A BRUXA NA PRESIDÊNCIA DA AML: LUCIENE CARVALHO,
NEGRA, PERIFÉRICA E POETA
Jocineide
Catarina Maciel de Souza[1]
Maria
Elizabete Nascimento de Oliveira[2]
 |
Foto enviada por Elizabete Nascimento |
Essa abordagem
apresenta provocações sobre a presença da figura feminina nas Academias de
Letras no Brasil, inquietação provocada ao olharmos para a galeria de membros
dessa instituição no estado de Mato Grosso, majoritariamente ocupada pelo
gênero masculino e, especialmente, por experienciar na noite de 30 de setembro
de 2023 a posse de Luciene Carvalho, negra, periférica e poeta à presidência da
Academia Mato Grossense de Letras/AML. No decorrer de aproximadamente um século
de existência no Brasil, a efervescência no surgimento desses movimentos
culturais que se deu no início do século XX, teve como resultado da formação a
elite brasileira, com seus modelos europeus, bem como, com suas influências nos
modelos culturais que eram adaptados à realidade da sociedade naquele período.
A hegemonia
masculina que impera do sistema colonial nos espaços de poderes e sua ascensão
sociocultural precisa ser revista, não no sentido de priorizar o feminino, mas
de oportunizar a equidade. Observamos que, na maioria das vezes, as mulheres
que conseguem ocupar esses espaços de poder, são de pele branca, o que demarca,
também, o seu lugar social e, sabedora dessa condição, Luciene destaca em sua
posse: “Celebram meu coração e minha ancestralidade frente tão grande honraria
como esta de estar assumindo a presidência da Academia Mato Grossense de
Letras.” (CARVALHO, 2023).
 |
Foto enviada por Elizabete Nascimento |
São 102 anos
desde a fundação da Casa Barão de Melgaço em Cuiabá, capital de Mato Grosso,
quando esta surgiu como Centro Mato Grossense de Letras no ano de 1921, em 1932
torna-se Academia Mato Grossense de Letras, inicialmente era composta por 24
acadêmicos, desse total havia apenas uma mulher, Ana Luiza Prado. Na transição
de centro para a academia aumentou-se mais 06 cadeiras, totalizando 30
assentos, nesse período Maria de Arruda Muller também assume uma vaga na
academia, essas foram as primeiras mulheres a participar desse espaço composto
em sua grande maioria pelo apogeu masculino.
Em 1944, houve
uma parametrização com a Academia Brasileira de Letras, período em que ganhou
mais 10 cadeiras. Mesmo assim, a presença feminina ficou limitada a 02 cadeiras
contra 38 ocupadas pela casta masculina. A ocupação dessas cadeiras nos instiga
a pesquisar quantas e quem são as mulheres que ocuparam/ocupam uma vaga nesse
espaço que, desde sua criação, tem o gênero masculino como maioria dos
associados. De acordo com o site oficial da instituição, a Academia Mato
Grossense de Letras, desde sua fundação, teve 143 membros, desse total apenas
18 mulheres, uma diferença discrepante e curiosa, especialmente porque somos
sabedoras de que as mulheres, nesse estado, sempre contribuíram com a formação
cultural e intelectual do estado.
 |
Foto enviada por Elizabete Nascimento |
A presença das
mulheres nas Academias de Letras em nosso país, é um exemplo para entendermos e
percebermos a força e a resistência das primeiras mulheres que resistiram com
seus corpos nesses ambientes institucionais. Em Mato Grosso, das quarenta
cadeiras, há inúmeras que, desde a sua fundação, sempre foram delegadas aos
homens, como se fosse de posse vitalícia. Vejamos logo abaixo como se organiza
essa instituição no que se refere à presença feminina.
