domingo, 8 de março de 2026
O DIA INTERNACIONAL DA MULHER
segunda-feira, 22 de dezembro de 2025
62 ANOS ! (SOBRE)VIVER É UM ATO POLÍTICO
"Escrevo porque a palavra sempre foi minha ferramenta de sobrevivência."
Hoje completo 62 anos. Entrego minha idade com velas mágicas e com o corpo inteiro aceso. Celebrar a minha vida como mulher, neste país onde mulheres são interrompidas diariamente, é um gesto que carrega peso histórico, ético e político.
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| Arquivo da autora |
Enquanto escrevo esse texto, penso nas Tainaras, Isabelas e milhares de outras que não chegaram até aqui. Penso nas mulheres cujos aniversários foram silenciados pelo feminicídio, essa chaga social que o sistema não consegue encontrar a cura, e que lobos disfarçados de cordeiros romantizam dizendo ser adquirida do amor e do ciúme, mas que na verdade ela existe simplesmente pelo fato de sermos mulheres, pelo ódio, pelo controle exercido pelo patriarcado e pela certeza de que nossos corpos são territórios de posse. Na verdade, a culpa é do machismo estrutural que disfarça de homicídio os crimes misóginos.
Simone de Beauvoir já nos alertava que não se nasce mulher, torna-se, isto é, aprende -se a ser mulher dentro de um sistema patriarcal que impõe normas, papéis e silenciamentos. Muitas mulheres são brutalmente interrompidas não por não alcancarem esse "tornar-se ", mas por desafiarem ou não se ajustarem às expectativas que lhes são impostas.
Para uma mulher que chega aos 62 anos, num país que ocupa a quinta maior taxa de feminicídio do mundo, é atravessar um campo minado com passos insistentes. É ter sido menina afetiva e tímida, adolescente intensa e romântica, sem imaginar que ser mulher é ser subjugada, objetificada e coagida. É ter acreditado no amor, lutado em meio a um casamento abusivo e ainda ter se reinventado como mãe solo, leoa, colo, sustento e abrigo.
Minha história pessoal não está dissociada da história coletiva das mulheres. Como escreveu Bell hooks, o amor, para nós, nunca foi neutro, ele sempre precisou ser reaprendido fora da lógica da dominação.
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| Arquivo da autora |
E hoje eu celebro meu aniversário escrevendo com prazer, como mulher e como escritora, porque escrevo com o corpo que amou, viveu, perdeu e resistiu. Escrevo porque a palavra sempre foi minha ferramenta de sobrevivência. Audre Lorde dizia que transformar o silêncio em linguagem e ação é um ato de coragem. E eu escrevo para fazer barulho, porque sei que o silêncio mata e não apenas metaforicamente.
O feminicídio não é um desvio de conduta individual. É o ponto extremo de uma cultura que naturaliza a violência contra mulheres, que relativiza agressões, que pergunta “o que ela fez?” em vez de perguntar “por que ele matou?”. Djamila Ribeiro nos lembra que não existe neutralidade quando a estrutura é desigual. Celebrar minha vida hoje, aos 62, é também denunciar essa estrutura.
Minha existência é prova, minha maturidade é prova e minha escrita é o carimbo.
Cada ruga que carrego não é sinal de desgaste, mas de permanência, de permanecer viva, lúcida e criativa, escrevendo sobre o feminino num mundo que insiste em nos apagar.
Isso para mim é uma forma de insurgência.
Hoje não celebro apenas mais um ano de vida, celebro o direito de continuar, celebro as mulheres que vieram antes de mim e abriram caminhos, celebro as que caminham comigo. E como ser humano sinto os rasgos na minha pele com indignação e compromisso por todas as que não (se)ssentaram e sim ficaram com os corpos estendidos ao chão.
Que minha voz aos 62, ecoe como denúncia e manifesto. Porque enquanto uma mulher for morta por ser mulher, nenhuma de nós estará inteira. E ainda assim estamos aqui:
Escrevendo, vivendo e resistindo.
FEMINICÍDIO
Matam em casa todo dia uma mulher!
A voz sufocada
Pincelada de sangue
Reside nas paredes
Ecoa na sala o noticiário
Agredindo os tímpanos
Na surdez da lei
Tudo é corriqueiro
Mas a dor velada das Marias
Rasga a minha pele
E do meu verso perplexo
Arranco o silêncio
Enterrado no sexo
E eu grito na poesia :
Basta! O machismo já fede!
