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sexta-feira, 28 de março de 2025

HISTÓRIA COLETIVA. / DE MULHERES. / DE MENINAS.

HISTÓRIA COLETIVA. / DE MULHERES. / DE MENINAS.[1]

Por Marta Cortezão 


“Mulheres não são pessoas no capitalismo, apenas corpos.”

(Silvia Federici, Folha de S. Paulo-Uol, novembro,2023)


Imagem Pinterest

Todos os dias, nos noticiários, nas mídias, nas manchetes aterradoras, a morte nos lembra como o machismo mata e aterroriza mulheres e meninas em uma violência crescente e assustadora. O Brasil é o 5º país que mais mata mulheres no mundo[2]. E, com infâmia, inscreve, na perversa história desses brutais crimes, as marcas de um profundo ódio a esses corpos femininos, devorados pelo utilitarismo e pela ganância de um mundo que vive o capitalismo em seu extremo. Um mundo que consome a hipersexualização e a objetificação de corpos femininos; um mundo que apavora pelo sexismo estrutural, reforçando a discriminação baseada no sexo e/ou gênero e violando direitos humanos, impedindo mulheres e meninas de desfrutarem de suas liberdades fundamentais. Quando nossos corpos serão, de fato, nossos?

A garota voltava da escola, falou com um desconhecido e desapareceu. Mais uma vida ceifada. Foi encontrada em um terreno baldio, pedaços de seu corpo noticiados em imagens desfocadas no jornal do meio-dia. A mesa estava posta, quase nem houve tempo de assimilar tantas notícias...

Homem segue mulher na parada do ônibus. Ela retornava, à noite, do emprego de funcionária do lar. Era o suposto ex-marido. Consta que ela o havia denunciado por ameaças de morte. Morreu desacreditada e sem apoio do Estado. Vítima da violência das mãos do feminicida, deixou duas crianças que agora são órfãs de seu cuidado maternal. Os restos mortais da vítima, de 36 anos, foram encontrados calcinados em um lixão da cidade.

Imagem Pinterest
Adolescente é assediada no ônibus, a caminho da escola. Transporte lotado. Ela deu alarme, mas não obteve apoio. O assediador era um senhor bem-vestido, de terno e gravata, que se agarrou no discurso de homem respeitável e pai de família abnegado. A menina desceu chorando seu desespero na primeira parada que pôde. Alguém gravou a cena enquanto a adolescente expressava sua angústia e a publicou nas redes sociais...

Senhora de 65 anos vai a óbito ao cair do quinto andar. Suspeitas de um relacionamento tóxico e suas consequências depressivas. Ela envolveu-se com um rapaz pelas redes sociais. Ele foi ganhando sua confiança, também o acesso à sua conta bancária, à sua casa, à sua vida. Enfim, um caso a ser investigado, diz a polícia, meio desacreditada de encontrar uma prova cabal. Mas há fortes indícios de suicídio...

Mulheres e crianças são as maiores vítimas da guerra. Deu também nos noticiários, mas “deu”/bateu mais forte em minhas carnes. O que faço com esta impotência em meu corpo? Com essa dor, faca afiada e fria da morte, prestes a atravessar a jugular? Agora mesmo não tenho nem forças nem disposição racional para continuar falando sobre este tema, mas o feminicídio grita em todos os lados. Está escancarado nas janelas do mundo. É preciso sair da apatia social que aliena mentes, é preciso enxergar, do contrário, nos tornamos cúmplices e culpadas, porque nossa passividade tem implicações morais[3].  

Imagem Pinterest

Um corpo frio sobre a pedra do necrotério. Um corpo não identificado. Uma notícia tão corriqueira que quase ninguém se sensibiliza. Há muita pressa, há coisas mais importantes para se ocupar. Por quê? Onde? Quando perdemos a nossa empatia? Nossa capacidade de comoção? De nos importarmos com a vida de nossas iguais?

Um corpo que é coletivo, mas que não nos pertence. A essas mulheres, a essas meninas que vivem na mira da misoginia de uma sociedade patriarcal que objetifica nossos corpos em prol do lucro e do capital. Em uma sociedade onde não somos pessoas, apenas corpos. Apenas números na crescente lista da vergonha que, a cada fração de segundo, pode ganhar mais uma vítima fatal. A escritora Rosangela Marquezi, de Pato Branco, no poema Coletivo Corpo, de seu livro (In)certas Escreveduras (Editora Medusa, 2023), faz uma abordagem direta sobre este tema. Escancara nossas dores e agruras ao descrever o poema:

Coletivo Corpo

 

O corpo estava ali.

Nunca fora seu, era coletivo.

 

O pai mandara se cobrir.

O marido mandara se abrir.

 

E a ela ninguém ouviu.

E a ela ninguém sequer viu.

 

História coletiva.

De mulheres. De meninas.

 

Correntes que não se quebram.

Sinas que não se desfazem.

 

Seu corpo estava ali.

Nunca fora seu, nem agora.

 

Na mesa fria da necropsia.

Imagem Pinterest

O corpo de uma mulher jaz inerte “na mesa fria da necropsia”. Em vida, já havia sido despojado das vontades, da dignidade, de tudo – inclusive de sua autonomia. Um corpo que alcança o extremo da objetificação na análise póstuma. Um corpo feminino submetido às expectativas e imposições sociais. Um corpo frio “que estava ali”, mas “nunca fora seu, era coletivo”. Um corpo que compartilha a infeliz ventura da história triste de tantas mulheres, vítimas da violência machista, engrossando a lista de mortes de inúmeros corpos de mulheres e meninas subjugados pela sociedade.

O pai, figura que representa a moral e os bons costumes, ordena que a filha se resguarde, que se cobra, que se comporte como uma mulher deve se comportar em uma sociedade patriarcal. O marido, proprietário e beneficiário desse corpo, ordena que ela se abra, que sirva a seus instintos, a seus desejos irrefreáveis. Tanto o pai quanto o marido – figuras de ordem – representam a imposição das normas masculinas sobre este corpo individual feminino. A ela, o corpo anônimo e invisibilizado, que jaz frio em uma mesa de necropsia, resta a negação de seus desejos e sonhos pela sociedade patriarcal falocêntrica. Resta-lhe a história da negligência de mulheres e meninas abandonadas à ausência da própria voz, da própria existência.

