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Cinco de outubro de 2026. Dia de ressaca, de cuidar das unhas roídas até o sangue, de buscar o silêncio interno necessário para escapar do desespero. O problema não foram as tantas derrotas dos candidatos de esquerda nas eleições — até porque ainda temos o segundo turno para presidente —, mas a constatação de que o nosso “corpo país” já está tomado por uma onda de extrema-direita numa metástase sem volta. O problema é o Brasil? Não, é o mundo.
Ano que vem, eu completo seis décadas de vida. Cresci na ditadura militar; vesti amarelo pelas “Diretas Já”; vi a Constituição de 1988, uma das mais completas e bonitas do mundo, ser discutida, planejada e adotada; vi o operário nordestino virar presidente; vi as mulheres conquistando voz, chegando ao poder; vi as primeiras lideranças indígenas participarem da política na defesa de seus povos; vi as primeiras Paradas LGBT legitimarem a existência de pessoas que sempre se envergonharam de existir. Por anos imaginei ser impossível voltarmos a ver coisas absurdas como as crueldades raciais, religiosas e de gênero, que marcaram um passado vergonhoso da humanidade. Acho que me enganei.
Nessas décadas, também vi o avanço tecnológico acelerar a interação digital, mudar completamente as regras da comunicação e acabar com os compromissos éticos com a busca da verdade. Vi o movimento evangélico pentecostal se transformar em uma indústria internacional, inclusive com o uso dos recursos tecnológicos da comunicação — primeiro comprando inúmeras redes de rádio e televisão, depois expandindo os domínios mundiais com a internet. Pastores ganharam um poder absurdo de manipular mentes e corações, bloqueando qualquer possibilidade de reflexão ou contestação fora dos seus domínios. Outras Igrejas já fizeram isso, é verdade, e o resultado nunca foi bom; basta lembrar a violência com que a liderança católica se impôs na Contrarreforma, perseguindo e matando os “pecadores”. A liberdade de crença (inclusive da “não crença”), prevista na Constituição, corre perigo.
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Alguém pode achar que estou sendo radical, que nem todo homem é assim e que a sociedade mudou, progrediu. Sim, mudou. Mas opondo-se ao progressismo veio outra tendência, “comendo pelas beiradas”: esse retrocesso denominado conservadorismo. Já reparou como esse viés político se identifica com símbolos do machismo? É o famoso jogador de futebol, os cantores do sertanejo, o ambiente dos rodeios, os donos de carrões (ou de motos e jet-skis...), dos jogos de azar, da ostentação, das festas com bebidas e garotas de programa, das armas... tudo que é ambiente de “macho”. É o mundo dos “imbrocháveis”, o verdadeiro “mundo de Marlboro” (para quem é das antigas e se lembra dessa propaganda de cigarro).
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Como seria a reação de um típico “machão”? É só olhar para a principal causa do feminicídio no país: homens que não aceitam ser rejeitados pelas mulheres (consideradas por eles como suas propriedades). O pensamento é sempre o mesmo: “se não vai ficar comigo, não vai ficar com mais ninguém”. É na brutalidade que esse tipo de homem se impõe dentro da “sua” família — no sentido de posse, mesmo. É o homem que fala alto, que decide, que dirige. A mulher deve calar, obedecer, seguir e servir. E, para isso, eles manipulam inclusive o discurso religioso que, aliás, também é muito machista.
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Neste ano, com o apoio de Trump, a extrema-direita já estava pronta para rejeitar o resultado da eleição, caso Lula ganhasse. Como isso não aconteceu, a guerra foi adiada, afinal ainda estão se esbaldando com a enxurrada de votos que conquistaram no primeiro turno. Ainda respiramos alguma esperança democrática, mas o diagnóstico não é bom. Nada bom.
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