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| Arquivo da autora |
quinta-feira, 24 de abril de 2025
"PÉROLAS DO MEU SILÊNCIO": NOVO LIVRO DE RILNETE MELO
LETRAS ICAMIABAS|04
"PÉROLAS DO MEU SILÊNCIO": NOVO LIVRO DE RILNETE MELO
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| Capa do livro |
Em
Pérolas do meu silêncio, a escritora Rilnete Melo nos convida ao mergulho; nos
propõe o desafio de, após a contemplação da superfície, nos lançarmos ao fundo,
em busca das pérolas submersas.
Para
compor as cento e cinquenta pequenas narrativas que nos oferece nesta obra, a
autora selecionou cada uma de suas palavras — poucas, portanto valiosas — com
precisão, cautela e sagacidade.
No
equilíbrio entre o dito e o não-dito, o que flutua e o que se deixa submergir,
a autora aborda o universo feminino em temas como luto, dor, abusos, abandonos,
mas também abre espaço para aqueles que evidenciam o amor, a graça, a
delicadeza.
Convite
feito, cabe ao leitor apanhar o que vai na superfície, depois mergulhar,
deixar-se alagar e voltar à tona com uma reflexão, uma inquietação, um sorriso;
com uma única pérola certeira ou com as mãos cheias.
Fernanda Caleffi Barbetta,
jornalista e escritora
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| Contracapa do livro |
"entre noites silenciosas
e conchinhas, encontrei
as micropérolas para
me livrar do
ostracismo."
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O livro está à venda em Amazon (clique AQUI). Lançado pela Editora Clube de Autores (1 janeiro 2024), de capa comum, 55 páginas, ISBN-10: 6526629652; ISBN-13: 978-6526629659, cujas dimensões 0.44 x 14.8 x 21 cm. Além de Pérolas do meu silêncio, você encontrará outros títulos da autora, como: O máximo de mim e outros mínimos poemas, Estro poético, Construindo versos, entre outros.
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| Arquivo da autora |
quarta-feira, 22 de novembro de 2023
NA TRILHA DO FEMININO: LARGADA DOMÉSTICA, DE RILNETE MELO
Era uma segunda-feira, dessas do tal calorão de 39° que quase fritava meus miolos e fritava também ovo no asfalto, dessas em que o dia branco, na verdade foi cinza; Do bombril impregnado nas unhas, pó de casa varrida no pé e massa cinzenta pensando debaixo do chuveiro: Tenho que fazer isso, depois isso, amanhã aquilo... E eternamente isso!
Exausta, depois de me virar nos 30, marido já dormindo, ponho um cafezinho na xícara, destravo o celular para escrever alguma coisa, embora com o corpo pedindo arrego, a mente ainda escrevive! Passeio pelo Instagram e vejo, enfeitando o feed viralizado, o tema da redação do Enem 2023: “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”.
Mas o comentário que me desafiou a escrever essa crônica foi lançado para mim em um post recente, quando ainda nem tinha ideia do tema da redação e já abordava exatamente sobre a invisibilidade do papel da mulher desde os tempos mais remotos até os dias atuais, que é cuidar, amar, cuidar... E no profícuo ofício de cuidar, mendigar amor! E o famigerado machista, agora já deletado do meu perfil e denunciado, de pronto comentou: “Se você conseguir descarregar caminhão, trocar pneu de jamanta e emboçar parede, pra senhorita eu dou “A taça cacete", (me diz aí quem não soltaria as cachorras??).
Saiba muito bem, pai da Santa ignorância e do olho cego, que se tivesse olimpíadas para o trabalho doméstico, não haveria taças para tantas vencedoras! Dada a largada, a categoria “Excesso de cuidados" subiria ao pódio ao som de uma “Ave Maria", pois, no silêncio rotineiro da mulher, o cuidado doméstico soa como uma música piedosa que é (in)visível, embalando as protagonistas nos bastidores do cotidiano.
Na sociedade capitalista, a relação de poder do homem em detrimento da mulher, ouço dizer que se “dá(va) “?? pelo fato do homem ser responsável pela renda familiar, mas o mercado de trabalho foi aberto para as mulheres e a conta ainda não fechou, pois agora é dobradinha:
“Trabalho e cuidados".
A verdade é que, em pleno século XXI, a mulher ainda é o “anjo do lar”, e que anjo!! Carrega nas asas o peso do trabalho dobrado, dentro e fora de casa, no sonho de alçar voo rumo à igualdade de gênero e à equidade.
