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terça-feira, 10 de março de 2026

PROTAGONISMO FEMININO EM FOCO

A ESCRITA DAS MULHERES E A REINVENÇÃO DA LOUCURA: DE STELLA DO PATROCÍNIO ÀS AUTORAS CONTEMPORÂNEAS 

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1. O controle social através da saúde mental
 

Ser mulher não tem sido tarefa fácil nos dias atuais. De qualquer modo, nós mulheres, sabemos que, principalmente no Brasil, isso nunca foi usual. A sabedoria oriental milenar nos estimula a evitar extremismos, optando, sempre que possível, pelo caminho do meio. Em contrapartida, o respaldo científico para esse debate encaminha a diversos estudos que evidenciam a utilização das instituições de saúde mental para exercer controle social e patriarcal sobre o universo feminino. Historicamente, o monitoramento estratégico do comportamento e a tendência à patologização do corpo e da mente feminina já provocaram dores e tragédias, isolando mulheres e desestabilizando inúmeras famílias. Compreender essas dinâmicas permite lançar um olhar perscrutador sob densa névoa: estratégias envolvendo cuidados com a saúde física e mental sempre mascararam projetos de dominação e de controle social. 

2. Exílio e silenciamento: o caso Stella do Patrocínio 

Isso remete ao artigo da edição de fevereiro da Revista Voo Livre, em que citamos a internação involuntária da poeta Stella do Patrocínio, no Rio de Janeiro. Mais um caso de exílio: uma mulher negra, cuja voz era incompreensível no contexto institucional da época. Não se pode desconsiderar também o momento político e social desse acontecimento, quando o emprego maciço de práticas eugenistas de higienização dos espaços sagrados tratava corpos negros como indesejáveis na arquitetura central das cidades. Há relatos de que as constantes mudanças de localidade, no início do tratamento manicomial, impossibilitaram o acompanhamento familiar. Assim, Stella permaneceu reclusa nessas instituições até seu falecimento, quarenta anos depois. 

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3. A lógica da submissão: de "O Alienista" à história de Pierina
 

Nesse contexto, a literatura nos instiga a questionar sobre os tratamentos de saúde mental como práticas de silenciamento e de coerção, principalmente das mulheres. Alegoricamente, Machado de Assis, o imortal crítico da sociedade e das instituições, trata desse tema na obra “O Alienista”. Também a literatura acadêmica nos adverte a respeito do que ainda precisamos compreender sobre esses mecanismos históricos de dominação. O livro-tese da historiadora Yonissa Wadi “História de Pierina: subjetividade, crime e loucura” é bastante elucidativo: no início do século XX, a trajetória de uma mulher e suas cartas são julgados a partir de uma ótica exclusivamente masculina, metódica e patriarcal. Nesse relato, a partir de uma pequena comunidade do sul do país, a internação manicomial de Pierina desencadeou a adequação de seu comportamento à lógica da subserviência: afinal silenciada e submissa ao papel tradicional de esposa e de mãe, nos moldes sociais e econômicos requeridos por sua comunidade de imigrantes italianos. A sistematicidade dos métodos científico e jurídico, aliada à rigidez das estruturas patriarcais não permitiu que fossem, sequer, ouvidas as queixas da mulher. Percebe-se que, ao final de dois anos de tratamento psiquiátrico, Pierina cansou-se de tentar se fazer ouvir. Isso foi suficiente para que obtivesse alta e fosse encaminhada, mesmo contra a própria vontade, às funções modelares de mãe e de esposa, em sua pequena cidade, no Rio Grande do Sul. 

4. A urgência de racializar o debate na saúde pública 

Entretanto, apesar desse reconhecimento, a violência de gênero contra as mulheres não tem sido tratada, de modo explícito, como um fator de risco para a saúde mental. Entendemos, portanto, que é urgente implementar, nos serviços de saúde, intervenções mais eficazes para o acolhimento e o cuidado das mulheres que são, cotidianamente, vitimadas pelas inúmeras violências de gênero. Nesse contexto, o Plano Nacional de Políticas para as Mulheres (III PNPM), realizado em 2013, enfatizou a transversalidade e o investimento na saúde integral, como possibilidades de transformação desses espaços cristalizados de dominação e de invisibilização da figura feminina no aparato estatal. A conferência abordou também a violência e a saúde mental. Por outro lado, estudos acadêmicos e clínicos de problemas psicológicos e psiquiátricos que afligem pessoas negras, no Brasil, ainda enfrentam silenciamento histórico, embora haja obras pioneiras e fundamentais que se tornaram referências no tema. A respeito desse tema, a literatura negro-brasileira contribui, dando destaque a intelectuais como Lélia Gonzales, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro, Sueli Carneiro, Cida Bento, Jarid Arraes, Miriam Alves, Geni Guimarães, Elisa Lucinda, entre outras. A produção autoral dessas mulheres fornece base teórica e conceitual para que se investigue o racismo como elemento fulcral na saúde mental dos indivíduos. De modo semelhante, o reconhecido psiquiatra e pensador caribenho Frantz Fanon analisou o sofrimento mental e concluiu que a opressão colonial e o racismo desencadeiam despersonalização e impõem um sentimento de suposta inferioridade que impacta, grandemente e de forma negativa, a saúde mental da população afrodescendente. Há também diversos braços do Movimento Negro, como a Articulação Nacional de Psicólogas/os Negras/os e Pesquisadoras/es (ANPSINEP), que vem consolidando, através de pesquisas e congressos, uma produção teórica contínua que une psicologia, saúde coletiva e racialização das relações. Trabalhos dessa natureza atualizam o debate sobre os desdobramentos do racismo estrutural no cotidiano social, mais especificamente, da população negra, com impactos inquestionáveis sobre a vida das mulheres. 

