terça-feira, 23 de dezembro de 2025

NÃO ESTAMOS SOZINHAS!

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"E, por que nos matam? Porque somos mulheres." 

Cara leitora, caro leitor!

Estamos às vésperas do Natal e nunca a presença do amor e da empatia se fez tão necessária! Convido aquelas e aqueles que se engajam no movimento feminista para esta reflexão, me embasando no poder da poesia, que grita e se expõe sem medo, à espera de que as palavras aqui reunidas encontrem eco e façam sentido a partir do poema ANUNCIAÇÃO (Margarida Montejano/2023):

Anuncia a mulher que labuta, que urra, que luta,

briga pelo pão, insiste contra o não e é o que pretende ser.

Anuncia! explica a mulher que abre a porta para o dia,

que enfrenta a rotina de se saber aflita.

Enquanto o infinito não vem, anuncia,

arregaça as mangas da avó, da mãe, da filha e grita:

Quem mandou matar Marielle?

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E assim tem sido. Uma menina, uma mulher, duas mulheres, três, quatro, dez...  De acordo com o Mapa da Violência de Gênero, no primeiro semestre de 2025, 718 feminicídios foram registrados em todo o país  — uma média de cerca de 4 mulheres mortas por dia pelas mãos de um homem, um feminicida. No mesmo período foram contabilizados 33.999 estupros contra meninas e mulheres, na média de 187 casos por dia, realizados no interior de suas próprias casas e, na sua maioria, por familiares e conhecidos da família. A cada minuto, microviolências ocorrem sobre a vida, a mente e o corpo de uma mulher.

E, por que nos matam? Porque somos mulheres. Porque ousamos pensar e desafiar a ordem estabelecida que enfatizou e enfatiza que sempre foi assim e que assim deve ser. Recusamos a ideia de que existem papeis específicos para cada gênero e que estes devem ser propalados e perpetuados, pelos séculos dos séculos.

Essas pseudocertezas, repetidas ao longo do tempo de maneira intencional pelas instituições, família, igreja e sociedades, produziram e produzem, o empoderamento dos homens, engendrando uma estrutura social baseada no modelo patriarcal hierarquizante. Nesta forma de atuar historicamente sobre as gerações, foram e vão se solidificando as convenções, tendo como base formativa a misoginia, sustentada pela prática de ações sexistas e machistas de homens frágeis e fracos emocionalmente. Forjados para serem fortes, são eles educados para não desenvolverem em si o afeto, a empatia, o cuidado. Homens que, seduzidos por um suposto poder e força, não conseguem lidar com contrariedades e, por isso, violam a consciência, ferem, estupram, desqualificam, desfiguram o corpo e o rosto e, por fim, assassinam as mulheres com requintes de perversão e crueldade.

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Violência abjeta, praticada na maioria das vezes contra aquelas as quais eles, valendo-se de um pronome possessivo que lhes garante uma pretensa superioridade, as chamam de “sua”: “sua mulher”, “sua filha”, “sua mãe”, “sua irmã”, “sua amiga”, “sua colega”... Parece que submetê-las às formas mais vis de violência configura-se num direito, porque as consideram um mero “objeto de posse”, algo de sua propriedade, de modo que lhes é permitido fazer o que bem entenderem com elas, sejam maridos, namorados, filhos, parentes, amantes...

Sem escrúpulos, muitos compartilham nas redes sociais sua valentia desprovida de qualquer traço de empatia e de humanidade, expondo a crueldade do ato em si, gratuito na aplicação e rentoso na execução, pois algoritmos sobem e monetizam. Assim quanto mais brutal e degradante for a ação criminosa sobre o corpo da mulher, mais rentável será e maior repercussão terá entre os grupos de homens que propagam o ódio às mulheres.

É uma realidade amedrontadora, que se articula com base no interesse econômico, visando a manutenção do patriarcado e é amplamente disseminada pela força midiática. Em 2023, num evento em Campinas, a atriz e cantora, Elisa Lucinda, comentou sobre esses acontecimentos: “Colocamos filhos no mundo para nos matar”. Esta afirmação contundente encontra eco na literatura e na voz feminina gritando que, quando uma mulher é assassinada, todos, de algum modo, morrem! 

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Assim, somos todos os dias sacudidas pelo noticiário de mais mulheres sem vida. Nos assustamos e nos indignamos com a atrocidade desses atos e com os vergonhosos índices de feminicídio, denominando aqueles que os praticam como monstros e insanos. Contudo eles não são nem uma coisa nem outra: eles nada mais são do que homens com a masculinidade exacerbada e com dificuldade em gerir a própria sexualidade. Apoiam-se na toxidade das ideias neles incutidas como verdades e se portam como se naturalmente lhes coubesse o papel de dominar. Entretando, por trás dessa virilidade intensificada pelo machismo escondem-se sujeito débeis, frágeis e impotentes que não suportam o direito de uma mulher ser, estar, existir e ter autonomia para dizer “sim” e “não”. Logo, precisam se valer da força física e da intimidação. Segundo a advogada criminalista, Erika C. Furlan, “O avanço em direitos e garantias para as mulheres incomoda o público masculino hétero, porque hoje a mulher não aceita mais qualquer tipo de relacionamento [...]”. Ela reage.

Por isso essa estrutura misógina, diz Virginia Woolf, teme o Feminismo, porque sabe que este movimento social, político e ideológico reivindica a igualdade social, econômica e política entre homens e mulheres, a autonomia feminina e o fim da violência contra a mulher. Essa luta carrega em seu ventre o sangue e a força ancestral de mulheres que resistiram às atrocidades por eles já cometidas e que, por conta disso, tem o poder de vislumbrar relações que reconheçam incondicionalmente os direitos da mulher.

Nesse cenário desafiador não tem como não apostar na educação, pois o conhecimento esclarecedor se transforma no instrumento eficaz para combater o ódio. Erika C. Furlan acrescenta que “O importante é sempre prevenir, o que é muito difícil numa sociedade em que o machismo é estrutural e a disseminação de grupos conservadores misóginos alimentam o imaginário e o ideário de homem macho varão provedor e mulher submissa. Deste modo, a formação de crianças desde cedo é o caminho mais seguro para se desconstruir, através do desenvolvimento da consciência histórica e, sobretudo crítica, o quanto essas práticas seculares nos violentaram e subjugaram.

