Uma mulher que escreve é uma mulher muito perigosa.
Por Rita Alencar Clark
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Uma mulher que escreve é uma mulher muito perigosa,
dizia bell hooks. Que o diga Gisèle Pelicot! Quando o mundo ficou
sabendo que uma mãe de família, casada, com três filhos, levando uma vida
pacata numa cidade do interior da França foi abusada sexualmente durante uma
década pelo próprio marido, autorizando diversos homens a violarem depois de
dopá-la, muitos não acreditaram. Como assim? Como um marido poderia fazer isso
sem levantar suspeitas? Foram tantas as perguntas e as dúvidas que o caso, narrado
pela autora no livro autobiográfico A vergonha precisa mudar de lado – um
hino à vida, publicado pela Editora Companhia das Letras, em 2026,
viralizou pelo mundo.
A violência e o abuso escancararam um portal sombrio,
no qual muitas mulheres são mantidas como reféns, de maridos, de amantes, de
pais e de companheiros. No caso de Gisèle, reiteradamente por anos e
inconsciente do que lhe acontecia, dopada, anestesiada, violentada e filmada.
Parece ficção, mas não é. E, o que mais nos choca: com a participação de quem
prometeu amá-la, protegê-la e respeitá-la. O hoje condenado ex-marido
arregimentou mais de 50 homens da comunidade local, de todas as idades (homens
e não monstros), para participarem desse ritual violento e abusivo, sem culpa
ou ressentimentos, por mais de dez anos transitando pela cidade livres do peso
na consciência; amorais, todos eles. A mensagem de Gisèle, ao decidir expor seu
caso e abrir mão do anonimato a que tem direito (e juridicamente concedido) é: A
vergonha mudou de lado.
Foi sua resposta aos abusos extremos que sofreu
que lhe deu força e controle sobre sua vida. As violências continuam a
acontecer com outras mulheres, são de todos os tipos e levam a diversas mortes:
física, moral, psicológica, emocional, financeira e patrimonial. Sim, há
inúmeras mortes para as mulheres que sofrem agressões, até para as que resistem
fisicamente a elas, mesmo morrendo todos os dias devido aos traumas. Ser mulher
na contemporaneidade é um risco diário e um exercício contínuo de
sobrevivência.
A sexual é apenas uma delas. No topo da lista, incluo
o epidêmico e atualíssimo feminicídio, mas há outra violação camuflada e
abafada pela comunidade intelectualizada, protagonizada por homens em sua
maioria. Trata-se da violação literária contra as mulheres que escrevem. Um
abuso antigo, que remonta aos primórdios da implantação, no Brasil, das
máquinas tipográficas, trazidas em 1808 por D. João VI. Desde esse período, e
só para ficar no âmbito nacional, as mulheres que escreviam, muitas sem
qualquer pretensão de publicar, já eram relegadas ao mutismo das aspirações
literárias. Ou vamos acreditar no “conto da Carochinha", que mulher nunca
soube escrever? Por muito tempo, acreditou-se nesse absurdo, fosse por
imposição do patriarcado, fosse pela falta de acesso, ou simplesmente pela
proibição aos estudos e aos livros, “estudar era caro ou pensar não era coisa
de mulher”.
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Com o tempo, e graças a tantas autoras corajosas e
brilhantes, dispostas a enfrentar o patriarcado, as mulheres persistiram,
resistiram e continuam escrevendo à revelia desta infâmia. Hoje, um número
considerável e insurgente de mulheres aponta na Literatura Contemporânea com
obras importantes, escrevem mesmo alquebradas por insultos machistas,
tentativas de desmerecimento e apagamento dos seus trabalhos literários, muitas
vezes produzidos à base de jornadas triplas, sem descanso ou redes de apoio,
dividindo seu tempo entre filhos, cuidados domésticos, maridos descontentes,
trabalhos mal remunerados e lidando com as incômodas “crises de impostora”
durante a madrugada. Não há pagamento, muito menos garantias. Contudo, as
mulheres escrevem até as mãos sangrarem no teclado de um notebook, revisando o
texto até o dia amanhecer, exaustas, só para recomeçar a rotina doméstica e
profissional no dia seguinte. A esta dura rotina, agrega-se outra tarefa
relevante: enfrentar a baía de tubarões prontos ao ataque, disfarçados de
editores e de críticos literários – não todos, obviamente, há gratas exceções –
mas os tubarões são famintos, e se alimentam das fragilidades. Cabe às mulheres
não se deixarem abater por análises rasas e não fundamentadas dos seus
originais de romances, de poemas, de resenhas, de ensaios, etc. Compete às
mulheres buscar a maestria do ofício, sem se deixar contaminar pelo veneno
corrosivo de uma depreciação precipitada, capaz de levar autoras principiantes,
e algumas veteranas inseguras, a abortarem precocemente suas carreiras
literárias. Esta é, sem dúvida, mais um tipo de violência para nossa longa
lista.
