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"E, por que nos matam? Porque somos mulheres."
Cara leitora, caro leitor!
Estamos às vésperas do Natal e nunca a presença do amor e da
empatia se fez tão necessária! Convido aquelas e aqueles que se engajam no
movimento feminista para esta reflexão, me embasando no poder da poesia, que
grita e se expõe sem medo, à espera de que as palavras aqui reunidas encontrem
eco e façam sentido a partir do poema ANUNCIAÇÃO (Margarida Montejano/2023):
Anuncia a
mulher que labuta, que urra, que luta,
briga pelo pão,
insiste contra o não e é o que pretende ser.
Anuncia! explica
a mulher que abre a porta para o dia,
que enfrenta
a rotina de se saber aflita.
Enquanto o
infinito não vem, anuncia,
arregaça as
mangas da avó, da mãe, da filha e grita:
Quem mandou
matar Marielle?
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E assim tem sido. Uma
menina, uma mulher, duas mulheres, três, quatro, dez... De acordo com o Mapa da Violência de Gênero,
no primeiro semestre de 2025, 718 feminicídios foram registrados em
todo o país — uma média de cerca
de 4 mulheres mortas por dia pelas mãos de um homem, um feminicida.
No mesmo período foram contabilizados 33.999 estupros contra meninas e mulheres,
na média de 187 casos por dia, realizados no interior de suas
próprias casas e, na sua maioria, por familiares e conhecidos da família. A
cada minuto, microviolências ocorrem sobre a vida, a mente e o corpo de uma
mulher.
E,
por que nos matam? Porque somos mulheres. Porque ousamos pensar e desafiar a
ordem estabelecida que enfatizou e enfatiza que sempre foi assim e que assim
deve ser. Recusamos a ideia de que existem papeis específicos para cada gênero
e que estes devem ser propalados e perpetuados, pelos séculos dos séculos.
Essas
pseudocertezas, repetidas ao longo do tempo de maneira intencional pelas
instituições, família, igreja e sociedades, produziram e produzem, o empoderamento
dos homens, engendrando uma estrutura social baseada no modelo patriarcal hierarquizante.
Nesta forma de atuar historicamente sobre as gerações, foram e vão se
solidificando as convenções, tendo como base
formativa a misoginia, sustentada pela prática de ações sexistas e machistas de
homens frágeis e fracos emocionalmente. Forjados para serem fortes, são eles
educados para não desenvolverem em si o afeto, a empatia, o cuidado. Homens que,
seduzidos por um suposto poder e força, não conseguem lidar com contrariedades
e, por isso, violam a consciência, ferem, estupram, desqualificam, desfiguram o
corpo e o rosto e, por fim, assassinam as mulheres com requintes de perversão e
crueldade.
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Violência
abjeta, praticada na maioria das vezes contra aquelas as quais eles, valendo-se
de um pronome possessivo que lhes garante uma pretensa superioridade, as chamam
de “sua”: “sua mulher”, “sua filha”, “sua mãe”, “sua irmã”, “sua amiga”, “sua
colega”... Parece que submetê-las às formas mais vis de violência configura-se
num direito, porque as consideram um mero “objeto de posse”, algo de sua
propriedade, de modo que lhes é permitido fazer o que bem entenderem com elas,
sejam maridos, namorados, filhos, parentes, amantes...
Sem
escrúpulos, muitos compartilham nas redes sociais sua valentia desprovida de
qualquer traço de empatia e de humanidade, expondo a crueldade do ato em si, gratuito
na aplicação e rentoso na execução, pois algoritmos sobem e monetizam. Assim quanto
mais brutal e degradante for a ação criminosa sobre o corpo da mulher, mais
rentável será e maior repercussão terá entre os grupos de homens que propagam o
ódio às mulheres.
É
uma realidade amedrontadora, que se articula com base no interesse econômico, visando
a manutenção do patriarcado e é amplamente disseminada pela força midiática. Em
2023, num evento em Campinas, a atriz e cantora, Elisa Lucinda, comentou sobre
esses acontecimentos: “Colocamos filhos no mundo para nos matar”. Esta
afirmação contundente encontra eco na literatura e na voz feminina gritando
que, quando uma mulher é assassinada, todos, de algum modo, morrem!
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Assim,
somos todos os dias sacudidas pelo noticiário de mais mulheres sem vida. Nos
assustamos e nos indignamos com a atrocidade desses atos e com os vergonhosos índices
de feminicídio, denominando aqueles que os praticam como monstros e insanos. Contudo
eles não são nem uma coisa nem outra: eles nada mais são do que homens com a
masculinidade exacerbada e com dificuldade em gerir a própria sexualidade.
Apoiam-se na toxidade das ideias neles incutidas como verdades e se portam como
se naturalmente lhes coubesse o papel de dominar. Entretando, por trás dessa
virilidade intensificada pelo machismo escondem-se sujeito débeis, frágeis e
impotentes que não suportam o direito de uma mulher ser, estar, existir e ter
autonomia para dizer “sim” e “não”. Logo, precisam se valer da força física e
da intimidação. Segundo a advogada criminalista, Erika C. Furlan, “O avanço
em direitos e garantias para as mulheres incomoda o público masculino hétero,
porque hoje a mulher não aceita mais qualquer tipo de relacionamento [...]”. Ela
reage.