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Não se pode omitir que a misoginia é o preconceito contra as mulheres mais antigo que existe na trajetória da humanidade. Mais que ódio às mulheres, é um sentimento que emerge como uma construção histórica pautada na hierarquia dos sexos, em que os homens são tidos como seres superiores e, por conta dessa crença, as mulheres que colocassem em risco essa estrutura hierárquica deveriam ser punidas. Diante dessa perspectiva calcada no ressentimento, na raiva e medo de perder privilégios, práticas como o machismo e o sexismo tornaram-se seus principais difusores.

É preciso entender bem esses conceitos. O machismo se revela por comportamentos, opiniões e sentimentos que consentem e validam a desigualdade de direitos entre os sexos. Por isso admite que a mulher, por ser considerada inferior ao homem, possa ser subjugada motivando a violência contra ela e a sua repetição, via de regra, pode conduzir ao feminicídio. Por sua vez, o sexismo é a crença de que homens e mulheres devem ocupar papéis específicos, os quais são determinados com base no sexo, envolvendo brinquedos, atividades, cores e tipos de roupa etc. Ao se desobedecer ou contrariar esses padrões, se reforça e se estimula o ódio às mulheres, justificando condutas amparadas na convicção de que elas necessitam ser controladas e punidas.

Frente à tragicidade que esses episódios representam, torna-se indispensável que a misoginia seja considerada crime hediondo inafiançável e que o controle rigoroso das redes sociais possa se constituir num instrumento capaz de neutralizar e combater os estímulos à violência de gênero. Porém, mais importante é a implementação nas escolas de projetos educacionais que vise, desde a infância, uma sólida formação embasada na proteção dos direitos da mulher, conforme o Art.5º da Constituição Federal de 1988.

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E quanto a nós mulheres, não esquecermos que estamos em rede e em rede enredadas estamos. Cabe-nos estar coletivamente em contínua vigilância na luta por salvaguardar direitos já conquistados e por assegurar aqueles que ainda estão e estarão em pauta, a fim de que nossa dignidade seja integralmente reconhecida. Daí a importância de se fazer valer o fato de que somos maioria e eleger candidatas e candidatos efetivamente comprometidos com políticas afirmativas que visem a justiça e equidade social e o combate à desigualdade de gênero. 

Não se pode baixar a guarda jamais, pois a estrutura patriarcal é ardilosa, não dorme nunca e está sempre à espreita para nos devorar e submeter com as ferramentas de que dispõe.  O demônio que estupra e mata mulheres e crianças é um homem que teme a convivência em condições de igualdade, a empatia nos relacionamentos e a força feminina. Nossas Ancestrais estão em vigília constante nos inspirando a renovar nosso poder intuitivo e a força vital de nossas entranhas!  Não desanimemos! Não estamos sozinhas!

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Arquivo da autora
Margarida Montejano, mora em Paulínia/SP. É Poeta e escritora feminista; Func. Pública na Secretaria Municipal de Educação de Campinas. Defensora ativa dos direitos da Mulher, sendo membra do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Campinas; Coordenadora do Projeto Bem-Me-Quero: Empoderamento Feminino e Igualdade de Gênero e, Produtora do Canal Literário – N’outras Palavras –  histórias que inspiram, no Youtube. Autora dos livros Fio de Prata - Ed. Siano (2022); Chão Ancestral, TAUP Editora (2023) e dos livros infanto juvenis A Poeta e a Flor e A Poeta e a Sabiá, pela Editora Siano. (2024). Para contatar com a autora: @margaridamontejano.escritora

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

62 ANOS ! (SOBRE)VIVER É UM ATO POLÍTICO

 "Escrevo porque a palavra sempre foi minha ferramenta de sobrevivência."

Hoje completo 62 anos. Entrego minha idade com velas mágicas e com o corpo inteiro aceso. Celebrar a minha vida como mulher, neste país onde mulheres são interrompidas diariamente, é um gesto que carrega peso histórico, ético e político.

Arquivo da autora

Enquanto escrevo esse texto, penso nas Tainaras, Isabelas e milhares de outras que não chegaram até aqui. Penso nas mulheres cujos aniversários foram silenciados pelo feminicídio, essa chaga social que o sistema não consegue encontrar a cura, e que lobos disfarçados de cordeiros romantizam dizendo ser adquirida do amor e do ciúme, mas que na verdade ela existe simplesmente pelo fato de sermos mulheres, pelo ódio,  pelo controle exercido pelo patriarcado e pela certeza  de que nossos corpos são territórios de posse. Na verdade, a culpa é do machismo estrutural que disfarça de homicídio os crimes misóginos.

Simone de Beauvoir já nos alertava que não se nasce mulher, torna-se, isto é, aprende -se a ser mulher dentro de um sistema patriarcal que impõe normas, papéis  e silenciamentos. Muitas mulheres são brutalmente interrompidas não por não alcancarem esse "tornar-se ", mas por desafiarem ou não se ajustarem às expectativas  que lhes são  impostas.

Para uma mulher que chega aos 62 anos, num país que ocupa a quinta maior taxa de feminicídio do mundo, é atravessar um campo minado com passos insistentes. É ter sido menina afetiva e tímida, adolescente intensa e romântica, sem imaginar que ser mulher é ser subjugada, objetificada e coagida. É ter acreditado no amor, lutado em meio a um casamento abusivo e ainda ter se reinventado como mãe solo, leoa, colo, sustento e abrigo.

Minha história pessoal não está dissociada da história coletiva das mulheres. Como escreveu Bell hooks, o amor, para nós, nunca foi neutro, ele sempre precisou ser reaprendido fora da lógica da dominação.

Arquivo da autora

E hoje eu celebro meu aniversário escrevendo com prazer, como mulher e como escritora, porque escrevo com o corpo que amou, viveu, perdeu e resistiu. Escrevo porque a palavra sempre foi minha ferramenta de sobrevivência. Audre Lorde dizia que transformar o silêncio em linguagem e ação é um ato de coragem. E eu escrevo para fazer barulho, porque sei que o silêncio mata  e não apenas metaforicamente.

O feminicídio não é um desvio de conduta individual. É o ponto extremo de uma cultura que naturaliza a violência contra mulheres, que relativiza agressões, que pergunta “o que ela fez?” em vez de perguntar “por que ele matou?”. Djamila Ribeiro nos lembra que não existe neutralidade quando a estrutura é desigual. Celebrar minha vida hoje, aos 62, é também denunciar essa estrutura.

