"é difícil aceitar o perfume quando o ar está saturado pelo cheiro de pólvora"
Por Rilnete Melo
Oito de março. Aceito o café na cama, mas engulo um calendário que insiste no vermelho para marcar o feriado que celebra “O dia internacional da mulher” que, na verdade, é um marco das nossas lutas e conquistas. Tudo bem, tento entrar no clima do dia, mas sobre mulheres o que vejo é o vermelho que escorre na TV e nas redes sociais. Neste dia, as flores ofertadas parecem pesar toneladas, pois é difícil aceitar o perfume quando o ar está saturado pelo cheiro de pólvora, de medo e de uma injustiça que se renova a cada noticiário.
Dizem que o lar é o porto seguro, mas para milhares de brasileiras, ele é o epicentro do abalo sísmico. O feminicídio não é um raio em céu azul; é o estágio final de um roteiro escrito a muitas mãos, pela posse travestida de amor e cuidado, pelo silêncio dos vizinhos e pela cegueira de um “Sistema” que chega sempre depois que o corpo já esfriou. As formas brutais de morte, que temos visto ultimamente, com requintes de crueldades - que desafiam a sanidade -, não são apenas crimes; são mensagens de ódio e dor enviadas a todas nós, um lembrete violento de quem ainda se julga dono da vida alheia.
E se o fim é trágico, o começo é desolador.
Recentemente, Minas Gerais nos esfregou na cara a ferida aberta da nossa falha civilizatória. Uma menina de 12 anos, uma criança que deveria estar ocupada com cadernos, brincadeiras e o florescer lento da juventude, vivendo com um homem de 35. Não consigo chamar isso de "relacionamento", o nome é estupro de vulnerável, é exploração, é o roubo sistemático de uma infância que nunca será devolvida. Quando permitimos que normalizem relações de "homens mais velhos com crianças", estamos pavimentando o caminho para o abuso, estamos dizendo que o corpo de uma menina é um território a ser conquistado, e não uma vida a ser protegida.
E essa violência travestida de "amor" é só a ponta do iceberg, por baixo dela sustenta-se, há séculos, a montanha de gelo da desigualdade, do machismo e da misoginia. É a mulher que não sai de casa porque não tem autonomia financeira, a mãe que acumula três jornadas e ainda é culpada pela "rebeldia" dos filhos, a menina que aprende desde cedo que o seu "não" vale menos que o desejo de um homem.
Almoço a dois, mas nesse dia degusto o feminismo não como uma escolha teórica ou uma pauta de militância distante, mas como um kit de sobrevivência, como um grito que exige que as meninas de 12 anos sejam apenas crianças e que as mulheres adultas não se tornem estatísticas antes do jantar.
Que a nossa indignação seja maior do que o que nos alimenta de maneira indigesta, porque, enquanto uma de nós for silenciada pelo cano de uma arma ou pela mão de um abusador, nenhuma de nós estará, de fato celebrando “O dia internacional da mulher”.
Rilnete Melo é maranhense, poeta, escritora, cronista e cordelista, membro das academias de letras ACILBRAS e ABMLP, colunista no blog Feminário Conexões e colaborada da Revista internacional The Bard, coautora de várias antologias nacionais e internacionais, vencedora de seis concursos literários, autora dos livros Construindo Versos, O máximo de mim e outros mínimos poemas, Pérolas do meu silêncio, zine Dezcontos micros e autora de cinco cordéis.





Parabéns pelo texto, Rilnete Melo. A compreensão da necessidade de expressar os sentimentos contraditórios que nos atravessam nesse dia de luta/escuta/reflexão/resistência. Sim, compartilhemos, pois nos queremos VIVAS: "O feminicídio não é um raio em céu azul; é o estágio final de um roteiro escrito a muitas mãos, pela posse travestida de amor e cuidado, pelo silêncio dos vizinhos e pela cegueira de um “Sistema” que chega sempre depois que o corpo já esfriou."
ResponderExcluirObrigada pelo olhar significativo e impulsionador. 🤝🏻🌸
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