Imagem Pinterest

A noção de “História coletiva. / De mulheres. / De meninas” revela os fatos que se repetem, mudando apenas as vítimas das inúmeras tragédias das narrativas cruéis do cotidiano. São histórias que se entrelaçam nas “Correntes que não se quebram. / Sinas que não se desfazem”. É uma história viciosa que fortalece as relações de poder historicamente patriarcais destacando a universalidade dessas experiências e lutas e sugerindo a persistência de padrões restritivos ao longo do tempo. O poema alcança seu ápice no verso “Na mesa fria da necropsia”, encerrando uma reflexão contundente sobre a opressão sistêmica enfrentada pelas mulheres. Melhor não poderia dizer eu! Digo apenas que sempre é tempo de construir algo novo!

Imagem Pinterest

Silvia Federici afirmou, em uma entrevista que assisti recentemente, que quando perdemos a ilusão, sentimos a necessidade de fazer algo novo. E é colocando a esperança nos coletivos que a luta se fortalece. A luta de mulheres sempre esteve nesse ponto zero: ponto onde se perde a ilusão. Mas que este ponto seja não apenas de resistência, mas também de luta e de transformação social. Não queremos morrer todos os dias. Queremos seguir vivas!



[1] Revista Voo Livre. São Paulo. nº 46, pp. 48-53. Disponível em: https://revistavoolivre.com.br/2024/06/07/revista-voo-livre-vol-1-no-46-junho-de-2024/ . Acesso em: 28/03/2025.

[2] CUNHA, Carolina. Feminicídio – Brasil é o 5º país em mortes violentas de mulheres no mundo. Uol, 2025. Disponível em: Feminicídio: Brasil é o 5º país em morte violentas de mulheres no mundo - UOL Educação . Acesso em: 28/03/2025.

[3] TOKARCZUR, Olga. Escrever é muito perigoso – Ensaios e conferências. Gabriel Borowski (trad.). [livro digitalizado]. São Paulo: Editora Todavia, 2023, p. 57.

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Arquivo pessoal (autoria de Alan Winkoski)
Rosangela Marquezi é professora de formação e atuação que acredita a literatura tem o poder de modificar vidas... Nas poucas horas vagas escreve poemas, crônicas e contos e já participou de coletâneas e antologias no Brasil e também em Portugal. Faz parte da Academia de Letras e Artes de sua cidade, Pato Branco - PR, onde também é Professora de Literatura na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

sábado, 8 de março de 2025

TOPOGRAFIA DO MEDO

AVE, CRÔNICA|07

POR MARTA CORTEZÃO

Fonte: Pinterest
Alguns passos deixam marcas que a cidade não ignora. Uma mulher caminha pela cidade. Um homem caminha pela cidade. Dois fatos comuns, no entanto, totalmente distintos do ponto de vista da essência semântica e espacial do corpo que caminha. E não me refiro simplesmente à ação de caminhar, mas ao que não cabe nos fatos em si, o que transborda deles e escorre pelos interstícios do passado e do presente, que pulsam no organismo vivo da cidade. Há uma pragmática quase invisível entre o corpo caminhante e o corpo vivo da cidade, porém essas relações não se apresentam de forma neutra a todos os corpos. Sua topografia, construída por edifícios fálicos e belicosos, se impõe como o cenário dos acontecimentos cotidianos.  

Fonte: Pinterest
A cidade é um ser que respira, reage, amanhece e anoitece a cada passo. Aos passos do homem que caminha, ela abre os pulmões receptiva, e inspira o ar fresco matinal. A brisa favorável dos bons tempos percorre suas artérias, porque a cidade está feita à sua medida. Ela exibe sua fortaleza em suas largas avenidas desobstruídas, que fluem sorridentes, sem impedimentos, em todas as direções, num fluxo contínuo. Já a mulher trânsfuga, ao caminhar, pisa com seus medos no corpo urbano, vivo, mas limitado. A cidade exala, por entre postes e vielas, um ar pesado e sepulcral, como se, a cada passo, fosse revelar o inesperado, ao mesmo tempo previsto e temido, o susto iminente prestes a saltar de alguma esquina. Seus labirintos estreitos suspiram pesado e sussurram segredos medonhos por entre os dentes: fogueiras, massacres, violações, silenciamentos... As veias urbanas pulsam obstruídas no fluxo das incertezas, sem volta, sem refluxo, dificultando o próximo passo, facilitando o tropeço, o coágulo.

Fonte: Pinterest
A cidade, suas sombras e seus olhos de Argos se dissolvem. Invisíveis, espalham-se pelas paredes, pelas janelas, pelas construções, pelas frestas, pelo trânsito afoito dos automóveis, entre buzinas e piscadas de faróis. Um homem caminha pela cidade sem notar o tumulto, sem notar as sombras e os olhos, porque a cidade é neutra ao seu corpo. Ele atravessa sem sentir o bulício, mas seus olhos cravam-se na mulher que caminha em sua direção. Ela, atormentada pelo ruído da cidade, se assusta, sente o olhar do caminhante arder em seu corpo nu e desvia sinuosamente o percurso. A cidade cede palco aos olhos que não piscam – apenas os faróis atentos dos carros, que piscam em cumplicidade à buzina estridente da insinuação incômoda, na hora cansada da cidade. A mulher apressa os passos largos. Pelas frestas dos vidros dos carros, a cidade se assenhora do espaço que o corpo da mulher pisa. As sombras assobiam palavras obscenas que a atravessam, queimando a caminhante assustada como mãos de fogo que não tocam, mas ardem e marcam para sempre.

