Uma mulher que escreve é uma mulher muito perigosa.
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A violência e o abuso escancararam um portal sombrio,
no qual muitas mulheres são mantidas como reféns, de maridos, de amantes, de
pais e de companheiros. No caso de Gisèle, reiteradamente por anos e
inconsciente do que lhe acontecia, dopada, anestesiada, violentada e filmada.
Parece ficção, mas não é. E, o que mais nos choca: com a participação de quem
prometeu amá-la, protegê-la e respeitá-la. O hoje condenado ex-marido
arregimentou mais de 50 homens da comunidade local, de todas as idades (homens
e não monstros), para participarem desse ritual violento e abusivo, sem culpa
ou ressentimentos, por mais de dez anos transitando pela cidade livres do peso
na consciência; amorais, todos eles. A mensagem de Gisèle, ao decidir expor seu
caso e abrir mão do anonimato a que tem direito (e juridicamente concedido) é: A
vergonha mudou de lado.
Foi sua resposta aos abusos extremos que sofreu
que lhe deu força e controle sobre sua vida. As violências continuam a
acontecer com outras mulheres, são de todos os tipos e levam a diversas mortes:
física, moral, psicológica, emocional, financeira e patrimonial. Sim, há
inúmeras mortes para as mulheres que sofrem agressões, até para as que resistem
fisicamente a elas, mesmo morrendo todos os dias devido aos traumas. Ser mulher
na contemporaneidade é um risco diário e um exercício contínuo de
sobrevivência.
A sexual é apenas uma delas. No topo da lista, incluo
o epidêmico e atualíssimo feminicídio, mas há outra violação camuflada e
abafada pela comunidade intelectualizada, protagonizada por homens em sua
maioria. Trata-se da violação literária contra as mulheres que escrevem. Um
abuso antigo, que remonta aos primórdios da implantação, no Brasil, das
máquinas tipográficas, trazidas em 1808 por D. João VI. Desde esse período, e
só para ficar no âmbito nacional, as mulheres que escreviam, muitas sem
qualquer pretensão de publicar, já eram relegadas ao mutismo das aspirações
literárias. Ou vamos acreditar no “conto da Carochinha", que mulher nunca
soube escrever? Por muito tempo, acreditou-se nesse absurdo, fosse por
imposição do patriarcado, fosse pela falta de acesso, ou simplesmente pela
proibição aos estudos e aos livros, “estudar era caro ou pensar não era coisa
de mulher”.
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Texto pronto e uma alegria íntima, legítima e
inconfessável corre pelo corpo e pela alma, com a sensação de ter caminhado por
um deserto quente e inóspito, ansiando por publicar e encontrar nossos
leitores, sabendo que temos nas mãos escritos dignos de serem lidos e
apreciados. Assim nos mostrou Gisèle Pelicot, assim desmontamos o teatro vulgar
da hipocrisia, revelando que o mundo masculino não pode sobreviver na
impunidade dos arredores domésticos, nos pactos de silêncio e no acobertamento
mútuo. Sim, escrever é muito perigoso, principalmente se essa escrita é feita
com o sangue e a mente de uma mulher. Gisèle Pelicot
nos encorajou a lutar e continuar a escrever; mesmo aterrorizadas, em fúria, despidas e violadas. Porque nossa escrita é única, vem impressa sobre nossos corpos e dores, na pele, não em armaduras frias ou máscaras de persona, mas iluminada por ideias que acendem a alma.
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| Rita Alencar Clark foto: arquivo da autora |
Escritora, poeta, cronista, colunista
do blog feminarioconexoes.blogspot.com
Colaboradora do Coletivo Enluaradas Amazônia




















