A DROGA DA VIOLÊNCIA E O MACHISMO
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Minha irmã eu não sei, mas eu fingia dormir, ficava atenta e, muitas vezes, ouvi minha mãe soluçando e rezando sozinha, enquanto aguardava o marido que com certeza chegaria alterado em casa. Por fim, eu acabava dormindo tropeçando nas ave-marias que tentava rezar, no intuito de enfrentar meus medos. No dia seguinte, vendo meu pai irritado pela ressaca e minha mãe com olhos vermelhos de tanto chorar, tomei coragem e perguntei: - Mãe, o que a senhora tem?... é a droga da violência?
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E ela, parecendo entender a razão de minha pergunta, abaixou-se à altura de meus olhos e me disse, quase que cochichando, para que meu pai não ouvisse:
— Filha, a droga da violência é tudo o que sobra quando falta o conhecimento. Ela se instala gratuitamente e vai se fortalecendo aos poucos, cegando, ensurdecendo, enfurecendo e, por fim, destrói o sujeito, que rejeita o diálogo e se abastece de rótulos, de mensagens instantâneas. Confia no que vê e no que ouve...
— Não entendi, mãe! e ela, com paciência tentou outra vez me explicar:
— Presta atenção, meu amor... a droga da violência é a ignorância que, quando se junta à droga do vício e da mentira, fica mais forte, se potencializa e se transforma em estupidez. E, quem sofre com isso, são as mulheres e as crianças. Homens violentos maltratam e matam sem dó e sem se sentirem culpados... E o pior, minha filha, é que eles acreditam que o que estão fazendo é correto!
— Mãe! a professora falou na escola sobre isso. É por isso que os homens matam as mulheres? perguntei.
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— Querida, outro dia vi na televisão um indígena falando uma coisa muito interessante. – E o que ele disse, mãe? – Falou que para a pessoa ignorante, existe a escola, e para aquele que é estúpido, resta a cadeia[*].
E então, parecendo entender o que dizia levantou-se, pegou minha mão e a mão de minha irmã, sua bolsa e saímos batendo a porta de casa rumo à Delegacia da Mulher!
Naquele dia eu entendi que meu pai era um estúpido.
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[*] Daniel Munduruku
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Arquivo pessoal da autora |
Que reflexão excelente! Cada dia está mais difícil ser mulher, ser criança. A droga da violência cada vez mais presente na nossa sociedade.
ResponderExcluirAgora com nome
ExcluirObrigada pela leitura e comentário, Renata. Você pode seguir o blog, será um prazer tê-la neste ciberespaço🌹🤝🏽🌹
ExcluirRenata, querida! Grata por ler, por deixar seu importante comentário aqui. Que a literatura nos auxilie no enfrentamento do machismo! Sigamos juntas de mãos unidas pela causa feminina! Por um mundo mais justo e humano!
ExcluirIdentifiquei-me. Sei o que é fazer sentinela na noite não dormida.>
ResponderExcluirOlá, Dirce! Boa noite. Grata por ler, por comentar e por encontrar sentido neste conto. É a escrita alcançando seu objetivo ❤️ Forte abraço, querida!
ResponderExcluirQue texto maravilhoso e necessário. Parabéns pela sua arte resistência em defesa da vida , dos direitos das mulheres
ResponderExcluirOlá, querida Socorro! Sigamos juntas nesta luta! Que possamos, pelo uso da palavra, levar a esperança e o estímulo à luta por um mundo livre do machismo, da misoginia! ❤️ Grata por ler, por comentar!
ExcluirQuerida amiga, que texto forte, que texto necessário. Nos toca profundo, nos emociona e nos faz refletir sobre como a "droga da violência" contra a mulher ainda está presente nos dias de hoje. E nós, mulheres, temos de seguir nessa luta. Eles não passarão!
ResponderExcluirAmiga, o comentário anterior é meu. Mas o nome não saiu...kkk
ResponderExcluirVerdade, Mila! Nossa luta é incessante! O direito inalienável à vida é nossa bandeira! Que possamos nos superar a cada dia nesta causa humanitária e, juntas, arregimentar outras mulheres para fazer valer nossas vozes contra toda forma de discriminação, preconceitos e violências de gênero! Eles não passarão! Grata por ler, por trazer seu comentário para este importante espaço de literatura, de luta!
ResponderExcluirPertinente reflexão acerca das múltiplas formas de violência a que nós mulheres somos submetidas desde os tempos passados até o tempo presente! Parabéns cara escritora Margarida Montejano.
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