sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A POESIA DAS PEQUENAS COISAS - A OBRA POÉTICA DE ASTRID CABRAL

Astrid Cabral: “exímia inventora de tesouros, a explorar os preciosos filões dos sentimentos”

Palestra de Rita Alencar Clark sobre a escritora amazonense homenageada na Feira do SESC 2025, Astrid Cabral. A Feira teve curadoria de Leyla Leong. A palestra aconteceu no dia 30 de outubro de 2025, às 15:00h, no Centro de Convenções Vasco Vasques (Manaus/AM).

Astrid Cabral

1. Como se faz um bom poema, Astrid?

Quando aceitei o convite de Leyla Leong para falar de Astrid Cabral, da sua poesia diária, a Poética das Pequenas Coisas, grandes ou delicadas, que nos deparamos pela vida, de certo que aceitei e quero, antes de tudo, agradecer-lhe a honra de estar aqui.

E de tanto pensar no que escreveria, vieram-me lembranças intensas de nossa convivência familiar no Rio de Janeiro, onde todos morávamos. Astrid nunca faltou, não sem avisar, a um aniversário do meu pai, seu companheiro de poesia e Clube da Madrugada, Alencar e Silva, para ela, o Neto. Naqueles dias, fomos convidados para o almoço de aniversário de Astrid, em seu apartamento no Parque Guinle. Meu pai já acordara ansioso e assobiando, sempre temendo inevitáveis atrasos. “Nair… compraste o presente da Astrid?  Sim, Neto”. E foi pra esse lugar que minhas memórias me levaram.

Como em toda casa de amazonenses, fomos recebidos por Astrid e doutor Afonso com abundância de delicadezas, incluindo-se o, sempre farto, menu amazônico. Mamãe e Astrid, antes do almoço, trocavam informações e urgências, fossem novidades fresquinhas de Manaus, fossem receitas fantásticas, agruras da maternidade desejada e a realidade de serem mulheres e trabalharem fora… não se tinha uma brecha no diálogo. E eu, com um caderninho na mão, de tocaia para fazer uma intervenção, quando ela falou: “Ritinha, senta aqui do meu lado”. Como caloura do curso de Letras na Santa Úrsula, não podia perder a oportunidade de entrevistar Astrid Cabral. Ela pegou na minha mão e perguntou: o que queres saber? “Como se faz um bom poema?” Rimos as duas em cumplicidade, ela respondeu, ainda sorrindo, que “primeiro tens que dominar a gramática, qual usas?”  Cunha, Luft e Cegalla, respondi. “Pois, lute com eles! Depois, comece a dominar a arte de cortar... os primeiros serão os artigos, depois preposições e interjeições, por último os adjetivos. O que sobrar é o esboço do poema. E, então, começas o trabalho de lapidação”. Que maravilha de resposta, nunca pude esquecer e até hoje impacta no meu processo criativo. Astrid, para mim, é a tia escolhida, por saber da grande amizade, respeito e admiração de meu pai por ela, pela grande poeta que é. Após o almoço todos iam para o living e, entre licores e cafés, a tarde se estendia, era só poesia. 

Arquivo da autora

2. Os versos, essas aves das ideias

Segundo Alencar e Silva, em artigo sobre Astrid  (Quadros da Moderna Poesia Amazonense  Valer, 2011): “Astrid Cabral Félix de Sousa nasceu em Manaus, a 25.9.1936, onde integrou o movimento renovador Clube da Madrugada, desde as primeiras horas, transferindo-se ainda adolescente para o Rio de Janeiro, onde diplomou-se em Letras Neolatinas, na atual UFRJ e lecionou Línguas e Literatura na Universidade de Brasília, saindo em 1965, em consequência do golpe militar.

Ingressou posteriormente no Itamaraty, onde serviu como Oficial de Chancelaria em Brasília, Beirute, Rio de Janeiro e Chicago. Casada com o poeta Affonso Felix de Sousa, é mãe de cinco filhos: Raul, Alfredo, Giles (já falecido), Isabela e Mariana. Detentora de importantes prêmios, participa de numerosas antologias no Brasil e no exterior (...) Sua obra poética já se estende por mais de dez títulos, entre os quais se contam: Alameda, 1963 (ficção); Ponto de Cruz, 1979 (poesia); Torna Viagem, 1981 (poesia); Zé Pirulito, 1983 (estória infantil); Visgo da Terra, 1986 (poesia); Lição de Alice, 1986 (poesia); Rês Desgarrada, 1994 (poesia); De déu em déu, 1998 (poesia reunida); Intramuros, 1998 (poesia); Rasos d’Água, 2003 (poesia); Jaula, 2006; Antessala, 2007; 50 poemas escolhidos pelo autor, 2008; Palavra na berlinda, 2011; Infância em franjas, 2014; Sobre escritos: Rastros de leitura (Crítica literária ensaios de Astrid Cabral  Org. Helena Ortiz, 2015). É detentora dos seguintes prêmios: José Décio Filho, da UBE-GO, 1981; Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras, 1987; Casa do Escritor, São Paulo, 1987; Cine-vídeo de Porto Alegre/Lei Sarney, 1987; e Jorge Fernandes, da UBE-RJ, 1996, entre outros."

