A ESCRITA DAS MULHERES E A REINVENÇÃO DA LOUCURA: DE STELLA DO PATROCÍNIO ÀS AUTORAS CONTEMPORÂNEAS
Por Heliene Rosa
Ser mulher não tem sido tarefa fácil nos dias atuais. De qualquer modo, nós mulheres, sabemos que, principalmente no Brasil, isso nunca foi usual. A sabedoria oriental milenar nos estimula a evitar extremismos, optando, sempre que possível, pelo caminho do meio. Em contrapartida, o respaldo científico para esse debate encaminha a diversos estudos que evidenciam a utilização das instituições de saúde mental para exercer controle social e patriarcal sobre o universo feminino.
Historicamente, o monitoramento estratégico do comportamento e a tendência à patologização do corpo e da mente feminina já provocaram dores e tragédias, isolando mulheres e desestabilizando inúmeras famílias. Compreender essas dinâmicas permite lançar um olhar perscrutador sob densa névoa: estratégias envolvendo cuidados com a saúde física e mental sempre mascararam projetos de dominação e de controle social.
2. Exílio e silenciamento: o caso Stella do Patrocínio
Isso remete ao artigo da edição de fevereiro da Revista Voo Livre, em que citamos a internação involuntária da poeta Stella do Patrocínio, no Rio de Janeiro. Mais um caso de exílio: uma mulher negra, cuja voz era incompreensível no contexto institucional da época. Não se pode desconsiderar também o momento político e social desse acontecimento, quando o emprego maciço de práticas eugenistas de higienização dos espaços sagrados tratava corpos negros como indesejáveis na arquitetura central das cidades.
Há relatos de que as constantes mudanças de localidade, no início do tratamento manicomial, impossibilitaram o acompanhamento familiar. Assim, Stella permaneceu reclusa nessas instituições até seu falecimento, quarenta anos depois.
Nesse contexto, a literatura nos instiga a questionar sobre os tratamentos de saúde mental como práticas de silenciamento e de coerção, principalmente das mulheres. Alegoricamente, Machado de Assis, o imortal crítico da sociedade e das instituições, trata desse tema na obra “O Alienista”. Também a literatura acadêmica nos adverte a respeito do que ainda precisamos compreender sobre esses mecanismos históricos de dominação. O livro-tese da historiadora Yonissa Wadi “História de Pierina: subjetividade, crime e loucura” é bastante elucidativo: no início do século XX, a trajetória de uma mulher e suas cartas são julgados a partir de uma ótica exclusivamente masculina, metódica e patriarcal.
Nesse relato, a partir de uma pequena comunidade do sul do país, a internação manicomial de Pierina desencadeou a adequação de seu comportamento à lógica da subserviência: afinal silenciada e submissa ao papel tradicional de esposa e de mãe, nos moldes sociais e econômicos requeridos por sua comunidade de imigrantes italianos. A sistematicidade dos métodos científico e jurídico, aliada à rigidez das estruturas patriarcais não permitiu que fossem, sequer, ouvidas as queixas da mulher. Percebe-se que, ao final de dois anos de tratamento psiquiátrico, Pierina cansou-se de tentar se fazer ouvir. Isso foi suficiente para que obtivesse alta e fosse encaminhada, mesmo contra a própria vontade, às funções modelares de mãe e de esposa, em sua pequena cidade, no Rio Grande do Sul.
4. A urgência de racializar o debate na saúde pública
Entretanto, apesar desse reconhecimento, a violência de gênero contra as mulheres não tem sido tratada, de modo explícito, como um fator de risco para a saúde mental. Entendemos, portanto, que é urgente implementar, nos serviços de saúde, intervenções mais eficazes para o acolhimento e o cuidado das mulheres que são, cotidianamente, vitimadas pelas inúmeras violências de gênero.
Nesse contexto, o Plano Nacional de Políticas para as Mulheres (III PNPM), realizado em 2013, enfatizou a transversalidade e o investimento na saúde integral, como possibilidades de transformação desses espaços cristalizados de dominação e de invisibilização da figura feminina no aparato estatal. A conferência abordou também a violência e a saúde mental. Por outro lado, estudos acadêmicos e clínicos de problemas psicológicos e psiquiátricos que afligem pessoas negras, no Brasil, ainda enfrentam silenciamento histórico, embora haja obras pioneiras e fundamentais que se tornaram referências no tema.