Fonte: Pinterest
A cidade, insaciável não dorme. Ela é um animal de humor instável, de garras afiadas, pronto para assaltar sua presa com seu baile de máscaras medieval. Com seu ar selvagem e fingido comportamento manso, de aparente desinteresse, prepara-se para dar o bote. Permite a passagem da mulher que caminha, para logo apresentar um risco calculado na próxima esquina. A cidade tem patas silenciosas e olhos de fera noturna. Durante o dia, deixa-se domesticar: ruas iluminadas, passos firmes. À noite, arqueia o lombo, mostra os dentes, e toda mulher aprende a andar como quem não quer acordá-la, pois há os corpos e as cicatrizes que a cidade devora. Até quando uma mulher que caminha pela cidade será apenas mais uma sombra em meio à cegueira extrema do espaço urbano? 


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domingo, 11 de agosto de 2024

CONTAR A PRÓPRIA HISTÓRIA É UM ATO POLÍTICO, POR MARTA CORTEZÃO

                           Por Marta Cortezão

Fonte: @artivistha - Thais Trindade
Pela primeira vez, na história das Olimpíadas, o Brasil levou uma delegação, em sua maioria, composta por atletas mulheres.  Um registro significativo dos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024, que tem suscitado profícua discussão sobre paridade de gênero pelo mundo. Até o momento que escrevo esse texto, são 14 medalhas olímpicas, sendo duas de ouro, 5 de prata e 7 de bronze. Nesta conta que não fecha, o destaque é das esportistas mulheres com 9 medalhas, mas o protagonismo é negro, assim como é negro o ouro do Brasil machista, misógino e racista.



Fonte: @artivistha - Thais Trindade
No contexto desta equação machismo + discurso de ódio + aversão às mulheres e a tudo que é relacionado ao universo feminino, temos como resultado a crescente violência contra as mulheres que multiplica o número de feminicídios e os casos de estupro. Os registros do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelam a brutal cifra de 83.988 casos registrados, em 2023. É assustador pensar que uma mulher é estuprada a cada 6 minutos e que as maiores vítimas do crime de estupro são meninas negras de até 13 anos.


No momento que escrevia o parágrafo anterior, lembrava do poema Não há oásis no deserto, da escritora gaúcha Cátia Castilho Simon, publicado na coletânea Se Essa Lua Fosse Nossa (Ser MulherArte Editorial, 2021):

Fonte: Pinterest

Não há oásis no deserto 

Hoje foi a vez da diarista e outras mais

O jornal anunciou o assassinato de cinco mulheres por seus homens

Outro dia uma juíza foi morta na frente das filhas

Em outros dias, horas, meses, anos,

Agora, agorinha

Por séculos dos séculos, amém e ai de nós

Elas têm se revezado como em uma corrida em meio ao deserto

Uma a uma acredita no oásis e sucumbe:

A bruxa

A frentista

A cabeleireira

A advogada

A professora

A escritora

A costureira

A médica

A manicure

E assim vão morrendo de morte matada, todas

Não há filhas nem filhos capazes de salvar daquele que se entende escarnecido, ainda que seja o pai

Era necessário esfaquear dezesseis vezes para que voltasse ao seu lugar

Sucumbir diante das filhas ou filhos é um morrer sem fim,

É cortar o osso e segurar a dor

Doca Street, o assassino de Angela Diniz, morreu aos 86 anos há poucos dias. Morreu de morte natural, 44 anos após o crime, como um justo que nunca foi.


Fonte: @artivistha - Thais Trindade
É nesse palco, onde a tragédia da vida real segue sendo representada initerruptamente, que os feitos olímpicos de Paris 2024 ganham relevância nas vozes das protagonistas atletas mulheres: “Mulherada, pretos e pretas é possível”, disse Beatriz Souza quando recebeu sua medalha de ouro; a ginasta Rebeca Andrade, após vitória reafirmou a sua felicidade em “representar a negritude”; Dayane Santos, após pódio de Simone Biles e Rebeca Andrade, não economizou palavras para falar desde esse lugar-de-dor-ausência da mulher negra, trazendo para a cena do discurso a questão necessária sobre a representatividade preta: “Ela representa todos. Mas a representatividade de 56% de uma nação, que é excluída, subjugada, que muitas vezes quando ganha é pertencente. [Mas] e quando não ganha? [...] Tomara que as pessoas reconheçam o valor dessas mulheres pretas”; ainda, para delírio dos racistas, a imagem preta, no pódio, da reverência de Simone Biles e Jordan Chiles à brasileira Rebeca Andrade correu o mundo, selando, com medalha de ouro, mais um capítulo histórico que marca o lugar de fala como um ato político de resistência, de luta e, especialmente, de pertencimento.

         

Fonte: @artivistha - Thais Trindade
A importância destes eventos contraditórios é perceber que há um movimento de mulheres conscientes da vida fronteiriça que nos subjuga e nos maltrata, mulheres conscientes das lutas necessárias e que sabem do poder de transformação dos discursos e das ações e causas políticas, feministas, antirracistas que caminham na contramão de tudo o que representa o patriarcado. E não estamos sozinhas, pois como diz Angela Davis, “quando uma mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”. Sueli Carneiro se une a Davis quando toma a palavra e diz, em primeira pessoa: “Nós, mulheres negras, somos a vanguarda do movimento feminista nesse país; nós, povo negro, somos a vanguarda das lutas sociais deste país porque somos os que sempre ficaram para trás, aquelas e aqueles para os quais nunca houve um projeto real e efetivo de integração social”. A poeta ativista, feminista, Jeovânia P., também entra neste importante diálogo com o seu poema:

Falsa igualdade

Aqueles que pensam que o vírus é igualitário

Se enganam

Ele tem endereço certo para levar a morte

Os corpos estendidos na frente dos hospitais lotados

Sabem bem que eles são alvos de extermínio

Quem nada tem para comer

Com o corpo fraco

Com baixa imunidade

Sabe o quanto lhe cabe e é para si essa morte

Que ronda as cidades

São os pobres

São os pretos

Que ficam lançados no vazio do descaso

Que nem contabilizados são

Apenas restam mais um e um… corpo no chão

(fonte: https://revistaacrobata.com.br/anna-apolinario/poesia/4-poemas-de-jeovania-p/)

         

Fonte: @artivistha - Thais Trindade
Contar a própria história é um ato político. Falar da repressão de nossos corpos é libertador, é uma potente ferramenta de luta feminista. É preciso nunca esquecer que o patriarcado se coloca como ordem e se propaga através da linguagem com sua eterna narrativa simbólica. O racismo, assim como todos os preconceitos, é um ato de fala, portanto, contradizer o patriarcado será a nossa canção monódica, no sentido de que é um canto triste, porém, uma Canção dos corpos imprescindível, como sugere a poeta macapaense Leacide Moura, a ser entoada por uma legião de bruxas-mulheres (e desejamos que também seja entoada por homens que se unam à causa) que se sublevam e que não se calam diante do projeto patriarcal que é silenciar mulheres. O objetivo será sempre problematizar para avançar nas conquistas e reconquistas. Será esta atitude que nos colocará no caminho de um Feminismo Humano, esse lugar do exercício linguístico como forma de resistência.

