esquecer nossa condição liliputiana. Ao lado desse pendor crítico, há também uma tentação pela agressão pura, agressão contra as falsas convenções.”
Lição de Alice
No vale de lágrimas
a lição de Alice:
Não se deixar afogar.
Nadar na preamar
da própria dor.
| Astrid Cabral – 50 poemas escolhidos pelo autor |
Um
dos poemas mais perfeitos desse livro, citado acima, na minha opinião, é
“Sísifo de Avental”. Faz parte da vida de todos nós, que a lemos, essa sensação
de estranha intimidade com que Astrid calibra seus versos e metáforas, como a
dizer “em segredo” que somos cúmplices nas inconsistências da vida. A sua visão
das pequenas coisas do dia a dia, a rotina, os filhos, a casa, o amor e o
grande desafio de fazer poesia das alegrias e dores, ironias e resiliências,
das agruras de existir, afinal. Existir num tempo/espaço, onde as mulheres
estão em plena ascensão profissional no mundo, e de tudo o mais que a vida vai
nos ensinando na prática, nos direciona o olhar a distâncias inusitadas,
assustadoras e belas. Astrid encontra tempo e disciplina para escrever e nos
encantar, definitivamente, com sua poesia.
Sísifo de avental
Sísifo de avental
enche e reenche panelas
que se esvaziam na lida
de almoços e jantares
a encadear os dias
pois sempre vem a fome
que, voraz, tudo consome.
Então nessa condição
sem saída de trabalho
que não tem folga ou fim
beata, ela obra milagres
e das batatas arranca
a apoteose de purês e suflês
e mágica, extrai dos ovos
a própria neve do inverno
mais o verão consubstanciado
em dourados fios e chuviscos
petiscos de pudins e quindins
e doma as caldas nos vários
pontos de pasta fio espelho
pérola bala areia e caramelo.
E com sofisticados bifes
oblitera o massacre dos bois
e sobre toalhas faz florescer
jardins em saladas orvalhadas
de azeite vinagre e sal.
E sabe que até o fim dos dias
estão suas mãos destinadas
à faina sem folga ou fim
mas vai dando a sua faina
o seu próprio fim.
(Astrid Cabral-50 poemas escolhidos pelo autor – Edições Galo Branco, Rio de Janeiro, 2008).
3.1. As pequenas coisas do rio que transborda e inunda
Em
seu Blog Palavra do Fingidor, o
Acadêmico da AAL, poeta e escritor Zemaria Pinto, nos diz sobre a poeta: “A
água é um elemento constante na obra poética de Astrid Cabral. O ápice dessa
relação é o premiado livro Rasos d’Água: “uma viagem épica pela
memória líquida, das lágrimas à neve, banhando-se de chuva, perscrutando o mar,
os rios inúmeros, em permanente tensão com o pathos da morte, que ora se
aproxima e sangra, ora se afasta e observa a velhice inevitável, ora apenas lembra/relembra
a dor para sempre represada”, como escrevi na apresentação da segunda edição.
Em Rasos d’Água, o eu lírico é um ser líquido, sem forma definida,
que toma nova forma a cada poema. Para Astrid, a água é muito mais que a origem
da vida e metáfora da criação: numa relação dialética que não se esgota nunca,
é também fonte de morte e de destruição.
O
poema “Água doce”, que é a água da memória, da infância, guarda a consciência
disso, quando opõe a água do rio à água do mar, representada sempre por
elementos negativos, como a “vândala violência do mar”, “a ameaça constante das
vagas” e “a baba de espumas brabas”. Mas, aos poucos, essa consciência vai se
redefinindo, a memória vai se recompondo, e as lembranças vêm à tona, sempre
naquela relação vida/morte-criação/destruição: “A água do rio é mansa / mas
também se zanga”. E enumera o lado oposto da água doce e mansa: banzeiro,
enchente, correnteza, repiquete, cachoeira, redemoinho. Para quem compartilha
essas memórias com Astrid, essas palavras podem parecer motivos de brincadeiras
distantes. Mas ela adverte: o rio transborda e inunda, arrasta e mata, “afoga
quem não sabe nadar”, “enrola quem não sabe remar”. No seu blog, Zemaria
Pinto compartilha com seu público uma belíssima resenha crítica sobre a
obra Rasos d’Água de Astrid Cabral (da qual retirei o excerto
acima) e em parceria com o músico Mauri Mrq, publicam a obra
lítero-musical A Lira da Madrugada, musicando o poema “Água doce”
de Astrid Cabral.
Água doce
A água do rio é doce.
Carece de sal, carece de onda.
A água do rio carece
da vândala violência do mar.
A água do rio é mansa
sem a ameaça constante das vagas
sem a baba de espumas brabas.
A água do rio é mansa
mas também se zanga.
Tem banzeiro, enchente
correnteza e repiquete.
Pressa de corredeira
sobressalto de cachoeira
traição de redemoinho.
A água do rio é mansa
corre em leito estreito.
Mas também transborda e inunda
também é vasta, também é funda
também arrasta, também mata.
Afoga quem não sabe nadar.
