quarta-feira, 2 de abril de 2025

A DROGA DA VIOLÊNCIA E O MACHISMO

 A DROGA DA VIOLÊNCIA E O MACHISMO

Por Margarida Montejano

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Quando eu e minha irmã éramos crianças, morávamos com nossos pais numa casa humilde. Ao lado, separado por um muro, havia um bar.  Eu tinha doze anos, e minha irmã dez.  Era comum, às noites, os “homens de família”, inclusive meu pai, se reunirem no bar vizinho para relaxar, trocar ideias, rir e beber, enquanto suas mulheres cuidavam da janta, das crianças e dos afazeres domésticos. Assim eram nossos finais de tarde e, quando a gente já se preparava para dormir, era também comum, depois das risadas altas e dos falatórios que transpunham o muro e as paredes do quarto, ouvirmos o som de garrafas quebradas, cadeiras e mesas atiradas nas paredes e gritos permeados de palavrões. Nossa mãe, naqueles momentos, dizia: Essa droga da violência de novo! Por isso é que eu digo pra vocês! Falta educação! Ela começava a cantar a fim de que dormíssemos e aumentava o volume de seu canto para que não escutássemos a tal violência que nos fazia arregalar os olhos tentando identificar o som da voz de nosso pai que, para relaxar, trocar ideias, rir e beber estava no bar. Ela, com paciência, nos acalmava e nos colocava na cama, pois sabia que seria melhor que já estivéssemos dormindo quando ele chegasse.

Minha irmã eu não sei, mas eu fingia dormir, ficava atenta e, muitas vezes, ouvi minha mãe soluçando e rezando sozinha, enquanto aguardava o marido que com certeza chegaria alterado em casa. Por fim, eu acabava dormindo tropeçando nas ave-marias que tentava rezar, no intuito de enfrentar meus medos. No dia seguinte, vendo meu pai irritado pela ressaca e minha mãe com olhos vermelhos de tanto chorar, tomei coragem e perguntei: - Mãe, o que a senhora tem?... é a droga da violência?

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E ela, parecendo entender a razão de minha pergunta, abaixou-se à altura de meus olhos e me disse, quase que cochichando, para que meu pai não ouvisse:

— Filha, a droga da violência é tudo o que sobra quando falta o conhecimento. Ela se instala gratuitamente e vai se fortalecendo aos poucos, cegando, ensurdecendo, enfurecendo e, por fim, destrói o sujeito, que rejeita o diálogo e se abastece de rótulos, de mensagens instantâneas. Confia no que vê e no que ouve...

— Não entendi, mãe! e ela, com paciência tentou outra vez me explicar:

— Presta atenção, meu amor... a droga da violência é a ignorância que, quando se junta à droga do vício e da mentira, fica mais forte, se potencializa e se transforma em estupidez. E, quem sofre com isso, são as mulheres e as crianças. Homens violentos maltratam e matam sem dó e sem se sentirem culpados...  E o pior, minha filha, é que eles acreditam que o que estão fazendo é correto!

— Mãe! a professora falou na escola sobre isso. É por isso que os homens matam as mulheres?   perguntei. 

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Minha mãe, com o dorso da mão secou as lágrimas que corriam no rosto e parecendo refletir sobre minha pergunta, fitou-me nos olhos dizendo: 

— Querida, outro dia vi na televisão um indígena falando uma coisa muito interessante. – E o que ele disse, mãe? – Falou que para a pessoa ignorante, existe a escola, e para aquele que é estúpido, resta a cadeia[*].

E então, parecendo entender o que dizia  levantou-se, pegou minha mão e a mão de minha irmã, sua bolsa e saímos batendo a porta de casa rumo à Delegacia da Mulher!

Naquele dia eu entendi que meu pai era um estúpido.

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[*] Daniel Munduruku

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Arquivo pessoal da autora
Margarida Montejano, mora em Paulínia/SP. É Escritora, Poeta, Contista; Func. Pública na Secretaria Municipal de Educação de Campinas. Defensora ativa dos direitos da Mulher, sendo membra do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Campinas; Coordenadora do Projeto Bem-Me-Quero: Empoderamento Feminino e Igualdade de Gênero e, Produtora do Canal Literário – N’outras Palavras –  histórias que inspiram, no Youtube. Autora dos livros "Fio de Prata" - Ed. Siano (2022); "Chão Ancestral", TAUP Editora (2023) e dos livros infanto juvenis "A Poeta e a Flor" e "A Poeta e a Sabiá", pela Editora Siano. (2024). @margaridamontejano.escritora


12 comentários:

  1. Que reflexão excelente! Cada dia está mais difícil ser mulher, ser criança. A droga da violência cada vez mais presente na nossa sociedade.

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    1. Agora com nome

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    2. Obrigada pela leitura e comentário, Renata. Você pode seguir o blog, será um prazer tê-la neste ciberespaço🌹🤝🏽🌹

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    3. Renata, querida! Grata por ler, por deixar seu importante comentário aqui. Que a literatura nos auxilie no enfrentamento do machismo! Sigamos juntas de mãos unidas pela causa feminina! Por um mundo mais justo e humano!

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  2. Identifiquei-me. Sei o que é fazer sentinela na noite não dormida.>

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  3. Olá, Dirce! Boa noite. Grata por ler, por comentar e por encontrar sentido neste conto. É a escrita alcançando seu objetivo ❤️ Forte abraço, querida!

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  4. Que texto maravilhoso e necessário. Parabéns pela sua arte resistência em defesa da vida , dos direitos das mulheres

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    1. Olá, querida Socorro! Sigamos juntas nesta luta! Que possamos, pelo uso da palavra, levar a esperança e o estímulo à luta por um mundo livre do machismo, da misoginia! ❤️ Grata por ler, por comentar!

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  5. Querida amiga, que texto forte, que texto necessário. Nos toca profundo, nos emociona e nos faz refletir sobre como a "droga da violência" contra a mulher ainda está presente nos dias de hoje. E nós, mulheres, temos de seguir nessa luta. Eles não passarão!

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  6. Amiga, o comentário anterior é meu. Mas o nome não saiu...kkk

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  7. Verdade, Mila! Nossa luta é incessante! O direito inalienável à vida é nossa bandeira! Que possamos nos superar a cada dia nesta causa humanitária e, juntas, arregimentar outras mulheres para fazer valer nossas vozes contra toda forma de discriminação, preconceitos e violências de gênero! Eles não passarão! Grata por ler, por trazer seu comentário para este importante espaço de literatura, de luta!

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  8. MARIA DO CARMO DA SILVA SANTOS4 de abril de 2025 às 20:06

    Pertinente reflexão acerca das múltiplas formas de violência a que nós mulheres somos submetidas desde os tempos passados até o tempo presente! Parabéns cara escritora Margarida Montejano.

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