Mostrando postagens com marcador #8M. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador #8M. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 28 de março de 2025

HISTÓRIA COLETIVA. / DE MULHERES. / DE MENINAS.

HISTÓRIA COLETIVA. / DE MULHERES. / DE MENINAS.[1]

Por Marta Cortezão 


“Mulheres não são pessoas no capitalismo, apenas corpos.”

(Silvia Federici, Folha de S. Paulo-Uol, novembro,2023)


Imagem Pinterest

Todos os dias, nos noticiários, nas mídias, nas manchetes aterradoras, a morte nos lembra como o machismo mata e aterroriza mulheres e meninas em uma violência crescente e assustadora. O Brasil é o 5º país que mais mata mulheres no mundo[2]. E, com infâmia, inscreve, na perversa história desses brutais crimes, as marcas de um profundo ódio a esses corpos femininos, devorados pelo utilitarismo e pela ganância de um mundo que vive o capitalismo em seu extremo. Um mundo que consome a hipersexualização e a objetificação de corpos femininos; um mundo que apavora pelo sexismo estrutural, reforçando a discriminação baseada no sexo e/ou gênero e violando direitos humanos, impedindo mulheres e meninas de desfrutarem de suas liberdades fundamentais. Quando nossos corpos serão, de fato, nossos?

A garota voltava da escola, falou com um desconhecido e desapareceu. Mais uma vida ceifada. Foi encontrada em um terreno baldio, pedaços de seu corpo noticiados em imagens desfocadas no jornal do meio-dia. A mesa estava posta, quase nem houve tempo de assimilar tantas notícias...

Homem segue mulher na parada do ônibus. Ela retornava, à noite, do emprego de funcionária do lar. Era o suposto ex-marido. Consta que ela o havia denunciado por ameaças de morte. Morreu desacreditada e sem apoio do Estado. Vítima da violência das mãos do feminicida, deixou duas crianças que agora são órfãs de seu cuidado maternal. Os restos mortais da vítima, de 36 anos, foram encontrados calcinados em um lixão da cidade.

Imagem Pinterest
Adolescente é assediada no ônibus, a caminho da escola. Transporte lotado. Ela deu alarme, mas não obteve apoio. O assediador era um senhor bem-vestido, de terno e gravata, que se agarrou no discurso de homem respeitável e pai de família abnegado. A menina desceu chorando seu desespero na primeira parada que pôde. Alguém gravou a cena enquanto a adolescente expressava sua angústia e a publicou nas redes sociais...

Senhora de 65 anos vai a óbito ao cair do quinto andar. Suspeitas de um relacionamento tóxico e suas consequências depressivas. Ela envolveu-se com um rapaz pelas redes sociais. Ele foi ganhando sua confiança, também o acesso à sua conta bancária, à sua casa, à sua vida. Enfim, um caso a ser investigado, diz a polícia, meio desacreditada de encontrar uma prova cabal. Mas há fortes indícios de suicídio...

Mulheres e crianças são as maiores vítimas da guerra. Deu também nos noticiários, mas “deu”/bateu mais forte em minhas carnes. O que faço com esta impotência em meu corpo? Com essa dor, faca afiada e fria da morte, prestes a atravessar a jugular? Agora mesmo não tenho nem forças nem disposição racional para continuar falando sobre este tema, mas o feminicídio grita em todos os lados. Está escancarado nas janelas do mundo. É preciso sair da apatia social que aliena mentes, é preciso enxergar, do contrário, nos tornamos cúmplices e culpadas, porque nossa passividade tem implicações morais[3].  

Imagem Pinterest

Um corpo frio sobre a pedra do necrotério. Um corpo não identificado. Uma notícia tão corriqueira que quase ninguém se sensibiliza. Há muita pressa, há coisas mais importantes para se ocupar. Por quê? Onde? Quando perdemos a nossa empatia? Nossa capacidade de comoção? De nos importarmos com a vida de nossas iguais?