Por
isso essa estrutura misógina, diz Virginia Woolf, teme o Feminismo, porque sabe
que este movimento social, político e ideológico reivindica a igualdade social,
econômica e política entre homens e mulheres, a autonomia feminina e o fim da
violência contra a mulher. Essa luta carrega em seu ventre o sangue e a força
ancestral de mulheres que resistiram às atrocidades por eles já cometidas e que,
por conta disso, tem o poder de vislumbrar relações que reconheçam
incondicionalmente os direitos da mulher.
Nesse
cenário desafiador não tem como não apostar na educação, pois o conhecimento
esclarecedor se transforma no instrumento eficaz para combater o ódio. Erika C.
Furlan acrescenta que “O importante é sempre prevenir, o que é muito difícil
numa sociedade em que o machismo é estrutural e a disseminação de grupos
conservadores misóginos alimentam o imaginário e o ideário de homem macho varão
provedor e mulher submissa. Deste modo, a formação de crianças desde cedo é
o caminho mais seguro para se desconstruir, através do desenvolvimento da
consciência histórica e, sobretudo crítica, o quanto essas práticas seculares nos
violentaram e subjugaram.
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Não
se pode omitir que a misoginia é o preconceito contra as mulheres mais antigo
que existe na trajetória da humanidade. Mais que ódio às mulheres, é um
sentimento que emerge como uma construção histórica pautada na hierarquia dos
sexos, em que os homens são tidos como seres superiores e, por conta dessa crença,
as mulheres que colocassem em risco essa estrutura hierárquica deveriam ser
punidas. Diante dessa perspectiva calcada no ressentimento, na raiva e medo de
perder privilégios, práticas como o machismo e o sexismo tornaram-se seus
principais difusores.
É
preciso entender bem esses conceitos. O machismo se revela por comportamentos,
opiniões e sentimentos que consentem e validam a desigualdade de direitos entre
os sexos. Por isso admite que a mulher, por ser considerada inferior ao homem,
possa ser subjugada motivando a violência contra ela e a sua repetição, via de
regra, pode conduzir ao feminicídio. Por sua vez, o sexismo é a crença de que
homens e mulheres devem ocupar papéis específicos, os quais são determinados
com base no sexo, envolvendo brinquedos, atividades, cores e tipos de roupa
etc. Ao se desobedecer ou contrariar esses padrões, se reforça e se estimula o
ódio às mulheres, justificando condutas amparadas na convicção de que elas
necessitam ser controladas e punidas.
Frente à tragicidade que esses episódios representam, torna-se indispensável que a
misoginia seja considerada crime hediondo inafiançável e que o controle
rigoroso das redes sociais possa se constituir num instrumento capaz de
neutralizar e combater os estímulos à violência de gênero. Porém, mais
importante é a implementação nas escolas de projetos educacionais que vise,
desde a infância, uma sólida formação embasada na proteção dos direitos da mulher, conforme o Art.5º da Constituição Federal de 1988.
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E quanto a nós mulheres, não esquecermos que estamos em rede e em rede enredadas estamos. Cabe-nos estar coletivamente em contínua vigilância na luta por
salvaguardar direitos já conquistados e por assegurar aqueles que ainda estão e
estarão em pauta, a fim de que nossa dignidade seja integralmente reconhecida. Daí
a importância de se fazer valer o fato de que somos maioria e eleger candidatas
e candidatos efetivamente comprometidos com políticas afirmativas que visem a
justiça e equidade social e o combate à desigualdade de gênero.
Não
se pode baixar a guarda jamais, pois a estrutura patriarcal é ardilosa, não
dorme nunca e está sempre à espreita para nos devorar e submeter com as
ferramentas de que dispõe. O demônio que
estupra e mata mulheres e crianças é um homem que teme a convivência em
condições de igualdade, a empatia nos relacionamentos e a força feminina.
Nossas Ancestrais estão em vigília constante nos inspirando a renovar nosso
poder intuitivo e a força vital de nossas entranhas! Não desanimemos! Não estamos sozinhas!
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| Arquivo da autora |
Margarida Montejano, mora em Paulínia/SP. É Poeta e escritora feminista; Func. Pública na Secretaria Municipal de Educação de Campinas. Defensora ativa dos direitos da Mulher, sendo membra do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Campinas; Coordenadora do Projeto Bem-Me-Quero: Empoderamento Feminino e Igualdade de Gênero e, Produtora do Canal Literário – N’outras Palavras – histórias que inspiram, no Youtube. Autora dos livros Fio de Prata - Ed. Siano (2022); Chão Ancestral, TAUP Editora (2023) e dos livros infanto juvenis A Poeta e a Flor e A Poeta e a Sabiá, pela Editora Siano. (2024). Para contatar com a autora: @margaridamontejano.escritora