Vejamos um poema de Alencar e Silva para Astrid, no primeiro livro do autor, Painéis, 1952:

À Astrid Cabral

Tens na voz algum ninho, um ninho de ouro,

que lembra, numa chuva de açucenas,

as manhãs claras, musicais, serenas,

de um celeste e rosado logradouro


E ouvir-lhe os sons, ouvir esse tesouro

de harmonias de mágicas avenas, 

é dar asas à alma e ver-se apenas

voando à claridade de um céu louro.


Pois, quando surges, luz e canto, em cena,

voando de tua garganta de açucena,

os versos, essas aves das ideias,


como que aroma e música espalhando,

as almas todas vais sonorizando

e arrebatando as lívidas plateias.”

Alencar continua em sua resenha crítica: “Um dia, quando ia em pleno andamento a segunda caravana que empreendêramos, pelo sul do país, com Jorge Tufic, Antísthenes Pinto e Guimarães de Paula (...) estivemos em visita de cortesia à nossa conterrânea, que se encontrava hospedada num pensionato para estudantes, na Rua da Glória, no Rio de Janeiro, cidade onde ela se diplomaria em Letras Neolatinas, pela Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil, atual UFRJ.” Apesar da distância entre Manaus e Rio de Janeiro, além de todas as dificuldades de deslocamento, pois estamos falando dos anos de 1953/1954, o posto de musa no Clube da Madrugada sempre foi cultivado e respeitado por seus companheiros de poesia, como nos relata aqui Alencar e Silva: “Desde a adolescência, Astrid Cabral tem tido destacada participação na vida cultural de Manaus, quer atuando em grêmios literários, como a SAEL (Sociedade Amazonense de Estudos Literários, que ela ajudou a fundar e levou a funcionar em uma sala do Instituto de Educação, cedida por sua diretora, e avó, Dona Eunice Serrano Telles de Souza), quer em publicações de vanguarda, como o jornal “Nossos Dias”, de Francisco Vasconcellos e João Bosco Evangelista, onde apareceriam os seus primeiros poemas. E o autor de Lunamarga continua: “Além do toque de qualidade que a distingue, o que sobreleva na obra de Astrid Cabral (...) é, sem dúvida, a consciência profissional em que se espelha o seu saber-fazer poético.” (...) “atesta, efetivamente, a presença de uma poderosa força criadora, que se exerce, com total domínio, sobre a palavra emprestando-lhe à linguagem aquela ressonância, a um tempo próxima e distante, aparentemente estranha e aparentemente familiar, das coisas eternas. (...) “Visgo da Terra” obra em que celebra a memória dos seres e coisas que povoaram a paisagem do que fora Manaus da sua adolescência  aquele, entre os seus livros, em que melhor podemos observar uma das faces mais constantes de sua poesia  a das EVOCAÇÕES  e, aí, vê-la como exímia inventora de tesouros, a explorar os preciosos filões dos sentimentos e a trazer de seus subsolos as gemas mais belas, para maior glória de sua cidade.” (ALENCAR E SILVA (Quadros da Moderna Poesia Amazonense, Ed. Valer, 2011).

Astrid Cabral

3. A poética das pequenas coisas

Astrid Cabral faz a Poesia das Pequenas Coisas. O seu olhar costura o poema por dentro, alinhavando com precisão, na imaginação do seu leitor, os versos no pensamento, que flutuam no ritmo do poema, vislumbrando decifrar-lhe as metáforas, buscando as chaves e códigos do poema. 

Vejamos o que nos diz José Godoy Garcia, na edição de Astrid Cabral-50 poemas escolhidos pelo autor (Edições Galo Branco, RJ,2008): “A começar pelo título do livro, Ponto de Cruz, onde principiamos a tomar contato com as pequenas-grandes coisas da vida doméstica, como que colocadas harmoniosamente sobre a mesa. Mas, como toda a boa poesia, esta que nos vem de Astrid não nos prende à aridez e ao limitado território das palavras. Do exíguo mundo, das humildes e pequeninas coisas do dia-a-dia da cozinha, da casa, do quintal, projeta-nos alto e longe, graças ao mistério que só os autênticos artistas conseguem alcançar.”

Ponto de Cruz        (recorte do  blog Alma Acreana)

Lá fui eu ao armazém

comprar açúcar e mel.

Voltei com um quilo de sal

na boca o gosto do desgosto

lágrimas no rosto embutidas.

No balcão ao pedir vinho

vinagre me foi servido,

queria um maço de fogos

chuvas de prata e estrelas

para comemorar a noite

porém só havia velas

com que imitar o dia.

Lá fui eu ao armarinho

(tangida por que ventos

por que pérfidas sereias?)

comprar um dedal de amor.

Voltei com este coração

são sebastião de alfinetes.

O peito? retrós entaniçado

por mil linhas de aflição

euzinha toda por dentro

que nem pano em bastidor:

bico de agulha finoferoz

sobe-desce-sobe bordando

minha vida em ponto de cruz. 