 

Canção dos corpos

 

Sob o luar

Ao longe

Ouço o uivo das lobas

Bruxas em círculo de irmandade entoam

Canções de liberdade

Entre as árvores

As estrelas brilham

Enquanto o patriarcado ataca                                      

Elas atiçam o fogo

Em danças circulares

Acordam ancestralidades

Declaram que seu corpo

Não tem proprietário                 

Num coro ritmado

Entoam

As canções dos corpos

Que falam.

          Somos mulheres sobreviventes de um sistema que oprime e mata. A nossa revolta é legítima e política porque, não só nos conecta com outras mulheres, mas com nossa própria essência. Que nos emancipemos do patriarcado, que nos autorizemos a dizer sem medo, a construir espaços para diálogos conscientes através de nossas lutas. 

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Cátia Castilho Simon é escritora, doutora em estudos da literatura brasileira, portuguesa e luso-africanas/UFRGS. Publicações solo: Nos labirintos da realidade – um diálogo de Clarice Lispector com Machado de Assis (Prêmio UBE/RJ, 2014); Por que ler Clarice Lispector? (POA:TDA, 2017); Rastros de Estrela (contos), 2022; Não há oásis no deserto (poesia) – Venas Abiertas, 2023; Brigite – (infantil), ilustração Liana Tim, 2023. É coorganizadora do Digressões Clariceanas, desde 2021. Integra o Mulherio das Letras/RS, é vice-presidenta cultural da AGES, 2023/2024.


Jeovânia P. é escritora, professora, mestre em Filosofia. Nasceu em Natal/RN, vive em Bayeux/PB. Publicações: seis livros poesias, um de contos, e organizou nove coletâneas. Tem o selo e o canal no YouTube Literatura Feminina, onde desenvolve o projeto “Bom dia com literatura feminina!”. Faz parte da UBE/PB. É patrona da cadeira 27 da Academia Bayeuxsse de Ciências, Letras e Artes. Participou da XIV Bienal Internacional do Livro de Pernambuco.



Leacide Moura nasceu à meia noite, no meio do mundo, na lua nova, às margens do Rio Amazonas, em Macapá/AP, pelas mãos de parteira tradicional. É mãe, avó apaixonada de Maria e Arthur, professora, sindicalista, ativista da literatura, meio ambiente e empoderamento feminino. É da prosa e do verso, organiza obras e tem participação ativa na literatura nacional.

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

"NEGRA É A COR DA BRASILIDADE", MARIA DO CARMO SILVA

Maria Do Carmo Silva, arquivo da autora

 A LITERATURA COMO FERRAMENTA ESSENCIAL DE HUMANIZAÇÃO: UM ENCONTRO DIALÉTICO ENTRE AS OBRAS RECOMENDAÇÕES POÉTICAS, DE MARIA DO CARMO SILVA, E QUARTO DE DESPEJO, DE CAROLINA MARIA DE JESUS[1]                                                                                                                                     Por Marta Cortezão

 

(...) a literatura é o sonho acordado das civilizações (...) é fator indispensável de humanização (...). A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas.

{Antônio Cândido}

           Este artigo pretende mergulhar numa leitura sobre o poder de humanização que a literatura é capaz de exercer aos ávidos olhos leitores. Para esta viagem, embarco na leitura do livro Recomendações Poéticas (Cogito Editora, 2021), onde a autora Maria do Carmo Silva – professora, escritora, poeta de Mutuípe (BA) – a partir de sua escrita, nos descortina um caleidoscópio de importantes reflexões sobre o caótico mundo em que vivemos, mantendo sempre os olhos postos no horizonte das utopias e das esperanças necessárias para as mudanças futuras, estas que urgem ações para a agoridade do  tempo presente, e que cujo ponto de partida é a leitura. A epígrafe que abre o livro já nos aponta o caminho: “O conhecimento liberta e promove o ser humano; a ignorância escraviza e aliena, tornando-o limitado em suas próprias palavras e ações” (Pe. José Roberto da Silva Amaral). E ainda, na apresentação do livro, a autora reforça estes questionamentos sobre esta realidade que tanto a preocupa:

Em um mundo globalizado, onde os olhares e interesses estão direcionados apenas para o capitalismo, voltados para o ter, o poder e a ganância, o nosso cotidiano resume-se à correria em prol do materialismo, dedicando um tempo mínimo para a leitura, ou muitas vezes não a incluindo na nossa rotina. (p.13)

Refletindo sobre estas primeiras páginas, chego ao ensaio Direito à Literatura[2], escrito na década de 80 por Antônio Cândido, onde encontra-se a definição dos conceitos de “bens compreensíveis” (“como os cosméticos, os enfeites, roupas supérfluas”) e “bens incompreensíveis” que são “não apenas os que asseguram a sobrevivência física em níveis decentes, mas que garantem a integridade espiritual”. É neste segundo conceito de bens que o autor insere a arte e a literatura, mas com ressalva, pois “só poderão ser consideradas bens incompreensíveis segundo uma organização justa da sociedade se corresponderem a necessidades profundas do ser humano, a necessidades que não podem deixar de ser satisfeitas sob pena de desorganização pessoal, ou pelo menos de frustração mutiladora” (CANDIDO: 2011, p. 174). Não tenho dúvida de que a literatura é instrumento de transformação maior, sou prova disso, entretanto minha angústia é constatar o caos – o descaso e desrespeito com a educação, a literatura, a cultura, as artes, a ciência, a saúde e tudo o que sustenta um país que pretende cuidar com seriedade de seu povo – e ainda as injustiças sociopolíticas no Brasil que sucederam o fatídico golpe de 2016, revelando um Brasil onde a aliança fascista ganha força e prospera descaradamente. Contudo é preciso contemplar os “lírios dos campos”, mais que contemplá-los, potencializá-los em sua força de semente, interessar-se pela “terra que o alimenta” e entender de suas fragilidades para que eles floresçam na tão esperançada “primavera política” de 30 de outubro.