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5. Escrevivência e herança colonial: o legado de Conceição Evaristo
 

No campo literário, Conceição Evaristo, premiada intelectual, produziu obras de reconhecido valor para o arcabouço da literatura brasileira contemporânea. Ela é, hoje, uma das escritoras negras mais prestigiadas no contexto da produção escrita das mulheres. Entre seus livros mais lidos e comentados, figura o romance Ponciá Vicêncio, cuja trama resgata o sofrimento psíquico, no seio familiar, decorrente do racismo estrutural e da herança colonial. Nessa obra, a saúde mental da protagonista aparece ancorada em condicionamentos históricos que legaram às famílias afro-brasileiras: rigorosos desafios sociais e econômicos, preconceito e rejeição histórica. Assim, Ponciá é afetada por uma série de violências simbólicas e físicas que refletem a realidade da maioria das mulheres negras no Brasil. 

6. A palavra como cura: literatura e resistência na contemporaneidade 

Nessa conjuntura, a literatura vem se estabelecendo, cada vez mais, como palco da resistência feminina. De um ponto a outro do país, encontramos autoras produzindo cura a partir da palavra poética e da ficcionalização. Assim, de um rico mosaico de intelectuais, destacamos o trabalho da escritora e psicoterapeuta nipo-brasileira Patrícia Gondo de Goes, imortal da ALBSC (Academia de Letras do Brasil de Santa Catarina), seccional Joinville, que vem escrevendo sob a égide da saúde mental e emocional. Ela, que morou no Japão por 25 anos e é tradutora do idioma japonês, desenvolveu abordagem holística acerca da psique feminina, a partir de suas vivências, da psicoterapia e de terapias integrativas . Além de atuar no campo da saúde, das Letras e das artes, Patrícia desenvolve, paralelamente, um trabalho profícuo e comprometido, voltado para os direitos das mulheres, na cidade de Joinville, com reflexos intensos no conjunto de sua obra, que conta com um livro publicado e outro no prelo. Das Minas Gerais, destacamos a psicóloga clínica e poeta Stella Maris Souza Marques, que é doutora em Psicologia, suas atividades profissionais incluem oficinas de Teatro do Oprimido, meditações guiadas e palestras para estudantes em escolas públicas. A autora publicou a trilogia Além do que Parece: “Parecia Amor”; “Parecia Viagem” e “Parecia Dom". O foco da sua escrita inclui promover reflexões sobre relacionamentos tóxicos e outras formas de violências, inclusive, as mais sutis. A autora discute o luto coletivo, as altas habilidades, a inclusão e a sanidade mental, principalmente, entre adolescentes e adultos jovens. 

7. Considerações finais 

Em suma, seguimos resistindo e contornando as mazelas do pensamento androcêntrico e do antifeminismo que, infelizmente, ainda dita o tom de muitos dos discursos que nos atravessam. Porém, é incontestável que compreender e tratar a saúde mental envolve abordar o ser em sua complexidade inerente. Isso envolve considerar diversos fatores, como os históricos e os sociais e, - não se pode negar, - a necessidade de racializar o debate. Desse modo, promovemos rupturas com práticas institucionais e com discursos legitimadores de silenciamento e de jugo sobre as subjetividades femininas. As narrativas que emergem da literatura, da pesquisa e do trabalho de escritoras, demais artistas e profissionais contemporâneas são reveladoras do poder da palavra. Essa incrível potência que, devidamente manejada, torna-se mecanismo de resistência e de cura. Assim, nosso artigo dá relevo à voz de mulheres que são capazes de transformar dor em reflexão e experiência em conhecimento. Afinal, ao revisitar o passado e questionar antigas certezas, escritoras, pesquisadoras e profissionais da saúde reafirmam que a escuta sensível pode ampliar a compreensão acerca da saúde mental e romper com estruturas históricas de opressão. Ademais, reconhecer a violência de gênero e o racismo estrutural como elementos intrínsecos a esse debate é indispensável para desenvolver práticas de cuidado eficazes, éticas e inclusivas. Nesse aspecto, a literatura, tanto como fonte quanto como produto, nos fortalece e nos convoca a envidar esforços em prol do nosso direito à saúde, ao cuidado e ao respeito, em âmbito privado e institucional. Sigamos juntas… 

8. Referências para esse artigo 

ASSIS, Machado de. O Alienista. MonteCristo Editora, 2023. BRASIL, Secretaria de Políticas Para Mulheres: II Plano Nacional de Políticas para Mulheres. Brasília, 2008. Disponível em: https://www.gov.br/mulheres/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/arquivo2IIPNPM (Acesso em fevereiro de 2026). 

COSTA, Heliene Rosa da. Poéticas da resistência: o legado de Stella do Patrocínio e a luta antimanicomial contemporânea no Brasil. Revista Voo Livre, Ano 6, número 64, Fevereiro de 2026, pp:26-28. Disponível em: https://revistavoolivre.com.br/revista-voo-livre-ano-6-no-64-fevereiro-de-2026/ (Acesso em fevereiro de 2026). 

EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2003. FANON, Frantz. Alienação e liberdade: escritos psiquiátricos. São Paulo: UBU Editora, 2020. 

GOES, Patrícia Gondo. Ancestralidade Eu, Descendência. Joinville/SC: Clube de Autores, 2023.

MARQUES, Stella Maris de Souza, Parecia Amor. Uberlândia/MG: Editora Subsolo, 2024.

MARQUES, Stella Maris de Souza. Parecia Viagem. Uberlândia/MG:Editora Subsolo, 2024.