(CABRAL, Astrid. De déu em déu: poemas reunidos (1979/1994). Rio de Janeiro: Sette Letras, 1998. p.42)

No poema que dá o título ao livro, podemos observar com nitidez o poder evocativo da poesia de Astrid, que se destaca pela capacidade de sugerir e provocar sensações, lembranças e estados de espírito no leitor, em vez de descrevê-los diretamente. O “manuseio” de recursos tais como: a subjetividade, o simbolismo, oposições de ideias, ritmos, aliterações, assim como temas como o “eu” interior, a melancolia e o mistério. Tudo isso faz do poema um repositório de imagens poéticas que buscam uma expressão espiritual e etérea, para criar uma atmosfera misteriosa e transpessoal.

De déu em déu

No livro De déu em déu 
 Poemas reunidos (1979-1994), o Professor Dr. Antônio Paulo Graça nos diz sobre Astrid, em seu artigo de apresentação: “Se “Torna-Viagem” se abria para o espaço amplo, para o exterior (em todos os sentidos), “Lição de Alice” se concentra na intimidade, no mínimo espaço, na vida doméstica e nas experiências que uma voz sensível, muitas vezes, outras, extremamente cáustica, não faltando mesmo, aqui e ali, um toque de crueldade. O leitor de Astrid Cabral não deve se deixar envolver inteiramente por sua sensibilidade. Como antídoto, preste-se atenção nos versos finais de ‘Nudez’  “Mas bendizemos o corpo que nos redime / e nos queremos selvagens, puros, nus. / Salvos pela misericórdia de nossa miséria.”  em que o paradoxo da última linha não nos deixa esquecer nossa condição liliputiana. Ao lado desse pendor crítico, há também uma tentação pela agressão pura, agressão contra as falsas convenções.”

Lição de Alice

No vale de lágrimas

a lição de Alice:

Não se deixar afogar.

Nadar na preamar

da própria dor.

Astrid Cabral  50 poemas escolhidos pelo autor

A primeira Lição de Alice (Philobiblion, 1986), ou seja, de Astrid Cabral, é precisamente a de levar ao leitor uma lição de pura poesia. Com raro domínio da linguagem poética, a autora ensina a difícil fórmula de, com poucas palavras, transmitir o essencial. Poesia evocativa, confessional, porém limpa: nem adornos exagerados, nem enxugamentos tais que retirem da pele do poema a própria essência poética.: “Tanta a febre de deter o instante / e sempre os rios a correrem/enchente ou vazante.” (Lenilde Freitas, em resenha crítica no livro Astrid Cabral-50 poemas escolhidos pelo autor – Edições Galo Branco, Rio de Janeiro, 2008).

Um dos poemas mais perfeitos desse livro, citado acima, na minha opinião, é “Sísifo de Avental”. Faz parte da vida de todos nós, que a lemos, essa sensação de estranha intimidade com que Astrid calibra seus versos e metáforas, como a dizer “em segredo” que somos cúmplices nas inconsistências da vida. A sua visão das pequenas coisas do dia a dia, a rotina, os filhos, a casa, o amor e o grande desafio de fazer poesia das alegrias e dores, ironias e resiliências, das agruras de existir, afinal. Existir num tempo/espaço, onde as mulheres estão em plena ascensão profissional no mundo, e de tudo o mais que a vida vai nos ensinando na prática, nos direciona o olhar a distâncias inusitadas, assustadoras e belas. Astrid encontra tempo e disciplina para escrever e nos encantar, definitivamente, com sua poesia. 

Sísifo de avental

Sísifo de avental

enche e reenche panelas

que se esvaziam na lida

de almoços e jantares

a encadear os dias

pois sempre vem a fome

que, voraz, tudo consome.

Então nessa condição

sem saída de trabalho

que não tem folga ou fim

beata, ela obra milagres

e das batatas arranca

a apoteose de purês e suflês

e mágica, extrai dos ovos

a própria neve do inverno

mais o verão consubstanciado

em dourados fios e chuviscos

petiscos de pudins e quindins

e doma as caldas nos vários

pontos de pasta fio espelho

pérola bala areia e caramelo.

E com sofisticados bifes

oblitera o massacre dos bois

e sobre toalhas faz florescer

jardins em saladas orvalhadas

de azeite vinagre e sal.

E sabe que até o fim dos dias

estão suas mãos destinadas

à faina sem folga ou fim

mas vai dando a sua faina

o seu próprio fim.

(Astrid Cabral-50 poemas escolhidos pelo autor  Edições Galo Branco, Rio de Janeiro, 2008).

3.1. As pequenas coisas do rio que transborda e inunda

Em seu Blog Palavra do Fingidor, o Acadêmico da AAL, poeta e escritor Zemaria Pinto, nos diz sobre a poeta: “A água é um elemento constante na obra poética de Astrid Cabral. O ápice dessa relação é o premiado livro Rasos d’Água: “uma viagem épica pela memória líquida, das lágrimas à neve, banhando-se de chuva, perscrutando o mar, os rios inúmeros, em permanente tensão com o pathos da morte, que ora se aproxima e sangra, ora se afasta e observa a velhice inevitável, ora apenas lembra/relembra a dor para sempre represada”, como escrevi na apresentação da segunda edição. Em Rasos d’Água, o eu lírico é um ser líquido, sem forma definida, que toma nova forma a cada poema. Para Astrid, a água é muito mais que a origem da vida e metáfora da criação: numa relação dialética que não se esgota nunca, é também fonte de morte e de destruição.