Minha existência é prova, minha maturidade é prova e minha escrita é o carimbo.

Cada ruga que carrego não é sinal de desgaste, mas de permanência, de permanecer viva, lúcida e criativa, escrevendo sobre o feminino num mundo que insiste em nos apagar.

Isso para mim é uma forma de insurgência.

Hoje não celebro apenas mais um ano de vida, celebro o direito de continuar, celebro as mulheres que vieram antes de mim e abriram caminhos, celebro as que caminham comigo. E como ser humano sinto os rasgos na minha pele com indignação e compromisso por todas as que não (se)ssentaram e sim ficaram com os corpos estendidos ao chão.

Que minha voz aos 62,  ecoe como denúncia e manifesto. Porque enquanto uma mulher for morta por ser mulher, nenhuma de nós estará inteira. E ainda assim estamos aqui:

Escrevendo, vivendo e resistindo.

FEMINICÍDIO

Matam em casa todo dia uma mulher!

A voz sufocada

Pincelada de sangue

Reside nas paredes

Ecoa na sala o noticiário

 Agredindo os tímpanos

Na surdez da lei

Tudo é corriqueiro

Mas a dor velada das Marias

Rasga a minha pele

E do meu verso perplexo

Arranco o silêncio

Enterrado no sexo

E eu grito na poesia :

Basta! O machismo já fede!

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Arquivo da autora

Rilnete Melo é maranhense, poeta, escritora, cronista e cordelista, membro das academias de letras ACILBRAS e ABMLP, colunista no blog Feminário Conexões e colaborada da Revista internacional The Bard, coautora de várias antologias nacionais e internacionais, vencedora de seis concursos literários, autora dos livros Construindo Versos, O máximo de mim e outros mínimos poemas, Pérolas do meu silêncio, zine Dezcontos micros e autora de cinco cordéis.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

UMA CARTOGRAFIA DA ESCRITA DE MULHERES: ENTREVISTA COM ANA CLÁUDIA SANTOS, POR GABRIELA LAGES VELOSO

                                 


UMA CARTOGRAFIA DA ESCRITA DE MULHERES |10

ENTREVISTA COM ANA CLÁUDIA SANTOS

Por Gabriela Lages Veloso

A literatura dá voz e poder às mulheres, bem como é uma importante arma de combate contra as desigualdades de gênero. Na intenção de mapear as margens e abrir espaço para as novas vozes sociais, nossa coluna intitulada Uma Cartografia da Escrita de Mulheres tem como principal objetivo promover a valorização de escritoras contemporâneas, através de entrevistas. Hoje, temos a honra de receber a poeta portuguesa Ana Cláudia Santos, que é destaque na literatura atual.

ENTREVISTA COM ANA CLÁUDIA SANTOS:

Arquivo pessoal da autora

Ana Cláudia Santos é natural de Santarém, mas vive atualmente em Lisboa (Portugal). A poeta portuguesa é host do podcast Multiversos da rádio NiT FM, produtora dos eventos de poesia “L.U.A. – Literatura, Universo, Artes” e “Sala Incomum”, embaixadora de poesia do projeto “Agarra-te”, da SABSEG, e poeta residente da Casa Florbela Espanca. Estudou Literatura, na Universidade NOVA de Lisboa, e Escrita Literária e Produção e Marketing de Eventos, na Restart Creative Education. É autora do livro de poesia independente Meia-Vida, ilustrado pelo artista plástico João Massano, que teve o seu lançamento na Livraria Ler Devagar. Em 2021, foi uma das finalistas do Festival de Poesia de Lisboa, ganhando uma menção honrosa. Venceu o concurso de talentos a nível nacional “New Talent”, da NiT, TVI e Santa Casa da Misericórdia. Ficou em 3º lugar no Concurso Poesia na Corda do Festival Poesia à Mesa 2022 (e em 2º lugar, na edição de 2023), e no mesmo ano encerrou o Festival de Poesia de Lisboa a declamar seus poemas. Em 2023, lançou o single Incorpóreo, que antecipa o seu primeiro EP, O Meu Reino Não É Deste Mundo, com poesia da sua autoria e música de Diogo Lourenço, que teve a sua primeira apresentação na Casa Fernando Pessoa. Em 2024, lançou o seu segundo livro, O Espectro, sendo a primeira publicação das Edições Casa Florbela Espanca e que contou com o seu lançamento nesse mesmo local. 

Você estuda, escreve e trabalha com Literatura. Como foi o seu encontro com o mundo das Letras?

Desde pequena, tive a sorte de os meus pais me comprarem livros. Comecei por ler as bandas desenhadas das W.I.T.C.H., passando depois para Harry Potter. A minha heroína era a J.K. Rowling e o meu sonho era criar um mundo mágico como ela o fez. Já adolescente, decidi tirar a minha licenciatura em Línguas, Literaturas e Culturas e fazer um curso de um ano de Escrita Literária. A licenciatura em Literatura moldou-me imenso como pessoa, principalmente ao ter encontrado Mário de Sá-Carneiro, e o curso de Escrita ajudou-me a encontrar a minha voz literária, que mais tarde se desenvolveu para uma voz poética.

Por que você escreve? 

Comecei a escrever porque queria imitar as minhas inspirações. Continuei a escrever porque me apaixonei pelo processo da escrita, da edição das frases e da construção dos parágrafos. Apaixonei-me por brincar com as palavras. Escrevo porque não há nada que me faça sentir mais viva do que o processo de escrever um novo texto, um novo poema, um novo conjunto de pensamentos. Hoje, escrevo porque preciso de expressar por palavras o que se passa dentro do meu mundo interior, que vive a toda a hora a criar novas teorias, perspectivas e ideias.

Quais escritoras(es) te inspiram?

Todos os que já passaram ou irão passar pelo meu podcast Multiversos.

Conte-nos sobre o seu primeiro livro, Meia-Vida (2020). Como foi o processo de escrita? Quais temáticas você aborda? Onde podemos adquiri-lo? 