MARQUES, Stella Maris de Souza. Parecia Dom. Uberlândia/MG: Editora Subsolo, 2024. Stella do Patrocínio. Museu Bispo de Rosário: Arte Contemporânea. Disponível em: https://museubispodorosario.com/stella-do-patrocinio-memorias/ (Acesso em fevereiro de 2026). WADI, Yonissa Marmit. A história de Pierina: subjetividade, crime e loucura. Uberlândia: EDUFU, 2009.

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Arquivo pessoal
Heliene Rosa, natural de Patos de Minas, Minas Gerais, é uma escritora, professora e pesquisadora dedicada às poéticas femininas. Mestre em Linguística e doutora em Estudos Literários pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Heliene é uma voz ativa na militância pelas causas das mulheres e da negritude. Articulista no Blog Feminário Conexões e integrante de diversos coletivos femininos, fundou, em 2016, o GELIPLIT (Grupo de Estudos em Língua Portuguesa e Literaturas), com o propósito de promover a formação continuada de professores de Língua Portuguesa e Literatura.

Com uma carreira marcada pela coordenação de projetos literários e pedagógicos, Heliene foi premiada no Oitavo Concurso Nacional pela Igualdade de Gêneros com uma sequência didática voltada à escrita, envolvendo estudantes do Ensino Básico. É coautora em diversas coletâneas nacionais e internacionais e organizadora de antologias literárias e acadêmicas. Em sua produção autoral, destaca-se com os livros Enquanto as hortênsias florescem (2023) e Literatura é território: poéticas femininas indígenas em movimento (2024).

sexta-feira, 20 de junho de 2025

VOZES QUE ROMPEM SILÊNCIOS, POR HELIENE ROSA

PROTAGONISMO FEMININO |07 
MULHERES NA FILOSOFIA, NA CIÊNCIA E NA LITERATURA: VOZES QUE ROMPEM SILÊNCIOS 

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É inadiável recontar a história, dessa vez sob o ponto de vista das mulheres, para corrigir injustiças e distorções que alimentam e legitimam as mazelas do patriarcado. No livro O legado das mulheres na história do pensamento mundial (2022), as estudiosas Natasha Hennemann e Fabiana Lessa evidenciam o apagamento das mulheres na Filosofia. Nessa obra, as autoras trazem, em epígrafe, o depoimento da reconhecida mestra do Mosteiro de Rupertsberg em Bingen am Rhein, na Alemanha, Hildegarda de Bingen: “Nós não podemos viver em um mundo que seja para nós interpretado por outros. Um mundo assim concebido não representa esperança. Não devemos ter medo de recuperarmos a nossa própria audição, de usarmos a nossa própria voz e de vermos a nossa própria luz.” 

Contemporaneamente, a literatura vem se constituindo como instrumento dessa recuperação. Assim, mulheres determinadas a escrever uma outra história desenvolvem estratégias para reposicionar o mundo sob lentes femininas, trazendo luz para as histórias de mulheres que foram silenciadas, ao longo dos séculos, a partir de estratégias de disseminação e de perpetuação das ideias do patriarcalismo. Nesse aspecto, avulta-se o trabalho da cientista Lindamir Salete Casagrande, a escritora que também é professora. Tive a alegria de encontrar-me com ela, no último mês, na Feira Literária nas Escolas de Piçarras (FLEP), no litoral Norte de Santa Catarina. Essa pesquisadora desenvolveu estudo, envolvendo o protagonismo de mulheres na Ciência.

A referida autora publicou sete livros, na série intitulada Meninas, moças e mulheres que inspiram. No escopo de um interessante projeto, a partir do qual essa pós-doutora em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo, pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), - resgata biografias de mulheres que, de algum modo, contribuíram com o desenvolvimento das Ciências. Ela adaptou narrativas referentes a essas personalidades femininas, para o público infanto-juvenil, com o intuito de trazer à luz as trajetórias dessas mulheres notáveis, como a doutora Zilda Arns; a engenheira negra brasileira Enedina Marques; Bertha Lutz; Hedy Lamarr; Sophie Germain; Marie Curie e Hipátia de Alexandria, a astrônoma lendária. 

Ademais, na obra, Ervilhas Tortas (2020), um curioso conto rural nos remete ao universo de Lindinha, delicada menina que, aos oito anos de idade, recebeu do pai a impensável tarefa de cuidar (tomar conta) de um enorme touro reprodutor recém chegado à propriedade da família. O fato de a garota demonstrar competência para cuidar do animal impõe questionamentos a uma certa visão estereotipada, ainda predominante na sociedade, de que meninas talvez não sejam hábeis no domínio de tarefas consideradas complexas. De acordo com essa visão simplista, também não seriam capazes de cumprir com requisitos necessários para o desempenho de funções nas áreas tecnológicas ou que demandem habilidades no campo das ciências exatas. 

Em uma pesquisa realizada em nível de Doutorado, a autora buscou lançar luz sobre estereótipos dessa natureza. A partir dessa dinâmica, Lindamir publicou outro livro: Silenciadas e invisíveis: relações de gênero no cotidiano das aulas de Matemática (2017). Nele, se discutiu a relevância da pesquisa, conceituou-se gênero e questionou-se o papel da escola, como objeto de análise, detalhando as relações de gênero na Educação. Nessa conjuntura, a pesquisa se ocupou do(s) modo(s) como a escola define a forma de se perceber masculinidades e feminilidades. As conclusões reforçam o que já é amplamente reconhecido por nós, mulheres: o comportamento das meninas ainda é muito influenciado pelos estereótipos e pelo que elas acreditam que se espera delas socialmente. 