O poema “Água doce”, que é a água da memória, da infância, guarda a consciência disso, quando opõe a água do rio à água do mar, representada sempre por elementos negativos, como a “vândala violência do mar”, “a ameaça constante das vagas” e “a baba de espumas brabas”. Mas, aos poucos, essa consciência vai se redefinindo, a memória vai se recompondo, e as lembranças vêm à tona, sempre naquela relação vida/morte-criação/destruição: “A água do rio é mansa / mas também se zanga”. E enumera o lado oposto da água doce e mansa: banzeiro, enchente, correnteza, repiquete, cachoeira, redemoinho. Para quem compartilha essas memórias com Astrid, essas palavras podem parecer motivos de brincadeiras distantes. Mas ela adverte: o rio transborda e inunda, arrasta e mata, “afoga quem não sabe nadar”, “enrola quem não sabe remar”. No seu blog, Zemaria Pinto compartilha com seu público uma belíssima resenha crítica sobre a obra Rasos d’Água de Astrid Cabral (da qual retirei o excerto acima) e em parceria com o músico Mauri Mrq, publicam a obra lítero-musical A Lira da Madrugada, musicando o poema “Água doce” de Astrid Cabral.

Água doce

A água do rio é doce.

Carece de sal, carece de onda.

A água do rio carece

da vândala violência do mar.

A água do rio é mansa

sem a ameaça constante das vagas

sem a baba de espumas brabas.

A água do rio é mansa

mas também se zanga.

Tem banzeiro, enchente

correnteza e repiquete.

Pressa de corredeira

sobressalto de cachoeira

traição de redemoinho.

A água do rio é mansa

corre em leito estreito.

Mas também transborda e inunda

também é vasta, também é funda

também arrasta, também mata.

Afoga quem não sabe nadar.

Enrola quem não sabe remar.

A água do rio é doce

mas também sabe lutar.

A água doce na pororoca

enfrenta e afronta o mar.

Filha de olho-d’água e de chuva

neta de neve e de nuvem

a água doce é pura

mas também se mistura.

Tem água cor de café

tem água cor de cajá

tem água cor de garapa

tem água que nem guaraná.

A água doce do rio

não tem baleia nem tubarão

tem jacaré, candiru, piranha

poraquê e não sei mais o quê.

A água doce não é tão doce.

Antes fosse.

Clique AQUI para escutar o poema musicado.

3. 2. O cardápio diário das pequenas-grandes coisas

Hildeberto Barbosa Filho, em 50 poemas escolhidos pelo autor, afirma: “Em Astrid, as coisas, os objetos, as situações de rotina, os ambientes, as ideias, enfim, toda e qualquer matéria prima de poesia, como que se transmutam em realidades outras, integrando uma outra ordem da existência em que as noções imediatas de tempo e espaço, de espessura e de aparência terminam aniquiladas, para que se faça presente o substrato de uma ordem secreta  uma ordem que pode ser ternura ou uma ordem que pode ser crueldade  a gerir os apelos abissais das coisas e dos seres.” (P. 107)

Em “Cardápio”, poema que compõe o elenco de Lição de Alice, Astrid nos exemplifica a dissertação acima:

Cardápio

Nosso cardápio diário

inclui carnes assadas

e angústias bem passadas.

Inclui sangrentos nacos

cobertos de molhos pardos

que sabem a desgosto.

Inclui mil hipocrisias

devidamente empanadas

e servidas à francesa

bem antes da sobremesa

de frutas esquartejadas.

Inclui entre as iguarias

amizades congeladas

sonhos em banho-maria

deleites de amor requentado

em rançosos azeites.

Ódios com pó de pimenta

e as trêmulas gelatinas

de dúvidas coloridas.

Inclui o tédio guarnecido

de exóticos temperos.

Inclui o medo camuflado

em camadas de batatas.

Inclui a morte servida

sem o menor escrúpulo.

(CABRAL, Astrid. De déu em déu: poemas reunidos (1979/1994). Rio de Janeiro: Sette Letras, 1998. p.280)

A leitura dos poemas de “Lição de Alice” me tocaram a tal profundeza que de lá, dos meus “intramuros” escrevi um poema chamado “Espelho de Alice”, que faz parte do meu livro In(-)versos do meu Verso. Por lapso meu deixei de dedicá-lo à Astrid, o que faço agora. 

Espelho de Alice

                      À Astrid Cabral 

Um dia tive um sonho

Cavalo solto, crinas ao vento

Luz de luar, luar de sangrar

A guiar-me trôpegos os pés

Bosques meus, tendas minhas 


Escudo de Perseu oblíquo

Noite travestida de sol

Bocas em notas noturnas

Espelho invertido de Alice. 


Quem vem me buscar?

Sequestrei-me do sonho

Crime inafiançável, hediondo

Forasteiro de além-pátria! 


Busquei-me entre os espelhos

Sem me encontrar em nenhum

Estilhaços de mente-cuore

Cinzas de amor destratado 


E já me tardo na dor...

Vazio de bocas e vozes

Bar aberto, copos vazios

Peitos outrora plenos e meus

Hoje negro e frio acepipe. 

