quinta-feira, 23 de novembro de 2023
MAIS ANA QUE LEILA, POR MARINA MARINO
quarta-feira, 22 de novembro de 2023
NA TRILHA DO FEMININO: LARGADA DOMÉSTICA, DE RILNETE MELO
Era uma segunda-feira, dessas do tal calorão de 39° que quase fritava meus miolos e fritava também ovo no asfalto, dessas em que o dia branco, na verdade foi cinza; Do bombril impregnado nas unhas, pó de casa varrida no pé e massa cinzenta pensando debaixo do chuveiro: Tenho que fazer isso, depois isso, amanhã aquilo... E eternamente isso!
Exausta, depois de me virar nos 30, marido já dormindo, ponho um cafezinho na xícara, destravo o celular para escrever alguma coisa, embora com o corpo pedindo arrego, a mente ainda escrevive! Passeio pelo Instagram e vejo, enfeitando o feed viralizado, o tema da redação do Enem 2023: “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”.
Mas o comentário que me desafiou a escrever essa crônica foi lançado para mim em um post recente, quando ainda nem tinha ideia do tema da redação e já abordava exatamente sobre a invisibilidade do papel da mulher desde os tempos mais remotos até os dias atuais, que é cuidar, amar, cuidar... E no profícuo ofício de cuidar, mendigar amor! E o famigerado machista, agora já deletado do meu perfil e denunciado, de pronto comentou: “Se você conseguir descarregar caminhão, trocar pneu de jamanta e emboçar parede, pra senhorita eu dou “A taça cacete", (me diz aí quem não soltaria as cachorras??).
Saiba muito bem, pai da Santa ignorância e do olho cego, que se tivesse olimpíadas para o trabalho doméstico, não haveria taças para tantas vencedoras! Dada a largada, a categoria “Excesso de cuidados" subiria ao pódio ao som de uma “Ave Maria", pois, no silêncio rotineiro da mulher, o cuidado doméstico soa como uma música piedosa que é (in)visível, embalando as protagonistas nos bastidores do cotidiano.
Na sociedade capitalista, a relação de poder do homem em detrimento da mulher, ouço dizer que se “dá(va) “?? pelo fato do homem ser responsável pela renda familiar, mas o mercado de trabalho foi aberto para as mulheres e a conta ainda não fechou, pois agora é dobradinha:
“Trabalho e cuidados".
A verdade é que, em pleno século XXI, a mulher ainda é o “anjo do lar”, e que anjo!! Carrega nas asas o peso do trabalho dobrado, dentro e fora de casa, no sonho de alçar voo rumo à igualdade de gênero e à equidade.
“Desde que me lembro de ser gente, lá em casa, quem dobrava os lençóis da cama era eu, minhas irmãs ou mamãe", porque isso era serviço de mulher! Isso tem mais de meio século e os lençóis ainda não chegaram nas mãos dos homens, pois eles não sabem dobrar as pontas iguais, afinal, de igualdade o universo masculino nada quer saber, né? E se sabe, ainda pergunta onde fica.
Lembro que minha avó costurava, fazia crochê, consertava guarda-chuvas, fazia a comida, varria a casa, passava a roupa no ferro de brasa, e fazia e fazia, e ainda ajudava meu avô a plantar e colher, botava a comida dele na mesa e, no final do dia, ele pedia o lençol para dormir, pois não sabia onde estava... Será que lembrava de agradecer?. Fala sério, mudou alguma coisa? Um tantinho? Nada? Coisa nenhuma?
Conquistamos sim, quebramos alguns tabus e estereótipos, como o direito ao voto e ao trabalho desigualmente remunerado, mas há um trabalho (cuidado) eterno que continua invisível, o status quo “gestão do lar”, sempre na manutenção das condições observadas.... Casa varrida, roupa lavada, fralda trocada, mamadeira pronta, comida no prato, cama arrumada... Na verdade é uma verdadeira “Largada doméstica” apenas com ponto de partida.
E aqui eu deixo um poema de minha autoria para que possamos refletir sobre nossa saúde mental, sobre o excesso de cuidados para com o outro e das situações estressantes às quais nós mulheres estamos mais propensas e sem reconhecimentos.
LARGADA DOMÉSTICA
Lambeu o chão,
esticou a língua
ao sal
e correu para a panela,
como sempre correu contra o
tempo.