“Desde que me lembro de ser gente, lá em casa, quem dobrava os lençóis da cama era eu, minhas irmãs ou mamãe", porque isso era serviço de mulher! Isso tem mais de meio século e os lençóis ainda não chegaram nas mãos dos homens, pois eles não sabem dobrar as pontas iguais, afinal, de igualdade o universo masculino nada quer saber, né? E se sabe, ainda pergunta onde fica.
Lembro que minha avó costurava, fazia crochê, consertava guarda-chuvas, fazia a comida, varria a casa, passava a roupa no ferro de brasa, e fazia e fazia, e ainda ajudava meu avô a plantar e colher, botava a comida dele na mesa e, no final do dia, ele pedia o lençol para dormir, pois não sabia onde estava... Será que lembrava de agradecer?. Fala sério, mudou alguma coisa? Um tantinho? Nada? Coisa nenhuma?
Conquistamos sim, quebramos alguns tabus e estereótipos, como o direito ao voto e ao trabalho desigualmente remunerado, mas há um trabalho (cuidado) eterno que continua invisível, o status quo “gestão do lar”, sempre na manutenção das condições observadas.... Casa varrida, roupa lavada, fralda trocada, mamadeira pronta, comida no prato, cama arrumada... Na verdade é uma verdadeira “Largada doméstica” apenas com ponto de partida.
E aqui eu deixo um poema de minha autoria para que possamos refletir sobre nossa saúde mental, sobre o excesso de cuidados para com o outro e das situações estressantes às quais nós mulheres estamos mais propensas e sem reconhecimentos.
LARGADA DOMÉSTICA
Lambeu o chão,
esticou a língua
ao sal
e correu para a panela,
como sempre correu contra o
tempo.
Cozinhou os sonhos,
o prazer,
a vida.
- Do menu servido
no prato cotidiano -
a carne parida,
o amor ofertado,
e o reconhecimento
ao molho.
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quarta-feira, 15 de março de 2023
NA TRILHA DO FEMININO: MINHA IDADE NÃO ME DEFINE, POR RILNETE MELO
Dá uma coceira no meu cérebro quando vejo circulando na mídia assuntos que ferem a figura feminina. "ETARISMO", "IDADISMO", "AGEÍSMO", nada além de denominações para um preconceito patriarcal antigo. Sim! Um preconceito que coloca no "congelador social" exclusivamente as mulheres, pois eu senti na pele esse bullying nefasto ao entrar na faculdade depois dos 40 anos, enquanto havia, na mesma sala, homens de 50, com os ouvidos virgens eu ouvia: "Nossa! Você dessa idade fazendo faculdade!" ou "Você já tem mais de 40, mas nem parece!"... Esses comentários, embora disfarçados de "boas intenções", vinham carregados de preconceitos, pois eu era excluída dos grupos das "novinhas" nas apresentações acadêmicas, entre outros eventos, ficando nos grupos dos que se aproximavam da minha idade.
Quem nunca ouviu: "menina, você já está na idade de casar!", (Eu casei aos 27 anos) ou "você foi mãe muito tarde!" (Fui mãe aos 28 e aos 31)... Tempo limite imposto por uma sociedade machista! Está arraigado
na memória da sociedade, mas é tempo de dar um basta nessa intolerância que
supervaloriza a juventude de uma mulher. Homem coroa é um charme, se casar com novinha é elogiado por sua
virilidade, mas se mulher coroa casa com novinho é uma ridícula, assanhada e por
aí vai... É hora de combater esses
estereótipos e mostrar ao mundo que envelhecer faz parte do ciclo natural da
vida e não amputa a nossa capacidade de criar,
de ser, de viver, de lutar por nossos objetivos e fazer o que a gente
quiser!
Há alguns dias postei uma "geladinha" na mesa de um bar e não me faltaram comentários: "Você ainda bebendo?", cuidado! Hein?"
Que é isso? Homem com 60 pode, né? Calma!! Eu não estou passada, o viço não morre, as vontades não cessam e quando meu corpo sinalizar o alerta, serei suficientemente madura para canalizar meus limites. Acredito que meu espírito só envelhece se eu permitir, e não vou aceitar o desrespeito, o desprezo, os estigmas e as humilhações que minhas rugas possam vir lhe causar. As minhas limitações serão autoimpostas por minha necessidade de controle.
Na obra "A velhice " , Simone de Beauvoir propõe que uma pessoa não deve se aproximar do fim da sua vida de mãos vazias e solitárias , mas que para isso é necessário refazer completamente a humanidade... É sobre ressignificar esse pensamento deturpado da sociedade, de que ficamos ultrapassadas com a idade, que devemos lutar para desafiar o sistema e fazer acontecer.