(Rita Alencar Clark, In(-)versos do meu Verso, TAUP, Curitiba/PR, 2024)

4. Da íntima carne da poesia de Astrid Cabral  despedida

A escrita de Astrid Cabral, antes de ser feminista, pois os tempos eram outros, era feminina. Ela nos empresta suas asas para que possamos alcançar a sensibilidade , muitas vezes crua e superior, conquanto ácida, de seus poemas. A sua costura de versos e evocações se faz por dentro da pele, e se mostra entre músculos e consciência, subindo e descendo a fina agulha da poesia em nossos corações, se assim quisermos. Penso que há muito precisávamos fazer esta homenagem à Astrid Cabral, pela sua laureada carreira literária, pelo seu talento inenarrável, pela beleza que nos comove e arrebata a todos quando lemos e penetramos na íntima carne de sua poesia.

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Arquivo da autora

Rita Alencar Clark, professora de Língua portuguesa e Literatura, poeta Amazonense, contista, cronista, ensaísta e revisora. Membro  Efetivo do Clube da Madrugada (AM) desde 1984, membro fundador da ALB/AM - Academia de Letras do Brasil/Amazonas , da ACEBRA - Academia de Educação do Brasil, Membro da AJEB/AM (Associação de Jornalistas e Escritoras) e ASSEAM (Associação dos Escritores do Amazonas) . Colaboradora do Blog Feminário Conexões e dos Coletivos Enluaradas e Mulherio das Letras, com participação em diversas coletâneas e antologias poéticas, sempre representando o Amazonas. Tem três livros publicados:  "Meu grão de poesia, Milton Hatoum - Um certo olhar pelo Oriente-Amazônico" e "In(-)versos do meu verso".


quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

E O NOVO, MESMO QUE NÃO QUEIRAM, VIRÁ!

E o que virá traga de novo / nosso olhar leitor de estrelas

Por Margarida Montejano

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Virá.

Era ontem, virou hoje.

Era passado,

virou presente.

Éramos crianças

viramos adultos.

Era sonho,

virou realidade

Éramos desconhecidos,

viramos amigas, amigos.

Éramos inocentes,

éramos. Éramos…

Tornamo-nos conscientes?

Quem sabe!


Que nossa consciência esteja atenta

à preservação da vida,

das florestas, do planeta.

Aos cuidados com a saúde

do corpo, da alma e da mente.

A do outro e, a da gente.


E do que  éramos ontem,

sejamos seres melhorados

e, da força do mal,

curados.


E o que virá, vire história 

de amor,

de compaixão e solidariedade.

E o que virá, resgate da memória

os nossos sonhos, fantasias, 

a nossa criança! 


E o que virá traga de novo

nosso olhar leitor de estrelas,

nosso ser de encantamento  e  de possibilidades, 

capaz de compor poesia e esperança.


O que éramos, o que somos e o que seremos?


O bem nos acena e 

nesta cena o que é que se faz? 

Sejamos o bem!

Sonhemos juntos de novo!


Que  o ano de 2026 seja bom e supere 2025.

Que os nossos sonhos se tornem o bem.

EM NOME do AMOR, DA VIDA E DA PAZ, 

AMEM, AMÉM!


Feliz Ano Novo!

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Arquivo da autora
Margarida Montejano, mora em Paulínia/SP. É Poeta e escritora feminista; Func. Pública na Secretaria Municipal de Educação de Campinas. Defensora ativa dos direitos da Mulher, sendo membra do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Campinas; Coordenadora do Projeto Bem-Me-Quero: Empoderamento Feminino e Igualdade de Gênero e, Produtora do Canal Literário – N’outras Palavras –  histórias que inspiram, no Youtube. Autora dos livros Fio de Prata - Ed. Siano (2022); Chão Ancestral, TAUP Editora (2023) e dos livros infanto juvenis A Poeta e a Flor e A Poeta e a Sabiá, pela Editora Siano. (2024). Para contatar com a autora: @margaridamontejano.escritora


terça-feira, 30 de dezembro de 2025

O LIMITE DE UMA MULHER

"Eu saúdo, honro e apoio as mulheres que estão dizendo não"

Por Flavia Ferrari 

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Desde pequenas acostumamo-nos a esgarçar nossos limites. Coisas do processo educativo das meninas. Controlamos nossa energia desde cedo, incentivadas a brincar com objetos que requerem foco e delicadeza. Temos roupas, penteados, acessórios não convidativos a uma escalada ou banho de lama. A bola rolando com gente em volta pertence a um grupo fechado, e a coragem para entrar no jogo não nos é dada de saída. 

Somos socializadas a escutar e a prestar atenção, pois a distração e o movimento são características dos meninos. 

Na adolescência, nos viramos desde início com maquiagem, roupa, cabelo, de acordo com o que a maioria faz - não pertencer a esse grupo majoritário tem um alto custo social. Somos automaticamente levadas à dinâmica do cuidar: do corpo, das coisas, dos hábitos, dos espaços, das plantas, dos bichos, dos filhos. O peso simbólico e permanente da palavra “mãe” sobrevive à própria vida das mães. É por esta via que mulheres são lembradas e exaltadas na família. 

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É claro que as mudanças estão aí, e ser mulher hoje é muito mais plural do que há cinquenta anos - e o preço disso é muitas vezes pago com a vida. Sabemos disso e somos nós que gritamos frente à barbárie. 