Marilia
Beatriz Figueiredo Leite foi a primeira mulher a ocupar a cadeira nº 02, que
atualmente tem como acadêmica Marli Terezinha Walker. Depois de ser ocupada
seguidamente por três homens, a cadeira nº 04, foi ocupada por Lucinda Nogueira
Persona, pela primeira vez, em 2014 e permanece. Maria de Arruda Muller ocupou
a cadeira nº 07, mas com sua morte um homem foi indicado para ocupar o seu
lugar. As cadeiras nº 14, 15 e 16, atualmente são ocupadas por mulheres, são
elas: Nilza Queiroz Freire, Olga Maria Castrillon Mendes e Maria Cristina de
Aguiar Campos. Marta Helena Cocco é primeira mulher a ocupar a cadeira de nº
18, diferentemente da cadeira nº 19 que foi ocupada por Vera Iolanda Randazzo e
como sucessora, tem hoje, Neila Maria de Souza Barreto. Com os aumentos das
cadeiras, Ana Luiza Prado foi a primeira mulher a ter assento na academia desde
seu surgimento e ela, por dois anos seguintes, ocupou o cargo na diretoria,
como tesoureira. Elizabeth Madureira Siqueira (nº29); Luciene Carvalho (nº 31);
Sueli Batista dos Santos (nº 34); Lindinalva Correia Rodrigues (nº 37); Yasmin
Jamil Nadaf (nº38) são as primeiras mulheres a ocupar os assentos que, por
vezes consecutivas, foram legadas aos homens. Amini Haddad Campos sucedeu Maria
Benedita Deschamps Rodrigues, conhecida como Dunga Rodrigues, mulher que muito
contribuiu com a cultura do estado, foi a terceira mulher a receber o convite
para ingressar na Academia Mato Grossense de Letras.
Atualmente dos
40 acadêmicos, temos vinte sete homens e 13 mulheres, dado ainda díspar, quando
pensamos na paridade das mulheres nos espaços de representação intelectual e
cultural do estado. Ao analisarmos o fluxo de ingresso de mulheres na Academia
Mato Grossense de Letras, destacamos que foi na gestão de Eduardo Leite Mahon
(2013/2015), o período em que as mulheres se tornaram membras, em 2014 foram
admitidas Lucinda Persona, Marta Cocco e Sueli Batista, em 2015 Olga
Castrillon, Cristina Campos e Luciene Carvalho.
 |
Foto enviada por Elizabete Nascimento |
Na posse de
Luciene à diretoria da AML, ao adentrarmos ao salão principal da Casa Barão de
Melgaço já havia alguns convidados, uns pareciam muito familiarizados com
aquele ambiente, mas para muitos outros, olhos curiosos analisavam o ambiente e
parecia que aquela era a primeira vez que estavam ali para posse de uma mulher
que iria suceder outra mulher que encerrou seu mandato dentro de uma Academia
de Letras. Em alguns minutos, todas as cadeiras foram ocupadas e os corpos que
ali faziam-se presenças traziam marcas de diferentes espaços e grupos sociais
que foram enfatizadas com/pela organização da cerimônia.
Se na
cerimônia de fundação do Centro Mato Grossense de Letras, foram as mulheres que
abrilhantaram a parte cultural, após 102 anos foram os pretos que se ocuparam
da parte artístico-cultural, desde o cerimonial realizado por Ronaldo José,
como a voz de uma negra trans Sophie Silva Campos, com trecho da ópera Carmen.
Vale reforçar, uma música clássica cantada por uma trans negra oriunda da
classe popular, numa Academia de Letras liderada por homens. Foi com esta
apresentação recheada de simbologia e ruptura ao sistema eurocêntrico que se
abriu a mesa de autoridades da noite. Do clássico à cultura popular, dançamos
ao som do mocho e do ganzá na apresentação do Siriri realizada pelo grupo de
quilombolas liderado por Mestre Nezinho do quilombo Mata Cavalo de Cima. Outro
aspecto a ser destacado foi a presença de representantes das religiões afro,
com seus trajes típicos. O grupo Anjos da lata, cantores de Hip Hop e o grupo
Samba de Roda de Regis Gomes.
