Entre Ciência e Arte: A Obra de Danúbia Leão e as Oferendas do Pantanal nos Pigmentos Naturais de Ana Paula Piveta
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| Imagem Pinterest |
Palavras-chave: Arte e Ciência; Pigmentos Naturais; Pantanal; Danúbia Leão; Gaston Bachelard.
Considerações Preliminares
A produção artística contemporânea tem se
consolidado como um potente território de convergência entre a busca estética e
a urgência do debate ecológico. Diante da crescente crise climática e da
degradação dos ecossistemas globais, a arte deixa de ser um elemento meramente
contemplativo para assumir uma função político-pedagógica, capaz de
sensibilizar e tensionar a relação entre o ser humano e o meio ambiente. Nesse
cenário de intersecção entre a sensibilidade artística e o rigor científico,
destaca-se o trabalho da bióloga, investigadora e artista visual Danúbia Leão,
cuja atuação nas Ciências Ambientais transborda diretamente para a
materialidade de suas telas.
Este artigo propõe uma análise intertextual e
estética da obra Punho em flores (2024), criada por Leão a partir de uma
técnica de aquarela que utiliza pigmentos naturais coletados no Pantanal pela
também artista Ana Paula Piveta. A composição, que tensiona a força de um punho
cerrado à fragilidade de uma rosa, atua como um manifesto visual contra os
incêndios e as ameaças que assolam o bioma pantaneiro. O uso da própria terra,
de plantas e de minerais da região como matéria-prima pictórica confere ao
suporte uma ligação visceral e orgânica com o território pantaneiro, deste modo
transforma a pintura em uma extensão física da paisagem.
Para compreender a profundidade dessa conexão e a carga emotiva que a obra carrega, este estudo ancora-se nas reflexões fenomenológicas de Gaston Bachelard acerca do espaço e da memória afetiva. Sob a ótica bachelardiana, o espaço não é um vazio geométrico, mas sim um guardião do tempo comprimido e um abrigo para o devaneio poético. Pretende-se, portanto, investigar como Punho em flores opera como um “fóssil de duração” e um refúgio de resistência, especialmente ao demonstrar que a união entre os saberes científicos da conservação ambiental e a potência da arte é capaz de salvaguardar a memória e pulsar a vida de um dos biomas mais ricos e ameaçados do mundo.
A Obra de Danúbia Leão e as Oferendas do Pantanal nos Pigmentos Naturais de Ana Paula Piveta
A produção artística contemporânea tem procurado,
cada vez mais, estabelecer pontes entre a estética e a reflexão ecológica. No
trabalho da bióloga, investigadora e artista Danúbia Leão, essa relação ganha
contornos de urgência e autenticidade.
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| Figura 01: Punho em flores Fonte: arquivo da autora |
A obra em foco, produzida em 2024 com o título Punho
em flores (Fig. 01), utiliza a
técnica de aquarela com pigmentos naturais do Pantanal sobre papel e apresenta
uma mão erguida que sustenta uma rosa, compondo uma imagem simbólica em que
força e delicadeza se encontram. As flores em tons rosados e violáceos emergem
em meio a manchas aquareladas orgânicas. Neste viés, sugere uma atmosfera
sensível e poética. O gesto do punho, associado à resistência e afirmação,
contrasta e, ao mesmo tempo, dialoga com a fragilidade das pétalas.
A composição da obra equilibra elementos de força e
delicadeza que dialogam diretamente com a realidade do bioma. O punho fechado,
elemento central da imagem, é um símbolo universal de luta, resistência e
determinação. No contexto do Pantanal, este gesto representa a defesa ativa do
ecossistema face às ameaças da degradação ambiental e dos incêndios. Deste
modo, transcende a mera representação visual e transforma-se num manifesto
sobre a urgência de olhar e sentir o Pantanal e suas oferendas.
Em contraste com a rigidez do punho, surge a flor,
delicada e frágil. Esta oposição conceptual ilustra a dualidade entre a força
necessária para proteger a biodiversidade e a vulnerabilidade da própria
natureza frente à feroz ação do ser humano. As rosas dispostas na base da
composição, com tons de vinho e roxo, criam uma base densa que parece nutrir e
sustentar o gesto de resistência, gesto que evoca uma sensação de intensidade e
paixão pela terra.
Um dos aspectos mais marcantes da obra de Danúbia
Leão é o manuseio de pigmentos naturais, recolhidos pela também artista Ana
Paula Piveta no próprio Pantanal. Esta escolha não é meramente estética;
constitui um ato político e ecológico. Ao utilizar a terra, as plantas e os
minerais da região, as artistas apresentam uma ligação direta e visceral entre
o suporte físico da obra e o ambiente retratado.
A paleta de cores, dominada por tons de sépia,
marrons e tons suaves de rosa desbotado, confere à aquarela uma textura
orgânica e irregular. Esta materialidade reflete a própria textura do solo e
das águas pantaneiras, permitindo que a pintura funcione quase como uma
extensão física da paisagem, dotada de uma atmosfera de nostalgia e conexão
profunda com o território.