É por isso que, quando uma mulher diz que não aguenta mais, é porque o limite tão esgarçado já perdeu toda a elasticidade, e não respeitar essa frágil película que separa o prosseguir do recusar é abrir mão da própria sanidade. Eu saúdo, honro e apoio as mulheres que estão dizendo não, buscando recalcular rotas e transformar suas vidas, seja saindo de casamentos, relacionamentos, das casas, das cidades ou dos países em que não querem mais estar. 

Avante, mulheres! Cada dia há de ser menos pior do que o dia anterior.

Para adquirir os livros da autora clique AQUI.

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Flavia Ferrari (São Paulo, 1976). Poeta e professora da rede pública de São Paulo, Flavia Ferrari tem três livros de poesia publicados, Meio-Fio: Poemas de Passagem (2021) e É Tudo Ficção (2022) e Espólio (2025). A autora escreve desde a adolescência, mas começou a publicar seus poemas no início de 2020, compartilhando seu trabalho nas redes sociais, participando de antologias e contribuindo com revistas literárias digitais. Desde o princípio, os seus poemas foram muito bem recebidos pelas leitoras e leitores.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

NÃO ESTAMOS SOZINHAS!

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"E, por que nos matam? Porque somos mulheres." 

Cara leitora, caro leitor!

Estamos às vésperas do Natal e nunca a presença do amor e da empatia se fez tão necessária! Convido aquelas e aqueles que se engajam no movimento feminista para esta reflexão, me embasando no poder da poesia, que grita e se expõe sem medo, à espera de que as palavras aqui reunidas encontrem eco e façam sentido a partir do poema ANUNCIAÇÃO (Margarida Montejano/2023):

Anuncia a mulher que labuta, que urra, que luta,

briga pelo pão, insiste contra o não e é o que pretende ser.

Anuncia! explica a mulher que abre a porta para o dia,

que enfrenta a rotina de se saber aflita.

Enquanto o infinito não vem, anuncia,

arregaça as mangas da avó, da mãe, da filha e grita:

Quem mandou matar Marielle?

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E assim tem sido. Uma menina, uma mulher, duas mulheres, três, quatro, dez...  De acordo com o Mapa da Violência de Gênero, no primeiro semestre de 2025, 718 feminicídios foram registrados em todo o país  — uma média de cerca de 4 mulheres mortas por dia pelas mãos de um homem, um feminicida. No mesmo período foram contabilizados 33.999 estupros contra meninas e mulheres, na média de 187 casos por dia, realizados no interior de suas próprias casas e, na sua maioria, por familiares e conhecidos da família. A cada minuto, microviolências ocorrem sobre a vida, a mente e o corpo de uma mulher.

E, por que nos matam? Porque somos mulheres. Porque ousamos pensar e desafiar a ordem estabelecida que enfatizou e enfatiza que sempre foi assim e que assim deve ser. Recusamos a ideia de que existem papeis específicos para cada gênero e que estes devem ser propalados e perpetuados, pelos séculos dos séculos.

Essas pseudocertezas, repetidas ao longo do tempo de maneira intencional pelas instituições, família, igreja e sociedades, produziram e produzem, o empoderamento dos homens, engendrando uma estrutura social baseada no modelo patriarcal hierarquizante. Nesta forma de atuar historicamente sobre as gerações, foram e vão se solidificando as convenções, tendo como base formativa a misoginia, sustentada pela prática de ações sexistas e machistas de homens frágeis e fracos emocionalmente. Forjados para serem fortes, são eles educados para não desenvolverem em si o afeto, a empatia, o cuidado. Homens que, seduzidos por um suposto poder e força, não conseguem lidar com contrariedades e, por isso, violam a consciência, ferem, estupram, desqualificam, desfiguram o corpo e o rosto e, por fim, assassinam as mulheres com requintes de perversão e crueldade.

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Violência abjeta, praticada na maioria das vezes contra aquelas as quais eles, valendo-se de um pronome possessivo que lhes garante uma pretensa superioridade, as chamam de “sua”: “sua mulher”, “sua filha”, “sua mãe”, “sua irmã”, “sua amiga”, “sua colega”... Parece que submetê-las às formas mais vis de violência configura-se num direito, porque as consideram um mero “objeto de posse”, algo de sua propriedade, de modo que lhes é permitido fazer o que bem entenderem com elas, sejam maridos, namorados, filhos, parentes, amantes...

Sem escrúpulos, muitos compartilham nas redes sociais sua valentia desprovida de qualquer traço de empatia e de humanidade, expondo a crueldade do ato em si, gratuito na aplicação e rentoso na execução, pois algoritmos sobem e monetizam. Assim quanto mais brutal e degradante for a ação criminosa sobre o corpo da mulher, mais rentável será e maior repercussão terá entre os grupos de homens que propagam o ódio às mulheres.

É uma realidade amedrontadora, que se articula com base no interesse econômico, visando a manutenção do patriarcado e é amplamente disseminada pela força midiática. Em 2023, num evento em Campinas, a atriz e cantora, Elisa Lucinda, comentou sobre esses acontecimentos: “Colocamos filhos no mundo para nos matar”. Esta afirmação contundente encontra eco na literatura e na voz feminina gritando que, quando uma mulher é assassinada, todos, de algum modo, morrem! 