Liguem o alerta, queridas companheiras! Vamos mostrar a essa sociedade patriarcal que estamos lutando contra essa força maldita e não vamos nos calar!
Já CONQUISTAMOS muito, mas precisamos “desenhar” o percurso para que possamos
chegar ao topo.
Será difícil atingirmos uma sociedade igualitária, pois vivemos em uma distopia marcada pelo
preconceito, violência e opressão de gênero,
porém se unirmos forças e plasmarmos novos conceitos poderemos esvaziar
muitos estereótipos e discriminações.
Foram infelizes as "novinhas" que hostilizaram a
universitária Patrícia Linares, pois creio que elas não sabem que mulheres de 40 são "AS LOBAS", as
que sexualmente são bem resolvidas, têm
no rosto as marcas das emoções sentidas e vividas, e experiência suficiente para saber onde
querem chegar, sem menosprezar as fases já passadas e as que irão passar com
maturidade.
Pois é! Já passei dos 50, lancei meu primeiro livro solo em 2022 e acredito que foi cedo, pois sonhos não tem idade. Quanto ao meu corpo, as pedras que encontrei pelo caminho moldaram-o a cada tempo vivido, acumulei com perfeição as experiências e vesti minha pele de elegância espiritual, trago as marcas das emoções sentidas e domino a arte de seduzir através da poesia, meus cabelos têm a cor da minha alma, deixei e continuo deixando pegadas por onde passo, pisando forte no solo que plantei horizontes eu vou em busca dos meus objetivos, até enquanto sentir o sopro da vida, pois MINHA IDADE NÃO ME DEFINE.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023
PROCESSOS DE ESCRITA: CONSTRUINDO VERSOS, POR RILNETE MELO
PROCESSOS DE ESCRITA: CONSTRUINDO VERSOS
POR RILNETE MELO
O título talvez não seja impactante, mas surgiu
do ofício da criança que costurava sentidos com as cores do perceber.
Desde
a minha tenra idade eu carregava um olhar sensível e pujante sobre as coisas e
as pessoas, e foi pelas rimas dos cordéis, lidos por minha avó paterna, à luz de
lamparina, e pedalando a sua velha máquina de costura Singer, que
nasceu a minha paixão pela poesia e a construção dos meus primeiros versos.
Tive uma infância feliz, subi em árvores, tomei banho de igarapé, corri atrás do tesouro no arco-íris, brinquei com as bonecas do milho plantado pelas mãos do meu avô Tonho, tomei leite no curral, comi doce de pitanga e recitei versinhos para os meus pais, ainda não alfabetizada, subindo em uma cadeira e recebendo os seus aplausos.
Os
sentidos que eu costurava faltou tecido aos 9 anos de idade e os versos ficaram
incompletos, tortos, xoxos e engavetados na escuridão, pois as mãos que me
ofereceram hóstias, tocaram meu corpo infantil sem meu consentimento, deixando
marcas indeléveis.
Foram anos de silenciamento, dor e
interrupção criativa, mas no desvelamento do não-dito, aos 15 anos resolvi
escrever textos poéticos no meu diário.
Como se não bastasse o abrupto corte criativo, causado pelo luto invisível da alma, perdi o meu querido diário em uma viagem de ônibus do Maranhão para Natal-RN.
Pois bem, nunca tive o hábito de decorar meus escritos, então lá se foram meus segredos inconfessáveis e os versos que eu havia construído desde a infância.
Eu
não queria parar, pois fervilhava em minhas veias o sangue poético, aquecendo
minha pele feminina de inquietações. Por vezes, entre as trocas de fraldas, as
conversas com as panelas, ou mesmo nos intervalos do trabalho, vinham os insights poéticos
e eu registrava em um caderno (no meu campo de silêncio), onde a palavra tinha
sede de grito.
Em 1996, engravidei do segundo filho e deixei também palavras grávidas, nas crônicas que escrevi na coluna do Jornal “O Potiguar” em Natal-RN, foi aí que percebi algo latente me cobrando audácia e coragem para prosseguir, pois com dois filhos e um casamento fracassado, eu dei minha “cara a tapa” e tirei as correntes das mãos, para representar a voz feminina e fazer valer a minha resistência aos estereótipos, e ao machismo que tentava me calar.
