quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

REMINISCÊNCIAS INFANTO-JUVENIS, POR MARIA DO CARMO SILVA

 "No fim da tarde quando tudo se aquietava..."

Por Maria do Carmo Silva

Imagem Pinterest
"Das muitas coisas do meu tempo de criança, guardo vivo na lembrança...” são versos de Pe. Zezinho-SCJ, escritor e músico, da canção Utopia (1990), que me trazem as memórias testemunhadas e vivenciadas na minha infância cujos pilares eram os valores humanos, as relações familiares e escolares, o convívio afetivo com os vizinhos e o lazer.

Pedir a bênção aos pais, padrinhos, avós, tios e às pessoas mais velhas, independente de ter vínculo familiar, era uma prática cotidiana respeitosa e afetuosa que ultrapassava o período da infância, estendendo-se aos jovens e até aos adultos já casados, que com reverência estendia a mão direita pedindo a bênção. “A bença a Dona Maria, a bença a Seu José",  sendo a bênção ofertada de forma calorosa com um “Deus te abençoe, Deus te dê uma boa sorte, Deus te faça feliz".

No ambiente doméstico, o respeito e a obediência aos mais velhos era regra geral: os filhos mais velhos ajudavam os pais no cuidado com os irmãos mais novos - ressaltando que normalmente a prole era extensa -, auxiliavam a mãe nas tarefas domésticas e em outras atividades no campo, tudo sob o olhar dos mais velhos que já gerava intimidação e um alerta para a obediência.

“No fim da tarde quando tudo se aquietava...” - ainda soa a canção de Pe. Zezinho. Ao final da tarde, todos se reuniam, sentados no banco de madeira, normalmente da cozinha, ao redor do fogão a lenha, para ouvir as histórias e causos contados pelos mais velhos. O candeeiro iluminava o ambiente e o calor das brasas do fogão aquecia a prosa. À noite, era comum os pais contarem histórias para os filhos. As crianças ouviam, em silêncio, as lendas do lobisomem e de outros seres estranhos, ficavam apavoradas sem reagir e nem interagir. 

Imagem Pinterest
Na cidade ou no campo a diversão das crianças ficava por conta das brincadeiras no terreiro, onde cantavam roda, pulavam corda, jogavam gude, baleado, amarelinha, brincavam de esconde-esconde, faziam piquenique, dentre tantas outras brincadeiras e, ao primeiro chamado do pai ou da mãe, retornavam para casa sem pestanejar. A vida fluía com alegria, simplicidade, serenidade e respeito.

À época, a tecnologia nem sonhava existir e os brinquedos eram artesanais, feitos pelas próprias crianças ou pelos pais com materiais reaproveitados ou retirados da natureza: cavalo de pau, panelas de barro, bonecas de pano, bolas de meia com enchimento de papel, carrinhos feitos com vasilhame de oléo ou de manteiga e com rodas feitas com borracha de sandálias.

A Escola era o “lugar do aprender”. Sentados em bancos de madeira, com olhar fixo no professor, no ABC e na cartilha, todos cumpriam suas tarefas e mantinham obediência ao professor da mesma forma que ao seus pais e aos mais velhos, tratando-o com o devido respeito, pois se lhes faltasse com ele,  seria severamente punido.

Na contemporaneidade, os valores humanos e as relações familiares estão quase que descartados, causando sérias e drásticas consequências à sociedade como um todo. A escola é para muitos, apenas um lugar de encontro com colegas, um lugar de distração. Reconhecê-la como espaço de produção e de aquisição do conhecimento não é regra geral.  Pedir a bênção aos mais velhos saiu de moda. A tecnologia trouxe brinquedos eletrônicos, bonecos que simulam seres humanos, ridicularizando-o com o desrespeito, a violência, a pornografia. A prosa e as brincadeiras com colegas, familiares e amigos foi substituída pela “comunicação virtual”, via redes sociais, espaço de “liberdade” e de “permissividade”.

O respeito, a solidariedade, a fraternidade e a humanização foram substituídos pela robotização dos humanos. Quais lições, histórias e memórias das crianças e jovens da sociedade contemporânea transmitiremos à posteridade?

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Maria do Carmo Silva -  Natural de Mutuípe-BA; Professora, poeta e escritora. Licenciada em Geografia, graduada em História; Especialista em Gestão e Educação Ambiental, Estudos linguísticos e literários e Comunicação, Cultura Organizacional e Tecnologia. Autora dos livros de poesias: "Retalhos de Vivências", "Recomendações Poéticas", "Leituras e Releituras", "Colheitas Ancestrais & Primaveras". Tem participação em diversas Antologias Poéticas nacionais e internacionais. Colunista no site de notícias Tribuna do Recôncavo e colaboradora do blog Feminário Conexões. Integrante dos Coletivos Mulherio das Letras e Enluaradas.

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