sábado, 29 de agosto de 2026

UMA CRÔNICA DE SUELI DE BRITO SALLES

Imagem Pinterest

A ARQUITETURA DA DESIGUALDADE

Em A Paixão segundo G.H., quando a patroa entra no espaço da serviçal, ocorre a epifania e a crueza da humanidade se revela. Clarice Lispector usa o quarto de empregada recém desocupado como metáfora da linha que separa as classes sociais. O medo do contato com o outro moldou historicamente a ocupação do espaço no Brasil. Se proibir o uso do elevador social hoje é crime e os antigos quartos de empregada sumiram dos projetos, seria isso um sinal de integração entre diferentes classes?

Depende de como a arquitetura urbana se reinventa. Olhando para os grupos intermediários — entre o beneficiário de habitação social e o morador de condomínios de alto padrão —, um fato curioso tomou forma em São Paulo: o surgimento de edifícios com ares de sofisticação, mas de uso misto, com apartamentos amplos vizinhos de unidades populares financiadas por programas como o Minha Casa, Minha Vida.

Recentemente, um desses empreendimentos — localizado em um tradicional bairro italiano da capital — me lembrou as análises de Gilberto Freyre sobre espaço e divisão social. O catálogo de vendas ostenta mais de vinte itens de conforto, áreas verdes e unidades de 70m² a 130m². No entanto, os studios de 20 metros quadrados, voltados a outro público, nem sequer aparecem no material publicitário.

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À primeira vista, a mistura parece democrática. Mas a motivação real está no Plano Diretor de São Paulo, que concede isenções fiscais a empreendimentos de uso misto próximos a eixos de transporte. Misturar metragens reduz o imposto, eleva a margem de lucro e cumpre metas de densidade populacional.

Na prática, porém, o projeto aprovado como um bloco único fragmenta-se para separar os públicos. No caso do edifício italiano, construído em terreno inclinado, os apartamentos maiores ficam na parte alta e têm entrada por uma rua. Já os studios — verdadeiros porões do castelo — ficam nos níveis inferiores e acessam o prédio por outra rua, sem direito de uso da área de lazer ou mesmo qualquer comunicação com os vizinhos de cima. Entra-se pelos fundos, sem nem avistar a piscina.

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Mesmo com tudo isso, para os mais pobres, morar ali não é simples: muitas unidades são compradas por investidores e viram aluguéis caros. Ainda assim, a presença desses moradores serve de álibi para que o andar de cima se aproprie de incentivos públicos voltados ao direito à moradia. A casa grande nunca quis se misturar com a senzala; apenas aprendeu a lucrar com a sua proximidade.





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Arquivo da autora

Sueli de Britto Salles é professora universitária em São Paulo, apaixonada pela escrita, pelas questões das mulheres e pelo mistério da existência. Além dos textos da área acadêmica, publicou, com três amigos, o livro de contos: Eu, o gato e outras histórias e participou das coletâneas poética I e II Tomo das Bruxas (Siano, 2022; TAUP, 2023).

2 comentários:

  1. Sueli, sou apaixonada pela palavra arquitetura!!! parabéns pelo tema!!! Você faz uma crítica contundente à forma como a arquitetura e o mercado imobiliário podem reproduzir a desigualdade social, mesmo quando aparentam promover integração. A comparação com a “casa grande e senzala” mostra que a proximidade física entre classes não significa, necessariamente, convivência ou igualdade de direitos. O exemplo dos edifícios de uso misto evidencia como interesses econômicos e incentivos públicos podem criar uma segregação disfarçada, separando moradores por acessos, espaços e oportunidades. Uauuuu, vc questiona se a arquitetura está realmente integrando a cidade ou apenas encontrando novas formas de manter antigas hierarquias sociais.

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  2. Oi, Analu! Muito obrigada por seu comentário. O que mais me incomoda é ver como as pessoas vão normalizando situações de segregação e deixam de sentir qualquer incômodo diante do absurdo.

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