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Com o intuito de promover a superação desse estado de coisas, no âmbito da Filosofia, a obra Filósofas: o legado das mulheres na história do pensamento mundial vem fazer justiça a pensadoras como Diotima de Mantinea, Ban Zhao, Mary Wollstonecraft, Angela Davis e Lélia González, que ofereceram grandes contribuições para as questões feministas e para a história do pensamento geral. Assim, tanto as Ciências quanto a Literatura e outras artes têm se empenhado na tarefa urgente e necessária de retirar, do ostracismo, mulheres, cujos nomes jazem sob camadas e camadas de preconceito e de silenciamento. 


Arquivo pessoal de Lindamir S. Casagrande
Movida pelos mesmos princípios, Lindamir Salete Casagrande juntamente com outras intelectuais abraçaram a missão de resgatar mulheres – escritoras, cientistas, musicistas, esportistas, ativistas, entre outras que foram “esquecidas” no limbo da História oficial e dar o relevo que suas ideias, ações e legados merecem. Cada vez um número maior de mulheres tem utilizado a literatura como ferramenta de expressão e resistência, criando formas de reescrever o mundo a partir de perspectivas plurais, não só voltadas para as demandas e temáticas femininas, porque mulheres acolhem diversidades. 

Carolina Maria de Jesus - Pinterest
Armadas com os livros, produzimos um arsenal de narrativas que rompem silêncios impostos por estruturas opressoras e dão voz e visibilidade às experiências historicamente marginalizadas. A construção das nossas narrativas se dá na linguagem e pela linguagem, que é, ao mesmo tempo, o palco e a substância da disputa do poder. E, desse modo, vamos, paulatinamente, subvertendo o discurso de ódio que o patriarcado produz e engendrando a reativação do domínio das mulheres sobre o mundo. 



Se desejar conhecer mais detalhadamente a obra da escritora Lindamir Salete Casagrande, clique AQUI.

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Arquivo da autora
Heliene Rosa, natural de Patos de Minas, Minas Gerais, é uma escritora, professora e pesquisadora dedicada às poéticas femininas. Mestre em Linguística e doutora em Estudos Literários pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Heliene é uma voz ativa na militância pelas causas das mulheres e da negritude. Articulista no Blog Feminário Conexões e integrante de diversos coletivos femininos, fundou, em 2016, o GELIPLIT (Grupo de Estudos em Língua Portuguesa e Literaturas), com o propósito de promover a formação continuada de professores de Língua Portuguesa e Literatura.

Com uma carreira marcada pela coordenação de projetos literários e pedagógicos, Heliene foi premiada no Oitavo Concurso Nacional pela Igualdade de Gêneros com uma sequência didática voltada à escrita, envolvendo estudantes do Ensino Básico. É coautora em diversas coletâneas nacionais e internacionais e organizadora de antologias literárias e acadêmicas. Em sua produção autoral, destaca-se com os livros Enquanto as hortênsias florescem (2023) e Literatura é território: poéticas femininas indígenas em movimento (2024).

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

PROTAGONISMO FEMININO

PROTAGONISMO FEMININO|06 

PROTAGONISMO FEMININO EM FOCO: A POETA INDÍGENA ELIANE POTIGUARA É PREMIADA COM O TÍTULO DE DOUTORA HONORIS CAUSA PELA UFRJ 


A poeta indígena Eliane Potiguara é Doutora Honoris Causa pela UFRJ No dia 22 de novembro de 2022, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) concedeu o título de Doutora Honoris Causa a uma ex-aluna ilustre: a escritora indígena brasileira Eliane Potiguara. A autora nasceu em 1950, na cidade do Rio de Janeiro, no seio de uma família indígena desaldeada e cursou Letras na UFRJ, no início da década de 1970.

A literatura indígena contemporânea, compreendida como a produção literária dos intelectuais indígenas brasileiros na atualidade, vem se tornando bastante expressiva a partir das últimas décadas e tem na figura de Eliane Potiguara uma importante precursora. No contexto da produção literária da autora percebe-se uma escrita voltada para o universo feminino em que se destaca a afirmação das diferenças, em contraposição ao modelo hegemônico.

[foto do Facebook da autora]
A poeta desenvolve uma escrita que se impõe contra o silenciamento secular das subjetividades indígenas. A literatura de autoria indígena tem essa vantagem de apresentar conhecimentos não estigmatizados a respeito das culturas dos povos originários pois possibilita a expressão individual e coletiva dos próprios indígenas.

Na condição de intelectual orgânica – sua produção literária não se distingue de sua atuação de militante do Movimento Indígena, Potiguara promove, no conjunto de sua obra, uma série de rupturas em relação aos padrões clássicos de textualidade, de linguagem e de pressupostos, tanto teóricos quanto epistemológicos. As principais publicações de Eliane Potiguara são: A Terra é a Mãe do Índio (1989); Akajutibiró: terra do índio potiguara (1994); Metade Cara, Metade Máscara (2004); Sol do Pensamento (2005) e-book; O coco que guardava a noite (2012); O Pássaro Encantado (2014); A Cura da Terra (2015). Diversas antologias produzidas no Brasil e no exterior. Potiguara também costuma publicar textos em seu site, nas páginas, Instagram, perfis no Facebook, e em grupos que administra nos espaços virtuais.

[foto do Facebook da autora]

Esse reconhecimento vem como honraria para a intelectual que, em sua longa jornada no campo da escrita autoral, já enfrentou inúmeros desafios e foi, muitas vezes, silenciada, aviltada e até violentada em sua condição de mulher indígena que não se cala diante das injustiças e das incoerências. Seu livro Metade cara, metade máscara, referenciado pelo eminente escritor indígena Ailton Krenak como um livro totem, representa um libelo contra a opressão aos povos indígenas, sobretudo às mulheres indígenas.