A perspectiva de Danúbia Leão enriquece a leitura
da obra. Enquanto bióloga e investigadora na área das Ciências Ambientais, o
seu trabalho na conservação e restauração do Pantanal transborda para a tela. A
arte deixa de ser apenas contemplativa e assume um papel pedagógico e
transformador.
Em seus mil alvéolos, o espaço retém o tempo comprimido. É essa a função do espaço [...]. Aqui o espaço é tudo, pois o tempo já não anima a memória. A memória — coisa estranha! — não registra a duração concreta, a duração no sentido bergsoniano. Não podemos reviver as durações abolidas. Só podemos pensá-las, pensá-las na linha de um tempo abstrato privado de qualquer espessura. É pelo espaço, é no espaço que encontramos os belos fósseis de duração concretizados por longas permanências. (Bachelard, 1993, p. 27-28)
Nesta passagem, Bachelard explora a relação íntima entre o espaço e a nossa memória afetiva, demonstrando como os locais funcionam como “fósseis” que retêm o tempo e as vivências. A obra da artista visual e ilustradora Danúbia Leão traz uma profunda sensibilidade e um diálogo íntimo com a delicadeza da natureza, da espiritualidade e das emoções. A imagem, que une as mãos, as flores e tons quentes e envolventes, se conecta com o pensamento de Bachelard por intermédio dos seguintes pontos:
- O Espaço como Guardião da Memória: Bachelard nos lembra que o espaço retém o tempo comprimido. A pintura de Danúbia atua da mesma forma: a representação do gesto e da natureza (as rosas) cria um espaço físico e simbólico onde o tempo é suspenso, e assim sustenta a emoção ou uma lembrança afetiva que de outra forma seria fugaz.
- A Dialética da Intimidade: O filósofo analisa como os espaços íntimos (como cantos, ninhos e redutos) nos protegem e nos permitem sonhar. A figura da mão que segura ou protege as flores na arte atua como esse “ninho” ou “abrigo” para a imaginação e para a interioridade do ser.
- O Devaneio Poético: Em sua fenomenologia, Bachelard afirma que a imagem poética emerge do coração e da alma. A paleta de cores e a pincelada poética na obra de Danúbia convidam o observador ao devaneio, trazendo à tona sensações de permanência, afeto e delicadeza.
Por meio do seu trabalho, a artista consegue
traduzir a linguagem científica e o conhecimento ecológico em formas e cores
acessíveis, assim sensibiliza o público-leitor para a necessidade de ofertar
abrigo e proteção a um dos biomas mais ricos e ameaçados do mundo. A obra
torna-se, assim, um símbolo do seu ativismo científico, onde a arte e a
natureza caminham lado a lado.
Considerações Finais
A obra de Danúbia Leão vai muito além da
representação visual ou da técnica pictórica; ela se torna um espaço de memória
viva, um refúgio poético onde a ciência e a sensibilidade se entrelaçam. Ao
trazer as cores e os elementos do Pantanal para o papel, a artista transforma a
resistência em um ato de acolhimento e escuta.
O punho e a flor, unidos pelos pigmentos da própria
terra, nos convidam não apenas a observar, mas a proteger o bioma. É como se
cada pincelada fosse um suspiro da natureza, de onde ecoa a ideia de Bachelard
de que o espaço guarda o tempo e o afeto.
A arte cumpre, assim, o seu papel mais profundo: garantir que a memória e a vida continuem a pulsar, firmes e frágeis, em um território que se mantém vivo na nossa consciência e no nosso coração.
BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. Tradução de Antônio de
Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
LEÃO, Danúbia. Punho em flores. 2024. 1.
aquarela sobre papel, pigmentos naturais do Pantanal coletados por Ana Paula
Piveta. Acervo da autora.
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Elizabete
Nascimento – Doutora em Estudos Literários pela
Universidade do Estado de Mato Grosso/Unemat, da tese publicou o livro:
Sinfonia de Letras: Acordes Literários com Dunga Rodrigues (2021). Mestre em
educação pela Universidade Federal de Mato Grosso/UFMT, com a pesquisa que
originou o livro: Educação Ambiental e Manoel de Barros: diálogos poéticos
(2019). Também é autora de diversos livros de poemas, entre eles: Asas do
inaudível em asas de vaga-lume (2019); Granada (2023); Império (2024) e Pétalas
de Aço (2025). Contribuições em várias revistas acadêmicas e antologias
coletivas. Produtora Cultural e Integrante da AJEB/Associação de Jornalistas e
Escritoras do Brasil – Regional Mato Grosso. Endereço Eletrônico: maria-elizabete.oliveira@edu.mt.gov.br
@m_elizabete
Danúbia
Leão – Doutora em Ciências Ambientais,
Graduada em Ciências Biológicas; Multiartista, atualmente, coordenadora de
formação na DRE/ Diretoria Regional de Educação – Cáceres/Mato Grosso.
Integrante da AJEB/Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil. Endereço eletrônico: danubiadasilvaleao@gmail.com,
@danubialeao.artes - http://lattes.cnpq.br/2014371440949356




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