terça-feira, 31 de março de 2026

CRÔNICAS DA SUSTÂNCIA*


HISTÓRIAS DA MINHA MÃE: "O MEU TORTÉI"


Naquele tempo suspenso da pandemia, no ano de 2020, em que os dias pareciam caber dentro de casa, decidimos fazer algo para nos esperançar: tirar fotografias em família. Contratamos uma fotógrafa, ajeitamos os cabelos, fizemos maquiagem, colocamos um sorriso no rosto e escolhemos roupas com cuidado – como se, ao nos organizarmos por fora, também encontrássemos algum equilíbrio por dentro.

Minha mãe, D. Maria Lucia, estava ali, como sempre, no centro de tudo. Frágil no corpo, firme nos gestos, guardiã de saberes que não se aprendem apressadamente.

No meio da sessão de fotografias, realizada ao sentir do vento e dos pés no chão, no sítio dos pais da minha cunhada, tentando deixar minha mãe mais à vontade, para retratá-la, a fotógrafa lhe fez uma pergunta simples:

D. Maria Lucia, qual é a comida que a sua filha faz e de que a senhora mais gosta?

Minha mãe escutou com atenção, como quem acolhe a pergunta antes de respondê-la. E então disse, com toda naturalidade:

O meu tortéi. 

Fonte: Autoria própria (2025)

Houve um breve silêncio, logo atravessado por risos espontaneamente surgidos nos seus netos, Samuel e Vicente; nos seus filhos, eu e meu irmão Carlos; e na nora, Camila. Ela não disse a comida que eu fazia, mas a que ela fazia.

E, pensando bem, fazia todo sentido.

Entre tantas coisas que nos reunem, em família, há o tortéi. Não é de um dia só, mas algo que sempre volta, quase como um ritual. Sempre que ela o faz, a casa se enche de um cheiro conhecido, e a mesa ganha outro significado. Não é apenas comida –  é um modo de estarmos juntos.

Todos gostam.

Por isso, no fundo, não foi engano a resposta dela. O tortéi é dela. É dela o jeito de abrir a massa, o cuidado com o recheio, o ponto certo do molho. Mesmo quando alguém a ajuda, é ela quem sustenta esse saber.

As fotografias guardaram a lembrança daquele instante. Mas o que ficou mesmo foi outra coisa: a certeza de que há receitas que não pertencem apenas ao prato. Pertencem a quem as vive.

E, naquele dia, minha mãe disse isso do jeito mais simples possível:

– "O meu tortéi".

Fonte: Autoria própria (2025)


Buon appetito!

Obs.: Tortéi é uma palavra aportuguesada do italiano tortelli (ou tortelli di zucca), prato típico da região de Lombardia e muito comum em descendentes de italianos aqui no Brasil. É uma massa recheada com abóbora cabotiá.

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Arquivo pessoal (autoria de Alan Winkoski)

Rosangela Marquezi é professora de formação e atuação que acredita que a literatura tem o poder de modificar vidas... Graduada em Letras, Mestra em Educação e Doutora em Desenvolvimento Regional, é professora de Literatura na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Faz parte da Academia de Letras e Artes de sua cidade, Pato Branco - PR. Nas horas vagas, escreve poemas, crônicas e contos e já participou de coletâneas e antologias no Brasil e também em Portugal.

*Sustância - personagem fictícia que define a escritora de crônicas que habita em mim, "a ânsia, a substância, a Sustância!" (Marquezi, 2017). 

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