sexta-feira, 6 de março de 2026

UM CONTO DE SANDRA SAN'TOS

A   R E V O L T A   N O   D E S C A R T E

POR SANDRA SAN'TOS

Imagem Pinterest
Eu não estava sozinho; junto a mim, muitas coisas familiares: livros, revistas, salmos da igreja, roupas, algumas ferramentas de pedreiro, um par de óculos, e outras que não conseguia divisar. Era um lugar escuro, cheio de ruídos desconhecidos, além de um cheiro modorrento a causar-me desconforto.

─ Tem mais alguém acordado? Sabem que lugar é esse? – falei, dirigindo-me aos companheiros de destino incerto.

─ Eu acho que estamos no lixo. Agora calem-se, porque alguém se aproxima. – respondeu um objeto abaixo de mim.

Seguiram-se sons de sacos se abrindo e caixas sendo rasgadas. Um dos visitantes, considerei que seriam ao menos dois, assoviava um trecho de uma música desconhecida. Sim, só poderíamos estar no lixo, pois conforme andavam, o mau cheiro também era revirado.

─ Caramba! Quanta tralha! Só tem porcaria aqui, tô achando que é perda de tempo. Olha isso: livro, remédio, roupas rasgadas, roupas cortadas... Quem jogou não queria que ninguém pegasse. - O som de coisas quebrando denunciava a raiva por não encontrarem nada de valor, ou que lhes tivesse serventia.

─ É isso o que acontece com as coisas dos mortos amigo: vão para o lixo. Se eu fosse tua mulher, botava você no lixo. Lugar de tranqueira é no lixo mesmo. – riu da própria piada e completou antes que o amigo lhe respondesse com alguma ofensa:

─ Ei, olha só, eu achei um rádio. Eita, que é uma velharia! Será que funciona essa merda? Se não funcionar, vendo as peças e já tô no lucro.

─ Pode ser, mas vambora que eu tô com fome. – retrucou o outro.

Assim que se afastaram, teve início uma verdadeira balbúrdia entre os objetos que jaziam comigo no descarte.

─ Isso não é justo, eu ainda estou em boas condições. - gritou o livro de teologia me fazendo duvidar da sua religiosidade.

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─ Vamos balançar a caixa com força, todos juntos até virar, assim vão ver que as coisas de valor estão aqui. – sugeriu a chave de fenda enferrujada, que fora enrolada em um lençol.

─ Pra quê minha senhora? Sairemos andando? É isso o que sugere? – estamos velhos e sem uso já há algum tempo. Quem estava em boas condições foi destruído antes de ser colocado aqui. Não percebe que nem pra doação nós servimos? – retrucou um disco quebrado.

A essa altura da discussão, a camisa estava em prantos, derramando linhas por todos os lados, enquanto o livro de marcenaria se desesperava com a falta de suas folhas iniciais.

─ Quem fez isso estava com raiva. Não se rasga um livro, isso é absolutamente revoltante. – completou o livro de teologia.

Arlindo, meu dono, provavelmente morrera. Eu não tinha mais dúvidas. O burburinho de meus companheiros me cansava, então preferi o silêncio; afinal, eu era o mais velho daquela caixa. Era hora de fechar os olhos, ficar quieto e aceitar meu fim. Me calei, e me abstraí de mim mesmo escutando a chuva que batucava o exterior de nossa caixa.

Meu humano costumava passar muito tempo calado, comigo nas mãos, pensando em sabe-se lá o quê, apenas me observava. Ele me mantivera por hábito e não por necessidade; talvez até por afeto, pois eu, já não exercia minha função há bom tempo. Além de ser objeto de contemplação para Arlindo, eu também servira de brinquedo para sua neta, a menina Clara, que tinha o talento de lhe reacender o olhar.

─ Clara, devolve pro vovô. Se você derrubar, vai quebrar, cuidado. – falava mesmo sabendo que eu era um caso perdido. Para mim, não havia mais conserto.

Era isso, Arlindo morrera e eu morreria também, ponto final. Preferi manter-me alheio àquela conversação inútil.

─ Talvez ainda tenhamos uma chance. Tem muita gente precisando de algo útil. – arguiu uma luminária antiga.