Cozinhou os sonhos,
o prazer,
a vida.
- Do menu servido
no prato cotidiano -
a carne parida,
o amor ofertado,
e o reconhecimento
ao molho.
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LILIAN ROCHA: UMA FORÇA QUE IMPULSIONA NOSSA CONSCIÊNCIA NEGRA
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Foto arquivo pessoal da autora |
Se me pedissem para descrever Lilian Rocha (@lilikamarques24), eu diria que ela nos deu fé e exemplo. Fé porque desde que a ouvimos pela primeira vez meu filho e eu ficamos impressionados com a potência como se expressa. E lembro que ela nos provocou a reflexão de que "nossa, a gente pode gritar e impor a nossa negritude assim?!?". No cotidiano opressor em que vivemos quando não estamos aquilombados, isso foi uma baita e grata surpresa. E digo exemplo, porque dali pra frente ela foi nos mostrando cotidianamente com suas conquistas o quanto podemos voar. Lilian mostra caminhos, mostra postura, mostra força, perseverança e êxito.
Além de toda essa representatividade que ela exerce na nossa história, ao longo do tempo fomos nos tornando amigas. E eu não escondo que sou amiga tiete, pois é um baita orgulho e privilégio ser amiga de quem tanto admiro. Lilian Rocha, obrigada por expandir nossa Consciência Negra! Deixo com vocês um trecho da sinopse de sua obra Rochedos também choram:
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Foto arquivo pessoal da autora |
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segunda-feira, 20 de novembro de 2023
"NEGRA É A COR DA BRASILIDADE", MARIA DO CARMO SILVA
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Maria Do Carmo Silva, arquivo da autora |
A LITERATURA COMO FERRAMENTA ESSENCIAL DE HUMANIZAÇÃO: UM ENCONTRO DIALÉTICO ENTRE AS OBRAS RECOMENDAÇÕES POÉTICAS, DE MARIA DO CARMO SILVA, E QUARTO DE DESPEJO, DE CAROLINA MARIA DE JESUS[1] Por Marta Cortezão
(...) a literatura é o sonho acordado das civilizações
(...) é fator indispensável de humanização (...). A literatura confirma e nega,
propõe e denuncia, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos
dialeticamente os problemas.
{Antônio Cândido}
Este artigo pretende mergulhar numa leitura sobre o poder de humanização que a literatura é capaz de exercer aos ávidos olhos leitores. Para esta viagem, embarco na leitura do livro Recomendações Poéticas (Cogito Editora, 2021), onde a autora Maria do Carmo Silva – professora, escritora, poeta de Mutuípe (BA) – a partir de sua escrita, nos descortina um caleidoscópio de importantes reflexões sobre o caótico mundo em que vivemos, mantendo sempre os olhos postos no horizonte das utopias e das esperanças necessárias para as mudanças futuras, estas que urgem ações para a agoridade do tempo presente, e que cujo ponto de partida é a leitura. A epígrafe que abre o livro já nos aponta o caminho: “O conhecimento liberta e promove o ser humano; a ignorância escraviza e aliena, tornando-o limitado em suas próprias palavras e ações” (Pe. José Roberto da Silva Amaral). E ainda, na apresentação do livro, a autora reforça estes questionamentos sobre esta realidade que tanto a preocupa:
Em um mundo globalizado, onde os olhares e interesses estão direcionados apenas para o capitalismo, voltados para o ter, o poder e a ganância, o nosso cotidiano resume-se à correria em prol do materialismo, dedicando um tempo mínimo para a leitura, ou muitas vezes não a incluindo na nossa rotina. (p.13)
Refletindo sobre
estas primeiras páginas, chego ao ensaio Direito à Literatura[2],
escrito na década de 80 por Antônio Cândido, onde encontra-se a definição dos
conceitos de “bens compreensíveis” (“como os cosméticos, os enfeites, roupas
supérfluas”) e “bens incompreensíveis” que são “não apenas os que asseguram a
sobrevivência física em níveis decentes, mas que garantem a integridade
espiritual”. É neste segundo conceito de bens que o autor insere a arte e a
literatura, mas com ressalva, pois “só poderão ser consideradas bens
incompreensíveis segundo uma organização justa da sociedade se corresponderem a
necessidades profundas do ser humano, a necessidades que não podem deixar de
ser satisfeitas sob pena de desorganização pessoal, ou pelo menos de frustração
mutiladora” (CANDIDO: 2011, p. 174). Não tenho dúvida de que a
literatura é instrumento de transformação maior, sou prova disso, entretanto minha
angústia é constatar o caos – o descaso e desrespeito com a educação, a
literatura, a cultura, as artes, a ciência, a saúde e tudo o que sustenta um
país que pretende cuidar com seriedade de seu povo – e ainda as injustiças sociopolíticas
no Brasil que sucederam o fatídico golpe de 2016, revelando um Brasil onde a
aliança fascista ganha força e prospera descaradamente. Contudo é preciso
contemplar os “lírios dos campos”, mais que contemplá-los, potencializá-los em
sua força de semente, interessar-se pela “terra que o alimenta” e entender de
suas fragilidades para que eles floresçam na tão esperançada “primavera
política” de 30 de outubro.