A respeito desse tema, a literatura negro-brasileira contribui, dando destaque a intelectuais como Lélia Gonzales, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro, Sueli Carneiro, Cida Bento, Jarid Arraes, Miriam Alves, Geni Guimarães, Elisa Lucinda, entre outras. A produção autoral dessas mulheres fornece base teórica e conceitual para que se investigue o racismo como elemento fulcral na saúde mental dos indivíduos.
De modo semelhante, o reconhecido psiquiatra e pensador caribenho Frantz Fanon analisou o sofrimento mental e concluiu que a opressão colonial e o racismo desencadeiam despersonalização e impõem um sentimento de suposta inferioridade que impacta, grandemente e de forma negativa, a saúde mental da população afrodescendente.
Há também diversos braços do Movimento Negro, como a Articulação Nacional de Psicólogas/os Negras/os e Pesquisadoras/es (ANPSINEP), que vem consolidando, através de pesquisas e congressos, uma produção teórica contínua que une psicologia, saúde coletiva e racialização das relações. Trabalhos dessa natureza atualizam o debate sobre os desdobramentos do racismo estrutural no cotidiano social, mais especificamente, da população negra, com impactos inquestionáveis sobre a vida das mulheres.
No campo literário, Conceição Evaristo, premiada intelectual, produziu obras de reconhecido valor para o arcabouço da literatura brasileira contemporânea. Ela é, hoje, uma das escritoras negras mais prestigiadas no contexto da produção escrita das mulheres. Entre seus livros mais lidos e comentados, figura o romance Ponciá Vicêncio, cuja trama resgata o sofrimento psíquico, no seio familiar, decorrente do racismo estrutural e da herança colonial.
Nessa obra, a saúde mental da protagonista aparece ancorada em condicionamentos históricos que legaram às famílias afro-brasileiras: rigorosos desafios sociais e econômicos, preconceito e rejeição histórica. Assim, Ponciá é afetada por uma série de violências simbólicas e físicas que refletem a realidade da maioria das mulheres negras no Brasil.
6. A palavra como cura: literatura e resistência na contemporaneidade
Nessa conjuntura, a literatura vem se estabelecendo, cada vez mais, como palco da resistência feminina. De um ponto a outro do país, encontramos autoras produzindo cura a partir da palavra poética e da ficcionalização. Assim, de um rico mosaico de intelectuais, destacamos o trabalho da escritora e psicoterapeuta nipo-brasileira Patrícia Gondo de Goes, imortal da ALBSC (Academia de Letras do Brasil de Santa Catarina), seccional Joinville, que vem escrevendo sob a égide da saúde mental e emocional. Ela, que morou no Japão por 25 anos e é tradutora do idioma japonês, desenvolveu abordagem holística acerca da psique feminina, a partir de suas vivências, da psicoterapia e de terapias integrativas .
Além de atuar no campo da saúde, das Letras e das artes, Patrícia desenvolve, paralelamente, um trabalho profícuo e comprometido, voltado para os direitos das mulheres, na cidade de Joinville, com reflexos intensos no conjunto de sua obra, que conta com um livro publicado e outro no prelo.
Das Minas Gerais, destacamos a psicóloga clínica e poeta Stella Maris Souza Marques, que é doutora em Psicologia, suas atividades profissionais incluem oficinas de Teatro do Oprimido, meditações guiadas e palestras para estudantes em escolas públicas. A autora publicou a trilogia Além do que Parece: “Parecia Amor”; “Parecia Viagem” e “Parecia Dom". O foco da sua escrita inclui promover reflexões sobre relacionamentos tóxicos e outras formas de violências, inclusive, as mais sutis.
A autora discute o luto coletivo, as altas habilidades, a inclusão e a sanidade mental, principalmente, entre adolescentes e adultos jovens.
7. Considerações finais
Em suma, seguimos resistindo e contornando as mazelas do pensamento androcêntrico e do antifeminismo que, infelizmente, ainda dita o tom de muitos dos discursos que nos atravessam. Porém, é incontestável que compreender e tratar a saúde mental envolve abordar o ser em sua complexidade inerente. Isso envolve considerar diversos fatores, como os históricos e os sociais e, - não se pode negar, - a necessidade de racializar o debate. Desse modo, promovemos rupturas com práticas institucionais e com discursos legitimadores de silenciamento e de jugo sobre as subjetividades femininas.