Eliane Potiguara é uma autora que escreve com as suas ancestrais. A partir de um jogo polifônico, ela resgata as vozes das matriarcas indígenas. A escritora realça a importância da convivência com as mulheres de sua família, como a mãe, a avó e as tias-avós, para a sua formação como escritora. De acordo com ela, porque narravam suas histórias indígenas de forma mágica e envolvente. E a partir dessas narrativas, a poeta promove reflexões sobre os enfrentamentos das mulheres indígenas em trânsito, sua solidão e os preconceitos dos quais costumam ser vítimas. Dessa forma, seus escritos denunciam a violência, o racismo e a intolerância da sociedade.

Nos versos de seu poema: Fim de minha aldeia:

 

Tenho medo das coisas que falo

Que mais parecem profecias

De tudo mais que falei

Hoje estou tão só, triste e descontente

Perdi o meu amor

Perdi minha razão

Dói-me profundo

Profundamente meu coração.

Choro intranquila, sofro a desgraça

Vivo o desamor na solidão

E por onde passo

Há só lembranças, tristes lembranças

De uma aldeia acabada.

Eu tenho medo das coisas que falo

Que mais parecem profecias

Pois de tudo, tudo que falei

Hoje estou sofrida, amargurada

Perdi minha essência

Grito traída, canto a trapaça

Sou a própria tristeza

Transformei-me numa constante ameaça.

Agora não rio, não sonho

Não suporto mais nada

Uma dor aguda me sufoca, me maltrata

É a dor da saudade que me mata.

(POTIGUARA, 2018, p. 35).

[foto do Facebook da autora]

Os versos realçam a subjetividade das indígenas exiladas, como a avó da autora – Maria de Lourdes, forçada a deixar a aldeia no Nordeste, de forma violenta, após o desaparecimento do pai Chico Solon. De acordo com relatos da própria escritora, as matriarcas chegaram ao Rio de Janeiro em um navio que carregava imigrantes e enfrentaram inúmeras adversidades.

A cerimônia de outorga do título reverenciou também o poeta popular Carlos Assumpção, personalidade negra brasileira internacionalmente reconhecida. Em solenidade de grande força simbólica, a academia premiou, concomitantemente, uma escritora indígena e um escritor afrodescendente. Dois intelectuais considerados periféricos cujas produções movimentam discursos contra-hegemônicos.

Nessa linda cerimônia, foram ouvidos: o grito de uma guerreira indígena potiguara e um rufar de tambor acompanhado por calorosos protestos de um intelectual negro. A cena revela rupturas em relação ao pensamento abissal moderno. A literatura abre caminhos para a valorização dos saberes populares, dos escritos das mulheres, do povo preto e dos povos indígenas.

[foto do Facebook da autora]

A beleza dessa cena sugere a possibilidade de revitalização do cânone literário tradicional, a partir da apresentação de escritoras e escritores silenciados no interior do sistema literário brasileiro, como é o caso dos intelectuais indígenas e dos intelectuais negros e negras que tiveram suas participações negadas durante a constituição da historiografia literária. Que a literatura possa, cada vez mais, tocar a sensibilidade das pessoas para que superem preconceitos e ódio. Que a sociedade se torne, cada dia, mais harmônica e equilibrada sempre se pautando pelo respeito às diferenças e pela convivência pacífica entre os povos.

[foto do Facebook da autora]

Que a exemplo da escritora Eliane Potiguara, cada vez mais mulheres sejam reconhecidas, dentro e fora dos espaços institucionais, cada vez mais indígenas, negros e negras sejam reconhecidos e reconhecidas. E que a diferença não seja mais critério de exclusão, mas que possa ensinar o respeito pela diversidade.

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 Para ADQUIRIR as obras de Eliane Potiguara e conhecer mais sobre seu percurso literário, visite o site da autora AQUI.


Referência:

POTIGUARA, Eliane. Metade Cara, Metade Máscara. 3ª ed. Rio de janeiro: Grumin Edições, 2018.

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Heliene Rosa é poeta mineira, professora e pesquisadora das poéticas femininas. Escreve para o Blog Feminário Conexões e publica textos em antologias literárias nacionais e internacionais. Além da produção poética, tem publicações acadêmicas sobre a produção feminina na literatura e articula projetos e eventos de leitura literária.

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

PROTAGONISMO FEMININO EM TERRA TRAÇADOS E LIVROS: NAS VOZES DA MEMÓRIA, DE ENIVALDA NUNES FREITAS E SOUZA



PROTAGONISMO FEMININO|05 

PROTAGONISMO FEMININO EM TERRA TRAÇADOS E LIVROS: NAS VOZES DA MEMÓRIA, DE ENIVALDA NUNES FREITAS E SOUZA

POR HELIENE ROSA  

     Terra Traçados e Livros: nas vozes da memória (2021) é um livro que apresenta narrativas e relatos de quatro gerações da família da autora, Enivalda Nunes Freitas e Souza, que é professora universitária e pesquisadora na área de Literatura Brasileira, com ênfase em Poesia e Crítica do Imaginário. Sem dúvida, essa obra representa um momento de maturidade da escritora, quando ela se volta para si mesma, resgatando a história do seu clã, revisitando suas próprias origens. Ao mesmo tempo em que recupera a história recente do país, que não pode ser esquecida. 