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Arquivo da autora |
Historicizando (pág. 26)
História evoca memórias, lutas e
resistências.
É o registro de cotidianas
vivências.
O tempo permite realizar os
acontecimentos.
O ser humano é o sujeito-histórico
a todo o momento.
O passado? Deixa suas marcas e
memórias.
O presente? Revela mudanças na
humana trajetória.
E o futuro? Será constituído pelo
misto de histórias
que marcaram o passado, que marcam
o presente,
perpetuando a vida dos mais
diferentes grupos humanos,
reconhecendo e valorizando a labuta da gente.
E no longe, ouço de meu silêncio, com a voz de Gil, uma resposta cantante: “Esse tempo nunca passa / Não é de ontem nem de hoje / Mora no som da cabaça / Nem tá preso nem foge / No instante que tange o berimbau, meu camará / Volta do mundo, camará / Mundo dá volta, camará”. Venha, mundo, dê suas voltas e deixe o povo no topo da pirâmide! “Que o teu povo possa tornar-se independente, / das mazelas sociais que o desumanizam e o tornam indigente”. (poema Adversa Nação, pág. 33). E a voz do eu poético se junta ao coro no poema:
Afromemórias (pág. 36)
Emergi das profundezas do Lago
Vitória.
As raízes do Baobá sustentaram a
minha história.
Os meus ancestrais resgataram a
minha memória.
A tribo, meu território, ressalta a
minha trajetória.
Sou afrodescendente!
Dos quilombos, remanescente!
Não renego a minha gente!
Dói em minha alma a escravidão que
a vida
De tantos irmãos fez deplorar!
Os senhores contemporâneos ainda
querem me acorrentar!
LIBERDADE é o meu lema! Tenho que
gritar!
Sou humana, sou negra! Sou filha da
Mãe África!
E em seus braços, eternamente deixo-me por ela embalar!
Um poema-hino para
recitá-lo em oração, um poema para profundos questionamentos. Eis que me lembro
de Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, do que ela escreve em
seu diário, no dia 13 de maio de 1958:
Hoje amanheceu chovendo. É um dia simpático para mim.
É o dia da Abolição. Dia que comemoramos a libertação dos escravos.
(...) Eu estava com dois cruzeiros. Pretendia comprar
um pouco de farinha para fazer um virado. Fui pedir um pouco de banha a Dona
Alice. Ela deu-me a banha e arroz. Eram 9 horas da noite quando comemos.
E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravidão atual – a fome! (pág. 27)
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Carolina Maria de Jesus, fonte: Pinterest |
...Eu escrevia peças e apresentava aos diretores de
circos. Eles respondia-me:
─ É pena você ser preta.
Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra, e o
meu cabelo rústico. (...) Se é que existe reencarnação, eu quero voltar sempre
preta.” (pág. 58)
Duas vozes que
se confrontam num profícuo diálogo, uma do século XX, outra do século XXI. É o
Brasil a passos trôpegos sendo destapado, em verso e em prosa, mostrando-se o
quanto nos distanciamos do Brasil de nossos sonhos! Há um Brasil que caminha
com os olhos do colonizador, presumindo de uma branquitude que não tem lugar e
nem brasilidade/representatividade. Onde está nossa LIBERDADE? A entendemos
como instrumento imprescindível de luta para a construção de uma sólida
democracia? É urgente conhecer a História de nosso povo, é urgente “assumir
nossa cor-identidade, / Libertar-nos: da discriminação histórica, / Da
subalterna colonialidade. / Somos negros! / Negra é a cor da brasilidade”.