O Meia-Vida é um livro de poesia escrito por mim e ilustrado posteriormente pelo artista plástico João Massano. O livro contém uma seleção de poemas que escrevi entre 2016 e 2020. O processo de escrita dividiu-se entre a criação de poemas de forma natural e a produção de outros para dar forma e sentido ao livro. Dividido em 14 poemas, a linha cronológica encontra-se misturada. O livro conta a história de uma menina sem nome e acompanha-a desde a infância até à sua vida após a morte. ​O livro começa com o poema “Princípio”, onde somos introduzidos à forma como essa menina de 6 anos encara a descoberta e o horror de que ela está a existir. No poema seguinte, “Glamour”, a personagem, já com 100 anos, conta como a literatura e a sua pesquisa sobre a existência foram os seus companheiros de vida, temas também presentes em “Sábios” e “Coveiro” (um poema dedicado ao poeta Mário de Sá-Carneiro). ​A magia antiga e o ocultismo são também temas expostos nos poemas retratados em “O Louco e O Mago” e “Expiravit”, quando a personagem invoca, sem querer, uma alma penada. ​No livro, contamos ainda com poemas de pensamento, em que são abordadas questões metafísicas e filosóficas, como em “Incorpóreo” e “Além-Incêndio”. Em “Para Além da Vida” e “Cruzeiro-Fantasma” a personagem navega pelos mistérios profundos do que acontece após a vida. ​Podem comprar o livro diretamente comigo, ou encomendar no link: https://anaclaudiasantos.bigcartel.com/ 

E quanto ao seu livro O Espectro (2024)? Explique o título e suas implicações no sentido/proposta da obra, e onde podemos adquiri-la.

O Espectro é o meu segundo livro de poesia. O título da obra foi inspirado pelo meu poema preferido de Florbela Espanca (uma das mais reconhecidas poetas portuguesas, que viveu entre 1894 e 1930), com esse mesmo nome. Este é um livro trilíngue, escrito em português e traduzido para inglês por Emily Duffy e para o espanhol por Daniela Otheguy. Os oito poemas que o compõem são da minha autoria e foram escolhidos de forma a criar um paralelo entre a vida, morte e obra de Florbela Espanca. Esta é a primeira publicação das Edições Casa Florbela Espanca e teve o seu lançamento no mesmo local onde Florbela viveu durante a sua infância e adolescência.

Comente sobre o podcast Multiversos, no qual você é host

O Multiversos é um podcast que se pode ouvir todas as sextas, às 10h00 (horário de Lisboa - Portugal), na rádio NiT FM ou no Spotify. É um podcast no qual partilho poemas, eventos poéticos, notícias e crio ligações entre o quotidiano e a poesia. Crio todo o conteúdo dos episódios e o Diogo Lourenço é o editor de som. Nunca tinha pensado que um dia iria ter um podcast, e sinto que todos os dias continuo a aprender. É um enorme desafio para mim e não podia estar mais orgulhosa.

Fale sobre os seus demais projetos na área de literatura e cultura, como, por exemplo, os eventos “L.U.A. – Literatura, Universo, Artes” e “Sala Incomum”. 

A “L.U.A. – Literatura, Universo, Artes” é um projeto que comecei em 2017, quando ainda não sabia absolutamente nada sobre organização de eventos, com o objetivo de criar sessões de poesia. Hoje em dia é o meu playground, que uso em diferentes formatos e contextos. Já passámos pela LX Factory (Livraria Ler Devagar), Casa Fernando Pessoa e vários locais de Portugal. A “Sala Incomum” é um projeto de eventos mais consolidado, que criei de raiz para o contexto do espaço Casa Cheia. É um evento de poesia e música, “numa sala-in-comum”, no qual o apresentador é o vídeo-projetor. A primeira parte do evento tem sempre uma sessão de poesia, e a segunda parte tem sempre um momento musical ou uma performance.

Mais do que escrever, é necessário fazer ecoar nossas vozes. Aí entram as publicações. Qual é a importância da publicação, para você? 

Um objeto físico ou online ajuda o nosso trabalho a chegar a mais pessoas. Para alguém que quer fazer da escrita o seu trabalho principal, é muito importante criar uma forma de expandir os seus escritos. No meu percurso de publicação do Meia-Vida foi essencial para me afirmar enquanto poeta. 

Em 2023, você lançou o single Incorpóreo, com poesia da sua autoria e música de Diogo Lourenço. Na sua opinião, existe alguma relação entre poesia e música? 

Sim, claro. Primeiro porque qualquer poesia tem a sua própria melodia, e todas as músicas têm um lado poético. Ver o processo de criação de música para os meus poemas por parte do Diogo tem sido maravilhoso, porque ele consegue passar para música a sensação profunda que está dentro do poema. Quando atuo ao vivo, não há nenhum momento que seja melhor do que quando estamos juntos em palco. É uma energia muito forte; é passar a minha poesia para outro nível, para outro plano.

Como convidada da nossa coluna Uma cartografia da escrita de mulheres, qual mensagem você deixa para a nova geração de escritoras? 

Primeiro que tudo quero agradecer imenso pelo convite. Quero dizer à nova geração de escritoras (da qual também faço parte) que o mundo literário não é fácil e que todos os percursos vão ser diferentes. Apesar disso, pelo menos para mim, nada me faz mais feliz do que escrever e acredito que muitas de vocês sentem o mesmo. A poesia e escrita tornam-nos mais sensíveis, mais atentas, mais humanas/menos humanas. A literatura torna-nos obcecadas com a vida, apaixonadas pelos detalhes e fascinadas com tudo, até pelo cotidiano. Como digo num dos meus poemas, “Labirinto Hialino”, “Há uma poesia mais poderosa que o fundo do pensamento humano quando vejo uma sombra que existe graças à árvore e ao sol”. Por isso sintam, sintam tudo, porque não há mais nada para fazer por aqui.

Contatos da escritora:

Instagram: @anaclaudiasantos.poesia 

E-mail: anaclaudiasantos2296@gmail.com

Instagram do podcast@multiversos.podcast

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Gabriela Lages Veloso é escritora, poeta e mestra em Letras pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Atualmente, é colunista do Portal Imirante.com. Além disso, colabora com coletâneas e revistas nacionais e internacionais. Em 2023, publicou o seu primeiro livro de poesia: O Mar de Vidro, que ganhou o segundo lugar no Prêmio Melhor Livro de Poesia 2024, promovido pela Academia Maranhense de Letras (AML).

