Por Marta Cortezão
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Fonte: @artivistha - Thais Trindade |
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Fonte: @artivistha - Thais Trindade |
No momento que escrevia o parágrafo anterior, lembrava do poema Não há oásis no deserto, da escritora gaúcha Cátia Castilho Simon, publicado na coletânea Se Essa Lua Fosse Nossa (Ser MulherArte Editorial, 2021):
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Fonte: Pinterest |
Não há oásis no deserto
Hoje foi a vez da diarista e outras mais
O jornal anunciou o assassinato de cinco mulheres por seus homens
Outro dia uma juíza foi morta na frente das filhas
Em outros dias, horas, meses, anos,
Agora, agorinha
Por séculos dos séculos, amém e ai de nós
Elas têm se revezado como em uma corrida em meio ao deserto
Uma a uma acredita no oásis e sucumbe:
A bruxa
A frentista
A cabeleireira
A advogada
A professora
A escritora
A costureira
A médica
A manicure
E assim vão morrendo de morte matada, todas
Não há filhas nem filhos capazes de salvar daquele que se entende
escarnecido, ainda que seja o pai
Era necessário esfaquear dezesseis vezes para que voltasse ao seu lugar
Sucumbir diante das filhas ou filhos é um morrer sem fim,
É cortar o osso e segurar a dor
Doca Street, o assassino de Angela Diniz, morreu aos 86 anos há poucos dias. Morreu de morte natural, 44 anos após o crime, como um justo que nunca foi.
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Fonte: @artivistha - Thais Trindade |
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Fonte: @artivistha - Thais Trindade |
Falsa igualdade
Aqueles que pensam
que o vírus é igualitário
Se enganam
Ele tem endereço
certo para levar a morte
Os corpos
estendidos na frente dos hospitais lotados
Sabem bem que eles
são alvos de extermínio
Quem nada tem para
comer
Com o corpo fraco
Com baixa
imunidade
Sabe o quanto lhe
cabe e é para si essa morte
Que ronda as
cidades
São os pobres
São os pretos
Que ficam lançados
no vazio do descaso
Que nem
contabilizados são
Apenas restam mais um e um… corpo no chão
(fonte: https://revistaacrobata.com.br/anna-apolinario/poesia/4-poemas-de-jeovania-p/)
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Fonte: @artivistha - Thais Trindade |
Canção dos corpos
Sob o luar
Ao longe
Ouço o uivo das lobas
Bruxas em círculo de
irmandade entoam
Canções de liberdade
Entre as árvores
As estrelas brilham
Enquanto o patriarcado
ataca
Elas atiçam o fogo
Em danças circulares
Acordam ancestralidades
Declaram que seu corpo
Não tem
proprietário
Num coro ritmado
Entoam
As canções dos corpos
Que falam.
Somos mulheres sobreviventes de um sistema que oprime e mata. A nossa revolta é legítima e política porque, não só nos conecta com outras mulheres, mas com nossa própria essência. Que nos emancipemos do patriarcado, que nos autorizemos a dizer sem medo, a construir espaços para diálogos conscientes através de nossas lutas.
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Cátia Castilho Simon é escritora, doutora em estudos da literatura
brasileira, portuguesa e luso-africanas/UFRGS. Publicações solo: Nos
labirintos da realidade – um diálogo de Clarice Lispector com Machado de Assis
(Prêmio UBE/RJ, 2014); Por que ler Clarice Lispector? (POA:TDA, 2017); Rastros
de Estrela (contos), 2022; Não há oásis no deserto (poesia) – Venas
Abiertas, 2023; Brigite – (infantil), ilustração Liana Tim, 2023. É
coorganizadora do Digressões Clariceanas, desde 2021. Integra o Mulherio das
Letras/RS, é vice-presidenta cultural da AGES, 2023/2024.
Jeovânia P. é escritora, professora, mestre em Filosofia. Nasceu
em Natal/RN, vive em Bayeux/PB. Publicações: seis livros poesias, um de contos,
e organizou nove coletâneas. Tem o selo e o canal no YouTube Literatura
Feminina, onde desenvolve o projeto “Bom dia com literatura feminina!”. Faz
parte da UBE/PB. É patrona da cadeira 27 da Academia Bayeuxsse de Ciências,
Letras e Artes. Participou da XIV Bienal Internacional do Livro de Pernambuco.
Leacide Moura nasceu à meia noite, no meio do mundo, na lua nova,
às margens do Rio Amazonas, em Macapá/AP, pelas mãos de parteira tradicional. É
mãe, avó apaixonada de Maria e Arthur, professora, sindicalista, ativista da
literatura, meio ambiente e empoderamento feminino. É da prosa e do verso,
organiza obras e tem participação ativa na literatura nacional.