(Ser negro, pág. 39). Somos indígenas, ribeirinhos, caboclos, somos
pretos, quilombolas. E para além das muitas e infinitas questões, somos pessoas,
somos seres humanos, somos um universo genético em que cabem todas as cores e todas
as vozes ancestrais.
A Parte II de Recomendações
Poéticas reúne 21 poemas. Neste capítulo são as águas que fluem, primeiramente,
na voz/letra de Guilherme Arantes: ...Água que nasce da fonte serena do
mundo / e que abre um profundo grotão. / Água que faz inocente riacho e deságua
/ na corrente do ribeirão. Água, um significante composto de apenas quatro
fonemas e que é um mar harmonioso de dicotomias semânticas porque abarca uma
amplidão de simbologias. Para Chevalier & Gheerbrant, no Diccionario
de los Símbolos,
Las significaciones simbólicas del agua pueden reducirse a tres temas dominantes: fuente de vida, medio de purificación y centro de regeneración. Estos tres temas se hallan en las tradiciones más antiguas y forman las combinaciones imaginarias más variadas, al mismo tiempo que las más coherentes[5]. (pág. 52)
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Arquivo pessoal de Maria do Carmo |
Descaso (pág. 53)
Labaredas consomem os biomas:
Amazônia, Cerrado, Pantanal.
Fumaça! Fogo! Paisagem
desfigurada.
Habitat animal assaltado pelas
chamas!
Espécies vegetais desmoronam
em cinzas.
Animais jazem esturricados.
O oxigênio sucumbe em meio à
poluição.
O fogo persegue os seres
vivos.
A devastação interroga o
coração humano.
O capitalismo, a ambição, a
indiferença
Provocam e aceleram a
combustão dos biomas!
A natureza geme as dores pela
queima dos seres.
Planeta Terra em caos!
Planeta consumido pelas labaredas do descaso humano e social!
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Fonte: Pinterest |
Há uma natureza que busca também regenerar a sua força interior através da beleza lírica, onde a poesia transborda e escorre liquidamente pelos desvãos da alma, refrescando os momentos de tristeza em que paramos para tomar fôlego, até porque também é preciso tecer as próprias belezas para continuar (re)existindo, ainda que o mundo exterior não seja tão animador:
Lição de pássaros (pág. 60)
A revoada de brancos pássaros
sobrevoa o Vale!
Num malabarismo sincronizado,
sobrevoa!
Despede-se da rotina diurna.
Proporciona alento aos
corações desanimados.
Transporta a noite em suas delicadas
asas.
Renova a esperança no coração de outrem.
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Carolina Maria de Jesus, fonte: Pinterest |
...O céu é belo, digno de contemplar porque as nuvens
vagueiam e formam paisagens deslumbrantes. As brisas suaves passam conduzindo
os perfumes das flores. E o astro rei sempre pontual para despontar-se e
recluir-se. As aves percorrem o espaço demonstrando contentamento. A noite
surge as estrelas cintilantes para adornar o céu azul. Há várias coisas belas
no mundo que não é possível descrever-se. Só uma coisa nos entristece: os
preços, quando vamos fazer compras. Ofusca todas as belezas que existe.” (pág.
38)
O
trecho está carregado de poesia, a prosopopeia é a figura de linguagem
predominante: “as nuvens vagueiam”, as brisas conduzem “os perfumes das
flores”, o sol desperta e se recolhe pontualmente, “as estrelas cintilantes” adornam
o azul do céu. E de repente, na voz lírica marginalizada, a dura realidade
surge abruptamente e quebra a bela e poética sequência de imagens, ofuscando
toda e qualquer beleza e nos puxando para dentro desta realidade. Em ambos os
textos, as lições são provenientes das dores cotidianas e adversas, podemos
senti-las e nos emocionarmos com estas realidades diferentes – mas ao mesmo
tempo similares – que se entrelaçam em diálogos distantes no tempo. Cada
autora, a seu modo, vai costurando infinitos na cartografia dos muitos Brasis,
pois, como diz a poeta Do Carmo, “A vida é feita de contínuas andanças.” (Adaptação,
pág. 64), e são nestas andanças que se vislumbra um universo literário
construído, capaz de nos sacudir da cotidianidade e de nos tocar, em profundidade,
o mundo das emoções, transformando-nos. Para Antônio Cândido “Toda obra
literária é antes de mais nada uma espécie de objeto, de objeto construído; e é
grande o poder humanizador desta construção, enquanto construção” (pág.
