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terça-feira, 6 de outubro de 2026

A METÁSTASE DO ÓDIO

Por Sueli de Britto Salles

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              Cinco de outubro de 2026. Dia de ressaca, de cuidar das unhas roídas até o sangue, de buscar o silêncio interno necessário para escapar do desespero. O problema não foram as tantas derrotas dos candidatos de esquerda nas eleições — até porque ainda temos o segundo turno para presidente —, mas a constatação de que o nosso “corpo país” já está tomado por uma onda de extrema-direita numa metástase sem volta. O problema é o Brasil? Não, é o mundo. 

              Ano que vem, eu completo seis décadas de vida. Cresci na ditadura militar; vesti amarelo pelas “Diretas Já”; vi a Constituição de 1988, uma das mais completas e bonitas do mundo, ser discutida, planejada e adotada; vi o operário nordestino virar presidente; vi as mulheres conquistando voz, chegando ao poder; vi as primeiras lideranças indígenas participarem da política na defesa de seus povos; vi as primeiras Paradas LGBT legitimarem a existência de pessoas que sempre se envergonharam de existir. Por anos imaginei ser impossível voltarmos a ver coisas absurdas como as crueldades raciais, religiosas e de gênero, que marcaram um passado vergonhoso da humanidade. Acho que me enganei.

              Nessas décadas, também vi o avanço tecnológico acelerar a interação digital, mudar completamente as regras da comunicação e acabar com os compromissos éticos com a busca da verdade. Vi o movimento evangélico pentecostal se transformar em uma indústria internacional, inclusive com o uso dos recursos tecnológicos da comunicação — primeiro comprando inúmeras redes de rádio e televisão, depois expandindo os domínios mundiais com a internet. Pastores ganharam um poder absurdo de manipular mentes e corações, bloqueando qualquer possibilidade de reflexão ou contestação fora dos seus domínios. Outras Igrejas já fizeram isso, é verdade, e o resultado nunca foi bom; basta lembrar a violência com que a liderança católica se impôs na Contrarreforma, perseguindo e matando os “pecadores”. A liberdade de crença (inclusive da “não crença”), prevista na Constituição, corre perigo.

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                Vi o poder corromper pessoas de todos os campos políticos, em todos os governos, embora em dimensões muito diferentes. Vi a construção do ódio na política, dividindo a população entre os defensores da manutenção dos direitos constitucionais e os que se denominaram “conservadores patriotas”. Esse rótulo defende valores usados no passado pelos favoráveis à ditadura, como “tradição, família e propriedade”, e que, no fundo, só reforçam os direitos dos que sempre tiveram direitos. É um modelo social baseado na força e na racionalidade do homem, o indivíduo do sexo masculino espelhado no modelo de muitas décadas atrás: o “dono” da casa, da família, da voz, do dinheiro, da força, da arma, da honra.

              Alguém pode achar que estou sendo radical, que nem todo homem é assim e que a sociedade mudou, progrediu. Sim, mudou. Mas opondo-se ao progressismo veio outra tendência, “comendo pelas beiradas”: esse retrocesso denominado conservadorismo. Já reparou como esse viés político se identifica com símbolos do machismo? É o famoso jogador de futebol, os cantores do sertanejo, o ambiente dos rodeios, os donos de carrões (ou de motos e jet-skis...), dos jogos de azar, da ostentação, das festas com bebidas e garotas de programa, das armas... tudo que é ambiente de “macho”. É o mundo dos “imbrocháveis”, o verdadeiro “mundo de Marlboro” (para quem é das antigas e se lembra dessa propaganda de cigarro).

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               A diferença entre progressistas humanistas e conservadores machões pode ser avaliada a partir do modo como cada um reage a uma derrota eleitoral. Fernando Haddad, após a terrível derrota para Tarcísio de Freitas na disputa ao Governo de São Paulo, reconheceu publicamente o resultado da eleição e cumprimentou o adversário. Não houve agressão, xingamento ou ameaça; apenas aceitação civilizada. Aplaudo essa postura, mas não posso deixar de ver ali um traço historicamente associado ao feminino: a de entender que não foi o escolhido, trabalhar a tristeza e resignar-se diante da rejeição.

              Como seria a reação de um típico “machão”? É só olhar para a principal causa do feminicídio no país: homens que não aceitam ser rejeitados pelas mulheres (consideradas por eles como suas propriedades). O pensamento é sempre o mesmo: “se não vai ficar comigo, não vai ficar com mais ninguém”. É na brutalidade que esse tipo de homem se impõe dentro da “sua” família — no sentido de posse, mesmo. É o homem que fala alto, que decide, que dirige. A mulher deve calar, obedecer, seguir e servir. E, para isso, eles manipulam inclusive o discurso religioso que, aliás, também é muito machista.    

