A R E V O L T A N O D E S C A R T E
POR SANDRA SAN'TOS
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─ Tem
mais alguém acordado? Sabem que lugar é esse? – falei, dirigindo-me aos
companheiros de destino incerto.
─ Eu
acho que estamos no lixo. Agora calem-se, porque alguém se aproxima. – respondeu
um objeto abaixo de mim.
Seguiram-se
sons de sacos se abrindo e caixas sendo rasgadas. Um dos visitantes, considerei
que seriam ao menos dois, assoviava um trecho de uma música desconhecida. Sim,
só poderíamos estar no lixo, pois conforme andavam, o mau cheiro também era
revirado.
─ Caramba! Quanta tralha! Só tem porcaria aqui, tô achando que é perda de tempo.
Olha isso: livro, remédio, roupas rasgadas, roupas cortadas... Quem jogou não
queria que ninguém pegasse. - O som de coisas quebrando denunciava a raiva por
não encontrarem nada de valor, ou que lhes tivesse serventia.
─ É
isso o que acontece com as coisas dos mortos amigo: vão para o lixo. Se eu
fosse tua mulher, botava você no lixo. Lugar de tranqueira é no lixo mesmo. –
riu da própria piada e completou antes que o amigo lhe respondesse com alguma
ofensa:
─ Ei, olha
só, eu achei um rádio. Eita, que é uma velharia! Será que funciona essa merda? Se
não funcionar, vendo as peças e já tô no lucro.
─ Pode
ser, mas vambora que eu tô com fome. – retrucou o outro.
Assim
que se afastaram, teve início uma verdadeira balbúrdia entre os objetos que jaziam comigo no descarte.
─ Isso
não é justo, eu ainda estou em boas condições. - gritou o livro de teologia me
fazendo duvidar da sua religiosidade.
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─ Pra quê
minha senhora? Sairemos andando? É isso o que sugere? – estamos velhos e sem
uso já há algum tempo. Quem estava em boas condições foi destruído antes de ser
colocado aqui. Não percebe que nem pra doação nós servimos? – retrucou um disco
quebrado.
A essa
altura da discussão, a camisa estava em prantos, derramando linhas por todos os
lados, enquanto o livro de marcenaria se desesperava com a falta de suas folhas
iniciais.
─ Quem
fez isso estava com raiva. Não se rasga um livro, isso é absolutamente
revoltante. – completou o livro de teologia.
Arlindo,
meu dono, provavelmente morrera. Eu não tinha mais dúvidas. O burburinho de
meus companheiros me cansava, então preferi o silêncio; afinal, eu era o mais
velho daquela caixa. Era hora de fechar os olhos, ficar quieto e aceitar meu
fim. Me calei, e me abstraí de mim mesmo escutando a chuva que batucava o
exterior de nossa caixa.
Meu
humano costumava passar muito tempo calado, comigo nas mãos, pensando em
sabe-se lá o quê, apenas me observava. Ele me mantivera por hábito e não por
necessidade; talvez até por afeto, pois eu, já não exercia minha função há bom
tempo. Além de ser objeto de contemplação para Arlindo, eu também servira de brinquedo
para sua neta, a menina Clara, que tinha o talento de lhe reacender o olhar.
─ Clara,
devolve pro vovô. Se você derrubar, vai quebrar, cuidado. – falava mesmo
sabendo que eu era um caso perdido. Para mim, não havia mais conserto.
Era
isso, Arlindo morrera e eu morreria também, ponto final. Preferi manter-me
alheio àquela conversação inútil.
─ Talvez
ainda tenhamos uma chance. Tem muita gente precisando de algo útil. – arguiu uma
luminária antiga.
─ Depende do que você chama de útil. – completou o martelo sem cabo.
─ Deixa
de soberba e verá, sou um bom livro, edição caprichada. Logo estarei servindo a
olhos inteligentes.
─ Fiquem
quietos e ouçam, está chegando alguém... Com passos pequenos, se for criança,
não se interessará por nenhum de nós. – interrompeu a chave de fenda.
Era Clara,
a neta de Arlindo. A menina passou um bom tempo abrindo e fechando caixas. Vasculhou
uma por uma, até que abriu a nossa. Retirou objeto por objeto, mantendo em uma
das mãos uma revista da igreja que o avô frequentava, enquanto a outra penetrava
no desconhecido. Senti quando fui levado para fora e recostado ao seu peito.
─ Clarinha, Clarinha! O que está fazendo minha filha? Porque tá revirando o lixo?
– gritou sua mãe do outro lado da rua.
─ Mamãe, são as coisas do vovô. Eu preciso pegar tudo de volta.
─ Filha, foi sua avó quem jogou tudo isso fora. Ela não vai ficar feliz se souber
o que você tá fazendo... E eu, também não quero essas coisas lá em casa.
─ Mas,
mãe... por que a vovó colocou as coisas do vovô no lixo?
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A
menina havia chafurdado no que restara do avô. Aquelas coisas tinham enorme valor
para ela; mesmo assim, antecipando um embate inútil, obedeceu. Não sem antes
esconder-me em seu bolso. Devolveu as revistas para a caixa e fechou-a com
cuidado, despedindo-se não apenas de coisas, mas de uma pessoa que lhe faria
muita falta.
─ Adeus vovô – disse em voz alta, sem entender a lógica dos adultos.
Por
muito tempo fui seu segredo e dos meus companheiros de caixa, nada mais eu
soube.
Passei
muito tempo escondido entre livros, roupas, fotos e coisas importantes, até a
menina se sentir segura para assumir ter me tirado do lixo. Quando saí da clandestinidade, fui polido e ganhei
uma corrente nova. Nunca mais andei em um bolso, pois esse era um costume de
Arlindo. Fui contemplado com um relicário e hoje resido sobre o piano de Clara,
de onde a vi crescer e se tornar moça. Vi sua formatura, a vi se casar, assisti
a muitos outros momentos importantes, felizes ou nem tanto.
Ela
nunca mandou me consertar, porque eu sou uma extensão de seu avô, e ter-me por
perto lhe basta. Dele, herdou o hábito de me contemplar longamente, pensando em
sabe-se lá o quê. Tal avô, tal neta.
O
tempo ensina, e de tempo eu entendo, mesmo que meus ponteiros aposentados mostrem
o passar das horas de uma forma diferente. Um dia, Clara também não aparecerá
mais e, quem sabe, talvez um dia ela tenha uma neta, e essa me guarde, e
aprenda a admirar esse velho relógio que registra em silêncio a caminhada de
gerações.
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| Arquivo pessoal da autora |
Sandra A. Santos é pedagoga com especialização em Educação Ambiental, ambientalista apaixonada pela natureza e pela vida em todas as suas formas. Hoje aposentada, dedica-se à literatura, escrevendo contos, romances e poesias que giram em torno do universo feminino. Com trabalhos publicados em antologias no Brasil e na Argentina.