177).
A Parte
III – composta por 12 poemas – se relaciona com profunda liquidez à Parte
II, a Natureza como matriz geradora desaguando em sua abrangência simbólica
das águas. Neste capítulo é a mulher, a mãe; é este “ser mulher” transportado
pelas águas para o centro do discurso poético. É a poeta Cora Coralina que
fornece a epígrafe: “...Eu sou aquela mulher / a quem o tempo muito ensinou. /
ensinou a amar a vida... / ...Acreditar nos valores humanos...”. No contexto semântico da mulher genitrix, Chevalier & Gheerbrant
afirmam
que el simbolismo de la madre se relaciona con el de la mar, como también con el de la tierra, en el sentido que una y otra son otros tantos receptáculos y matrices de la vida. El mar y la tierra son símbolos del cuerpo maternal. (…) En este símbolo de la madre se encuentra la misma ambivalencia que en el del mar y la tierra: la vida y la muerte son correlativas. Nacer es salir del vientre de la madre; morir es retornar a la tierra. La madre es la seguridad del abrigo, del calor, de la ternura y el alimento;[6] (pág. 674).
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Céu e mar, fonte: Pinterest |
Clamor da nossa gente! (pág. 77)
Gente brava! Gente brasileira!
Gente que sonha e luta por uma
“Pátria Ordeira”!
A Ordem e o Progresso são mera
teoria?
O clamor dos teus filhos não
te angustia?
Esta gente brasileira clama
por respeito e dignidade!
A desigualdade gera os
excluídos da sociedade!
Gente brava! Gente brasileira!
Gente que não apenas sonha!
Gente que cotidianamente
labuta!
Labuta por justiça e
igualdade!
Esta brava gente
clama por Independência e
chora as mazelas sociais!
Independência!
Usufruto dos Direitos que
deveriam ser para todos iguais!
A Ordem e o Progresso não
podem ser utopia!
A gente brava brasileira luta!
Luta por uma vida digna para
todos,
não apenas para uma minoria!
Gente brava! Gente brasileira!
Gente que luta, resiste e
persevera,
Na conquista da “Independência Verdadeira!”
Nos deparamos com um queixoso clamor de uma voz lírica que protesta pela desigualdade social e que sente todas as dores deste mundo enfermiço. A voz de Carolina Maria de Jesus também se levanta contra estas mazelas sociais sempre tão presentes nos nossos Brasis, sentenciando: “É preciso conhecer a fome para saber descrevê-la (...) O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar no próximo, e nas crianças” (pág. 26). A fome é inegável, está no prato dos desamparados pelas políticas públicas, está nas estatísticas diárias, está em cada esquina, nas ruas, nos semáforos, sinalizando e escancarando um mundo decadente e desumano a nossos olhos. “E as lágrimas dos pobres remove os poetas. Não comove os poetas de salão. Mas os poetas do lixo, os idealistas das favelas, um expectador que assiste e observa as trajedias que os políticos representam em relação ao povo” (DE JESUS: 1970, p. 47). A Literatura é esta trincheira que se abre dentro de nós, em confronto com outras realidades e que tem o poder de nos humanizar, já que a literatura “tira as palavras do nada e as dispõe como um todo articulado (...). A articulação da palavra comunica-se ao nosso espírito e o leva, primeiro, a se organizar; em seguida, a organizar o mundo. (CANDIDO: 2011, p. 177).
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Arquivo da autora |
Universo Poético (pág. 83)
Instante é o tempo do poeta.
A vida do poeta é a poesia.
Sou poeta!
Edifico a poesia e nela
permaneço.
A poesia me tocou,
floriu o meu deserto interior.
Causou arrepio, temor, mas ao
livro chegou.
Sou poeta!
Escrevo, reescrevo,
expresso em verso meus mundos:
o interior e o exterior.