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Assim, somos todos os dias sacudidas pelo noticiário de mais mulheres sem vida. Nos assustamos e nos indignamos com a atrocidade desses atos e com os vergonhosos índices de feminicídio, denominando aqueles que os praticam como monstros e insanos. Contudo eles não são nem uma coisa nem outra: eles nada mais são do que homens com a masculinidade exacerbada e com dificuldade em gerir a própria sexualidade. Apoiam-se na toxidade das ideias neles incutidas como verdades e se portam como se naturalmente lhes coubesse o papel de dominar. Entretando, por trás dessa virilidade intensificada pelo machismo escondem-se sujeito débeis, frágeis e impotentes que não suportam o direito de uma mulher ser, estar, existir e ter autonomia para dizer “sim” e “não”. Logo, precisam se valer da força física e da intimidação. Segundo a advogada criminalista, Erika C. Furlan, “O avanço em direitos e garantias para as mulheres incomoda o público masculino hétero, porque hoje a mulher não aceita mais qualquer tipo de relacionamento [...]”. Ela reage.

Por isso essa estrutura misógina, diz Virginia Woolf, teme o Feminismo, porque sabe que este movimento social, político e ideológico reivindica a igualdade social, econômica e política entre homens e mulheres, a autonomia feminina e o fim da violência contra a mulher. Essa luta carrega em seu ventre o sangue e a força ancestral de mulheres que resistiram às atrocidades por eles já cometidas e que, por conta disso, tem o poder de vislumbrar relações que reconheçam incondicionalmente os direitos da mulher.

Nesse cenário desafiador não tem como não apostar na educação, pois o conhecimento esclarecedor se transforma no instrumento eficaz para combater o ódio. Erika C. Furlan acrescenta que “O importante é sempre prevenir, o que é muito difícil numa sociedade em que o machismo é estrutural e a disseminação de grupos conservadores misóginos alimentam o imaginário e o ideário de homem macho varão provedor e mulher submissa. Deste modo, a formação de crianças desde cedo é o caminho mais seguro para se desconstruir, através do desenvolvimento da consciência histórica e, sobretudo crítica, o quanto essas práticas seculares nos violentaram e subjugaram.

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Não se pode omitir que a misoginia é o preconceito contra as mulheres mais antigo que existe na trajetória da humanidade. Mais que ódio às mulheres, é um sentimento que emerge como uma construção histórica pautada na hierarquia dos sexos, em que os homens são tidos como seres superiores e, por conta dessa crença, as mulheres que colocassem em risco essa estrutura hierárquica deveriam ser punidas. Diante dessa perspectiva calcada no ressentimento, na raiva e medo de perder privilégios, práticas como o machismo e o sexismo tornaram-se seus principais difusores.

É preciso entender bem esses conceitos. O machismo se revela por comportamentos, opiniões e sentimentos que consentem e validam a desigualdade de direitos entre os sexos. Por isso admite que a mulher, por ser considerada inferior ao homem, possa ser subjugada motivando a violência contra ela e a sua repetição, via de regra, pode conduzir ao feminicídio. Por sua vez, o sexismo é a crença de que homens e mulheres devem ocupar papéis específicos, os quais são determinados com base no sexo, envolvendo brinquedos, atividades, cores e tipos de roupa etc. Ao se desobedecer ou contrariar esses padrões, se reforça e se estimula o ódio às mulheres, justificando condutas amparadas na convicção de que elas necessitam ser controladas e punidas.

Frente à tragicidade que esses episódios representam, torna-se indispensável que a misoginia seja considerada crime hediondo inafiançável e que o controle rigoroso das redes sociais possa se constituir num instrumento capaz de neutralizar e combater os estímulos à violência de gênero. Porém, mais importante é a implementação nas escolas de projetos educacionais que vise, desde a infância, uma sólida formação embasada na proteção dos direitos da mulher, conforme o Art.5º da Constituição Federal de 1988.

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E quanto a nós mulheres, não esquecermos que estamos em rede e em rede enredadas estamos. Cabe-nos estar coletivamente em contínua vigilância na luta por salvaguardar direitos já conquistados e por assegurar aqueles que ainda estão e estarão em pauta, a fim de que nossa dignidade seja integralmente reconhecida. Daí a importância de se fazer valer o fato de que somos maioria e eleger candidatas e candidatos efetivamente comprometidos com políticas afirmativas que visem a justiça e equidade social e o combate à desigualdade de gênero. 

Não se pode baixar a guarda jamais, pois a estrutura patriarcal é ardilosa, não dorme nunca e está sempre à espreita para nos devorar e submeter com as ferramentas de que dispõe.  O demônio que estupra e mata mulheres e crianças é um homem que teme a convivência em condições de igualdade, a empatia nos relacionamentos e a força feminina. Nossas Ancestrais estão em vigília constante nos inspirando a renovar nosso poder intuitivo e a força vital de nossas entranhas!  Não desanimemos! Não estamos sozinhas!