UMA CARTOGRAFIA DA ESCRITA DE MULHERES: ENTREVISTA COM JOIZACAWPY MUNIZ COSTA, POR GABRIELA LAGES VELOSO

                                


UMA CARTOGRAFIA DA ESCRITA DE MULHERES |09

ENTREVISTA COM JOIZACAWPY MUNIZ COSTA

Por Gabriela Lages Veloso

A literatura dá voz e poder às mulheres, bem como é uma importante arma de combate contra as desigualdades de gênero. Na intenção de mapear as margens e abrir espaço para as novas vozes sociais, nossa coluna intitulada Uma Cartografia da Escrita de Mulheres tem como principal objetivo promover a valorização de escritoras contemporâneas, através de entrevistas. Hoje, temos a honra de receber Joizacawpy Muniz Costa, uma escritora de destaque na literatura maranhense atual.

ENTREVISTA COM JOIZACAWPY MUNIZ COSTA:


Arquivo pessoal da autora

Joizacawpy Muniz Costa, filha de João Batista Costa e Raimunda Carvalho Muniz Costa, nasceu na cidade de Santa Inês (MA) e residiu, até aos 14 anos, em Monção (MA). Atualmente, mora em São Luís, capital do Maranhão. É escritora, pedagoga, com especialização em psicopedagogia, e professora da rede municipal de São Luís (MA). Membro da Associação Maranhense de Escritores Independentes (AMEI); da Acadêmica Interacional de Literatura e Artes Poetas Além do Tempo (AILAP); da Academia Interacional (FEBACLA), na cadeira 159 - Patrona Maria Montessori; da Academia Vianense de Letras (AVL); da Sociedade de Cultura Latina do Estado do Maranhão (SCLMA); do Coletivo de Escritores Maranhenses (C.E.M); da Academia Maranhense de Letras e Belas Artes, e é membro correspondente da Academia Zedoquense de Letras, e, da Academia Poética Brasileira (APB). É autora dos livros Essência de Uma Alma: Poesias e Reflexões (Editora JJ Viegas, 2020), Marca das Palavras (Editora JJ Viegas, 2022) e Deixa-me Voar! (Editora JJ Viegas, 2024). Atualmente, é colunista da plataforma Facetubes, membro do Grupo de Estudos em Literatura Maranhense da UFMA (GELMA) e participante do Sarau Poético Ludovicense. 

Como você começou a escrever?

Minha escrita começou de forma muito espotânea, logo na adolescência comecei a rasbiscar os primeiros textos de forma muito simples, porém antes dessa etapa quero ressaltar que cresci num ambiente propício para os livros, sendo minha mãe professora e meu pai leitor assíduo. Os livros estavam à minha disposição assim como os brinquedos, o curioso é que eu escolhi ler e me bezuntar com o prazer da poesia, isso de forma autônoma, ninguém me apresentou esse gênero, eu o busquei nas estantes de livros da minha casa. Durante a quarta série, a professora Socorro Amorim incentivou muito a minha prática da escrita. 

Por que você escreve?

Escrevo por amor às palavras, ao texto, às ideias. Desejo que as minhas mensagens cheguem aos meus leitores e possam contribuir com as suas vidas, tanto no aspecto de apreendizagem, quanto nas questões filosóficas que nos fazem pensar e repensar a vida, e também desejo que as minhas palavras, em especial os versos, toquem corações e que sejam um bálsamo para alma.

Quais escritoras(es) te inspiram?

Minhas inspirações vieram inicialmente com nomes nacionais, tais como: Cecília Meireles, Clarice Lispector, Gonçalves Dias, Drummond, Mário Quintana e tantos outros. Porém, com o tempo, esse leque de referências foi naturalmente crescendo, e então encontrei: Maria Firmina dos Reis, Laura Rosa, Mariana Luz, Florbela Espanca e muitas escritoras contemporâneas que fazem parte de meu convio. 

A sua formação acadêmica, na área de Pedagogia, tem alguma influência na sua escrita literária?  

Minha área de formação tem muita influência no meu fazer literário, primeiro porque a pedagogia nos faz caminhar por diversas áreas de conhecimento, mas também porque aguça a nossa atenção e amplia a nossa senssibilidade, elementos esses que são essenciais para quem escreve, e por fim por ser o pilar das aprendizagens de modo geral.

Comente sobre a sua obra Essência de Uma Alma: Poesias e Reflexões (2020). Quais são as principais temáticas desse livro? Onde podemos adquiri-lo? 

Essência de uma alma é uma obra que engloba um misto de situações, traz observações do mundo, tanto o palpável como o abstrato, emoções e descobertas, que revelam a minha forma muito peculiar de ver e entender o mundo, sem encerrar essa visão somente pelo meu ponto de vista, por isso, a percepção do outro também está presente. É um livro de poesia que se faz concreto tendo como fonte de inspiração o mundo, as minhas vivências e sentimentos. Esssa obra pode ser encontrada na AMEI.

E quanto ao seu livro Marca das Palavras (2022)? Explique o título e suas implicações no sentido da obra, e onde podemos adquiri-la.

Marca das Palavras é um verdeiro tributo à palavra, matéria-prima essencial para a construção do texto e a organização de ideias e pensamentos. Sou apaixonada pelas palavras e foi essa paixão que conduziu toda a construção dessa obra, que é voltada para tudo o que a palavra representa, inclusive o poder da eternidade e da imortalidade. Eu digo que os poemas dessa obra são vivos, pois interagem diretamente com os leitores. Essa obra pode ser encontrada na AMEI, porém, restam poucos exemplares.

Além de escritora, você também é professora da educação básica. Como você aborda a leitura nas suas aulas? 

Como professora, eu abordo a leitura numa atmosfera de encantamento, para além do que o currículo traz, costumo trabalhar com a leitura diretamente engajada com a literatura, para isso costumo organizar o trabalho em forma de projetos, inclusive o meu terceiro livro lançado foi Embalos Infantis, uma obra poética voltada para o público infantil, pois trabalho com séries iniciais do ensino fundamental. O lançamento dos Embalos Infantis aconteceu no espaço escolar e conseguimos dessa forma envolver toda a comunidade nesse processo de valorização da literatura, nesse momento distribuímos 300 exemplares do meu livro para os alunos. 

Fale sobre os seus demais projetos na área de literatura e cultura, como, por exemplo, a sua coluna na Plataforma Facetubes. 