Um corpo que é coletivo, mas que não nos pertence. A essas mulheres, a essas meninas que vivem na mira da misoginia de uma sociedade patriarcal que objetifica nossos corpos em prol do lucro e do capital. Em uma sociedade onde não somos pessoas, apenas corpos. Apenas números na crescente lista da vergonha que, a cada fração de segundo, pode ganhar mais uma vítima fatal. A escritora Rosangela Marquezi, de Pato Branco, no poema Coletivo Corpo, de seu livro (In)certas Escreveduras (Editora Medusa, 2023), faz uma abordagem direta sobre este tema. Escancara nossas dores e agruras ao descrever o poema:

Coletivo Corpo

 

O corpo estava ali.

Nunca fora seu, era coletivo.

 

O pai mandara se cobrir.

O marido mandara se abrir.

 

E a ela ninguém ouviu.

E a ela ninguém sequer viu.

 

História coletiva.

De mulheres. De meninas.

 

Correntes que não se quebram.

Sinas que não se desfazem.

 

Seu corpo estava ali.

Nunca fora seu, nem agora.

 

Na mesa fria da necropsia.

Imagem Pinterest

O corpo de uma mulher jaz inerte “na mesa fria da necropsia”. Em vida, já havia sido despojado das vontades, da dignidade, de tudo – inclusive de sua autonomia. Um corpo que alcança o extremo da objetificação na análise póstuma. Um corpo feminino submetido às expectativas e imposições sociais. Um corpo frio “que estava ali”, mas “nunca fora seu, era coletivo”. Um corpo que compartilha a infeliz ventura da história triste de tantas mulheres, vítimas da violência machista, engrossando a lista de mortes de inúmeros corpos de mulheres e meninas subjugados pela sociedade.

O pai, figura que representa a moral e os bons costumes, ordena que a filha se resguarde, que se cobra, que se comporte como uma mulher deve se comportar em uma sociedade patriarcal. O marido, proprietário e beneficiário desse corpo, ordena que ela se abra, que sirva a seus instintos, a seus desejos irrefreáveis. Tanto o pai quanto o marido – figuras de ordem – representam a imposição das normas masculinas sobre este corpo individual feminino. A ela, o corpo anônimo e invisibilizado, que jaz frio em uma mesa de necropsia, resta a negação de seus desejos e sonhos pela sociedade patriarcal falocêntrica. Resta-lhe a história da negligência de mulheres e meninas abandonadas à ausência da própria voz, da própria existência.

Imagem Pinterest

A noção de “História coletiva. / De mulheres. / De meninas” revela os fatos que se repetem, mudando apenas as vítimas das inúmeras tragédias das narrativas cruéis do cotidiano. São histórias que se entrelaçam nas “Correntes que não se quebram. / Sinas que não se desfazem”. É uma história viciosa que fortalece as relações de poder historicamente patriarcais destacando a universalidade dessas experiências e lutas e sugerindo a persistência de padrões restritivos ao longo do tempo. O poema alcança seu ápice no verso “Na mesa fria da necropsia”, encerrando uma reflexão contundente sobre a opressão sistêmica enfrentada pelas mulheres. Melhor não poderia dizer eu! Digo apenas que sempre é tempo de construir algo novo!

Imagem Pinterest

Silvia Federici afirmou, em uma entrevista que assisti recentemente, que quando perdemos a ilusão, sentimos a necessidade de fazer algo novo. E é colocando a esperança nos coletivos que a luta se fortalece. A luta de mulheres sempre esteve nesse ponto zero: ponto onde se perde a ilusão. Mas que este ponto seja não apenas de resistência, mas também de luta e de transformação social. Não queremos morrer todos os dias. Queremos seguir vivas!



[1] Revista Voo Livre. São Paulo. nº 46, pp. 48-53. Disponível em: https://revistavoolivre.com.br/2024/06/07/revista-voo-livre-vol-1-no-46-junho-de-2024/ . Acesso em: 28/03/2025.