Capa de Terra, Traçados e Livros: nas vozes da memória

Contracapa

Em sua trajetória profissional, na academia, a autora publicou diversos livros: Experimentando a vida: cotidiano, esperanças e sensibilidades (2008), Roteiro poético de Hilda Hilst (2009) e Sonho de um repentista versos do poeta logogrífico Canelinha (2009), todos pela Editora da Universidade Federal de Uberlândia (EDUFU). Pesquisadora dedicada, Enivalda Freitas fundou o grupo de pesquisa - POEIMA: Grupo de Pesquisa Poéticas e Imaginário,- onde produziu outros livros: Reflexos e sombras: arquétipos e mitos na literatura (2011) pela Cânone Editorial. Sua pesquisa de Pós-doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) resultou na publicação da obra Flores de Perséfone: a poesia de Dora Ferreira da Silva e o sagrado (2013), pela Editora Cânone, com o patrocínio da FAPEMIG. Mais tarde, no ano de 2016, organizou Poesia com deuses – Estudos de Hídrias, de Dora Ferreira da Silva, que saiu pela Editora 7Letras, obra igualmente financiada pela FAPEMIG. 

Enivalda Nunes Freitas e Souza
[foto arquivo pessoal da autora]

A leitura de Terra Traçados e Livros: nas vozes da memória nos revela uma autora sensível e atenta aos problemas sociais, econômicos e políticos da história recente do nosso país. Da trama, por onde circulam matriarcas e patriarcas, emergem fatos e relatos históricos aos quais a autora dá o devido acabamento. Então sua voz se mostra sensata e preocupada com o desenvolvimento sustentável do país e com a melhoria da qualidade de vida da população, sobretudo das classes sociais desprestigiadas. A autora comenta: Não resta dúvida de que a escola pública no Brasil sempre foi negligente para com a população menos favorecida. Acreditamos, também, que a região em que nossos pais viveram, o sudeste goiano, estava, aos olhos da capital, a caminho dos fundões do Brasil. Em suas grotas, em suas casas de pau a pique, em suas fazendas sem nenhum adorno, a pobreza era multiplicada com a falta de Educação. (SOUZA, 2021, p.52) No trecho em questão, a autora aborda uma pesquisa realizada sobre o ensino, em Goiás, sua terra natal, durante as décadas de 1940-1950. Nesse aspecto, ganha relevo a figura materna – Aldacira - e sua trajetória, como mulher que lutou por melhorias para a família. Ressalta sua inserção no mercado de trabalho: após aprimorar-se nos estudos, deixou o trabalho a partir de casa, na máquina de costura, para trabalhar como professora, no serviço público. 

Enivalda Nunes Freitas e Souza
[foto arquivo pessoal da autora]

Emocionante e bonito é o trecho em que se faz menção à luta da mãe para adquirir livros e materiais escolares para os filhos pequenos: “Resfolegante, mas não arqueada, finalmente nossa mãe entrou em casa com o pacote de livros didáticos dos três filhos menores. Como muitas vezes o fizera em Iporá-GO, adquirira o material a prestações na Papelaria Rodarte” (Souza, 2021, p.45). A trajetória de luta de Aldacira reflete a realidade das mulheres da classe trabalhadora no Brasil. Como professora, ela trabalhava em dois períodos e, ainda assim, tinha que ter “jogo de cintura” para garantir que os filhos pequenos tivessem condições materiais de permanecer estudando. A desvalorização do trabalho docente, a tripla jornada das mães trabalhadoras, a injusta distribuição de renda e outras mazelas sociais aparecem, subrepticiamente, nesse trecho da narrativa. Entretanto, tal constatação não reduz a importância do protagonismo feminino como fator determinante para as transformações positivas que levaram a família a um patamar social e econômico mais elevado. Das importantes reflexões que essa trama narrativa suscita, sem dúvida, avulta a constatação da grande relevância da Educação, sobretudo da Educação Pública para o desenvolvimento da nação. 

A obra evidencia o poder que a escolarização formal tem na transformação desse Brasil pobre e interiorano, muitas vezes esquecido, pelas elites e pelo poder público. Nesse contexto, a escritora revisita acontecimentos e cenários que envolvem a história da sua família. Evoca as matriarcas, a avó, a mãe, as tias, reavivando, no decorrer da trama, curiosidades e modos pitorescos de falar e de se comportar envolvendo pessoas do seu convívio familiar. A maneira como são apresentadas as mulheres da família revela a forte influência dessas personalidades sobre o psiquismo da autora. No capítulo dedicado à tia Almira, lemos: "Que jeito inconfundível de se expressar. Com que graça e eficiência ela usava o substantivo trambeco, que significa “coisa”: “Fulano, pegue aquele trambeco pra mim!”. Não é um neologismo seu, mas jamais ouvimos essa delícia de palavra da boca de outra pessoa. Com esse substantivo, que se aproxima do “trem” mineiro, tia Almira economizava tempo, ganhava tempo. As palavras e as pessoas... (SOUZA, 2021, p.88) O modo goiano de falar e de se expressar, aqui representado pela fala de tia Almira, aparece carregado de intencionalidades, evidencia uma espécie de consciência semântica e pragmática no uso corrente da linguagem. A tia usava um termo que poderia, talvez, ter sido cunhado por ela mesma ou ser de uso exclusivo dela, com o intuito de subverter a lógica do próprio tempo. O foco nas questões atinentes à linguagem é constitutivo do modo como atua essa pesquisadora que, há anos, trabalha com as Letras e com as Literaturas. 

Enivalda Nunes Freitas e Souza
[foto arquivo pessoal da autora]

Enivalda Nunes Freitas e Souza é intelectual que adentra os mistérios da poesia, do mito, do simbolismo e das formas fugidias para lançar luz sobre o que é profundo e belo, motivando estudantes, professores, pesquisadores e amantes da literatura a se enveredarem pelo caminho da leitura, da escrita e da sensibilidade poética. O resgate da memória, a partir da pesquisa comprometida e da valorização das fontes vivas carrega, para a superfície de seu texto, significativos debates em favor da construção de uma nação menos desigual. Nesse aspecto, a promoção da saúde pública como mecanismo para a melhoria da qualidade de vida da população ganha relevo. 