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Maria Carolina de Jesus, fonte: Pinterest |
Do Carmo, no poema abaixo, chama a atenção para as muitas possibilidades de leituras de mundo. Para alcançá-las é preciso deixar corpo e mente a postos para a prática da leitura diária e de compromisso, pois ler é mais que uma ação, é uma necessidade orgânica:
Multileituras (pág. 88)
Leio com a mente.
Leio com os olhos.
Leio com o coração.
Leio com a razão.
Leio nas entrelinhas.
Leio com emoção.
Leio sob a luz do sol ou da
lua.
Leio na penumbra da escuridão.
Leio refletindo sobre o
cotidiano dos seres.
Leio a vida na sua diversidade e amplidão!
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Maria do Carmo Silva, arquivo pessoal |
Entendo aqui por humanização
(...) o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais,
como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o
próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da
vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o
cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na
medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a
sociedade, o semelhante (pág. 180).
Mas não posso ir embora sem antes louvar e agradecer a resistência e existência do povo nordestino, orgulho brasileiro, apropriando-me, para isso, do fragmento do poema Identidade Nordestina (pág. 34), da autora Maria do Carmo Silva:
O Nordeste existe, insiste e resiste!
O Nordeste é o meu quinhão!
Nordestino sou de coração!
Não aceito discriminação!
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ARENDT,
Hanna. La Pluralidad del mundo. [libro digital]. Barcelona: Penguin Random House Grupo Editorial, 2019.
BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia.
[livro digital]. São Paulo: Editora Cultrix, 1977.
CANDIDO, Antônio. Vários Escritos. [Organização
do próprio autor]. São Paulo: Duas Cidades, 4ª edição, 2011.
CARMO, Silva do. Recomendações Poéticas. Salvador:
Cogito Editora, 2021.
CHEVALIER, J. & GHEERBRANT, A. Diccionario de los Símbolos. Barcelona: Editorial Helder, 1986.
DE JESUS, Maria Carolina. Quarto de Despejo – Diário
de uma Favelada. 90º Milheiro, Edição Popular, 9ª ed., 1970.
ECO, Humberto. Os limites da interpretação.
Pérola de Carvalho [Trad.]. [livro digital]. São Paulo: Perspectiva, 2015.
RICOEUR, Paul. Interpretação e ideologias.
Milton Japiassu [Tradução e organização]. Rio de Janeiro: Francisco Alves,
1990.
[1] A primeira versão desse artigo foi publicada na Revista Literária
Voo Livre, edição nº 27, Outubro de 2022.
[2] CÂNDIDO, Antônio.
Vários Escritos. [Organização do próprio autor]. São Paulo: Duas Cidades,
4ª edição, 2011, p. 174.
[3] Carolina Maria
de Jesus (1914-1977)
nasceu em Sacramento (MG). Cursou apenas a primeira e a segunda série do antigo
ginásio. Escritora brasileira que ficou conhecida após a publicação do best
seller autobiográfico Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, em
1960, edição do repórter Audálio Dantas. Com o sucesso alcançado nas vendas,
Carolina logra abandonar a favela e passa a residir no Alto de Santana (SP).
Nos anos seguintes publica: Casa de Alvenaria: Diário de uma Ex-favelada
(1961), Pedaços da Fome (1963), Provérbios (1965).
[4] Deixo um link que faz uma interessante abordagem sobre os sentidos semânticos
dos adjetivos “preto” e “negro” que vêm sendo bastante discutidos em nossa
contemporaneidade: https://www.youtube.com/watch?v=bu4aBxrYGJU
[5] As significações simbólicas da água podem reduzir-se
a três temas dominantes: fonte de vida, meio de purificação e centro de regeneração.
Estes três temas se encontram nas tradições mais antigas e formam as combinações
imaginárias mais variadas, ao mesmo tempo que as mais coerentes.
[6] que o simbolismo
da mãe se relaciona com o do mar, como também com o da terra, no sentido que uma
e outra são outros tantos receptáculos e matrizes da vida. O mar e a terra são
símbolos do corpo maternal. (…) Neste símbolo da mãe se encontra a
mesma ambivalência que no do mar e no da terra: a vida e a morte são
correlativas. Nascer é sair do ventre da madre; morrer é retornar à terra. A mãe
é a segurança do abrigo, do calor, da ternura e o alimento;
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