Arquivo da autora
Para esta leitura trago também o livro Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus[3], no intuito de plasmar o diálogo interior que me esteve muito presente durante a (re)leitura simultânea das duas obras. Recomendações Poéticas está dividido em quatro partes não intituladas, mas cada uma das partes se diferencia por uma temática predominante. A Parte I, composta de 23 poemas, cuja epígrafe de abertura é um trecho de Parabolicamará, letra de Gilberto Gil , “...Antes mundo era pequeno / Porque terra era grande / Hoje mundo é muito grande / Porque terra é pequena...”, poematiza sobre os povos originários, a História pelo avesso, o Brasil multirracial, a voz negra das Afromemórias do Continente África, o capitalismo que devora humanidades, mas, principalmente, sobre dignidade humana, sonhos e esperança, porque desde o ano de 1500 sabemos que onde há subalternização, também há luta, ainda que a história presente nos livros didáticos nos tenha contado sempre a versão do colonizador:

Historicizando (pág. 26)

História evoca memórias, lutas e resistências.

É o registro de cotidianas vivências.

O tempo permite realizar os acontecimentos.

O ser humano é o sujeito-histórico a todo o momento.

O passado? Deixa suas marcas e memórias.

O presente? Revela mudanças na humana trajetória.

E o futuro? Será constituído pelo misto de histórias

que marcaram o passado, que marcam o presente,

perpetuando a vida dos mais diferentes grupos humanos,

reconhecendo e valorizando a labuta da gente.

E no longe, ouço de meu silêncio, com a voz de Gil, uma resposta cantante: “Esse tempo nunca passa / Não é de ontem nem de hoje / Mora no som da cabaça / Nem tá preso nem foge / No instante que tange o berimbau, meu camará / Volta do mundo, camará / Mundo dá volta, camará”. Venha, mundo, dê suas voltas e deixe o povo no topo da pirâmide! “Que o teu povo possa tornar-se independente, / das mazelas sociais que o desumanizam e o tornam indigente”. (poema Adversa Nação, pág. 33). E a voz do eu poético se junta ao coro no poema:

Afromemórias (pág. 36)

Emergi das profundezas do Lago Vitória.

As raízes do Baobá sustentaram a minha história.

Os meus ancestrais resgataram a minha memória.

A tribo, meu território, ressalta a minha trajetória.

Sou afrodescendente!

Dos quilombos, remanescente!

Não renego a minha gente!

Dói em minha alma a escravidão que a vida

De tantos irmãos fez deplorar!

Os senhores contemporâneos ainda querem me acorrentar!

LIBERDADE é o meu lema! Tenho que gritar!

Sou humana, sou negra! Sou filha da Mãe África!

E em seus braços, eternamente deixo-me por ela embalar!

Um poema-hino para recitá-lo em oração, um poema para profundos questionamentos. Eis que me lembro de Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, do que ela escreve em seu diário, no dia 13 de maio de 1958:

 

Hoje amanheceu chovendo. É um dia simpático para mim. É o dia da Abolição. Dia que comemoramos a libertação dos escravos.

(...) Eu estava com dois cruzeiros. Pretendia comprar um pouco de farinha para fazer um virado. Fui pedir um pouco de banha a Dona Alice. Ela deu-me a banha e arroz. Eram 9 horas da noite quando comemos.

E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravidão atual – a fome! (pág. 27)

Carolina Maria de Jesus, fonte: Pinterest
O fragmento “eu lutava contra a escravidão atual – a fome!” é navalha na carne para os que param para sentir a dor alheia, ainda que não tenham conhecido a “fome amarela” que conheceu Carolina. É a fome um quadro lamentável que escraviza nações e que só cresce no Brasil atual, onde “Até o feijão nos esqueceu. Não está ao alcance dos infelizes que estão no quarto de despejo” (DE JESUS: 1970, p. 38) do Brasil invisibilizado. Outra passagem que me parece dialogar com os versos “Sou afrodescendente! / Dos quilombos, remanescente! / (...) Sou humana, sou negra[4]! /Sou filha da Mãe África! /E em seus braços, eternamente deixo-me por ela embalar!” é a seguinte:


...Eu escrevia peças e apresentava aos diretores de circos. Eles respondia-me:

─ É pena você ser preta.

Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rústico. (...) Se é que existe reencarnação, eu quero voltar sempre preta.(pág. 58)

Duas vozes que se confrontam num profícuo diálogo, uma do século XX, outra do século XXI. É o Brasil a passos trôpegos sendo destapado, em verso e em prosa, mostrando-se o quanto nos distanciamos do Brasil de nossos sonhos! Há um Brasil que caminha com os olhos do colonizador, presumindo de uma branquitude que não tem lugar e nem brasilidade/representatividade. Onde está nossa LIBERDADE? A entendemos como instrumento imprescindível de luta para a construção de uma sólida democracia? É urgente conhecer a História de nosso povo, é urgente “assumir nossa cor-identidade, / Libertar-nos: da discriminação histórica, / Da subalterna colonialidade. / Somos negros! / Negra é a cor da brasilidade”. (Ser negro, pág. 39). Somos indígenas, ribeirinhos, caboclos, somos pretos, quilombolas. E para além das muitas e infinitas questões, somos pessoas, somos seres humanos, somos um universo genético em que cabem todas as cores e todas as vozes ancestrais.