Em meio a um relacionamento pedindo socorro, veio a separação, e com ela a sensação de liberdade invadindo meu cérebro e levando forças para atingir os meus objetivos. Retorno ao Maranhão, com dois filhos pré-adolescentes e na bagagem a coragem de uma mulher “sem eira nem beira” e a força de uma mãe plantando sementes e sonhando com grandes searas.
Para
incentivar a formação dos meus filhos, veio a minha graduação no curso de Letras,
embora tardia, mas chegou desatando os nós e criando um vínculo
marital com a palavra. Sim! Afiei a língua, cortei as amarras e crenças limitantes,
soltei o verbo e deixei os meus textos voarem no mundo
virtual, abrindo olhares e olheiros.
Na
vida, o que alavanca as realizações são as oportunidades e os recomeços, por
isso ativei o modus operandi, e numa onda de “desvencilhamento”, me
lancei no mercado editorial, através das antologias e concursos literários.
E veio a aproximação no distanciamento... Paradoxal, né? Pois é, mas foi na pandemia que a poesia me abraçou com força!
A pandemia foi um acontecimento planetário, inusitado e catastrófico, evidenciando a fragilidade da humanidade, mas exibindo a força da voz feminina, que como antídoto avançou no ambiente on-line. Os coletivos literários femininos explodiram, exigindo que nós mulheres poetas, não deixasse esse momento sem palavras, então Juntei-me ao coletivo “Enluaradas” entre outros, e lancei-me ao desafio de ressignificar a dor, o medo e a falta do calor humano através da poesia.
Em meio ao caos pandêmico, os impactos
me serviram como dispositivos criativos, e como se quisesse tornar
tangível o confinamento, deixei
gestar “Construindo Versos”, para oferecer ao meu
leitor as minhas inquietações humanas e femininas.
Um Spoiler do
livro:
Combatentes
Removendo pedras
do solo endurecido,
a ranger de dor,
atira no rabecão
pai, mãe, irmão...
Os olhos tecem,
o rude engasgo
do invisível severo,
que não deixa velar.
Marcha para a rua vazia;
os combatentes,
a esperar a sorte tecer o
troféu:
da fome,
do medo,
da dor,
ou do viver!
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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023
UM BREVE PASSEIO PELO II FESTIVAL LITERÁRIO ENLUARADAS/2023
UM BREVE PASSEIO PELO II FESTIVAL LITERÁRIO ENLUARADAS/2023
POR MARTA CORTEZÃO
Nos dias 13, 14 e 15 de janeiro de 2023, realizamos o
II Festival Literário Enluaradas (FLENLUA), onde festejamos o lançamento da
Coletânea Enluaradas III: I Tomo das Bruxas: do Ventre à Vida e que contou com a adesão
de 106 autoras do Brasil e do exterior. O evento foi realizado pela plataforma Youtube,
no canal Banzeiro Conexões.
Foram três dias muito intensos de muitas emoções, uma
experiência incrível que contou com a participação de 74 autoras e 09 mesas
temáticas:
O evento teve uma boa repercussão nas redes sociais e
recebeu muitos comentários positivos antes, durante e depois de sua realização. Os blogs Feminário Conexões (Espanha) e Tribuna do Recôncavo (BA) divulgaram a realização
do evento. Neste segundo blog, a indicação foi da poeta Maria do Carmo Silva, a
quem renovo meus agradecimentos. Agradecimentos também a todas as autoras que contribuiram para a realização do FLENLUA, especialmente às mediadoras Flavia Ferrari, Alyne Castro, Aline Leimo, Ale Heidenreich, Heliene Rosa, Carollina Costa e Lucila Bonina.
Ao final do evento, solicitei alguns textos das autoras participantes do II FLENLUA. Reproduzo, abaixo, alguns dos textos recebidos com sua respectiva autoria:
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| Lígia Savio |
* Maria
Angélica Freitas, que traz uma nova linguagem com seu livro Um útero é do
tamanho de um punho;
* Mar
Becker: trata da condição da mulher no Sul, em versos longos, numa dicção
totalmente original em seu A mulher submersa;
* Adriane
Garcia, poeta mineira, que, entre outras obras, revisita episódios bíblicos sob
o ponto de vista da mulher em A bandeja de Salomé;
* Telma
Scherer, dona de uma poesia crua, quase como um soco, às vezes, numa linguagem
surpreendente, nos livros Depois da água e Squirt.
* Líria
Porto, com poemas de tom satírico, irônico e picante;
* Raquel
Gaio, poesia de imagens fortes, de tom surrealista;
* Maria
Alice Bragança, com sua poesia despojada e irônica;
* Lilian
Rocha: contundente poesia de tom antirracista.”