Estou extremamente envolvida com a literatura, que é uma paixão arrebatadora para mim, estou fazendo parte de vários sodalícios e grupos literários, buscando sugar a seiva da literatura em todos os espaços possíveis. Tenho participado de muitas antologias, em feiras literárias e tenho uma coluna na plataforma Facetubes sob a direção do presidente da APB, Mhario LIncoln, a plataforma tem oportunizado ao meu fazer literário uma grande expansão, pois possibilita que eu escreva para um público bem abrangente porque esta tem um longo alcance, é um espaço maravilhoso que me dá oportunidade principalmente de mostrar a literatura e seu universo mediante os acontecimentos literários sociais, sobretudo do Maranhão. Tenho livros em construção que serão lançados oportunamente.

Mais do que escrever, é necessário fazer ecoar nossas vozes. Assim, se destacam as Academias de Letras e Artes. Qual é a importância da participação de escritoras em Academias e coletivos literários, para você? 

Tenho em mente que a voz feminina, assim como a masculina, é de fundamental impotância nos espaços literários. Somos fruto de um modelo de sociedade patriarcal, em que a voz da mulher não tinha eco até algum tempo atrás, entretanto, com a evolução humana as mulheres têm conquistado seus espaços na sociedade, seu lugar de fala e sua contribuição na literatura é inegável. Sendo assim, merecemos (e devemos) estar em pé de igualdade com os homens nas intituições literárias, fazendo ecoar nossas vozes cheias de peculiaridade e sensibildades significativas. 

Como convidada da nossa coluna Uma Cartografia da Escrita de Mulheres, qual mensagem você deixa para a nova geração de escritoras?

Quero que a nova geração de escritoras, que já oferece frutos, possa confiar em seu talento, competência e engajamento social, e que possa ser capaz de ajudar a alcançar uma cultura literária em que as mulheres ecoem as suas vozes com muita convicção, por meio da escrita, ajudando a recompor uma sociedade mais justa e igualitária no que se refere a homens e mulheres.


Contato da escritora:

Instagram: @joizacawpy

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Gabriela Lages Veloso é escritora, poeta e mestra em Letras pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Atualmente, é colunista do Portal Imirante.com. Além disso, colabora com coletâneas e revistas nacionais e internacionais. Em 2023, publicou o seu primeiro livro de poesia: O Mar de Vidro, que ganhou o segundo lugar no Prêmio Melhor Livro de Poesia 2024, promovido pela Academia Maranhense de Letras (AML).

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Mulherio das Letras SP

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                                                                                      Por Meire Marion                                                         

M U L H E R I O   D A S   L E T R A S - SP


Em letras talhadas com força e luz,

Mulheres que escrevem, um mundo conduz.

Com canetas que dançam, o amor nos seduz,

E em cada verso, a coragem que reproduz.

 

Feminismo é melodia, é união a brilhar,

Mãe, filha, amiga, no mesmo caminhar.

Mulher que apoia, que se faz voz e chão,

Juntas arquitetando um futuro em união.

 

Nos versos da vida, vamos nos encontrar,

Em um oceano de histórias a navegar.

Toda letra é uma ponte, um elo por criar,

Mulheres das letras, venha nos inspirar!

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Arquivo da autora

       


      Meire Marion é professora de inglês, língua e literatura, escritora e poeta. É diretora da UBE (União Brasileira de Escritores), responsável pelo Prêmio Cláudio Willer de poesia. Têm sete livros para crianças publicados pela Editora Scortecci. É colunista da Revista Voo Livre de literatura. Também participa de diversas antologias com poemas e contos.

ASTRID CABRAL, POR SANDRA GODINHO

Fonte da imagem: aqui
Astrid Cabral nasceu em Manaus, AM, onde fez os primeiros estudos e integrou o movimento renovador Clube da Madrugada. Foi morar no Rio de Janeiro ainda quando adolescente. Graduada em Letras Neolatinas na atual UFRJ. Lecionou língua e literatura no ensino médio e na Universidade de Brasília, onde integrou a primeira turma de docentes saindo em 1965 devido ao golpe militar. Em 1968 ingressou por concurso no Itamaraty, tendo servido como Oficial de Chancelaria em Brasília, Beirute, Rio e Chicago. Com a anistia, em 1988 foi reintegrada à UnB. Ao longo de sua vida profissional desempenhou os mais variados trabalhos, fora e dentro da área cultural. Detentora de importantes prêmios, participa de numerosas antologias no Brasil e no exterior. Colabora com assiduidade em jornais e revistas especializadas. Viúva do poeta Afonso Félix de Sousa, é mãe de cinco filhos. Fonte: http://www.jornaldepoesia.jor.br/astridcabral.html 



A PROSA NA OBRA "ALAMEDA" DE ASTRID CABRAL 

Sandra Godinho

A primeira vez que tomei conhecimento de Alameda, a obra inaugural de Astrid Cabral publicada em 1963, foi através do meu querido e falecido amigo José Benedito dos Santos que, sabendo que eu escrevia um romance cujo narrador era uma árvore, deu-me o livro de presente. O efeito da escrita da autora em mim foi devastador e indelével. Meu querido amigo me fez entender a grandeza de Astrid e, além disso, reconhecer que era uma mulher à frente do seu tempo.

Primeiro, porque ela deu protagonismo ao mundo natural. Não que não houvesse outros autores que mencionassem matas e florestas. Inferno Verde, livro de contos de Alberto Rangel publicado em 1908, e A Selva, romance de Ferreira de Castro publicado em 1930, já mencionavam o mundo natural, mas sempre como cenário, selvagem, inóspito e imenso. Astrid não somente deu protagonismo ao mundo natural, mas também relacionou o mundo natural ao humano, fazendo uma analogia à nossa própria vida. Ao personificar grãos de feijão, laranjas, rosas, papoulas, folhas, orquídeas etc., atribuindo-lhes características humanas, a autora fugiu do que poderia ser considerada uma literatura regional, algo que na tradição literária sempre foi considerada menor. Além disso, Astrid antecipa uma consciência ecológica que só tomou vulto no Brasil em meados dos anos 1980, quando a consciência nacional sobre as questões ambientais passou a ser levada a sério, corroborada por estudos científicos de maior envergadura. Não fosse isso o bastante, Astrid trouxe temáticas femininas às suas narrativas, especialmente ao tratar a terra como um “cemitério e viveiro de sementes”, reforçando a função maternal, equiparando a terra ao útero feminino; trata-se agora da mãe-terra e da mãe-natureza, mas não só. Astrid, ao abordar temas como a beleza e a reprodução, e refutando-as como o ápice das funções femininas, evidencia o ativismo feminista em suas narrativas.