A Parte II de Recomendações Poéticas reúne 21 poemas. Neste capítulo são as águas que fluem, primeiramente, na voz/letra de Guilherme Arantes: ...Água que nasce da fonte serena do mundo / e que abre um profundo grotão. / Água que faz inocente riacho e deságua / na corrente do ribeirão. Água, um significante composto de apenas quatro fonemas e que é um mar harmonioso de dicotomias semânticas porque abarca uma amplidão de simbologias. Para Chevalier & Gheerbrant, no Diccionario de los Símbolos, 

Las significaciones simbólicas del agua pueden reducirse a tres temas dominantes: fuente de vida, medio de purificación y centro de regeneración. Estos tres temas se hallan en las tradiciones más antiguas y forman las combinaciones imaginarias más variadas, al mismo tiempo que las más coherentes[5]. (pág. 52)

Arquivo pessoal de Maria do Carmo
Neste capítulo do livro, a água surge como “fonte de vida, meio de purificação e centro de regeneração” da vida. É a matriz geradora, associada ao ciclo da vida, à mãe natureza que nutre mundo e seres vivos; é o princípio, mas também o fim. São os “espelhos naturais” destas águas que “refletem: / a face da mãe natureza / e a diversidade de faces humanas” (Reflexos, pág. 46). Na escrita de Do Carmo, a humanidade é parte da Natureza, destruí-la é também autodestruir-se; o mesmo fogo que devasta o verde da floresta, “incendeia a alma dos pantaneiros” (Devastação, pág. 52). As mesmas labaredas que lambem o solo para a ganância do plantio da soja e do pasto para o gado são as mesmas que consumem a alma humana e que deixam rastro de destruição, como revela o poema:

Descaso (pág. 53)

Labaredas consomem os biomas:

Amazônia, Cerrado, Pantanal.

Fumaça! Fogo! Paisagem desfigurada.

Habitat animal assaltado pelas chamas!

Espécies vegetais desmoronam em cinzas.

Animais jazem esturricados.

O oxigênio sucumbe em meio à poluição.

O fogo persegue os seres vivos.

A devastação interroga o coração humano.

O capitalismo, a ambição, a indiferença

Provocam e aceleram a combustão dos biomas!

A natureza geme as dores pela queima dos seres.

Planeta Terra em caos!

Planeta consumido pelas labaredas do descaso humano e social!

Fonte: Pinterest
No poema acima, se insurge uma voz contra o descaso que se arvora pelo globo terrestre aos olhos cegos de um atual (des)governo brasileiro, enquanto o “capitalismo, a ambição, a indiferença / Provocam e aceleram a combustão dos biomas!”. Na atual conjuntura, temos a natureza e a humanidade sendo envenenadas pela ganância. Em Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus reflete sobre suas angústias vividas e sentidas na pele: “o que eu revolto é contra a ganância dos homens que espremem uns aos outros como se espremesse uma laranja.” (pág. 41). E você, já interrogou o seu “coração humano” acerca deste ganancioso “fogo (que) persegue os seres” tão carentes de humanidade? Você, em algum momento, silenciou as vozes do mundo para escutá-lo dentro de uma leitura intimista? Parou para pensar sobre o quanto os discursos de ódio consomem o “coração humano” impedindo-o de comover-se com as dores do mundo? De quanto se pode esvaziá-lo de empatia ao não o alimentar com a frescura que o inspira a outros olhares, apesar das agruras? Será que vale a pena justificar o descaso com o próprio descaso? “A democracia está perdendo os seus adeptos. No nosso paiz tudo está enfraquecendo. O dinheiro é fraco. A democracia é fraca e os políticos fraquíssimos. E tudo que está fraco, morre um dia.” (DE JESUS: 1970, p.35). Mas Carolina Maria de Jesus é inspiração, nunca se dá por vencida e sabe do poder que pulsa das palavras: “Não tenho força física, mas minhas palavras ferem mais do que espada” (pág. 43). Não permita que seu humano coração se enfraqueça, alimente-o com o vermelho esperança para a Democracia pulsar viva e libertária.

Há uma natureza que busca também regenerar a sua força interior através da beleza lírica, onde a poesia transborda e escorre liquidamente pelos desvãos da alma, refrescando os momentos de tristeza em que paramos para tomar fôlego, até porque também é preciso tecer as próprias belezas para continuar (re)existindo, ainda que o mundo exterior não seja tão animador: 

Lição de pássaros (pág. 60)

A revoada de brancos pássaros sobrevoa o Vale!

Num malabarismo sincronizado, sobrevoa!

Despede-se da rotina diurna.

Proporciona alento aos corações desanimados.

Transporta a noite em suas delicadas asas.

Renova a esperança no coração de outrem.

Carolina Maria de Jesus, fonte: Pinterest
A voz lírica observa a revoada, nela se ver refletida, nela se sente renovada. A rotina diurna que envolve as vidas com seu torpor não é capaz de vencer a utopia pelo cansaço repetitivo que pesa sobre todos nós. Não é, porque a força da revoada atravessa os “corações desanimados” dando-lhes alento. Voar com a mente, com a “revoada de brancos pássaros”, é suportar o peso da “noite em suas delicadas asas”. Não é apenas a força física que sustenta a luta, são os ideais, aqueles que germinam no pensamento e nascem pelo desejo delirante das palavras que se encontram em revoada, convocando para a retomada da luta. De Quarto de Despejo, trago o seguinte fragmento que conversa com Lição de Pássaros:

...O céu é belo, digno de contemplar porque as nuvens vagueiam e formam paisagens deslumbrantes. As brisas suaves passam conduzindo os perfumes das flores. E o astro rei sempre pontual para despontar-se e recluir-se. As aves percorrem o espaço demonstrando contentamento. A noite surge as estrelas cintilantes para adornar o céu azul. Há várias coisas belas no mundo que não é possível descrever-se. Só uma coisa nos entristece: os preços, quando vamos fazer compras. Ofusca todas as belezas que existe.” (pág. 38)