(Por Lígia Savio- “Poesia no Brasil hoje: por
que? para quê?”- MESA 6)
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| Valéria Pisauro |
Peço licença para chamá-las por: queridas parceiras, pois todo esse processo foi
feito com parcerias e sem a colaboração de todas, não estaríamos aqui, afinal,
trata-se de um coletivo.
Aproveito esse espaço para convidá-las a viajarmos
juntas sobre a nossa trajetória como ENLUARADAS e para tanto, sintetizo a nossa
travessia em três fases. São elas: O AUTOCONHECIMENTO, O COLETIVO E A
ANCESTRALIDADE.
Na primeira fase, voamos à lua em busca de
APRENDIZAGEM e AUTOCONHECIMENTO.
Considero essa fase como um rito de passagem, uma
espécie de emancipação. Antes, éramos sementes buscando um solo fértil,
mulheres apagadas, para depois, adquirirmos
brilho e tornamo-nos, ENLUARADAS.
Rompemos as algemas que durante muito tempo foram
impostas a nós, deixamos de lado nossas incertezas; medo de julgamentos;
vergonha de expor nossos textos, nossa intimidade e até medo de fracassar.
Nessa fase, no entanto, conquistamos autoestima,
coragem, desfizermos os nós e soltamos nossa voz!
Na segunda fase, já fortalecidas, confiantes, descemos
à terra e nossa semente germinou. Tornamo-nos uma bela árvore frondosa, cheia
de galhos que simboliza a nossa diversidade, o nosso coletivo.
Demos as mãos e fizemos uma grande CIRANDA, e de forma
circular, alegoria do infinito e dos iguais, comemoramos a nossa força e união.
Ninguém soltou a mão de ninguém, ao contrário, nossa
ciranda sempre esteve aberta para agregar, receber, abraçar e compartilhar.
Agora, em nossa terceira fase, construímos um
caldeirão, libertamos a bruxa que estava adormecida dentro de nós e, novamente
voamos, agora, mais alto e em revoada, prontas para queimar todo tipo de
preconceitos e eliminar as ervas daninhas. E, estamos colhendo nossos
frutos!
É incrível como o símbolo do círculo acompanha nossas
coletâneas como sinal de igualdade e plenitude, além de estar relacionado
diretamente à alma, à divindade e à ancestralidade.
Este caldeirão adquiriu um caráter de transformação,
sem medida. Foram tantos depoimentos marcantes e confessionais, que emocionaram
a todas.
Nossas asas ou vassouras como preferirem, deram um
“basta” ao grito contido. Agora, ele é um grito libertário, de luta, de direito
e ninguém irá mais nos deter! Não há mais amarras. Vencemos o medo! Falamos
sobre a dor, a depressão, o filho adolescente, a negritude, o racismo, a morte,
a solidão, o sertão, entre tantos outros relatos.
Hoje somos malditas, benditas, queridas, santas,
profanas, metaforizadas em bruxas! Bruxas que representam o princípio do eterno
feminino – o ventre de toda criação.
É um momento histórico! Estabelecemos um campo
demarcado sem fronteiras e de resistência. Nossa arma é a poesia e ninguém irá
nos calar!
E, tudo isso devemos às nossas queridas Patrícia Cacau e Marta Cortezão, que souberam mexer com tanta maestria esse caldeirão.
Agora, estamos todas misturadas; uma entre muitas
repartidas, singular em seu plural.
A fumaça que sai desse caldeirão emana a nossa luz, a
nossa inspiração, somos todas ENLUARADAS, BRUXAS, dentro de uma CIRANDA.
Esse desfecho, portanto, não se trata de um final,
mas, o início de um novo ciclo, pois esse caldeirão nunca será tampado,
descartamos a tampa no passado, estamos livres e prontas!
Somos troncos, raízes, folhas, frutos, que embora
tentam cortar, insistimos em florir!
Para concluir, segundo a SAGRADA TRADIÇÃO, a Deusa tríplice
apresenta os mistérios mais profundos do feminino em três faces:
1. A VIRGEM – a semente que fomos em ENLUARADAS.
2. A MÃE/AMANTE – a árvores forte e frondosa que
tornamos na CIRANDA DAS DEUSAS
3. A ANCIÃ – a bruxa, a sábia, a maturidade, que
estamos colhendo no I TOMO DAS BRUXAS.”