Outro item que me chamou a atenção foi o título escolhido pela autora, Alameda, que é, afinal, um caminho constituído por árvores plantadas em fileiras. O que se intui através desta escolha é que realmente Astrid não quis retratar a natureza selvagem, mas uma domesticada, singularizada e culturalizada. Ao discorrer sobre esta natureza domesticada, Astrid, por analogia, fala da nossa própria domesticação frente aos valores impostos por nossa sociedade.

Alameda traz-nos 20 histórias triviais, singelas e colhidas do nosso cotidiano. Através delas, Astrid faz profundas reflexões filosóficas e psicológicas sobre nosso próprio existir. São narrativas cujos temas tratam do ciclo da vida, da finitude e do recomeço, da provisoriedade de tudo, da impermanência e da permanência, esta última vista sob o viés da beleza e da reprodução.

Em Destino, por exemplo, uma plantinha se encontra dentro de um vaso, tomando sol num canto da janela, até que um gato descuidado a derruba, destruindo o vaso que se parte em inúmeros cacos. A empregada recolhe os cacos, a planta e os atira pela janela. Esta plantinha, nomeada por Astrid de “brotinho”, traz a primeira conexão com o humano/a mulher, visto que brotinho era uma gíria da época que fazia referência a uma moça. Temos aqui também os temas caros a Astrid, que nos remete à finitude da vida, da morte que nos colhe ao acaso, ainda que no texto esteja presente certa mensagem de esperança: apesar das nossas prisões, somos abençoados por simplesmente existir. Além disso, se atentarmos para o trecho da obra: “Era o sol que lhe punha aquelas grandes sardas douradas, o ar todo faceiro. Também a pose graciosa com que distribuíra seus membros, já agora multiplicados, era convenientemente adequada ao banho de sol [...] A cútis fina, queimada de tempo, engelhava-se até a queda final, que seria mansa, ao arrepio do primeiro vento”, reparamos que a verve poética de Astrid já se faz presente nas assonâncias, aliterações, nas metáforas, nas imagens e no ritmo das frases.

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No segundo conto, Arvoreta, árvore, arvoreta, é interessante notar como Astrid, no próprio título, transmite o andar do sol pelo céu, projetando a sombra de uma árvore, que se alonga no começo da manhã, fica justa ao meio-dia e torna a se alongar no final da tarde. É o sol que banha a árvore, que lhe dá luz, mas a árvore só se enxerga através da sua sombra, sempre dentro da própria individualidade, exacerbada, orgulhosa, altiva e iludida pelo olhar alheio. Por mais que a árvore se iluda e se ache exuberante, será sempre prisioneira de si mesma, presa às próprias raízes. Observando o trecho da narrativa: “Quando fazia sol, via-se fotografada ao longo da calçada, e via-se também crescer e diminuir, a imagem apagar e acender. Gostava da brincadeira de verão, a divertida dinâmica de sua sombra a crescer e minguar num só dia – arvoreta, árvore, arvoreta. Mas tudo era jogo visual, o percurso do sol acionava a silhueta. Depois de certo tempo, não mais se iludia. [...] Bem que gostaria de escapar-se, transpor-se além de suas fronteiras a fim de fruir nova dimensão, mas não ousava”, notamos a poética pungente da autora na sua prosa.

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O conto A praça discorre sobre uma praça que foi inaugurada pelo prefeito e que, passada a euforia dos primeiros passeios, é desprezada por seus frequentadores. Aqui, a autora define a praça como sendo a terra remodelada pelo prefeito, o chão que aceita tudo e, após algum tempo, torna-se desprezado pelos homens. A mãe-natureza, tal qual as mulheres, também é ignorada pelos homens. Expressões presentes no texto como ‘pise de mansinho’ ou ´cuide de seu jardim’, evidenciam a antecipação de uma consciência ambiental. Nos trechos seguintes: “Elas, (as plantas), não viviam em função dos homens, nem deles dependiam, como era o empenho de muitos fazer supor. Descaso, desprezo, nada lhes alterava o destino da espécie” [...] “ Era portanto certo que (as plantas) existiam para autossatisfações, donas de si mesmas e tão livres dentro do repouso como o ar que as oxigenava. O que havia era abuso, exorbitância do espírito dominador dos homens”, se substituirmos ‘as plantas’ por ‘as mulheres’, a analogia ao mundo feminino ainda é pertinente.

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No conto Laranja de sobremesa, temos outra história simples e trivial, discorrendo sobre uma laranja que está sobre um prato. Ao ser servida de sobremesa, reflete sobre o ciclo da vida: ela vem de uma árvore que deu fruto, que virou semente, que virará árvore novamente. Nós, assim como a laranja, seremos consumidos pelo tempo, mas deixaremos nossas sementes sobre a terra. Astrid retrata a finitude da vida, o recomeço e também nossa submissão ao tempo. A laranja aguarda seu destino, assim como todos nós. A beleza e o viço são precários.

No texto intitulado A cerca, ela que é “uma árvore sob outra forma’, reflete sobre sua vida, está entregue agora às intempéries e aos cupins, e se sente culpada pela morte de seu amigo gato, que caiu de pé em um dos seus sarrafos pontiagudos. De sua abundância de árvore, forte e firme sobre a terra, ela está reduzida a um corpo estéril capaz de causar a morte de outro ser. Escrita em tom melancólico, a cerca fala sobre seu inconformismo e sobre sua degradação, refletindo sobre a inutilidade de tudo, convencendo-se de que sua vida foi apenas um acaso. Os temas neste conto são o sentido da vida e a inevitabilidade da morte. Apesar do tom melancólico, o que me chama a atenção nesta narrativa é a ironia empregada pela autora: a árvore firme e forte se tornou uma cerca que mal para em pé. A partir desta história aparente e linear, Astrid traz subtextos potentes: a despeito da estabilidade e da firmeza que um ser pode ter, todos podem desmoronar de uma hora para outra, ou: é suposto que uma cerca contenha as coisas, mas a cerca de Astrid não contém nada, nem a passagem do tempo, nem as ações alheias, ou: a cerca lamenta ter perdido as referências do passado, de quando era árvore, mas para viver o presente, o passado não importa, ou: nutrir um sentimento melancólico previamente à morte é vivenciar a morte em si mesma, ou: o vínculo com as nossas raízes é o que nos fortalece.