        O trecho está carregado de poesia, a prosopopeia é a figura de linguagem predominante: “as nuvens vagueiam”, as brisas conduzem “os perfumes das flores”, o sol desperta e se recolhe pontualmente, “as estrelas cintilantes” adornam o azul do céu. E de repente, na voz lírica marginalizada, a dura realidade surge abruptamente e quebra a bela e poética sequência de imagens, ofuscando toda e qualquer beleza e nos puxando para dentro desta realidade. Em ambos os textos, as lições são provenientes das dores cotidianas e adversas, podemos senti-las e nos emocionarmos com estas realidades diferentes – mas ao mesmo tempo similares – que se entrelaçam em diálogos distantes no tempo. Cada autora, a seu modo, vai costurando infinitos na cartografia dos muitos Brasis, pois, como diz a poeta Do Carmo, “A vida é feita de contínuas andanças.” (Adaptação, pág. 64), e são nestas andanças que se vislumbra um universo literário construído, capaz de nos sacudir da cotidianidade e de nos tocar, em profundidade, o mundo das emoções, transformando-nos. Para Antônio Cândido “Toda obra literária é antes de mais nada uma espécie de objeto, de objeto construído; e é grande o poder humanizador desta construção, enquanto construção” (pág. 177).

          A Parte III – composta por 12 poemas – se relaciona com profunda liquidez à Parte II, a Natureza como matriz geradora desaguando em sua abrangência simbólica das águas. Neste capítulo é a mulher, a mãe; é este “ser mulher” transportado pelas águas para o centro do discurso poético. É a poeta Cora Coralina que fornece a epígrafe: “...Eu sou aquela mulher / a quem o tempo muito ensinou. / ensinou a amar a vida... / ...Acreditar nos valores humanos...”. No contexto semântico da mulher genitrix, Chevalier & Gheerbrant afirmam      

que el simbolismo de la madre se relaciona con el de la mar, como también con el de la tierra, en el sentido que una y otra son otros tantos receptáculos y matrices de la vida. El mar y la tierra son símbolos del cuerpo maternal. (…) En este símbolo de la madre se encuentra la misma ambivalencia que en el del mar y la tierra: la vida y la muerte son correlativas. Nacer es salir del vientre de la madre; morir es retornar a la tierra. La madre es la seguridad del abrigo, del calor, de la ternura y el alimento;[6] (pág. 674).

Céu e mar, fonte: Pinterest
Mas neste contexto ambivalente mar/terra, a força criadora, a que fertiliza o mundo, é responsável por manter o equilíbrio do mundo quando presente no coração humano “extremamente carente de Paz! / De Paz interior, de paz no campo, de paz na cidade! / (...) O homem que ignora a Paz caminha nas trevas. / Se a humanidade rejeita a paz, a violência sobre ela impera” (Lição de Paz, pág. 69). A figura mulher-mãe-natureza inspira os melhores sentimentos humanos, como a paz espiritual e canta aos quatro ventos que “A semente do conhecimento brotará” (Crescendo e Empreendendo, pág. 73). Entretanto, a ausência de “um abrigo seguro, de calor, de ternura e alimento” adoece o mundo e os corações humanos e aproxima a humanidade de sua extinção terrestre. A voz poética clama por um despertar deste mundo cego pela ganância do capital:

Clamor da nossa gente! (pág. 77)

Gente brava! Gente brasileira!

Gente que sonha e luta por uma “Pátria Ordeira”!

A Ordem e o Progresso são mera teoria?

O clamor dos teus filhos não te angustia?

Esta gente brasileira clama por respeito e dignidade!

A desigualdade gera os excluídos da sociedade!

Gente brava! Gente brasileira!

Gente que não apenas sonha!

Gente que cotidianamente labuta!

Labuta por justiça e igualdade!

Esta brava gente

clama por Independência e chora as mazelas sociais!

Independência!

Usufruto dos Direitos que deveriam ser para todos iguais!

A Ordem e o Progresso não podem ser utopia!

A gente brava brasileira luta!

Luta por uma vida digna para todos,

não apenas para uma minoria!

Gente brava! Gente brasileira!

Gente que luta, resiste e persevera,

Na conquista da “Independência Verdadeira!”

          Nos deparamos com um queixoso clamor de uma voz lírica que protesta pela desigualdade social e que sente todas as dores deste mundo enfermiço. A voz de Carolina Maria de Jesus também se levanta contra estas mazelas sociais sempre tão presentes nos nossos Brasis, sentenciando: “É preciso conhecer a fome para saber descrevê-la (...) O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar no próximo, e nas crianças” (pág. 26). A fome é inegável, está no prato dos desamparados pelas políticas públicas, está nas estatísticas diárias, está em cada esquina, nas ruas, nos semáforos, sinalizando e escancarando um mundo decadente e desumano a nossos olhos. “E as lágrimas dos pobres remove os poetas. Não comove os poetas de salão. Mas os poetas do lixo, os idealistas das favelas, um expectador que assiste e observa as trajedias que os políticos representam em relação ao povo” (DE JESUS: 1970, p. 47).  A Literatura é esta trincheira que se abre dentro de nós, em confronto com outras realidades e que tem o poder de nos humanizar, já que a literatura “tira as palavras do nada e as dispõe como um todo articulado (...). A articulação da palavra comunica-se ao nosso espírito e o leva, primeiro, a se organizar; em seguida, a organizar o mundo. (CANDIDO: 2011, p. 177).

Arquivo da autora
A Parte IV, último capítulo de Recomendações Poéticas, composta de 30 poemas, se abre aos olhos leitores com a epígrafe “Os poemas são pássaros que chegam / Não se sabe de onde e pousam / No livro que lês. /quando fechas o livro, eles alçam voo...” (Mário Quintana). Neste capítulo, há temas que tratam de momentos vividos na pandemia, mas o que prevalece é a metapoesia. A autora usa o seu conhecimento sobre o fazer poético para falar de poesia de seus mundos, assumindo-se poeta:

Universo Poético (pág. 83)

Instante é o tempo do poeta.

A vida do poeta é a poesia.

Sou poeta!

Edifico a poesia e nela permaneço.

A poesia me tocou,

floriu o meu deserto interior.