(Valéria Pisauro- DESFECHO - 15/01/2023)
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| Rilnete Melo |
Queridas companheiras! A fogueira ainda queima, embora
em outros moldes, como é o caso gritante do número de feminicídios, da
misoginia exorbitante e outras perseguições às mulheres, mas eu ainda acredito
que de mãos dadas nós seremos capazes de criar ferramentas para combater essas
opressões e conquistarmos cada vez mais o nosso espaço. E é aqui e agora, é com
a literatura, é com os movimentos femininos, é com a oportunidade que nos trazem
esses coletivos literários, para que possamos dar mais vida e luz ao feminino
sagrado. Eu já consigo ver algum sinal, através da representatividade e da
oportunidade dada às mulheres, negras, indígenas, artistas, ativistas e muitas
outras ocupando altos cargos públicos, enchendo nosso ego de sentimento
democrático. Eu só tenho a agradecer a
todas as companheiras de jornada literária por essa sororidade, e ao Coletivo Enluaradas
que muito vem fomentar o fortalecimento da nossa constante luta, por isso é
necessário que ninguém solte a mão de ninguém.
Nós fomos queimadas, oprimidas e “achatadas” nesse desgoverno, mas não
podemos mais nos calar, temos que dar um basta nisso e a nossa varinha mágica é
a palavra, é o nosso fazer poético. Muito obrigada!
O poema “Ao viver dos meus dias” com o qual participei do “I Tomo das bruxas: do ventre à vida “, foi escrito na data do meu aniversário e traz a minha representatividade do ventre à vida.
AO VIVER DOS MEUS DIAS
Desbravar o mundo
eis meu primeiro ofício
-
à Gaia
e a planta dos meus pés
cravaram
o solo feminino
na dureza estereotipada
do caminho
- Pisei flores e espinhos....
Abracei minhas bruxas e Marias
sem temeridade
ao viver dos meus dias
- conform(idade)
Minha alma carrega a leveza da infância
o sentido secreto da juventude
as escolhas insensatas ...
as decisões acertadas
a grandeza da maternidade
- as vicissitudes
Trago o desígnio da palavra em punho
a levitar sobre meus demônios
à beira da minha mudez
que grita no papel
minha vida
ou a minha pequenez
diante da imensidão
do mundo”
(Rilnete Melo - DESFECHO- 15/01/2023)
*--* *--* *--*
“... pela boca das
mulheres renascerá a palavra viva e outra história se fará ouvida. Do ventre à
vida, haveremos de ver a versão grandiosa do que fomos ontem, do que somos hoje e do que seremos amanhã.”[i]
Margarida Montejano

Rozana Gastaldi Cominal
Boa noite, Enluaradas.
Alegria imensa estar com vocês.

Boa noite a todas, todes, todos que nos acompanham nesta noite no II FLENLUA que sintetiza a Tríade do Sagrado: uma lua toda nossa, a energia criadora da deusa e a natureza cíclica da bruxa regem nosso sensível e libertador universo feminino.
Para chegar ao ápice desta noite memorável, toda uma trajetória foi necessária para que eu assim como cada uma de nós pudéssemos protagonizar nossa escrita. E em cumplicidade aliviar nosso desassossego. Em retrospectiva, teço algumas considerações a partir do que sou, do que me constitui e do que está por vir.
Sou Rozana Gastaldi Cominal, falo de Hortolândia-SP. Sou mulher que voa feita de eus-múltiplos que sustentam o corpo amoroso, político e periférico. Acredito na força dos coletivos e com eles faço voz. Porque acredito nessa nossa cruzada de amor/no combate à insensatez/ bate forte o tambor![ii].
ao som de cada manhã
rompem embalos vitais
vitória nossa de cada dia[iii]
Sou feita d-eus múltiplos[iv]
criatura ímpar, imperfeita, partida[v]
avessa a adeus
sou mulher que voa
que ciranda e canta: Fly me to the
moon[vi]
na varanda ou
em voo cego por onde for
Sou eu a
celebrar
sessenta rosas
com poemas
pólen e jardim
Sexy a cada poda
pétalas carmim
espinhos aninhados
em versos afiados
Um brinde à poesia
que vive além de mim!