Os enredos revelados no decorrer da narrativa esclarecem sobre o valor do SUS, Sistema Único de Saúde, principalmente para parcelas da população brasileira com menor poder aquisitivo e/ou localizadas em regiões menos estratégicas na comparação com os grandes centros urbanos. Aliada às conquistas sociais advindas com a educação, a autora ressalta a importância do SUS para a nação brasileira. Enivalda esboça um painel da precariedade da saúde em nosso país a partir das doenças do patriarca quando criança e do sonho de Aldacira, mãe de seis filhos, para ter acesso ao atendimento médico-hospitalar, objetivo alcançado com o cargo de professora. Para mostrar como era a saúde no Brasil antes do SUS, a narradora colhe, além das memórias familiares, depoimentos de autoridades na área. 

Desta forma, o livro é mais do que a história de uma família, é um registro do desenvolvimento do próprio povo brasileiro. E a autora, muito mais que uma pesquisadora comprometida, é uma intelectual antenada com os desafios sociais, econômicos e políticos do país; é uma escritora sensível e talentosa que, por meio da saga de seu clã, esboça um Brasil que precisa ser reconhecido e transformado para o desenvolvimento sustentável da nação. Enivalda Nunes de Freitas e Souza é, acima de tudo, uma mulher vencedora, protagonista de sua história, cujos traçados e livros admiráveis constituem importante legado para futuras gerações de mulheres, incentivando-as, com o seu exemplo e com o seu trabalho. Profissional competente que inspira as outras a transformarem desafios em mote para o trabalho produtivo e transformador com a docência, com a pesquisa, com o amor pela poesia e com a escrita literária. 

Heliene Rosa e Enivalda Nunes Freitas e Souza
[foto arquivo pessoal da autora]

Para conhecer melhor a autora e o conjunto de sua obra, encontre-a nas redes sociais: Eni Freitas E Souza (@enifreitasesouza) • Fotos y videos de Instagram

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REFERÊNCIA:

SOUZA, Enivalda Nunes Freitas e. Terra, traçados e livros: nas vozes da memória. Belo Horizonte: Ramalhete:Tlön Edições, 2021. 273p. 

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Heliene Rosa



Heliene Rosa é poeta mineira, professora e pesquisadora das poéticas femininas. Escreve para o Blog Feminário Conexões e publica textos em antologias literárias nacionais e internacionais. Além da produção poética, tem publicações acadêmicas sobre a produção feminina na literatura e articula projetos e eventos de leitura literária.


 

sábado, 13 de agosto de 2022

PROTAGONISMO FEMININO EM FOCO: SONY FERSECK E AS MULHERES QUE FAZEM SOL

PROTAGONISMO|04

LITERATURA FEMININA DE AUTORIA INDÍGENA: SONY FERSECK E AS MULHERES QUE FAZEM SOL

Heliene Rosa

        Sony Ferseck, Sonyellen Fonseca Ferreira, é uma jovem intelectual indígena do povo makuxi que vive na cidade de Boa vista, em Roraima. Poeta, editora, pesquisadora e professora atuante no campo das artes. Formou-se em Letras pela Universidade Federal de Roraima, no ano de 2013. Em 2016, defendeu seu mestrado pela UFRR, na linha de pesquisa Literatura, Artes e Cultura Regional.

        Em 2014, tornou-se participante do projeto de pesquisa Panton Piá coordenado pelo professor Devair Fiorotti, onde se dedicou a estudar e divulgar narrativas e cantos que compõem as artes verbais indígenas da região. Trabalho ao qual até hoje se dedica: é fácil encontrá-la no YouTube, divulgando cantos da matriarca makuxi, vó Bernaldina. Em 2020, ingressou como doutoranda, no Programa de Pós-Graduação em Estudos de Literatura da Universidade Federal Fluminense (UFF), onde desenvolve projeto sobre literatura comparada.

          Chamada Wei Paasi, em idioma makuxi, Sony busca com seus escritos conectar-se profundamente com sua ancestralidade indígena. Publicou seu primeiro livro: Pouco Verbo, no ano de 2013, pela Editora Máfia do Verso. Depois, publicou Movejo, em 2020, pela Editora Wei, da qual é cofundadora ao lado de seu companheiro professor Dr. Devair Fiorotti. Hoje Sony Fersec é professora substituta no Instituto Insirikan de Formação Superior na UFRR e dirige sozinha a Editora Wei, após o falecimento do marido. 

Sony Ferseck 
Foto de Nara Nasco

          Sony Ferseck é uma mulher forte e corajosa que não perdeu a ternura apesar dos muitos embates que a vida já lhe proporcionou. Uma voz potente na defesa do seu povo, bem como das suas tradições culturais e do legado de arte e sabedoria das mulheres matriarcas makuxi. Sony é mulher infinita que diz palavras de cura, mas que sabe também fazer silêncio para guardar o intocável, tecendo assim, as teias da vida.

        Weiyamî: mulheres que fazem sol (2022), terceiro livro da autora, veio à luz pela Editora Wei, na cidade de Boa Vista, em Roraima. Um livro ancorado fortemente no feminino ancestral, com versos da pena dessa potente escritora indígena da Amazônia Ocidental. A belíssima capa e a diagramação da obra foram feitas pelo designer gráfico Abraão Batista.

Weiyamî: mulheres que fazem sol (2022)
Foto de Nara Nasco

         No miolo, um conjunto de textos poéticos muito sensíveis, semanticamente intensificados pelos textos imagéticos da artista visual roraimense Georgina Sarmento, indígena dos povos Makuxi e Wapichana. Os textos verbais e visuais aparecem dispostos em pares e se complementam na tessitura dos múltiplos sentidos suscitados na e pela obra.