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                Quando Aécio Neves perdeu para Dilma Rousseff, ficou com seus brios de macho feridos e inventou mentiras (como depois ele mesmo assumiu em entrevistas) para contestar os fatos. Era o início da guerra, do ódio à esquerda. Depois, quando Jair Bolsonaro perdeu para Lula, foi aquela patifaria de não reconhecer a derrota, organizarem manifestações em quartéis, tentarem golpe de estado e defenderem a luta armada. Machão é assim: não aceita ser rejeitado.

              Neste ano, com o apoio de Trump, a extrema-direita já estava pronta para rejeitar o resultado da eleição, caso Lula ganhasse. Como isso não aconteceu, a guerra foi adiada, afinal ainda estão se esbaldando com a enxurrada de votos que conquistaram no primeiro turno. Ainda respiramos alguma esperança democrática, mas o diagnóstico não é bom. Nada bom.

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Sueli de Britto Salles é professora universitária em São Paulo, apaixonada pela escrita, pelas questões das mulheres e pelo mistério da existência. Além dos textos da área acadêmica, publicou, com três amigos, o livro de contos: Eu, o gato e outras histórias e participou das coletâneas poética I e II Tomo das Bruxas (Siano, 2022; TAUP, 2023).

sábado, 29 de agosto de 2026

UMA CRÔNICA DE SUELI DE BRITO SALLES

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A ARQUITETURA DA DESIGUALDADE

Em A Paixão segundo G.H., quando a patroa entra no espaço da serviçal, ocorre a epifania e a crueza da humanidade se revela. Clarice Lispector usa o quarto de empregada recém desocupado como metáfora da linha que separa as classes sociais. O medo do contato com o outro moldou historicamente a ocupação do espaço no Brasil. Se proibir o uso do elevador social hoje é crime e os antigos quartos de empregada sumiram dos projetos, seria isso um sinal de integração entre diferentes classes?

Depende de como a arquitetura urbana se reinventa. Olhando para os grupos intermediários — entre o beneficiário de habitação social e o morador de condomínios de alto padrão —, um fato curioso tomou forma em São Paulo: o surgimento de edifícios com ares de sofisticação, mas de uso misto, com apartamentos amplos vizinhos de unidades populares financiadas por programas como o Minha Casa, Minha Vida.

Recentemente, um desses empreendimentos — localizado em um tradicional bairro italiano da capital — me lembrou as análises de Gilberto Freyre sobre espaço e divisão social. O catálogo de vendas ostenta mais de vinte itens de conforto, áreas verdes e unidades de 70m² a 130m². No entanto, os studios de 20 metros quadrados, voltados a outro público, nem sequer aparecem no material publicitário.

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À primeira vista, a mistura parece democrática. Mas a motivação real está no Plano Diretor de São Paulo, que concede isenções fiscais a empreendimentos de uso misto próximos a eixos de transporte. Misturar metragens reduz o imposto, eleva a margem de lucro e cumpre metas de densidade populacional.

Na prática, porém, o projeto aprovado como um bloco único fragmenta-se para separar os públicos. No caso do edifício italiano, construído em terreno inclinado, os apartamentos maiores ficam na parte alta e têm entrada por uma rua. Já os studios — verdadeiros porões do castelo — ficam nos níveis inferiores e acessam o prédio por outra rua, sem direito de uso da área de lazer ou mesmo qualquer comunicação com os vizinhos de cima. Entra-se pelos fundos, sem nem avistar a piscina.

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Mesmo com tudo isso, para os mais pobres, morar ali não é simples: muitas unidades são compradas por investidores e viram aluguéis caros. Ainda assim, a presença desses moradores serve de álibi para que o andar de cima se aproprie de incentivos públicos voltados ao direito à moradia. A casa grande nunca quis se misturar com a senzala; apenas aprendeu a lucrar com a sua proximidade.





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Arquivo da autora

Sueli de Britto Salles é professora universitária em São Paulo, apaixonada pela escrita, pelas questões das mulheres e pelo mistério da existência. Além dos textos da área acadêmica, publicou, com três amigos, o livro de contos: Eu, o gato e outras histórias e participou das coletâneas poética I e II Tomo das Bruxas (Siano, 2022; TAUP, 2023).

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A METÁSTASE DO ÓDIO

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