[2] CUNHA, Carolina. Feminicídio – Brasil é o 5º país em mortes violentas de mulheres no mundo. Uol, 2025. Disponível em: Feminicídio: Brasil é o 5º país em morte violentas de mulheres no mundo - UOL Educação . Acesso em: 28/03/2025.

[3] TOKARCZUR, Olga. Escrever é muito perigoso – Ensaios e conferências. Gabriel Borowski (trad.). [livro digitalizado]. São Paulo: Editora Todavia, 2023, p. 57.

☆_____________________☆_____________________☆


Arquivo pessoal (autoria de Alan Winkoski)
Rosangela Marquezi é professora de formação e atuação que acredita a literatura tem o poder de modificar vidas... Nas poucas horas vagas escreve poemas, crônicas e contos e já participou de coletâneas e antologias no Brasil e também em Portugal. Faz parte da Academia de Letras e Artes de sua cidade, Pato Branco - PR, onde também é Professora de Literatura na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

sábado, 8 de março de 2025

TOPOGRAFIA DO MEDO

AVE, CRÔNICA|07

POR MARTA CORTEZÃO

Fonte: Pinterest
Alguns passos deixam marcas que a cidade não ignora. Uma mulher caminha pela cidade. Um homem caminha pela cidade. Dois fatos comuns, no entanto, totalmente distintos do ponto de vista da essência semântica e espacial do corpo que caminha. E não me refiro simplesmente à ação de caminhar, mas ao que não cabe nos fatos em si, o que transborda deles e escorre pelos interstícios do passado e do presente, que pulsam no organismo vivo da cidade. Há uma pragmática quase invisível entre o corpo caminhante e o corpo vivo da cidade, porém essas relações não se apresentam de forma neutra a todos os corpos. Sua topografia, construída por edifícios fálicos e belicosos, se impõe como o cenário dos acontecimentos cotidianos.  

Fonte: Pinterest
A cidade é um ser que respira, reage, amanhece e anoitece a cada passo. Aos passos do homem que caminha, ela abre os pulmões receptiva, e inspira o ar fresco matinal. A brisa favorável dos bons tempos percorre suas artérias, porque a cidade está feita à sua medida. Ela exibe sua fortaleza em suas largas avenidas desobstruídas, que fluem sorridentes, sem impedimentos, em todas as direções, num fluxo contínuo. Já a mulher trânsfuga, ao caminhar, pisa com seus medos no corpo urbano, vivo, mas limitado. A cidade exala, por entre postes e vielas, um ar pesado e sepulcral, como se, a cada passo, fosse revelar o inesperado, ao mesmo tempo previsto e temido, o susto iminente prestes a saltar de alguma esquina. Seus labirintos estreitos suspiram pesado e sussurram segredos medonhos por entre os dentes: fogueiras, massacres, violações, silenciamentos... As veias urbanas pulsam obstruídas no fluxo das incertezas, sem volta, sem refluxo, dificultando o próximo passo, facilitando o tropeço, o coágulo.

Fonte: Pinterest
A cidade, suas sombras e seus olhos de Argos se dissolvem. Invisíveis, espalham-se pelas paredes, pelas janelas, pelas construções, pelas frestas, pelo trânsito afoito dos automóveis, entre buzinas e piscadas de faróis. Um homem caminha pela cidade sem notar o tumulto, sem notar as sombras e os olhos, porque a cidade é neutra ao seu corpo. Ele atravessa sem sentir o bulício, mas seus olhos cravam-se na mulher que caminha em sua direção. Ela, atormentada pelo ruído da cidade, se assusta, sente o olhar do caminhante arder em seu corpo nu e desvia sinuosamente o percurso. A cidade cede palco aos olhos que não piscam – apenas os faróis atentos dos carros, que piscam em cumplicidade à buzina estridente da insinuação incômoda, na hora cansada da cidade. A mulher apressa os passos largos. Pelas frestas dos vidros dos carros, a cidade se assenhora do espaço que o corpo da mulher pisa. As sombras assobiam palavras obscenas que a atravessam, queimando a caminhante assustada como mãos de fogo que não tocam, mas ardem e marcam para sempre.

