sexta-feira, 8 de maio de 2026

UMA CRÔNICA DE MARGARIDA MONTEJANO

Imagem Pinterest

REATANDO O CORDÃO

Ela me amou primeiro.
Eu a amei no segundo segundo.
Construímos juntas
nossa história de Amor.

Por Margarida Montejano

Cara leitora, caro leitor! Sobre a maldade impressa e expressa em atos e palavras contra a mulher, os animais, a natureza, compartilho está crônica com vocês!

Minha mãe aprendeu com a mãe dela, que aprendeu com a avó, que aprendeu com a tataravó… que aprendeu com a Mãe Terra que o cordão umbilical cortado ao nascer, um dia, pela força da palavra, será reatado. 

E, antes mesmo de eu aprender a falar, minha mãe já tomava o cuidado de me ensinar a ler. A ler o dia e a noite. A interpretar a chuva e o vento. A admirar o sol, a flor, as árvores e o mar. A pensar antes de falar e que, estranhamente, pensamento e palavra moravam no coração!  Que vida e morte andavam de mãos dadas. Eu só ouvia.

Dizia ela com palavras de bem-querer, que a vida se constrói aos poucos e, com os pedacinhos do tempo e das palavras que destinamos às plantas, aos bichos, às gentes e…, devagarinho completava… “às criancinhas”. Insistia em falar que nós, no uso do tempo e das palavras, tecemos a forma de nossa morte.

Eu não entendia nada, mas achava tudo muito lindo. No som melodioso das palavras tudo, segundo ela, num dado momento da vida formaria um grande quebra-cabeça incompleto. Sim! Insistia em dizer que faltava, entre as coisas, bichos, flores, gentes e palavras, o meu pedacinho, a minha parte.

Imagem Pinterest
Eu a observava por horas na lida do dia e, quando cansada, jogava água no rosto e lançava o olhar ao infinito, desfiando, no rosário invisível entre os dedos, o “Salve Rainha” a rezar. Ela, baixinho, pedia a Deus, com delicadeza, que protegesse a palavra. O pensamento, a boca, as mãos e o coração.

Não entendia eu que palavra ela pedia para Deus proteger. Curiosa, queria saber. Um dia, desses dias comuns que povoam as nossas lembranças, a peguei sussurrando ao pé do ouvido de meu pai.  Esforcei-me pra ouvir e, com muito custo, descobri, no sussurro e cumplicidade entre os dois, a palavra cantada a entoar gentileza.

Dizia ela a ele: - Seja gentil! Pense bem! A vida de mulheres, dos bichos, das florestas e rios, pede cuidado.  Cuidado com pensamento e linguagem. Ambos moram no coração! Cuide, ao falar! A palavra retorna insana a quem mal a profana! Numa breve pausa, continuava ela: palavras não foram feitas para agredir ninguém. São ondas sonoras através das quais os sentimentos, maus e bons, vão e vêm. Cuidado! Nosso cordão umbilical, vínculo com a vida precisa ser reatado.

Vida?   Será esta a PALAVRA?

P.S.: Ofereço esta crônica a todas as Mamães de todos os tempos. À minha, à tua...

Margarida Montejano - 10/05/2026

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Arquivo da autora
Margarida Montejano, mora em Paulínia/SP. É Poeta e escritora feminista; Func. Pública na Secretaria Municipal de Educação de Campinas. Defensora ativa dos direitos da Mulher, sendo membra do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher; Coordenadora do Projeto Bem-Me-Quero: Empoderamento Feminino e Igualdade de Gênero e, Criadora do Canal Literário – N’outras Palavras –  histórias que inspiram, no Youtube. Autora dos livros Fio de Prata - Ed. Siano (2022); Chão Ancestral, TAUP Editora (2023) e dos livros infanto juvenis A Poeta e a Flor,  A Poeta e a Sabiá, pela Editora Siano. (2024) e O Silêncio da Loba, TAUP, Editora (2025). Para contatar com a autora: @margaridamontejano.escritora

6 comentários:

  1. MARIA ELIZABETE NASCIMENTO DE OLIVEIRA8 de maio de 2026 às 19:36

    Que lindo texto! Hoje mesmo falei sobre isto em uma homenagem ao dia das mães. A crônica apresenta uma reflexão profunda sobre a ancestralidade feminina e a responsabilidade ética que carregamos por da linguagem. Ao narrar os ensinamentos passados de geração em geração, o texto estabelece uma conexão sagrada entre o ser humano e a "Mãe Terra", sugere que o cuidado com o mundo começa no coração. Margarida utiliza a metáfora do cordão umbilical para ilustrar que, embora sejamos fisicamente separados ao nascer, permanecemos ligados à vida e à natureza por meio de um vínculo invisível que precisa ser constantemente reatado por meio de ações e pensamentos positivos.
    A crônica alerta para o peso das nossas escolhas verbais. Afinal, a maneira como utilizamos o tempo e a fala acaba por tecer a própria essência da nossa existência e o legado que deixaremos ao mundo.

    Parabéns Margarida! Crônica belíssima. Bjks!

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    1. Elizabete, minha querida amiga. Que releitura linda você fez da crônica! Nossas mães falam por todas as mulheres que nos antecederam nos lembrando que é preciso cuidar da vida, cuidando das palavras, dos pensamentos, dos atos... Que somos uma parte descolada do todo e a ele, um dia retornaremos. Que nossas escolhas sejam assertivas! Que a palavra nos escolha! Abraços, querida. Grata por suas palavras! Beijão

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  2. Tocante, Margarida, principalmente sabendo o momento que você está vivendo. Homenagem à sua mamãe que partiu. Elas são eternas para nós.

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  3. Querida, Dirce. Grata por sua leitura. De fato, esse é um tempo difícil de atravessar! Sorte que a prosa e a poesia me acompanham. Forte abraço, amiga.

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  4. Lindíssimo, Margarida, chorei aqui!!

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  5. Que maravilha essas palavras, a benção a todas as mulheres que conseguem se conectar ao sagrado.

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