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Aquelas que sobrevivem a esta Via Crucis de provações,
escapando dos tubarões, das armadilhas da auto sabotagem, da falta de
incentivos, certamente conseguem um lugar nas editoras independentes,
publicando seus livros, ainda com a missão árdua de vendê-los, divulgá-los,
consigná-los em livrarias simpáticas e meios confiáveis para receber, com
sorte, um percentual ínfimo por livro vendido. Essa é a nossa realidade, a das
autoras que publicam de forma independente, e quer saber mais? Temos muito
ainda para falar. Trazemos novas temáticas ao mercado editorial, falamos de
útero, abusos, violações, amores livres, nossos corpos, nossos prazeres, poemas
eróticos, rasgamos o ventre e abortamos dores seculares, remontamos nossas
histórias em romances e novelas. Nossas obras não podem, e nem serão preteridas
eternamente em concursos e prêmios literários por pareceristas não capacitados
ou gabaritados para exercer a função. Denunciaremos o desprestígio, a
intimidação e o silenciamento de nossas vozes, assim como os extermínios de
povos originários e das minorias periféricas, das deflorações dos corpos e das
florestas, dos abandonos paternos, das alienações parentais, dos preconceitos
de gênero, racismo e misoginia. Escancaramos as portas lacradas das alcovas
sombrias e revelamos os segredos mais escondidos e vis do patriarcado, porque
também nós temos direito à palavra.
Texto pronto e uma alegria íntima, legítima e
inconfessável corre pelo corpo e pela alma, com a sensação de ter caminhado por
um deserto quente e inóspito, ansiando por publicar e encontrar nossos
leitores, sabendo que temos nas mãos escritos dignos de serem lidos e
apreciados. Assim nos mostrou Gisèle Pelicot, assim desmontamos o teatro vulgar
da hipocrisia, revelando que o mundo masculino não pode sobreviver na
impunidade dos arredores domésticos, nos pactos de silêncio e no acobertamento
mútuo. Sim, escrever é muito perigoso, principalmente se essa escrita é feita
com o sangue e a mente de uma mulher. Gisèle Pelicot
nos encorajou a lutar e continuar a escrever; mesmo aterrorizadas, em fúria, despidas e violadas. Porque nossa escrita é única, vem impressa sobre nossos corpos e dores, na pele, não em armaduras frias ou máscaras de persona, mas iluminada por ideias que acendem a alma.
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Rita Alencar Clark foto: arquivo da autora |
Parabéns pelo texto necessário!
ResponderExcluirObrigada, é nosso!!
ExcluirRita, querida, seu texto é um verdadeiro manifesto. Obrigada por tê-lo escrito, me reconheci nele. Estamos cada vez mais conseguindo arrancar o pano podre da cortina patriarcal e misógina que existe nesse meio. Parabéns por ser essa escritora que não se curva!
ResponderExcluirObrigada, Tainá, somo mais fortes do que imaginamos!!
ResponderExcluirRita, parabéns preo texto tão verdadeiro e revelador! Me sinto extremamente representada. A sua coragem me inspira e me alegra!
ResponderExcluirSou muito grata por sua leitura e mais ainda pela sua parceria na causa! Estamos juntas e não nos falta talento!
ExcluirSeu artigo é cirúrgico e diz de todas nós. Parabéns, Rita Alencar Clark! Gratidão por tanto!
ResponderExcluirObrigada, Heliene! Essas palavras vindas de você são como um abraço depois do confronto...lutar com as palavras não é fácil. Orgulho de tê-la conosco ! Abraço grande!
Excluir" Sim, há inúmeras mortes para as mulheres que sofrem agressões, até para as que resistem fisicamente a elas, mesmo morrendo todos os dias devido aos traumas. Ser mulher na contemporaneidade é um risco diário e um exercício contínuo de sobrevivência" - Rita 👏👏👏👏
ResponderExcluirMuito obrigada, Lu ! Você é um parceiro fundamental nessa luta! Seu talento, carisma e grande coração são necessários entre nós!
ExcluirRita, li seu texto com admiração: necessário e importante. Sua reflexão nos conduz da dor à resistência, mostrando como a escrita das mulheres continua sendo um espaço de enfrentamento e afirmação. Ao trazer a história de Gisèle Pelicot para esse diálogo, você nos lembra da importância de não silenciarmos diante das injustiças. Um texto forte e inspirador. Grata.
ResponderExcluirEu que agradeço a leitura e a parceria, Rosângela. Este nosso espaço de reflexão é um oásis dentro do deserto árido que nos metemos ao escrever...sigamos inteiras e fortes!
ExcluirQue texto valioso, Rita! Tão oportuno para esses tempos em que, ainda bem, "escrever é muito perigoso, principalmente se essa escrita é feita com o sangue e a mente de uma mulher". Porque se escrever não fosse perigoso (e Clarice já lembrava isso!), também não seria vereda de libertação. Grato por compartilhar comigo. Parabéns e abraço dos grandes. (Odenildo Sena)
ResponderExcluirObrigada, Odenildo, mestre e amigo, estamos precisando de mais pessoas como você por aqui , sua elegância e lucidez nos faz falta...grande abraço!
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