Em seu sucinto
e forte discurso, a então diretora da Academia não ressalta questões voltadas à
negritude, talvez para ressaltar que ela estava inscrita nos corpos negros que
naquela ilustre noite compunham o seleto público de convidados e por isso não
necessitava de maiores delongas em seu pronunciamento. Ao iniciarmos essa
reflexão nos espantou o número baixo de mulheres como membras dessa instituição
e isso nos levou a pesquisar como é a participação feminina nas outras unidades
federativas, mas antes, sentimos necessidade de observar a composição da
Academia Brasileira de Letras, que atualmente está com 35 membros, sendo apenas
05 mulheres e a diretoria é composta exclusivamente por homens. Essa estrutura
majoritária masculina se replica em todos os demais estados, variando entre 05
a 10 mulheres, com exceção dos estados de Mato Grosso (13 ocupantes); Acre e
Ceará (12 ocupantes) e Rio de Janeiro (11 ocupantes).
 |
Foto enviada por Elizabete Nascimento |
Em seu segundo
centenário, a Academia Mato Grossense de Letras tem se tornado esse espaço de
pluralidade permeado por diferentes corpos, não somente, no que tange à
presença da mulher negra ao poder, mas também é a primeira em que após dois
mandatos consecutivos teve uma mulher como sucessora no mandato da direção,
vale ressaltar, que sua secretária também é mulher e ousamos destacar que no
Brasil, a AML é a instituição que mais tem mulheres entre seus associados.
Os desafios
para que as mulheres intelectuais consigam romper com a hegemonia imposta pela
sociedade sempre foram inúmeros, mas isso nunca intimidou a luta das mulheres
pelo reconhecimento de suas produções, ainda que estejamos longe da ocupação
dos 50%, as poucas vagas ocupadas pelo gênero feminino nas academias em todo
Brasil, ocorreram pelas lutas de outras mulheres que, muitas vezes, não
conseguiram acesso a esses ambientes institucionalizados.
Por fim,
almejamos que esse marco vivenciado pela população do estado de Mato Grosso com a posse de Luciene à diretoria, se perpetue por todo país e embora os dados e as galerias das academias de letras, ainda nos apontam para um notável e injusto distanciamento dessa realidade, é preciso seguir a utopia de equidade racial e de gênero em todos os espaços, especialmente numa sociedade plural, como é a brasileira.
[1] Professora de Língua Portuguesa
SEDUC/DRE/MT. Doutoranda no Programa de Pós Graduação em Estudos Literários
PPGEL/UNEMAT - Bolsista CAPES/Amazônia Legal. jocineide.souza@unemat.br
[2] Professora de Língua Portuguesa
SEDUC/DRE/MT. Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários
PPGEL/UNEMAT. maria.elizabete@unemat.br
 |
|
Elizabete Nascimento: Doutora em Estudos Literários, poeta, professora e mulher que sonha com equidade. Livros: Educação Ambiental e Manoel de Barros: diálogos poéticos. São Paulo: Paulinas (2012); Asas do inaudível em luzes de vaga-lume. Cuiabá/MT: Carlini & Caniato (2019), Sinfonia de Letras: acordes literários com Dunga Rodrigues. Paraná: Appris/2021. Professora, DRE-Cáceres/Mato Grosso-Brasil.
Jocineide Maciel é Quilombola Pita Canudos, graduada em Letras, Mestre em Estudos Literários e Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários PPGEL/UNEMAT (2021). Experiência na área de Letras, ênfase em Literatura Brasileira; atua principalmente nos seguintes temas: literatura mato-grossense, historiografia literária, Literatura de Autoria Feminina, literatura e ensino, letramento literário, literatura afro-brasileiras e Poéticas orais. Membra fundadora (2017) do Coletivo de Mulheres Negras de Cáceres/MT.
Luciene Carvalho é escritora e poeta. Nasceu em Corumbá, mas vive em Cuiabá, no Estado de Mato Grosso/BRASIL - desde 1974 - tendo já recebido o título de cidadã cuiabana. Atualmente ocupa a presidência da Academia Mato-Grossense de Letras/AML. Entre as obras poéticas publicadas, citamos: Aquelarre (2007); Insânia (2009); Ladra de Flores (2012) e Dona (2018) entre outras.