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O conto A aventura dos crótons fala de uma planta ornamental, o cróton, que, crescendo belo num canteiro graças às podas do jardineiro, passa a invejar as heras que “pintam de verde as paredes da casa da esquina”, crescendo horizontalmente para todos os lados, em total liberdade. O cróton quer se aventurar, então roga à natureza que lhe conceda este desejo. A natureza parece atendê-lo, lançando uma chuva torrencial que liberta suas raízes do solo e o leva, mas, sem ter como fincar-se à terra, é levado pelas águas e sucumbe. O texto fala sobre deixar uma vida cercada de segurança, já que a “tenacidade do jardineiro zelava pela dócil submissão de todos”, mas limitada e cheia de marasmo. Astrid refere-se à impermanência, à liberdade e ao risco de viver. Podemos fazer outras reflexões, como: a inveja e o anseio por outras terras estão presentes tanto nas plantas quanto nos seres humanos, ou: o resultado de todo esforço é uma surpresa, nem sempre agradável, ou:  o  “jardim do lado de lá”, pode ser apenas uma ilusão, ou: é preciso dar valor à terra onde se vive, ou: o desejo de mudar pode gerar uma frustração imensa, é preciso ter os meios, não só o desejo, ou: o desgosto em habitar um lugar que não se deseja faz perder todo o sentido e o encanto da vida. Neste texto, há também uma consciência da heterogeneidade, do outro e do lugar que ele ocupa.

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No conto Queixa contra o vento, uma quaresmeira reclama dos caprichos do tempo, sempre lutando contra a ameaça de tombar e sucumbir. Neste trecho da obra “O vento fica aí a soprar sem cessar. Sem saber do meu medo, da gana de fechá-lo em algum lugar. Dentro de um morro, de uma gruta. Afinal, que pretensão pensar nisso. Logo eu, que não me aguento em pé, que sofro de câimbras, que não resisto ao seu menor suspiro”, notamos o uso de rimas, cadência das frases, assonâncias e aliterações, evidenciando a forte verve poética de Astrid, presente desde esta obra inaugural.

O conto O parque fala de um parque cujas “árvores espichadas, esguias, e arbustos baixotes, corpulentos, mantêm-se atados pela tranquilidade de pedra. Ali a vida não se pui com o uso, não implica amanhãs e mortes, mas trata-se de uma paz de pedra, marmórea e mortal. Neste mundo de pedra, é sempre noite. O tema de Astrid nesta narrativa é a domesticação da própria existência. Este viver de modo mecânico, sem notar se é dia ou noite, sem atentar para o que realmente importa, é um não viver.

No conto Avispiscis pulcherrima, Astrid fala de uma árvore imaginada, uma árvore fabulosa, com a capacidade fantástica de se adaptar a tudo, aos charcos, ao deserto, às geleiras dos polos e que é de uma beleza inigualável. Apesar da exuberância, ela tem frutos estéreis, incapaz de deixar descendência, motivo de suas lágrimas. A temática de Astrid nesta narrativa diz respeito à validação da beleza pela capacidade de reprodução. A uma planta (mantendo a analogia com relação à mulher) não basta ser vistosa sem reproduzir, é necessário deixar sementes e descendência para ser validada sob o olhar dos humanos. São temas intrinsicamente femininos.

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Na narrativa A agonia da rosa, Astrid discorre sobre rosas que acabaram de florescer e, estando no esplendor de sua beleza, são colhidas e colocadas como um ramalhete dentro de uma caixa de celofane. Aqui, a beleza vira acessório, serve somente para dar alegria e prazer a alguém e, portanto, tem vida curta. A essência feminina é comprimida em um receptáculo. Aprisionada, ela murcha e seca em definitivo. A autora faz uma crítica à superficialidade, à vida de aparências e à provisoriedade de tudo.

No texto Um grão de feijão e sua história, o conto mais lindo desta coletânea na minha opinião, grãos de feijão estão sendo selecionados para serem cozidos, mas um grão é deixado de lado por não atender às expectativas da empregada. Ele é jogado pela janela e vai parar numa terra fértil, enchendo-se de esperança, julgando que vai brotar, enraizar e reproduzir, até que a empregada, que tinha o mau hábito de jogar coisas pela janela, derrama um jato de água quente sobre ele, desfazendo seu futuro. A partir desta história singela, podemos pensar em inúmeras inferências, tais como: só inteiros temos o ‘direito’ de ‘estar no mundo’, ou: a finitude nos torna tão vulneráveis quanto um grão de feijão, ou: mesmo uma planta é capaz de sentir, ou: para ‘ser’ algo ou alguém é preciso ocupar um determinado lugar, ou: é na terra que está a vida; é ela que preserva toda nossa descendência, ou: é preciso criar raízes para florescer. Astrid abre portas para vários subtextos e várias interpretações.

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Passando ao último conto da coletânea, encontramos À sombra da papouleira, onde uma folha seca e outra verde conversam à sombra da papouleira, dentro do jardim de uma casa. Elas escutam a aproximação do jardineiro e se surpreendem ao saber que o dono quer derrubar a papouleira para fazer um novo jardim. Então, as folhas se revoltam, tomando ciência de que a vida é breve e que, aos homens, “era comum o hábito de derrubar plantas e até florestas inteiras. A preocupação de Astrid com o meio-ambiente e com a prática dos homens de devastar se faz notória. Num mundo onde “a vida é um rosário de pequenas mortes”, só resistindo em coletivo podemos sobreviver.

A grandiosidade da obra inaugural de Astrid é notável e pujante, seja nos temas, seja na sua prosa poética, na sua visão à frente do seu tempo, na sua preocupação com o feminismo e nas questões ambientais, fazendo os leitores refletirem sobre a vida através de histórias singelas do nosso cotidiano, lhe reservando o merecido lugar de destaque na literatura amazonense e na literatura brasileira contemporânea. Leiam Astrid!

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Arquivo da autora


Sandra Godinho nasceu em 1960 em São Paulo, é graduada e Mestre em Letras. Já participou de várias coletâneas e antologias de contos, sendo agraciada com alguns prêmios. É membro número 78 da AILB, Academia Internacional de Literatura Brasileira. 

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