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Arquivo da autora
Margarida Montejano, mora em Paulínia/SP. É Poeta e escritora feminista; Func. Pública na Secretaria Municipal de Educação de Campinas. Defensora ativa dos direitos da Mulher, sendo membra do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Campinas; Coordenadora do Projeto Bem-Me-Quero: Empoderamento Feminino e Igualdade de Gênero e, Produtora do Canal Literário – N’outras Palavras –  histórias que inspiram, no Youtube. Autora dos livros Fio de Prata - Ed. Siano (2022); Chão Ancestral, TAUP Editora (2023) e dos livros infanto juvenis A Poeta e a Flor e A Poeta e a Sabiá, pela Editora Siano. (2024). Para contatar com a autora: @margaridamontejano.escritora

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

62 ANOS ! (SOBRE)VIVER É UM ATO POLÍTICO

 "Escrevo porque a palavra sempre foi minha ferramenta de sobrevivência."

Hoje completo 62 anos. Entrego minha idade com velas mágicas e com o corpo inteiro aceso. Celebrar a minha vida como mulher, neste país onde mulheres são interrompidas diariamente, é um gesto que carrega peso histórico, ético e político.

Arquivo da autora

Enquanto escrevo esse texto, penso nas Tainaras, Isabelas e milhares de outras que não chegaram até aqui. Penso nas mulheres cujos aniversários foram silenciados pelo feminicídio, essa chaga social que o sistema não consegue encontrar a cura, e que lobos disfarçados de cordeiros romantizam dizendo ser adquirida do amor e do ciúme, mas que na verdade ela existe simplesmente pelo fato de sermos mulheres, pelo ódio,  pelo controle exercido pelo patriarcado e pela certeza  de que nossos corpos são territórios de posse. Na verdade, a culpa é do machismo estrutural que disfarça de homicídio os crimes misóginos.

Simone de Beauvoir já nos alertava que não se nasce mulher, torna-se, isto é, aprende -se a ser mulher dentro de um sistema patriarcal que impõe normas, papéis  e silenciamentos. Muitas mulheres são brutalmente interrompidas não por não alcancarem esse "tornar-se ", mas por desafiarem ou não se ajustarem às expectativas  que lhes são  impostas.

Para uma mulher que chega aos 62 anos, num país que ocupa a quinta maior taxa de feminicídio do mundo, é atravessar um campo minado com passos insistentes. É ter sido menina afetiva e tímida, adolescente intensa e romântica, sem imaginar que ser mulher é ser subjugada, objetificada e coagida. É ter acreditado no amor, lutado em meio a um casamento abusivo e ainda ter se reinventado como mãe solo, leoa, colo, sustento e abrigo.

Minha história pessoal não está dissociada da história coletiva das mulheres. Como escreveu Bell hooks, o amor, para nós, nunca foi neutro, ele sempre precisou ser reaprendido fora da lógica da dominação.

Arquivo da autora

E hoje eu celebro meu aniversário escrevendo com prazer, como mulher e como escritora, porque escrevo com o corpo que amou, viveu, perdeu e resistiu. Escrevo porque a palavra sempre foi minha ferramenta de sobrevivência. Audre Lorde dizia que transformar o silêncio em linguagem e ação é um ato de coragem. E eu escrevo para fazer barulho, porque sei que o silêncio mata  e não apenas metaforicamente.

O feminicídio não é um desvio de conduta individual. É o ponto extremo de uma cultura que naturaliza a violência contra mulheres, que relativiza agressões, que pergunta “o que ela fez?” em vez de perguntar “por que ele matou?”. Djamila Ribeiro nos lembra que não existe neutralidade quando a estrutura é desigual. Celebrar minha vida hoje, aos 62, é também denunciar essa estrutura.

Minha existência é prova, minha maturidade é prova e minha escrita é o carimbo.

Cada ruga que carrego não é sinal de desgaste, mas de permanência, de permanecer viva, lúcida e criativa, escrevendo sobre o feminino num mundo que insiste em nos apagar.

Isso para mim é uma forma de insurgência.

Hoje não celebro apenas mais um ano de vida, celebro o direito de continuar, celebro as mulheres que vieram antes de mim e abriram caminhos, celebro as que caminham comigo. E como ser humano sinto os rasgos na minha pele com indignação e compromisso por todas as que não (se)ssentaram e sim ficaram com os corpos estendidos ao chão.

Que minha voz aos 62,  ecoe como denúncia e manifesto. Porque enquanto uma mulher for morta por ser mulher, nenhuma de nós estará inteira. E ainda assim estamos aqui:

Escrevendo, vivendo e resistindo.

FEMINICÍDIO

Matam em casa todo dia uma mulher!

A voz sufocada

Pincelada de sangue

Reside nas paredes

Ecoa na sala o noticiário

 Agredindo os tímpanos

Na surdez da lei

Tudo é corriqueiro

Mas a dor velada das Marias

Rasga a minha pele

E do meu verso perplexo

Arranco o silêncio

Enterrado no sexo

E eu grito na poesia :

Basta! O machismo já fede!

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Arquivo da autora

Rilnete Melo é maranhense, poeta, escritora, cronista e cordelista, membro das academias de letras ACILBRAS e ABMLP, colunista no blog Feminário Conexões e colaborada da Revista internacional The Bard, coautora de várias antologias nacionais e internacionais, vencedora de seis concursos literários, autora dos livros Construindo Versos, O máximo de mim e outros mínimos poemas, Pérolas do meu silêncio, zine Dezcontos micros e autora de cinco cordéis.

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