          Embora estejam materializados em linguagens diferentes, esses textos juntos engendram uma carga poética generosa e surpreendente que propicia uma experiência estética rica a quem lê a obra. Sobre essa construção complexa e engajada da poesia de Sony Ferseck, em Weiyamî: mulheres que fazem sol, Rita Olivieri-Godet, pesquisadora e professora da ERIMIT-Université de Rennes 2, na França, esclarece:

                 A linguagem poética de Sony Ferseck insere-se no amplo conjunto de produções artísticas indígenas contemporâneas que se constroem no exercício da travessia de fronteiras, instaurando um espaço simbólico de mediação e exprimindo-se através de uma complexa imbricação de gêneros. Na plasticidade e originalidade de sua obra, vislumbro uma conexão com o universo das imagens de inaudita beleza do grande artista makuxi, Jaider Esbell, cuja arte também recria o patrimônio imaterial indígena makuxi; na missão de “escrever com o outro”, instaurando um espaço poético e político para lutar contra o apagamento da memória cultural dos povos indígenas... (Olivieri-Godet, 2022, p. 7)


Foto de Nara Nasco

          No cumprimento dessa missão de “escrever com o outro”, entre as muitas estratégias de composição poética empregadas na obra, Ferseck reconstrói, em versos, as memórias ancestrais do seu povo. Esse fenômeno ocorre em alguns poemas como Makunu’pa, em que a autora, ao final do texto, acrescenta contextualizações, além de traduções dos termos empregados em língua ancestral.

          Nas palavras dela: “Segundo seu Alcuíno de Lima, da comunidade do Taxi, na TI Raposa-Serra do Sol, nasceram Makunaimi e Makuna’pa, um menino e uma menina gêmeos. Segundo ele o radical makun – seria relacionado a makunai’ve, gêmeos em Makuxi Maimu” (Ferseck, 2022, p.22).

         Desse modo, a poeta makuxi promove uma reconexão com as memórias ancestrais indígenas, ao conceder a voz lírica aos seus/suas mais velho/as, que são aqueles que detêm a sabedoria desses povos. Cabe esclarecer que a subjetividade da mulher indígena contemporânea predomina em seu projeto de construção autoral, pois para além da inspiração e da composição dos versos, a autora nos mostra a sua visão: “Bom, para mim Makunu’pa é um rio que corre pra sempre e transborda toda e qualquer margem, principalmente na época das chuvas” (Ferseck, 2022, p.22). E assim, o caráter polifônico da produção literária indígena, em Sony Ferseck, vai permitindo vislumbrar culturas em que a pluralidade é acolhida e celebrada com respeito e com alteridade.

Foto de Nara Nasco

          Encontramos em Weiyamî: mulheres que fazem sol (2022), uma belíssima “femenagem” e a transcrevemos aqui:

 

Alcançar com as mãos

O útero da terra

Percorrer com os dedos

A linguagem da terra

A fala das pedras

Os grãos da voz

Que a água acalenta

Tirar o pó do mistério da existência

Matéria mesma das mãos nas mãos

Das mães do barro

Koko’Non

Afagar entre os dedos

O barro que arredonda

As formas das gentes

Da vida

Seus afetos meus afetos

De enfrentar o fogo

O fogo é a cor da pele

Do povo do entorno da Wazaka

Rigores do amor vertidos por Wei

Que depois de secos alimentam

As palavras das avós que nunca racham

De Tuma, de karutuke, tawa, de pari

Decoram as cantigas que encantam

De carinho as netas das netas que virão

A seguir.

                                                                 (FERSECK, 2022, p.37)

          Acompanha o texto um pequeno glossário, com as definições para os termos em língua makuxi. Por ele, aprendemos que Koko’Non signifca; “Vovó Barro que permite às mulheres mais velhas saber de seus conhecimentos e mistérios, quando dá a hora certa”. Sony dedica seu poema a Elieth e Amora - duas gerações de mulheres da sua família, - sua mãe e sua filha: “Para  Elieth e Amora, as duas pontas do meu amor, com todo meu ser. Vivo por e para vocês”(Ferseck, 2022, p.37).

          Essa bonita louvação à Mãe Terra se estende às ancestrais matriarcas, chega até as mulheres contemporâneas e culmina com as futuras gerações de mulheres – aquelas que ainda virão: “as netas das netas”. Um texto que reverbera nas palavras da crítica literária Julie Dorrico, indígena do povo makuxi: “os versos desse livro vêm de longe, do tempo dos ancestrais, para consagrar as mulheres makuxi: vós, netas, pajés, mães, amantes, meninas-moças, todas filhas de Wei, da Sol” (Dorrico, 2022, p.5).

        Weiyamî: mulheres que fazem sol (2022), é um livro único, um monumento às mulheres indígenas makuxi, um monumento em forma de poesia. Ele revela ao público leitor uma escritora determinada a colorir poeticamente o mundo com as histórias e memórias de seu povo. Sony Ferseck é dona de uma escrita peculiar e de uma potente voz artística que faz ressoar, - através da literatura, - as memórias, a língua, a cultura, as lutas e as subjetividades das mulheres da sua grande família makuxi.

FERSECK, Sony. Weiyamî: mulheres que fazem sol. Ilustrações: Georgina Sarmento. Boa Vista/RR: Wei Editora, 2022.

Para conhecer melhor a autora e suas obras, encontre-a em suas redes sociais: https://instagram.com/sony.ferseck?igshid=YmMyMTA2M2Y=

@heliene.rosa.965    

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