─ Depende do que você chama de útil. – completou o martelo sem cabo.

─ Deixa de soberba e verá, sou um bom livro, edição caprichada. Logo estarei servindo a olhos inteligentes.

─ Fiquem quietos e ouçam, está chegando alguém... Com passos pequenos, se for criança, não se interessará por nenhum de nós. – interrompeu a chave de fenda.

Era Clara, a neta de Arlindo. A menina passou um bom tempo abrindo e fechando caixas. Vasculhou uma por uma, até que abriu a nossa. Retirou objeto por objeto, mantendo em uma das mãos uma revista da igreja que o avô frequentava, enquanto a outra penetrava no desconhecido. Senti quando fui levado para fora e recostado ao seu peito.

─ Clarinha, Clarinha! O que está fazendo minha filha? Porque tá revirando o lixo? – gritou sua mãe do outro lado da rua.

─ Mamãe, são as coisas do vovô. Eu preciso pegar tudo de volta.

─ Filha, foi sua avó quem jogou tudo isso fora. Ela não vai ficar feliz se souber o que você tá fazendo... E eu, também não quero essas coisas lá em casa.

─ Mas, mãe... por que a vovó colocou as coisas do vovô no lixo?

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─ Bem, sua avó e seu avô... Não se davam nada bem. Mas, esse é o tipo de coisa que você só vai entender quando ficar mais velha. Agora vem, larga essas coisas aí, que não quero irritar a sua avó. – falou a mãe encerrando o assunto.

A menina havia chafurdado no que restara do avô. Aquelas coisas tinham enorme valor para ela; mesmo assim, antecipando um embate inútil, obedeceu. Não sem antes esconder-me em seu bolso. Devolveu as revistas para a caixa e fechou-a com cuidado, despedindo-se não apenas de coisas, mas de uma pessoa que lhe faria muita falta.

─ Adeus vovô – disse em voz alta, sem entender a lógica dos adultos.

Por muito tempo fui seu segredo e dos meus companheiros de caixa, nada mais eu soube.

Passei muito tempo escondido entre livros, roupas, fotos e coisas importantes, até a menina se sentir segura para assumir ter me tirado do lixo.  Quando saí da clandestinidade, fui polido e ganhei uma corrente nova. Nunca mais andei em um bolso, pois esse era um costume de Arlindo. Fui contemplado com um relicário e hoje resido sobre o piano de Clara, de onde a vi crescer e se tornar moça. Vi sua formatura, a vi se casar, assisti a muitos outros momentos importantes, felizes ou nem tanto.

Ela nunca mandou me consertar, porque eu sou uma extensão de seu avô, e ter-me por perto lhe basta. Dele, herdou o hábito de me contemplar longamente, pensando em sabe-se lá o quê. Tal avô, tal neta.

O tempo ensina, e de tempo eu entendo, mesmo que meus ponteiros aposentados mostrem o passar das horas de uma forma diferente. Um dia, Clara também não aparecerá mais e, quem sabe, talvez um dia ela tenha uma neta, e essa me guarde, e aprenda a admirar esse velho relógio que registra em silêncio a caminhada de gerações.

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Arquivo pessoal da autora

Sandra A. Santos é pedagoga com especialização em Educação Ambiental, ambientalista apaixonada pela natureza e pela vida em todas as suas formas. Hoje aposentada, dedica-se à literatura, escrevendo contos, romances e poesias que giram em torno do universo feminino. Com trabalhos publicados em antologias no Brasil e na Argentina.

6 comentários:

  1. Que conto lindo e sensível Sandra! Um texto permeado de significados e significantes. Dá vontade de ficar presa nele, pois lembrei do chapéu guardado do meu avô e do antigo relógio que meu esposo exibe na parede como troféu dos tempos de labor do seu pai. 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

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  2. Que bom que te tocou. Esse conto foi inspirado no relógio do meu avô...

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  3. Que conto lindo e emocionante! Parabéns pelas palavras, Sandra! ❤️

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  4. Os Contos da Sandra são meus preferidos!! São de uma sensibilidade ímpar! Meu coração transborda sempre e quantas vezes eu os leio... gratidão 🫶🏻

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    1. Fico muito feliz com suas palavras. Obrigada!

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