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Montagem de Elizabete Nascimento |
GRÁVIDA DE MÚSICAS E CANÇÕES, OFERTO-LHES OS
DEVANEIOS POÉTICOS DE JANETE MANACÁ
Por Maria Elizabete N. de Oliveira
A
importância vocal de uma palavra deve, por si só, prender
a atenção de um fenomenólogo da poesia. A palavra alma pode ser
dita poeticamente com tal convicção que anima todo um poema. O registro poético
que corresponde à alma deve, pois, ficar em aberto para as nossas indagações
fenomenológicas.
Gaston Bachelard, 2005
Oferto-lhes para brinde natalino, nesse ano de 2025, o poema Aborto, de Janete Manacá:
ABORTOS
é
imprescindível expulsar as tristezas internas
e
esvaziar-se para receber as dádivas do amanhä
abortei
tudo que ouvi
durante
toda a minha vida
e
que intoxicou o meu corpo
abortei
as cicatrizes internas
cada
pedra que me atiraram
e
as palavras que me dilaceraram
abortei
as culpas que me impuseram
mágoas
dos abraços negados
e
o pavor de ser rejeitada
abortei
o incômodo da ingratidão
as
vezes que fingiram não me ver
o
rosto virado para não me cumprimentar
abortei
as críticas ácidas e cruéis
as
mentiras que disseram a meu respeito
e
o meu pânico diante do espelho
abortei
o sentimento de impotência
as
lágrimas cristalizadas na alma
e
tudo que neguei por não me aceitar
hoje
em êxtase e grávida de músicas
eu
quero apenas parir canções de amor
que
possam inspirar outras gerações.
Antonio Candido (2011), em sua teoria sobre a
função humanizadora da literatura, endossa que a arte literária é essencial
para que o ser humano se reconheça, se sensibilize e transcenda sua própria
existência. O poema de Janete Manacá dialoga diretamente com essa perspectiva,
pois o "abortar" simbólico descrito no texto não é apenas um ato de
negação, mas um processo de libertação e reconstrução do eu, vejamos: Abortei
tudo que ouvi/ durante toda a minha vida.

O poema atribui voz à subjetividade de um eu que
busca se purificar das amarras sociais, das narrativas que o aprisionam. Nesse
ínterim, Candido sugere que a literatura é um espaço de reconstrução da
dignidade humana, e nesse poema, o eu lírico busca essa redenção ao expulsar as
"intoxicações" advindas do sistema capitalista no qual nos inserimos.
Nessa vertente, literatura é catártica e humanizadora, pois apresenta como
culminância desse processo: [...] quero apenas parir canções de amor / que
possam inspirar outras gerações. Assim,
a literatura e a arte apresentam o movimento entre a morte e o
renascimento como dádivas criativas que ultrapassam o sofrimento individual,
transformando-se em bens coletivos, reflexos dos processos humanizadores
defendidos pelo autor.
Ainda na vertente do diálogo, Beth Brait (2010) discute
as vozes discursivas ao convidar para o debate o dialogismo baktiniano e enfatizar
que a literatura é um espaço de diálogo entre múltiplas vozes e
discursos. Assim, o poema "Abortos" pode ser lido como uma resposta
direta a vozes sociais opressoras e internalizadas, em um processo de confronto
e apagamento dessas vozes, em [...] as
palavras que me dilaceraram e [...] as críticas ácidas e cruéis; Janete
Manacá dá destaque às vozes que marcam negativamente à identidade do sujeito.
Essas falas sociais tornam-se tóxicas e devem ser "abortadas". O
poema, portanto, insere-se em um jogo dialógico: primeiro, escuta-se a
voz opressora, depois, ela é rejeitada e transformada. O "eu lírico" constrói uma nova
voz ao dizer: [..] hoje em êxtase e grávida de músicas. Um enunciado
marcado por positividade, amor e criação que sugere uma ruptura com o discurso
anterior. Ao considerar a voz de Beth Brait, trata-se de um deslocamento do
sentido: o discurso opressor é esvaziado para dar lugar a uma nova enunciação.