Causou arrepio, temor, mas ao livro chegou.

Sou poeta!

Escrevo, reescrevo,

expresso em verso meus mundos:

o interior e o exterior.

Maria Carolina de Jesus, fonte: Pinterest
Para o eu lírico, a escrita e a leitura são os dois lados de uma mesma moeda. Lavrar a palavra é uma viagem pelo silêncio do “deserto interior” e pelo universo das emoções até chegar ao livro; é o trabalho paciente de escrever e reescrever seus “mundos: / o interior e o exterior”. É buscar o tempo para a construção e organização da palavra no complexo universo da literatura de caráter contraditório mas humanizador, ou naquilo que humanizador porque aprofunda-se no contraditório (CANDIDO: 2011, p.176). A força transformadora da literatura transborda em Quarto de Despejo: “Enquanto as roupas corava eu sentei na calçada para escrever” (pág. 16); ¨Li um pouco. Não sei dormir sem ler. Gosto de manusear um livro. O livro é a melhor invenção do homem” (pág. 18); “É que eu estou escrevendo um livro, para vendê-lo. Viso com esse dinheiro comprar um terreno para eu sair da favela” (pág. 20). “Todos tem um ideal. O meu é gostar de ler” (pág. 23). Em ambas as autoras, a escrita e a leitura são prioritárias apesar das dificuldades diárias. Podemos dizer que para além da leitura, o ato de escrever também é uma forma de empatizar com o mundo ao redor, criando possibilidades e agindo por meio delas no mundo através de releituras intimistas. Através da escrita, Carolina pôde realizar o sonho de sair da favela do Canindé, atual Marginal Tietê de São Paulo.

          Do Carmo, no poema abaixo, chama a atenção para as muitas possibilidades de leituras de mundo. Para alcançá-las é preciso deixar corpo e mente a postos para a prática da leitura diária e de compromisso, pois ler é mais que uma ação, é uma necessidade orgânica:

Multileituras (pág. 88)

Leio com a mente.

Leio com os olhos.

Leio com o coração.

 

Leio com a razão.

Leio nas entrelinhas.

Leio com emoção.

 

Leio sob a luz do sol ou da lua.

Leio na penumbra da escuridão.

Leio refletindo sobre o cotidiano dos seres.

Leio a vida na sua diversidade e amplidão!        

Maria do Carmo Silva, arquivo pessoal
O poema Multileituras traz o desfecho destas minhas andanças pela escrita de Maria do Carmo, em Recomendações Poéticas, e de Carolina Maria de Jesus, em Quarto de Despejo, pois, nas obras destas duas autoras, eu também (re)escrevo-me e (re)leio-me e “Leio a vida na sua diversidade e amplidão”, agarrando-me à força humanizadora, presente naquilo que afirma Antônio Cândido sobre este justo e necessário “direito à literatura”:

Entendo aqui por humanização (...) o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante (pág. 180).

          Mas não posso ir embora sem antes louvar e agradecer a resistência e existência do povo nordestino, orgulho brasileiro, apropriando-me, para isso, do fragmento do poema Identidade Nordestina (pág. 34), da autora Maria do Carmo Silva:

O Nordeste existe, insiste e resiste!

O Nordeste é o meu quinhão!

Nordestino sou de coração!

Não aceito discriminação!

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ARENDT, Hanna. La Pluralidad del mundo. [libro digital]. Barcelona: Penguin Random House Grupo Editorial, 2019.

BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. [livro digital]. São Paulo: Editora Cultrix, 1977.

CANDIDO, Antônio. Vários Escritos. [Organização do próprio autor]. São Paulo: Duas Cidades, 4ª edição, 2011.

CARMO, Silva do. Recomendações Poéticas. Salvador: Cogito Editora, 2021.

CHEVALIER, J. & GHEERBRANT, A. Diccionario de los Símbolos. Barcelona: Editorial Helder, 1986.

DE JESUS, Maria Carolina. Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada. 90º Milheiro, Edição Popular, 9ª ed., 1970.

ECO, Humberto. Os limites da interpretação. Pérola de Carvalho [Trad.]. [livro digital]. São Paulo: Perspectiva, 2015.

RICOEUR, Paul. Interpretação e ideologias. Milton Japiassu [Tradução e organização]. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990.



[1] A primeira versão desse artigo foi publicada na Revista Literária Voo Livre, edição nº 27, Outubro de 2022.

[2] CÂNDIDO, Antônio. Vários Escritos. [Organização do próprio autor]. São Paulo: Duas Cidades, 4ª edição, 2011, p. 174.

[3] Carolina Maria de Jesus (1914-1977) nasceu em Sacramento (MG). Cursou apenas a primeira e a segunda série do antigo ginásio. Escritora brasileira que ficou conhecida após a publicação do best seller autobiográfico Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, em 1960, edição do repórter Audálio Dantas. Com o sucesso alcançado nas vendas, Carolina logra abandonar a favela e passa a residir no Alto de Santana (SP). Nos anos seguintes publica: Casa de Alvenaria: Diário de uma Ex-favelada (1961), Pedaços da Fome (1963), Provérbios (1965).

[4] Deixo um link que faz uma interessante abordagem sobre os sentidos semânticos dos adjetivos “preto” e “negro” que vêm sendo bastante discutidos em nossa contemporaneidade: https://www.youtube.com/watch?v=bu4aBxrYGJU

[5] As significações simbólicas da água podem reduzir-se a três temas dominantes: fonte de vida, meio de purificação e centro de regeneração. Estes três temas se encontram nas tradições mais antigas e formam as combinações imaginárias mais variadas, ao mesmo tempo que as mais coerentes.

[6] que o simbolismo da mãe se relaciona com o do mar, como também com o da terra, no sentido que uma e outra são outros tantos receptáculos e matrizes da vida. O mar e a terra são símbolos do corpo maternal. (…) Neste símbolo da mãe se encontra a mesma ambivalência que no do mar e no da terra: a vida e a morte são correlativas. Nascer é sair do ventre da madre; morrer é retornar à terra. A mãe é a segurança do abrigo, do calor, da ternura e o alimento;

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