Se tantas são as adversidades que nos afastam do fazer poético, também a teimosia persevera e insiste: vá, ser poeta:
Poeta sou
sigo a voz que me chama
sigo o peito que inflama
removo o flanco[vii]
violeta e malagueta[viii]
apalpo as bússolas líquidas/ que norteiam a
margem do rio/
e me convidam a fazer a travessia[ix]
Ao renascer
conecto-me com o universo ao redor
Outra vez em guarda e (or)ação
sobrevivente sou
vidas que esgarçam e entrelaçam[x]
Tantas são as emoções interrogações que vêm aos montes. Enquanto as soluções exigem que nossos olhares se encontrem, que nossos pontos de vista se ajustem, que nossas essências se cruzem, quer saber? Espalhe o que quer receber.
Somos sementes/ que brotam/ ao sol[xi]
Somos potências que abrasam o mundo
expressamos liberdade e poder.
Poder pensar e saber. Poder amar e ser feliz
Poder gargalhar e contra as injustiças gritar.[xii]
Sim, queremos liberdade para existir, abraçar, valorizar nossos corpos amorosos políticos, periféricos. Poesia é antídoto para os processos criativos da vida que dói , é oxigênio em tempo rarefeito, é presença de afetos, são ímpetos comunicativos para chegar à outra, ao outro, a quem respira no planeta, quebrando tabus, fronteiras. Mãos dadas com nossa ancestralidade, “nunca mais um Brasil sem nós”, como bem disseram, na posse em conjunto, as ministras Sonia Guajajara e Anielle Franco, que nos representam entre outras vozes e marcam territórios que nos foram antes negados. Percorro caminhos e Castelos diversos, espaços conquistados com minha armadura: a palavra, o riso, apesar da zanga que espreita. Para que meu legado não se perca totalmente, deixo na lápide as minhas Memórias ancestrais.
Agradeço imensamente estar com vocês, Marta Cortezão, Patrícia Cacau, cujo apoio essencial nos fazem avançar. Agradeço às mediadoras das mesas anteriores que enriqueceram o debate ao ouvir cada uma de nós. Agradeço ainda às Enluaradas que comigo partilham esta mesa e aquelas que nos assistem. Que noite, que desfecho! Só me resta declarar meu amor por vocês:
Amo-te, herói ou heroína, no
anonimato,
mas na luta pela própria preservação
Somos legião demarcada pela
resistência,
aqui, em mundos paralelos e
multiversos existimos!
Amo-te como amo a mim:
simples assim, a olho nu, em sinergia[xiii]
Por mais mulheres que escrevem! Viva a Enluaradas em movimento, viva as misteriosas deusas, viva as bruxas que somos e outras que nos habitam!
CASTELOS
(Rozana Gastaldi Cominal)
casTelos
de areia, de cartas, de reis e rainhas
casTelos
que divertem enquanto enfeitiçados
por entre labirintos, magias e lua cheia
cala-te, boca: o inimigo está de plantão
casTelos
com vultos de plasma,
com anões e gigantes, com teias de aranha
casTelos
que divertem enquanto encantados
por entre espelhos, janelas e portas secretas
beija minha boca: o perigo é constante
casTelos
enquanto assombrados
assustam diante do calabouço
cuidado a placa não adverte o sopro do dragão
tampouco se ouve o eco das correntes
ou se vê a cilada dos fantasmas
apenas respiração boca a boca
sela o arcabouço
[i] Posfácio de Margarida
Montejano em I Tomo das Bruxas: Do Ventre à Vida
[ii] Versos do Poema Tempo rarefeito,
inédito
[iii] Poema Lutar,
vozes do Coletivo TAUP – Tome Aí Um Poema, Setembro Amarelo
[iv] Verso do poema Fio condutor,
na coletânea Cotidiano, Poesia e Resistência, organizada por mim,
Margarida Montejano e Nirlei Maria Oliveira
v
Versos do
poema Criação, na coletânea Mulheres Maravilhosas vol.5: Elas Sambam,
homenagem a Elza Soares
[vi] Versos do poema Me leve para a Lua, na coletânea Enluaradas: Se essa lua fosse nossa
[vii] Versos do poema Flâmula
na coletânea Quarentena Poética
[viii] Verso do poema Violeta
& Malagueta no livro Mulheres que voam
[ix] Versos do poema Pé na estrada no livro Mulheres que voam
[x] Poema
7 da Ópera Imprecisa no livro Nascer pela segunda vez, Coletivo
Scenarium
[xi] Versos do poema Mentes
brilhantes, Coletânea Sinergia, Bom dia com Literatura Feminina
[xii] Versos do poema Mulheres
vulcânicas, coletânea Mulheres Maravilhosas na Semana de Arte Moderna
vol. 4
[xiii] Poema em construção: Corpos amorosos, políticos e periféricos
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