Essa nova
enunciação alia-se as imagens propostas por Gaston Bachelard e a poética do
espaço interior, em sua obra A Poética do Espaço (2005), pois
estas surgem da interioridade do ser humano, ao analisar a casa como
metáfora do eu, com seus espaços íntimos e ocultos. No poema
"Abortos", o corpo e a alma do eu lírico tornam-se esse espaço
simbólico, no qual dores e experiências negativas foram "guardadas" e
precisam ser expulsas e o ato de "abortar" pode ser interpretado como
uma [...] limpeza do espaço interno: /[...] é imprescindível expulsar
as tristezas internas e esvaziar-se. A imagem do esvaziamento apresenta-se
como um ato essencial para a renovação do ser. Segundo Bachelard, o espaço
precisa ser "preparado" para o novo, assim como a alma do eu lírico
se prepara para "parir canções de amor". O autor valoriza a imagem do
sonho e da criação poética. Assim, o "êxtase" e a gravidez de
músicas simbolizam um espaço imaginário onde a criação poética surge
como forma de ressignificação da vida.
Essa
concepção emaranha-se também à poética do tempo e do renascimento de Octavio
Paz (1982), em que o autor apresenta a ideia de morte e renascimento
como centrais ao fazer poético. Para Paz, a poesia é capaz de quebrar o tempo
linear, transformando o passado em presente e criando um novo futuro. Neste
viés, o poema "Abortos" encarna esse ciclo de morte simbólica
e renascimento criativo, pois o ato de abortar simboliza o fim de um
ciclo marcado pela dor e pela rejeição: [...] abortei as culpas que me impuseram
/ mágoas dos abraços negados. A palavra "abortar" é impactante
porque carrega uma conotação de interrupção, mas no contexto do poema, ela é
ressignificada como libertação, redimensiona
o sentido inicial. Octavio Paz diria que o tempo é refeito aqui: as
culpas passadas são "abortadas" para que o eu lírico possa se recriar
no presente. Deste modo, o poema culmina em um futuro criativo e inspirador:
[...] quero apenas parir canções de amor. Esse verso dialoga com a ideia
de Octavio Paz de que a poesia é um ato de criação que transcende a destruição,
sendo o amor e a música símbolos do renascimento do eu e a sua capacidade
de oferecer algo ao mundo ao romper com o ciclo de dor.

Podemos inferir que o poema "Abortos"
de Janete Manacá é uma poderosa expressão do renascimento do sujeito
feminino, que, ao "abortar" tudo o que o oprime, reconstrói-se de
forma criativa e amorosa. Por intermédios das lentes teóricas de Antonio
Candido, Beth Brait, Gaston Bachelard e Octavio Paz, percebe-se que o texto
dialoga com a literatura como espaço humanizador, com a ruptura dos discursos
opressores, com a poética da interioridade e com o tempo cíclico de morte e de
criação, tão caro à literatura de autoria feminina porque é a própria pele. Assim,
o ato de "parir canções de amor" simboliza não apenas a superação
pessoal, mas também o compromisso do eu lírico feminino [por que parir é uma
ação exclusivamente feminina] com um futuro inspirador que se conecta a função
essencial da arte e da poesia: transformar dores em dádivas.
Que possamos, minhas
companheiras, parir muitas canções de amor em 2025 e continuar com a po-ética
do abraço.
Um brinde à vida!
Referências
bibliográficas
BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
BRAIT, Beth. Literatura e outras linguagens. São Paulo: Contexto,
2010.
CANDIDO. Antonio. O direito à literatura. In: CANDIDO,
Antonio. Vários Escritos. Rio de
Janeiro: Ouro sobre azul, 2011.
CORTEZÃO, Marta. II Tomo das bruxas: corpo & memória. Curitiba:
Eu-i, 2024.
PAZ, Octavio. O arco e
a lira. Trad. Olga Savary. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
** Imagens do texto - fonte: Pinterest.
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Janete Manacá (Cuiabá/MT)
- é devota de Gaia, apaixonada pela vida, rios, florestas, animais... Tem a
poesia como uma grande aliada e a música uma dádiva, ambas se complementam no
seu bailado cotidiano para se autoconhecer, ser melhor e superviver.
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Elizabete Nascimento (Cáceres/MT) - é poeta, professora e avó. O silêncio e o
tempo são seus mestres e, por isso, tenta guardar as dores com dignidade e as
ressignifica em páginas, na ânsia de apontar que o verbo pode ser abrigo, cura
e voo. Cada palavra que rabisca é na tentativa de ofertar um sopro de esperança
ao mundo. Aprendeu que escrever e amar são, voos de pássaros, os únicos
caminhos, verdadeiramente, eternos.