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segunda-feira, 8 de junho de 2026

A VERGONHA MUDOU DE LADO, POR RITA ALENCAR CLARK

 Uma mulher que escreve é uma mulher muito perigosa. 

Por Rita Alencar Clark

Imagem Pinterest
Uma mulher que escreve é uma mulher muito perigosa, dizia bell hooks. Que o diga Gisèle Pelicot! Quando o mundo ficou sabendo que uma mãe de família, casada, com três filhos, levando uma vida pacata numa cidade do interior da França foi abusada sexualmente durante uma década pelo próprio marido, autorizando diversos homens a violarem depois de dopá-la, muitos não acreditaram. Como assim? Como um marido poderia fazer isso sem levantar suspeitas? Foram tantas as perguntas e as dúvidas que o caso, narrado pela autora no livro autobiográfico A vergonha precisa mudar de lado  um hino à vida, publicado pela Editora Companhia das Letras, em 2026, viralizou pelo mundo.  

A violência e o abuso escancararam um portal sombrio, no qual muitas mulheres são mantidas como reféns, de maridos, de amantes, de pais e de companheiros. No caso de Gisèle, reiteradamente por anos e inconsciente do que lhe acontecia, dopada, anestesiada, violentada e filmada. Parece ficção, mas não é. E, o que mais nos choca: com a participação de quem prometeu amá-la, protegê-la e respeitá-la. O hoje condenado ex-marido arregimentou mais de 50 homens da comunidade local, de todas as idades (homens e não monstros), para participarem desse ritual violento e abusivo, sem culpa ou ressentimentos, por mais de dez anos transitando pela cidade livres do peso na consciência; amorais, todos eles. A mensagem de Gisèle, ao decidir expor seu caso e abrir mão do anonimato a que tem direito (e juridicamente concedido) é: A vergonha mudou de lado.

Foi sua resposta aos abusos extremos que sofreu que lhe deu força e controle sobre sua vida. As violências continuam a acontecer com outras mulheres, são de todos os tipos e levam a diversas mortes: física, moral, psicológica, emocional, financeira e patrimonial. Sim, há inúmeras mortes para as mulheres que sofrem agressões, até para as que resistem fisicamente a elas, mesmo morrendo todos os dias devido aos traumas. Ser mulher na contemporaneidade é um risco diário e um exercício contínuo de sobrevivência.

A sexual é apenas uma delas. No topo da lista, incluo o epidêmico e atualíssimo feminicídio, mas há outra violação camuflada e abafada pela comunidade intelectualizada, protagonizada por homens em sua maioria. Trata-se da violação literária contra as mulheres que escrevem. Um abuso antigo, que remonta aos primórdios da implantação, no Brasil, das máquinas tipográficas, trazidas em 1808 por D. João VI. Desde esse período, e só para ficar no âmbito nacional, as mulheres que escreviam, muitas sem qualquer pretensão de publicar, já eram relegadas ao mutismo das aspirações literárias. Ou vamos acreditar no “conto da Carochinha", que mulher nunca soube escrever? Por muito tempo, acreditou-se nesse absurdo, fosse por imposição do patriarcado, fosse pela falta de acesso, ou simplesmente pela proibição aos estudos e aos livros, “estudar era caro ou pensar não era coisa de mulher”.

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Com o tempo, e graças a tantas autoras corajosas e brilhantes, dispostas a enfrentar o patriarcado, as mulheres persistiram, resistiram e continuam escrevendo à revelia desta infâmia. Hoje, um número considerável e insurgente de mulheres aponta na Literatura Contemporânea com obras importantes, escrevem mesmo alquebradas por insultos machistas, tentativas de desmerecimento e apagamento dos seus trabalhos literários, muitas vezes produzidos à base de jornadas triplas, sem descanso ou redes de apoio, dividindo seu tempo entre filhos, cuidados domésticos, maridos descontentes, trabalhos mal remunerados e lidando com as incômodas “crises de impostora” durante a madrugada. Não há pagamento, muito menos garantias. Contudo, as mulheres escrevem até as mãos sangrarem no teclado de um notebook, revisando o texto até o dia amanhecer, exaustas, só para recomeçar a rotina doméstica e profissional no dia seguinte. A esta dura rotina, agrega-se outra tarefa relevante: enfrentar a baía de tubarões prontos ao ataque, disfarçados de editores e de críticos literários  não todos, obviamente, há gratas exceções – mas os tubarões são famintos, e se alimentam das fragilidades. Cabe às mulheres não se deixarem abater por análises rasas e não fundamentadas dos seus originais de romances, de poemas, de resenhas, de ensaios, etc. Compete às mulheres buscar a maestria do ofício, sem se deixar contaminar pelo veneno corrosivo de uma depreciação precipitada, capaz de levar autoras principiantes, e algumas veteranas inseguras, a abortarem precocemente suas carreiras literárias. Esta é, sem dúvida, mais um tipo de violência para nossa longa lista. 

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Aquelas que sobrevivem a esta Via Crucis de provações, escapando dos tubarões, das armadilhas da auto sabotagem, da falta de incentivos, certamente conseguem um lugar nas editoras independentes, publicando seus livros, ainda com a missão árdua de vendê-los, divulgá-los, consigná-los em livrarias simpáticas e meios confiáveis para receber, com sorte, um percentual ínfimo por livro vendido. Essa é a nossa realidade, a das autoras que publicam de forma independente, e quer saber mais? Temos muito ainda para falar. Trazemos novas temáticas ao mercado editorial, falamos de útero, abusos, violações, amores livres, nossos corpos, nossos prazeres, poemas eróticos, rasgamos o ventre e abortamos dores seculares, remontamos nossas histórias em romances e novelas. Nossas obras não podem, e nem serão preteridas eternamente em concursos e prêmios literários por pareceristas não capacitados ou gabaritados para exercer a função. Denunciaremos o desprestígio, a intimidação e o silenciamento de nossas vozes, assim como os extermínios de povos originários e das minorias periféricas, das deflorações dos corpos e das florestas, dos abandonos paternos, das alienações parentais, dos preconceitos de gênero, racismo e misoginia. Escancaramos as portas lacradas das alcovas sombrias e revelamos os segredos mais escondidos e vis do patriarcado, porque também nós temos direito à palavra.

Texto pronto e uma alegria íntima, legítima e inconfessável corre pelo corpo e pela alma, com a sensação de ter caminhado por um deserto quente e inóspito, ansiando por publicar e encontrar nossos leitores, sabendo que temos nas mãos escritos dignos de serem lidos e apreciados. Assim nos mostrou Gisèle Pelicot, assim desmontamos o teatro vulgar da hipocrisia, revelando que o mundo masculino não pode sobreviver na impunidade dos arredores domésticos, nos pactos de silêncio e no acobertamento mútuo. Sim, escrever é muito perigoso, principalmente se essa escrita é feita com o sangue e a mente de uma mulher. Gisèle Pelicot nos encorajou a lutar e continuar a escrever; mesmo aterrorizadas, em fúria, despidas e violadas. Porque nossa escrita é única, vem impressa sobre nossos corpos e dores, na pele, não em armaduras frias ou máscaras de persona, mas iluminada por ideias que acendem a alma.

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Rita Alencar Clark
foto: arquivo da autora

Escritora, poeta, cronista, colunista 

do blog feminarioconexoes.blogspot.com 

Colaboradora do Coletivo Enluaradas Amazônia

Feminário Conexões, o blog que conecta você!

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