Fonte: Pinterest
A cidade, insaciável não dorme. Ela é um animal de humor instável, de garras afiadas, pronto para assaltar sua presa com seu baile de máscaras medieval. Com seu ar selvagem e fingido comportamento manso, de aparente desinteresse, prepara-se para dar o bote. Permite a passagem da mulher que caminha, para logo apresentar um risco calculado na próxima esquina. A cidade tem patas silenciosas e olhos de fera noturna. Durante o dia, deixa-se domesticar: ruas iluminadas, passos firmes. À noite, arqueia o lombo, mostra os dentes, e toda mulher aprende a andar como quem não quer acordá-la, pois há os corpos e as cicatrizes que a cidade devora. Até quando uma mulher que caminha pela cidade será apenas mais uma sombra em meio à cegueira extrema do espaço urbano? 


☆_____________________☆_____________________☆

terça-feira, 14 de março de 2023

#8M: ECOFEMINISMO, URGENTE!, POR NELI GERMANO


[arquivo pessoal da autora]

#8M: ECOFEMINISMO, URGENTE!

 POR NELI GERMANO

O sistema patriarcal foi construído de forma tão “sedimentada”, que nós mulheres também somos acometidas por ele. Por isso tem sido DIFÍCIL enfrentar esta FERIDA ABERTA, a violência contra as mulheres (no Mundo). Sendo redundante, de propósito, o patriarcado está nas religiões, na política (principalmente na extrema direita), nas instituições jurídicas e educacionais, na garrafa de cerveja, na ditadura dos corpos esculturais e sarados...

Mesmo entre nós feministas, nos percebemos consentir com diversos tipos de “abusos”, tal é a força do patriarcado.

[arquivo pessoal da autora]

Ensinar os filhos homens a lavar a louça, a cama e a cozinhar é parte, mas muito pouco. Não estou aqui culpando as mães, verbo “essencial” do machismo, é necessário mais, mais diálogo sobre o assunto gênero. Há muita literatura sobre como educar meninas para serem feministas. Há muita literatura para EDUCAR meninos para que não sejam machistas.

Conquistamos muito, fomos alfabetizadas, não usamos mais pseudônimos na literatura, trabalhamos fora de casa, conquistamos o voto e o direito de “poder na política”, afinal “das contas”, o capitalismo precisa de nossos braços e pernas, mas não respeita nossos corpos.


[arquivo pessoal da autora]

Nossas pioneiras Simone de Beauvoir, Maya Angelou e tantas outras, que nem sabiam sobre a “terminologia feminista”, fizeram muito para que chegássemos até aqui.

No entanto, o processo civilizatório continua, queremos mais, além de que preservem nossas “corpas”, parem de nós matar e aos nossos sonhos e utopias, precisamos pautar o respeito pelo Planeta. Ecofeminismo, urgente!



Neli Germano

Escritora

Porto Alegre, 8M2023.

♡__________________◇_________________♤_________________♧__________________♡

[arquivo pessoal da autora]
Neli Germano reside em Porto Alegre/RS/ Brasil. Poeta. Arquivista aposentada. Curso Superior incompleto em Letras e Serviço Social pela ULBRA Canoas/RS. Participação em nove antologias, poemas publicados em jornais e revistas alternativas de cultura (Gente de Palavra, Entreverbo, Poesia Sem Medo e Todas Escrevemos). Livros solo publicados: "Casa de Infância" e "como quem rema" (2023). Integra o Coletivo Mulherio das Letras.

Feminário Conexões, o blog que conecta você!

A DROGA DA VIOLÊNCIA E O MACHISMO

  A DROGA DA VIOLÊNCIA E O MACHISMO Por  Margarida Montejano Imagem Pinterest Quando eu e minha irmã éramos crianças, morávamos com nossos p...