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Em A Paixão segundo G.H., quando a patroa entra
no espaço da serviçal, ocorre a epifania e a crueza da humanidade se revela.
Clarice Lispector usa o quarto de empregada recém desocupado como metáfora da
linha que separa as classes sociais. O medo do contato com o outro moldou historicamente
a ocupação do espaço no Brasil. Se proibir o uso do elevador social hoje é
crime e os antigos quartos de empregada sumiram dos projetos, seria isso um
sinal de integração entre diferentes classes?
Depende de como a arquitetura urbana se reinventa.
Olhando para os grupos intermediários — entre o beneficiário de habitação
social e o morador de condomínios de alto padrão —, um fato curioso tomou forma
em São Paulo: o surgimento de edifícios com ares de sofisticação, mas de uso
misto, com apartamentos amplos vizinhos de unidades populares financiadas por
programas como o Minha Casa, Minha Vida.
Recentemente, um desses empreendimentos — localizado
em um tradicional bairro italiano da capital — me lembrou as análises de
Gilberto Freyre sobre espaço e divisão social. O catálogo de vendas ostenta
mais de vinte itens de conforto, áreas verdes e unidades de 70m² a 130m². No
entanto, os studios de 20 metros quadrados, voltados a outro público,
nem sequer aparecem no material publicitário.
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Na prática, porém, o projeto aprovado como um bloco
único fragmenta-se para separar os públicos. No caso do edifício italiano,
construído em terreno inclinado, os apartamentos maiores ficam na parte alta e
têm entrada por uma rua. Já os studios — verdadeiros porões do castelo —
ficam nos níveis inferiores e acessam o prédio por outra rua, sem direito de
uso da área de lazer ou mesmo qualquer comunicação com os vizinhos de cima.
Entra-se pelos fundos, sem nem avistar a piscina.
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