sexta-feira, 22 de maio de 2026

A OBRA DE DANÚBIA LEÃO E AS OFERENDAS DO PANTANAL, POR ELIZABETE NASCIMENTO

Entre Ciência e Arte: A Obra de Danúbia Leão e as Oferendas do Pantanal nos Pigmentos Naturais de Ana Paula Piveta 

Por Elizabete Nascimento 

Imagem Pinterest
Resumo: O presente estudo analisa a intersecção entre estética, ciência e reflexão ecológica na obra contemporânea Punho em flores (2024), idealizada pela bióloga, investigadora e artista Danúbia Leão. A produção estabelece um manifesto visual em defesa do Pantanal ao equilibrar, conceitualmente, força e delicadeza. A imagem central de um punho cerrado ao sustentar uma rosa simboliza a resistência ativa contra a degradação ambiental e os incêndios florestais, ato que contrasta com a vulnerabilidade intrínseca da natureza diante da ação humana. Do ponto de vista material, a obra assume um caráter político e ecológico ao utilizar pigmentos naturais, como: terra, plantas e minerais. Coletados no próprio bioma pela artista Ana Paula Piveta, essa paleta orgânica de tons sépia, marrons e rosados confere à aquarela uma textura que funciona como extensão física do território pantaneiro. Adicionalmente, o artigo fundamenta-se na fenomenologia de Gaston Bachelard (1993) para discutir a relação entre o espaço e a memória afetiva, deste modo monstra a pintura como uma guardiã do tempo suspenso, um abrigo para a imaginação e um convite ao devaneio poético. As percepções de Leão nas Ciências Ambientais escorrem para a tela, conferem à arte um papel pedagógico e transformador que traduz o conhecimento científico em ativismo visual, assim aponta à urgência de salvaguardar um dos biomas mais ricos e ameaçados do mundo.

Palavras-chave: Arte e Ciência; Pigmentos Naturais; Pantanal; Danúbia Leão; Gaston Bachelard.

Considerações Preliminares

A produção artística contemporânea tem se consolidado como um potente território de convergência entre a busca estética e a urgência do debate ecológico. Diante da crescente crise climática e da degradação dos ecossistemas globais, a arte deixa de ser um elemento meramente contemplativo para assumir uma função político-pedagógica, capaz de sensibilizar e tensionar a relação entre o ser humano e o meio ambiente. Nesse cenário de intersecção entre a sensibilidade artística e o rigor científico, destaca-se o trabalho da bióloga, investigadora e artista visual Danúbia Leão, cuja atuação nas Ciências Ambientais transborda diretamente para a materialidade de suas telas.

Este artigo propõe uma análise intertextual e estética da obra Punho em flores (2024), criada por Leão a partir de uma técnica de aquarela que utiliza pigmentos naturais coletados no Pantanal pela também artista Ana Paula Piveta. A composição, que tensiona a força de um punho cerrado à fragilidade de uma rosa, atua como um manifesto visual contra os incêndios e as ameaças que assolam o bioma pantaneiro. O uso da própria terra, de plantas e de minerais da região como matéria-prima pictórica confere ao suporte uma ligação visceral e orgânica com o território pantaneiro, deste modo transforma a pintura em uma extensão física da paisagem.

Para compreender a profundidade dessa conexão e a carga emotiva que a obra carrega, este estudo ancora-se nas reflexões fenomenológicas de Gaston Bachelard acerca do espaço e da memória afetiva. Sob a ótica bachelardiana, o espaço não é um vazio geométrico, mas sim um guardião do tempo comprimido e um abrigo para o devaneio poético. Pretende-se, portanto, investigar como Punho em flores opera como um “fóssil de duração” e um refúgio de resistência, especialmente ao demonstrar que a união entre os saberes científicos da conservação ambiental e a potência da arte é capaz de salvaguardar a memória e pulsar a vida de um dos biomas mais ricos e ameaçados do mundo. 

A Obra de Danúbia Leão e as Oferendas do Pantanal nos Pigmentos Naturais de Ana Paula Piveta

A produção artística contemporânea tem procurado, cada vez mais, estabelecer pontes entre a estética e a reflexão ecológica. No trabalho da bióloga, investigadora e artista Danúbia Leão, essa relação ganha contornos de urgência e autenticidade.

Figura 01: Punho em flores
Fonte: arquivo da autora

A obra em foco, produzida em 2024 com o título Punho em flores (Fig. 01), utiliza a técnica de aquarela com pigmentos naturais do Pantanal sobre papel e apresenta uma mão erguida que sustenta uma rosa, compondo uma imagem simbólica em que força e delicadeza se encontram. As flores em tons rosados e violáceos emergem em meio a manchas aquareladas orgânicas. Neste viés, sugere uma atmosfera sensível e poética. O gesto do punho, associado à resistência e afirmação, contrasta e, ao mesmo tempo, dialoga com a fragilidade das pétalas.

A composição da obra equilibra elementos de força e delicadeza que dialogam diretamente com a realidade do bioma. O punho fechado, elemento central da imagem, é um símbolo universal de luta, resistência e determinação. No contexto do Pantanal, este gesto representa a defesa ativa do ecossistema face às ameaças da degradação ambiental e dos incêndios. Deste modo, transcende a mera representação visual e transforma-se num manifesto sobre a urgência de olhar e sentir o Pantanal e suas oferendas.

Em contraste com a rigidez do punho, surge a flor, delicada e frágil. Esta oposição conceptual ilustra a dualidade entre a força necessária para proteger a biodiversidade e a vulnerabilidade da própria natureza frente à feroz ação do ser humano. As rosas dispostas na base da composição, com tons de vinho e roxo, criam uma base densa que parece nutrir e sustentar o gesto de resistência, gesto que evoca uma sensação de intensidade e paixão pela terra.