As narrativas que emergem da literatura, da pesquisa e do trabalho de escritoras, demais artistas e profissionais contemporâneas são reveladoras do poder da palavra. Essa incrível potência que, devidamente manejada, torna-se mecanismo de resistência e de cura. Assim, nosso artigo dá relevo à voz de mulheres que são capazes de transformar dor em reflexão e experiência em conhecimento. Afinal, ao revisitar o passado e questionar antigas certezas, escritoras, pesquisadoras e profissionais da saúde reafirmam que a escuta sensível pode ampliar a compreensão acerca da saúde mental e romper com estruturas históricas de opressão.
Ademais, reconhecer a violência de gênero e o racismo estrutural como elementos intrínsecos a esse debate é indispensável para desenvolver práticas de cuidado eficazes, éticas e inclusivas. Nesse aspecto, a literatura, tanto como fonte quanto como produto, nos fortalece e nos convoca a envidar esforços em prol do nosso direito à saúde, ao cuidado e ao respeito, em âmbito privado e institucional. Sigamos juntas…
8. Referências para esse artigo
ASSIS, Machado de. O Alienista. MonteCristo Editora, 2023.
BRASIL, Secretaria de Políticas Para Mulheres: II Plano Nacional de Políticas para Mulheres. Brasília, 2008. Disponível em: https://www.gov.br/mulheres/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/arquivo2IIPNPM (Acesso em fevereiro de 2026).
COSTA, Heliene Rosa da. Poéticas da resistência: o legado de Stella do Patrocínio e a luta antimanicomial contemporânea no Brasil. Revista Voo Livre, Ano 6, número 64, Fevereiro de 2026, pp:26-28. Disponível em: https://revistavoolivre.com.br/revista-voo-livre-ano-6-no-64-fevereiro-de-2026/ (Acesso em fevereiro de 2026).
EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2003.
FANON, Frantz. Alienação e liberdade: escritos psiquiátricos. São Paulo: UBU Editora, 2020.
GOES, Patrícia Gondo. Ancestralidade Eu, Descendência. Joinville/SC: Clube de Autores, 2023.
MARQUES, Stella Maris de Souza, Parecia Amor. Uberlândia/MG: Editora Subsolo, 2024.
MARQUES, Stella Maris de Souza. Parecia Viagem. Uberlândia/MG:Editora Subsolo, 2024.
MARQUES, Stella Maris de Souza. Parecia Dom. Uberlândia/MG: Editora Subsolo, 2024.
Stella do Patrocínio. Museu Bispo de Rosário: Arte Contemporânea. Disponível em:
https://museubispodorosario.com/stella-do-patrocinio-memorias/ (Acesso em fevereiro de 2026).
WADI, Yonissa Marmit. A história de Pierina: subjetividade, crime e loucura. Uberlândia: EDUFU, 2009.
♡__________________◇________________♤________________♧__________________♡
![]() |
| Arquivo pessoal |
Heliene Rosa, natural de Patos de Minas, Minas Gerais, é uma escritora, professora e pesquisadora dedicada às poéticas femininas. Mestre em Linguística e doutora em Estudos Literários pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Heliene é uma voz ativa na militância pelas causas das mulheres e da negritude. Articulista no Blog Feminário Conexões e integrante de diversos coletivos femininos, fundou, em 2016, o GELIPLIT (Grupo de Estudos em Língua Portuguesa e Literaturas), com o propósito de promover a formação continuada de professores de Língua Portuguesa e Literatura.
Com uma carreira marcada pela coordenação de projetos literários e pedagógicos, Heliene foi premiada no Oitavo Concurso Nacional pela Igualdade de Gêneros com uma sequência didática voltada à escrita, envolvendo estudantes do Ensino Básico. É coautora em diversas coletâneas nacionais e internacionais e organizadora de antologias literárias e acadêmicas. Em sua produção autoral, destaca-se com os livros Enquanto as hortênsias florescem (2023) e Literatura é território: poéticas femininas indígenas em movimento (2024).




👏🏻👏🏻👏🏻
ResponderExcluirExcelente artigo!👏🏽👏🏽👏🏽
ResponderExcluir