Enrola quem não sabe remar.
A água do rio é doce
mas também sabe lutar.
A água doce na pororoca
enfrenta e afronta o mar.
Filha de olho-d’água e de chuva
neta de neve e de nuvem
a água doce é pura
mas também se mistura.
Tem água cor de café
tem água cor de cajá
tem água cor de garapa
tem água que nem guaraná.
A água doce do rio
não tem baleia nem tubarão
tem jacaré, candiru, piranha
poraquê e não sei mais o quê.
A água doce não é tão doce.
Antes fosse.
Clique AQUI para escutar o poema musicado.
3. 2. O cardápio diário das pequenas-grandes coisas
Hildeberto Barbosa Filho, em 50 poemas escolhidos pelo autor, afirma: “Em Astrid, as coisas, os objetos, as situações de rotina, os ambientes, as ideias, enfim, toda e qualquer matéria prima de poesia, como que se transmutam em realidades outras, integrando uma outra ordem da existência em que as noções imediatas de tempo e espaço, de espessura e de aparência terminam aniquiladas, para que se faça presente o substrato de uma ordem secreta – uma ordem que pode ser ternura ou uma ordem que pode ser crueldade – a gerir os apelos abissais das coisas e dos seres.” (P. 107)
Em
“Cardápio”, poema que compõe o elenco de Lição de Alice, Astrid nos
exemplifica a dissertação acima:
Cardápio
Nosso cardápio diário
inclui carnes assadas
e angústias bem passadas.
Inclui sangrentos nacos
cobertos de molhos pardos
que sabem a desgosto.
Inclui mil hipocrisias
devidamente empanadas
e servidas à francesa
bem antes da sobremesa
de frutas esquartejadas.
Inclui entre as iguarias
amizades congeladas
sonhos em banho-maria
deleites de amor requentado
em rançosos azeites.
Ódios com pó de pimenta
e as trêmulas gelatinas
de dúvidas coloridas.
Inclui o tédio guarnecido
de exóticos temperos.
Inclui o medo camuflado
em camadas de batatas.
Inclui a morte servida
sem o menor escrúpulo.
(CABRAL, Astrid. De déu em déu: poemas reunidos (1979/1994). Rio de Janeiro: Sette Letras, 1998. p.280)
A leitura dos poemas de “Lição de Alice” me tocaram a tal profundeza que de lá, dos meus “intramuros” escrevi um poema chamado “Espelho de Alice”, que faz parte do meu livro In(-)versos do meu Verso. Por lapso meu deixei de dedicá-lo à Astrid, o que faço agora.
Espelho de Alice
À Astrid Cabral
Um dia tive um sonho
Cavalo solto, crinas ao vento
Luz de luar, luar de sangrar
A guiar-me trôpegos os pés
Bosques meus, tendas minhas
Escudo de Perseu oblíquo
Noite travestida de sol
Bocas em notas noturnas
Espelho invertido de Alice.
Quem vem me buscar?
Sequestrei-me do sonho
Crime inafiançável, hediondo
Forasteiro de além-pátria!
Busquei-me entre os espelhos
Sem me encontrar em nenhum
Estilhaços de mente-cuore
Cinzas de amor destratado
E já me tardo na dor...
Vazio de bocas e vozes
Bar aberto, copos vazios
Peitos outrora plenos e meus
Hoje negro e frio acepipe.
(Rita Alencar Clark, In(-)versos do meu Verso, TAUP, Curitiba/PR, 2024)
4. Da íntima carne da poesia de Astrid Cabral – despedida
A escrita de Astrid Cabral, antes de
ser feminista, pois os tempos eram outros, era feminina. Ela nos empresta suas
asas para que possamos alcançar a sensibilidade , muitas vezes crua e superior,
conquanto ácida, de seus poemas. A sua costura de versos e evocações se faz por
dentro da pele, e se mostra entre músculos e consciência, subindo e descendo a
fina agulha da poesia em nossos corações, se assim quisermos. Penso que há
muito precisávamos fazer esta homenagem à Astrid Cabral, pela sua laureada carreira
literária, pelo seu talento inenarrável, pela beleza que nos comove e arrebata
a todos quando lemos e penetramos na íntima carne de sua poesia.
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| Arquivo da autora |
Rita Alencar Clark, professora de Língua portuguesa e Literatura, poeta Amazonense, contista, cronista, ensaísta e revisora. Membro Efetivo do Clube da Madrugada (AM) desde 1984, membro fundador da ALB/AM - Academia de Letras do Brasil/Amazonas , da ACEBRA - Academia de Educação do Brasil, Membro da AJEB/AM (Associação de Jornalistas e Escritoras) e ASSEAM (Associação dos Escritores do Amazonas) . Colaboradora do Blog Feminário Conexões e dos Coletivos Enluaradas e Mulherio das Letras, com participação em diversas coletâneas e antologias poéticas, sempre representando o Amazonas. Tem três livros publicados: "Meu grão de poesia, Milton Hatoum - Um certo olhar pelo Oriente-Amazônico" e "In(-)versos do meu verso".

















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