Um dos aspectos mais marcantes da obra de Danúbia Leão é o manuseio de pigmentos naturais, recolhidos pela também artista Ana Paula Piveta no próprio Pantanal. Esta escolha não é meramente estética; constitui um ato político e ecológico. Ao utilizar a terra, as plantas e os minerais da região, as artistas apresentam uma ligação direta e visceral entre o suporte físico da obra e o ambiente retratado.

A paleta de cores, dominada por tons de sépia, marrons e tons suaves de rosa desbotado, confere à aquarela uma textura orgânica e irregular. Esta materialidade reflete a própria textura do solo e das águas pantaneiras, permitindo que a pintura funcione quase como uma extensão física da paisagem, dotada de uma atmosfera de nostalgia e conexão profunda com o território.

A perspectiva de Danúbia Leão enriquece a leitura da obra. Enquanto bióloga e investigadora na área das Ciências Ambientais, o seu trabalho na conservação e restauração do Pantanal transborda para a tela. A arte deixa de ser apenas contemplativa e assume um papel pedagógico e transformador.


Em seus mil alvéolos, o espaço retém o tempo comprimido. É essa a função do espaço [...]. Aqui o espaço é tudo, pois o tempo já não anima a memória. A memória — coisa estranha! — não registra a duração concreta, a duração no sentido bergsoniano. Não podemos reviver as durações abolidas. Só podemos pensá-las, pensá-las na linha de um tempo abstrato privado de qualquer espessura. É pelo espaço, é no espaço que encontramos os belos fósseis de duração concretizados por longas permanências. (Bachelard, 1993, p. 27-28)

Nesta passagem, Bachelard explora a relação íntima entre o espaço e a nossa memória afetiva, demonstrando como os locais funcionam como “fósseis” que retêm o tempo e as vivências. A obra da artista visual e ilustradora Danúbia Leão traz uma profunda sensibilidade e um diálogo íntimo com a delicadeza da natureza, da espiritualidade e das emoções. A imagem, que une as mãos, as flores e tons quentes e envolventes, se conecta com o pensamento de Bachelard por intermédio dos seguintes pontos:

  • O Espaço como Guardião da Memória: Bachelard nos lembra que o espaço retém o tempo comprimido. A pintura de Danúbia atua da mesma forma: a representação do gesto e da natureza (as rosas) cria um espaço físico e simbólico onde o tempo é suspenso, e assim sustenta a emoção ou uma lembrança afetiva que de outra forma seria fugaz.
  • A Dialética da Intimidade: O filósofo analisa como os espaços íntimos (como cantos, ninhos e redutos) nos protegem e nos permitem sonhar. A figura da mão que segura ou protege as flores na arte atua como esse “ninho” ou “abrigo” para a imaginação e para a interioridade do ser.
  • O Devaneio Poético: Em sua fenomenologia, Bachelard afirma que a imagem poética emerge do coração e da alma. A paleta de cores e a pincelada poética na obra de Danúbia convidam o observador ao devaneio, trazendo à tona sensações de permanência, afeto e delicadeza.

Por meio do seu trabalho, a artista consegue traduzir a linguagem científica e o conhecimento ecológico em formas e cores acessíveis, assim sensibiliza o público-leitor para a necessidade de ofertar abrigo e proteção a um dos biomas mais ricos e ameaçados do mundo. A obra torna-se, assim, um símbolo do seu ativismo científico, onde a arte e a natureza caminham lado a lado.

Considerações Finais

A obra de Danúbia Leão vai muito além da representação visual ou da técnica pictórica; ela se torna um espaço de memória viva, um refúgio poético onde a ciência e a sensibilidade se entrelaçam. Ao trazer as cores e os elementos do Pantanal para o papel, a artista transforma a resistência em um ato de acolhimento e escuta.

O punho e a flor, unidos pelos pigmentos da própria terra, nos convidam não apenas a observar, mas a proteger o bioma. É como se cada pincelada fosse um suspiro da natureza, de onde ecoa a ideia de Bachelard de que o espaço guarda o tempo e o afeto.

A arte cumpre, assim, o seu papel mais profundo: garantir que a memória e a vida continuem a pulsar, firmes e frágeis, em um território que se mantém vivo na nossa consciência e no nosso coração.


Referências Bibliográficas 

BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. Tradução de Antônio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

LEÃO, Danúbia. Punho em flores. 2024. 1. aquarela sobre papel, pigmentos naturais do Pantanal coletados por Ana Paula Piveta. Acervo da autora.

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Elizabete Nascimento – Doutora em Estudos Literários pela Universidade do Estado de Mato Grosso/Unemat, da tese publicou o livro: Sinfonia de Letras: Acordes Literários com Dunga Rodrigues (2021). Mestre em educação pela Universidade Federal de Mato Grosso/UFMT, com a pesquisa que originou o livro: Educação Ambiental e Manoel de Barros: diálogos poéticos (2019). Também é autora de diversos livros de poemas, entre eles: Asas do inaudível em asas de vaga-lume (2019); Granada (2023); Império (2024) e Pétalas de Aço (2025). Contribuições em várias revistas acadêmicas e antologias coletivas. Produtora Cultural e Integrante da AJEB/Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – Regional Mato Grosso. Endereço Eletrônico: maria-elizabete.oliveira@edu.mt.gov.br @m_elizabete


Danúbia Leão – Doutora em Ciências Ambientais, Graduada em Ciências Biológicas; Multiartista, atualmente, coordenadora de formação na DRE/ Diretoria Regional de Educação – Cáceres/Mato Grosso. Integrante da AJEB/Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil. Endereço eletrônico: danubiadasilvaleao@gmail.com, @danubialeao.artes - http://lattes.cnpq.br/2014371440949356


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